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Sociolinguística capitalista

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O fax do nirso

Um gerente de vendas recebeu o seguinte fax de um dos seus novos vendedores:
”Seo gomis, o criente de belzonte pidiu mais cuatrucenta pessa. Faz favor tomá as providenssa.  Abrasso, nirso.”

Aproximadamente uma hora depois, recebeu outro:
”Seo gomis, os relatório di venda vai xegá atrazado proque to fexando umas venda. Temo que manda treis mil pessa. amanhã tô xegando.  Abrasso, nirso.”

No dia seguinte:
”Seo gomis, num xeguei pucausa de que vendi mais deis mil em beraba. tô indo pra brazilha. Abrasso, nirso.”

No outro:
”Seo gomis, brazilha fexô 20 mil. vô pra frolinopolis e de lá pra sum paulo no vinhão das cete hora. abrasso, nirso.”

E assim foi o mês inteiro. O gerente, muito preocupado com a imagem da empresa, levou ao presidente as mensagens que recebeu do vendedor.
o presidente escutou atentamente o gerente e disse:  ”Deixa comigo, que eu tomarei as providências necessárias.”

E tomou. Redigiu de próprio punho um aviso e o afixou no mural da empresa, juntamente com as mensagens de fax do vendedor:
”a parti de oje nois tudo vamo fazê feito o nirso. si priocupá menos em iscrevê serto, mod vendê maiz. acinado, o prizidenti”.

Pontuando a existência

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Pontuando a existência

Todos nós estudamos pontuação na escola. Abra a gramática e as regras estarão lá.  Estava pensando aqui: as pessoas são como sinais de pontuação.

Há pessoas pontos, que têm seus conceitos e não mudam de opinião. É aquilo e pronto. Ponto.  Inútil discutir. Os pontos são irredutíveis, uns cabeças-duras. Pelos menos os pontos parágrafos. Os pontos seguidos são mais flexíveis. Com uma boa argumentação são capazes de se dobrar para continuar a vida sem muito sofrimento. Ambos se opõem aos vírgulas.

Os vírgulas são bon vivants. Para eles, o mundo não pode esperar. Querem continuar, seguir, viver, deixar a vida correr. Vão na onda do momento, no fluxo. Enquanto os pontos param, os vírgulas seguem. Sempre.

Entre os dois, há os ponto-e-vírgulas.  Nem tão teimosos quantos os pontos, nem tão impetuosos quanto os vírgulas, os ponto-e-vírgulas seguem o curso da vida, mas fazem pausas estratégicas para respirar, tomar fôlego, fazer ajustes finos. Os ponto-e-vírgulas não estagnam, pois é preciso seguir adiante. Se for preciso, refazem conceitos e vão em frente. Regra geral, eles têm a cabeça no lugar. A sociedade adora os raros ponto-e-vírgulas.

Há as pessoas dois pontos. Essas dão a impressão de que vão fazer e não fazem. Prometem e não cumprem. Parece que vai, mas não vai. Criam uma falsa expectativa, pois anunciam e não concluem, deixando a impressão de que algo faltou. Os dois pontos só têm arranque. São procrastinadores. Gente boa, mas que logo caem no descrédito porque suas delongas são recorrentes e previsíveis.

Difíceis são as pessoas pontos de interrogação. Umas incógnitas. É duro conviver com elas porque nunca se sabe como reagirão. São de lua. Seus comportamentos são imprevisíveis. Com os interrogações não dá para fazer planos. Sua marca registrada é a dúvida. Não são quentes nem frios, mas podem ser quentes e frios. Ou mornos. Nunca se sabe.

Parentes dos interrogações, os reticências são diferentes. Enquanto os interrogações dizem e surpreendem, os reticências calam ao dizer. Não precisam falar para ser entendidos. Irônicos ou sarcásticos, os reticências deixam seu recado. Não se dão bem com os pontos nem com os exclamações: incompatibilidade de gênios.

Os exclamações fazem questão de dizer o que pensam. Enfatizam quem são, a que vieram e às vezes confundem sinceridade com falta de educação. Gostam de ser o centro das atenções, precisam ser notados, como seus primos itálicos. As pessoas tendem a se afastar quando percebem que estão lidando com os exclamações. Ninguém gosta muito de gente bojuda.

E os aspas? Os aspas são aqueles que só repetem o que os outros dizem. Raramente têm opiniões próprias. São influenciáveis e marias-vão-com-as-outras. Há muitos aspas por aí. Há aspas especializados em bajular o chefe: os aspones.

Na vida é assim. Há os cabeças-duras, os porras-loucas, os razoáveis. Os proteladores, os imprevisíveis e os enxeridos. Os sem-identidades, os aglutinantes que juntam (os crases), os desagregadores que dividem (os barras), os diferentes em tudo (os travessões) e os prolixos que explicam o desnecessário (os parênteses).

No geral, que tipo de pontuação você é, leitor? Conhecer-se é fundamental. Só fica bem no texto da sua história quem aprende a dominar a gramática da vida para lidar com as diferenças. Isso é fato. Ponto.

A vírgula fora do lugar

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commaUm dos problemas comuns na escrita é a separação do sujeito e predicado com uma vírgula. A vírgula fora do lugar está nos textos escritos e também nos vividos. Às vezes fazemos algo que destoa do texto que escrevemos e somos repreendidos pelos Pasquales que nos observam.

Meu amigo André sempre tirou a carinha do som do carro. Quando não o fez, roubaram. Vírgula fora do lugar. Um bom texto tem seu objetivo definido; a vida também. Um bom texto surpreende o leitor; a vida também. Por vezes tratamos nosso texto como um bilhete de mesa de bar. Pôr a vírgula fora do lugar nessas situações não tem problema, pois o certo e o errado vão pelo contexto. Na feira, pergunto: “pra quanto a enfiada de peixe, mano?” Se perguntar “Você pode me informar quanto custa um conjunto de dez jaraquis, senhor?” estarei pondo uma vírgula fora do lugar. Numa prova, a aluna escreveu: “Tem neguinho que acha que Paulo Freire já era”. Tem neguinho que acha que pode falar “tem neguinho” em textos acadêmicos. Vírgula fora do lugar.

Quem nunca teve dúvida na hora da vírgula? Será que me declaro para ela ou isso é separar o sujeito do predicado? Arrisco uma mexida no texto da minha vida ou deixo como está, sem saber se poderia ser mais interessante?

Há pessoas que amam vírgulas fora do lugar. Suas mãos teimam em rabiscar vírgulas errantes. Metem os pés pelas mãos ou as vírgulas pelos espaços em branco. Andam com errorex na bolsa, que corrige, mas deixa a marca.

E os revisores dos textos alheios? Fulano se esforça para escrever um texto e vem o espírito-de-porco botar uma vírgula. Vírgula posta por outro em nosso texto é vírgula moralmente fora do lugar. Os virguladores do texto alheio querem mostrar que sabem virgular, numa afirmação que esconde a incapacidade de escrever seu próprio texto. Vírgula no texto do outro é refresco.

No amor, quantos belos textos são jogados no lixo por causa daquele erro na mão? Vale a pena jogar fora uma biblioteca de Shakespeare por causa de um Paulo Coelho na estante? Será que o Paulo Coelho não tem a função de nos dar a percepção do valor do Shakespeare ignorado?

Por vezes tenho a impressão de que nós próprios somos vírgulas fora do lugar. Dá uma sensação de que estamos sobrando. Como uma vírgula que separa sujeito do predicado, temos a impressão de que nossa subjetividade está separada do mundo com sua sintaxe própria. Mera impressão: às vezes somos as vírgulas certas nos textos errados.

Tenho uma certeza sobre minhas vírgulas: são minhas. Nós não perdemos a capacidade de escrever belos textos porque pomos a vírgula fora do lugar. Não somos maus escritores. Somos escritores conjunturais, de textos de vida. Bem ou mal pontuados, mas nossos. Não importa se escritos a pena ou a faca, como os de Lampião, o Virgulino.

Se a vida é um texto, que mal há em experimentar as vírgulas? Há sempre a chance de começar um texto novo, de resgatar um texto amassado da lixeira. Precisamos aceitar que uma vírgula fora do lugar não pode pôr a perder um texto bonito. Às vezes, quando parece que é hora de um ponto final, basta pôr uma vírgula e continuar a história. Ela não perde o seu valor por causa de uma vírgula. Às vezes, de repente, até ganha.

Sérgio Augusto Freire de Souza

Jornal Em Tempo, 26 de março de 2008

Ortografia

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Beleza. Alguém pensou num tira-dúvidas just-in-time: ORTOGRAFA

Millôr: na Veja de hoje

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UM

Tão mexendo de novo na tua língua. Quer dizer, na escrita, porque na língua falada e na outra, a propriamente dita, felizmente eles não conseguem mexer. E tiveram que abandonar qualquer pretensão etimológica, dava kagadas homéricas! Um competente dizia que a palavra vinha daqui, outro, mais competente, que vinha dali, o Lula não sabia de onde, mas achava que nunca antes.

Céus, o que isso dava de erudito por metro quadrado! Diria melhor, folha corrida. O próprio Aurélio, respeitadíssimo como linguista (além de ótimo escritor), caía na anedota. Etimologia e anedota, aliás, são irmãs gêmeas.

Procurem Canguru no Aurélio. Procuraram? É, taqui:

Canguru: marsupial. Nome dado por nativos australianos a um marsupial.

Segundo a versão do Aurélio, o próprio almirante Cook, ou um seu marinheiro, teria perguntado, em inglês, naturalmente, ao nativo: “What kind of animal is that one, that have a purse and jumps all the time? Has it a name?”. E o nativo, sem nenhuma dúvida, respondeu: “Kanguru (Eu não sei)”.

Isso sempre me lembra aqueles filmes de Hollywood em que os heróis americanos chegavam a uma tribo africana, ou à Índia, ou à Bessarábia, e a comunicação era facílima — os nativos, todos!, mesmo os mais primitivos, falavam inglês sem sotaque. Bons tempos. A produção saía muito mais barata.

A única curiosidade, parece, é que o nativo falou Kanguru com K. Os novos gnomonistas ainda não tinham decidido que era com C.

Pois bem, eu, que tenho orgulho de ser um leigo — aliás, a única classe gnomônica respeitável são os leigos —, vou explicar melhor de onde vem o Canguru.

Kangaroo – wallaroo; wallaby são palavras oriundas de verbos aborígines australianos. Saltar ou pular. Com dois sufixos, roo e by, significando quadrúpedes.

Onde é que encontrei isso? Cara, eu disse, sou um leigo. Não tenho obrigação ética de entregar meu ouro ao bandido.

DOIS

Mas o curioso é que a linguagem “civilizada”, tanto quanto eu sei, e o tanto aí é tão pouco quanto o quanto, começou pela escrita, pelo visual. Daí passou pro fônico.

Digamos grosseiramente. O cara desenhava um sol e um dado. O cara do outro lado sabia que era soldado. Mais tarde um outro cara de bom ouvido passou a usar os mesmos símbolos como adjetivo e para chamar um soldador — sol-dado-or, bombeiro hidráulico. Isso se chama rébus. Sencillo, no mamita?

TRÊS

Durante anos gozamos, no bom sentido, os tais dos sinais diacríticos diferenciais. A gente tinha que escrever acento no medo para diferenciá-lo de medo (aquele dos medos/persas, você ainda se lembra?). E também em tôdo de todo, parece que havia um passarinho português com esse chapeuzinho.

Não me queiram mal, mas não parece linguística de bicha (perdão de novo, de gay).

Pois bem, agora, depois de amplos, profundos, gigantescos estudos, eles vêem (veem) com essa bobajada dos hifens-não hifens, que vai fundir a cabecinha dos alunos e fazer com que alunos brilhantes tenham nota baixa porque não botaram um tracinho entre as pernas (entrepernas) de duas palavras. Porque a professorinha, funcionalmente medíocre, aprendeu e descolou toda essa besteirada.

QUATRO

Bem, mas, convenção por convenção, clitóris ou clítoris, por que não deixar os diacríticos (diferenciais ou não) nas palavras? Já estávamos acostumados. Com os acentos os eruditos pelo menos orientavam o pessoal da planície quanto à acentuação certa. Quer dizer, convencionalmente certa.

Convenção que pode ser feita em meia hora. Mas e as viagens? E o doutorismo?

CINCO

Não me sigam. Acho que a linguística atual é uma ciência fantástica, que cora diante dessas bobagens, deles e minhas. Depois de Chomsky, que li muito e entendi pouco, a língua dos homens passou a ser pra mim uma coisa ainda mais complexa e mais bela.

Agora, aqui pra nós — porque Chomsky abandonou tudo e foi ser um nome cultuado internacionalmente pela esquerda. Já que — um pouco mais, um pouco menos — ele se iguala a todos nos lugares-comuns.

SEIS

E a crase, hein? Que invenção genial! Até a palavra abessa, eles conseguiram dividir, transformar em a bessa, portanto com crase, à bessa, que depois transformaram em à beça. (Não, não vou dar minha fonte. Sou um leigo.)

Só pra terminar: vocês já ouviram alguém falar com crase?

Fonte: http://veja.abril.com.br/280109/millor.shtml

Dá para dizer de outro jeito. Sempre.

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O legal da linguagem é que sempre dá para dizer de outra forma.

Esta é para os professores de Português

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Por essas e outras que a gente que trabalha com lingüística discursiva tem de agüentar os gramatiqueiros calados.