memória

Mãe, matéria e memória

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Em 1896, o filósofo Henri Bergson publicou um livro chamado “Matéria e Memória”. No ensaio, Bergson discute a relação corpo-espírito. Ele diz que essa relação é mediada pela memória, que considera algo profundamente espiritual.
Afirma o filósofo francês que existem dois tipos de memória a nos constituir: a memória-hábito e memória-lembrança. A memória-hábito replica o passado e o repete. Não é reconhecida como passado. É automática. Está inscrita no corpo por práticas cotidianas e tem fim utilitário. Como se portar à mesa, por exemplo, é uma memória-hábito. A memória-lembrança ou memória pura, por outro lado, regista o passado sob a forma “lembrança-imagem”. Representa o passado e o passado é reconhecido como passado. É da ordem contemplativa e teórica, gratuita e profundamente espiritual. É a verdadeira memória.
Trago a obra de Bergson para falar das mães. Mães são memórias puras. Mães são memórias-lembranças. Mães são pontes entre os nossos corpos – desde o empréstimo do seu – e os nossos espíritos. É lembrando das mães que o passado se presentifica e o presente se passadifica. Porque as mães estão atravessadas na nossa existência, no nosso corpo e na nossa alma.
Por ser o liame, a ligação entre o corpo e a alma, a mãe tem um lugar fundamental na constituição daquilo que somos. Não é à toa que a teoria da Psicanálise guarda um lugar crucial para a figura materna na construção do eu. A importância da mãe – por sua presença ou sua falta – na elaboração de nossa estrutura egóica é quase um dogma nas diversas teorias do desenvolvimento. Por isso que quando há excesso de mãe ou vazio de mãe a gente desequilibra e corre para a terapia. Ou deveria. Reflexões teóricas.
Filosofias e teorias à parte, mãe é mãe. Há mãe que é mãe. Há pai que é mãe. Há vó que é mãe. Há vô que é mãe. Porque mãe não é gênero, mas um lugar simbólico. Uma identidade pressuposta que primeiro acolhe, depois cuida, depois aninha, depois pede cuidado e, por fim, cumprindo o ciclo da vida, se vai.
A memória-lembrança da mãe começa no acolhimento. Não há lugar melhor no mundo do que aquelas quarenta semanas na barriga da mãe. Assim como mãe é um lugar simbólico que pode ser ocupado por pais, tios, avós etc, a barriga da mãe não precisa necessariamente ser a barriga da mãe biológica. A barriga da mãe às vezes está fora do corpo físico. O acolhimento começa na tomada nos braços de um filho concebido por outras pessoas como se seu biologicamente o fosse. “Adotar” vem do latim “adoptare”, ad+optare, ou seja, optar por ficar junto. É uma escolha consciente de querer ficar junto daquele bebê que, em princípio, não era parte sua. Adotar é encarnar nas suas uma carne externa. A mãe se faz encarnada e, ao se fazer, pare o filho que não gerou. Por pura opção. Isso é tão forte e tão lindo. Digno de mães.
Se pouco nos fica de memória-lembrança do acolhimento, seja biológico ou encarnado, muito nos toca as memórias o tempo do cuidado. É aqui que o espírito dança terno ao lembrar da mãe acarinhando nosso rosto, cantando para a gente dormir. É esse o tempo de construir nosso playlist particular da novela de nossa vida. A minha mãe nos fazia dormir no embalo da rede da casa sem forro cantando “Pica-pau atrevido que do pau fez um tambor” ou “Alecrim dourado”. Talvez essas escolhas tenham a ver com o atrevimento da minha irmã mais velha ou com a certeza que nós lá de casa temos de que sempre, em qualquer lugar, pode ser tempo de alecrim com seu cheiro bom, com sua doçura levadas pelas abelhas para fazer o doce mel dourado. Sem dúvida que nessas escolhas, nesses cuidados, as marcas da memória-lembrança são cravadas no corpo.
O tempo vai passando. A gente vai crescendo. Vem o tempo de ir cuidar da vida. Mães e filhos vivem um luto duplo, o luto necessário para que nos façamos gente. A mãe deixa de tomar conta e de decidir pelos filhos. Saímos de casa e passamos a ser responsáveis por nós e logo por outros. Tempos agridoces, de fato. Amargos porque saímos de perto daquela que nos cuidava – e é preciso dizer aqui que as mães têm formas diferentes de cuidar, umas muito estranhas até. E doces porque, afinal, a vida para a qual ela nos preparou com mantos de carinho e proteção precisa ser vivida. Hora do vamos ver, da real. Vamos para nosso canto. Compramos nossa lata de leite condensado para chupar livres. Mas sempre “lá em casa” vai ser a casa da mãe. Sempre o bife de fígado – coloque aqui a comida que ela fazia porque você gostava – vai ter um sabor único. O feijão da minha vó põe na boca da minha mãe até hoje um gosto de amor inigualável. O feijão da minha vó é o meu bife de fígado ou o seu não-sei-o-quê delicioso. Comida de mãe é memória viva. De lembrar enquanto escrevo eu salivo. Ao salivar, eu me vejo moleque comendo meu bife de fígado, sentado na mesa grande da cozinha da casa 20, uma mesa coberta com uma toalha de plástico branca com desenhos de legumes. E vejo minha mãe sentada na cadeira de macarrão, se embalando. Meu corpo respondendo ao meu espírito. Bergson estava certo.
Casa de mãe, melhor ninho. Colo de mãe, melhor lugar. Quarenta e sete anos no lombo e ainda corro vez por outra para deitar no colo da minha mãe. Meu conforto, minha paz. Ouvi-la dizer “Meu filho, vai dar tudo certo” na hora em que nada parece dar certo tem um poder pentecostal. Fecho os olhos, sinto o seu coração bater, volto ao seu ventre. Aconchego. É difícil quem está longe da mãe, geográfica ou afetivamente, e não tem esse lugar de reparação da alma. É complicado quem mora longe da mãe, às vezes habitando na quadra ao lado, e perde a chance de se reabastecer de gás carinhoso maternal para a vida. É doloroso quem já não a tem mais por perto. Porque mães envelhecem. E um dia se vão.
Ando lendo muito sobre a velhice. Talvez por estar me encaminhando para seu edifício. Mas muito por causa de meu pais. Eles envelheceram. E a velhice é um tempo de perda. Perda de trabalho, perda das capacidades, perda de saúde, perda de memória. Para Bergson, a perda da memória é somente desgaste do cérebro. Claro, se o cérebro não funciona a contento, isso acaba atingindo a memória-lembrança, que é o que mantém viva as pessoas. Parêntese: estou terminando de ler “Memória e sociedade: lembrança dos velhos”, da Ecléa Bosi. Que livro lindo! Reconstruir a memória social pela memória pessoal, de velhos que um dia foram jovens e construíram suas histórias. Fecha parêntese. Então, a mãe envelhece. E as coisas mudam de lugar.
É fundamental perceber quando a mãe pede cuidado. Como filhos, ocupamos nós agora o lugar simbólico de acolher, cuidar e aninhar. Somos nós que precisamos fazê-los sentir pertencer a nossas vidas para além da retórica. Somos nós que precisamos cuidar, levar no médico, sair juntos para tomar um café da tarde, fazer supermercado. Tem uma idade em que a mãe precisa de cuidado. Mesmo a contragosto – ninguém gosta de ver seus heróis falhando – as mães começam a falhar. E aí temos de segurar sua mão para atravessar a rua, temos de dar banho, temos de pentear seus cabelos, acarinhar seu rosto, cantar “Alecrim dourado” para ela dormir. É esse o tempo de cantar todo o nosso playlist particular da novela de nossa vida. É esse o tempo de acolher.
Elas se vão. Os corpos delas se vão. Não mais a colher de pau da parede. “Onde os doces da mãe?”, pergunta do poeta Aníbal Beça, chorando a ausência eterna da sua. Onde o cheiro único? Onde o abraço quente? Onde o beijo primeiro? Precisamos – porque é o que temos – aprender a amar nossa mãe de um jeito novo quando ela se vai. Carecemos de aprender a amá-la sem o estímulo de sua presença física. Desamar para reamar. Um reamor. É isso. Mas construir o reamor por perdas não é tarefa fácil. Desamar amor puro dói. Às vezes escorre sangue de tão doloroso. Meu carinho mais sincero para você que está em processo de reamor, que vai para o seu primeiro Dia das Mães sem a sua, com cada propaganda, postagem em rede social, cartaz, tudo, lembrando que ela não está mais ao alcance de um abraço. Pode chorar. Chore em homenagem à sua mãe. Deixa ela saber que ela faz falta.
Matéria, memória, lembranças, mãe. Tanta coisa junta. Se você chegou até aqui e leu o textão – um escândalo em tempos de posts curtos –, eu desejo a você e à sua mãe um Feliz Dia das Mães. Para ti também, mãe Helena. E para a mãe perfeita das minhas filhas, Fabiana. Ah, e aproveitem para resgatar as memórias-lembranças. Aproveitem para dar um abraço e um beijo se ainda a benção divina lhes permite tais coisas. Aproveitem para acolher, cuidar, aninhar. Porque um dia, queridos amigos, isso não vai ser mais possível. Aliás, será sim. De outra forma, talvez.
Dona Alice, uma das velhinhas entrevistadas por Ecléa Bosi para seu livro, diz que uma das coisas de que lembra com afeto é da época de sua primeira comunhão aos treze anos na Igreja de Santo Antonio, na Barra Funda, em São Paulo. Lá ela cantava:
Como minha mãe estarei na santa glória um dia.
Junto à Virgem Maria. No céu triunfarei.
No céu, no céu. Com minha mãe estarei…

O corpo é feito de memória. Bergson estava certo. Mães – de todo tipo – sempre vão para o céu.

 

Feliz Dia das Mães.

A escrita do tempo

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Marina pescando[Publicado originalmente no site Amazônia Real]

Meus pais nunca curtiram fotografia. Até porque era caro demais curtir fotografia nas décadas de 60 e 70. As poucas fotos que meus irmãos e eu temos quando crianças estão espalhadas pelos álbuns de meus tios, de onde volta e meia surrupio um par delas para escanear ou para incorporar descaradamente ao meu acervo. Talvez uma incursão no divã de um psicanalista aponte que nessa falta nasceu a minha crescente paixão pela escrita com a luz. As compensações inconscientes que nos moldam a vida: bate aqui, Freud.

Quando a minha mulher engravidou pela primeira vez, eu me dei de presente uma Nikon D50. Depois comprei uma D7000, mais potente, e umas lentes. Essas máquinas estão a anos-luz de distância da Olympus Trip, das Kodaks e das Love com flash descartáveis da década de 70. Mas como qualquer leigo não sabe, não basta ter o equipamento. Se você quiser irritar um amante da fotografia, elogie uma foto sua e pergunte que máquina consegue fazer uma foto tão bonita. É como perguntar a Machado de Assis qual foi a caneta tinteiro que ele usou para escrever Dom Casmurro. Por isso, eu estudo, leio, experimento. Estou aprendendo. Até penso que acho que estou me saindo bem para um lambe-lambe autodidata. Enfim, tudo isso para não ouvir, lá na frente, reclamação das minhas filhas sobre não ter tido a vida registrada. Bem, não sei se elas vão se ligar nisso tanto quanto eu. Os tempos mudam. Talvez mais do que eu.

Cada época tem seu espírito. É o zeitgeist que faz com que sintamos que estamos ficando velhos, anacrônicos, descompassados em relação a conceitos, ideias, valores. Quando nos sentimos deslocados, o anseio pelo que passou traz um sentimento que nos faz voltar no tempo e recordar o que nos tocou a existência: nostalgia. Recordar, na etimologia, tem a ver com cordis – coração. Recordar é passar de novo pelo coração.

A memória é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É por meio da memória que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida. A minha geração fazia uso da memória biológica, que é basicamente a única que estava à sua disposição. Exceção para os mais abastados e suas filmadoras Super 8 ou seus projetores de slides. Mas, grosso modo, para lembrar o que passou, fechávamos os olhos e evocávamos lembranças de lugares e pessoas que estiveram em nossas vidas só na cabeça mesmo. Mas à medida que a memória biológica falhava, iam-se com ela as nossas lembranças do passado.

Com as novas tecnologias de informação, com o registro digital do mundo, a memória biológica tem tido o seu papel ampliado. A ele foi acrescentada uma memória virtual infinita. É a tal da extensão do corpo, pedra cantada por Marshall MacLuhan em 1964. Não cabe mais somente à memória biológica armazenar dados sobre nossa vida. Esses dados foram levados para fora do corpo, sendo registrados em fotos, vídeos, sites, Instagram, Facebook e coisas afins. Tudo isso nos permite recuperar rapidamente o momento passado com uma qualidade estética inigualável, qualidade essa que a memória biológica jamais poderia oferecer. É como se o passado se esticasse para dentro do presente em um eterno agora.

Por conta disso, as gerações atuais são muito mais nostálgicas do que as anteriores. Não é porque a minha geração, que nasceu no fim dos anos 60, deixou de gostar do passado. Mas é porque esse gostar está restrito ao limite de nossa memória humana. Com o tempo e com a idade, as imagens da cabeça vão esmaecendo e sumindo. Fora os registros impossíveis de determinada época. Eu nunca vi, por exemplo, um vídeo meu de quando eu era criança, coisa que qualquer adolescente pode trazer armazenado no celular ou no seu canal do YouTube. Fotos minhas quando era bebê são mais raras do que ouro de Ofir. Minha geração não sabe qual é a sensação dessa nostalgia de se ver presentificado de forma tão viva.

Para as novas gerações, a memória é rapidamente recuperável. O ontem vira hoje a um clique de mouse. A nostalgia não é mais a mesma. A geração atual tem um carinho maior por seu passado, por suas viagens, por seus momentos, pelas pessoas que passam nas suas vidas. Porque as têm à mão, muito mais do que as gerações de antes.

O poeta Paul Valery afirmou e Renato Russo popularizou a frase “O futuro não é mais como era antigamente”. Pensando na memória modificada pelos tempos atuais, dá para dizer que o passado também não é mais como era antigamente. Esse é o espírito dos tempos da Internet, das redes sociais. É um tempo em que nossos conceitos estão a toda hora sendo alterados, deslocados, repensados. Não é ruim nem bom. É apenas diferente. Àqueles que sentem nostalgia à moda antiga resta aproveitar o que de novo surge para recuperar aquilo que sua memória biológica não dá mais conta.

Minha memória humana já havia falhado e deixado escapar muita coisa da minha época de colégio. Eis que o Facebook coloca de novo na minha frente não só a minha escola, mas também meus amigos mais parceiros, com quem joguei bola aos sábados, com quem dividi meu tempo vivo de adolescente. Trinta anos de lapso entregues vivo para mim, com nome, sobrenome e fotos. Mais longe: uma amiguinha da terceira série me mandou uma mensagem, tímida e confessional dizendo: “sabia que sempre fui apaixonada por ti?” Os meios atuais ajudam o sentimento humano a se perpetuar. Precisamos da memória. Precisamos recordar. Precisamos passar de novo e sempre pelo coração. Não interessa como nem com a ajuda do que quer que seja. É isso que nos humaniza.

A fotografia tem algo de mágico. Há índios e caboclos que não gostam que tirem fotos suas. Dizem que a câmera lhes rouba a alma. Eu compreendo a leitura. Mas poetizando o imaginário, a fotografia também devolve a alma, trazendo junto o cheiro e os ares do instante em que foi tirada. Digamos, pois, que a fotografia nos pede a alma emprestada em um momento específico na vida e depois a devolve a nós em um tempo futuro. Eu gosto de escrever. Fotografar é escrever com luz. Há um interessante jogo de tempo aí. Escrita, luz e tempo. Matéria prima para uma vida. Escrever o tempo com luz é um pó de pirlimpimpim ao alcance de cada um de nós. Evocar o pó de pirlimpimpim em um texto é uma forma de voltar no tempo também e tentar tomar a história nas mãos. Como se fosse possível agarrar o tempo. Magia pura. E necessária numa vida finita.

Detalhes

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Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo em sua vida eu vou viver…/Detalhes tão pequenos de nós dois/são coisas muito grandes pra esquecer/E a toda hora vão estar presents/Você vai ver…/Se um outro cabeludo/aparecer na sua rua e isto lhe trouxer saudades minhas a culpa é sua…/O ronco barulhento do seu carro/A velha calça desbotada ou coisa assim/ Imediatamente você vai lembrar de mim…/Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido palavras de amor como eu falei/Mas eu duvido, duvido que ele tenha tanto amor/e até os erros do meu português ruim/E nessa hora você vai lembrar de mim…/A noite envolvida no silêncio do seu quarto/Antes de dormir você procura o meu retrato/mas da moldura não sou eu quem lhe sorri/Mas você vê o meu sorriso mesmo assim/E tudo isso vai fazer você/lembrar de mim…/Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada/Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada…/Pensando ter amor nesse momento desesperada você tenta até o fim/E até nesse momento você vai lembrar de mim…/Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada do tempo que transforma todo amor em quase nada/Mas “quase” também é mais um detalhe/Um grande amor não vai morrer assim/Por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim…/Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver/Não, não adianta nem tentar me esquecer…

Um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada e por muito tempo insiste em viver ali, dentro de nós.

Passado um tempo, a cada esquina o dia a dia nos traz lembranças de um momento de uma vida a dois que se prometeu para sempre. No entanto, a promessa por alguma razão foi interrompida, abortada. Encerrou, mas não acabou.  Porque continuamos esbarrando em cheiros, cores, lugares e pessoas que são máquinas do tempo nos levando àquela época que hoje parece uma dimensão paralela, um tempo de cuja existência esquecemos quando nos pegamos distraídos com a vida. Pegos no susto da lembrança, exclamamos, surpresos: puxa, eu já amei essa pessoa!

Os detalhes tão pequenos de uma trama de afeto são coisas muito grandes para cair no vale do esquecimento. O tamanho de tudo quando se fala em amor não é físico, mas simbólico. Pode caber no espaço de um pingente ou numa aliança tosca de compromisso feita de tucumã. Há detalhes. Aquela história, aquele pôr-do-sol, aquela viagem. Aquela mania, aquela preferência, aquela implicância. O lugar na cama, a tampa da manteiga sempre aberta, a roupa sempre espalhada. Aquele perfume, aquela música, aquele boteco, aquele jeito de sentir prazer. Aquele defeito tão bonito. Como nós não podemos apagar o mundo que circunda aqueles que passaram em nossa vida, os detalhes sempre se farão presentes. Os detalhes moram do mundo, mas pertencem a enredo de dois.

No curso da vida surgirão outros amores. Esses amores novos nos amarão bem menos e pior do que o que se foi. Por isso, amores capengas nos farão lembrar do amor que passou justamente pela intensidade e pela qualidade de tudo o que vivemos e que não temos mais. Alguns outros amores, por outro lado, nos amarão bem mais e melhor do que o suspenso. Esses nos trarão à memória a tristeza da potencialidade não exercida daquele amor que acabou, que não foi tudo aquilo que poderia ter sido. Não tem jeito: a memória é um beco saída. Uma vez dentro, nos encurralamos contra o muro da lembrança. Só tem saudade quem viveu.

Se há uma coisa que constrange o coração é reconhecer em um novo amor a presença de um antigo. Um mesmo hábito, o mesmo jeito de sorrir, o mesmo perfume. A maneira de mexer no cabelo, os movimentos dos abraços ou do quadril… Ou falta de tudo isso. O novo faz assim, mas o antigo fazia assado. Ou cozido. Detalhes. Diz a frase que o diabo mora nos detalhes. Se assim é, o diabo e as lembranças são colegas de quarto. Nos detalhes, a essência do que se foi.

Sabe o que mais dói quando um amor entra em suspensão? É a perda dos detalhes do outro. Perde-se alguém quando se perde seu cotidiano, sua micro-história, suas tristezas e alegrias, que ficam incompartilháveis. Mais: outra pessoa está presente naquele dia a dia que era nosso por direito. Com certeza a vaca ou o babaca está lá com menos afinco do que nós. Outra pessoa está ouvindo frases que eram nossas, fazendo carinhos que deveriam estar vindo de nós e para nós. Humanos pretensiosos, temos a mais absoluta certeza de que o outro que está falando palavras de amor no ouvido que se foi não tem tanto amor como nós tínhamos. Apostamos um dedo polegar em que o impostor não fala do jeito que nós falávamos. É um ultraje esse outro viver a nossa vida, protagonizar os nossos atos, atuar em nossos enredos. Um canastrão qualquer agora encena esse papel que era nosso. Que triste espetáculo!

Detalhes. Arrumando as coisas, uma foto dentro de um livro. No livro, uma dedicatória feita em tempos outros para nós, que já não existimos mais. Como era verdadeira aquela dedicatória… Até a letra era caprichada. Há dúvidas se o cheiro de mofo é do livro ou dos sentidos contidos naquele pedaço de texto. Na foto, um sorriso que preenchia boa parte do nosso dia. Instante de um momento cujas circunstâncias passamos a recordar. Com detalhes. Mas tal qual em “De volta para o futuro”, a companhia da foto está esmaecida porque o futuro não aconteceu por um desvio de rota no passado.

Jogamos fora as fotos, apagamos e-mails e posts, colocamos uma outra foto no porta-retratos. De que adianta tudo isso se o cérebro continua mandando torpedos para o coração? Do que vale trocar as fotos se nas molduras onde há a presença de outra pessoa que lhe sorri, nós continuamos a ver outro sorriso mesmo assim? A lembrança é um espírito obsessor que nos acompanha no carro, no banho, na lua cheia que olhamos, pensando em cenas românticas.

Amores e suores. Delícias de enredos a dois. Se fosse um filme, seria um clássico. Se fosse um livro, seria um best-seller. Se fosse uma música, uma do Roberto. Mas foram-se as histórias. Saíram de cartaz. A vida seguiu e outros amores vieram para beijar nossa boca, lamber nossa carne, tocar nosso corpo. Evitamos falar qualquer coisa no frenesi do balé dançado nos lençóis com o receio apavorante e real de dizer o nome acostumado sem querer à pessoa errada. O breve segundo de consciência sobre quem está encaixado em nós nos tira a concentração. Desesperados, tentamos artifícios para ir até o fim. Recorremos aos olhos fechados para garantir a presença ausente naquele corpo que agora explora o nosso. Por instantes, fingimos acreditar em prazeres novos, nos iludindo em um hedonismo da carne, do sexo e da luxúria, sem sustança afetiva. O sexo é bom. Mas não é igual. É legítimo dublar corpos?

A longa estrada do tempo tem seus caprichos. Ela tende a transformar todo um amor imenso em quase nada, apagando os detalhes, deixando só os rascunhos da história em linhas muito gerais. Quase nada. Mas o quase é mais um detalhe também. É por esse fio de memória que um grande amor se oxigena na história de nossas vidas e não morre nunca. No máximo, fica cataléptico. Dorme para despertar ao seu capricho.

Não, não adianta tentar esquecer. Durante muito tempo os detalhes vão viver. Fato é que tentar apagar detalhes entranhados em nossa carne, em nossa alma, em nossa história é querer apagar uma parte de nós. Não se passa borracha em vidas. Memórias não são retornáveis. Nem devem ser. A antologia universal do amor guarda algumas páginas para os nossos amores. Amores que se foram, é verdade. Mas que deixaram em nós traços de si, nos tornando melhores e nos preparando para outro alguém que tecerá uma vida cheia de mais outros detalhes, feito um manto do Arlequim. É mais prudente guardar nossa caixa de detalhes dos que cruzaram nossas vidas e acarinhar cada souvenir deixado por quem passou do que fingir que não existiu histórias que nos trouxera até aqui. Ciclos precisam se fechar para que outros se abram. Mas não precisam sumir. Se o novo amor exige isso, livre-se dele. Ele não respeita seus pedaços. Ele não entende que nós somos o que nós temos sido. Que amores que passaram e de certa forma ficaram fizeram de nós as pessoas por quem ele se apaixonou.

Porque um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada dentro de nós e por muito tempo insiste em viver ali. Em detalhes.

Os cabelos roxos da alma

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ve.lho 1. Que ou aquele que tem idade avançada e geralmente se torna fraco ou doente, em consequência disso: um leão velho; os velhos merecem respeito. 2. Deteriorado pelo uso ou pelo tempo: carro velho; roupa velha. 3. Experiente; tarimbado: um velho motorista da família. 4. Antiquado; arcaico; obsoleto: ideias velhas. 5. Diz-se carinhosamente de qualquer figura célebre da antiguidade: o velho Sócrates. 6. Extremamente conhecido; manjado: lá vem ele com suas velhas desculpas; 7. Que pertence ao passado: os bons velhos tempos. 8. Que existe desde um passado distante: um velho companheiro de escola. 9. Feito ou produzido há muito tempo: um vinho velho. 10. Que tem sentimentos e ideias de uma pessoa mais velha: ela é velha para os anos que tem. 11. Carinhosamente: querido: meu velho pai. Do latim vetulus. 1 velharia (vè) s.f. (1. ação, dito ou coisa própria de velho; 2. traste antigo).

A linguagem é uma senhora sábia. Daquelas que controla a todos sob o manto da neutralidade. Sempre cremos que a  escolhemos e a dominamos quando, coitados, somos escolhidos e determinados por ela. Ao nos imputar seus sentidos de mundo, a velha linguagem nos configura como sujeitos, nos faz ser o que somos e pensar como pensamos.

É preciso desconstruir de início uma velha verdade: os sentidos que a linguagem circula nas palavras que a compõem não são fixos e imutáveis. Eles são plásticos, resilientes, líquidos. Não existe sentido literal. Sentido literal foi invenção de  um velho  dicionarista qualquer.  Todo sentido é conjuntural, depende da realidade, das acontecências. O pé-da-letra não é perfeito: tem joanete e chulé. Como imperfeitas são as velhas regras da gramática que quer aprisionar a língua, carnavalesca e malemolente, em uma valsa de dois pra lá dois pra cá. Luís Fernando Veríssimo diz que a gramática precisa apanhar muito para saber quem é que manda. O próprio Veríssimo se diz um gigolô das palavras. Eu diria que eu sou mais um prostituto da linguagem, a minha cafetina. É ela que manda em mim, dizendo o que posso e o que não posso dizer e fazer.

A minha tese: os sentidos das palavras (que nos determinam) mudam porque o mundo muda. O mundo muda porque o tempo, mano velho, manda. O tempo manda porque ele é vivo, porque ele acontece, porque ele não pede licença. O que foi não é mais. O que era deixou de ser. O que é não será. É assim. E daí algumas angústias contemporâneas.

Nós sofremos porque somos sujeitos de nossa história e por causa dela nossos referenciais de leitura de mundo leem o mundo como leem. Se nos indignamos com um político corrupto é porque ele não considera a ética e o respeito pelo dinheiro público como nós consideramos (ou, talvez, porque gostaríamos de estar no lugar dele, segundo a psicanálise, o que já é uma outra história). Se queremos carinho e presença dos nossos queridos em momentos difíceis, de tristeza, como uma doença do filho, e nos decepcionamos e frustramos quando isso não vem de onde jurávamos que viria é porque acreditamos que nossos queridos não valorizam a presença solidária do jeito que nós valorizamos. Ou seja, os sentidos do mundo estão em nós, não nos outros. Sofremos porque queremos o que temos em nós e não temos dos outros. Sentimentos são efeitos disparados pela coincidência ou não do sentido que esperávamos dos outros. Com o tempo, à medida em que a expectativa de vida das pessoas aumenta, aprendemos a diminuir e redimensionar nossas expectativas em relação às pessoas e ao mundo, velhas utopias da juventude.

Daí que perceber de onde emana o referencial ajuda bastante a não sofrer nesse mundo de sentidos mutantes. Querer mudar os outros e seus modos de agir é tão pretensioso quanto querer apagar o sol. Não é mendigando sentidos iguais aos nossos que melhoramos nossa qualidade de vida. É redimensionando nossas expectativas, tentando compreender o efeito de seus encontros com a realidade. É aquela velha história: quem se deixa levar pelo sentido alheio vive outras vidas e não a sua.

Quando o fulano me xinga, posso confrontá-lo para querer mudar o seu modo de me ver ou posso tentar compreender seu xingamento como um efeito do que eu represento para ele. Se opto pela segunda, não sofro e devolvo a bola para o fulano. Ele que se entenda consigo e com sua necessidade de me xingar. É um alívio para mim, respaldado pela certeza cada vez maior de que não sou responsável pelos sentidos que os outros atribuem ao mundo. Repare: as pessoas da esquerda radical sofrem, ficam doentes, azedos e rabugentos porque querem mudar o mundo para seus referenciais, sem sucesso, claro. Cada Sísifo com sua pedra.

Ei, Sérgio Freire, mas porque aquele verbete de dicionário lá no começo do texto? Pois é. É para mostrar como o sentido de uma palavra pode bailar entre ser algo bom ou ser algo ruim. Velho pode ser algo positivo ou negativo. Olha lá. O sentido não é literal, como eu disse lá em cima em algum lugar. O sentido é sempre conjuntural: “o velho sábio criticava as velhas ideias”. De quantos sentidos essa frase está grávida? “Palavras: cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra … Trouxeste a chave?”. Bate aqui, Drummond.

E já que usei esse verbete como exemplo, falemos do velho e de sua renovação. “O novo envelhece o velho”. Escolha a acepção que você quiser dentre as que estão lá em cima para o velho dessa frase. O CD envelheceu o velho LP. E por não ser mais a novidade, o LP se valorizou. Custa R$ 150 um bolachão dos Beatles feito no Japão. As redes sociais surgiram com sua rapidez comunicacional? Escreva uma carta, à mão, assinada e perfumada, envie para alguém e veja o efeito. Práticas antigas, velhas, viram velhas práticas valorizadas. Como ligar para um velho amigo e perguntar como ele, que esteve doente, está. Ou fazer uma visita para conversar sobre a vida. Ou mandar um cartão de Natal desejando boas festas em sua caligrafia. Comprar as velhas rosas vermelhas num buquê em vez de mandar um cartão digital é o caminho mais fácil para abrir um vinho velho com aquela velha paixão. Vai por mim.

Não. Isso não é uma lamentação ou uma nostalgia piegas de alguém que está ficando velho (escolha de novo a acepção. Já escolhi a minha). É a mera constatação da mudança. Porque muda. É assim. Mas é a constatação também de que a mudança tem como consequência o olhar carinhoso sobre o que se vai e que um dia foi e agora não é mais. Inevitável. Ficar velho é rejuvenescer o sentido e no valor. Para melhor. É lindo o mapa da minha vida que as rugas desenham em minha testa… Usar botox é apagar a história, arrancar os cabelos brancos é matar aquele beijo que nunca aconteceu e que por isso ficou marcado. Quem apaga o passado vive num presente de Alzheimer.

Pense no porquê da valorização de coisas como o slow food, do hiking, das coisas feitas à mão. Mais do que modismo de agenda social, o discurso da sustentabilidade é a nostalgia do bucolismo de um passado distante. Pense no porquê de dizer obrigado e com licença tem efeitos assustadores para certas pessoas. Porque são coisas velhas, que poucos prezam fazer. Porque o velho, como o novo, é bom. Não são excludentes, mas complementares. O velho só deixou de ser novo. Patinou-se pelo tempo. Ganhou histórias e garbo.

É. Como diz um velho provérbio chinês e sua velha sabedoria: a linguagem é uma velha vadia de cabelos roxos. Minha alma deu agora para desfilar por aí de cabelos roxos. E a sua, leitor(a) querido(a)?

Mesa de Bar – Anos 70 – 3a parte

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Baixe as músicas do programa aqui.

Catando conchas

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Em 1977, meu pai nos levou, meu irmão mais velho e eu, para férias no Rio de Janeiro. Eram tempos bicudos. Ficamos em casa de parentes para economizar. Eu tinha nove anos quando vi o mar pela primeira vez. Eu, um ser dos rios, nunca esqueci a primeira vez que meus olhos me viram no reflexo das ondas. Senti vontade de pedir para meu pai e para meu irmão para me ajudar a olhar aquele mar, de tão grande.

Minha diversão naquelas férias foi recolher conchas do mar. No primeiro dia, recolhi conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. Eram as conchas a materialização do meu primeiro contato com o mar, as lembranças vivas de que eu estivera ali. Enchi um saco plástico enorme com elas.

À noite, um fedor fenomenal tomava conta da casa da Tia Ernestina, nossa anfitriã.  Consternado, tive de jogar fora minha primeira coleta de conchas selecionadas. Foi quando aprendi que quando se retira algo do mar, como as conchas, devemos lavar com água doce. Jamais esqueci. Colecionei conchas naquele verão. Devidamente lavadas e processadas. E elas vieram comigo para Manaus e fizeram o maior sucesso com meus colegas da 4a série da Professora Polari.

Hoje, minha filha Clara foi para praia com um propósito: recolher conchas. O tempo voltou num túnel de lembranças para aquele Rio de 1977. Fui com ela da areia da barraca à areia da praia, onde as ondas lambiam o chão, trazendo e levando conchas, num jogo de manja-pega pensado por Deus para divertir pais e filhos. No caminho para o mar, lembrei-me da criança de nove anos. Molhei o rosto para misturar às lagrimas a água do mar, ambas salgadas. Recolhemos, Clara e eu, conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. A cada concha um sorriso de uma conquista e uma exclamação: “- Olha, pai! Que linda essa!”

Brincamos no mar por um bom tempo. Tanto Clara quanto Marina perdendo o medo de se soltar e enfrentar sozinhas o vai e vem das águas do Guarujá. Entre um caldo e outro, um choro, depois sorriso, entremeados. Clara não dava o braço a torcer: “- Tranquilo, pai! É só água!”, dizia passando a mão no rosto. Marina, tão mais atirada na vida, respeitou o mar com mais reverência. “- Só vou se você for comigo!” A vida requer estilos diferentes para momentos diferentes. Achei digno.

O que isso tudo significa na metáfora da vida?

Minhas filhas vão explorar terrenos novos, vão levar caldos e cair, beber água, tossir e levantar. Vão seguir em frente, tentando não sentir a queda. Por um bom tempo – queira Deus que um bem longo -, eu estarei lá para lhes segurar as mãozinhas confiante no pai. Mas vai chegar um dia em que elas vão ter de pisar no mar da vida sozinhas, sem mãos para lhes dar apoio e suporte. Vai chegar um tempo em que minhas meninas vão tomar seus rumos e decidir se vão querer ficar na areia ou ir embora para o oceano vasto do mundo. Vai chegar um dia em que elas catarão conchinhas em areias que seu pai sequer sonhou em pisar.

É o ciclo da vida. É assim. Mas não deixa de me angustiar. Todo pai e toda mãe queria, se pudesse, carregar seus filhos no colo para sempre. Mente vergonhosamente quem diz que não. De vez em quando, se me conheço, tomarei minhas filhas pela mão e lhes convidarei a buscar conchas num passeio a dois. Mesmo quando forem grandes e tiverem suas famílias. Será o nosso tempo de reviver nossos encontros do hoje presente. E, tenho certeza, acharemos conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E as lavaremos com água doce para lhes tirar o excesso de sal. Não é assim que devemos fazer com a vida?

Hoje Clara aprendeu que é preciso que a gente faça a nossa parte para as coisas saírem como planejadas. Ela já separou as conchas para levar. Farão um sucesso incrível com a turma do 3o Período. E lá na frente, quando ela estiver catando conchas com seus filhos, o vento soprará a nossa viagem ao Guarujá em sua memória. E ela, junto com os filhos, achará conchas dos mais variados tipos, cores e tamanhos. Lindas. E lembrará a eles que é preciso lavá-las para levá-las. Mas que, acima de tudo, é preciso catar conchas com os filhos.