pai

Pai é bem mais que um pau

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Recebi alguns pedidos para me manifestar sobre o lance da Natura ter chamado o Thammy Miranda para fazer o comercial do Dia dos Pais. Vou abordar o assunto sobre o ponto de vista discursivo, que é o meu baratinho.

Nessa discussão toda, há um embate claro sobre o sentido de família. De um lado, há um discurso de cunho religioso fundamentalista, tipo o dos malafaias da vida, que foca em família a partir do ponto de vista da forma, mais especificamente da forma biológica. Esse discurso entende família a partir de uma concepção pênis/vagina. Só há família se houver um homem e uma mulher, biologicamente definidos. Adão e Eva. O que acontece nessa família é menos importante. Pouco importa se não há uma relação saudável do casal, pouco importa que o pênis e a vagina não mais se tocam porque o casal leva a relação com a barriga. Para quem foca na forma, a discussão sobre a qualidade da relação é geralmente secundarizada.

Do outro lado da discussão, há um discurso que compreende família não a partir da forma, mas de seu funcionamento. Para esse outro discurso, família é um lugar feito por gente que se ama, se cuida, se protege, que dá amor e provê o afeto necessário para preparar uma eventual criança para ser um adulto sadio e feliz. Família, então, é algo independente da forma: o casal pode ter uma relação heteroafetiva, homoafetiva ou trans, como o Thammy. Tanto faz a forma desde que a dinâmica do funcionamento da relação seja a fonte de afeto sadio.

Essa dicotomia discursiva explica a grita sobre o comercial da Natura. Quem se identifica com o discurso do comercial, com a presença do Thammy como o pai homenageado, que privilegia o funcionamento e não a forma biológica, acha bacana demais o foco na diversidade. Porque pai é uma função simbólica, mais do que biológica, mais do um fornecedor de esperma. Quem não se identifica ou se ofende com a Natura, por outro lado, esperneia porque acha que chamar Thammy para um comercial do Dia dos Pais é uma afronta ao que é correto, ou, pelo menos, àquilo que seu discurso sustenta como correto, de Deus. Mas qual é sua concepção de Deus? Um outro texto seria necessário só para discutir isso, claro.

Há ainda uma outra discussão atravessada nessa: sobre moral e ética. Ambas dão liga à sociedade. Mas a moral é individual, para mim, para dentro. A ética é social, para o outro, para fora. Sua moral pode dizer para você que uma relação homoafetiva não é aceitável, não é correta, não é de Deus, whatever. É imoral, ou seja, fora da moral. Da sua moral. E por isso você não se envolve numa relação homoafetiva. Até aí é legítimo. Agora, querer impor a sua moral aos outros, a ferro e fogo, na marra, não é ético. Os outros têm direto à sua moral também.

“Ain, mas como se resolve isso?”. Isso é a diversidade social, amigo. Concordamos com certos discursos e de outros discordamos. Não só nessa questão da sexualidade. Mas na questão da educação, da saúde, das questões indígenas, ambientais, político-partidárias. Resolvemos essas questões nos organizando social e politicamente, buscando gestar garantias coletivas. A união civil entre pessoas do mesmo sexo foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2011. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos. Para mim, que penso em casamento como funcionamento e não como forma, isso foi um grande avanço. É desse tipo de organização que estou falando. A luta política na pólis. Ainda mais em tempos de um presidente xexelento, que defende o discurso da forma.

Tenho visto a proposta de Cancelamento, posta por alguns, de ambos os lados. Cancela a Natura. Cancela o Malafaia. O Cancelamento lacra. Mas é uma bobagem em longo prazo e uma porta muito grande para a intolerância e para o linchamento em curto prazo. Para mim, e tenho dito isso sempre que posso, Cancelamento é um atestado de incapacidade de organização social para implementação de mudança efetiva por vias políticas, que dão, essas sim, garantias para além dos holofotes imediatos das redes sociais.

Abordei aqui dois discursos sobre família. Só que, óbvio, a coisa não é tão arrumadinha quanto eu coloquei no texto, não. Atravessados nessa discussão, há outros discursos. Posso concordar com a Natura pela escolha do Thammy para o comercial, que vai ao encontro do que eu penso quanto às relações afetivas, mas discordar da Natura quanto a algumas de suas escolhas de sustentabilidade, por exemplo, entrando em jogo aí outro discurso, o ambiental. Por isso que dizemos: política é conjuntura. Meu aliado agora pode ser meu adversário amanhã. Depende do enfoque. Depende do discurso. É assim que funciona. Movimento. Movência.

Enfim, grosso modo, viver é isso: é fazer escolhas, é se posicionar. Achar que uma família se faz com um pênis e uma vagina é reduzir ao raso a questão da qualidade de uma relação que precisa de afeto, de amor. Como psicólogo que sou, defendo cada vez mais a ideia fundamental de que o afeto da infância é o que dá liga à saúde psíquica na vida adulta.

É Dia dos Pais. E pai é lugar simbólico, não é só biológico. É um lugar de quem tem pênis ou não, pouco importa, em uma relação homoafetiva ou heteroafetiva. Podem ocupar esse lugar o avô, a avó, o tio, a tia, o padrasto, a madrasta, o padrinho, a madrinha, um amigo da família.

Porque, convenhamos, tem pai que tudo o que fez na geração de um filho foi entrar com o pau para fecundar. E às vezes numa transa xoxa, sem graça. Que esses pais que são só biológicos e que se abstêm de ocupar seu lugar imprescindível de provedor de afeto fiquem bem longe do comercial da Natura ou de qualquer outro comercial do Dia dos Pais. Parabéns, Thammy. Parabéns, a todos os pais que não são só paus.

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

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Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

Meu pai morreu há três meses. Foi o mais próximo que a morte chegou de mim. Antes disso, ela tinha me visitado quando levou minha vó, há 15 anos. Um hiato que me fez esquecer da morte por um bom tempo, ocupado que estive em viver as coisas da vida.

Procurei entender a morte do meu pai. Eu li tudo que pude sobre perda, separação, angústia, luto. Li sobre a dor do amor. Livros, artigos, assisti a vídeos e filmes. Tentei buscar um sentido para a morte do meu velho, como recomenda o psicólogo judeu Vicktor Frankl. Ele sobreviveu à barbárie de Auschwitz dando sentido à experiência trágica. Frankl dizia a si mesmo que precisava explicar ao mundo a psicologia de um campo de concentração e isso o manteve vivo. Só de Frankl, eu li três livros.

Descobri nas minhas leituras que o luto normal demora pelo menos um ano. Tempo do primeiro tudo sem a pessoa: primeiro dia sem, primeiro mês sem, primeiro dia dos pais sem, primeiro aniversário seu sem, primeiro aniversário dele sem, primeiro Natal sem, primeiro ano sem, primeira falta de colo. A morte do meu pai me trouxe mais pesadamente a consciência da finitude. Mas me trouxe muito mais do que isso: trouxe uma maior clareza sobre minha própria existência.

Ter consciência sobre si mesmo é um dom que desenvolvemos com a idade. Podemos potencializar e acelerar esse dom por meio de eventos pontuais de dor. Aprendemos a ter consciência do que vale e não vale a pena investir, de quem vale e de quem não vale gostar. Fica clara a consciência de que a vida precisa ter qualidade. Abandonamos sem dó aquilo e aqueles que nos fazem mal. No entanto, esse ter consciência sobre si traz no pacote a ferida da mortalidade. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns) e vamos morrer. Simples assim. E complexo assim. Porque precisamos decidir o que é, afinal, a morte para nós e isso vai fazer diferença em como a gente vai viver.

As pessoas lidam com a morte de formas diferentes. Há graus de angústia da morte. Pensar nela geralmente nos paralisa porque é a única certeza que temos sobre o futuro. Como não podemos ficar paralisados, senão vira algo patológico, desenvolvemos formas de elaborar essa angústia do inevitável. Há quem não pense na morte, um grau zero que se toca com o grau cem: o medo é tanto que se evita falar sobre. Há quem desafie o medo da finitude buscando construir uma obra na terra que lhe perpetue, ou por meio dos filhos ou por meio de algo notável. Há quem busque na religião o exílio, a explicação e o conforto contra a ideia de que a morte seja o fim definitivo. Enfim, fato é que a angústia de morrer se faz presente de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, como pensamento casual ou ideia que persegue cotidianamente. A morte é pauta inevitável da vida.

A angústia de morrer vai e vem durante nossa existência. As crianças são introduzidas à morte pelos bichinhos de estimação que se vão, pelas folhas secas caídas que encontram ao pé das árvores, pelos avós que desaparecem de repente. Quando contei às minhas filhas Clara (dez anos) e Marina (nove) sobre a morte do avô, as reações foram diferentes. Marina chorou demais, trocou de mal com Deus por lhe levar o avô. Clara se manteve em silêncio. Marina vez por outra me vem dizer que está com saudade do avô e chora. Clara, não. No entanto, pegando sua agenda escolar para verificar o que tinha de tarefa, vi escrito no calendário, no dia 1o de setembro, com sua letrinha redonda, “Vô, três meses. Saudade. :.(“. Meu pai morreu no dia 1o de julho. As crianças, como todo mundo, também têm formas singulares de elaborar a perda de quem amam.

Os adolescentes, em geral, desafiam a morte. Nesse período a angústia explode com força. Arriscam-se em atividades radicais, saltam de paraquedas, fazem rachas. Adoram ícones da morte, como Hitler. Lançam a catexia fortemente em jogos como Grand Theft Auto, em que a morte é banalizada. Alguns chegam mesmo a considerar o suicídio. Este é o recado: “Dona morte, não tenho medo de você. Não me venha com close errado”. Assim se cruza o tempo da juventude. A vida segue e viramos adultos.

Como adultos, as preocupações mudam. Vem a carreira profissional para cuidar. Vem a família para zelar. Deixamos a morte de lado porque a roda-vida exige demais e quase não deixa tempo para pensar nisso. Só que, de repente, duas coisas acontecem: a meia-idade e sua crise e a morte recorrente de pessoas da geração anterior. Parentes, tios, pais de amigos, os próprios amigos mais velhos, nossos pais. Eles começam a ir. À medida que eles vão, a meia-idade vem. Esse encontro inevitavelmente faz da morte uma presença constante nessa parte da vida que é, fato, a parte descendente da existência. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns). O próximo passo é morrermos. Como lidar com essa certeza, que é a certeza derradeira da vida?

As pessoas lidam com a morte à espreita de várias formas. Por causa de sua história pessoal, de sua singularidade, umas buscam auxílio na família e nos amigos. Outras se aproximam da espiritualidade como forma inconsciente de buscar um seguro para o depois da morte. Alguns, mais cientes de sua fragilidade humana, vão à terapia. Outros, ainda, escrevem textos sobre a morte para lidar com a morte que se apresenta.

Meu pai morreu há três meses. Meu velho me deu um grande presente no fim da vida. Ele me fez redefinir minha relação com a morte. Eu tinha medo da morte. Hoje não tenho medo. Meu medo foi ressignificado. Hoje eu vejo a morte como algo que faz parte da vida, algo sobre o que você pode partilhar com outras pessoas, sem razão para ter medo ou vergonha de fazê-lo. Hoje eu converso sobre a morte, coisa que evitava fazer. Redimensionei a importância do velório como prática social. A presença em velórios tem uma função afetiva fundamental. São partículas de afeto que se juntam numa constelação de carinho e que ajudam a sustentar o corte abrupto do afeto roubado pela morte. Estar lá é dizer: eu me importo. E isso faz uma diferença imensa para quem está machucado.

Hoje a morte tem uma forma bem diferente para mim. Ela não é mais aquela morte de roupa preta com a foice na mão. Ela é bem distinta daquela morte dos nossos encontros cotidianos, em que a vemos como algo violento, assustador e tabu. Há outras mortes além daquela que a mídia nos entrega diariamente. Descobrir isso é libertador.

A lição que resume tudo isso é que o confronto com a morte não precisa ser um desespero. A morte sempre convoca um renascimento obrigatório de nós mesmos. Renascer é um sentido bom que podemos dar à morte porque pensar na morte requer pensar na vida. No fundo, eu acho que não seja da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca ter vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos porque nunca conseguimos descobrir o que é a vida de fato. Mas sempre é tempo. Cuide de seus canteiros, “antes que chegue a morte ou coisa parecida e nos arraste moço sem ter visto a vida”. Cecília.

Em “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens nos fala da morte. “Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho. Meu coração é tocado por lembranças que estavam há muito tempo adormecidas”. É isso. A morte é o nosso reencontro com um começo de que já não nos lembramos mais. Afinal, existirmos: a que será que se destina?

A morte é a noite da vida. É um laço que caça a infinitude. É o anzol que volta, sem falha, para fisgar a existência que se pensava eterna. É pau. É a pedra de Drummond. Mas definitivamente não é o fim do caminho.

Pacote de pai

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Assistir à reportagem sobre o caos nas escolas com minhas filhas e ir respondendo as perguntas delas. “Mas, pai, por que a escola é assim, toda acabada?”, “Por que quem tem dinheiro não ajuda?”, “E o Criança Esperança não serve pra ajudar?”, “Mas as crianças conseguem aprender assim nessa escola?”. Explicar o mundo real é dureza. Mas faz parte do pacote de ser pai…

Meu Pai

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Meu pai,

Hoje é o Dia dos Pais, o dia em que todas as atenções se voltam para aqueles que junto com as mães, em uma conjugação de amor, nos trouxeram para cá. O holofote do comércio ilumina e nos faz pensar um pouco mais naquele amor que temos por garantido e que, por isso, esquecemos de agradecer. Pai é como o ar. Muitas vezes só na sua falta, nós damos atenção à sua presença.

Então, paizinho, eu quero aproveitar esse hoje, e a tua presença, para te agradecer e nesse agradecimento dizer o quanto te amo.

Obrigado, antes de tudo, por ser um pai sem igual. Que me desculpem o lugar-comum e os outros filhos, mas o meu pai é o melhor pai do mundo. Sei que haverá divergências, até compreensíveis, mas continuarei achando, mesmo respeitando a opinião dos outros filhos de outros pais. É porque vocês não são filhos do meu pai. Se vocês fossem vocês saberiam. Mas, independente de nossa divergência, curtam seus pais como eu curto o meu agora, hoje, nesse dia dedicado a ele. Mas o meu é o melhor que poderia ser. Sem dúvida.

Pai, obrigado por ter um coração maior do que teu amor pelo Botafogo. Pai, não conheço ninguém tão bondoso. Nunca conheci e tenho certeza que jamais conhecerei. Alguém que sente prazer em servir o próximo. Alguns que têm a incapacidade da generosidade despeitadamente te chamam de besta por essa disponibilidade aos outros. Eu te chamo de exemplo. Eu te chamo de bom. Eu te chamo de pai. Meu pai, tu és um homem bom. Obrigado por ser uma pessoa boa. Que belo exemplo de bondade eu tive e tenho na vida. Teu corpo é feito de coronárias. É um grande coração bondoso no qual circula um sangue que pulsa pela vida.

Pai, obrigado. Do teu jeito pouco falante para essas coisas, sei que desejas e sempre desejaste, como na música de Roberto Carlos, querer ver teus filhos pisando firme, sorrindo alto, cantando livres. Nós, cada um a seu modo, pisamos firme porque tivemos tua mão – junto com a da mãe – a nos segurar em vários momentos, justamente naqueles em que mais precisávamos. E não a tivemos na hora em que, paciente e sabiamente, vocês saiam de cena para que pudéssemos alçar voo solo. Sorrimos, todos, meu paizinho, bem alto. Gargalhamos com o coração. Temos luxações na articulação tempro-mandibular de tanta felicidade. Somos uma família feliz. O que podemos querer mais? O resto é bondade de Deus. É bônus. E cantamos livres, cada um no seu tom, as músicas de respeito, de sacação em relação ao mundo e às coisas, de espirituosidade sem igual. Meu pai, além de tudo, ainda é ídolo de vários primos meus por seu raciocínio rápido e tiradas memoráveis e inesquecíveis. Raciocínio rápido que nos foi passado em sua herança genética puro-sangue e que tanto faz a diferença em nossas vidas. Somos filhos de seu Jefferson. Isso é uma baita carta de apresentação para nós. E um grande motivo de orgulho.

Pai, obrigado por mostrar que filho é filho. E o que importa é a felicidade dele. Essa lição eu aprendi e vou levar na condução da vida das minhas. Mil sacrifícios, trânsito caótico para deixar e apanhar, esperas de horas no carro porque o filho estava estudando. Não me esqueço disso nunca, paizinho. Meu pai me esperando no carro uma hora e meia, toda terça e quinta à noite, enquanto estudava inglês. Tudo isso para eu não voltar de ônibus tarde da noite sozinho. Quanto amor, quanta dedicação. Que pai invejável! Que pai lindo! E ele é meu.

Pai, obrigado pela torcida e pela participação total nas grandes e pequenas coisas. Nos campeonatos de futebol de campo da escola, lá estava seu Jefferson na arquibancada com a camisa do time. Nas gincanas colégio-contra-colégio, lá estava seu Jefferson correndo atrás de ouriço de castanha, objeto da gincana, como se fora sua vida. E era sua vida. Eram seus filhos que estavam competindo ali. Nos campeonatos de futebol de mesa, aqui em Manaus ou pelas mesas de Brasília, Juiz de Fora, Santo Antonio da Platina, São Paulo, Rio, lá estavam os gritos rasgados de gol, com uma vibração de pai, ao ver a bola de feltro bater no fundo da rede dos adversários. Confesso que torcia para marcar um gol só para te ver vibrar por mim. Isso me fazia mais bem do que próprio gol marcado. Nas aprovações em concursos, provas, testes, lá estava o abraço de vibração e o punho cerrado no ar, como a dizer “Eu sabia! Esse é o meu filho!”.  E no fundo, tu sempre soubeste, né, pai? Claro, pois fizeste parte da criação de filhos que valorizam o amor, o respeito pelo próximo e o estudo. Como guardo a alegria dos teus olhos quando te falei que havia sido aprovado na seleção do doutorado na Unicamp. O orgulho de mais uma missão cumprida, a despeito das dificuldades dessa vida que tanto te maltratou. Mas esses maltratos foram, sabiamente, transformados em lições de vida e não em amargura, viraram combustível para andar, para mover, seguir em frente, e não para queimar, destruir.

Pai, obrigado. Obrigado pela preocupação sempre presente com nossa felicidade, nosso bem estar, nossa alegria. Em cada momento difícil, teu silêncio de solidariedade é percebido de forma especial. As palavras são guardadas, mas os sentidos do seu silêncio são gritados. A agonia da dor compartilhada é minimizada nesse teu silêncio solidário. Basta saber que meu pai está ali, quieto, mas prestando uma atenção danada, que a dor é diminuída substancialmente. Um pai-esponja. Absorve as dores do mundo para si e diminui as que a gente sente, sem dizer uma palavra, mas falando demais pelos gestos, pelo pão quente comprado e anunciado a cada dia, pelo jornal trazido diariamente e entregue nas mãos, como a dizer: “Toma, esse é o mundo, meu filho. Coma pão e veja o circo”. Isso, de pão e circo a vida é feita, não é, pai. Eu aprendi, viu? Panem et cinrcenses. Trabalho honesto e felicidade, ligados, enredados, como uma coisa só, indissociáveis.

Paizinho, meu paizinho… tenho tanto para falar que eu escreveria duas mil páginas. Mas vou dizer algumas coisas que sempre me fazem sentir, de uma forma ou de outra, orgulhoso de ser teu filho. Fico fascinado com teu amor pelo Botafogo, por tua capacidade de saber o nome de todas as repórteres bonitas da televisão, anunciando seus nomes antes da emissora. Fico encantado com as soluções que tu achas para as situações nas quais quase todo mundo jogaria a toalha muito facilmente. Fico deslumbrado com teu pensamento e tuas tiradas rápidas, que em dobradinha com teu senso de humor sem igual, fazem do nosso dia-a-dia um dia-a-dia muito mais alegre e feliz, dos nossos almoços em família o melhor momento do dia. Fico realmente, pai, aqui a pensar sobre a tremenda responsabilidade de ser pai nesse mundo. Como conseguiste e consegues fazer tudo isso de forma competente…

O Paulo é pai. O Mauro é pai. Eu sou pai. Os três filhos somos pais. Podemos nos dizer completos. Temos um pai maravilhoso e filhos para demonstrar e devolver a eles o amor que recebemos desse pai maravilhoso que nós temos. Temos coisinhas que dependem de nós, frágeis, inseguras, começando a vida, nos enchendo de porquês. Nossos filhos têm o privilégio de brincar de carneirinho-carneirinho e de cavalinho contigo. Meu pai é doce como um carneirinho e forte para a vida como um cavalinho, que corre e nos leva no lombo pelos prados da vida, incansável, belo.

Assim, que com esses exemplos eu possa torcer por minhas filhas, como no comercial do Gelol. Melhor, como no exemplo do seu Jefferson, que inspirou o comercial. No dia-a-dia nosso, meu e das meninas, pensar: como o meu pai faria nessa hora? E saber que ali, na resposta para essa pergunta, estará o melhor fazer do mundo. Saber que meu filho será feliz, por isso. Se eu conseguir, pai, ser um pouco Jefferson  nesse papel em que fui posto na vida, uns dez por cento de ti basta, minhas meninas vão viver no mundo pisando firme, cantando alto e sorrindo livre. Como eu vivo. Graças a meu paizinho-paizão, essa bênção de Deus, sempre tão bom comigo, apesar de às vezes eu demorar a entender suas linhas. Sou muito feliz graças a ti, meu pai, meu querido, meu velho, meu amigo. Fica aqui por muito tempo, tá? Ainda há muito mais a aprender contigo. Ainda há muitos netos ansiosos pelo teu colo, pelo teu beijo, pelo teu amor.

Feliz Dia dos Pais. Eu te amo, meu pai. E vou te dizer isso todos os dias até a hora em que Deus disser que está na hora do nosso voo solo. Depois vou te dizer isso todos os dias. Eu e minhas filhas, olhando para a estrela mais brilhante do céu e dizendo, dedinhos apontando para cima, “eu te amo, pai”, “nós te amamos, vovô”.

Do filho que os outros dizem, ingrata e injustamente, ser o preferido.

Dinho.

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

A primeira falta

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[Hoje eu tive um pesadelo. Sonhei que perdia o meu pai. Ele está bem, lindo, alegrando o mundo. Mas no pesadelo, eu senti a dor verdadeira da ausência do meu velho. Vou lá abraçá-lo e beijá-lo hoje. Enquanto posso. Porque um dia já não mais poderei].

 

 

Aos que não podem mais.

Na iminência crua de faltar-me
Vai-se o meu eixo, perco o chão.
Como ouvirei o teu doce não?
Da vida, onde o meu alarme?

Em vão, minha mão busca a tua.
Solta, só encontra o passado.
Tu, minha voz, conselho calado,
A finitude se me mostra nua…

Querendo mais tempo, corro pra ti,
Da vida rasgado, um bisturi…
Quero teu cheiro, teu riso que vai…

Olhar que não vê, porém que sente,
A dor que lancina meu corpo, minha mente
Na primeira falta do meu velho pai…

Antes de me tornar pai

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Antes de me tornar pai, nunca havia registrado alguém. É incrível imaginar como um misto de inquérito com cadastro bancário pode deixar você tão orgulhoso. Antes de me tornar pai, não me preocupava se plantas eram venenosas, se remédios ou objetos perigosos estavam ao alcance das mãos. Jamais havia segurado uma criança para que pudessem dar vacinas. Ninguém nunca tinha vomitado em mim. Nunca havia sentido meu coração se estilhaçar por não poder parar uma dor. Nunca desejei que uma dor pudesse ser transferida de dono.

Antes de me tornar pai, jamais rezei com tanta fé sobre alguém. Antes de me tornar pai, ignorava a indispensabilidade de uma cadeirinha de bebê, de um velocípede com empurrador e a real função de uma chupeta. Antes de me tornar pai, nunca reparei que móveis possuíam quinas. Nem sabia que existiam protetores de tomada e trecos para impedir que portas fechassem. Ignorava solenemente as seções infantis das lojas e zapeava indiferente pela Discovery Kids. Antes de me tornar pai, nunca tropecei em brinquedos de madrugada. Nas madrugadas, aliás, dormia tranquilo, o que nunca mais fiz depois que me tornei pai.

Antes de me tornar pai, nunca planejei tanto uma saída de casa: bolsa kit completo. Nunca percebi que há vários tipos de leite, de fralda, chupetas de vários números. Chicco, Lilica, Nuk, Fisher-Price foram definitivamente incorporadas às minhas grifes. Antes de me tornar pai, não sabia o que era mecônio, funchincória, colostro, absorvente de seio. Aliás, perdi a propriedade sobre seios da minha mulher. Antes de me tornar pai, eu julgava desleixados meus amigos com filhos e suas casas mal arrumadas, com paredes riscadas. O fazia por desconhecer a força de furacão de crianças descobrindo o mundo, mini-Katrinas devastadores.

Antes de me tornar pai, nunca tinha sido mordido por dentes de leite ou beliscado por dedinhos com unhinhas afiadas. Ninguém nunca tinha me molhado de xixi. Jamais havia passado pela minha cabeça lavar uma bunda alheia. Ninguém nunca havia ousado limpar a boca na minha roupa e sorrir, na boa, como se nada tivesse acontecido. E eu nunca tinha ficado tão feliz por causa de um sorriso. Antes de me tornar pai, nunca havia criado histórias, a não ser para adultos e por outros motivos.

Antes de me tornar pai, achava que só eu poderia riscar meus livros. Acreditava que só se perdia trabalhos no computador se a energia faltasse. Desconhecia pequenas mãos exploradoras. Antes de me tornar pai, tinha controle sobre meus desejos e pensamentos, sobre o meu corpo e meu tempo. Eu nunca tinha segurado um bebê dormindo a noite inteira só para ficar bem pertinho. Nunca havia paranoicamente checado no meio da noite se alguém estava respirando. Nunca imaginei que algo tão pequeno pudesse mudar minha vida de modo tão forte. Não conhecia a sensação de ter meu coração batendo fora de meu peito.

Antes de me tornar pai, nunca imaginei o privilégio e o prazer inexplicável de ser chamado de pai. Antes de ser pai, temos que aprender a ser filhos. E depois de ser pai, certamente, aprendemos a ser filhos melhores. Antes de me tornar pai, nunca havia olhado meu pai com olhos de pai. Hoje vejo e o amo ainda mais. Porque agora sou pai.

Uma carta para meu pai

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Hoje é o aniversário do meu pai, seu Jefferson. 75 anos. Republico aqui o que escrevi para ele no Dia dos Pais. Te amo, paizinho. Muito.

Meu pai,

Hoje é o Dia dos Pais, o dia em que todas as atenções se voltam para aqueles que junto com as mães, em uma conjugação de amor, nos trouxeram para cá. O holofote do comércio ilumina e nos faz pensar um pouco mais naquele amor que temos por garantido e que, por isso, esquecemos de agradecer. Pai é como o ar. Muitas vezes só na sua falta, nós damos atenção à sua presença.

Então, paizinho, eu quero aproveitar esse hoje, e a tua presença, para te agradecer e nesse agradecimento dizer o quanto te amo.

Obrigado, antes de tudo, por ser um pai sem igual. Que me desculpem o lugar-comum e os outros filhos, mas o meu pai é o melhor pai do mundo. Sei que haverá divergências, até compreensíveis, mas continuarei achando, mesmo respeitando a opinião dos outros filhos de outros pais. É porque vocês não são filhos do meu pai. Se vocês fossem vocês saberiam. Mas, independente de nossa divergência, curtam seus pais como eu curto o meu agora, hoje, nesse dia dedicado a ele. Mas o meu é o melhor que poderia ser. Sem dúvida.

Pai, obrigado por ter um coração maior do que teu amor pelo Botafogo. Pai, não conheço ninguém tão bondoso. Nunca conheci e tenho certeza que jamais conhecerei. Alguém que sente prazer em servir o próximo. Alguns que têm a incapacidade da generosidade despeitadamente te chamam de besta por essa disponibilidade aos outros. Eu te chamo de exemplo. Eu te chamo de bom. Eu te chamo de pai. Meu pai, tu és um homem bom. Obrigado por ser uma pessoa boa. Que belo exemplo de bondade eu tive e tenho na vida. Teu corpo é feito de coronárias. É um grande coração bondoso no qual circula um sangue que pulsa pela vida.

Pai, obrigado. Do teu jeito pouco falante para essas coisas, sei que desejas e sempre desejaste, como na música de Roberto Carlos, querer ver teus filhos pisando firme, sorrindo alto, cantando livres. Nós, cada um a seu modo, pisamos firme porque tivemos tua mão – junto com a da mãe – a nos segurar em vários momentos, justamente naqueles em que mais precisávamos. E não a tivemos na hora em que, paciente e sabiamente, vocês saiam de cena para que pudéssemos alçar voo solo. Sorrimos, todos, meu paizinho, bem alto. Gargalhamos com o coração. Temos luxações na articulação tempro-mandibular de tanta felicidade. Somos uma família feliz. O que podemos querer mais? O resto é bondade de Deus. É bônus. E cantamos livres, cada um no seu tom, as músicas de respeito, de sacação em relação ao mundo e às coisas, de espirituosidade sem igual. Meu pai, além de tudo, ainda é ídolo de vários primos meus por seu raciocínio rápido e tiradas memoráveis e inesquecíveis. Raciocínio rápido que nos foi passado em sua herança genética puro-sangue e que tanto faz a diferença em nossas vidas. Somos filhos de seu Jefferson. Isso é uma baita carta de apresentação para nós. E um grande motivo de orgulho.

Pai, obrigado por mostrar que filho é filho. E o que importa é a felicidade dele. Essa lição eu aprendi e vou levar na condução da vida das minhas. Mil sacrifícios, trânsito caótico para deixar e apanhar, esperas de horas no carro porque o filho estava estudando. Não me esqueço disso nunca, paizinho. Meu pai me esperando no carro uma hora e meia, toda terça e quinta à noite, enquanto estudava inglês. Tudo isso para eu não voltar de ônibus tarde da noite sozinho. Quanto amor, quanta dedicação. Que pai invejável! Que pai lindo! E ele é meu.

Pai, obrigado pela torcida e pela participação total nas grandes e pequenas coisas. Nos campeonatos de futebol de campo da escola, lá estava seu Jefferson na arquibancada com a camisa do time. Nas gincanas colégio-contra-colégio, lá estava seu Jefferson correndo atrás de ouriço de castanha, objeto da gincana, como se fora sua vida. E era sua vida. Eram seus filhos que estavam competindo ali. Nos campeonatos de futebol de mesa, aqui em Manaus ou pelas mesas de Brasília, Juiz de Fora, Santo Antonio da Platina, São Paulo, Rio, lá estavam os gritos rasgados de gol, com uma vibração de pai, ao ver a bola de feltro bater no fundo da rede dos adversários. Confesso que torcia para marcar um gol só para te ver vibrar por mim. Isso me fazia mais bem do que próprio gol marcado. Nas aprovações em concursos, provas, testes, lá estava o abraço de vibração e o punho cerrado no ar, como a dizer “Eu sabia! Esse é o meu filho!”.  E no fundo, tu sempre soubeste, né, pai? Claro, pois fizeste parte da criação de filhos que valorizam o amor, o respeito pelo próximo e o estudo. Como guardo a alegria dos teus olhos quando te falei que havia sido aprovado na seleção do doutorado na Unicamp. O orgulho de mais uma missão cumprida, a despeito das dificuldades dessa vida que tanto te maltratou. Mas esses maltratos foram, sabiamente, transformados em lições de vida e não em amargura, viraram combustível para andar, para mover, seguir em frente, e não para queimar, destruir.

Pai, obrigado. Obrigado pela preocupação sempre presente com nossa felicidade, nosso bem estar, nossa alegria. Em cada momento difícil, teu silêncio de solidariedade é percebido de forma especial. As palavras são guardadas, mas os sentidos do seu silêncio são gritados. A agonia da dor compartilhada é minimizada nesse teu silêncio solidário. Basta saber que meu pai está ali, quieto, mas prestando uma atenção danada, que a dor é diminuída substancialmente. Um pai-esponja. Absorve as dores do mundo para si e diminui as que a gente sente, sem dizer uma palavra, mas falando demais pelos gestos, pelo pão quente comprado e anunciado a cada dia, pelo jornal trazido diariamente e entregue nas mãos, como a dizer: “Toma, esse é o mundo, meu filho. Coma pão e veja o circo”. Isso, de pão e circo a vida é feita, não é, pai. Eu aprendi, viu? Panem et cinrcenses. Trabalho honesto e felicidade, ligados, enredados, como uma coisa só, indissociáveis.

Paizinho, meu paizinho… tenho tanto para falar que eu escreveria duas mil páginas. Mas vou dizer algumas coisas que sempre me fazem sentir, de uma forma ou de outra, orgulhoso de ser teu filho. Fico fascinado com teu amor pelo Botafogo, por tua capacidade de saber o nome de todas as repórteres bonitas da televisão, anunciando seus nomes antes da emissora. Fico encantado com as soluções que tu achas para as situações nas quais quase todo mundo jogaria a toalha muito facilmente. Fico deslumbrado com teu pensamento e tuas tiradas rápidas, que em dobradinha com teu senso de humor sem igual, fazem do nosso dia-a-dia um dia-a-dia muito mais alegre e feliz, dos nossos almoços em família o melhor momento do dia. Fico realmente, pai, aqui a pensar sobre a tremenda responsabilidade de ser pai nesse mundo. Como conseguiste e consegues fazer tudo isso de forma competente…

O Paulo é pai. O Mauro é pai. Eu sou pai. Os três filhos somos pais. Podemos nos dizer completos. Temos um pai maravilhoso e filhos para demonstrar e devolver a eles o amor que recebemos desse pai maravilhoso que nós temos. Temos coisinhas que dependem de nós, frágeis, inseguras, começando a vida, nos enchendo de porquês. Nossos filhos têm o privilégio de brincar de carneirinho-carneirinho e de cavalinho contigo. Meu pai é doce como um carneirinho e forte para a vida como um cavalinho, que corre e nos leva no lombo pelos prados da vida, incansável, belo.

Assim, que com esses exemplos eu possa torcer por minhas filhas, como no comercial do Gelol. Melhor, como no exemplo do seu Jefferson, que inspirou o comercial. No dia-a-dia nosso, meu e das meninas, pensar: como o meu pai faria nessa hora? E saber que ali, na resposta para essa pergunta, estará o melhor fazer do mundo. Saber que meu filho será feliz, por isso. Se eu conseguir, pai, ser um pouco Jefferson  nesse papel em que fui posto na vida, uns dez por cento de ti basta, minhas meninas vão viver no mundo pisando firme, cantando alto e sorrindo livre. Como eu vivo. Graças a meu paizinho-paizão, essa bênção de Deus, sempre tão bom comigo, apesar de às vezes eu demorar a entender suas linhas. Sou muito feliz graças a ti, meu pai, meu querido, meu velho, meu amigo. Fica aqui por muito tempo, tá? Ainda há muito mais a aprender contigo. Ainda há muitos netos ansiosos pelo teu colo, pelo teu beijo, pelo teu amor.

Feliz Dia dos Pais. Eu te amo, meu pai. E vou te dizer isso todos os dias até a hora em que Deus disser que está na hora do nosso voo solo. Depois vou te dizer isso todos os dias. Eu e minhas filhas, olhando para a estrela mais brilhante do céu e dizendo, dedinhos apontando para cima, “eu te amo, pai”, “nós te amamos, vovô”.

Do filho que os outros dizem, ingrata e injustamente, ser o preferido.

Dinho.

Marina

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Hoje é o aniversário da minha caçula, Marina.

Temos, Bia e eu, duas filhas. A mais velha é a Ana Clara, que acabou de fazer aniversário bem no Dia dos Namorados. Clara foi muito desejada e esperada. Teve a ajuda da ciência em uma inseminação artificial em que tudo deu certo de primeira. Soubemos da Marina quando Ana Clara tinha apenas três meses. Diferente de Clara, Marina veio por conta própria. Quando nos tocamos, ela já estava na porta de nossas vidas com as malas na mão, olhos do gato do Shrek, dizendo “cheguei!”. O susto de sua chegada foi logo absorvido pela alegria de mais uma vida a fazer diferença na nossa. Se com uma criança era lindo demais, com duas seria lindo em dobro. E é, apesar de todo trabalho e preocupações que um filho traz a qualquer família.

Marina é o tipo de pessoinha que quando chega brilha o ambiente. Seu sorriso largo, fácil e frouxo espanta a sisudez da vida. Seu carinho gratuito, que nada pede de volta, sinaliza que sua alma é leve e brincante. Sua alegria como estilo de vida nos diz todo dia que ela foi escolhida a dedo por Deus entre os anjos que são feitos especificamente para alimentar a alegria do mundo. Seus olhos graúdos sorriem diretamente para a alma de quem os fita. Faz cócegas em nosso pensamento. Sua memória prodigiosa nos surpreende a cada dia num mundo em que, em tempos de Google, a memória passou a ser um item secundário. Ontem ela perguntou: “Pai, já é dia 2?”. “”- Ainda não. Por que, filha?” “Porque dia 2 estreia Shrek”. Ela tinha visto a informação no trailer quando fomos assistir a Toy Story. Detalhes, Marina é dos detalhes. Presta uma atenção silenciosa no mundo como ninguém.

Quando estamos os quatros deitados juntos na cama, no sofá ou no chão das brincadeiras, Marina sempre nos envolve com um abraço com o alcance que seus bracinhos permitem e grita, anunciando ao mundo: “FAMÍLIA!”. Marina é muito família. Sensível, preenche os espaços em branco. Se peço um beijo de Clara, que tem jeitos e tempos diferentes de mostrar carinho, e não recebo, logo chega um beijo de Marina, voando, como se sentindo obrigada a cumprir a tarefa a ela designada de trazer a alegria e a serenidade ao mundo. Marina é, com seus quatro aninhos, a pessoa mais solidária que conheço. Abre mão fácil do que é seu para ver o outro feliz. É dela. Assim, fácil.

Escrevo sobre a minha filha e dos meus olhos minam lágrimas silenciosas, poucas e densas, querendo transbordar. Porque sempre me quis pai, mas nunca imaginei como seria tão bom ser pai. A alegria que me dá, isso vai sem eu dizer. Mas também nunca imaginei como ser pai seria tão vulnerável. Minhas filhas são minha vulnerabilidade eterna.   Com elas aprendi a cuidar mais de mim e melhor do mundo. Com elas aprendi um novo tipo de amor que só vivencia quem é pai ou mãe. Com elas eu reaprendi a rezar.

Parei. Não saem mais letras, só lágrimas. Marina, minha filha, você é bonita com que Deus lhe deu. Termino trazendo a frase com que minha mãe sempre acordava a gente nos nossos aniversários naqueles tempos de mansidão da infância: “Eu te amo, minha criança. Deus te abençoe, te mantenha sempre assim e te faça feliz”. Na verdade, ela ainda faz isso com suas “crianças” até hoje. Como eu quero fazer até o dia em que não puder mais, Marina morena…

A descoberta do mundo

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De repente bateu um desespero manso. Como quase todos os dias, levantei com o dia raiando para fazer as mamadeiras das minhas duas filhas. Ana Clara, três anos, sete porções de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Marina, dois anos, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml.

Uma gosta de baunilha, a outra prefere chocolate. A primeira é na dela, vem quando quer. Gênio forte que às vezes irrita. A mais nova é na dos outros, abraça de graça, de bem com o mundo. Clara adora flores, tem espírito de Cirque du Soleil, vive pulando, dando cambalhotas, se pendurando nas minhas costas. Marina gosta de chocolate – qualquer um a qualquer momento – e é uma Forrest Gump, sempre com uma história para contar. Ambas com uma sacação acima da média. E uma beleza de fazer o sol sorrir e a lua corar.

Podem dizer que falo isso porque quem tem filho feio é coruja. Desculpem, mas não sou eu quem diz. Só reproduzo o que dizem, com um orgulho danado de ter feito, em co-autoria, dois belos exemplares da espécie humana. Belas por dentro e por fora minhas meninas.

Mas como disse no começo do texto: de repente bateu um desespero manso. Depois de colocar as mamadeiras em suas mãos e de elas as pegarem automaticamente durante o sono, tentei voltar para dormir, mas não consegui. Porque comecei a pensar sobre a celeridade do mundo.

Minhas filhas nasceram um dia desses e já estão andando, falando, escolhendo o sabor do Sustagen. Minhas filhas já têm personalidades, opiniões, desejos, preferências, medos, projetos. Minhas filhas, nessa infância linda, já contra-argumentam, já discutem, já me deixam sem resposta.

Quando foi que isso aconteceu? Quando foi que elas deixaram de ser aqueles dois serezinhos que eu fazia ninar com as mesmas músicas que a minha mãe me fazia dormir, há quarenta anos? Quando é que minhas bonecas deixaram de depender dos meus braços para ir e vir? Quando é que deixaram de usar fraldas e passaram a ir sozinhas ao banheiro e a pedir o “papel-higiene”?

Meu desespero manso é por me dar conta de que eu estou perdendo os detalhes de suas vidas. Sei que é exagero, que ninguém pode ficar 24 horas por dia do lado de alguém. Nem saudável isso é. Filhos precisam de espaço para andar e ampliar seus limites, para escorregar, cair e levantar. A vida é assim. Mas amor de pai foge à racionalidade e me deu desespero por não acompanhar cada palavra proferida, por não ler cada olhar, por não filmar cada movimento, por não estar presente em cada descoberta do mundo.

Ser pai ou mãe é desesperador, se você pensar um pouco. Quando temos filhos, ficamos vulneráveis para sempre. Não podemos, como gostaríamos, resolver todas as dores, tristezas, dúvidas e angústias de nossos filhos. No mais das vezes, não podemos consertar suas notas fora de tom no concerto de suas vidas. Como pais, fazemos o melhor que podemos, mas o melhor não é o suficiente na cabeça de um pai ou uma mãe que ama. Sempre estamos aquém. Sempre há a sensação de estar deixando algo incompleto. Porque é isso mesmo: há uma incompletude no papel de pai ou mãe. Continuo achando que o único defeito de Deus é não deixar que possamos transferir os sofrimentos de filhos para nós, pais.

Mas é no espaço aonde não chegam os pais que os filhos surgem. E surgem nas suas especificidades, moldando suas personalidades, abrindo as porteiras do seu mundo por conta própria. Sei que meu desespero é injustificável porque é mais instintivo do que pedagógico. Elas estão crescendo, estão na escola. Daqui a pouco conhecem o amor com suas cores, sabores e dores. Daqui a pouco escolhem uma profissão. Daqui a pouco casam e nos dão netos, os filhos com açúcar, como diz minha mãe. E vou – de novo – confiar em minha mãe, apesar de desconfiar de que não há nada mais doce do que filhos. Quando ela disse que não havia amor maior do que de pai para filho, eu desconfiei. Até ter filhos. Tenho dito aqui e acolá que é o amor que sentimos por filhos é um amor tão grande e tão diferente que deveria ter um substantivo específico para se referir a ele. Amor com adjetivos não serve para filhos.

E um dia eu vou embora. E a mãe vai embora. E elas vão ficar. Meu Deus! Desespero de novo! Quem vai lhes dar colo quando precisarem? A quem elas virão perguntar tudo, como fazem hoje, considerando esse pai babão o mais sábio dos oráculos? Não! Não quero ir. Mas sei que vou. É o ciclo. Contudo, vou, de onde estiver, como uma estrela, ficar brilhando a iluminar os caminhos de cada uma das minhas meninas aqui embaixo. Zelando pelos seus caminhos. Soprando nos seus ouvidos em suas dúvidas. Falando-lhes por sonhos. Beijando-lhes as faces a cada adormecer.

Escrevo chorando. Lágrimas caem comportadas e salgadas em direção aos meus lábios. Lábios que ainda vão beijar muito os pescoços de minhas filhas. Lábios que vão lhes contar alguns truques para não sofrer tanto nesse mundo feito para adultos e não para crianças. Lábios que não cansam de perguntar “sabia que eu te amo?”

Hoje vou passar o dia inteiro colado nas minhas filhas. Registrar cada sorriso, responder a cada pergunta olhando em seus olhos. Sentar no chão para desenhar com o lápis de cor suas ideias, suas flores, seus coelhos, suas histórias. Hoje vou dar comidinha na boca de cada uma delas, aeroportos lindos para colheres-aviãozinhos. Hoje vou desligar o DVD e contar histórias, cantar-lhes “Alecrim dourado” até que caiam no sono. Não há cena que pinte a serenidade como a de filhos dormindo.

Preciso cuidar desse meu desespero. Preciso cheirar mais minhas filhas. Enquanto eu posso. Sempre que puder. Preciso cuidar do meu desespero porque preciso de calma para não errar: para a Ana Clara, sete de leite para uma de Sustagen Baunilha em 210 ml de água. Para a Marina, cinco de leite para uma de Sustagen Chocolate em 150 ml. E desde ontem a Marina só quer a mamadeira da Moranguinho e a Clara a dos bichinhos do fundo do mar. Estão crescendo, minhas meninas. Elas serão sempre “as meninas”. Porque não importa a idade, estamos sempre descobrindo o mundo.  Não é, mãe? Não é, pai?