Namoro

Detalhes

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Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo em sua vida eu vou viver…/Detalhes tão pequenos de nós dois/são coisas muito grandes pra esquecer/E a toda hora vão estar presents/Você vai ver…/Se um outro cabeludo/aparecer na sua rua e isto lhe trouxer saudades minhas a culpa é sua…/O ronco barulhento do seu carro/A velha calça desbotada ou coisa assim/ Imediatamente você vai lembrar de mim…/Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido palavras de amor como eu falei/Mas eu duvido, duvido que ele tenha tanto amor/e até os erros do meu português ruim/E nessa hora você vai lembrar de mim…/A noite envolvida no silêncio do seu quarto/Antes de dormir você procura o meu retrato/mas da moldura não sou eu quem lhe sorri/Mas você vê o meu sorriso mesmo assim/E tudo isso vai fazer você/lembrar de mim…/Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada/Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada…/Pensando ter amor nesse momento desesperada você tenta até o fim/E até nesse momento você vai lembrar de mim…/Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada do tempo que transforma todo amor em quase nada/Mas “quase” também é mais um detalhe/Um grande amor não vai morrer assim/Por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim…/Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver/Não, não adianta nem tentar me esquecer…

Um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada e por muito tempo insiste em viver ali, dentro de nós.

Passado um tempo, a cada esquina o dia a dia nos traz lembranças de um momento de uma vida a dois que se prometeu para sempre. No entanto, a promessa por alguma razão foi interrompida, abortada. Encerrou, mas não acabou.  Porque continuamos esbarrando em cheiros, cores, lugares e pessoas que são máquinas do tempo nos levando àquela época que hoje parece uma dimensão paralela, um tempo de cuja existência esquecemos quando nos pegamos distraídos com a vida. Pegos no susto da lembrança, exclamamos, surpresos: puxa, eu já amei essa pessoa!

Os detalhes tão pequenos de uma trama de afeto são coisas muito grandes para cair no vale do esquecimento. O tamanho de tudo quando se fala em amor não é físico, mas simbólico. Pode caber no espaço de um pingente ou numa aliança tosca de compromisso feita de tucumã. Há detalhes. Aquela história, aquele pôr-do-sol, aquela viagem. Aquela mania, aquela preferência, aquela implicância. O lugar na cama, a tampa da manteiga sempre aberta, a roupa sempre espalhada. Aquele perfume, aquela música, aquele boteco, aquele jeito de sentir prazer. Aquele defeito tão bonito. Como nós não podemos apagar o mundo que circunda aqueles que passaram em nossa vida, os detalhes sempre se farão presentes. Os detalhes moram do mundo, mas pertencem a enredo de dois.

No curso da vida surgirão outros amores. Esses amores novos nos amarão bem menos e pior do que o que se foi. Por isso, amores capengas nos farão lembrar do amor que passou justamente pela intensidade e pela qualidade de tudo o que vivemos e que não temos mais. Alguns outros amores, por outro lado, nos amarão bem mais e melhor do que o suspenso. Esses nos trarão à memória a tristeza da potencialidade não exercida daquele amor que acabou, que não foi tudo aquilo que poderia ter sido. Não tem jeito: a memória é um beco saída. Uma vez dentro, nos encurralamos contra o muro da lembrança. Só tem saudade quem viveu.

Se há uma coisa que constrange o coração é reconhecer em um novo amor a presença de um antigo. Um mesmo hábito, o mesmo jeito de sorrir, o mesmo perfume. A maneira de mexer no cabelo, os movimentos dos abraços ou do quadril… Ou falta de tudo isso. O novo faz assim, mas o antigo fazia assado. Ou cozido. Detalhes. Diz a frase que o diabo mora nos detalhes. Se assim é, o diabo e as lembranças são colegas de quarto. Nos detalhes, a essência do que se foi.

Sabe o que mais dói quando um amor entra em suspensão? É a perda dos detalhes do outro. Perde-se alguém quando se perde seu cotidiano, sua micro-história, suas tristezas e alegrias, que ficam incompartilháveis. Mais: outra pessoa está presente naquele dia a dia que era nosso por direito. Com certeza a vaca ou o babaca está lá com menos afinco do que nós. Outra pessoa está ouvindo frases que eram nossas, fazendo carinhos que deveriam estar vindo de nós e para nós. Humanos pretensiosos, temos a mais absoluta certeza de que o outro que está falando palavras de amor no ouvido que se foi não tem tanto amor como nós tínhamos. Apostamos um dedo polegar em que o impostor não fala do jeito que nós falávamos. É um ultraje esse outro viver a nossa vida, protagonizar os nossos atos, atuar em nossos enredos. Um canastrão qualquer agora encena esse papel que era nosso. Que triste espetáculo!

Detalhes. Arrumando as coisas, uma foto dentro de um livro. No livro, uma dedicatória feita em tempos outros para nós, que já não existimos mais. Como era verdadeira aquela dedicatória… Até a letra era caprichada. Há dúvidas se o cheiro de mofo é do livro ou dos sentidos contidos naquele pedaço de texto. Na foto, um sorriso que preenchia boa parte do nosso dia. Instante de um momento cujas circunstâncias passamos a recordar. Com detalhes. Mas tal qual em “De volta para o futuro”, a companhia da foto está esmaecida porque o futuro não aconteceu por um desvio de rota no passado.

Jogamos fora as fotos, apagamos e-mails e posts, colocamos uma outra foto no porta-retratos. De que adianta tudo isso se o cérebro continua mandando torpedos para o coração? Do que vale trocar as fotos se nas molduras onde há a presença de outra pessoa que lhe sorri, nós continuamos a ver outro sorriso mesmo assim? A lembrança é um espírito obsessor que nos acompanha no carro, no banho, na lua cheia que olhamos, pensando em cenas românticas.

Amores e suores. Delícias de enredos a dois. Se fosse um filme, seria um clássico. Se fosse um livro, seria um best-seller. Se fosse uma música, uma do Roberto. Mas foram-se as histórias. Saíram de cartaz. A vida seguiu e outros amores vieram para beijar nossa boca, lamber nossa carne, tocar nosso corpo. Evitamos falar qualquer coisa no frenesi do balé dançado nos lençóis com o receio apavorante e real de dizer o nome acostumado sem querer à pessoa errada. O breve segundo de consciência sobre quem está encaixado em nós nos tira a concentração. Desesperados, tentamos artifícios para ir até o fim. Recorremos aos olhos fechados para garantir a presença ausente naquele corpo que agora explora o nosso. Por instantes, fingimos acreditar em prazeres novos, nos iludindo em um hedonismo da carne, do sexo e da luxúria, sem sustança afetiva. O sexo é bom. Mas não é igual. É legítimo dublar corpos?

A longa estrada do tempo tem seus caprichos. Ela tende a transformar todo um amor imenso em quase nada, apagando os detalhes, deixando só os rascunhos da história em linhas muito gerais. Quase nada. Mas o quase é mais um detalhe também. É por esse fio de memória que um grande amor se oxigena na história de nossas vidas e não morre nunca. No máximo, fica cataléptico. Dorme para despertar ao seu capricho.

Não, não adianta tentar esquecer. Durante muito tempo os detalhes vão viver. Fato é que tentar apagar detalhes entranhados em nossa carne, em nossa alma, em nossa história é querer apagar uma parte de nós. Não se passa borracha em vidas. Memórias não são retornáveis. Nem devem ser. A antologia universal do amor guarda algumas páginas para os nossos amores. Amores que se foram, é verdade. Mas que deixaram em nós traços de si, nos tornando melhores e nos preparando para outro alguém que tecerá uma vida cheia de mais outros detalhes, feito um manto do Arlequim. É mais prudente guardar nossa caixa de detalhes dos que cruzaram nossas vidas e acarinhar cada souvenir deixado por quem passou do que fingir que não existiu histórias que nos trouxera até aqui. Ciclos precisam se fechar para que outros se abram. Mas não precisam sumir. Se o novo amor exige isso, livre-se dele. Ele não respeita seus pedaços. Ele não entende que nós somos o que nós temos sido. Que amores que passaram e de certa forma ficaram fizeram de nós as pessoas por quem ele se apaixonou.

Porque um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada dentro de nós e por muito tempo insiste em viver ali. Em detalhes.

Futuros amantes

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Não se afobe, não/que nada é pra já/O amor não tem pressa/ele pode esperar em silêncio/num fundo de armário/na posta-restante/Milênios, milênios/no ar/E quem sabe, então/O Rio será/alguma cidade submersa?/Os escafandristas virão/explorar sua casa/seu quarto, suas coisas/sua alma, desvãos/Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você.

O amor é líquido. Ele se conforma com as formas possíveis. Às vezes tem a forma plena de uma mar aberto. Às vezes cabe num guardanapo de lanchonete ou num vidrinho de perfume. Às vezes se presentifica somente nas ideias. Mas o amor é. Mesmo quando ele não pode ser, ele acaba sendo.

Diz Paulo, no livro que não finda, que o amor é paciente. Sim, o amor não tem pressa, ele pode esperar milênios, milênios no ar. Quem se afoba somos nós, súditos desobedientes que não compreendemos o seu tempo. Por causa disso, quase sempre estragamos tudo. O amor verde, antes do seu tempo, é duro. Não se conhece a textura na mordida da boca. Por vezes é amargo, mas não de si, mas amargo da língua aftosa e herpética de querências fora de tempo. Não dá para apressar o rio do amor: ele corre sozinho. Aprender a esperar o tempo do amor é um segredo para poucos felizardos. Uma pérola repousa por anos na ostra.

Se o amor é paciente e devemos nos espelhar nisso, onde guardar o amor que não pode ser? Depende da história. Uns guardam num fundo de armário. Outros, na posta-restante dos Correios, que andam ariscos demais, a propósito. Para quem não sabe o que é posta-restante: a gente pode pôr uma indicação no subscrito de uma carta quando quer significar que ela deve permanecer na repartição dos Correios até que seja reclamada pelo destinatário. A posta-restante é o lugar onde ficam tais cartas, as que restam. Assim, um amor sempre tem um remetente. Às vezes o destinatário não reclama o amor. Às vezes sequer sabe sobre ele. Porque não pode. Ou não quer. Para dar um F5 no texto, podemos dizer que hoje se guarda em e-mails nas caixas de rascunhos, em SMSs no draft, em tweets soltos na timeline, em cutucões reticentes no Facebook, em posts a postos para serem publicados, só esperando a coragem. Essas são versões modernas e descafeinadas do amor. Todos lugares mais modernos de se guardar um amor quando seu tempo não chegou ainda. Ou quando não pode chegar.

Mas se o amor não chegar, ele se perde? Não, o amor não se perde. Esse é o segredo. O amor não tem dono. É um grande erro pensar-se dono do amor. Quando não se acha aqui, o amor migra para acolá. Se não pode acontecer do jeito pretendido neste tempo e espaço, o amor corre, evapora, condensa e chove em outro lugar, para outras gentes, em outra geografia, em outras épocas.

Num futuro, como diz a música, escafandristas – só o Chico Buarque para colocar com pertinência escafandristas numa música – recolherão e arqueologistas consultarão os vestígios digitais e analógicos do amor não vivido. Os sábios de então procurarão, ávidos, a Pedra Rosetta, o granito negro que lhes permitirá ver o tamanho do amor que não se plenificou. Ficou na história universal dos amores não vividos, como aquele de Verona. Como o amor não se perde, mas se trasmuta, se metamorfoseia e migra, enquanto tentam os arqueológos decifrar de onde veio, futuros amantes estarão usufruindo com delírio desse amor diferido, de feridos, sem saber que ele é herança de uma impossibilidade passada.

Nada de tristeza. Pode-se sempre usar o amor viajante, deixado pelos amores proibidos do século XVI. Se não cairmos na falácia de que tem de ser um amor específico, podemos entender que podemos ser os futuros amantes de um passado no nosso presente. Não se afobe, não. Amores serão sempre amáveis. Nada é pra já.

Carmelitas digitais

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Caro amigo. É com grande tristeza que sinto informá-lo: você está sendo deletado desta rede social como meu amigo. O motivo é simples. Sou ciumenta e controladora – sei que isso não deve ser novidade para você – mas enfim, eu e meu namorado entramos em um acordo, e a fim de cumprir minha parte neste acordo estou deletando todos os meus amigos do sexo masculino apenas de minhas redes sociais, exceto parentes. Dou a você o direito de achar isto uma idiotice, uma puta falta de sacanagem, etc, imaturidade, etc. Chame do que quiser, mas saiba que espero continuar contando com sua amizade e vice-versa. Meu e-mail está sempre disponível e você poderá contar sempre comigo, menos para aquilo que você já sabe o que é – pedir dinheiro emprestado. Se quiser culpar alguém, não culpe a mim, que sou uma pessoa apaixonada e boboca, não culpe o meu namorado tampouco – culpe a Deus que te fez homem, porque se tu fosses mulher continuarias na minha lista. Kkkkkkkkkkkkk Um grande abraço. E um Feliz 2011.

Recebi essa mensagem de uma ex-aluna no Facebook e achei um barato. Ela é um exemplo prático da paranoia que as redes sociais trouxeram para o relacionamento a dois.  Merece alguns comentários.

Por que as redes sociais digitais assustam algumas pessoas no quesito pôr em risco o relacionamento? Que perigo podem representar para uma relação do mundo real? Há perigo de fato? Fiquei pensando com minhas teclas…

Somos dependentes de nosso mapa do amor. Seguindo o raciocínio estatístico, quanto mais estivermos expostos aos círculos sociais, maior a probabilidade de encontrarmos alguém que preencha os requisitos desse nosso mapa do amor, composto das características que uma vez preenchidas fazem acender a luz: pode ser amor! Assim, quanto mais convivemos com pessoas, real ou virtualmente, maior será a nossa vulnerabilidade para que isso aconteça.

Até aqui beleza: as redes sociais são mais possibilidades de conhecermos pessoas legais que talvez nos interessem. Um achado para quem é solteiro. Dá para conhecer as pessoas a fundo porque ninguém consegue não ser si mesmo por muito tempo. Mas para os casados e comprometidos, o  potencial positivo das redes passa a ser encarado como uma bomba de nêutrons para os relacionamentos: pode fazer a pessoa amada se evaporar para outras bandas. Do jeito que vem, vai. É quando há algumas possibilidades de encarar as coisas.

A primeira: as partes do casal (ou uma delas) passam a proibir, abertamente ou não, que o parceiro participe das redes sociais. Como o casal aí em cima. É o princípio “melhor não arriscar”. Na minha avaliação, é enxugar gelo. Por essa lógica, logo estarão proibidas as amizades do trabalho, da faculdade, de infância e afins. A verdadeira liberdade do amor se encontra na certeza da reescolha no livre arbítrio. Por poder escolher é que a escolha em mim faz dessa escolha uma escolha especial. Desse jeito aí de cima, retirando espaços de circulação, ambos viverão numa mosteiro feito as irmãs carmelistas descalças: isolados do mundo. It’s trying to catch the deluge in a papercup… Fail.

Uma segunda opção: entende-se que o caminho dos relacionamentos na sociedade da informação é feito pelos nós das redes sociais e que isso necessariamente não coloca em risco o relacionamento a dois. Não é bom nem ruim. É assim. Pelo menos não há mais risco do que na própria convivência nos demais círculos sociais. Ficar monitorando à distância é o que resta ao cônjuge – casado ou não – com aquele ciuminho regulatório, aquele que não faz mal e sinaliza que a gente está ligado. Vez por outra pode vazar algo para além do aceitável e uma dê-errezinha corrige tudo. Cada casal acaba definindo sua ética online do que pode ou não. Acho digno. Faz parte da construção da vida a dois. É com o tempo que percebemos que podemos querer bem as pessoas sem querê-las para si. Quando um dos dois não está online, aí o problema se dilui consideravelmente. Só sobram os olhos de Deus a olhar nossos tweets e status.

Uma terceira opção é mais radical. O casal vive as redes sociais como se realmente elas fossem uma second life. Ali, naquele universo digital, tudo que se fala e se faz não tem nada a ver com a vida real. Ou pressupõe-se que. Acompanho alguns casais assim no Twitter. Eu acho estranho. Não dá para esquecer que entre o mundo real e o mundo virtual existe o dedo no mouse como ligação. Que o suporte é digital, mas os sentimentos são analógicos e bem humanos. Para mim, essa escolha é um ato inconsciente e sintomático de egoísmo. E sem valoração aqui. Egoísmo como escolha paradigmática subjetiva. É uma escolha válida. Não é a minha, mas está valendo também.

Nas redes sociais as pessoas podem se encantar por alguém. Podem odiar alguém. Podem se apaixonar e desapaixonar. Podem conhecer o grande amor da vida ou podem chegar a conclusão de chegaram atrasadas naquela história. Quando há compromisso afetivo, são sensações reais que vão aparecer não por causa das redes sociais, mas por causa de algum vácuo no relacionamento que se dá fora delas. Porque no trabalho, na política, na guerra e no amor é assim: quando não se ocupa o lugar vem alguém e o ocupa. É uma lei da física. Da física dos afetos, inclusive.

Mas essas são só impressões minhas. Pode discordar à vontade, leitor. Há pessoas que encontram nas redes sociais o espaço para o exercício de seus outros eus. Um eu-lírico, um eu-literário, um eu-personagem. Nesses eus abrigam-se desejos inquietos, querência contidas, deslimites. E, como num romance pós-moderno, o personagem vaga de rede em rede social, cutucando, aparecendo, sumindo, brincando de esconde-esconde, numa ludicidade que faz bem à alma. A graça está aí. Ser um nó na rede não significa que se precisa ficar parado, feito um nó-cego. Assim, forçar alguém a sair da rede sem querer sair é estragar o gozo do menino na brincadeira de roda. É igual à cena d’O Meu Malvado Favorito: dá o balão para ter o prazer de estourá-lo. Não é amor: é maldade. Fail de novo.

Não busquemos atribuir nossas neuras ao suporte quando elas são dos sujeitos. Vamos resolvê-las aqui fora, numa boa conversa, com olhos nos olhos, porque o sol continua a passar pelos furos da peneira. Aliás, hoje tudo é liquido hoje e escorre pelas mãos. Quem consegue viver fechado para o mundo conectado? Nem as irmãs carmelitas descalças. Dá uma olhada no perfil do Papa no Orkut e vê lá as últimas visitas. É uma metáfora, claro. O Papa não tem Orkut. Só Facebook.

Sabe como eu respondi a mensagem da minha ex-aluna? Assim: Beleza. Feliz 2011. Até a volta. =)

Namorar

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É bom namorar. É bom namorar seu namorado, sua namorada, seu noivo, sua noiva, marido, mulher, chamego, chamega. Mas namorar é algo muito grande, incomensurável, que vai mais além do que o doce momento de dois amantes humanos.

Namoramos quando curtimos os bons momentos da vida, independentemente de se neles estão ou não nossas caras-metades. Namoramos o cãozinho de raça que olha pidão pela vitrine do pet shop, oferecendo sua amizade sincera e também o gato vira-lata que nos olha de cima do muro como se soubesse nosso mais secreto segredo. Namoramos o bebê que sorri ao estranho no colo da mãe. Namoramos a mãe do bebê quando ela percebe que namoramos seu filho. Namoramos o estranho que segura a porta aberta para passarmos com as mãos cheias. Namoramos um amigo, a despeito de sua piada velha, só engraçada porque contada por ele. Namoramos as memórias, retalhos de nossas vidas, e namoramos os planos, panos que a comporão daqui pra frente.

Namoramos o livro que lemos e que nos faz pensar. Namoramos o filme que lembra de nossa afetividade e causa o escorrer da lágrima solitária, que cai escondida no saco de pipoca para que ninguém veja, disfarçada num bocejo de um falso sono. Namoramos aquele pedaço de chocolate na porta da geladeira, troféu de nosso desejo, que nos vence numa derrota desejada. Namoramos o dia belo, azul e ensolarado, como hoje, e, traidores, namoramos igualmente a chuva forte, que marca a cadência de nossos sonhos em seus pingos. Namoramos o travesseiro na cumplicidade do sono esticado e namoramos igualmente a persiana que acoberta esse sono. Namoramos a velha revista na cesta do banheiro. Como uma velha amiga, ela sempre parece nova em sua solitária antiga companhia. Namoramos o espelho do elevador, lugar privilegiado para o ajuste de conta com nossos cravos. Namoramos a música que toca nossa vida, trazendo cheiros, lugares e pessoas que namoramos. Aquela virada bateria do Queen, o solo do Pink Floyd em Wish You Here, o amor injusto na lenta do Leo Jaime, o sax do Dire Straits, os questionamento dos cantores latinos, o convite de Adriana Calcanhoto em Vambora

Namoramos nossa profissão. Quem não namora o que faz é triste e mal amado porque não se deixa aprender a amar pela simbiose da vida, porque não sabe se namorar. Namoramos nossos professores porque nos fascinam pelo seu percurso e nos servem de horizontes, mapas de desejos futuros. Namoramos nossos alunos, seus olhares, suas descobertas, seus anseios, seus medos. Olhares, respostas, anseios e medos que um dia nos também já namoramos. Namoramos a lua. Namoramos o sol. E sem problemas, porque um nunca nos vê com o outro. Namoramos os minutos curtos e densos que são densos porque curtos. Namoramos a sincronia de pensamento que algumas pessoas têm conosco. Namoramos a sensação da química instantânea, indescritível como as sensações do primeiro namoro, da primeira vez que vemos o mar, da primeira vez que quebramos uma regra. Namoramos o toque nas mãos suadas e sinceras, o abraço do reencontro surpresa que tira o fôlego. Namoramos o piscar de olhos que clama nossa cumplicidade e sela a sinceridade plena. Namoramos o calor que aquece os corpos e os desejos nos quentes dias de Manaus, mas namoramos também o frio de Campinas em julho, que nos oferece a oportunidade de uma costa quente de alguém para nos aquecer. Namoramos o velho, que nos conforta e acomoda; namoramos bígama e desavergonhadamente o novo, que desafia nossas bases conceituais e valorativas e lembra que estamos vivos e em constante movimento. Namoramos o barulho, que nos faz rir na multidão simultânea e incompreensível de vozes amigas. Namoramos o silêncio da contemplação e da solitude, do momento nosso e de mais ninguém, em que namoramos nossa alma, nosso eu interior, ouvindo Kenny G ou Tom Jobim. Ou Kenny G tocando Tom Jobim.

Namoramos a razão, pois nos faz seguir a vida. Namoramos clandestinamente a loucura, que alimenta nosso id, animal de estimação do qual cuidamos ainda que de forma escondida e velada, atirando-lhe os ossos que conseguimos para que não morra. Namoramos o horário da rotina por sua certeza e namoramos o chute no balde dos compromissos para curtir o compromisso com a falta de compromisso por sua incerteza.  Namoramos os Beatles que dizem “lei it be”, amigo, “que passa”. Namoramos Reginaldo Rossi que rasga nossa vida como um confidente bêbado numa canção brega.  Namoramos Gonzaguinha porque, convenhamos, “é bonita e é bonita…”.

Namoramos a luz, que nos permite a clareza. Namoramos o escuro, que nos força o sentir e exige o aguçar da percepção e da sensibilidade. Namoramos a porta trancada da segurança. E namoramos igualmente a porta escancarada, que traz a novidade que muda nossa vida a cada chance. Namoramos os protocolos de intenção em relação a atitudes e surpresos descobrimos que estamos mais enamorados pela quebra do protocolo, pela surpresa do imprevisto, pelo “ah, deixa pra lá”. Porque agora é agora e não o será nunca mais.

Namoramos aquele laptop ou sapato na prateira da loja. Eles também nos olham e desejam como a mulher do próximo que, vez por outra, namoramos. Cada dia um olhar comprometedor, cada vez mais envolvente, cada vez mais imã, com cada vez mais visgo que prende. Namoramos a água, porque mata a sede. Namoramos a sede de querer algo tão fortemente que a garganta seca, a boca racha, a respiração ofega. Namoramos o vinho, que embriaga e nos deixa leve, passaporte para uma terra dos sonhos, uma dream-away land, onde tudo pode, tudo acontece. Namoramos o amor comportado, pai e mãe, cabelo penteado, terço na mão. E namoramos o amor moleque, sem regras, desafiador, suado, cochino, incorreto, com seus cabelos embaraçados e esvoaçantes e tridente nas mãos.  Namoramos a vitória, que nos coroa os esforços; namoramos a derrota, professora sábia de vida para os que se ousam alunos. Namoramos o vigor juvenil, que vai, tenta e arrebenta ou se arrebenta. E namoramos a sabedoria cultivada de uma vida, pois fica porque pondera, se sustenta porque já viveu. Namoramos andar de terno pela imponência da estampa, ainda que falsa, e namoramos a estampa do Taz na cueca que nos veste em casa, no desfile solitário do quarto para a cozinha para fazer aquele sanduíche de salame no intervalo do filme de sábado à noite.

Namoramos o azul que acalma e o vermelho que atiça. Namoramos o dinheiro que nos permite namorar o desejo e namoramos o desejo que ignora solenemente o dinheiro. Namoramos a visão ampla e clara dos fatos da vida e namoramos a cegueira da paixão, da lubricidade, do querer maluco. Namoramos o olhar e o sorriso conhecido em tudo aquilo de novo que trazem consigo. Namoramos as mariposas porque buscam a luz. Namoramos os vaga-lumes porque vagam lumes, caixeiros-viajantes de luz na escuridão. Namoramos a pergunta, que conduz ao conhecimento e namoramos a resposta, que traz novas perguntas. Namoramos o som, que nos traz a reflexão pelo que nos adentra os ouvidos. Também namoramos o silêncio, pois nos faz pensar a partir da ensurdecedora paz no coração. Namoramos o rio, porque sabe de cor o seu caminho. Namoramos o vento porque faz o seu caminho a cada segundo. Namoramos o perfume francês por sua unicidade e namoramos a alfazema do bebê pela universalidade.

Namoramos quem joga as coisas para o alto ao vento, pois partilha. Namoramos quem engaveta, porque guarda. Namoramos quem guarda, porque sente, porque quer ter para sempre. Namoramos quem quer ter e sente porque se faz capaz de namorar. Namoramos o tempo, senhor da cura das memórias dolorosas. Namoramos o tempo, curador das memórias sem cura. Namoramos o destino, que nos prega peças moleques e muda o rumo de nossas vidas quando bem entende, alterando os pés-de-lebre nas linhas dos trens de nossas vidas. Namoramos as pessoas que o destino caprichosamente nos traz, mostrando sempre que há pessoas novas e, portanto, vida contínua. Ah, como é bom namorar! É bom namorar seu namorado, sua namorada, seu noivo, sua noiva, marido, mulher, chamego, chamega. É bom namorar a vida. Feliz dia dos Namorados, meus amigos.  Feliz dia dos Namorados.