mulher

Tempos da caça

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costela“Fragilidade, teu nome é mulher”. Essa frase é de Shakespeare. Como a literatura tem a ver com a sua época para desvelar seus sentidos, a frase do bardo é um retrato da mulher do Século XVI. Se o escritor inglês chegasse hoje em uma máquina do tempo, com toda a poesia do mundo, e gritasse a frase na praça de alimentação de qualquer shopping center, é provável que fosse vaiado. Pelas mulheres. Muita gente diria, certamente: “Esse barbadinho pode até entender tudo de poesia. Mas não entende nada de mulher”.

A questão é, claro, a mudança no papel social da mulher. Esqueçamos aqui o machismo que acha que o único movimento possível para a mulher é o dos quadris e o feminismo que acha que a mulher não pode usar um vestido de alcinha para seduzir. São extremos e me dão sono. Vejamos: desde a queima dos sutiãs em 1968, no bra-burning de Atlantic City, a mulher vem dando um chega pra lá nos homens e ocupando papeis que antes eram reservados por convenção social e cultural a eles. Em tempos atuais, nas sociedades ocidentais, soa muito estranho e démodé dizer que o homem tem de sair para buscar a caça e a mulher deve ficar em casa cuidando da cria.  Hellô-ô! Por opção, vá lá! Mas por obrigação? É ruim, hein!

Os papeis que homem e mulher desempenhavam no sexo tinham regras claramente estabelecidas. Fazia parte desse jogo de sedução e conquista o homem insistir na proposta sexual e a mulher recusar. O homem, claro, apostava no sucesso da empreitada e para isso movia mundos. Quando homem quer não tem vó doente, dor de dente, final de campeonato ou chuva que o impeça. Quanto mais a mulher recusava, mais o homem insistia, aumentando a emoção do jogo – uma emoção restrita a ele, diga-se. Para a mulher não era tão lúdico assim. Além da culpa cristã por estar permitindo intimidade a um homem, seu desejo e prazer eram solenemente desconsiderados. Como lidar com o paradoxo? Porque ela queria, mas ela não podia relaxar na vigília um segundo. Sabia que se não se controlasse seria descartada e ainda por cima chamada de fácil. O homem continuava insistindo e ela resistindo. O importante era chegar ao objetivo final. Aprisionados a uma moral antissexual, nenhum dos dois tinha chance de experimentar o prazer das trocas de sensações eróticas. Se a mulher cedesse, aí pronto: o homem se apaziguava com a confirmação de se sentir competente e se afirmar como macho. E o ciclo recomeçava.

“Ah, mas ainda é assim!”, se apressa em dizer a leitora mais afoita. Sim, ainda é assim. Com uma diferença: a mulher está ocupando esse lugar de sujeito proativo, de quem vai para cima, algumas como um jaguar. O homem se vê na defensiva. Com o espaço conquistado em outras áreas, ela também conquista terreno na autonomia sexual. Na medida em que a mulher passa a disputar o papel de independência social, profissional e financeira, ela se lança na disputa também pelo pacote completo. E leva. No pacote está incluso o passe-livre para tomar a iniciativa nas questões afetivas e sexuais também. Mexendo a posição das peças em jogo, a mulher passa a dar xeque naqueles homens que não conseguiram ainda pensar fora da caixa dos conceitos de antes.

A cotação do machão comedor está em baixa. Há quem ainda compre suas ações, mas a mulher quer um homem que se relacione com ela de igual para igual, inclusive no sexo. Essa repentina mudança tem deixado a macharada em níveis de ansiedade comparáveis aos daqueles caras do esquadrão antibomba: se não cortar o fio certo… Para evitar o estresse, muitos homens ainda procuram mulheres passivas, acreditando estar mais garantidos. Pfff. O problema é que, pelo andar da carruagem, em pouco tempo elas entrarão em extinção. É Darwin, parceiro…

As mudanças não são totais, no entanto. A maioria dos homens ainda vê o sexo como uma questão quantitativa e não qualitativa. Tire-se pelo ciúme. O ciúme do homem é quantitativo: queremos saber com quantos caras a mulher foi para a cama. O da mulher é qualitativo: pouco importa a ela se o homem teve trinta mulheres. À mulher importa de fato se ele foi apaixonado de verdade por alguma dessas trinta. Essa vaca é seu alvo.

Vivemos numa fase de transição e reacomodação de papeis. O homem flerta mais cuidadoso, se ajeitando aos novos tempos. “Sabe-se lá se ela é predadora…” A mulher resiste de charminho, mas se tiver a fim não dispensa, cada vez mais sem a culpa da moral. “Será que eu vou ter outra chance com o boy magia?” Nisso tudo, há uma monogamia social esperada a ser considerada para complicar as coisas. Os limites são tênues. Mas a linha é sempre tênue para quem não sabe o que quer. Desejos, mesmo antes de Freud, já estavam a nos mover. Freud ajudou a dar o nome aos bois. Há os casos em que conquistar é uma necessidade compensatória de uma falta na infância. Mas isso é papo-cabeça para outro texto. Fato é que ninguém está livre dos encantos alheios.

Encantar-se e desejar faz parte. É da natureza da afetividade humana. Dar sinais de encantamento é biológico. Não dá para sentir culpa por pensar como seria bom estar com alguém num momento ideal. Bate, Platão! Dar o próximo passo já é da razão, pois aí entram desdobramentos que precisam ser avaliados e ponderados em suas implicações. Às vezes, nessa hora, o Batman precisa dar um tapa de alerta no Robin, para usar a imagem do meme do Facebook.

Deixar fluir ou guardar para explodir de outros jeitos? A pergunta é: muita adrenalina ou muita ocitocina? Ser um sujeito – ou uma sujeita – que vive na plenitude seus quereres ou ser alguém que não se permite sair do paradigma da racionalização dos afetos? Aproveitar a vida porque ela é como uma nuvem que passa  e vai ou sossegar o facho em nome de uma escolha eterna? “Eis a questão…”, completaria um resignado Shakespeare, sob os olhos desconfiados de Freud e de um liberado Platão. Enquanto Darwin ri alto de tudo ao fundo…

Um brinde à mulher!

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Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Proposta: esqueça a guerra dos sexos. Vamos levantar a bandeira branca e fumar o cachimbo da paz. Fumar é politicamente incorreto, mas a paz urgente ameniza a desfeita. Então, saudemos as mulheres por seu dia.

Você já percebeu que não há o dia internacional do homem. Nem sequer o dia municipal.  Aqui fica a dica para os vereadores que nunca apresentaram nenhum projeto. Mas não estou reclamando. É que, por exclusão ou omissão, o dia do homem é todo dia. Pensando bem, então, o Dia Internacional da Mulher é um grande machismo.

Pensa aí, leitor, como dependemos da mulher. Para começar, uma nos pariu. Já é uma dívida de gratidão de uma vida, no duplo sentido. Fico lembrando quantas já me suportaram desde o berço até hoje, quantas aguentaram meus hábitos de enrolar cabelo e de não comer verdura, quantas me deram um frio na barriga de paixão, quantas misturaram calorzinho com o meu. Devo muito a cada uma delas.  A gente gosta e depende tanto das mulheres que chega até a casar com elas. Às vezes até três vezes, como eu. Elas são parte de nós. Elas “aspiram o segredo do mundo”, no dizer de Drummond.

Ainda que inseridos no simbolismo do sistema social – daí os parabéns -, temos que admitir que, ao contrário do que parece, a instituição de dias específicos tem um fundo discriminatório. É como se você precisasse ser lembrado de que algo existe: “Viva a mulher!”, “Não esquece do índio”, “Olha a consciência negra!”

Em vez de ser lembrada em um só dia não seria melhor reconhecer dos vera a sua presença nas relações sociais e ponto? Que tal tomar o Dia Internacional da Mulher e convertê-lo em trabalho igual, salário igual, direito sobre seu corpo e sua vida?

Há diferenças biológicas, é claro. Mas essas diferenças não podem subsidiar desigualdades no plano simbólico. Então, aproveito o espaço e repudio a covarde violência física ou psicológica contra as mulheres e a falta de respeito quanto à sua condição igual à condição masculina, embora com as deliciosas e bem-vindas diferenças biológicas. Proponho a mudança de “homo sapiens” para “gente sapiens”, combatendo um machismo que vem desde a época dos Flintstones. É um burro o homem que não se feminiliza para compreender melhor o universo feminino.

Já que há o Dia Internacional da Mulher, reflitamos. Pare e pense em como estamos inseridos no sentido de que os homens são melhores que as mulheres. Aceitamos isso porque naturalizamos o sentido herdado, histórico. É impossível ver a floresta quando se está muito perto da árvore. Recuemos e olhemos para os lados, encarando as mulheres de nossas vidas. Vamos chacoalhar o machismo “démodé” e aceitar que o homem depende da mulher tanto quanto a mulher depende do homem. Vamos aprender com elas, tirando proveito delas, sugando-as, literal e metaforicamente, naquilo que elas têm de melhor: ser mulher. E corramos para o abraço quente, deliciosamente suado e aconchegante de sempre.

Ponderações feitas, aproveito para mandar um beijo para minha mãe, minhas filhas, minhas irmãs, tias, amigas, alunas e ex-alunas, sobrinhas, cunhadas, primas, ex-namoradas, ex-mulheres, tuiteiras, facebookeiras e para você, leitora. Além, claro, para a mulher que me alimenta e sustenta, no sentido psicológico-afetivo, a Bia Eid, sem a qual simplesmente não dá. Afinal, quem você acha que vai lavar a bandeira branca e limpar as cinzas do cachimbo da paz depois que a festa acabar?

A mulher de trinta anos

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[Escrevi este texto em abril de 2004. Publico hoje em homenagem às mulheres que vão fazer ou estão nos seus 30 anos]

Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis.
A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui,
a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (…)
Entre elas duas há a distância incomensurável
que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza.
A mulher de trinta anos satisfaz tudo,
e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer.

Honoré de Balzac em A mulher de trinta anos

Uma das belezas dos clássicos da literatura é sua atualidade atemporal. Não importa quando se lê um clássico nem por qual conjunto de imagens e valores sua leitura está sendo guiada. O texto dos grandes autores sempre suscita reflexões e questionamentos acerca da vida e das questões postas em jogo nas letras que falam deitadas caprichosamente nas páginas brancas. Clássico que clássico faz da leitura uma inquisição de nós mesmos.

Minha mulher acabou de fazer trinta anos. Claro que ela passou por momentos da famosa crise. Para tentar entender e até contrapor alguns de seus argumentos nos momentos de crise, emprestei o livro do Balzac da minha cunhada Zuleica, ela própria uma amável balzaca de trinta e cinco. Vi pela data escrita no livro que ela comprou o exemplar há cinco anos. Coincidência. Teria ela comprado o livro pela mesma razão que me motivou a lê-lo, ou seja, ouvir o que a genialidade habitante na literatura teria a dizer sobre esse momento crucial na vida de uma mulher? Não sei, mas fato é que peguei o livro e li. E clássico é clássico. Para quem não leu, basta dar uma lida na epígrafe aí de cima para ter uma idéia.

A leitura de Balzac me fez refletir sobre a idade e as fases da vida. Para começo de conversa, vamos deixar de lado as exceções. Sabemos que a idade é algo relativo quando se trata de sua relação com a maturidade. Tem muita gente de 40 anos que mede seus atos e suas respectivas consequências através de valores da molecada de 20. Assim como tem muita gente de 22 anos que tem uma cabeça que destoa das outras de sua geração, fazendo um parzinho muito mais perfeito com o povo da geração que veio antes. Para esse texto, vamos partir da premissa de que há uma certa homogeneidade de pensamento, valores e, portanto, comportamento para cada faixa etária.

A infância tem inegavelmente começado e terminado mais cedo. Os meninos e meninas de nove anos já não brincam mais de bolinha de gude, cangapé, Barbie ou barra-bandeira. Isso é mico supremo, um verdadeiro King Kong. Querem ser adolescentes o mais rapidamente possível, sua sexualidade sendo acelerada pelos apelos dos meios de comunicação, principalmente da televisão. Dizer que a infância está morrendo pode até ser forte demais, mas ela pelo menos está se redimensionando. A adolescência também.

Os adolescentes de hoje são bem diferentes dos da minha época. Aliás, dizer “da minha época” é um grande sinal de PVC (a porcaria da velhice chegando!). Mas voltando aos adolescentes: os carinhas de hoje são mais antenados do que meus contemporâneos. Mais safos. É uma juventude mais visual, uma geração mais imediata, instantânea, videoclip. É menos passiva e com valores de bordas flexíveis, prontas para se reconfigurar à primeira mudança de querer. Eles sabem o que querem e o que não querem. Não jogam mais futebol de botão com o avô, como o Eduardo de Eduardo e Mônica. São jovens que não pertencem a grupos estabelecidos definidos, mas a tribos nômades polimorfas. São meninos que não se encontram mais no campinho da rua seis para uma boa tarde de futebol de várzea. Hoje eles preferem se aglutinar nas lan-houses escuras dos shoppings, seu habitat confortável. Seu jogo não é mais Ludo nem Banco Imobiliário, mas The Sims, Quake e GTA. Não só brincam de médico mais cedo como atendem a vários pacientes. Se as crianças querem ser jovens, os jovens têm pressa de ser adultos.

Na minha divisão para fins didáticos, o jovem adulto surge aos vinte anos. É um jovem que nessa idade está ao mesmo tempo aprendendo o básico do mundo e quase terminando a faculdade. Por isso, esse jovem é obrigado a amadurecer mais cedo. Esse fenômeno se dá, acredito, pela puxada do fim da infância e a consequente antecipação do fim da adolescência. É por isso que nós, da geração Barbapapa (mais de 40), nos assustamos com a maturidade que hoje apresentam aqueles que têm 20 e poucos anos. Atendendo a anseios do Fábio Jr., a maioria já sabe bem mais que os seus vinte e poucos anos. Quando dizemos que sabem mais, lembremo-nos, falamos a partir da avaliação feita por nós, Barbapapas, com os parâmetros da nossa época (PVC, de novo!). É isso. Aqui está o xis da questão: quando olhamos e analisamos as fases que ficaram para trás ou que vêm pela frente sempre o fazemos inevitavelmente com os pés na fase que estamos. Por isso é que os mais jovens do que nós recebem nossas críticas porque nos decepcionam nas expectativas que criamos para eles (a partir do que nós faríamos no lugar deles, pelo menos teoricamente) e os mais velhos são conservadores e antiquados (porque ainda não chegamos lá para sermos nós os conservadores dos jovens adultos a ser).

Aos trinta, então, vivemos os trinta anos. O que parece óbvio merece reflexão. Vivemos os trinta, mas os trinta desse momento e não os trinta pretéritos dos nossos pais ou os trinta futuros de nossos filhos. O raciocínio vale para qualquer idade.  Martirizar-se por causa da idade é querer viver num tempo que não é seu. Se nós não esquentarmos com a necessidade de preencher expectativas que não são nossas, mas de outros e de outros tempos, viveremos bem e plenamente nossos quinze, vinte, vinte e dois, trinta, trinta e cinco, cinqüenta ou sessenta anos.

Se a mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis, no que concordo com Balzac, a criança de dez também os tem, a jovem de 22 idem, a coroa de 60 idem ibidem. Cada um por suas razões. Se a mulher jovem tem muitas ilusões e inexperiência, também tem o arroubo juvenil que ajuda a moldar, descobrir e transgredir limites, arroubo esse deixado meio de lado lá nos trinta porque nessa idade os limites tendem a estar bem definidos. Se a balzaquiana nos instrui e a outra quer tudo aprender, aprendamos com as trintonas e ensinemos as ávidas jovens. E, fazendo uso da dialética da vida, devemos inverter isso de vez em quando e aprender com as jovens os valores de seu mundo e ensinar as trintonas coisas que acabamos de aprender com a juventude, fazendo das relações um delicioso circulo virtuoso. Quanto a despir o vestido, bem…

Resumindo o que falei até aqui, cada um deve viver sua idade na contemporaneidade, sem querer ou forçar os outros a voltar ao passado ou viajar no tempo para o futuro para viver. Cada momento deve ser curtido sem culpa, considerando a nossa vida passada e as lições que ela nos deixou e também nossos planos para o futuro a médio e longo prazo. Mas não esquecer, em hipótese alguma, do presente. Ele é nosso presente.

Falar em presente, minha Fabiana faz aniversário e eu que ganho um presente. Aos trinta, vejo na minha companheira de vida, cama e mesa uma doce mistura nos seus trinta anos: carinhosa, linda, amável, doce, divertida, sexy, amorosa, atenciosa, irresistível. Ela é minha cúmplice nessa coisa doida de viver. Como diz a música de Juca Chaves: ela de dia é uma menina e de noite uma mulher. Aos quarenta, tenho certeza, ela será a quarentona mais perfeita de seu momento e eu um quase cinquentão curtindo meu tempo também. Posso afirmar com toda certeza: esse são seus melhores trinta anos, meu amor. E fico feliz por ser parte deles. A partir de todas essas argumentações, nesse momento falo do lugar de quem é casado com uma mulher de trinta anos. Nessas condições, faço minha as palavras de Balzac.

Amor perfeito

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Em frente à casa da rua três, Paulo, eu, Paula e Mauro. A lu ainda tinha chegado. Atrás, a leoa.

Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Essa mulher aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson e com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. É como o nascer do sol que damos por garantido todos os dias, mas que quando se permite ser sorvido no silêncio ganha um significado renovado. Ela deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe transcende o biológico. Mãe é concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Minha mãe me ensinou a exercer a autoridade sem violência, a ter compaixão sem assistencialismo, a curtir as vitórias sem humilhações, a compreender as derrotas como lições. Aprendi com minha mãe que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que, nessa simetria, se perca o respeito. Aprendi com minha mãe que antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe me ensinou a discordar sem agredir. Minha mãe me ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente. Ele sempre me diz o que eu preciso ouvir, não o que eu quero ouvir.

Nesse dia das mães, quero tornar (mais) pública a minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, por meio de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica. Minha mãe, não me ocorre metáfora melhor, sempre jogou o ping-pong da vida de salto alto. E sempre venceu.

Lembro de nossa despedida quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, a casa das minhas memórias, a minha mãe com olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Faltou pouco para eu desistir de ir. Mas ela ficaria desapontada. Pois minha mãe sempre me disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para desfazer-me em viscosas lágrimas no avião.

Hoje, como pai em relação às minhas filhas, sempre primeiro dou ouvidos a meus instintos (e aos da minha mulher, claro). Mas em segundo lugar, penso em como a minha mãe agiria. E ela só não vem primeiro lugar porque me ensinou de forma competente a acreditar em mim.

Inevitável voltar ao passado e recorrer à memória afetiva. O menino da foto, peito estufado, cantando: Andei por todos os jardins procurando uma flor pra te ofertar. Em lugar algum eu encontrei a flor perfeita pra te dar. Ninguém sabia onde estava a flor mimosa, perfeição. Ela se chama flor-mamãe. E só na nasce do jardim do coração. Enfeita nossos sonhos, perfuma nossa ilusão. Flor divina, eu suponho, faz milagre em oração. Nesse dia de carinho, quero senti-la no peito. Emoldurando a minha alma,  Flor-mamãe, amor perfeito.

Quando eu era menino, na época dessa foto e dessa música, eu achava a minha mãe a “melhor mãe do mundo”. Os superlativos de criança. Depois de quarenta anos de avaliação, com a objetividade de um pesquisador com doutorado, tenho certeza inconteste de que esse título é seu mesmo, minha mãe. Você é a melhor mãe do mundo.

Falando da minha mãe, desejo um excelente dia das mães para a mãe das minhs filhas, a Bia. Sem ela definitivamente não dá. E desejo um maravilhoso dia das mães para você que me lê. Aproveitando o incomparável cheiro de mãe no abraço, se estiver perto, ou com os olhos fechados para sentir e sorver a presença da ausência, se estiver longe. Sei que o dia das mães pode fazer o coração pesar para várias pessoas, por vários motivos. Que a leveza do amor, no entanto,  alivie esse peso e que a serenidade invada seu dia. É o meu desejo mais profundo e sincero.

Mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”.

 Te amo. Sua benção. E feliz dia das mães.

PS: Ei, mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, malcriadamente não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

Carta de recomendação de mãe

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Esta carta foi mandada por minha mãe para a Bia, sem eu saber. Eu estava viajando para Campinas para vê-la pela primeira vez, depois de já estar namorando  à distância  há quase um mês. Tinha saído em frangalhos de um casamento. Apostava todas as minhas fichas restantes na Bia.  Jackpot! Mãe é mãe. Amo as mulheres de minha vida.

Vênus e Marte

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“Homens são de Marte, mulheres são de Vênus”.  Mas em que homens e mulheres pensam diferente? Em três coisas: o modo de ver a vida, a questão do ciúme e como isso tudo afeta a forma de explicar os fatos.

Quanto a encarar a vida, mulheres são longo prazo, pensam em consequências. Homens são imediatos e, por isso, acusados de inconsequentes. A mulher quer casar, o homem ter uma boa noite de sexo. A mulher leva muito mais tempo para se entregar a um amor. A avaliação do homem sobre se a mulher serve ou não dura três segundos, quando demora.

O casamento é uma tentativa de feminilização dos prazos masculinos. Daí a resistência dos homens em casar. Enquanto não casam, as mulheres cada vez masculinizam seus prazos, banalizando suas normas de preservação afetiva que mandavam que só experimentassem uma etapa na relação depois de bem comprovadas as boas intenções do moço. Essa mudança é algo bom ou ruim? Acho que é sinal dos tempos. Pode ser boa para quem nasce na ética do imediatismo afetivo e ruim para quem tem de se adaptar a ela.

O que acontece quando um marciano e uma venusiana se encontram é uma tentativa de ancorar seus pontos de sustentação. É preciso um período de adaptação.  Ou se sofre no começo da relação, mas quando se sobrevive o encaixe é mais perfeito, ou não se sobrevive à relação porque não se consegue achar os pontos de sustentação para ela.

Ponto dois: o ciúme. Aqui homens e mulheres também são diferentes. O ciúme do homem é sexual; o da mulher é afetivo. O ciúme masculino se refere à vida sexual passada da mulher; o da mulher, à vida afetiva passada do homem. A mulher não tem ciúmes das dez mulheres com quem você dormiu, mas tem das dez vezes em que você dormiu com aquela uma. É ciúme de envolvimento.

Minha hipótese: o ciúme afetivo perderá espaço para o ciúme sexual. É por isso que os casais e o casamento entre contemporâneos duram pouco. Ninguém tem mais saco de preparar comida. É mais fácil comprar o McLove para viagem.

O terceiro ponto: como homens e mulheres vêem os fatos da vida? Veja só as possibilidades de combinação: marcianos e venusianas que nasceram antes de 1970 são barbapapas do amor. O homem avalia a parceira na pestanada e a mulher checa se o cara pode ou não ser um bom pai. Se combinar, casamento. Marcianos e venusianas que cantaram as músicas do Dominó, por outro lado, tendem a ter relações rápidas. Não deu, parte-se para outra. Assim funcionam os pares da mesma época, barbapapa com barbapapa e dominó com dominó. Mas e quando mistura?  As barbapapas podem até se satisfazer com o fôlego sexual do fast-food, mas sua estrutura psíquica vai sentir necessidade dos Carpenters. Ainda, os marcianos barbapapas que juntam os trapos com as venusianas fast-food sofrerão igualmente com essa adaptação.

Enfim: há diferenças entre homens e mulheres, diferenças entre os homens de gerações diferentes e entre mulheres de gerações diferentes. As combinações dão cor à paixão.

Marte ou Vênus, Barapapa ou McDonald’s, Carpenters ou Dominó. Diferenças que fazem da vida a delícia que é. Como dizem os franceses: Vive la différance! Chega de analisar o inanalisável. Vou ouvir Carpenters.

Mãe

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[No aniversário de minha mãe, Dona Helena, um texto que escrevi para ela em 2004]

Dona HelenaQuero falar de dona Helena.  Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Ela aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson. Com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. Como o nascer do sol. Deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe não é categoria biológica, mas concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Ela ensinou autoridade sem violência, compaixão sem assistencialismo, vitórias sem humilhações, derrotas como lições. Aprendi com ela que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que se perca o respeito. Antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe ensinou a discordar sem agredir. Ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente.

No sue aniversário, quero tornar pública minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, através de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica.

Lembro de quando nos despedimos quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha minha mãe, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Quase que eu fico. Mas ela ficaria desapontada. Sempre disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para chorar no avião.

Inevitável voltar ao passado: mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”. Te amo. Sua benção, coisa fofa. E feliz aniversário.

PS: Mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

Um certo alguém

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um certo alguémPai e mãe são escolhas de Deus. Caímos na vida de um casal e dele dependemos de toda sorte na formação de nosso caráter, na consolidação de valores humanos, no modo de ver o mundo e a relação com o próximo.  Assim é com irmãos e irmãs. Não os escolhemos. Calhamos de co-existir e nessa relação inevitável aprendemos a compartilhar, a dividir, a brigar por espaço, a brigar pelo sangue, a tomar dores pelo amor que atravessa a convivência e as cicatrizes na pele e na alma. Assim é com filhos. O bebê que vem habitar o ventre da mãe e o sonho do pai, num primeiro momento, e o berço no quarto e o espaço mais nobre no coração dos pais, num segundo, é posto em nossa existência também por escolha direta de Deus. O livre-arbítrio não chega ao ponto de definir qual filho queremos. Filho vem, nasce e se demora por toda a vida.

Contudo, com a pessoa com quem dividimos a vida é diferente. Essa somos nós que escolhemos. Por ser nossa, não faz sentido ser infeliz se a escolha tiver sido infeliz. Por isso as pessoas casam e descasam às vezes. Erro humano de análise. Há ex-maridos e ex-mulheres, mas não há ex-pais, ex-filhos, ex-irmãos. Eu, por exemplo, passei por três escolhas, sendo as duas primeiras equivocadas às suas formas. Por inversão, este texto se apresenta para dizer que a terceira foi a escolha certeira, feliz e inequívoca. Se Deus não mete o bedelho como faz no caso dos pais, irmãos e filhos, ele certamente trisca no traçado que nos permite encontrar um certo alguém que, dentre 6,6 bilhões de pessoas, vai mexer com você, fazer você perder o ritmo da respiração, causar suor nas mãos e fazer seu corpo cair morto de prazer. Alguém com quem você dividirá alegrias, comida, sorrisos, vitórias. Alguém com quem você amargará tristezas, vazios, lágrimas, derrotas. Alguém de quem você conhecerá segredos. E cada forma de olhar.  Alguém que saberá no tom da sua voz que algo ameaça a ordem das coisas.

Não somos perfeitos. Acertamos no atacado e erramos no varejo. Por isso, entre as belas paisagens de nosso trajeto a dois, vez por outra escorregamos e magoamos esse certo alguém. Sem querer deixar de chegar ao objetivo conjunto – repousar lado a lado no sono eterno – , desviamos por caminhos estranhos, desaconselháveis pela censura social. O que nos resta é lembrar que nosso certo alguém é escolha nossa e, por isso, somos responsáveis por sua proteção, por sua impermeabilização dos sofrimentos do mundo. Nas falibilidades humanas, saber cair antes para poder amortecer a queda do nosso certo alguém passa a ser a arte da convivência feliz, a condiçào da permanência da escolha certa.

Meu certo alguém é uma linda mulher de 35 anos hoje. De público,  eu peço que tome as minhas eventuais cambaleadas como passadas passadas no passado. Espero e desejo, como na música, que você me dê a mão, porque é ela que me dá a firmeza mais firme. Venha ser a minha estrela, para iluminar o que nos resta de percurso a dois no caminho da existência. Com você, toda complicação é tão mais fácil de entender. Hoje é seu dia: vamos dançar? Vamos luzir a madrugada? Porque eu desejo com todas as minhas forças que você seja a inspiração para absolutamente tudo que eu viver. Pai, mãe, irmãos, filhos: não escolhemos. Mas você eu escolhi. Meu certo alguém, que cruzou o meu caminho, que me mudou a direção. Mais do que meu certo alguém: o meu alguém mais certo. A minha melhor escolha na vida. Parabéns, Bi.

A mulher de vestido

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[Texto escrito em julho de 2008. Gosto muito deste texto pelo seu retorno. Foi um dos que mais geraram feedback e comentários].


Que me perdoem as feministas: ser feminina é fundamental. Ser feminina é deixar os cabelos longos soltos ao sabor do vento, para que por entre eles sopre desautorizadamente, ardendo os homens de inveja pelo entrelaçamento envolvente. Ser feminina é sorrir com os lábios pintados de batom beijado narcisisticamente na frente do espelho, num belo ritual de ajuste e preparação para o mundo. Ser feminina é sorrir com os mesmos lábios de batom, agora desbotados por outros em beijos autorizados ou roubados, permitidos ou proibidos, reais ou imaginários. Ser feminina é realçar pela pintura leve e pelos adereços da boa vaidade a perfeição natural da mulher, que a coloca sempre em destaque, fazendo menor até mesmo a admirável arte de um Miró ou um de Botero.

Ser feminina é dizer sem pronunciar. É gritar silente e silenciar em voz alta. Ser feminina é significar por múltiplas linguagens: olhares, sorrisos, abraços, lábios, pernas. Ser feminina é dar vazão a um flerte que surge do nada, sem razão de ser, numa improbabilidade levada a efeito por um bem-humorado destino, que por puro diletantismo cruza na geografia dos fatos a estrada da mulher no caminho do homem e vice-versa. Ser feminina é constatar sem culpas que a vida chega e não pede licença. Apenas chega, entra, senta à mesa, compartilha o pão da ceia e dorme no sofá.

Ser feminina é pensar como mulher. Desimitar os homens com seus dispensáveis modelos, seus inúteis paradigmas, seus inservíveis padrões. É usar o sexto sentido para escolher o caminho, valendo-se da intuição, esse toque de gênio de Deus em seu retoque final no mais gracioso dos seres. Ser feminina é jurar juras e chorar lágrimas de amor; é reclamar quando não compreender seus porquês e quando vir ignorados os seus mais íntimos desejos, as suas menores – mas não menos importantes – aspirações da vida a dois, eternas ou efêmeras. Mas ser feminina é também suspirar de exultação e plenitude quando o que agrada e deseja bate à sua porta sem avisar, convidando-a a reviver seus sonhos construídos na infância dos contos. Suas quimeras antigas, falsamente escondidas pela adulteza que veio, despertarão levemente como a bela adormecida, desde que se gire a chave certa no momento perfeito, abrindo a porta de um mundo novo de faz-de-conta real.

Ser feminina é ser racional e passional. Racional com as responsabilidades; passional com as irresponsabilidades. É, vez por outra, trancar a madre em si na masmorra mais alta da torre mais alta do monte mais alto que existe e jogar a chave fora, no fosso mais fundo dos jacarés mais violentos, de onde ninguém ousará tentar regatá-la. Ser feminina é acorrentar a mulher de limites e alforriar a louca do calabouço, habitante de seus secretos e inenarráveis desejos, quereres e tentações. A louca na mulher feminina anseia sair por aí, conhecer novos campos, sentir novos cheiros, viver nova vida, gozar novos prazeres, singrando novos mares como se fosse uma nau desprendida da fragata dos audazes navegadores do Séc. XVI. Madre e louca: o chaveamento da dualidade constitutiva da mulher é o segredo mais bem guardado do universo. Todos os homens o almejam, raros felizes sucedem em encontrá-lo, raríssimos sábios o guardam para si. Para a mulher, diferentemente do que se diz, saber guardar segredo é exercitar a feminilidade, aquilo que sempre será só seu e de mais ninguém. Para o homem sábio, guardar segredo é viver a sua porção mulher, quase sempre resguardada numa subutilização de uma fantástica ferramenta de compreensão de mundo, de condução da vida. Guardar segredo é ser mulher.

Ser feminina é ser menina com o Sol e mulher com a Lua. É morder os lábios nos abraços espremidos. De dia, os seus. À noite, os nossos. É, vez por outra, trocar o dia pela noite. Ser feminina é vitimar o homem com seu imbatível exército de desejo e, ao mesmo tempo em que conquista, se deixar seduzir e ser invadida pelo homem eleito, numa batalha incomum em que ganham os dois lados. Ser feminina é varrer o rosto masculino com seus cabelos em movimentos, imitando as ondas do mar, no vai e vem ritmado de corpos transpirantes. Ser feminina é, com os mesmos cabelos que os ventos beijam, sufocar deliberadamente a face masculina, causando inveja ao próprio vento e ao mundo, se eles, pobres ignorantes, pudessem saber que um dia que a cena existiu.

Ser feminina é não ter medo do prazer. Seja o de uma casquinha de chocolate gelado derretendo na mão ou o de um corpo suado derretendo na cama. Seja o de um toque comportado à luz do dia com mil testemunhas ou o de um roçar atrevido ao testemunho somente da meia-luz e do querer mútuo. Ser feminina é cantar. Cantar no chuveiro, no carro, no banho, no amor. É fazer do som que sai de sua boca a trilha sonora de seus momentos, numa alegria escandalosa de deliciosos suspiros cadenciados, regidos pelos movimentos não das mãos de um maestro, mas de corpos bailarinos do mais belo dos balés da natureza. Ser feminina é amar ao som das Bachianas de Villa-Lobos. Viajar com elas à placidez do encontro consigo, oferecida pelo momento da presença do seu escolhido aconchegado no calor de seu corpo.

Ser feminina é usar vestidos. A mulher num vestido mostra ao mundo seu estado mais feminino, depois, claro, do seu estado natural. São nos vestidos que as mulheres autenticam sua feminilidade, por isso os escolhem com capricho em ocasiões especiais. Nada contra jeans e blusas brancas com mangas ou com alças de laços. Mas quando se veste num vestido, a mulher transborda feminilidade, encharcando os olhos dos homens de uma querência vulcânica. Ser feminina é vestir um vestido florido, daqueles cujos panos que acortinam seu corpo dançam ao sopro do ar, nele deixando uma pergunta intrigante: onde terminam as flores e onde começa a mulher? Saber trajar um vestido é uma arte da feminilidade; saber despi-lo, uma arte da masculinidade. Conjugar o encadeamento das duas coisas é uma arte do destino atilado.

Foi uma mulher num vestido a inspiração desse texto. Ela inspirou outras coisas não ditas, interditas e interditadas. Pobres dos homens que não enxergam o sublime na mulher de vestido e que ignoram, por inocência ou incapacidade, seu poder transformador sobre nós.

Sérgio Augusto Freire de Souza


Dia das mulheres

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Desejo a todas, indiscriminadamente, o encontro das suas expectativas com o sucesso, de seus corações com o aconchego, de sua saúde com a estabilidade, de suas almas com a paz e de seus lábios com o sorriso. Feliz Dia das Mulheres. Beijo sincero e gordo de carinho do SF.

Abaixo, a próposito, o texto de Martha Medeiros, escritora gaúcha de quem gosto muito, publicado em O GLOBO.

MULHERES POSSÍVEIS

Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana – e as unhas! E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres. Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável… É ter tempo.

Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir. Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra. A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir… Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C. Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.

Martha Medeiros