Perda

Tudo que vai

Postado em Atualizado em

Fui deixar meu irmão no aeroporto. Foi ver o filho, que mora em Sampa. Chegamos em cima da hora do voo. Aeroporto lembra partidas e chegadas. Partidas e chegadas lembram o constante movimento das coisas. Coisas vêm e vão. Pessoas vêm e vão. O movimento faz parte da vida.

Não há ganho sem perda nem perda sem ganho. Isso é uma lei, como a da gravidade. Quando decidimos por algo ou alguém decide algo por nós, sempre há ganhos e sempre há perdas. Sempre. Quando somos nós que decidimos, o normal é que haja mais ganhos do que perdas na decisão. Assim a vida dá seus passos e vamos em frente. Quando são os outros que decidem por nós e, de novo, os ganhos se sobressaem diante das perdas, ótimo! A vida segue feliz, como se espera dela. No entanto, quando decidem por nós e há perdas dolorosas e ganhos irrisórios, ficamos machucados e tristes. E quando, enfim, nós decidimos por algo que nos traz mais perdas do que ganhos, quem sabe está na hora de uma boa conversa com o analista para tentar descobrir por que nos punimos nas nossas escolhas.

Veja você, caro leitor, que das quatro possibilidades lógicas expostas acima, apenas uma está fora do nosso alcance de decisão: quando decidem por nós e perdemos mais do que ganhamos. Nas outras possibilidades, ou a gente está no lucro ou a gente pode mudar o rumo das coisas. Saquei isso há algum tempo, quando fiz análise, exatamente para compreender por que alguém que eu amava decidiu me colocar numa grande perda com a qual eu não soube lidar sozinho. A partir dali, passei a concentrar esforços para maximizar meus ganhos nas decisões dos outros em que há uma perda muito grande para mim. Tem sido um exercício. É aí que tenho de colocar força: como transformar o pequeno ganho que veio da perda grande em um grande ganho, em um ganho que valha a pena.

Minha vida ficou bem mais feliz quando passei a maximizar o ganho das pessoas ou minimizar suas perdas quando a decisão depende de mim. Qualitativamente, sou mais realizado desde quando decidi escolher a felicidade e optar pelo ganho e não pela perda nas decisões que dependem de mim e, em não dependendo de mim, criar mecanismos de focar no ganho, ainda que mísero, quando alguém me faz perder. Qual a consequência prática desse perde-ganha todo?

De tudo isso decorre que é preciso que certas coisas partam, que a gente as apague da existência. Para funcionar a equação da felicidade, é preciso compreender que certas pessoas devem ir embora da nossa vida, devem ser riscadas do mapa. Parece forte, mas não é. É apenas necessário. Coisas que só nos trazem perdas e pessoas que nos sequestram os ganhos merecem a porta da rua, merecem pegar a boroca e rumar a venta para plagas outras quaisquer que não seja a nossa vida feliz. “Ain, mas é difícil…” É. Coldplay na veia: ninguém disse que seria fácil. No entanto, é preciso viver o luto de uma perda, fazer gastar a angústia, curtir a dor, como se curte o couro. E depois seguir. Morar no luto é transformá-lo em melancolia, que é o luto eterno que paralisa tudo. O luto é necessário; a melancolia é patológica. Que luto você ainda não viveu? Por quem você paralisou tudo na melancolia?

Nesse jogo da vida, ainda, entram os nossos. Os nossos são aqueles que gostam de nós. Eles desempenham um papel fundamental nessa matemática inexata da felicidade. São os que nos amam. Para alguém me amar é preciso ficar feliz quando estou feliz e triste quando estou triste. Amar é isso. Se o contrário ocorre (a felicidade com a tristeza alheia ou a tristeza com a felicidade do outro), tem-se um estranho amor do avesso, que é, também, patológico ou, no mínimo, um pecado capital mal resolvido. Porque amar, meus caros, envolve empatia. Amar dos vera inclui a capacidade de se colocar no lugar do outro e sentir por ele e com ele. Quem gosta de uma pessoa guarda o luto com ela, ratifica seus silêncios; quem gosta de alguém não fica prendendo o outro no lodo da melancolia, seja lá por que justificava for. Quem gosta de uma pessoa retifica suas engrenagens da alma. Quem, leitor querido, você diz que ama e cujo luto você não respeita? De quem você gosta, mas sente um prazer esquisito de ver na melancolia? Pense aí.

O aeroporto foi reformado. Eu quase errei a entrada. Mas chegamos a tempo. Meu irmão foi ver o filho e está muito feliz. Eu fiquei muito feliz por ele. Eu o amo. Na vida refeita, temos de aprender as novas entradas dos acontecimentos. Para aprender as novas é preciso desaprender as velhas, que não existem mais ou que, se existem, levam aonde não queremos mais ir. Assim chegaremos a tempo à felicidade. Para lembrar, como diz Fernando Pessoa, é preciso esquecer.

Hoje eu fico bem à vontade com muitas ausências que já foram presenças indispensáveis. Hoje eu já me acostumei a esquecer tudo que vai. Salas e quartos somem sem deixar vestígio. Rostos em pedaços se misturando com o que não sobrou do que eu sentia. Eu juro: eu nem me lembro mais. Bom escutar Capital de madrugada.

Tão forte, tão perto

Postado em Atualizado em

“Em cada despedida existe a imagem da morte”.
George Eliot

Há verbos bons e verbos maus. Perder é um verbo mau. Perder sempre envolve lacuna, falta, desencontro. Perder uma pessoa torna o verbo mais malvado ainda.

A morte de alguém que amamos é devastadora. Um vazio psíquico de repente irrompe no mecanismo acomodado da vida. É como se nos fosse arrancada uma engrenagem na máquina da existência. A mente entra em desalinho e o mundo é instado a parar. Quer-se que o mundo estanque para que a sangria psíquica também estanque. Não se deseja levar a vida adiante para que não se lembre da perda do ser amado e para que não se sofra sua ausência. Esse desajuste, esse descarrilamento se chama luto.

Estudado por muitos, o luto é o período de reelaboração da realidade sem uma peça que até então era fundamental na convivência. É, portanto, um mecanismo necessário para o reequilíbrio psíquico. Acontece que o trabalho de curtir o luto, no sentido de gastar, como se curte o couro, é diferente de pessoa para pessoa. O normal – e é estranho falar em normal nesse assunto – é a pessoa passar pelo que Freud chamou de “teste de realidade”. Permitindo-se o contato com o mundo real, o enlutado descobre e redescobre que a pessoa amada não existe mais e a dor lancinante vira memória, saudade, lembrança, carinho. A máquina psíquica, de forma autopoiética, se recompõe e a vida segue. Alguns, no entanto, não se permitem voltar à realidade necessária à elaboração do luto.

Certas características do indivíduo podem fazer com que o processo de luto não se desenvolva e se torne patológico. Freud chamou o luto cristalizado de melancolia. Para Freud, no luto, há uma perda consciente. Na melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Diz ele: “A melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”. Dizendo de outro jeito: quando se perde alguém e se compreende a perda como parte do processo da vida, o luto é normal, com sua dor e tudo o mais, porque passa. Quando se perde alguém e nesse alguém se depositava um valor simbólico inconsciente, o próprio inconsciente não deixa a vida seguir em busca do fechamento de sentidos.

Ainda Freud: “Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo, a perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão de recriminação e autoenvelhimento, culminando numa expectativa delirante de punição”. O sujeito se pune porque quem amava se foi sem ser simbolizado.

Ok, talvez você não curta muito esse papo psicanalítico. Mas ele serve para eu tentar argumentar o assunto desse texto: a perda.

Tentando traduzir um pouco o jargão da psicanálise, depois de uma perda é preciso se permitir viver a vida para poder pô-la nos eixos. É necessário saber que também há perdas sem razões, por mais que isso nos desafie a mente cartesiana. Buscar uma explicação para a perda quando a explicação não existe é ficar eternamente dependente de uma resposta que nunca virá para que se possa ir adiante. O efeito colateral de se deixar enredar pela teia da melancolia é não perceber que outras coisas e pessoas precisam também de sua atenção para que a máquina psíquica não pare literalmente.

Isso vale tanto para pessoas quanto para fatos na vida. Há fatos que se perdem e que reclamam luto. Há amores que se vão e que precisam de alforria para se e lhe libertar. Há pessoas que terminam um relacionamento e não elaboram o luto porque inconscientemente acreditam que perderam a capacidade de amar e ser feliz junto com a pessoa que se foi. A melancolia bate palmas para esse sentido e ancora a pessoa na tristeza eterna. Se, por outro lado, se vence o luto da ruptura, o mecanismo psíquico se ajusta e aquela pessoa que se foi passa a ser memória, saudade, lembrança. E uma outra passa a simbolizar a felicidade e o amor.

Há sempre a possibilidade de se elaborar e reelaborar. Há sempre a necessidade de simbolizar. O Real, inacessível ao sujeito, é mediado pelo imaginário, que é o conjunto de imagens inconscientes que fazemos do mundo por meio da linguagem, simbólica por natureza. A língua, daí o meu interesse por toda essa conversa, nos separa da natureza ao nos forçar a dar sentidos a tudo. Que imagens fazemos das coisas que perdemos? Melhor perguntando: o que perdemos junto com aquilo ou aquele que perdemos? Até que ponto o que perdemos não é ressimbolizável? Luto ou melancolia? De dentro do luto, a estrada a tomar passa por gastar a dor e seguir adiante. E  antes que alguém diga, falar de fora do luto é mais fácil, reconheço.

Discursivamente falando, pessoas são conceitos ou um conjunto de conceitos. Nós as lemos, nos as consultamos, nos as admiramos, elas nos sustentam. Daí a perda dolorosa quando algum desses nossos alicerces conceituais desaparece. Os sentidos nos faltam. Mas a falta não é de todo ruim. Os sentidos sempre nos faltarão porque a falta é constitutiva da subjetividade. Aprender a conviver com a falta é meio caminho para evitar a melancolia.

Se você tiver a chance, assista a “Tão Forte, Tão Perto” (“Extremely Loud and Incredibly Close”). Foi esse filme que me inspirou essa conversa. É um filme sobre perdas, sobre luto, sobre melancolia, sobre culpa por não compreender, sobre a busca insana de uma chave que abra a porta da explicação inexistente, sobre cegueira afetiva, sobre a vida, enfim. Porque tudo isso está tão perto de cada um de nós. E chega de forma tão forte. Porque perdemos. Quando se aprende a perder, começa-se a ganhar. Ganhar é um verbo bom.