Mudança

Impermanência

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“Acordou cedo. Decidiu caminhar até o riacho. Chegou lá à frente do sol. Sentou na pontezinha de madeira, pôs os pés na água e pôs-se, ao mesmo tempo, a pensar. Viu a água a lhe lamber os pés correr e se lembrou das aulas de filosofofia, sobre a impermanência de Heráclito. Nunca mais a mesma água; nunca mais o mesmo homem. Perguntou-se, então, para onde foram as águas que já passaram por baixo de sua ponte. E pensou a respeito de onde viriam as águas que ainda lhe molharão as carnes. O sol nasceu, rasgou num raio de luz por entre as folhas das árvores e testemunhou a pergunta mais incômoda: o que fizera ele do homem que as águas tocaram?” SF

Qual a forma de sua nuvem?

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“Um belo dia, uma nuvem estava passeando pelo vento do céu azul e encontrou uma outra nuvem, em formato de elefante. Ficou olhando admirada porque a nuvem em formato de elefante se transformava a toda hora. Virou um coração, uma árvore, uma carinha sorrindo. Transformou-se em uma bola, em um triângulo, em um barco. – Ei, você! O que você está fazendo? – Quem? Eu?, respondeu a nuvem mutante. – É! Por que diabos você fica mudando tanto? – Porque eu gosto e é da natureza das nuvens mudar, ora! – Não! Você deve ficar com cara de nuvem, meio redondinha… Não invente! – Quem disse?, retrucou a nuvenzinham já em formato de interrogação. – Ninguém disse: é assim! – Se assim fosse, quem iria sonhar olhando as formas diferentes que fazemos no céu? – Quem precisa de sonhos! Que bobagem! – Todos precisam, rebateu a nuvenzinha. – E não há sonhos sem transformação, completou. Fez uma forma de pombinha da paz e se foi num vento amigo que passava por ali a convidando para brincar. A outra nuvem passou a refletir. Timidamente, se transformou em uma criança de algodão. Deu duas cambalhotas, viu que era legal. Ela choveu para se livrar de umas águas pesadas que carregava. A partir daí se transformou sempre. É… quem disse que tem de ser assim como é?…” SF

O que se perde, o que se ganha, o que se guarda

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Estou ficando velho. Sei que estou mesmo porque música para mim no rádio do carro só se for as light dos anos 80, Rod Stewart cantando as tradicionais americanas ou Diana Krall, naquele jazz relaxante. Nada desses troços barulhentos. Sinto um verdadeiro mal estar ouvir música assim no carro ou nos supermercados de algumas áreas da cidade. Sério. Quero cada vez mais minha casa, meu canto, minha cama, minha patroa aconchegada com a cabeça por sobre meu ombro direito assistindo às séries de TV e filmes água-com-açúcar. Acho que é fisiológico: as células que envelhecem com o tempo ficam mais rabugentas e curtem cada vez mais os retalhos de cetim de  Benito de Paula e as estradas do sol da Perla – quem tem menos de 40, pergunte para o papai e para a mamãe quem são. Aproveite e pergunte o que era a promoção do Bingola.

Todo esse preâmbulo para localizar o humor de quem vos fala é para dizer que a minha reflexão passa por analisar minha vida e fazer um balanço. 43 anos, terceiro casamento, mestrado feito, doutorado feito, duas filhas. Está bom, eu acho. Um filho ainda? Continuo no preâmbulo picotado de informações desconexas, não é? Deixa eu ver se dou um rumo ao texto…

Minha vida – e, claro, a de todo mundo – é uma sequência de mudanças. Grandes e pequenas, diárias. Filosofando na varanda de casa, cheguei a uma teoria. Cada passagem na vida nossa de cada dia tem três pontos: o que se perde e fica para trás, o que se ganha com a nova fase que chega e o que se guarda como experiência desse movimento de leva e traz, contínuo como o banzeiro dos rios.

Conselho para a vida não se dá. Quando muito damos uma dica de que em buffet de comida a quilo não se deve comer purê de batata, pois pesa muito. Todavia – e há muito tempo eu não uso “todavia” –, a minha vida tem melhorado depois que compreendi o mecanismo da danada e dou essa dica para quem quiser.  É como eu disse antes: perdas, ganhos, restos.

Cada passagem, cada mudança faz com que percamos algo da fase anterior. É preciso morrer o velho para germinar o novo. O botão morre para a flor nascer. O menino morre para que o adulto apareça. Um amor acaba para que outro surja. O segredo é entender a perda inevitável como sendo inevitável e parte mesmo da chegada do novo. Dois caminhos lógicos a serem seguidos quando isso acontece: o primeiro, viver eternamente essa perda, o que é morrer para o novo, de certa forma, pois se paralisa no tempo. O segundo, curtir o luto da perda como um rito de passagem necessário para a gênese de um novo eu numa nova fase e tocar em frente, com todos os choros e dramas que se tem direito na passagem.

Tem gente que não sai do luto das perdas de suas mudanças. Choram, lamentam, mas não um choro e uma lamentação instrumental, ou seja, para resolver e purgar a dor. Cristalizam-se num simbólico que se esfacelou, que acabou, que deu. Por outro lado, tem um povo que curte o novo de cabeça, como um exílio, sem olhar para trás, para o que perdeu, com medo de virar estátua de sal como a mulher de Ló. E fica amargo. Só que ignorar o que se perdeu sem simbolizar a perda, sem lhe dar sentido, é ter um luto não vivido. Ele voltará como um fantasma a lhe assombrar eternamente em dores de cabeças, neuroses, tristezas sem razão aparente, depressão, síndrome do pânico, manias e cacoetes. É preciso o meio termo: Perdeu? Perdeu! Aceite e pronto. Zap! Foi-se! Mór-reu, Nerson da Capitinga! É preciso perder para ganhar coisas novas. Tem gente ainda que, não contente, quer consertar o inconsertável. Mas o essencial não é inventar consertos (a neurose é a ciência dos consertos e das ocultações que não dão certo). O essencial é indicar, apontar e reconhecer um real contraditório que não tem conserto, para fazer com isso, com o inevitável, algo interessante.

Por sua vez, as coisas novas, motivos da mudança, devem ser curtidas com gozo pleno, mas não sem luzes traseiras. Caraca! Mudei minha vida – ou mudaram para mim – e então tenho que aproveitar ao máximo o que ela me traz de novo. É lógico. O que vivi, olho e deixo para trás como ponte para eu chegar até aqui. Então para o resto, como diz a música do Chiclete – e eu nunca pensei que fosse usar uma música do Chiclete em um  texto – , “diga que valeu!”  Mudar é bom, cada vez mais percebo isso e faço disso uma filosofia de vida. Para viver o novo devo apagar o velho, o ido? Em absoluto.  Assim como se mede a capacidade de carga de uma ponte por sua estrutura mais fraca, as dores, as perdas e os danos servem para revelar a medida de nossa resistência humana. É preciso não ignorá-las, mas conhecê-las para nos conhecer melhor.

Isso aponta para a terceira perna da coisa: o que resta. É o que nós, velhos, chamamos de experiência. As coisas ruins e dolorosas servem para o que servem: para nos ensinar certas lições. Fiquemos com essa parte. A parte da dor, depois de curtida, gasta e processada, repito, deve ser jogada fora sem dó na lixeira da memória.  As coisas boas, por sua vez, devem ficar registradas na antologia do amor e, igualmente, devem servir para nos ensinar também. Os fatos são pedagógicos. Ou deveriam.

 As pessoas são de certo modo ou amargas (se focam o eterno luto), ou utópicas (se focam o solitário gozo sem história) ou felizes (se balanceiam luto e nascimento e sabem guardar os restos úteis do parto). Eu, como todo mundo, já passei por infernos astrais e dores inomináveis. Vivi a dor. Vivi o luto. Mas passou. Aprendi a curtir o novo e me relacionar com ele por meio da milhagem de vida, meus restos úteis. Sei que muitos podem dizer que essa classificação é simplória. E é. Não pretendo escrever nenhum tratado sobre isso, mas colocar a minha opinião sobre um fato comum e complicado, que é esse negócio de viver. Daí o escrito ser uma crônica e não uma tese.

Pergunto então a la Edir Macedo: e você, minha amiga, meu amigo? Que perda ainda chora e que não lhe deixar ir em frente depois de tanto tempo? Já não está na hora de curtir, gastar, purgar, exorcizar essa dor? Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará. Não adianta fugir nem fingir pra si mesmo. Agora há tanta vida lá fora.  Toca aqui, Lulu!

E que alegria incompleta é essa que mascara a necessidade de olhar o que passou nos olhos? Que tal chamar seus monstros para uma conversa a sós, na boa? Encarar um ao outro, só vocês, tête-à-tête. É preciso resolver o que pende. Seu gozo pleno depende do que pende. Tome tenência e meta a cara. Depois, saia para o abraço de uma vida sem fantasmas ou, no máximo, com Gasparzinhos, uns fantasminhas camaradas.    

Mas não esqueça de vez em quando parar para avaliar a vida. Pode ser numa rede na varanda ou ouvindo Kenny G ou as líricas de Zeca Baleiro bem baixinho. Pode ser antes de dormir. Tá bom, vai… pode até ser ouvindo Exaltasamba. O fato é que pode ser.  Aí você vai ver que a vida é lógica: você é quem manda. Coloque o balanço de sua vida para descansar no carnaval e na quarta-feira pegue suas cinzas e jogue no rio ou no mar. Segue a vida. Tem de seguir.

Deixar ir…

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Não sou chegado a dizer adeus. Costumo evitar essa palavra porque dizer adeus às coisas ou a alguém é dizer adeus a mim mesmo presente naquilo que se está indo. Acontece que dizer adeus faz parte da existência tanto quanto dar início a algo novo. Aliás, para que o novo surja, o velho tem de ir. O que pega nessa história é o fato de que decidir sempre é um momento difícil e doloroso. Decidi escrever sobre decisões, escolhas e renovações.

Uma boa metáfora para a renovação é a ovelha. Ela sintetiza vulnerabilidade e entrega. A ovelha perde aquela cobertura de lã, mas ao longo de sua existência outras crescerão para ser tosadas de novo. Um ciclo, portanto. Saber abrir mão de nossas lãs para que outras surjam requer desapego. Existem momentos assim na vida. Momentos de corte, de conclusão. A perda pode vir de fora (uma demissão, uma separação, uma perda de alguém querido) ou de dentro, quando a decisão final depende de nós. Em ambos os casos, ela arde feito álcool na ferida aberta. Por isso, todo ser humano tem dificuldade em colocar um ponto final e fica pondo vírgulas paliativas. Por isso teimamos em insistir numa situação conhecida, ainda que insatisfatória. Por isso a dificuldade de aceitar que aquele ciclo terminou, se esgotou e precisa ser finalizado. Mas por que tanto sofrimento?

O sofrimento vem de uma carga negativa associada à impermanência. Talvez uma forma de sofrer menos seja encarar a porta de saída de uma situação como porta de entrada em outra. Saber que a porta que se fecha atrás da gente foi a que permitiu que um novo ciclo começasse. Tirar a ideia de que se despedir é necessariamente algo ruim. É preciso a despedida para o abraço de um reencontro. É mais ou menos como a ecdise, a mudança periódica na casca dos antrópodes, como os caranguejos e centopeias. De tempos em tempos, é necessário que o bichinho deixe a casca velha para formar uma nova, mais folgada, e possa se desenvolver. Assim é conosco: crescemos com as experiências da vida e precisamos, vez por outra, da renovação das cascas. Ainda que não mudemos de emprego, de afetos ou de carreira, vemos a necessidade de mudarmos os paradigmas, os modos de viver, as regras estabelecidas para poder continuar respirando.

Mas como é que a gente descobre o momento certo da mudança? Li uma frase em algum lugar que dizia: “o ego grita; a alma sussurra”. Creio que seja por aí a descoberta do momento. Vivemos num mundo dos gritos onde o som do sussurro da alma desaparece. O mundo de hoje nos exige treinar o ouvido para ouvir a alma, que tem muito a nos dizer sobre a tal da hora certa. Porque a alma vai dizer quando estamos prontos para o adeus. O verdadeiro adeus só surge quando a pessoa já compreendeu qual é o seu destino. Ele só se apresenta quando a pessoa já refletiu sobre o que precisa para se desemaranhar e seguir adiante em seu caminho. Perceber e aceitar o fim de um ciclo é um claro sinal de maturidade. Agarrar-se a trapos de coisas que já foram não nos permite ir adiante: nos congela no tempo, na vida. Ruminar sobre o passado que dói é masoquismo.

É preciso reconhecer as razões das mudanças. Mudamos para fugir da vida ou para enriquecê-la. Muitas pessoas resolvem sair de uma situação porque a situação, de repente, exige que elas dialoguem com seus fantasmas. Outras saem em busca de situações que venham substituir as velhas para enriquecer sua existência. Quando nos deparamos com a necessidade de mudança é preciso perguntar: fuga ou enriquecimento? A fuga só muda o problema de lugar e a mudança não ocorre de fato. No enriquecimento, algo novo surge. Mas abandonar faz parte de decidir mudar.

O que dói nas mudanças e ter de admitir que um plano que foi feito – e no qual foi investido grana, sonhos e afetos –  não faz mais sentido. Por isso a necessidade de exercitar o desapego.  Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às coisas e isso nos liga a elas de tal forma que fica difícil desapegar.  Mas por que agarrar certos momentos se a vida está puxando você para outro lado? Talvez isso se dê pela necessidade que temos hoje não de viver as coisas, mas de retê-las, segurá-las, o que é um equívoco existencial.

O budismo nos dá a dica a respeito do desapego. Diz um de seus ensinamentos que se segurarmos um objeto firmemente com a mão, alongarmos o braço com a palma para baixo e relaxarmos os dedos, perderemos o objeto, que cairá. No entanto, se mantivermos a palma da mão virada para cima, mesmo afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo então é conservar com desapego ou largar de vez.

Mas, convenhamos, mudar não é fácil. “Às vezes corre sangue”, dizia Clarice. Tem pessoas que sequer cogitam. Mas cada vez mais o tempo vem me mostrando que devemos seguir nossos anseios sem medos ou culpas. A psicanálise nos diz que fazer ouvidos de mercador às necessidades da alma pode aumentar conflitos internos e desembocar em depressão, desânimo e cansaço. Represa-se a energia da alma, que explode de alguma forma no corpo. Ouvir o corpo é receber as mensagens da alma. Mas e as perdas? Escolher traz perdas…

Sim, mudar na vida requer saber que é preciso viver o luto da escolha, com todas as fases. Numa mudança, há o choque inicial, a negação ou dúvida, o momento da mistura de sentimentos (insegurança e solidão se intercalando com confiança e contentamento). Depois, há a hora em que cai a ficha de que o fato é real e, por fim, há a aceitação. Saber viver cada uma dessa etapas é fundamental. Especialistas em luto dizem que é preciso externalizar essa perda em algum momento do dia: antes de dormir, no fim da tarde, no café da manhã… chorar, ir ao fundo do poço, gastar. Mas é preciso em contrapartida viver o resto do dia no presente, porque a vida segue. Despedidas são graduais. Por isso, às vezes, muito tempo depois a gente ainda se pega perguntando se aquela terá sido mesmo a melhor decisão.

Ainda tem o medo do desconhecido que vem com as mudanças. Mudar é necessariamente refazer sua zona de conforto. Deixar uma relação com alguém que nos entendia por olhar e refazer uma relação nova do zero com alguém que não me conhece nada assusta. Deixar um emprego em que os movimentos eram automatizados e  refazer um emprego em que terei de aprender novas circunstâncias e onde ninguém sabe do que sou capaz inquieta… O recomeçar traz uma sensação de caos, mas é, na verdade, uma reorganização, um freio de arrumação. O grande medo da despedida é o medo do novo eu que vai surgir. Para ir adiante, é preciso desapegar-se. Para exercitar o desapego é preciso o primeiro passo, a primeira reza ou o último beijo. É preciso desocupar lugares.

Eu me pergunto agora o porquê de estar falando sobre isso. Na linguagem, eu sei, não existe escolhas gratuitas. Falar sobre mudanças aponta para algo. Eu tenho minhas desconfianças do que seja. Deixa eu cuidar de ouvir meus sussurros. Adeus.

Renovação

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É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto./Tomar nas mãos o leme desse barco. /Sair da tempestade, pôr ordem no tempo,/sair de contra o vento e cheio de vontade,/sair desses porões e cantar ao céu de novo;/A voz já não aguenta e o peito já não cabe mais./É hora de tomar nas mãos de novo a nossa geografia,/pintar de liberdade o verde desse mapa./Contar de novo a história como há muito tempo/Já não se ouve mais nem se contou verdade./Bater na mesma nota e na mesma canção,/cantar de braços dados, levantar a mão./Canta, coração,/por essa voz que canta em mim,/esse desejo sem medida e paciência,/quase já desesperado de esperar/todo esse tempo e, esse grito,/sufocando a garganta sem parar./Canta, coração,/Por essa voz que canta em mim,/e esse desejo sem medida e paciência,/quase já desesperado de esperar/Todo esse tempo e esse grito/sufocado na garganta sem sair…

Ah, como nos ancoramos no passado. Somos como o personagem de Woddy Allen em “Meia-noite em Paris”.  Sempre querendo viver no tempo que já passou. Aí, deixamos crescer à nossa volta o mato da mesmice, quando sabemos no fundo que deveríamos aparar essa grama da existência. Ela nada acrescenta à paisagem de nossa vida. Mas o mato vai tomando conta, tomando conta, tomando conta…

E as tralhas? Quantas vezes acordamos dizendo: hoje eu vou jogar tanta coisa fora. Objetos, gentes, memórias, afetos. E a hora da limpeza não chega, sempre adiada pelo medo de saber que junto daquilo vão partes importantes da gente, partes que um dia já foram absolutamente fundamentais. Mas e daí?

Pois bem! Chegou a hora. É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto. Respire fundo e não pense duas vezes. Faz anos que você guarda aquela cópia xerox daquele texto que você nunca usou de novo. Faz meses que você teima em guardar lembranças de alguém que te machucou. Por que resistem na sua caixa postal e-mails que lhe entristecem? Coragem! Tome nas mãos o leme do seu barco! Sem isso você não sai dessa tempestade que assusta, mas que não é imbatível. Segure forte o timão! Enfrente as ondas! Se molhe por uma boa causa. Não morra na cabine. Não espere fazer água. Corte seu capim do jardim! Deixe as rosas… As flores da memória devem ser guardadas na antologia universal do amor. Já as ervas daninhas? Mande-as para a puta que os pariu! Desculpe a falta de estilo, mas é o nome do lugar para onde devem ir. É para não errar o endereço.

Cuide! Se mexa! Ponha ordem no tempo! Arrume sua vida, suas prioridades. Ei! Prioridade é como braço: só dá para ter dois. Convoque o tempo para uma conversa, mas saiba que o tempo é um negociador duro… Beba um pouquinho para ter argumento. Lembre-se: ela vai zombar de você porque ele sabe passar e você não consegue passar de onde estar. Diga a ele, como dona da situação, que você está ali para libertar as paixões que ele aprisionou. Que você quer despertar a paixão por si que ele adormeceu. Acue o tempo. Acuar o tempo é sintoma de retomada das rédeas. Mostre quem manda.

Saia de encontro ao vento. Sinta o ar bater na sua cara e resista. Dê a outra face e siga, cheia de vontade. Para duelar com o vento, que já se achava dono do pedaço, no entanto, é preciso ranger a porta, deixar entrar a luz e sair desses porões fétidos onde você se enfiou. É preciso cantar ao céu de novo a pleno pulmões, que, a propósito, precisam do ar novo para se livrar dos ácaros afetivos que você arrumou por escolha. Jogue as coisas velhas fora desse quarto… tome nas mãos o leme desse barco… enquadre o tempo… domine o vento… cante, porque a voz já não aguenta tanto silêncio eloquente e o peito já não cabe mais de tanto querer novo!

É hora de tomar nas mãos de novo a sua geografia. Definir seus caminhos, seus rumos, sair da inércia vegetativa. É hora de pintar de liberdade o verde do seu mapa. É a sua vida, criatura! A sua! Desperte para isso! Ninguém pode direcionar seus caminhos… Conte a história! Desafie o seu Bentinho e faça-se Capitu escrevendo a sua versão. Conte a sua verdade. Para isso, bata na mesma nota, na mesma canção até ultrapassar o saber de cor. Disciplina é liberdade. É preciso, além de saber de cor, aprender. Levante as mãos e cante!

Deixe o coração cantar por essa voz que canta em você. Deixe arder o desejo sem medida e sem paciência de esperar desesperado todo esse tempo com um grito na garganta sem sair. Ponha para fora! Cuspa a bola de pelo dos fatos da vida! Renove-se!

Sabe… Um passo que você dá e você já não está mais no mesmo lugar. É hora de jogar as coisas velhas fora desse quarto… tomar na mão o leme desse barco… Cortar a grama que oblitera sua janela para o mundo. Vá e resolva logo essa coisa doida que é viver… Renovação é a palavra de ordem.

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

A Estrada de Damasco

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Escrito para o Portal Amazônia

Quando tinha 18 anos, um romano filho de fariseus foi estudar teologia em Jerusalém com um dos grandes sábios de sua época, Gamaliel. Tornou-se então feroz defensor da fé judaica, condição que o qualificou para chefiar um exército cuja missão era perseguir e dominar os judeus convertidos ao cristianismo. Isso até o famoso episódio da estrada de Damasco. Fulminado por luz intensa, o jovem ouviu da boca de Deus a questão que mudaria fundamentalmente a sua vida e os rumos do próprio cristianismo – “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

Cego pela luz do céu, Saulo é levado a Damasco, onde é batizado por Ananias, discípulo de Jesus, recobrando a visão. Desde então, convertido ao cristianismo, renega o nome judaico de Saulo e adota a denominação romana de Paulo. Dali em diante, Paulo abraça e difunde a fé cristã, buscando a universalização da nova crença, transformando o cristianismo, até então um grupo desarticulado de fiéis entusiasmados, numa religião organizada.

O interessante no episódio da estrada de Damasco, narrada nos Atos dos Apóstolos, é o fato de Saulo não aguardar nem pretender a conversão. Ao contrário: era um soldado a serviço da perseguição aos cristãos. Prendeu, matou, torturou ou autorizou a tortura de centenas deles. A conversão se lhe impôs à força de intervenção divina. Portanto, foi contra a vontade que Saulo se converteu em Paulo, o Apóstolo dos Gentios.

Fiquei pensando nessa história. Como toda narrativa bíblica, creio eu  que essa  deva ser atualizada e contextualizada para nós e nosso tempo. Metaforizando a coisa, creio que cada um de nós vez por outra ouve a voz e se vê iluminado por um clarão que pode alterar substancialmente nossa vida. São aqueles momentos em que podemos dizer: minha vida antes disso e depois disso. E esses marcos vitais são como estalos. Faz CLICK! et voi-lá! Mil perguntas arquimedianas brotam num fluxo infindo de eurekas, como uma criança na fase dos porquês: como é que eu não via isso antes? Como é que não percebi que deveria ser assim? Por que demorei tanto tempo para resolver fazer isso? Por que diabos sempre fiz aquilo? Tantas perguntas… “Eras-te, meu bem!”, como exclamava tia Conceição, uma tia querida que também ouviu o chamado de Deus e era freira.

Pare por um nanossegundo, caríssimo leitor,  e pense nas suas estradas de Damasco. Quando foi que você se deu conta que sua vida, naquele aspecto particular, havia mudado e que essa mudança, antes impensável, foi para melhor? Pense como aquela alteração na lente pela qual você via o mundo mostrou de repente mundos diferentes e assombrosamente deliciosos. Pense na clareza do ato que se ofertava como possibilidade e na certeza de ter que fazê-lo, ato esse que fugia desde sempre ao campo de visão, ao escopo das idéias pensáveis. Pense na sua estrada de Damasco atual, sobre a qual caminha nesse exato momento. Olhe para a luz, olhe para o chão, olhe para o céu. Faça desse momento uma festa junina.

Quando a luz nos fala à razão, cegando os olhos e com isso, paradoxalmente, iluminando cadinhos penumbreados cheio de ideias, percebemos na mudança inevitável como a nossa vida não aceita regras que sejam fixas. Cada  regra fixada não passa de uma criação operacional, um mal necessário, como o plástico. De repente, não mais que de repente, damos conta de que toda certeza aparentemente imutável e incontestável muda e é contestada pelos fatos que vêm sem pedir licença, sem protocolar audiência, sem bater na porta, sem mandar e-mail ou um tweet avisando. E damos conta, também, de como quanto mais cedo percebemos isso, mais cedo tendemos a levar uma vida mais feliz e menos angustiante.

Mudar é salutar. Não mudar é deletério. É ignorar a própria diretriz movente da natureza humana. Mas para mudar é preciso morrer, no sentido dialético do termo. Taí o próprio discurso religioso, que iniciou essa crônica, dizendo que é morrendo que se vive para a vida eterna, amém. A luz que brilha sobre mim e cujo calor e claridade recuso e a voz que me indaga poderosa e para cujo som convincente faço ouvidos moucos insistem em vir, quando recusadas, em forma de angústia, de dor, de insônia, de paranoia, de psicose, de neurose, de mania, de dor no braço, do escambau a quatro. Por não querer se cegar pela luz, cega-se para a luz.

Ouça a voz. Veja a luz. Deixe-se cegar. Mate o seu eu resistente que lhe incomoda. Viva o bebê que já mora em seu ventre há muito tempo, querendo ser parido para respirar ares de vida nova, solta e feliz. Mate o seu eu que não se arrisca, pois o desejado prazer do petiscar é indescritível e só quem o sente é que sabe como. Mate os pré-conceitos e viva na eterna virtude da conceituação momentânea, fazendo do bom e do ruim não categorias a priori que determinam tediosamente a vida, mas efeitos do real vivido. O bem teórico pode ser o mal real e versa-vice. Reconceituar virtuosamente é o nome do jogo. Não se justifique por não fazer as coisas alegando uma incapacidade de amador, pois amador, meu caro e minha cara, é aquele que faz porque ama. Então faça. Mate a vontade. Estrangule-a. Enterre-a. Só assim, outras vontades nascerão e lhe possibilitarão viver a vida dentro de possibilidades realizáveis do momento e não somente vivê-la alicerçada em quereres tetraplégicos, imobilizados por um acidente de alma. É como um grão, já diz Gilberto Gil: tem que morrer para germinar.

A luz brilhou? A pergunta ecoou? Ouça a luz e enxergue o som da voz como uma provocação à sua incapacidade de mover-se adiante ou de voltar atrás, whatever. O que seu coração mandar. Não se apequene no imobilismo quando múltiplos desejos kamikazes internos apresentam suas armas para o mais comprometido combate, morrendo de vontade de dar a vida pela verdade, ainda que seja uma verdade provisória, como acredito que são todas as verdades. Deixe-se prender no visgo da querência. Se entregue sem medo do medo ao vento que sopra dos pulmões da vida em seu rosto. Ria. Ria de si. Ria consigo. Ria para si. Ria por si. A ninguém é dado o direito de ser infeliz.

Como fez Paulo na estrada de Damasco, uma leve refletida pode lhe levar, pela cegueira, a ver que  quem você persegue, prende, tortura e mata incessantemente não é outro senão você mesmo. Daí é só sair e pregar. Pregar a vida feliz. Sempre renascendo. E não precisa nem mudar de nome. E não precisa nem se preparar para isso. A mudança se lhe impôs à força de intervenção divina. Basta.

É isso!

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Hoje li o texto da Eliane Brum que está aqui, no site de Época, que chegou a mim via @ladyrasta, no Twitter.

Adoro a Eliane Brum. Tenho dois de seus livros, livros que devorei e indico a todo mundo. Sou seu fã confesso e leitor assíduo de seus textos jornalísticos ou não. Lamentei quando deixou a Revista Época. Estivemos juntos como convidados na Feira de Livro de Ribeirão Preto em 2009.

Com esse texto, Eliane Brum leu minha alma, radiografou minhas inquietações nesse exato momento da minha vida. Será isso uma inquietação dos nossos tempos, mais do que movências individuais? Não sei… Mas já não lamento mais que tenha deixado a Revista Época. Agora eu entendi.

Seu texto me lembra o livro de Julia Kristeva, “Estrangeiros para nós mesmos”, que li na época que fazia meu doutorado. Kristeva faz uma viagem através da história para comparar as diferentes formas com que o estrangeiro foi encarado ao longo dos séculos. Indivíduos ou sociedades usam o estrangeiro como bode-expiatório para seus próprios problemas. Em resumo, estrangeiro é sempre o outro. É isso que fazemos também. Criticamos nos outros o estrangeiro que nos habita. E conhecê-lo é desconhecer-se, desconhecer aquilo que mais estabelecido está na gente. Daí a inquietação. Daí a renovação.

É é isso, Eliane! Toca aqui! Que baita texto! o/\o

Onde Deus possa me ouvir

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Texto escrito para o portal D24AM.

Sabe o que eu queria agora, meu bem?/Sair, chegar lá fora e encontrar alguém/que não me dissesse nada/não me perguntasse nada também./Que me oferecesse um colo ou um ombro/onde eu desaguasse todo desengano/Mas a vida anda louca,/as pessoas andam tristes,/meus amigos são amigos de ninguém./Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?/ Morar no interior do meu interior/Pra entender porque se agridem,/se empurram pro abismo,/se debatem, se combatem sem saber…/Meu amor, deixa eu chorar até cansar/me leve pra qualquer lugar/aonde Deus possa me ouvir/Minha dor, eu não consigo compreender/eu quero algo pra beber/me deixe aqui, pode sair./Adeus.

Há horas em que as horas se arrastam. Há dias em que tudo o que queremos é encontrar alguém que não nos diga nada, que só nos ofereça um colo, um ombro, um cafuné e seu olhar de colchão. Alguém que saiba quando calar para que nossos silêncios falem. Alguém cuja presença seja a estaca que segure a nossa alma, completamente tomada de hera dos fatos pesados da vida. São dias sem sol em que a sombra certa é tudo que desejamos que repousasse sobre nossas cabeças.

Todos nós, vez por outra, precisamos desaguar nossos desenganos. Queremos alguém que seja o receptáculo solícito de nossas angústias, tristezas e aflições. Mas quem? Por onde andará essa pessoa, com o dom e a sensibilidade de saber que a desculpa mais esfarrapada para deixar de viver é o máximo que conseguimos criar e, mesmo assim, ainda acredita em nós? Olhamos para os lados e o que vemos são pessoas e mais pessoas. Elas nos acompanham e no meio delas somos o mais sozinho ser do universo. Porque as pessoas andam tristes e na sua tristeza os amigos tornam-se amigos de ninguém.

A vida fica louca e sai do eixo. A vida parece que tem vida própria e independente de nós. Ficamos a seu reboque. Pagando com a alma se preciso for, queremos comprar a primeira passagem para o interior de nosso interior. Lá, talvez, a contemplação do silêncio ajude a entender porque as pessoas fazem o que fazem, por que tanto desentendimento em tempos de linguagem farta, por que se empurram para os abismos numa beligerância sem nexo, por que se debatem gratuitamente e se combatem com afinco sem saber.

Há momentos da vida em que queremos chorar até cansar. A esperança é que aquela sensação boa de depois de um choro venha enxaguar a sujeira que se acumula na casa desarrumada de nossa alma. Que ela faça uma faxina de quem tem TOC e devolva a cada coisa sua simetria perfeita no esquadro da existência. Porque está tudo bagunçado, está tudo confuso. Não achamos nem a porta para fugir. Ou até achamos, não temos mesmo é força.

Nossa via-crúcis particular não termina. Que droga! Por que não nos penduram logo numa cruz para acabar com esse tormento que martela de forma chinesa nas veias, no corpo, na mente? Quantas estações teremos que passar aguentando chibatadas e açoites que parecem ter combinado o tempo sincronizado para acertar as nossas costas?

Há tempos em que parece que estamos num casulo de Dante. Nem Deus consegue nos ouvir. A Ele, que ouve até nossos silêncios, lhe escapamos . E cadê a pessoa para nos carregar no colo até um lugar onde Ele possa sentir nossa respiração? Porque Lhe basta isso para olhar para nossas inquietudes e apaziguá-las…

A vontade nesses dias chuvosos é de se deixa encharcar. Sumir dos olhos de todos, buscar escapes, chutar o balde. Dar adeus a quem mais nos quer bem. E a quem definitivamente não nos quer bem. Mas não é sábio.

A vida de todo mundo é assim. Eu já vi fogo e eu já vi chuva. Eu já vivi dias chuvosos que pensei que jamais terminariam. Talvez vocês, meus dezessete leitores, não saibam, mas já cheguei muito perto, mas muito perto de renunciar à vida, quando estive afogado em certo dilúvio que me inundou a existência.

Depois o sol abriu. E com ele as cores do arco-íris. Porque é assim. A vida de todo mundo é assim. Vivemos os céus mais azuis e os infernos mais quentes intercalando-se na calada da vida. Vivemos a doçura mais deliciosa e o amargor do fel de ocasiões que chegam em bando, em gangue, para nos roubar a paz e nos estuprar a tranquilidade.

Ao descrever um momento acre da vida, a música de Vander Lee na belíssima voz de Gal Costa nos lembra, por tabela, que há momentos felizes, momentos de sorrisos fartos. A vida é agridoce. Se entendermos que é assim, talvez soframos menos. Talvez. Em minha felicidade, entendo a crítica de que sou suspeito para falar de tristeza.

A cigarra e a barata em nós

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 A cigarra jazia de pernas para cima na cozinha. Talvez tivesse entrado pela janela aberta. Moro no sexto andar. Com a pá de lixo, a joguei pela janela. Lá pelo quarto andar, a cigarra acordou e passou a voar. Já vi muita coisa estranha, mas cigarra cataléptica foi a primeira vez. Fiquei pensando o que a cena metaforizaria.

Aquela cigarra é como algumas de nossas experiências de vida. Às vezes voamos livremente com uma idéia atrelada em nós. Uma idéia que é tudo. Vivemos por ela, cantamos sua canção para o mundo, lutamos por ela. No entanto, a vida vai propondo novas estradas, embolando nossos planos. De planos e claros, os planos vão a esburacados e obscuros. Começamos a duvidar de nossas certezas, a ter mais certeza de nossas dúvidas. A música que costumávamos cantar enjoa. Cansamos. E precisamos repousar. Precisamos deitar a ideia no chão da cozinha, como se estivéssemos mortos. Dar um tempo.

Essa catalepsia da alma nos acomete vez por outra. Pode ser um projeto engavetado, uma decisão adiada, um amor não vivido. Como a cigarra cataléptica, eles precisam apenas de algo que os sacuda, que lhes jogue no ar, que lhes dê o tom para que comecem a cantar de novo, devolvendo-lhes as asas.

Dentro de nós trazemos cigarras nossas, dormentes, mas não mortas. Elas estão prontas para serem revividas. São nossos lázaros particulares. Quais as suas cigarras catalépticas, leitor? Mais importante do que identificar quais são é identificar por que dormem. É medo de voar? Será que aquele canto não vale mais a pena? Em “Traduzir-se”, o poeta Ferreira Gullar afirma que uma parte de nós almoça e janta e a outra parte se espanta. Desde quando você não se permite o espanto? Desde quando você só almoça e janta, numa previsibilidade que empobrece a vida, se o bom da vida é a possibilidade de tudo poder vir a ser outra coisa?

Dias depois do episódio da cigarra, foi a vez de uma barata na varanda. Mesma coisa: perninhas para cima, imóvel, pazinha de lixo. Lá pelo quarto andar, lá se vai a barata voando. Se tem cigarra cataléptica, também tem barata. Esse é o outro lado da questão.

Temos dentro de nós um nojentinho adormecido que só precisa de oportunidade para reviver e infernizar a vida dos outros. É o prazer dos atos miudinhos. É a desnecessária sacaneada que damos em quem não gostamos. Coisas pequenas que dão um prazer sádico, mal, de autoafirmação. Todo mundo tem suas baratas catalépticas dentro de si, zumbizando na espera da chance de vir à tona.

Baratas nojentas ou cigarras cantoras? Quais bichos catalépticos você guarda aí dentro, prontos para emergir? Quais você deixa emergir? Por quê? Para quê? Quais não deixa? E por que não? Quais você finge que não existe? E por que finge? As pessoas vivem no balanço entre as duas. Nem só uma idealista cigarra pomba-lesa, nem só uma nojenta barata escrota. Somos um híbrido das duas coisas. Tenho percebido com o passar do tempo que as pessoas nos forçam a baratear nossas ações. O mundo gosta das cigarras, mas só respeita as baratas. O mundo platônico é das cigarras. O aristotélico é das baratas. E o seu, leitor, é de quem?