poesia

Gastura

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Não sou da fatalidade o arauto.
Que preguiça de converter o mesquinho!
Apontar-lhe o sol que nasce no alto
Pro homenzarrão e pro homenzinho…

Ah, enjoei de explicar os meus passos
Para aqueles que decidem não andar;
Escrever sobre amor em mil maços
Para os pobres que não querem amar.

Se o que te move é a amargura,
Se o que te encanta é a tristeza,
Em meu mundo tu não cabes…

Carrega a tua azeda alma dura,
Leva pro umbral a vida tesa,
Pois já morreste e não sabes…

Mind Games

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Nas paralelas e em nosso tempo,
Vou rumo ao norte e tu ao sul.
Tu, liberdade; eu, teu detento.
Eu, dia cinzento; tu, mar azul.

Duas dimensões, raro, se cruzam
E, vira-latas, nós nos testamos.
Nossos olhares, vai, se lambuzam,
Nosso desejo, vem, cutucamos…

O rosto vil da realidade
Rompe cessando a luz da chama,
Vem a luz bate a iluminar

Ah, fugaz breve felicidade…
Rolar na praia, deitar na grama
De um mundo nosso, particular…

Sentidos

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Estou cansado. 
Olho para frente e já não vejo a luz que sei que há. São meus olhos.

Estou cansado.
Tenho de caminhar, mas os paralelepípedos doem as solas dos meus pés. São meus pés.

Estou cansado.
Nem meus braços levantam mais para receber a mão solícita que quer puxá-los. São meus braços.

Estou cansado.
Palavras não têm mais força para sair de mim. Não sinto o gosto dos sentidos. É minha boca.

Estou cansado.
Nem a parte de mim que grita consegue me jogar no movimento. Estou surdo. São meus ouvidos.

Estou cansado.
Busco ofegante o ar para inflar-me os pulmões do ânimo. Em vão. O mundo está inodoro de vontades. É meu olfato.

Estou cansado.
Meus sentidos estão sentidos…

 

A liberdade como problema

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a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)
a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)

 

José Paulo Paes

Amor feinho

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Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Prado

Soneto do corte da corte

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Olho a chuva a escorrer nos beirados
Falando em gotas que ninguém entende.
Das suas frases-gotas se desprende
Convite pra magia e pros pecados.

Dos seus contornos d’água delicados
Outro caminho me convida e ascende.
Será que minha alma não aprende
Que o fim nesse caminho é desolado?

Do corpo quente faço o corpo frio,
Pois quero do Vambora o arrepio
Não quero escolhas no fim dolorosas…

Na vida a dois é triste o mistério
Pois dele brota sempre o revertério
Hei de arrancar espinhos dessas rosas…

 

Soneto da lona

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Traíste-me, em corpo e em pensamento.
Tripudiaste desse meu amor tanto.
Deu-me de beber o desencanto.
Abandonaste-me ao puro desalento.

Minh’alma, um descontentamento!
Fúnebre e triste é o murmúrio do meu canto.
Com o pingar amargo do meu pranto
Afoguei a vida em todo meu tormento.

Que nenhum sorriso falso me procure!
Nem mesmo aqueles bons que um dia tive.
Que não me aqueça aquela velha chama!

Como matar em mim o que ainda vive?
Triste súplica é a do que ser que ama!
A dor perdura, mesmo querendo que não dure…

Aninha e suas pedras

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PedrasAcusem-me de romântico, de idealista. Sentenciem-me no tribunal dos valores modernos. Não tem problema. Mas eu acredito no ser humano e na bondade. Eu acredito em projetos desinteressados. Eu acredito na felicidade. Eu acredito na amizade sincera. Eu acredito que dá para fazer o bem sem mandar a fatura. Eu ponho fé nos homens e mulheres de boa vontade.

Acredito nisso tudo não porque seja um santo, de alma pura. Quem o é? Escolhi, no entanto, ser alguém de alma leve, uma boa pessoa (ainda que leituras alheias possam ser diferentes), um bom professor (ainda que algum aluno deteste minha aula), um bom pai (ainda que eu não goste de limpar cocô), um bom filho (ainda que meus pais reclamem mais minha presença), um bom marido (ainda que minha mulher vez por outra reclame que sou folgado). Tento.

Por ter essa agenda há algum tempo, fico buscando compreender certas coisas que acontecem nesse mundo velho sem porteira. Por que, por exemplo, pessoas gastam tanto tempo tentando destruir a vida dos outros em vez de investir no crescimento e na reformulação da sua? Por que as pessoas empurram outras do penhasco, depois de um assalto? Por que as pessoas partem do pressuposto de que sempre há alguma tramoia contra elas, escondida nas coisas boas que lhes acontecem?

São perguntas minhas, de pura reflexão filosófica. As faço olhando da janela do meu escritório e vendo um harmonioso casal de araras voando. Uma poesia pictórica. Por falar em poesia, “Aninha e suas pedras”, de Cora Coralina:

“Não te deixes destruir… /ajuntando novas pedras e construindo novos poemas/Recria tua vida, sempre, sempre/ Remove pedras e planta roseiras e faz doces /Recomeça/Faz de tua vida mesquinha um poema/E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir/Esta fonte é para uso de todos os sedentos/Toma a tua parte/Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede.”

A poesia é a deriva da língua. Por ela escapa-se do congelado, convocando-se novos e diferentes sentidos sempre. O mundo é outro na poesia. Cora nos convida a tomar as rédeas de nosso mundo. A cada um cabe remover as pedras, os travos, os entraves e reinventar-se. A cada um cabe cuidar de seu jardim, plantando rosas que perfumarão a estrada. Por que deixar as ervas daninhas tomar conta? Se a escolha é entre fazer doce ou queimar o assado, por que não se lambuzar?

Recomeçar é uma palavra-chave num mundo movente. A mesquinhez é opção e, diga-se, uma triste opção para quem pode escolher a alegria. Como diz a poetisa: é possível fazer poesia da mesquinhez. Dá para ajudar o sol a aparecer, empurrando a nuvem negra sobre a cabeça, soprando com o vento da alma leve. A vida só faz sentido se habitarmos as memórias boas dos que conosco convivem. Urge fazer com que alguém saia de um encontro conosco, por mínimo e banal que seja, melhor do quando chegou.

Se é difícil para você pensar assim, se você já jogou a toalha no tatame da vida, paciência. Lamento muito por você. Mas a fonte é para todos. Toma a tua parte e não entraves o seu uso aos que têm sede. A vida é bela demais e só uma. O sorriso da minha Aninha e da minha Marininha são o atestado diário de que um mundo feliz existe. Basta vivê-lo. Sempre, sempre.

De repente, li e me identifiquei…

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Trocaria a cereja por pitomba e o cargo de secretário do coral por qualquer outro pelo qual vivem brigando. No resto, assino embaixo. Na foto, minha vozinha chupando pitomba.

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS
Mário de Andrade

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial.”

Ana Clara

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Amanhã, Ana Clara faz 4 anos. Antes de nascer, fiz esse soneto para ela: