oportunidade

Futuros amantes

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Não se afobe, não/que nada é pra já/O amor não tem pressa/ele pode esperar em silêncio/num fundo de armário/na posta-restante/Milênios, milênios/no ar/E quem sabe, então/O Rio será/alguma cidade submersa?/Os escafandristas virão/explorar sua casa/seu quarto, suas coisas/sua alma, desvãos/Sábios em vão/tentarão decifrar/o eco de antigas palavras/fragmentos de cartas, poemas/mentiras, retratos/vestígios de estranha civilização/Não se afobe, não/Que nada é pra já/Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você.

O amor é líquido. Ele se conforma com as formas possíveis. Às vezes tem a forma plena de uma mar aberto. Às vezes cabe num guardanapo de lanchonete ou num vidrinho de perfume. Às vezes se presentifica somente nas ideias. Mas o amor é. Mesmo quando ele não pode ser, ele acaba sendo.

Diz Paulo, no livro que não finda, que o amor é paciente. Sim, o amor não tem pressa, ele pode esperar milênios, milênios no ar. Quem se afoba somos nós, súditos desobedientes que não compreendemos o seu tempo. Por causa disso, quase sempre estragamos tudo. O amor verde, antes do seu tempo, é duro. Não se conhece a textura na mordida da boca. Por vezes é amargo, mas não de si, mas amargo da língua aftosa e herpética de querências fora de tempo. Não dá para apressar o rio do amor: ele corre sozinho. Aprender a esperar o tempo do amor é um segredo para poucos felizardos. Uma pérola repousa por anos na ostra.

Se o amor é paciente e devemos nos espelhar nisso, onde guardar o amor que não pode ser? Depende da história. Uns guardam num fundo de armário. Outros, na posta-restante dos Correios, que andam ariscos demais, a propósito. Para quem não sabe o que é posta-restante: a gente pode pôr uma indicação no subscrito de uma carta quando quer significar que ela deve permanecer na repartição dos Correios até que seja reclamada pelo destinatário. A posta-restante é o lugar onde ficam tais cartas, as que restam. Assim, um amor sempre tem um remetente. Às vezes o destinatário não reclama o amor. Às vezes sequer sabe sobre ele. Porque não pode. Ou não quer. Para dar um F5 no texto, podemos dizer que hoje se guarda em e-mails nas caixas de rascunhos, em SMSs no draft, em tweets soltos na timeline, em cutucões reticentes no Facebook, em posts a postos para serem publicados, só esperando a coragem. Essas são versões modernas e descafeinadas do amor. Todos lugares mais modernos de se guardar um amor quando seu tempo não chegou ainda. Ou quando não pode chegar.

Mas se o amor não chegar, ele se perde? Não, o amor não se perde. Esse é o segredo. O amor não tem dono. É um grande erro pensar-se dono do amor. Quando não se acha aqui, o amor migra para acolá. Se não pode acontecer do jeito pretendido neste tempo e espaço, o amor corre, evapora, condensa e chove em outro lugar, para outras gentes, em outra geografia, em outras épocas.

Num futuro, como diz a música, escafandristas – só o Chico Buarque para colocar com pertinência escafandristas numa música – recolherão e arqueologistas consultarão os vestígios digitais e analógicos do amor não vivido. Os sábios de então procurarão, ávidos, a Pedra Rosetta, o granito negro que lhes permitirá ver o tamanho do amor que não se plenificou. Ficou na história universal dos amores não vividos, como aquele de Verona. Como o amor não se perde, mas se trasmuta, se metamorfoseia e migra, enquanto tentam os arqueológos decifrar de onde veio, futuros amantes estarão usufruindo com delírio desse amor diferido, de feridos, sem saber que ele é herança de uma impossibilidade passada.

Nada de tristeza. Pode-se sempre usar o amor viajante, deixado pelos amores proibidos do século XVI. Se não cairmos na falácia de que tem de ser um amor específico, podemos entender que podemos ser os futuros amantes de um passado no nosso presente. Não se afobe, não. Amores serão sempre amáveis. Nada é pra já.

Frase do dia

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“A oportunidade dança com aqueles que já estão no salão.” H. Jackson Brown

Não dá para esperar o bonde da história passar. Ai de nós se não formos atrás dele na estação…