política

Vem pra rua!

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Vem pra rua!Há uns dias venho ensaiando escrever sobre tudo isso que vem acontecendo no país. Soltei algumas avaliações e opiniões aqui e ali em papos descontraídos e em posts e tweets nas redes. No entanto, vi-me obrigado a escrever a fim de sistematizar melhor para mim mesmo o que penso e como leio esse texto que agora se escreve na história do Brasil. O primeiro desafio foi  organizar as ideias para melhor articulá-las. É muita coisa e tudo ao mesmo tempo agora.

Organizei o texto em três partes: o que causou tudo isso, o que significa tudo isso e para onde vai tudo isso. É preciso um habeas corpus preventivo contra possíveis ressalvas às ideias aqui expostas. As minhas argumentações vêm de um lugar: a análise de discurso, área com que trabalho academicamente. Compreender como o sentido se produz e por que se produz de determinada forma é meu ganha-pão na universidade. É daqui que eu falo e daqui analiso os fatos. Ressalva feita, vamos lá.

De onde vêm tudo isso? O que disparou esse processo de tomada das ruas pelo povo? Sobre o que as pessoas estão protestando? Essas são perguntas que muita gente boa – e outras nem tão boas – têm tentado responder e eu as tenho lido atentamente. Li muitas opiniões e análises, de todo lado, de toda cor. Tudo o que caia na minha tela eu processava para poder formar opinião.

Na teoria do Discurso, dizemos que há o enunciado e há o processo discursivo. O enunciado é o que se fala. O processo discursivo é o que torna essa fala possível. O enunciado é linguístico. O processo, como o nome diz, é discursivo, sócio-histórico. No nível da enunciação, o que causou o que agora vemos foram os tais dos vinte centavos na passagem de ônibus. No nível do processo, as manifestações são a culminância de uma série de situações históricas acumuladas que não tiveram espaço para simbolização social e que, portanto, voltaram do recalque assombrando o sujeito, nesse caso o sujeito coletivo. Os vinte centavos foram a gota d’água do copo que estava cheio. E não dava mais pra engolir. É: pulsão, limites e o retorno do recalcado.  Leiam Freud. Ele quebra tudo. Mas isso, que não foi sobre os vinte centavos, a gente já sabe.

O que começou como agenda específica – a tarifa nos trasportes – serviu de gatilho, arrebentou o cadeado da corrente da porta. As redes sociais potencializaram e serviram de infovias para a circulação do sentido da indignação coletiva. Não foram elas que causaram tudo, claro, mas elas deram condições sem paralelo na história para que tudo acontecesse. O trem cresceu e aglutinou indignações de várias naturezas, umas com as quais a gente concorda e outras das quais a gente discorda, afinal se trata, como dissemos, de uma indignação coletiva. A insatisfação pontual se anabolizou, muito graças à violência da polícia paulista – valeu, Alckmin! Tal qual um buraco negro, ela começou a sugar tudo que se avizinhava. Em situações normais de temperatura, essa pressão se dissiparia na voz e nos atos de uma oposição política que catalisaria para si a insatisfação. Acontece que as oposições políticas no Brasil, modo geral, se esvaziaram. Optaram por não ter agendas políticas, mas por alimentar Fla-Flus contra o político X ou Y, por demonizar o partido W ou Z. O movimento que o país vive é, portanto, o Político, com o P maiúsculo da Pólis, da cidade, em estado bruto, sem a mediação da representação. A história mostra que o povo vai às ruas quando não se sente representado e estamos vivendo uma baita crise de representatividade.

O que significa tudo isso? Exatamente essa crise de representatividade achatou o movimento, o tornando horizontal, enredado, sem líderes, heterárquico, wiki. Pode-se ter gente falando pelas pautas específicas, mas ninguém está autorizado a falar pelo movimento político das ruas. Petistas megalomaníacos, narcisistas e paranoicos acham que é um movimento conspiratório para derrubar a presidente. Claro que ela, como presidente, vira alvo preferencial das insatisfações. Mas daí a achar que é all about PT é forçar a barra. É esse modus pensandi que faz, por exemplo, o Zé de Abreu dispensar o trabalho dos iconoclastas ao se destruir sozinho falando besteira, desqualificando o povo, chamando as pessoas de “idiotinhas” porque foram às ruas “convocados pela Fiat”. Dã. Parecem que vivem numa bolha semântica impermeável, incapazes de compreender o que é isso, de fato. Gente do PSDB também pensa que tudo isso é sobre derrubar a Dilma, sendo que esses ficam felizes com a hipótese. Redondamente enganados. Ok, é sobre isso também. Nas duas nuances. Mas não é sobre isso. Aí é que está o equívoco. Nessa etapa, não adianta reclamar por foco, não adianta querer líderes. O líder é a indignação centrípeta. O foco é não ter foco. O blur é o foco. Trata-se de um movimento Gita: o tudo, o nada, a mosca na sopa, a mão do carrasco. Raulzito. Para quem estuda ecossistemas comunicacionais, o que vivemos é um exemplo perfeito de como funciona uma rede distribuída paralela. Não tem centro, não tem cluster. Leiam Baran. Google. Está on line.

Essa forma não tradicional de se organizar, em autopoiesis, que se reconfigura por si, deu nó na cabeça de muita gente. “Mas afinal, sem objetivo não se chegará a lugar nenhum!”, “Sem pauta específica não funciona!”, “Cadê a ordem para se ter progresso?”. Mimimi cartesiano, que não dá conta do movimento, da movência. O ministro Gilberto Carvalho perguntou-se, perplexo, o que significava tudo isso. Deu até para imaginá-lo vendo tudo pela TV no Palácio do Planalto e dizendo: “WTF?!” “Quem convoca greve é central sindical e sindicato, que defendem direitos dos trabalhadores, não anônimos do Facebook”, disse o agoniado presidente da CUT, Wagner Freitas. Como assim, né, Wagner? Esse pessoal querendo se apropriar da política? Da “nossa” política?! Governos atordoados porque a falta de líderes não sinaliza quem cooptar. Sindicatos e partidos em polvorosa porque muito dos cooptáveis perderam valor de face. Até mesmo companheiros combativos da política partidária chegaram a acusar jocosamente as manifestações de “micaretas”. De novo, me parece que é uma amargura que tem como pano de fundo a desqualificação do movimento pela ousada apropriação do Político pela população em geral, acabando com a exclusividade do seu brinquedinho. Irônico: gente que passou a vida reclamando horrores da passividade política reclama horrores quando ela é posta em xeque pela súbita participação política. “Ain, mas isso não é fazer política direito!”. Quem disse que tem receita para protestar, cara pintada? Vivemos o fim das receitas prontas. Cozinha-se na hora para saciar a fome com os ingredientes que se tem à mão. Lyotard dizia isso na década de 1970. Leiam o cara.

Muito sintomático também foi o silêncio dos políticos no meio de milhares de gritos. Atordoados, eles permaneceram atentos, de mutuca. Em um primeiro momento, a presidente veio com um discurso esquizofrênico, louvando as manifestações por um lado e, por outro, dizendo que seu governo já faz um monte de coisa. É como se ela dissesse: “Ei, pessoal! Não tem motivo, né?” Dois discursos de um boca só, um Janus semântico. O ex-presidente Lula, que ficou muito tempo calado, avaliou que o desgaste político abriu uma brecha para que algum “aventureiro” venha a ser eleito como o Sassá Mutema da vez, um salvador da pátria. O medo de Lula é localizado em Joaquim Barbosa, ministro do Supremo, Supremo que, aliás, também não se pronunciou sobre isso tudo. Fato é que muita gente entra nessa do Joaquim. Eu tenho mil ressalvas. Mas isso é outro papo.

Para onde vai tudo isso? Em reunião com com prefeitos e governadores, a presidente anunciou mudanças. Nesta segunda-feira (24), Dilma disse que irá pedir um plebiscito que autorize uma Constituinte para fazer a reforma política. “Eu trago propostas concretas e disposição política para construirmos pelo menos cinco pactos em favor do Brasil”. São eles: a) pacto pela responsabilidade fiscal nos governos federal, estaduais e municipais, para “garantir a estabilidade da economia” e o controle da inflação; b) pacto pela reforma política, incluindo um plebiscito popular sobre o assunto e a inclusão da corrupção como crime hediondo. c) pacto pela saúde, afirmando que quando não houver médicos brasileiros, será feita a “importação” de médicos estrangeiros para trabalhar nas zonas interioranas do país; d) pacto pelo transporte público, anunciando que o governo destinará “50 bilhões de reais a novos investimentos em obras de mobilidade urbana” e e) pacto pela educação pública: Dilma pediu mais recursos para a educação, voltando a falar que é necessário que o Congresso aprove a destinação de 100% dos recursos dos royalties do petróleo para a educação. O Plano Nacional de Educação (PNE), em tramitação no Senado, destina 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a área, além dos royalties.

Esse anúncio de mudanças foi recebido de muitas formas. O que é normal, visto que está tudo muito fragmentado. Claramente é uma estratégia política para destensionar. Particularmente, eu vejo que o bonde andou e a gente precisa continuar empurrando. A presidente jogou um monte de coisa nas costas do entes federativos e do Congresso, que vai ter de se virar nos trinta. Afinal. quem vai dizer não com fumaça ainda saindo do cano do revólver?

Não acredito que o anúncio da presidente Dilma vai acabar com as manifestações. Daqui a pouco, elas vão perder força por si só porque nessa época em que vivemos tudo cansa e passa rápido mesmo. É da constituição do novo tecido social da liquidez, de que fala Bauman, outro velhinho do cacete. Minha aposta é a de que a coisa vai se desdobrar em um segundo passo: a organização da indignação em movimentos plurais com pautas específicas. É preciso, como dizem, dar ordem ao caos senão nossa cabecinha calcada na Modernidade não dá conta. Mas a mudança é irreversível. Isso é inegável. Como diria Chico Science: “um passo que a gente dá e a gente não está mais no mesmo lugar”. Os deslocamentos já visíveis. Gente que nunca se preocupou com essas coisas falando sobre a PEC 37, sobre o Ato Médico, sobre os devaneios do Feliciano. Pessoas que só postavam fotos de seus cachorros reclamando uma reforma política, discutindo a vinda dos médicos cubanos, pedindo aumento de verbas para a educação e a punição dos corruptos. A torcida do Flamengo enchendo de kkkk fotos e comentários de políticos tradicionais querendo tirar uma lasquinha dos movimentos. Com a acentuação da crise de representatividade, como vai ficar a política partidária? E as eleições que vêm aí? E o país? Eu juro, leitor querido, que estou morrendo de curiosidade cidadã.

A moça que trabalha aqui em casa disse que quase foi às vias de fato com a cobradora do ônibus. É que ela não queria dar os dez centavos de troco da passagem hoje. “Antes eu até deixava, seu Sérgio! Agora eu não deixo mais não!”, disse ela. É. A Lene foi para a rua. E não foi por causa dos dez centavos só, não. Podem ter certeza disso, meus caros. É hora de você ir pra rua também. E isso já é uma metáfora. SF

Nós e o BBB

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Depois de treze edições o BBB chega ao fim. Aí vêm os comentários inevitáveis: “Caramba! 30 milhões de votos! Povo alienado! E ninguém assina a petição do Renan Calheiros!” Ora, amigos, me rendi a escrever sobre o óbvio. Estão comparando coisas diferentes. Alienar vem do latim “alienare”, “abrir mão de”. Abrimos mão de outras coisas em prol de algo. O povo se aliena naquilo que lhe diz respeito. Eu me alieno na linguagem, muita gente se aliena na política, outros, ainda, nas causas dos animais sofridos e abandonados e outros tantos se alienam no BBB. Ninguém vive sem se alienar, sem se entregar a algo. Isso não é uma somatória: “é preciso tirar do BBB para aumentar na política”. Não penso que funcione assim. São coisas paralelas. A política só vai melhorar quando as pessoas que enchem a boca para falar horrores de BBB e quejandos começarem a lembrar em quem votaram na última eleição, começarem a cobrar de seus representantes, começarem a não dar caixinha para obter vantagem, pararem de estacionar em vaga de idoso sem ser idoso, tiverem coragem de fazer uma crítica sem medo de perder seu carguinho ou desagradar o político de plantão. Política não é mágica, não é pó de pirlimpimpim. É atitude. Não é o que se diz, mas o que se faz. Mas esse papo parece mau hálito, que só os outros têm. Se alguns de nós teve a chance de ir um pouco além na escolaridade e na compreensão da ordem das coisas, que ótimo! Usemos então essa capacidade não para culpar quem não a teve e não consegue se alienar na política, indo se alienar no BBB, no Naldo ou coisas que lhes parecem interessantes porque as fazem sorrir, discutir, pensar, debater, concordar, discordar. É a forma que essas pessoas têm de ser sujeitos no mundo. Dentro do limite que as aliena. Para mim, a questão que deveríamos por é: “como nós, dentro do que cada um faz na divisão social do trabalho, pode ampliar os limites para que um maior número de pessoas circule socialmente e possa enlarguecer sua participação de subjetividade para outros espaços, isso sem querer, numa atitude claramente autoritária, julgar e apagar os (poucos) espaços que lhes restam?” Porque senão a gente vai ficar naquela de querer matar o carteiro porque traz a má notícia. É mais fácil destruir do que desconstruir. Destruir me exclui. Eu jogo a bomba e resolve. Desconstruir me inclui. Preciso pensar melhor sobre qual fio cortar porque se essa bagaça explodir eu vou junto. É mais responsável. É mais justo. É menos intolerante. É mais difícil: daí a intolerância crescente. A Fernanda ganhou. Acho ela uma gracinha. Antes ela do que a falsa da Andressa. E hoje tem eleição na UFAM. E hoje tem aula pras minhas filhas. E hoje estou numa banca de mestrado na academia. E continua o pau na Comissão dos Direitos Humanos. E vai ter show do Naldo em Manaus. E hoje vence o meu cartão de crédito. E não devolveram o dinheiro da transmissão do Carnaval. E a vida continua. Pra todo mundo e não só pra gente no nosso mundinho. Alienati omnes sumus. Bom dia. SF

Discutindo Redes Sociais e Política

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Participarei deste evento dia 15. Todo mundo convidado.

Em nome do “pai”

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Fazia um tempo que eu não escrevia sobre política. Aliás,

quase todas as vezes em que escrevo é sob a perspectiva da linguagem, que é minha praia. É menos arriscoso, como diz o sertanejo.

O episódio do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, me cutucou as vontades. Resumindo para quem não sabe do que estou falando: o prefeito foi à Comunidade Santa Marta, uma área de invasão onde tinha havido mortes por deslizamento. Lá, ficou irritado quando uma moradora, Laudenice Paiva, disse que não estava ali por escolha. O prefeito disse à moradora: “Então morra! morra! morra!”. Depois, ao perguntar de onde a moça era e ouvir dela que era do Pará, Amazonino disparou, “Tá explicado!”. Aqui o vídeo na íntegra, disponibilizado pela própria prefeitura no You Tube.  http://www.youtube.com/watch?v=n7Yaq08MIZY.

Há duas questões principais aqui. Uma é o grave comportamento do prefeito e a outra é a séria questão de fundo, que é a das invasões urbanas. E, para começo de conversa, uma não anula a outra, como quiseram argumentar algumas pessoas no Twitter, dizendo que não interessava discutir a grosseria do prefeito e sim as invasões. Eu acho que interessa discutir as duas coisas.

Um homem público tem de ter equilíbrio, o que parece que faltou ao prefeito. “Mas tem horas que tem de ser assim, na lata!”, argumentou um tuiteiro, dando razão a Amazonino. Discordo. A paciência pedagógica é um dos requisitos daqueles que estão em função pública. Ninguém pode usar uma posição de poder para vomitar nos outros suas angústias, neuras e traumas. É isso que faz com esse país seja a terra do “você sabe com quem está falando?”. É claro que há situações em que gostaríamos de bater na cara de certas pessoas com sandália Havaiana cheia de terra molhada. Mas a posição pública exige serenidade e a educação mínima exige sociabilidade. Eu mesmo, como professor, já quis dar umas palmadas nuns alunos aí, mas a profissão exige fleuma. =). No caso do prefeito, um mínimo de sensibilidade social também não faria mal. Detalhe: fui advertido no Twitter por ter falado em sensibilidade “do conforto do meu ar-condicionado”. E é preciso ser miserável para falar da miséria? Duplo twist carpado argumentativo…

Os comportamentos acerca da atitude de Amazonino foram sintomáticos. Os oposicionistas dilentantes de sempre aproveitaram e caíram matando. Não precisam de motivo. E com motivo então… É da política. Já não gostam do Amazonino, ele levantando a bola para cortar é o paraíso. Os partidários do prefeito que tentaram explicar o fizeram pela velha estratégia da conspiração da oposição infiltrada (a paraense teria sido colocada morando ali pelo PSB há anos já prevendo esse momento, como os espiões da KGB infiltrados na CIA desde bebês). Ou ainda culpando a imprensa que, fazendo o seu papel, registrou o fato. Uma exceção foi imprensa chapa-branca, que, claro, não se culpou, mas recortou no fato o que lhe interessou ou então silenciou, como fizeram algumas pessoas que fosse o prefeito um outro estariam com a jugular tinindo e babando de ódio. Detalhe: silenciar é uma das formas mais contundentes de se pronunciar. Falar sobre outras coisas também. É da política. Bem como defender o mandatário de plantão para defender interesses particulares. Escolhas.

O prefeito ainda foi infeliz no comentário sobre a origem da moça. “É de onde?” “Do Pará!” “Tá explicado…”. E os remendos depois não deram conta do preconceito, que existe circulando por aqui e que Amazonino atualizou em sua fala. Escrevi sobre isso aqui. Muitos preconceituosos defenderam o prefeito, naquela clara transferência de identificação. Muitos prepotentes viram na atitude do prefeito uma vazão de sua própria irritabilidade com o que aquelas pessoas representam e no incômodo que elas trazem. Mas misturar Freud com Amazonino é demais para uma tarde bonita como a de hoje. Deixa quieto.

A outra questão séria que o episódio levantou é a o do crescimento desordenado e, por consequência, do crescimento sem direção da cidade. Manaus incha porque cresce e não desenvolve. A infraestrutura não acompanha. A ocupação de terra é sabidamente, além de um problema social de migração descontrolada, uma questão de profissionalização da ocupação. Líderes profissionais, por assim dizer, grilam, controlam e loteiam áreas na cidade, estimulados pela conivência de políticos populistas, muitos dos quais, fazendo proselitismo político, sentam o pau em invasões. Cinismo conveniente.

Quando estava na secretaria de educação, éramos instados pelo Ministério Público constantemente devido às invasões. Os grupos invadiam e exigiam benfeitorias sociais imediatas como escolas e postos de saúde. Como não se constroem escolas nem postos de saúde em um mês, a confusão era certa, com, muitas vezes, ajuda da falta de razoabilidade do MP, que queria que a prefeitura fosse MacGayver e tirasse leite de pedra. Resolvida a questão, os grupos migravam para outra área de invasão para começar tudo de novo, aumentando os índices de evasão escolar por conta disso. E o MP ia atrás.

Parte do problema se dá pela falta de um Plano Diretor articulado e pelo desinteresse público pela questão. Sem uma grande discussão envolvendo a sociedade civil organizada e o órgãos ligados à questão, estaremos vendo sempre essas tristes cenas de alagamentos e o prefeito, coitado, tendo que se declarar “pai” de Laudenices e de meia Manaus.

Estar nos Trending Topics mundiais do Twitter foi bom por vários motivos. Primeiro, levantou a questão do planejamento urbano, urgente – e o MP poderia dar uma acochada nisso. Depois, evidenciou o quanto uma ação política mal assessorada traz um dano político irreparável. Por fim, mostrou como a imprensa lida com as questões chapa-branca de forma que vai da profissional à movida a jabá. Mas isso é assunto para um outro texto.

Algumas pessoas acharam “engraçada” a cena. Não consigo achar, nem com todo esforço do meu bom humor costumeiro. Morte, miséria, pobreza e insensibilidade continuam sendo assuntos com os quais não sei lidar rindo. Desculpem, vocês que falam ou calam em nome do “pai”. Não consigo ver festa ou graça nisso. E estou com um vergonha tremenda do prefeito da minha cidade. Um quê de enojado e indignado com tudo isso.

Como não sou de desejar morte a ninguém, o prefeito poderia ao menos pedir para sair e ir, sei lá, jogar dominó, já que pedir desculpas à população e aos imigrantes que moram e trabalham nessa terra é  demais para sua vaidade. Passou da dose. Transbordou. Algo foi soterrado com essa história. Fail master. E, claro, aceito discordâncias quanto minha leitura do fato. Aguardo os comentários para saber de onde falam os interlocutores…

Nós e os paraenses

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Texto publicado no Jornal EM TEMPO, em 12 de abril de 2006. Continua atual… (Veja aqui)

O pedreiro Gilson chamou Aldemir de “paraense”. O ofendido, que é amazonense, respondeu com tiros e o matou. Um vereador disse que a criminalidade em Manaus é alta por causa dos paraenses. Lembram disso?

Há sempre razões históricas nos sentidos coletivos. A rivalidade entre vizinhos é uma forma de marcar espaço, seja geográfico ou simbólico. Dizem os historiadores que a hostilidade entre paraenses e amazonenses remonta ao tempo da borracha, quando a Capitania do Rio Negro era subordinada ao Grão-Pará. A negação do pai, diria Freud. Como os portugueses sofrem com as piadas dos brasileiros, os paraenses sofrem com os chistes dos amazonenses.

Com a Zona Franca, Manaus se desenvolveu, gerou empregos e os paraenses passaram a migrar para cá, passando a ser vistos como rivais competindo por recursos escassos. Diz meu pai que nos anos 60 um bairrismo chegou a ser alimentado nos esportes entre as seleções estaduais. Disputas entre o Paysandu ou Remo contra Nacional ou Rio Negro duraram até metade da década de 70. A rivalidade mingou junto com o futebol.

Esta é a lógica que circula na cabeça de muitos: os paraenses são os outros que vêm ameaçar nossos empregos e, não conseguindo, a nossa paz. A construção do imaginário sobre eles é resultado, entre outras coisas, da imagem coletiva de que o Estado do Pará é campeão de violência, de impunidade e de maus políticos. Essa imagem circula, ganha corpo, se junta com outros motivos e vira verdade coletiva, levada pela língua do vento e redita diariamente de várias formas.

A rixa ganha terreno fértil na internet. No Orkut, há a comunidade “A Haydée é paraense”, se referindo à personagem cleptomaníaca da antiga novela das oito América. Os paraenses contra-atacam chamando os amazonenses de barés, evidenciando o preconceito em relação aos índios como sendo inferiores. A briga descamba para o lado musical: o Calypso emplacou nacionamente, mas o Boi não, riem os paraenses.

A diferença entre grupos é desejável e está no topo da agenda social. O desrespeito por ela leva ao preconceito e à intolerância. Se há gente, há espaço para a divergência. Quando não administrada, ela pode ter conseqüências indesejáveis. Os amazonenses sacaneiam os paraenses por seu Jader Barbalho e esquecem do pau-a-pau Amazonino.

O estereotipo negativo não é privilégio do Norte. São notórias algumas posições pré-construídas no eixo Sul-Sudeste contra nortistas e nordestinos. Todo baiano (de Minas para cima) é porteiro e essa imagem de inferior na hierarquia social é metaforizada, por exemplo, como inferioridade intelectual no convívio de uma sala de aula de doutorado da UNICAMP. Senti na pele o peso da generalização até desfazê-la.

Apelidos, xingamentos, gozações e querelas de vereadores são a face mais amena da intolerância à diferença. As mais graves estão no noticiário diário, como a morte de Gilson ou o fundamentalismo de Bin Laden ou Bush.

Diferença não é deficiência. Mas ignorar que há razões sociais e históricas que mexem com as identidades é ingenuidade. Enquanto essa terra for vendida como o novo Eldorado, pessoas migrarão em busca de vida melhor. Não encontrando, serão levadas à marginalidade, reforçando conceitos genéricos que, pela força da realidade social cruel, acabam virando razão de ofensa mortal. Quem matou Gilson foi a injustiça social. Triste é ver que o preconceito se enraiza e por meio de gente que teria a obrigação de desfazê-lo.

Pirulito que bate-bate

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A turma do pirulito

Em uma confraternização da Secretaria de Educação, estávamos eu, então subsecretário, e o secretário participando de uma das dinâmicas que os pedagogos adoram. Os grupos tinham de ler uma espécie de enigma e descobrir de que canção infantil se tratava. Eu era de um grupo e o secretário de outro. A tarefa estava difícil, até que o secretário cantou, num lampejo de genialidade, “Pirulito que bate-bate!…”. E a equipe dele venceu.

No caminho, conversando no carro, ele confessou que alguém dentre os que haviam bolado a tarefa soprou em seu ouvido a resposta. Rimos durante toda viagem de volta. Ninando minha filha Marina, me peguei cantando o pirulito que bate-bate e pensei na história e na oportunidade para compreender as relações de poder por meio dela.

Em qualquer organização onde haja um mínimo de ordem, há sempre alguém no comando, numa posição de poder. Há também um grupo que circula em volta dessa posição, independente de quem a ocupe. É a turma do pirulito que bate-bate. Ela bate palmas quando pode, bate ponto no puxassaquismo, agrada o que dá e se comporta como acha que a figura em torno de quem gravitam espera que ela se comporte. Não é o Zé que essa turma bajula, mas qualquer um que venha a ocupar a posição de poder que o Zé ocupa. Se o Zé sair e entrar, digamos, o Chico, o Zé vira pária e tudo que fez passa a ser ruim e o Chico vira o deus e matriz de tudo de bom. Muda a pessoa, mas a turma do pirulito continua lá com seu indefectível bate-bate para o chefe.

Nem todo mundo é como a turma do pirulito. Há pessoas que concordam ou discordam de quem está no poder não por piruliteza, mas por convicção. Observam a hierarquia, mas não a utilizam nem como balizador de suas decisões nem como alvo de suas frustrações na carreira ou de seus planos carreiristas. São profissionais que pensam por si e não pelo organograma. Colaboram na sua divergência e são os assessores que um chefe inteligente gosta de ter. Suas opiniões visam o coletivo, não o seu projeto pessoal de ascensão ou perpetuação num cargo a todo custo, como as da maioria dos pirulitos.

Há dois possíveis grandes equívocos numa cultura organizacional: o de os bate-bate acharem que um chefe esperto não sabe que eles são bate-bate e o de um chefe vaidoso crer que os bate-bate gravitam a sua volta por sua capacidade de liderança. No primeiro caso, uma mudança de chefia desnuda os bate-bate. Com um novo chefe, os bate-bate bóiam. No segundo caso, o chefe cria a ilusória sensação de ter sustentação na base, uma sustentação que é tão forte quanto, digamos, um pau de pirulito. Na hora do vamos ver, os bate-bate se pirulitam, buscando seu cômodo buraco na tábua até que o furacão passe e eles descubram em torno de quem devem gravitar. Detalhe: os bate-bate e os verdadeiros assessores não se bicam por índole diferenciada.

Não culpo a turma do pirulito. Eles só sabem ser pirulitos. Sofrem se tiverem de ser outra coisa. E não estão apenas na educação. Estão na saúde, nos jornais, nas universidades, na justiça, na política, no Twitter. Há profissionais e pirulitos em todo lugar. Sempre haverá alguém discordando sinceramente para melhorar e alguém concordando falsamente para agradar. Os assessores reais eu aprendi a admirar e valorizar. Já os pirulitos… quando muito servem de objeto para uma crônica ou para inflar o ego de quem precisa. Entre o saco e carroça, eu prefiro puxar a última. Escolhas…

Em quem não voto

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Texto escrito para o Portal Amazonia.

Um amigo perguntou em quem votaria. Eu disse e ele perguntou por que não votaria em xis ou em ípsolon. Aí resolvi desfiar uma lista de razões que me ajuda a escolher. Quero compartilhá-la com você, leitor.

Não voto em candidato que emporcalha a cidade. Se o candidato não diz a que veio por meio de sua história e pelo espaço da propaganda política que lhe cabe é incompetente para me representar. Nem voto também no que gruda adesivos no meu carro sem permissão. Se não respeita minha privacidade, não voto.

Não voto em candidato que veio de programa popularesco de televisão ou rádio. Quero um representante que legisle, mas ignorando a lei de talião, aquela do olho por olho, dente por dente. Não combina com nosso estado de direito. Vá prometer porrada para outro.

Falando em porrada, não voto em candidato que bate em mulher. Quem faz isso não tem limites. Representante meu tem que ter limites morais, legais e éticos. Aliás, não voto também em mulher que acoberta violência do marido. Não quero uma candidata omissa por conveniência. Violência e omissão não rimam com política.

Não voto em candidato que passa em frente à minha casa com foguetes, buzinando e gritando em carro de som. Minha escolha não se dá por repetição. Além de inócua, essa estratégia barulhenta ainda acorda minhas filhas dos seus soninhos angelicais.

Não voto em candidatos que já tiveram a chance de fazer e não fizeram. Sem essa de que agora vai ser diferente. Caráter de político quando muda é só para pior.

Não voto em candidatos que xingam os atuais mandatários. O discurso ardido não combina com o homem público. Há de haver respeito pelas autoridades constituídas. As discordâncias políticas são da arena política. Fica feio candidatos xingarem o Presidente da República, o Governador, o Prefeito que, queiram ou não, foram eleitos e são autoridades legitimadas. Por isso, não voto nos raivosinhos.

Não voto em candidatos pitorescos, gente com enxada na mão ou vestida de palhaço. Lugar de aberração é no circo e não fazendo as leis que vão reger nossa vida.

Não voto em candidatos comprovadamente envolvidos em corrupção. É burro o eleitor que abriga na imunidade quem advogou para interesses privados ao ocupar cargos públicos. O voto é um antibiótico para essas bactérias sociais. Mas também não voto em candidatos novos sem passado de luta política. Candidatos que surgem do nada, sem referências históricas são um prato cheio para a infidelidade partidária e ao voto do eleitor.

Não voto em candidato que passa para o lado do governante a cada eleição. Esse muda de convicção política com a mesma desenvoltura com a qual muda de partido. Oportunismo. Não confio. Não voto. Não voto também em candidato copa-do-mundo, que só aparece de quatro em quatro anos para pedir votos. Estou fora.

Não voto em candidato que não se garante e hipoteca o nome de Deus. Deus me livre! Deus me guarde! Deus me faça a feira! #ChicoCesarFeelings.

Não voto na extrema direita. Ela enche sua bocarra criticando o governo como se fosse ela a virgem vestal da ética. Não voto na extrema esquerda. A adolescência política é uma fase pela qual todos passamos. Mas ela, a fase, também tem de passar. A extrema esquerda só se sabe na oposição. Não voto nela porque, primeiro, caso ganhasse as eleições, entraria numa esquizofrenia imediata. Como ser oposição a mim mesma? Segundo, porque veste sempre a mesma roupa.

Passada a peneirada, escolho meus candidatos entre os que sobrarem. Aí eu voto. Sobra alguém?

Diários

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Há uma ambivalência que nos habita. Somos o que não desejamos e desejamos ser o que não somos.

“Fui assistir a Diários de Motocicleta. Estava com medo de não conseguir vê-lo por se tratar de um filme que foge ao ethos hollywoodiano. Filmes assim ficam em cartaz somente uma ou no máximo duas semanas. Mas consegui.

O filme é uma adaptação para os cinemas do diário de Che Guevara. Dirigido pelo brasileiro Walter Salles, a história aborda a viagem de moto de Guevara e seu amigo, o biólogo Granado, pela América do Sul. A viagem foi feita antes de Che se tornar líder revolucionário em Cuba, viagem essa que acabou por mudar os rumos da vida do futuro guerrilheiro.

Ernesto Che Guevara e Alberto Granado saíram de Buenos Aires. Foram até a Patagônia, passaram pelo Chile e entraram fascinados no Peru. Lá visitaram a cidade histórica de Cuzco, capital do império Inca. Passaram por Lima e rumaram para Iquitos, na fronteira com a Amazônia brasileira. Depois da Colômbia, a viagem de sete meses terminou na Venezuela. Granado ficou em Caracas e Guevara seguiu para uma vida diferente, construída pela mudança de identidade possibilitada por seu contato com tanta desigualdade e injustiça encontradas pelo seu caminho.

Diários é uma carta de amor à América do Sul. Uma carta daquelas que só se escreve do fundo da alma e somente depois de se conhecer a alma do destinatário. Seus encontros com os mineradores explorados e com os leprosos de San Pablo acenderam em Ernesto o Che indignado e adormecido dentro de si.  O lado político do filme, o racional, é completado pelo lado afetivo nele entrelaçado, o emocional. São narradas histórias de amor, de desejo, de impetuosidade juvenil, de amizade. Impossível não lembrar daquele nosso amigo Alfredo, o de todas as horas. É essa bela mistura que faz com que haja uma intensa e imediata identificação com a história e seus protagonistas.

Na humilde opinião desse escriba barato, filme bom é aquele que faz a gente sair do cinema com algo martelando na cabeça. É aquele que incomoda nossas verdades e questiona nossas certezas e valores confortáveis. Diários consegue fazer isso de forma clara. Sua linguagem visual é um plus. Todas as vezes que aparecem os injustiçados e explorados no filme, a cena perde o colorido e as imagens ficam em preto e branco, como sem cores são as situações e as existências esmaecidas pela injustiça, vividas por quem não consegue espaço existencial, geográfico ou político. Semiótica trabalhada belamente na arte.

Mas o que o filme de Walter Salles me fez pensar foi exatamente na relação dialética entre a identidade e a existência do ser humano. Todos nós temos um eu mais fixo e centrado, como uma madre superiora e suas regras inflexíveis. Mas somos igualmente habitados por um outro eu mais maluco, porra-louca, pronto para topar todas, pegar uma moto velha e sair por aí como um destruidor dos valores.

A vida é um eterno cabo-de-guerra entre a madre e o louco. Para uns, a madre ganha sempre. Não permitimos que o louco nos surpreenda. Ele é esmagado impiedosamente e atirado no calabouço dos indisciplinados pelo autoritarismo do nosso superego e das cobranças sociais. Para outros, considerados mais normais pela sociedade, a madre quase sempre leva, mas vez por outra o louco rouba a cena e salta no bungee jumping, desce uma corredeira, nada nu num lago, come com as mãos, beija a mulher do próximo. Para outros ainda, a madre é uma figura que só existe como referência negativa do que não se quer ser e do que deve ser evitado. É o eu sempre inquieto e insatisfeito consigo, mutante de si próprio, eterno chutador de baldes.

É essa dualidade desbalanceada pelos fatos da vida que nos leva ter uma identidade. Fulano é certinho, doido ou normal. Rótulos que direcionam nossos atos em função não do que somos, mas do que os outros acham que nós somos e querem que nós sejamos.  E isso é muito forte. Viver é a forma de dar sustança à identidade. Che trazia consigo o revolucionário potencial. E se por acaso o louco não tivesse falado naquele aluno de medicina e decidido cruzar a América andina na Poderosa, nome dado à moto furreca que os levou ao encontro de suas identidades dormentes? E se não tivesse desafiado o estado vigente de coisas como algo que não é imutável, compreendendo a realidade daquele povo como produto de contextos naturalizados e por isso mesmo passível de mudança? E se não tivesse priorizado o vivido em detrimento do sonhado e tivesse ido a Miami para comprar o biquíni de sua namorada com os quinze dólares que ela lhe deu em vez de dá-los ao casal de mineiros lascados encontrados no caminho? A vida deu a Ernesto Guevara possibilidades para a emergência do louco dentro de si, o Che.

E nós? Fico aqui com meus botões perguntando: sou madre, sou louco ou as duas coisas intermitentes? E sendo o que sou, com uma identidade predominante, por acaso sou feliz? Gostaria de ser mais madre ou mais louco? Como anda o meu balanço identitário?

Existe a história e o real da história. A nossa história pode ser feita toda de imagens construídas por um simbolismo aprendido, teórico. Mas pode ser também construída pelo simbolismo vivido, material, historicizado. Saber identificar o estado atual de nossa identidade, seus efeitos sobre nossa felicidade e as atitudes que devemos buscar para mudar ou manter o estado das coisas é o que faz o individuo sentir-se bem consigo e com o mundo. Madres ou loucos reprimidos fazem mal à mente, à alma, à própria existência. Essa situação de repressão psíquica nos envelhece mais cedo, nos torna rabugentos, chatos, dispensáveis. Pare e pense nas pessoas de quem gostamos. Nem sempre a sintonia se dá porque o que somos bate com o que elas são. Às vezes a sintonia se dá por oposição, porque vejo naquele louco o louco que eu queria desesperadamente ser. Ou naquela madre, o porto seguro para a inconstância de minha movência constitutiva.

A madre dentro de mim também deve cantar e dançar mambo. O louco precisa dos momentos de paz de espírito, de reflexão e sossego. Precisa escrever um diário. Mas a questão é exatamente quando é o exato momento de fazer o quê. Aí, só a vida de cada um, o desejo de olhar-se por dentro, é que tem a vez e a voz para dizer. A meu ver, o problema é descartar a madre ou o louco a priori. Desse jeito, se descarta a vida e o que ela traz. Com isso, talvez o mundo ganhe um médico a mais. E um Che a menos.

Compreendo agora porque o filme foi aplaudido por 13 minutos seguidos em Cannes. Junto minhas mãos às palmas dessa platéia. E agradeço pela possibilidade da reflexão e confesso o desejo de buscar e ler tanto o livro de Che quanto o de Granado, ainda vivo. Como diz a Dona Maria, a senhora que limpa e arruma aqui em casa e que para tudo tem um ditado: “De médico e louco, todos nós temos um pouco”. O quão pouco é cada pouco em cada um de nós, cada um que o descubra percorrendo sua vida em sua motocicleta poderosa chamada Querer.

28 de maio de 2004

Política: a ciência dos negócios do Estado

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Trabalhando com linguagem, cedo descobri que se a etimologia não é garantia de sentido, ela é pelo menos um bom ponto de partida. “Política” vem de “politike”, a ciência dos negócios do Estado. Assim, ser político nem sempre é ser a mesma coisa. Depende do foco.

O político pode entender a política como a “ciência” dos negócios do Estado, como a ciência dos “negócios” do Estado ou como a ciência dos negócios do “Estado”. A diferença é qualitativa. Explicarei, leitor, e aí você enquadra os nossos políticos em uma das três categorias.

Um político que enfatiza o termo “ciência” é um político que trata questões públicas como um grande objeto teórico. Tem até boas intenções, mas padece de falta de sincronia. Seu tempo é o tempo acadêmico, da elucubração. Adora um fórum. Sofre de democratite, numa necessidade eterna de consultar as bases para decidir qualquer coisa, contradizendo a própria legitimidade a ele dada pela votação. Normalmente é considerado um bom político, mas que pouco faz, porque de fato passa tanto tempo discutindo com as bases a filosofia da roda que não dá tempo de pô-la para rodar em benefício do social.

O segundo tipo é o político que foca nos “negócios” do Estado. Seu interesse é fazer de seu papel de representante popular uma empresa de factoring  de poder. É arrogante, se acha o dono do mundo e não quer respeitar as regras do jogo.  Arrota bravatas e ameaças quando sua vontade é contrariada, geralmente uma vontade que atenta contra o interesse público. Advoga pelo benefício particular (próprio ou de afilhados) em detrimento do coletivo. Acredita que em tudo se pode dar um jeitinho. E quer ser chamado de doutor. Por ser o que é, deixa de ser o que é e passa a ser o que não era sem cerimônia, sendo extremamente venal em princípios e posições.

O terceiro tipo de político é o que enfatiza o “Estado”. Esse tipo faz o que deve ser feito se for a benefício do coletivo. Por isso, contraria muita gente, entre eles os políticos-cientistas, que acham que ele decide sem ouvir as bases o suficiente, e os políticos-negociantes, porque o “leso” não tira proveito financeiro do que faz a fim de repartir ganhos. Por razões distintas, os grupos incomodados tentam desqualificá-lo com críticas superficiais porque não conseguem sustentar críticas concretas. Acaba sendo rotulado de antipolítico porque a acepção de estadista é uma impossibilidade semântica no dicionário dos que criticam. O político-estadista não define políticas de governo, mas políticas de Estado, que ficam para além de seu mandato.

A administração pública convive com os três tipos. Os políticos-estadistas infelizmente são poucos. Os políticos-cientistas também são poucos, mas muito chatos.  Os políticos-negociantes são muitos e perigosos. A questão é a dosemetria: quais os limites de quem administra na relação com políticos? Acredito que seja compor em demandas legais, morais e coletivas e defuntear as ilegais, imorais ou de interesse puramente pessoal.

O político-cientista tende a ter seu nome esquecido em um ano. O político-negociante acaba dando nome a um bairro. Quanto ao político-estadista, esse certamente será parte da história.

Não sabe brincar? Não desce pro play!

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Já não é a primeira vez que uma pessoa pública sai do Twitter por estar descontente com os comentários que lê por lá. Como acompanhei a mais recente contenda ao vivo, resolvi pensar um pouco sobre o jogo de linguagem que acontece no Twitter. Tratou-se da saída da vereadora de Manaus, Mirtes Salles, depois de ver um tweet pornográfico postado por um vírus ser repercutido à exaustão pelos usuários do serviço. Quem não viu, aqui no site do Não, Senhor! tem um resumo.

Como qualquer lugar onde circula um grupo, o Twitter tem suas regras de linguagem. Quem não entra nessa ordem de discurso vira marginal, no sentido de ir para as margens do grupo, isso quando não é levado a cruzar a linha da exclusão mesmo, chegando até mesmo ao twiticídio. E quais seriam essas regras não escritas?

Ainda que careça de mais estudo, arriscaria dizer que o Twitter tem quatro regras básicas.

A primeira delas: o “sabe com quem está falando?” não funciona. Aliás, funciona inversamente. Basta um figurão se meter a besta para todos caírem matando. É como se os usuários lembrassem a ele que fora dali ele pode ter fama, dinheiro ou prestígio, mas que ali ele tem 140 caracteres como todo mundo. E se não souber usar com concisão piora tudo. Aliás, regra de ouro da linguagem: vista a roupa do ambiente. Querer ser sujeito de linguagem em lugares com relações assimétricas é pedir para ser considerado um transgressor. Experimente proferir um palavrão numa reunião de negócios ou corrigir o português de seus amigos de bar. É por aí. Encontrar o balanço da linguagem de um grupo é uma das características de uma pessoa fluente numa língua.

Regra número dois: No Twitter, bom humor é fundamental. Ninguém aguenta um chato rabugento, a não ser que isso faça parte do role que a pessoa construiu, como o @Cardoso, por exemplo. Por isso, é fundamental rir. E mais importante: desenvolver a capacidade de rir de si mesmo. Se a vereadora risse de seu tweet pornográfico e escrevesse algo como: “Ei, acho o Marcelo Ramos hackeou meu Twitter! Hahaha! Que diabo é isso! Alguém aí me ajuda!” talvez ela ainda estivesse usando o serviço para divulgar seus atos parlamentares, além de provavelmente ter conquistado a solidariedade alheia. Porque no Twitter a solidariedade vem com empatia.

Essa é a regra número três: as pessoas entram no Twitter basicamente para diversão e informação. Eventualmente se adere ao serviço para apreciar questões profissionais mais sérias. Interação é fundamental nesse jogo lúdico. Tweet bom é tweet que nos faz ficar leves, sorrir, aquele com que se ganha algo, aquele que dá vontade de retuitar. Responder tweets diretos aumenta o seu valor social no grupo que lhe segue. Não responder leva fatalmente a unfollow, mais cedo ou mais tarde. A regra é: o que eu tenho para oferecer a quem me lê? Se não tiver nada além do “Bom dia!”, como a @SandyLeah, você se limitará a seguidores inerciais, aqueles que lhe seguem porque você é famoso. Ah, você não é famoso? Bom, então ficará sem followers. Volte para o Orkut.

A quarta regra é a variedade. É preciso variar seus tweets. Tweets sempre na mesma esfera cronotópica (o mesmo campo, o mesmo assunto, as mesmas coisas, o mesmo tema) cansam. Seja sério (com humor), ria, informe, divirja propositivamente, tire sarro e saiba ser tirado. Mas evite  fazer somente uma dessas coisas o tempo todo. Ninguém aguenta monotemáticos. Nem no Twitter nem em canto nenhum do mundo.

O @realwbonner sacou as regras rapidamente e virou sucesso. Xuxa e Ronaldo Tiradentes não entraram no jogo. A Mirtes não soube rir de si e foi infeliz ao escolher uma das comentadoras mais agudas do Twitter manauara para responder de forma prepotente. Deu no que deu.

O bom usuário Twitter é o que consegue transitar nessas regras. Pode checar. Falhou numa delas, grandes são as chances de você ganhar uma hashtag. Deve haver outras regras discursivas. Quando voltar de férias, vou pesquisar mais sobre isso. Por enquanto, ficam essas.

Na linguagem, como na vida, a gente tem de aprender as regras do jogo. Até para piar tem regras. E aí, quem não sabe brincar que não desça pro play. Não é, @bia_abinader?