política

Linguagem e participação política

Postado em

Temos acompanhado situações que a imprensa nos tem mostrado nos últimos tempos. É o senado com manifestações políticas cínicas, bandidos que afrontam a polícia em total desrespeito ao aparato do Estado, governantes que dão explicações esdrúxulas para a não solução dos problemas públicos. Fiquei avaliando o que significa toda essa indignação, esse cinismo, esse descaso e essa esdruxularia. Como sempre, tento entender os fatos do mundo usando como referência a linguagem.

Tentando explicar o funcionamento da linguagem de forma bastante simples: valores, conceitos, ideias e verdades que cada um possui são produtos de construção de sua história de vida. Tudo se constroi e se estabelece como verdade (ou é descartada com tal) pela vivência e convivência cultural e social. E tudo entra na cabeça do sujeito via linguagem. É o que chamamos de discurso. Discurso é, portanto, prática de pensamento.

Assim, o cinismo que nos indigna é um efeito de sentido de dois discursos em contato. Dizendo de outra forma: aquilo nos indigna porque quem fala o que fala só pode ser cínico, que é o que eu seria se estivesse no lugar dele. Acontece que o sujeito da linguagem apaga que, se os seus são construídos, os sentidos dos outros também o são. Quem nós chamamos de cínico não se vê como tal. Acredita que o que faz e diz é tão possível e normal como nós acreditamos que o que faz e diz é cínico. Chamamos de cara-de-pau alguém para quem ser de madeira não é problema algum. Por isso arquivam-se processos no Conselho de Ética sem a menor cerimônia.

Nessa lógica, o bandido que afronta a lei, em sua cabeça de sujeito e em um processo apagado – porque é inconsciente e ideológico -, não afronta a lei. A lei sequer interessa a ele, até porque muita das vezes essa lei só o vê como cidadão quando ele a quebra e quase nunca o vê como cidadão para lhe oferecer os bens sociais de responsabilidade do Estado. O mesmo vale para as explicações esdrúxulas dos governantes. São esdrúxulas porque nós, no lugar desses governantes, nunca as daríamos, até porque não teríamos informações que eles têm. E é exatamente o fato de falar de outro lugar que faz com que os discursos sejam diferentes.

E aonde essa constatação leva? Leva à compreensão de que a mudança não se faz no plano da retórica. Indignar-se com os cínicos é insuficiente, ainda que desopile o fígado, porque os cínicos não vêem cinismo no que fazem. Querer pena de morte ao bandido é mais fácil do que admitir que a sociedade só permita que ele signifique desse lugar. O que é preciso é alterar a constituição dos lugares de enunciação, o que se faz por um envolvimento político efetivo que vá além de gritar palavras de ordem e pode levar a mudanças estruturais. É preciso envolver-se para ocupar os lugares dos que nos indignam para de lá falarmos de um lugar deslocado por princípios éticos e morais em que acreditamos.

Na vida, no amor e na política funciona assim: ou ocupamos os espaços ou vem alguém e os ocupa. Querer mudanças e manter-se inerte só aumenta o espaço ocupado pelos que nos incomodam. Participação política envolve tomar o leme do barco. Com todas as responsabilidades que isso traz. Topa, cara-pintada?

Enxugando gelo

Postado em Atualizado em

[É sério o problema de se recusar a sair dos parâmetros do seu tempo e de seus ranços ideológicos. Mais sério fica quando se quer legislar sobre o novo mundo escrevendo as leis na parede da caverna, como se fossem rupestres. Olhem o que está na VEJA desta semana. Até quando enxugar-se-á o gelo?]

VEJA, 11 de julho de 2009

Brasil

Não sabem o que falam

Falta princípio de realidade ao projeto aprovado
pela Câmara que tenta disciplinar a internet durante
as campanhas eleitorais


Raquel Salgado

Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
UMA OPINIÃO DINOSSÁURICA
Flávio Dino (PCdoB-MA): “Não podemos aceitar
que a internet seja um território sem regras”

A Câmara dos Deputados aprovou um projeto que faz 173 mudanças na Lei Eleitoral. Dessas, 22 tratam do uso da internet nas eleições e podem ser divididas em dois blocos. No primeiro estão as regras liberalizantes. Elas ampliam, por exemplo, o espaço na rede em que é permitido fazer campanha eleitoral, hoje restrita aos sites dos próprios candidatos. Pelo projeto, os políticos podem passar a usar blogs, redes sociais e e-mails. O restante das medidas é autoritário e está em descompasso com a realidade. Elas equiparam sites de veículos de comunicação e portais a emissoras de rádio e TV, como se os primeiros fossem também concessões públicas e, portanto, sujeitos a supervisão estatal. Não são, fique claro. No projeto, há uma regra que diz que sites e portais devem dar o mesmo tratamento a candidatos e partidos, sob pena de ser multados, e outra que chega a ser mais rígida com a internet do que com os veículos impressos. Veda a propaganda paga na rede, hoje permitida em jornais e revistas. Os deputados também querem proibir a veiculação de vídeos e áudios com montagens que ridicularizam candidatos. É uma tolice que cairá no vazio. Muitos dos sites que divulgam esse tipo de material têm sede no exterior e não são regidos pelas leis brasileiras.

Especialista em legislação de internet, o advogado Renato Opice Blum diz que os deputados tentam tolher a liberdade de expressão. “Muitos artigos do projeto não fazem sentido, como o que exige que todos os políticos tenham idêntico tempo ou espaço na rede. Ora, como isso é possível num meio que prima pela instantaneidade e por abrigar milhões de opiniões individuais?”, espanta-se Blum. O relator da medida, Flávio Dino (PCdoB-MA), rebate: “Não podemos aceitar que a internet seja um território sem regras”. Trata-se de uma opinião dinossáurica, só compartilhada por ditadores chineses, iranianos, cubanos e norte-coreanos, que tentam controlar a rede de computadores. Nas democracias dignas desse nome, a internet é indisciplinada porque sua natureza é indisciplinável. O deputado Dino, tão rígido em relação ao que vai pela rede, mostrou-se flexível em temas mais próximos aos parlamentares. Ele foi favorável a que políticos “ficha-suja”, que respondem a processos criminais, possam se candidatar e também oficializou as “doações ocultas”, feitas aos partidos para esconder o vínculo do doador com o candidato. Possibilitou ainda que erros em prestação de contas de campanha considerados “irrelevantes” sejam perdoados. Como não especificou o que entende por esse adjetivo, abriu uma estrada para absolver políticos que fraudam contas eleitorais. Espera-se que, no Senado, o projeto aprovado na Câmara sofra alterações e perca as tintas do teatro do absurdo.

A Feira de livro e o bola murcha

Postado em Atualizado em

Estou escrevendo de Ribeirão Preto. Estou aqui a convite da Fundação Feira do Livro participando da 9ª FeiraCafé Filosófico na 9a. Feira do Livro, em Ribeirão Preto. Sérgio Freire. Nacional do Livro. Na segunda-feira, fui o palestrante convidado de um café filosófico, falando sobre o que sei e gosto: linguagem. Foi excelente, como no ano passado, quando estive aqui pela primeira vez.

A Feira, a segunda maior a céu aberto do Brasil, começou no dia 18 e vai até 28 de junho. Em dez dias estão programados mais de 600 eventos gratuitos, abrangendo literatura e manifestações artísticas. Há mais de 100 escritores da literatura nacional e internacional que participaram e participarão de palestras e debates. São nomes como Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony, Fernando Morais, Thiago de Melo, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Eliane Brum, entre tantos outros. Há mais de 60 apresentações musicais, com grandes nomes da MPB e apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de shows dos chilenos Tita Parra e Antar Parra e de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Jorge Vercilo, Lenine, Luiz Melodia, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Paula Toller, Paulinho da Viola, Toquinho, MPB4 e Vanessa da Mata.

A cada ano, a Feira homenageia um país, um estado e uma personalidade. Este ano foram o Chile, o Amazonas e Cora Coralina. E aqui entra um misto de alegria, de espanto e de indignação.

A alegria vem pela escolha do Amazonas como Estado homenageado. Ela se estende porque represento meu Estado junto com Márcio Souza, Thiago de Melo e Milton Hatoum, grandes nomes da literatura da minha terra. O espanto se dá por ter constatado, para um Estado homenageado com uma cultura artística e literária rica, a ausência dessa riqueza. Onde está nossa música? Por que somente nós quatro? Ressalte-se a presença da Editora Valer, disseminando a publicação regional. A indignação emerge por saber que a ausência do Estado não se deu por causa da organização da Feira, mas por vaidade de quem gere a cultura no Amazonas.

A Feira enviou um emissário a Manaus para articular a presença do Estado no evento, com público de mais de 400 mil pessoas. Foram 21 dias em Manaus tentando falar com quem decide. No Município, a secretária de cultura marcou e furou, deixando o representante esperando. No Estado, os ofícios da Fundação foram solenemente ignorados pelo Secretário que, estou começando a desconfiar, tem bronca com livros. Sua vaidade não permite que uma feira de livro aconteça em Manaus. Razão: numa feira de livro quem brilha são os autores e não quem organiza, como num Festival de Ópera ou de Cinema, quando holofotes se voltam para sua figura de black-tie. E não é falta de competência. Quando ele quer, a coisa sai bonita. Quando ele não quer, no entanto, ignora o potencial de retorno estratégico e turístico que um evento como esse tem, deixando de fazer seu papel institucional.

Fico pensando nessa vaidade toda em época de copa do mundo. Ou alguém convida o secretário para dar o pontapé inicial no primeiro jogo em Manaus ou não sei não. Fica aqui a indignação dirigida ao governador Eduardo Braga, para quem a imagem externa do Amazonas parece ter algum valor. Já que falamos em futebol, pisaram na bola, Governador. E feio. E o secretário é o bola murcha do ano.

O peixe não vê a água

Postado em

O peixe, de MiróHá textos que lemos que passam batidos. Há outros que nos inquietam. Ou porque falam diretamente sobre questões que nos são caras demais ou porque falam demais sobre questões que nos são muito diretas. A linha entre um texto que merece ser ignorado e um que merece ser comentado é tênue. Esse preâmbulo é para dizer que decidi comentar um texto de Márcio Souza, publicado em um jornal de Manaus, apesar do apelo para ignorá-lo.

Márcio descobriu que vivemos uma nova era. Deixamos a era da leseira baré pela era da idiotia baré. Caracteriza esse momento como o tempo da “glorificação da ignorância em detrimento da inteligência”, da troca do “diálogo civilizado” pela violência. Lamenta que Manaus tenha se tornado uma “cidade de simplórios” que elegem apresentadores de programas de TV “hidrófobos”. Critica ainda as reações locais à posição de Carlos Minc quanto à agenda politiqueira de Alfredo Nascimento sobre a BR319, lamentando as “bravatas provincianas e insultos preconceituosos”, expressão do “raciocínio indigente”, “do mais baixo oportunismo” e de um “deslavado fisiologismo político” que ignora o mérito da questão. Finaliza dizendo que o idiota baré toma como “axiomáticas as idéias de que alpinismo social, privatização da coisa pública e aparelhamento do estado são reflexo de alto realismo político”. É sua tese.

Para justificar a argumentação, de forma pouco inteligente para quem tem um percurso literário como o seu, Márcio troca o diálogo civilizado por agressões violentas contra o atual reitor e contra a futura reitora da Ufam. Critica a lentidão da resposta institucional quanto à agressão sofrida pelo professor Gilson Monteiro e o silêncio da reitora eleita – com o que concordo e sobre o que já escrevi alhures – , mas o faz por vias simplórias da desqualificação acadêmica, usando insultos hidrófobos e fugindo do mérito. Cai no caminho fácil das bravatas provincianas e no raciocínio indigente do “ad hominem” ao julgar o comportamento da reitora eleita por sua tese “ininteligível [para ele] onde (sic) excreta erudição mal digerida”. E sentencia: “A Universidade do Amazonas já foi lugar de argumentação erudita e busca pelo saber”. Quando? Quando era “grupo escolar”, rótulo atribuído ao próprio escritor? Estou na Ufam e ela está em mim. Foi aí que cruzei a linha tênue entre ignorar ou comentar. Queria que o escritor respeitasse o meu trabalho porque respeito o seu.

É complicado falar em alpinismo social quando se faz autopromoção à custa do desrespeito profissional. É estranho falar criticamente em privatização da coisa pública quando se tenta vender apresentações teatrais para o município a preço de ouro, num ato que eu e “aqueles que aprenderam a separar o joio do trigo” lemos como fisiologismo político. Mais Márcio: “A diferença entre a leseira baré e a idiotia baré [é a de que] o leso toma a incredulidade como um bem absoluto e com isso é capaz de resistir. Já o idiota baré, este é fruto dos conflitos entre o conhecimento intelectual e o mais baixo oportunismo, do rigor ético com o mais deslavado fisiologismo político”. Concordo. Não deu para ficar quieto. Ficar quieto é coisa de quem não canta. Eu canto.

PS: Márcio e eu estaremos na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Quarta eu comento a Feira.

Três Irmãos de Sangue

Postado em Atualizado em

Capa do DVD. Vale a pena.“Ah, meu Brasil… que sonha com a volta do irmão do Henfil…”  Acabei de desligaro DVD. Havia comprado o documentário já há alguns meses, mas ficou ali, lacrado, esperando um vácuo entre as tarefas de trabalho. “Três Irmãos de Sangue”, filme sobre Betinho, Henfil e Chico Mário, me emocionou do começo ao fim. Ri, chorei, me identifiquei. Recomendo aos que se emocionam com o Hino Nacional ou se importam quando seu irmão está triste. Fantástico. Ainda bem que comprei, depois de uma breve dúvida.

Faroeste caboclo

Postado em Atualizado em

Beavis vs Butt HeadRecebi um telefonema de uma amiga professora da Ufam. Ela  me relatou o ocorrido com o professor Gilson Monteiro, do Departamento de Comunicação. Para quem não sabe, o professor foi agredido por Amim Aziz, irmão do vice-governador do Estado, Omar Aziz. Gilson comentou em sala de aula que a imprensa de Manaus sofre influência política e citou como exemplo a cobertura insossa da mídia local no caso da CPI da pedofilia, em que circulava o nome do vice-governador.  A agressão se deu quando uma sobrinha de Omar, aluna do curso, sentindo-se ofendida, chamou o tio Amim. O tio chegou dando uma voadora em Gilson.

Vivemos em um estado democrático de direito, que pressupõe direitos e responsabilidades. Não sei o que o professor efetivamente disse, mas nada justifica o desfecho. Ao se sentir ofendida, a aluna deveria buscar os caminhos jurídicos que protegem os cidadãos. O código penal prevê os crimes de calúnia, injúria e difamação, julgados a partir de todo um processo com amplo contraditório, arrazoados e testemunhas que subsidiam a justiça em seu julgamento, absolvendo ou condenando alguém pelos crimes.

Ao optar pela lei de talião (do latim Lex Talionis, lex: lei e talis: tal, parelho), que consiste em retaliação, frequentemente expressa pela máxima “olho por olho, dente por dente”, o agressor ignorou a justiça, seus limites e se pôs, portanto, sujeito às penas jurídicas. Sem limites, a sociedade entra em colapso. Daí a necessidade de regramento. Gilson tomará suas providências jurídicas pela agressão sofrida e Omar, se quiser, tomará as suas pelo alegado crime de calúnia. Mas há desdobramentos.

O soco que Amim deu em Gilson o atingiu empiricamente, deixando-lhe um olho roxo. Mas tão grave quando a agressão empírica é a agressão simbólica. Essa não foi só em Gilson, mas na Universidade como um todo. Eu mesmo, como parte dessa Universidade, ainda sinto o pontapé no estômago. A Ufam, a meu ver, deveria ter reagido imediata e veementemente para resguardar o institucional. Hoje foi Gilson, amanhã serei eu. Imagine, leitor, se os professores da Arca de Noé resolvem me pegar no estacionamento por causa do meu “crime” de opinião? Se em uma aula de Análise de Discurso, ao criticar o discurso militar da perda de soberania ou o discurso falacioso dos rizicultores sobre a falência econômica de Roraima no imbróglio Raposa-Serra do Sol sou preso ou levo uns cascudos do arrozeiro Paulo Quartiero?

Interessante foram os comentários dos políticos estampados nos jornais e as opiniões emitidas em rádios como a Difusora e CBN. Todos condenam o professor por “estar se metendo onde não deveria”. Nenhum fala do crime que cometeu Amim ao agredir o professor dentro de uma Universidade Federal. “Professor deveria dar aula e não formar opinião”, diz uma deputada-professora, querendo formar opinião.  É assim que funciona: o poder político determina os limites do dizer e para que lado pendem as opiniões daqueles que orbitam ao seu redor. A cobertura do caso prova a tese de Gilson em sala de aula.

Fato é que esse episódio deve ser levado juridicamente às últimas consequências. A Ufam, como instituição, deve reagir. Se a moda pega, viveremos na música do Legião Urbana.

Ufam Sempre Presente

Postado em Atualizado em

A professora Márcia Perales é a nova reitora da Ufam. Fico feliz com sua vitória. Participei desde o embrião do projeto de administração de Márcia e de Hedinaldo, seu vice. Sinceramente acredito que as propostas desenhadas são as melhores dentre as que se apresentaram. Parabenizo a toda Ufam pelo belo processo democrático que, como um ser vivo, vai alterando suas características com o passar do tempo, como se percebeu nessa eleição. É preciso ler os números da votação agora e entender o que sussurram em nossos ouvidos. Volto a escrever sobre isso. Mas de início, parabéns e sucesso, Márcia, Hedinaldo e toda a equipe que administrará a nossa Ufam. Meu dia amanhece mais feliz. S.

A política maior e a política menor

Postado em

Quando produzi um livro didático que foi utilizado na rede estadual de ensino, ouvi algumas críticas. Elas eram do tipo: “Mas você vai vender seu livro para ser usado no governo do Fulano?”. Meu argumento era duplo: primeiro, sou profissional e estava executando um trabalho técnico. Segundo, se havia a chance de implementar o que eu acreditava que era melhor pedagogicamente naquele contexto político, não seria o grupo político no poder que seria impeditivo para que eu o fizesse. E fiz. O livro foi vendido a uma editora que, por sua vez, ganhou a licitação. Por anos, nosso material foi usado nas escolas de ensino médio do Estado com bastante aceitação. No governo do Fulano.

Trago essa questão para introduzir outra: existem dois tipos de política, a política maior e a política menor. Enquanto a política maior se preocupa com políticas públicas, a menor se preocupa com o trânsito do particular nas políticas públicas. Exemplo: na administração municipal passada, estávamos preocupados com a forma de escolher diretores de escolas de modo menos pessoal e mais profissional. Criamos um processo que considerava o mérito e a avaliação participativa da comunidade. Isso, na nossa convicção, alteraria qualitativamente o ensino. Logo o Ministério da Educação estabeleceu a escolha meritocrática como uma das metas do Todos pela Educação. Enquanto essa preocupação com a política maior seguia, havia pressões políticas para tentar furar os critérios e manter diretores antigos, em um claro exemplo de política miúda.

Ao estabelecer o novo plano de cargos de professores, definimos que só fariam parte do plano, bem melhor que o anterior, os professores que efetivamente estivessem atuando na Secretaria de Educação. A ideia era trazer de volta os inúmeros professores em desvio de função em outros órgãos. Como há alguns professores que não querem dar aulas, logo a política menor começou suas pressões para que o plano contemplasse esses exilados.

Poderia desfiar um rosário de exemplo de como essa dupla política acontece. Não precisa. O leitor inteligente sabe que por trás de cada gesto de política maior, que privilegia uma maioria em detrimento de uma minoria – afinal são políticas sociais -, os parasitas da política menor se mexem feito formigas que têm seu formigueiro chutado. Havendo política de Estado, há sempre politiquinha de bastidores querendo miná-la.

O que nos cabe como sociedade organizada é apoiar as políticas maiores e rechaçar as poliquetas jitinhas. Seja por meio de organizações sociais, blogs, colunas de jornais ou o que o valha. Não dá mais é para deixar passar em branco sob o risco de ver a politiquinha tomar o espaço da política maior e virar prática descarada. Essa é nossa responsabilidade e nosso compromisso de cidadão.

Obviamente que tenho simpatias políticas, mas nunca me filiei a nenhum partido porque, geralmente, quando conflita a política maior com a menor, um partido opta pela segunda. Meu compromisso profissional e como amazonense é com a política maior. Onde ela estiver, lá estarei eu. Escrevendo, cutucando, apanhando. Mas convicto por lealdade a princípios. Seja com Fulano ou com Beltrano.

SF, 24/03/2009, 11:30h

Quando três é dez

Postado em Atualizado em

Escolhendo no voto

Meus irmãos brincam dizendo que eu adoro o número três, resumindo tudo sempre em  três pontos. Lembrei disso ao pensar nos critérios para exercer cargos públicos. Para mim, esses critérios são três, claro.

O primeiro critério é o da competência. Quem tem preparo técnico para um cargo tende a ser mais eficientemente do que quem não tem.  É a lógica. É preciso um mínimo de coincidência entre o perfil do gestor e o do cargo que ocupa para dar certo. Ser secretário de educação, digamos,  sendo especialista em foguetes é complicado. Incompetência técnica faz a coisa ir para o espaço.

O segundo é o do compromisso político. De pouco adianta a competência técnica se o gestor não se afinar com as diretrizes do grupo que administra. O melhor técnico liberal vai perturbar uma administração estatizante e vice-versa. Choque conceitual dá curto-circuito.

A resiliência também conta. Quem administra deve ter jogo de cintura para saber lidar com quem está acima, abaixo e ao lado na hierarquia. O excelente técnico, afinadíssimo no diapasão de seu grupo, será uma enxaqueca para a administração se lhe faltar tato para encarar as contrariedades do jogo administrativo. Showzinhos combinam com sambódromo, não com gestão pública.

Quando se contemplam os três requisitos temos o melhor dos mundos, mas se um deles capengar a coisa pega. Mesmo com compromisso político e jogo de cintura, assumir um cargo para o qual não se tem preparo é irresponsabilidade, carreirismo ou as duas coisas. Ainda que se tenha a formação necessária e a plasticidade para gerenciar o adverso, pleitear uma posição sem compartilhar projetos comuns é deslealdade com o grupo  e desonestidade intelectual consigo. Ser leal às direções políticas,  ser tecnicamente competente, mas incapaz de gerenciar pressões é pôr o grupo de que se faz parte em situação delicada, arriscando um projeto coletivo em detrimento do individual. Aí é vaidade.

Um candidato a cargo público tem de avaliar seus limites e possibilidades nos três aspectos. Antes uma autocensura vindo da autocrítica do que uma reprovação coletiva vinda da ausência dela. Autocrítica e humildade, aliás, são fundamentais para quem se quer gestor. Municiado por elas, um líder também deve levar em conta esses critérios para a escolha dos seus, sob o risco de virar samambaia de plástico. Quanto maior a responsabilidade de um gestor, mais ele precisa de gente para pensar com ele.

Assim faço minhas escolhas. Para síndico, vereador ou presidente. Entende do riscado? Seus princípios batem com os meus? Sabe ser conciliador de diferenças? Se a resposta for sim, sinto-me à vontade para sapecar o voto. Se não for, escolho pelo menos complicado em termos de efeitos para a coletividade que receberá as ações do cargo proposto.

Na avaliação dos candidatos à reitoria da Universidade Federal do Amazonas não é diferente. Escolhi alguém tecnicamente qualificado, cujo grupo apresenta conceitos de Universidade de que compartilho, além de possuir o perfil que quem se pretende interlocutor da Ufam com a sociedade precisa ter. Argumentando pela teoria do três dos meus irmãos, meu voto é 10, para Márcia Perales. Porque a Ufam que nós queremos já está aí, sempre presente e muito viva no aqui e agora, se é que me faço entender.

UFAM sempre presente

Postado em Atualizado em

Na última semana, por três vezes presidi a colação de grau de cursos do Instituto de Ciências Humanas e Letras, na Universidade Federal do Amazonas, onde estou como diretor. Ter estado ali me fez pensar em algumas questões.

De cada alegria vivida, voz embargada ou sorriso bonito dos formandos e de seus familiares que subiram à mesa está por trás o trabalho de uma instituição que completou 100 anos em janeiro. No seu centenário, a UFAM tem se consolidado com um dos atores fundamentais na fundação da sociedade amazonense. Basta olhar ao redor: sempre tem alguém com ligação com nossa Universidade, tendo sido tocado em sua vida por seu ensino, por sua crescente pesquisa ou por seus amplos e bem-sucedidos projetos de extensão.

Nos últimos anos, a UFAM expandiu-se e implantou cinco unidades permanentes no interior do Estado, em Benjamin Constant, Coari, Itacoatiara, Parintins e Humaitá, oferecendo 30 novos cursos. Sua expansão demandou um crescimento em infraestrutura, ampliando sua área construída para atender a nova demanda e acomodar as antigas. O Plano Diretor do Campus Universitário de Manaus, feito em 1977, está sendo executado com a construção, entre outros, do Bloco Administrativo e de um Centro de Convivência que atenderá a comunidade universitária que passa o dia no campus. Além do corpo, a UFAM investiu na alma: novos concursos para docentes e técnicos administrativos. De cinco cursos de mestrado em 2001 passou-se para 32 mestrados e 8 doutorados. Ampliou-se em 170% as vagas graduação e 250% o número de vagas nos cursos noturnos. Por meio das ações de Extensão, a UFAM retorna à sociedade conhecimento em quantidade e qualidade nunca antes vistos, com mais de 1 milhão de pessoas atendidas.

Ter estado tão presente na vida da sociedade amazonense só aumenta as responsabilidades da UFAM. É necessário continuar atendendo a sociedade em seus vários níveis de interrelacionamento, formando pessoas que irão atuar nos vários âmbitos e áreas, qualificando mestres e doutores que mudarão, com a pesquisa, a qualidade de vida da população e levando por meio da extensão a Universidade  àquelas pessoas que não estão na UFAM mas que a financiam.

Nesse contexto, administrar a UFAM é um desafio. Esse desafio deve ser encarado com equilíbrio, competência e democracia, sem abrir mão do papel decisório de quem for escolhido para estar no comando. Nesse contexto está em curso a construção de grupos que pleiteiam legitimamente administrar a UFAM pelos próximos quatros anos. Em minha singela opinião de quem faz parte da UFAM e de quem a UFAM é parte, é preciso dar continuidade aos avanços da atual gestão, olhando critica mas propositivamente para seus limites, focando mais fortemente nos cursos de graduação. E para isso é fundamental ter o pé no chão para administrar, sem faraonismos e idéias mofadas.

Nas cerimônias de formatura, senti-me emocionado com o carinho e orgulho que os familiares demonstravam por seus formandos. E orgulho e carinho são ingredientes indispensáveis para quem se quer reitor. Nada como um carinho materno para dar suporte em busca do caminho certo.  Assim, a UFAM estará sempre presente na sociedade e, portanto, nas nossas vidas. A escolha é nossa.