professor

Discurso de Formatura

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[Os alunos de Letras/UEA se formaram hoje. Eles escolheram meu nome para dar à turma. Fico muito envaidecido pela escolha. Estive lá e fiz esse discurso].

 

Um discurso de formatura tem de ter algumas características. Tem de ser breve para não ser chato, tem de ser claro para ser compreendido e tem de ser leve para não ser ignorado. Ao receber o convite da turma, assumi o desafio de escrever um texto com essas características. Fiquei pensando em que escrever…

A brevidade, eu buscarei prometendo não me alongar, como prometem todos os que discursam. Para a clareza e em busca da leveza farei uma analogia da formatura de vocês com o casamento, assunto do qual entendo muito bem, tendo passado por três deles até agora.

Percebo nos dois processos muitas semelhanças. Senão vejamos:

Antes de subir a um altar com alguém, tomamos os primeiros contatos. São momentos de descoberta, de mapeamento do outro, de decisões constantes entre parar ou ir adiante numa relação que por algum motivo nos chamou a atenção. Pare, pense um pouco e se pergunte: em que momento me defrontei com essa profissão de professor e em que momento me vi seduzido por ela? Em que momento eu senti o frio na barriga ao achar que poderia ser ela, dentre as várias que se ofereciam faceiras? Será que embarco ou não nessa relação? Ela terá futuro? Serei feliz com ela para o resto de minha vida?

Tornado público o namoro, começam as cobranças: como é que você vai namorar justamente com ela? Que futuro lhe aguarda, meu filho? Case com a advocacia, a medicina, a engenharia… Namoro sem futuro… A pressão é grande. Dos amigos e às vezes da própria família. Mas a decisão está tomada: “quando o coração da gente se apaixona, fica frágil, fácil de se entregar”, já diz o sertanejo Daniel. E a gente segue em frente. As coisas vão ficando sérias e de repente: pum! Noivado!

Perguntas pipocam com uma fertilidade nordestina: “tem certeza? Olha, menino, isso é muito sério!” Mas você tem a certeza e fica noivo. O noivado é o pré-casamento. É o momento da escolha e do inicio do curso, da formação. Primeiro período. Segundo período. Sofrimento. A relação fica mais intensa, mais exigente, mais íntima. Quando brigamos ou encontramos dificuldades pensamos em desistir, buscar uma outra paixão, começar tudo de novo. Alguns desistem. Alguns correm para outros braços e abandonam o que de gostoso tiveram e os encantos que o seduziram no início. A vida é assim. Se não é para ser feliz é melhor mesmo partir para outra. Mas muitos de nós sabemos, por outro lado, que não há relação sem desgaste, sem brigas, sem vontade de jogar a tolha de quando em vez. E muitos de nós, como vocês, insistiram.

Decidido o casório, vem o curso de noivos. Nas licenciaturas é o estágio. Num curso de noivos, um padre me disse uma vez que quanto maior o índice de desistência mais eficaz é o curso. O objetivo, disse ele, é fazer as pessoas entenderem que o casamento é algo muito sério e que não dá para brincar com ele. Se os noivos concluírem que é melhor terminar por ali, melhor. O estágio mostra ao aluno que nem sempre aquilo que o amigo ou a amiga disse sobre relacionamento a dois é verdade. Que o mar de rosas só existe na teoria. Na prática, faltam muitas coisas. “Na prática, a teoria é outra”, ecoa o ditado. Muitos se assustam e dizem: “estou fora!”. Muitos dizem “eu sei que é difícil, mas acho que dá pra ser feliz”. Quem sobrevive a isso, manda preparar os papéis para o casamento. E casar custa caro. Além disso, tem que definir algumas coisas: comunhão total ou parcial de bens? Cadê a certidão de batismo? Por onde a certidão de nascimento? Cadê os certificados das  horas de atividades complementares? Meu Deus! Descobriram que o Departamento Acadêmico não tem meu diploma do ensino médio. Corre-corre danado. Casar é preciso e se formar é preciso. De repente, tudo pronto.

Hoje vocês estão aqui para a cerimônia oficial. Casam-se com a profissão que conheceram, que namoraram, com a qual noivaram. De hoje em diante, vão viver oficialmente o cotidiano de uma relação que vai até o resto da vida, porque o que Deus uniu o homem não separa. O diploma conquistado, ninguém tira. E para isso tiveram o seu dia de noiva. Foram ao cabeleireiro, usaram creme, pintaram unha, se empetecaram todos.

Saibam que aqui começa um grande desafio. Saibam que qualquer relação a dois envolve tantas coisas boas e más, sonhos e pesadelos, alegrias e tristezas, saúde e doença. Saibam que o casamento sofre com a rotina, como sofre também a profissão. Saibam que há momentos em que pensamos em desistir, porque o outro lado parece não nos compreender. Saibam que vocês, no curso da profissão, serão seduzidos por outras profissões. Poderão até ter um casinho ou outro fora do casamento com o magistério, quando esse abrir lacunas, como acontece na vida a dois, apesar de não ser esse o desejado nos relacionamentos em nossa sociedade. Mas se houver amor mesmo, depois da crise, a gente sempre volta. De coração aberto, com carinho e com paixão. E saibam que a maior responsabilidade serão os filhos. Na vida a dois, seus próprios. Na profissão, os dos outros, o que aumenta a responsabilidade. Educar é formar mentes e corpos para uma sociedade mais justa e mais fraterna. Essa é a missão do professor.

O professor não pode, por fim, esquecer que seu casamento não irá nunca prosperar se ele não compreender que ele, o casamento, se dá em uma dada conjuntura política e social. Que não há como viver uma vida a dois sem esquecer do resto, do ambiente que nos circunda. Que a vida fora da sala de aula é o objetivo da vida dentro da sala de aula. Que uma educação sem significação social é fadada ao insucesso. A educação é um ato fundamentalmente político, como nos dizia Paulo Freire já no fim da década de 60. E por político entenda-se aqui não só o político-partidário. Também. Mas o político no sentido etimológico da polis, da cidade. Do envolvimento com a cidade, do compromisso da cidadania.

Termino dizendo que é neste tripé que a vida, seja afetiva ou profissional, se sustenta. Na ética, no compromisso e no respeito ao próximo. Ética que funda uma sociedade mais equânime, compromisso com o fazer educacional significativo e respeito à diversidade das identidades dos outros. Com isso, a relação de vocês com a profissão que nessa cerimônia é abençoada pela presença dos seus entes queridos será uma relação feliz. Como feliz é também uma relação de casamento que considera o compromisso e o respeito ao próximo, sustentada por uma ética humana. Que Deus abençoe cada um de vocês. E que vocês sejam felizes para sempre. Amém.

O peão intelectual

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Muito se fala sobre a desvalorização do professor. Em princípio, para abordar o assunto parece-me ser fundamental reconhecer que a situação está como está em parte por nossa culpa mesmo.

Tendemos a nos contradizer enquanto profissionais. Falamos de educação libertadora, mas somos guiados pela analogia religiosa: “professor trabalha muito e ganha pouco porque é sacerdócio.” Esse voto religioso desloca o papel de professor-profissional para o papel de professor-sacerdote, com todas as implicações, votos de pobreza e de obediência que ele traz. A distância entre o discurso político e a falta de atitude política amplia a desvalorização e vem da própria lógica que enfatizamos ao dizer “Coitado de mim. Sou professor”. A repetição vira realidade. Resumindo: estamos na lama profissional, entre outros motivos, porque nós mesmos ajudamos a propagar a desvalorização. Isso acontece com os médicos?

A valorização do professor passa necessariamente por nossa autovalorização. Quando vamos parar de repetir a lengalenga do coitadinho e passar a considerar nossa profissão como uma profissão de fato? Entre outras coisas, fazer isso significa querer ser remunerado pelo trabalho que se faz e não abrir mão disso. Mais trabalho é igual a mais dinheiro. “Oh!”, exclamariam escandalizados os que não conseguem sair do lugar do professor-sacerdote. Mas há de se perder o pudor prejudicial e o temor religioso de ir para o inferno só porque perguntarmos quanto é que vamos ganhar pelo trabalho extra que está sendo proposto, como se falar em dinheiro fosse sacrilégio.

O que estou dizendo não implica cair na porra-louquice do discurso vazio de trotskistas extemporâneos. Declarar guerra ao sistema que nos envolve é uma estratégia tão inócua quanto o discurso dessa gente. Precisamos entrar no discurso do mercado para poder desconstruí-lo. É de dentro que se muda o que não se quer. É necessário conhecer para transformar. Tróia pura. Façamos engenharia reversa e tratemos nossos patrões como opressores reconhecidos: reconhecer a contribuição de suas escolas para a sociedade, mas não abrir mão de que o jogo seja limpo, sem hipocrisia. Somos vistos como peões nas práticas de quem nos paga? Então queremos ser tratado como peões, sem problemas e sem carga pejorativa. Peões ganham mais quando dão hora-extra. Por que uma atividade não prevista em nossa remuneração tem de ser “de grátis”? Se começamos a fazer isso, teremos imediatamente um aumento no valor real do salário. Não no valor nominal do contracheque, mas no que ele vai representar em função de horas efetivamente trabalhadas. Só um lembrete: peão trabalha mesmo, viu?

Ou se trata o trabalho intelectual como realmente diferenciado, em termos de condições e remuneração, ou se assume de vez que trabalhamos em uma empresa como qualquer outra do distrito industrial. Assim se reconhece o que já acontece e se acaba com a hipocrisia. As boas empresas sabem que a satisfação de seus funcionários é investimento e não despesa. Entretanto, no setor educacional ainda vivemos um capitalismo muito primitivo.

Esse discurso zanza convenientemente de um lado para o outro: na hora do trabalho, o professor é diferente, na hora da remuneração é igual. Isso é capitalismo de conveniência. Entre o professor intelectual retoricamente reconhecido e concretamente mal pago e o peão da engrenagem educacional pago pelo trabalho efetivamente produzido, eu prefiro ser peão. Um peão intelectual. E a luta continua, companheiros.

Bola de meia, bola de gude

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Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto balança/Ele vem pra me dar a mão/Há um passado no meu presente/Um sol bem quente lá no meu quintal/Toda vez que a bruxa me assombra/O menino me dá a mão/E me fala de coisas bonitas/Que eu acredito/Que não deixarão de existir/Amizade, palavra, respeito/Caráter, bondade alegria e amor/Pois não posso/Não devo/Não quero/Viver como toda essa gente/Insiste em viver/E não posso aceitar sossegado/Qualquer sacanagem ser coisa normal/Bola de meia, bola de gude/O solidário não quer solidão/Toda vez que a tristeza me alcança/O menino me dá a mão/Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto fraqueja/Ele vem pra me dar a mão…

 

Vez por outra na vida é preciso parar para um balanço. Sim, o balanço infantil mesmo, aqueles dos parquinhos. Sentar, jogar o corpo para frente e para trás, simbolizando o movimento do pensamento que, inquieto, vai para trás em busca das compreensões do que já passou e se joga para frente em projeções da vida por vir.

Estou nesse exato momento sentado no meu balanço. O ano está terminando, outro prestes a começar. O que ficou para trás? O que vem pela frente? Enquanto busco impulso, perguntas começam a brotar na minha cabeça com uma fertilidade nordestina.

Na ida para trás, o balanço faz pensar nas escolhas. Foram acertadas? De todas as certezas que tenho hoje, a mais certa é da opção pela minha família. Não falo da família que já está aqui antes da gente. Essa Deus escolhe por nós e, sem dúvida, Ele foi muito generoso comigo. Falo da família que vem depois da gente. Da companheira com quem você divide ônus e bônus dessa coisa doida que é viver. Dos filhos que daí vêm. Minha família é o meu melhor acerto. Andei em descaminhos em outras tentativas, na vontade sincera de acertar. Não deu. Não era para dar para que desse agora. Lapsos, erros, aprendizagem. Quedas. Reerguidas. Quem não?

Olhando para trás, penso em minha escolha profissional. Com o benefício do tempo passado, tenho certeza de que a escolha da profissão é algo que, como diz o lugar-comum, deve contemplar dois parâmetros: a satisfação pessoal e o retorno financeiro. Esses parâmetros vão dançar, brigando pela prioridade, dependendo do nosso plano de vida. Sou absolutamente realizado como professor. Gosto de gente. Gosto de mexer com cabeças. Gosto de fazer a pessoa sair positivamente diferente de alguma forma em relação a como ela chegou para nosso encontro. Sou doutor, estou bem na carreira, tenho certo reconhecimento profissional. Nota dez no quesito realização. Mas hoje vejo que ignorei o outro lado. Escolhi uma profissão que não traz reconhecimento suficiente do ponto de vista financeiro para o investimento de vida que se faz. Eu gostaria de dar à minha família bem mais. Errei no planejamento. Tivesse eu investido na medicina ou no direito, com esse tempo de estrada, estaríamos bem melhor. A essa altura do campeonato não era para eu estar mais dando aulas aos domingos para fazer as contas fecharem. Nota 2. Na média, 10+2/2 = 6.0, eu passo, mas não convenço. Isso tem me incomodado e me inquietado.

A vida vale a pena quando vivemos inquietações diferentes. Não dá é para morarmos nas mesmas inquietações. Então jogo a cadeira do balanço para frente: é preciso mudar, fazer algo. Não sei viver na mesma inquietação perene. Coisas de quem trabalha com a linguagem, sempre nervosa e mutante. No balanço das horas tudo pode mudar. No entanto, não é fácil. É complicado começar de novo quando a mudança tem impactos em pessoas que você ama. Incertezas para si é um a coisa. Incertezas para os seus é outra. O medo, confesso, paralisa. Já ensaiei e refuguei. Já me convenci e me dissuadi. Já me empolguei e me entorpeci. Há uma dúvida que bate como o badalo do sino que se dobra cotidianamente: o dois certo, com frustração, ou um dez incerto, com risco real de um zero? O medo de ir adiante, de abrir essa porta, faz o mundo parar, a vida procrastinar a vida. 2010 foi um ano inerte.

O banco do balanço volta no rumo de trás. Quando estava como subsecretário de Educação de Manaus, vivi a tal da solidão do poder. Só quem passa por isso sabe o que é. Não me peça para explicar. Em um dia particularmente ruim, abri meus e-mails e lá estava um que dizia: “Não deixa que ninguém te cobre mais do que podes dar. Te amo muito e vou continuar aqui no meu cantinho rezando por ti e por tua família. Que Deus te abençoe e Nossa Senhora te cubra com seu manto, te livre de todos os males que apareçam e te proteja contra a incompreensão, a inveja, a mesquinharia… Te amo muito, muito e te desejo toda a felicidade do mundo”. Era de uma tia minha, a quem amo de paixão, embora o corre-corre da vida não nos deixe muito tempo para abraços e beijos merecidos. Ela mandou isso do nada. Do nada, não. Ela, me conhecendo como me conhecia, tendo me carregado no colo, sentiu a necessidade de chegar perto com carinho, do jeito possível. Quem ama tem uma antena poderosa para captar a angústia silenciosa do ser amado. E foi na hora certa, no dia certo. E teve um efeito balsâmico sobre a minha alma chorosa que talvez nem ela saiba, pois só revelo agora. Não seria eu a me cobrar demais? Guardo o e-mail até hoje. Releio-o quando me sinto fraco, errante, debilitado. Ou em momentos de balanço, como esse.

É essa força invisível incomensurável que me faz, junto com a certeza da minha melhor escolha, arranjar mais forças. Daí eu enxugo minhas lágrimas, que insistem em vir mais recorrentes, e dou um impulso para frente no balanço. E me vejo sorrindo, como uma criança de cinco anos que um dia se balançou feliz, sem preocupações, no playground do jardim-de-infância de uma escolinha no Parque Dez, numa imagem achada na memória afetiva. “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. É essa criança que grita para o adulto de 42 anos: “Empurra! Mais forte! Ainda temos tempo de brincar!”. Preciso fechar os olhos e sentir o vento no rosto… Preciso…

Dia dos Professores

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Dentre as certezas que tenho na vida estão o amor incondicional pelos meus, o dever inalienável de ser feliz e a certeza de que estou na profissão certa. Escrevi este texto sobre professores tempos atrás e agora compartilho com vocês:

PROFESSOR: LUTHIER DE GENTE

Um luthier é um alguém especializado na feitura artesanal de instrumentos de corda, como o violino. O termo luthieria designa a arte da construção de instrumentos.

Aprendi a palavra em uma revista daquelas de avião e imediatamente veio a analogia. Assim como há empresas que produzem instrumentos em escala comercial e há luthiers que fazem da construção artesanal de cada item um prazer, há professores que concorrem para a fabricação em série de alunos e há outros que são verdadeiros luthiers de cidadãos.

Da mesma forma que as empresas buscam a qualidade total e a certificação da perfeição nos seus inúmeros ISOs, alguns professores também crêem que só podem educar se tiverem as condições finlandesas de trabalho. Tudo a favor da busca pelo ideal, pois sem horizontes o sonho nem nasce.

Mas enquanto se caminha para o ideal intangível em curto prazo, não podemos nos imobilizar sob o risco de deixar nossos alunos sem direito à educação significativa. Os professores que só se dispõem a descruzar os braços e fazer diferença nas condições ideais são professores ISO.

Por outro lado, há uma boa parcela de professores que não faz das dificuldades cotidianas justificativas para um imobilismo que desconsidera o aluno que vai à escola em busca de um ensino significativo. São profissionais e como tais cuidam de seus alunos com o carinho com que os luthiers recebem a madeira para transformá-la em violino em seus ateliês, às vezes sem as condições ideais de trabalho. E seu trabalho é uma arte. Consideram cada aluno uma peça única, um ser humano fora de série e não produzido em série. Exatamente por ter a dimensão de seu trabalho de luthier de gente, esses professores são críticos, sem cair na falácia da crítica pela crítica. Criticam o desgosto do mundo, a fealdade da alma, sem se eximir, por causa dessa tarefa, de sua função de luthier de gente. O luthier acredita que sua mão faz diferença e por fazer a diferença zela pelos seus movimentos e evita os bruscos. Sabe que basta um descuido e lá se vai a peça única.

A identificação do professor com o ISO ou com o luthier depende de seu compromisso. Compromisso com a criança e com a profissão que escolheu ou que o escolheu. Na escola de hoje, por ser a escola da heterogeneidade e das diferenças, cada aluno é único (daí a palavra “indivíduo”), com sua história, sua subjetividade. Para sermos intelectualmente honestos, a escola que temos ainda é diferente da que queremos em vários aspectos. No entanto, para que possamos diminuir o fosso entre a escola que temos e aquela que queremos faz-se preciso caminhar nos limites das possibilidades da escola que temos, sem perder de vista o prazer de fazer das nossas mãos instrumentos de construção de sujeitos, de cidadãos melhores. A escola é ateliê para luthiers, não uma fábrica para peões pedagógicos.

Vieram à mente as palavras de Rubem Alves. A escola é a morada para educadores-jequitibás e não para professores-eucaliptos. Eucaliptos dão aos montes, mas não têm consistência. Já o jequitibá leva anos para ser o que é, imponente, consistente. Parabéns ao professores pelo seu dia. Que tenhamos cada vez mais luthiers de gente ampliando a floresta dos jequitibás da educação.

ABC no Céu

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Unidade Educacional Solon de Lucena/Subunidade Educacional Leonilla Marinho/Manaus, 26 de abril de 1975/Diretora: Dalva Pereira Vieira/ Professora: Helena Ferreira de Carvalho/Série: 1ª/Turma: A”. Nunca esqueci esse cabeçalho. Com breves variações, ele me acompanhou durante os quatro anos do meu primário.

Manaus não era tão grande e o Grupo Escolar Leonilla Marinho, uma escola pública modelo, era subordinado ao Solon de Lucena. Lembro com saudade do Grupo, como chamávamos carinhosamente o Leonilla. Jambo & Ruivão, Manda-Chuva, Leão da Montanha e outros personagens feitos de cartolina e pregados no isopor enfeitavam o saguão principal. A escola impecável era imagem da gestão da dona Dalva, a diretora. Não é surpresa para quem trabalha com educação: a escola é a cara de seu gestor. Dona Dalva controlava o Grupo com autoridade. Quando se ouvia sua voz, a palavra que vinha à mente era disciplina.

Era subsecretário ainda quando um dia recebi um recado. Minha secretária disse que a Samara havia ligado dizendo que a missa da professora Helena seria na segunda seguinte, na Igreja de Lourdes e que a dona Dalva estaria lá. Samara é uma das cinco filhas da professora Helena e a professora Helena é a professora do meu cabeçalho da 1ª série.

A última vez que falei com a professora Helena foi quando ela foi à Semed, justamente com a Samara, fazer uma visita de cortesia. Éramos dois orgulhosos. Eu, por apresentar aos que trabalham comigo a pessoa que me ensinou a ler, e ela, por ver um de seus “meninos” em uma função de extrema responsabilidade social. Há anos não a via, mas há presenças que mesmo na ausência se fazem fortes.

Em nossa memória afetiva há sempre um lugar para o que nos constitui, a despeito de distância geográfica ou temporal. O Grupo foi ampliado, perdeu o pátio, não tem mais a disciplina da dona Dalva, a merenda da Chiquinha e nem a Penélope Charmosa na parede. O antigo quadro-verde está órfão de sua maestrina. Sua régua de madeira de 50 cm era a batuta com a qual regia a entrada dos meninos no universo do ABC. A Balainha, que dançava com a Beth Diger nas festas juninas, já não cruza mais seus arcos coloridos no ar.

Fui à missa da professora Helena. A dona Dalva estava lá. O recado da Samara sobre sua presença foi uma forma de mobilizar a disciplina para que eu comparecesse. Nem precisava. Lá estavam várias ex-professoras do Grupo, entre elas a minha mãe, Helena Freire, e a professora Machadinho, além de ex-alunos. Ao dar o abraço silencioso nas filhas, eu chorei. Chorei porque percebi o quanto a professora Helena fez diferença em minha vida. Dei-me conta de que o maior desafio dos professores de hoje é se fazer presentes na memória afetiva de seus alunos para sempre, como a professora Helena Carvalho se faz na minha.

Do meu cabeçalho agora um nome se faz ausente. Bateu a campa do tempo da vida terrestre da minha professora. Mas o Grupo do céu está mais feliz, pois a mesma campa bateu para a entrada lá. Com suas fardinhas brancas e congas azuis impecáveis, os anjos fizeram fila e já foram para a sala. Certamente se levantaram e em voz uníssona, típica das crianças, reverenciaram: “Bom dia, professora Helena!” Ela deu bom-dia sorrindo, batuta à mão, e foi para o quadro ensiná-los a ler. Minha professora sabia fazer isso como ninguém.

Um texto antigo pra recordar

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ETERNOS ALUNOS

Alunos, todos iguais... :)Adoro dar aulas: pessoas reunidas em volta do fogo da curiosidade, como faziam na pré-história os homens em torno do fogo para se aquecer. Um das belezas em ser professor é a possibilidade de conhecer muita gente. São 23 anos de magistério. Tenho colegas de trabalho que foram meus alunos. Tenho alunos que foram meus colegas de trabalho. São muitos os que me deram o prazer da convivência. Esse percurso fez-me pensar nos tipos de alunos que temos. Se você é professor vai saber do quer estou falando.

O primeiro tipo de aluno é o sabe-tudo. A cada frase do professor, o sabe-tudo levanta a mão. Se deixar, ele fala a aula inteira. Adora testar o professor. Por isso faz par com o desconfiado. O desconfiado assiste à aula com uma sobrancelha alta e outra baixa, como quem diz: “será que o que esse cara sabe do que está falando?” Esparrama-se na cadeira e põe a mão no queixo, como O Pensador de Rodin.

Há também o aluno concordante. É terminar uma frase e ver o concordante concordando, com sua cabeça de mola para cima e para baixo. Mas diferente do sabe-tudo, ele é humilde. Sabe que a educação pode lhe acrescentar algo. Ele concorda convencido. O que concorda para agradar é o puxa. Tive uma aluna que dizia: “Bom dia, professor. Sua aula é a razão de eu estar aqui hoje”. Descobri que ela dizia isso a todos os professores. E eu me achando.

Outro tipo é o reverente. Para ele, o professor é mestre, digníssimo ou, em caso de reverência suprema, digníssimo mestre. Sempre comenta as “sábias palavras muito bem colocadas pelo mestre”. Outra figura é o dialogador pós-aula. A aula termina e o dialogador se aproxima, devagarzinho, e começa a comentar a aula, acompanhando o professor até a sala dos professores. É um momento de individualização do ensino. O paciente é mais um tipo presente. Ele é paciente no sentido médico. O professor é Dr. Freud e dele o paciente espera conselhos sobre sua vida, trabalho, planos ou qualquer encruzilhada existencial.

Há o spammer, que lota o e-mail do professor com mensagens imensas. Os spammer são inofensivos quando se tem um bom antivírus. Há o citador, que a cada aula manda: “Como dizia Paulo Freire, ‘não há docência sem discência’”. O citador trabalha com palavras-chaves: é ouvir uma que está indexada e disparar de pronto. Se você for professor homem, um tipo típico é a apaixonada. Ela joga charme e o chama de fofo. As paixões no contexto educacional existem, mas são despertadas mais pelo lugar simbólico ocupado pelo professor do que por suas qualidades pessoais intrínsecas.

Poderia elencar mil tipos, mas é dispensável. Cada professor que faça sua lista. Como entendo deste assunto, só usei o espaço para fazer uma breve colocação, ainda que desconfie que você possa não gostar do texto. Se você discordar, tudo bem: o leitor é quem manda. Só saber que você está me lendo torna meu dia melhor. Qualquer dia desses, digníssimo leitor, a gente conversa e conto minha vida. Tenho certeza que sua opinião vai me ajudar. Por enquanto, a gente se comunica por e-mail. Vou enviar uma linda mensagem de apenas oito megas para você refletir. Porque é como dizia Barthes: “o autor está morto. É o leitor que constrói o sentido de um texto”.  A propósito, sou apaixonado por nossa relação. Não tem jeito: somos eternos alunos.

Yin Yang

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Em que espaço você se encontra?

Trabalho com educação. Vivo isso desde que me entendo por gente. Meus pais e boa parte da minha família são professores. Aprendi a perceber a importância da ensino formal ao acompanhar minha mãe, à noite, alfabetizando adultos na escola pública, no projeto Tele-Sala. Menino descobrindo o mundo, ali concluí que se aquelas pessoas, cansadas após um dia de trabalho intenso, estavam na sala de aula para aprender algo é porque a educação devia ser muito importante. E orgulhava-me muito de ver minha mãe sendo parte fundamental no processo.

Meu pai e seus diários impecáveis me seduziam. Sua linda letra lançando matérias lecionadas naquele caderno comprido desenharam um convite para que eu também fizesse aquilo. O que é irônico, pois essa é a parte de que menos gosto hoje: preencher diários e toda a papelada que necessariamente acompanha o processo institucional da educação.

Mas meus velhos não me conduziram somente para o magistério e a educação formal. Eles me deram educação informal e assistemática, que é o que se deseja de uma família. Mostraram-me os meus cabeças brancas que na vida há um princípio do qual não se pode abrir mão: o de se querer bem e de se fazer bem ao próximo. Fizeram-me entender, sem nunca ter dado sermão sobre isso, que as pessoas que nos encontram devem sair melhores do que estavam quando chegaram até nós. O princípio do bem. É a melhor herança que recebi e que quero deixar para minhas duas meninas que principiam a vida.

Como ser humano, falho, erro. Mas a meta é acertar, sem abrir mão do princípio de fazer o bem, de querer bem. Algo que faço pode até machucar ou afetar negativamente uma ou outra pessoa, mas por princípio posso garantir que isso se deu como consequência de uma decisão que buscou beneficiar mais gente do que eventualmente prejudicou.

Isso tudo é muito bom e me faz alguém feliz. Feliz por saber que faço parte da turma que torce pelo Tarzan na luta contra o jacaré, que não me divirto com o circo em chamas e que apesar de não me chamar Raimundo me importo com o mundo.  No entanto, quem é assim inevitavelmente sofre vez por outra porque suas ações são lidas de forma diferenciada por quem não é. Sei do que falo porque essa é minha área de estudo: o sentido. Mas saber como se faz não diminui a tristeza real da constatação. A vida não se encerra na teoria.

Há pessoas más. Deliberadamente más. Mesquinhas. Pequenas na alma. Gente que busca voluntariamente o mal, a desgraça do outro. Pessoas que planejam cuidadosamente seus atos nocivos. Que brindam com Tarzan, mas colocam algo em seu copo para vê-lo ser dilacerado pelo jacaré. Há pessoas maledicentes, que dão tapinhas com uma mão e estocadas com a outra. Envenenam quem invejam, por pura incompetência, por caráter fedorento ou pela combinação das duas coisas. Pessoas que são incapazes de reconhecer méritos alheios porque concentram suas forças em estratégias ardilosas em vez de buscar os méritos que tanto lhes agonia nos outros.  Pessoas que fazem mal simplesmente com o bafo de sua presença, com o seu olhar aziago. Pessoas mal ou nada amadas, cujas vidas vazias se preenchem e se alimentam da felicidade alheia, não para dela compartilhar, mas para anulá-la sempre que possível. Pessoas amargas, que andam com creme de bílis a espalhar sobre os bolos das festas do mundo, portando seus risos infaustos que cospem perdigotos tétricos.

Tenho cruzado com algumas dessas pessoas. Não lhes tenho permitido que me antinjam, apesar de não perderem a chance de tentar. Mas confesso que ontem acusei o golpe. E me bateu uma tristeza que me abateu. Não por elas, pois, como diz o poeta, cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz. Se não o são, problema de suas escolhas. Mas porque amo minhas duas filhas e este mundo em cujo trem subiram faz pouco tempo está cheio de gente assim nos vagões. Virou a regra. E elas vão ter que aprender a lidar com a falta de ética, com a ausência de caráter e de palavra, com amizades pragmáticas e com pessoas que se utilizam de forma torpe da inocência ou do bom caráter alheios. É assim.

Tomara Deus que eu tenha a capacidade de deixar de presente para minhas crianças a possibilidade de dizer: meu pai era um cara bom, íntegro, honesto, que só fazia o bem. Tomara. Quem sabe a esperança dos seus sorrisos orgulhosos devolva parte da fé na humanidade que se foi em algumas lágrimas silenciosas, mas dolorosas, que um menino de quarenta anos, constatando desiludido que o mal existe, derramou no colo de sua mãe ontem.

The book is on the table

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Connected to the worldMinha pesquisa no doutorado foi sobre a história das políticas públicas para o ensino de línguas estrangeiras (LE) no Brasil. Descobri que nosso país nunca teve política para LE. Aliás, teve sim. Na época de Getúlio. Vargas simplesmente proibiu que se falasse alemão, italiano e japonês – os idiomas dos inimigos do Brasil na Guerra. Foi uma perseguição pesada, principalmente nos estados do Sul, numa violência simbólica cruel. Uma política de línguas com foco na limitação e não de expansão de oferta.

Essa falta de política tem tido consequências graves na escola. É lugar comum se ouvir que ninguém aprende LE na escola pública. A Lei 5.692 (a LDB de 1971) e o Parecer 853/71 do Conselho Federal de Educação, que definiu que a LE seria optativa, levaram à existência de dois ingleses: o inglês bom, que todo mundo quer, admira e paga por ele em cursinhos, e o inglês ruim, associado à escola, em que ninguém põe fé.

Desde então as LE tem sido tratadas como disciplinas de segunda classe. Sintomas disso é a atrasada inclusão das LE no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), somente para 2010, e a ausência sistemática das LE em provas como o Enem. O Governo Lula, que quis transformar o exame de Inglês em não eliminatório para o Itamaraty, sancionou em 2005 a Lei 11.161, que tornou obrigatório o ensino de Espanhol em todas as escolas de Ensino Médio com implantação até 2010. O que era para ser uma decisão louvável acabou saindo pela culatra. Explico.

A Lei 9.394/96, LDB atual, prevê o ensino de uma LE moderna a partir da 5ª série ou 6º ano. Normalmente esse papel é do inglês. Para o ensino médio, a LDB prevê a mesma coisa: a obrigatoriedade de uma LE moderna e mais a oferta de uma segunda língua optativa. Essa optativa nunca foi ofertada – como tudo que é optativo nas leis brasileiras – e o papel da língua obrigatória que era também do Inglês agora é do Espanhol. A idéia da lei de Lula era ampliar a oferta de línguas, mas o que de fato ocorre é que as escolas estão abandonando o Inglês no Ensino Médio, por causa da obrigatoriedade do Espanhol, chegando ao cúmulo de oferecer seu ensino aos professores de Inglês. Alguém precisa avisar aos monoglotas que decidem que são línguas de famílias diferentes. Moral da história: o aluno terá quatro anos de Inglês e três de Espanhol. Nem Shakespeare nem Cervantes.

A sonegação linguística que o sistema público está fazendo só tende a aumentar o truísmo de que ninguém aprende LE na escola pública. O ardil de ofertar só o Espanhol quando a legislação aponta para duas línguas no Ensino Médio recebe um chega pra lá quando o MEC anuncia o novo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como alternativa ao vestibular e nele inclui Espanhol e Inglês. Agora as escolas de nível médio terão de oferecer as duas línguas para que seus alunos não sejam prejudicados no Enem e nos processos seletivos para as universidades. É esperar para ver.

Detalhe final: a lei do Espanhol traz algo que passa despercebido e é solenemente ignorado pelas Secretarias de Educação. No seu artigo 3º diz: “Os sistemas públicos de ensino implantarão Centros de Ensino de Língua Estrangeira”. Talvez aí esteja a luz no fim do túnel. Já dizia isso na tese. Resta a vontade política. The end.

Faroeste caboclo

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Beavis vs Butt HeadRecebi um telefonema de uma amiga professora da Ufam. Ela  me relatou o ocorrido com o professor Gilson Monteiro, do Departamento de Comunicação. Para quem não sabe, o professor foi agredido por Amim Aziz, irmão do vice-governador do Estado, Omar Aziz. Gilson comentou em sala de aula que a imprensa de Manaus sofre influência política e citou como exemplo a cobertura insossa da mídia local no caso da CPI da pedofilia, em que circulava o nome do vice-governador.  A agressão se deu quando uma sobrinha de Omar, aluna do curso, sentindo-se ofendida, chamou o tio Amim. O tio chegou dando uma voadora em Gilson.

Vivemos em um estado democrático de direito, que pressupõe direitos e responsabilidades. Não sei o que o professor efetivamente disse, mas nada justifica o desfecho. Ao se sentir ofendida, a aluna deveria buscar os caminhos jurídicos que protegem os cidadãos. O código penal prevê os crimes de calúnia, injúria e difamação, julgados a partir de todo um processo com amplo contraditório, arrazoados e testemunhas que subsidiam a justiça em seu julgamento, absolvendo ou condenando alguém pelos crimes.

Ao optar pela lei de talião (do latim Lex Talionis, lex: lei e talis: tal, parelho), que consiste em retaliação, frequentemente expressa pela máxima “olho por olho, dente por dente”, o agressor ignorou a justiça, seus limites e se pôs, portanto, sujeito às penas jurídicas. Sem limites, a sociedade entra em colapso. Daí a necessidade de regramento. Gilson tomará suas providências jurídicas pela agressão sofrida e Omar, se quiser, tomará as suas pelo alegado crime de calúnia. Mas há desdobramentos.

O soco que Amim deu em Gilson o atingiu empiricamente, deixando-lhe um olho roxo. Mas tão grave quando a agressão empírica é a agressão simbólica. Essa não foi só em Gilson, mas na Universidade como um todo. Eu mesmo, como parte dessa Universidade, ainda sinto o pontapé no estômago. A Ufam, a meu ver, deveria ter reagido imediata e veementemente para resguardar o institucional. Hoje foi Gilson, amanhã serei eu. Imagine, leitor, se os professores da Arca de Noé resolvem me pegar no estacionamento por causa do meu “crime” de opinião? Se em uma aula de Análise de Discurso, ao criticar o discurso militar da perda de soberania ou o discurso falacioso dos rizicultores sobre a falência econômica de Roraima no imbróglio Raposa-Serra do Sol sou preso ou levo uns cascudos do arrozeiro Paulo Quartiero?

Interessante foram os comentários dos políticos estampados nos jornais e as opiniões emitidas em rádios como a Difusora e CBN. Todos condenam o professor por “estar se metendo onde não deveria”. Nenhum fala do crime que cometeu Amim ao agredir o professor dentro de uma Universidade Federal. “Professor deveria dar aula e não formar opinião”, diz uma deputada-professora, querendo formar opinião.  É assim que funciona: o poder político determina os limites do dizer e para que lado pendem as opiniões daqueles que orbitam ao seu redor. A cobertura do caso prova a tese de Gilson em sala de aula.

Fato é que esse episódio deve ser levado juridicamente às últimas consequências. A Ufam, como instituição, deve reagir. Se a moda pega, viveremos na música do Legião Urbana.

Professor: nota zero?

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ÂNGELA SOLIGO, doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, é professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora do curso de pedagogia da mesma universidade.

[Publicado na Folha de São Paulo, em 14 de fevereiro de 2009]

NOS ÚLTIMOS 15 anos, proliferou no país uma “febre” avaliativa nas políticas educacionais, que marca também as propostas do Estado de São Paulo. Para atender aos índices de desenvolvimento impostos pelo FMI e a pretexto de garantir a qualidade da educação, Provão, Enade, Enem, Saeb, Provinha Brasil e Saresp passaram a fazer parte do cotidiano de
instituições de ensino em todos os níveis e, aos poucos, foram retirando do professor -responsável pela organização do processo de aprendizagem- a competência para avaliar segundo critérios realistas e justos.

Esses processos avaliativos baseiam-se em instrumentos padronizados, inspirados na ideia de meritocracia: padronização na desigualdade – provas iguais para realidades e condições de aprendizagem e de existência desiguais. Agora, no Estado de São Paulo, além do aluno, torna-se o professor alvo dessa política. Em especial, o professor temporário. Por meio de uma prova, decide-se quem é o bom professor e confere-se a ele o direito de escolher a escola em que irá trabalhar. Tal medida garantiria a melhoria da educação oferecida aos estudantes das escolas paulistas.

Mas a experiência mostra que os professores mais bem avaliados escolhem as escolas com as melhores condições de trabalho, o que só contribui para ampliar o abismo educacional e social que marca o nosso Estado. Não defendo aqui que não se avalie, mas me contraponho a esse processo avaliativo. É possível pensar em outros mecanismos de avaliação: pelos pares, pelos alunos, pelos produtos do processo de ensino-aprendizagem, que representam perspectiva mais democrática e realista, pois levam em conta os sujeitos do processo e as condições de produção. Mas há outros pontos a considerar.

O primeiro deles é o princípio meritocrático, que “enche a boca” de políticos, estudiosos, curiosos etc. A questão do mérito não pode ser desvinculada das condições de produção do sujeito e suas competências. Não se pode de fato falar de mérito em condições tão desiguais de existência, seja de alunos, seja de professores. Na desigualdade profunda que nos marca, no máximo podemos falar em mérito relativo, o que torna os instrumentos de avaliação -as provas- um fraco indicador de qualidade. Pior ainda quando são publicadas notícias espetaculares que acabam por generalizar para todos os docentes a marca da incompetência. A consequência de um processo democrático não pode ser um ranking e a delação dos incompetentes, mas a busca e a produção coletiva de soluções adequadas a cada realidade escolar, promotoras de compromisso e solidariedade, não de desespero e vergonha.

Ora, os discursos oficiais, que colocam na competência do professor e nos cursos de capacitação toda a responsabilidade pela melhoria da educação, vêem reforçada nesses dados sua tese de que, para que a educação “ande nos trilhos”, basta o esforço do professor e a liderança do gestor. Mas será isso mesmo? Será que podemos esperar que a educação melhore se promovermos cada vez mais processos avaliativos e classificatórios que somente apontam culpados, mas não levam a efetivas mudanças nas condições educacionais?

Podemos esperar um professor altamente qualificado com os baixos salários praticados no Estado, a carga horária desumana, as salas de aula superlotadas, as escolas sucateadas, as bibliotecas empobrecidas ou trancadas, os processos de exclusão da cultura do aluno e de sua família? Já nos esquecemos de que as políticas para a educação no Estado têm sistematicamente sequestrado a autonomia do professor, relegado ao papel de mero executor de tarefas? Será que podemos esperar que as coisas melhorem se o investimento do Estado com educação não se tem ampliado, e reivindicações nessa direção não têm eco?

Sabemos que não se pode reduzir os problemas da educação à questão salarial nem a qualquer um dos fatores mencionados. É o conjunto deles, conjugado e democraticamente instituído, que pode garantir verdadeiro salto de qualidade nos rumos da Educação do Estado de São Paulo.

Ângela  Soligo