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Reaprender a viver

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Foi pela janela da cozinha. De manhãzinha, enquanto esperava o café coar. Pensava eu nas pequenas mundanidades, olhando o horizonte, quando fui surpreendido por um casal de araras vermelhas que cruzou o céu bem à minha frente. Para quem não sabe, araras voando de manhã cedo e no crepúsculo são parte do patrimônio estético de Manaus. Uma coisa linda de se ver. A cena me lembrou que, além dos boletos e das broncas cotidianas que habitavam meus pensamentos, a vida tem poesia.

A vacinação parece que está engrenando. A despeito do governo inepto e mais preocupado com suas tenebrosas transações do que com ajudar a combater a pandemia, pandemia que, segundo Boaventura Sousa Santos, marcou de fato o início do século 21. O Corona mudou nossas vidas de muitas maneiras nestes últimos quinze meses. Agora, tudo indica, sendo otimista, a vida tende a voltar a ser vivida de forma parecida com o que era antes. Nós, os responsáveis não-negacionistas, já saímos timidamente para restaurantes, shoppings, convescotes restritos. Não sem usar a máscara e não sem se preocupar, de tempos em tempos, de melar a mão no gel.

É ainda uma sensação de contravenção, de liberdade condicional. Confesso que é estranho estar nos lugares, como uma livraria, e não ter um sofá para se sentar. “Venha, mas não fique à vontade” parece ser o recado. Só queria sentar e folhear sem compromisso um livro sobre história celta enquanto espero minha mulher comprar roupas na loja de departamento ao lado. Mas não há bancos, cadeiras, poltronas. A pandemia comeu todos.

Pensando aqui: voltar à convivência com os outros em presença é algo estranho. Meio que desaprendemos a manha. É um troço agridoce. Há algo de excitante e de desconcertante nesse retorno. É como se, de repente, voltássemos à cidade natal depois de muito tempo vivendo longe dali. Como estarão as pessoas? Aquela rua, mudou? A mãe do amigo ainda vive? O que devo dizer e como devo cumprimentar as pessoas? Aperto de mão já? Soquinho com soquinho? Cotovelo com cotovelo? Só um olá sem toque? Abraçar ainda é over? Quais as regras de etiqueta legadas pela pandemia devemos aprender nesses novos tempos?

Nossos músculos sociais atrofiaram. Haja fisioterapia social para colocá-los de volta no lugar! Desaprendemos a socializar. É a constatação. Para quem, como eu, sempre foi muito caseiro, a pandemia trouxe um certo conforto. Eu adoro minha casa. Mas preciso agora, de novo, abraçar o desconforto do incerto, do iminente retorno. Parece complicado mudar tudo de novo depois de um ano ouvindo que não deveríamos socializar em grupos por causa de um vírus mortal à solta.

O enclausuramento compulsório da pandemia esventrou uma série de questões filosóficas. Precisamos sair tanto de casa para viver a vida? Não dá para resolver com uma mensagem de zap ou uma chamada no Meet? Precisamos mesmo enfrentar trânsito pesado, poluir o meio ambiente, vestir calça comprida e sapato? As mulheres precisam voltar a usar sutiã apertado, tendo passado tanto tempo com o corpo liberto nos domínios do lar? Sério mesmo que temos de ir para barzinhos para socializar? Não dá para ficar só apreciando a playlist do Spotify? O quero para minha vida? Que mundo quero para minhas filhas? Para os meus? Quando eu vou ter de novo todo esse tempo para minha família? Não sei as respostas. De verdade. Gestalt aberta. Para o psicólogo que sou, vejo um pasto imenso a perder de vista.

Fato é que o isolamento fez a gente recalibrar prioridades do que realmente interessa na vida. Descobrimos a inércia e como habitá-la sem fazer nada, sem as injunções das obrigações de horários. E gostamos. É claro que me refiro à parcela das pessoas que pôde ficar em casa, em trabalho remoto. Para quem esteve na batalha dos hospitais, do transporte público, das farmácias, dos supermercados etc., o papo é outro. Meu respeito.

Reaprender a viver. Reaprender a abraçar. A sorrir na presença. Cuidar mais do coletivo. Zelar mais pelo mundo. Viver a vida que de fato interessa porque ela, a vida, é um sopro e pode não mais estar lá ao dobrar a esquina. São lições da pedagogia do vírus. Desaceleramos para perceber a paisagem da vida, para prestar mais atenção no caminho e nas companhias de viagem do que no destino.Dá até para ver, sem pressa, as araras na janela. Fim de tarde agora. Um casal acabou de passar por aqui como que para ilustrar o texto. Sincronicidade. Ou é Deus que é um poeta mesmo.