Psicanálise

Cacos da vida

Postado em Atualizado em

Cacos

Final do ano é tempo de balanço. Estamos nós a pesar as coisas para lá e para cá para checar se na balança da vida o ano foi mais para lembrar ou mais para esquecer. O conjunto das boas coisas que vieram é posto lado a lado com o conjunto das coisas que gostaríamos de esquecer. Aí vem o veredito: terminamos o ano felizes, soltando os fogos de artifícios da vida junto com os da virada, ou terminamos o ano tristes, desejando ardentemente que o que chega chegue logo e traga com ele os ventos haraganos.

Se você está feliz, leitor querido, que bom! Que essa felicidade se multiplique no ano vindouro. Mas eu queria falar mesmo com você, que anda triste. Foi para você que eu escrevi este texto.

Você sabe por que a gente fica triste? Porque a gente começa a viver uma vida que, de alguma forma, começa a ficar cheia de coisas que carecem de sentido. A vida tem de ter sentido. As minhas leituras na psicologia têm me ajudado a compreender isso. Deixa eu compartilhar um pouco do que já aprendi.

As tristezas são tributárias ao tempo. Na época de Freud, as neuroses eram causadas por questões de sexualidade, bastante reprimida na Europa pós-vitoriana. Um outro psicanalista, Alfred Adler, que trabalhou com Freud, achava que o pai da psicanálise superestimava a questão sexual. Aí ele propôs uma teoria dizendo que o meio social e a preocupação contínua do indivíduo em alcançar objetivos preestabelecidos eram os determinantes do comportamento humano. Isso incluía a sede de poder e a notoriedade. Quando essa busca falhava, eram gerados complexos de inferioridade, transformando a incapacidade numa dinâmica patológica, numa tristeza. A neurose não era mais por causa do sexo reprimido, mas por causa da inferioridade de uma expectativa social frustrada.

O tempo foi passando, o mundo foi mudando. Para enfrentar as demandas do mundo contemporâneo, a pessoa precisa se ancorar em algo. Até um tempo atrás, esse algo costumava ser a tradição. Se não soubéssemos o que fazer, bastava olhar para o que a tradição determinava para nós, nos encaixarmos nesse sistema como uma engrenagem e seguir a vida até morrer. A vida normalizada também gerava neuroses, mas o encaixe social e o conforto sobre o que fazer aliviavam os conflitos. E o mundo mudou de novo.

Vivemos em uma época pós-moderna em que as tradições têm se esfarelado. Antes os homens trabalhavam fora, as mulheres cuidavam da cria e tudo que fugia ao script não podia vir à luz. Hoje todas as possibilidades caminham na praça em plena luz do sol. Tudo saiu do armário e as possibilidades ganharam vida plena. Mulheres conquistaram seu espaço, a sexualidade explodiu para todos os lados, aquela tradição confortadora virou apenas uma dentre centenas de outras possibilidades vivas. O que nos resta fazer, então, sem a tradição para nos agasalhar e nos dar conforto?

Logicamente, nos restam alguns caminhos. Ou fazemos o que os outros querem que nós façamos – e aí eu caímos num conformismo – ou fazemos o que os outros nos mandam fazer – aí caímos num totalitarismo. Seja um ou outro, vamos acabar fazendo aquilo que não nos interessa, vivendo uma vida que não é nossa, e isso vai esvair o sentido do que fazemos, levando à tristeza e ao adoecimento psíquico. Resta, no entanto, um terceiro caminho, que me parece o mais interessante: fazermos o que queremos e, ao fazer o que queremos, preencher a vida de sentido.

“Ain, mas nem sempre dá para fazer o que a gente quer!” Verdade, nem sempre. Mas o “nem sempre” tem de virar um “quase sempre”. Quase sempre temos de fazer o que nos causa alegria, prazer, paz. O resto inevitável deve ser preenchido com a chatice inerente à vida, com os sapos engolidos no trabalho, com a aula porre daquele professor medíocre na faculdade que somos obrigado a assistir, com uma ou outra situação que temos de encarar e que, de fato, foge da nossa escolha. Resumindo: se não houver mais alegria e prazer do que tristeza e desprazer, a vida está errada, parceiro. Aí é preciso reagir e sair do conformismo ou do totalitarismo. Senão nós vamos adoecer, vamos ficar tristes, infelizes, deprimidos. vamos viver sem sentido.

Qual é o sentido? É essa a pergunta que temos de nos fazer todos os dias. Qual é o sentido de continuar em uma relação afetiva que nos machuca, que nos oprime, que não nos dá alegria? Qual é o sentido de continuar trabalhando em um lugar que nos adoece só de pensar, quando acordamos, que temos de ir para lá? Qual é o sentido de insistir em coisas que acabaram e que, mesmo que voltassem, não seriam a mesma coisa? Qual é o sentido de preencher nosso tempo atrapalhando a vida dos outros em vez de cuidar com carinho da nossa própria, rota e maltrapilha psiquicamente? Qual é o sentido de movermos mundo e fundos para ter o melhor carro, o iPhone mais fuderoso, a festa mais cara de aniversário para o nosso filho só para ganhar o like da sociedade que valoriza a aparência? Black Mirror, temporada 3, episódio 1: “Queda Livre”. Vá lá assistir e depois a gente conversa.

Vida sem sentido bom é vida triste, mambembe. Você que está terminado o ano triste e que me leu até aqui: qual é o sentido de continuar alimentando essa tristeza ou essa situação que lhe causa a dor? Mova-se, mexa-se, não dê moral para a melancolia. Feche ciclos que se arrastam. Corte relações com quem faz mal. Se não der conta sozinho, procure um psicólogo para ajudar a virar a mesa, a virar o jogo, a virar do avesso. Porque a vocação do ser humano é a felicidade. De cada um. Porque cada um é único, com sua história, suas glórias, seus segredos, suas batalhas perdidas. Com a dor e com a delícia de ser quem se é. Faça a sua história valer a pena. É preciso se mexer e se movimentar. A vida se ajeita quando a poeira do movimento baixa. E segue porque tem de seguir. Se uma parte de nós caiu e quebrou, é preciso juntar os cacos para ir adiante.

Na década de 40, a cidade de São Paulo tinha duas indústrias de cerâmicas. As peças que quebravam eram jogadas fora. Um operário de uma delas, sem dinheiro para construir sua casa, pediu para ficar com os pedaços das cerâmicas quebradas. A fábrica consentiu. Ele então fez o pátio da sua casa com os cacos. Mas como não tinha sempre cacos da mesma cor, misturava uns amarelos e pretos aos mais comuns, vermelhos. Logo, a moda se espalhou e pátios feitos de cacos de cerâmica viraram a coqueluche da classe média paulistana, em uma época em que a coqueluche ainda era uma doença endêmica e a expressão faz mais sentido. Muitas casas em Sampa até hoje possuem pátios lindos feitos de cacos coloridos.

A vida feliz é um pátio bonito feito com nossos cacos quebrados. De todas as cores. Na sua maioria composto dos vermelhos felizes, mesmo que pontuado aqui e ali de alguns cacos de outras cores e outros tons. A vida é feita múltiplas cores. O importante é a arte que se tece e o resultado final dos cacos juntados: a felicidade. Que seu balanço lhe traga os ventos haraganos ao rosto. Seja feliz, leitor. Seja feliz, leitora. É o desejo sincero de alguém que juntou muitos cacos nesse 2016 e que tem fé na vida, fé no homem e fé no que virá em 2017. Faz sentido?

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

Postado em Atualizado em

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

Meu pai morreu há três meses. Foi o mais próximo que a morte chegou de mim. Antes disso, ela tinha me visitado quando levou minha vó, há 15 anos. Um hiato que me fez esquecer da morte por um bom tempo, ocupado que estive em viver as coisas da vida.

Procurei entender a morte do meu pai. Eu li tudo que pude sobre perda, separação, angústia, luto. Li sobre a dor do amor. Livros, artigos, assisti a vídeos e filmes. Tentei buscar um sentido para a morte do meu velho, como recomenda o psicólogo judeu Vicktor Frankl. Ele sobreviveu à barbárie de Auschwitz dando sentido à experiência trágica. Frankl dizia a si mesmo que precisava explicar ao mundo a psicologia de um campo de concentração e isso o manteve vivo. Só de Frankl, eu li três livros.

Descobri nas minhas leituras que o luto normal demora pelo menos um ano. Tempo do primeiro tudo sem a pessoa: primeiro dia sem, primeiro mês sem, primeiro dia dos pais sem, primeiro aniversário seu sem, primeiro aniversário dele sem, primeiro Natal sem, primeiro ano sem, primeira falta de colo. A morte do meu pai me trouxe mais pesadamente a consciência da finitude. Mas me trouxe muito mais do que isso: trouxe uma maior clareza sobre minha própria existência.

Ter consciência sobre si mesmo é um dom que desenvolvemos com a idade. Podemos potencializar e acelerar esse dom por meio de eventos pontuais de dor. Aprendemos a ter consciência do que vale e não vale a pena investir, de quem vale e de quem não vale gostar. Fica clara a consciência de que a vida precisa ter qualidade. Abandonamos sem dó aquilo e aqueles que nos fazem mal. No entanto, esse ter consciência sobre si traz no pacote a ferida da mortalidade. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns) e vamos morrer. Simples assim. E complexo assim. Porque precisamos decidir o que é, afinal, a morte para nós e isso vai fazer diferença em como a gente vai viver.

As pessoas lidam com a morte de formas diferentes. Há graus de angústia da morte. Pensar nela geralmente nos paralisa porque é a única certeza que temos sobre o futuro. Como não podemos ficar paralisados, senão vira algo patológico, desenvolvemos formas de elaborar essa angústia do inevitável. Há quem não pense na morte, um grau zero que se toca com o grau cem: o medo é tanto que se evita falar sobre. Há quem desafie o medo da finitude buscando construir uma obra na terra que lhe perpetue, ou por meio dos filhos ou por meio de algo notável. Há quem busque na religião o exílio, a explicação e o conforto contra a ideia de que a morte seja o fim definitivo. Enfim, fato é que a angústia de morrer se faz presente de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, como pensamento casual ou ideia que persegue cotidianamente. A morte é pauta inevitável da vida.

A angústia de morrer vai e vem durante nossa existência. As crianças são introduzidas à morte pelos bichinhos de estimação que se vão, pelas folhas secas caídas que encontram ao pé das árvores, pelos avós que desaparecem de repente. Quando contei às minhas filhas Clara (dez anos) e Marina (nove) sobre a morte do avô, as reações foram diferentes. Marina chorou demais, trocou de mal com Deus por lhe levar o avô. Clara se manteve em silêncio. Marina vez por outra me vem dizer que está com saudade do avô e chora. Clara, não. No entanto, pegando sua agenda escolar para verificar o que tinha de tarefa, vi escrito no calendário, no dia 1o de setembro, com sua letrinha redonda, “Vô, três meses. Saudade. :.(“. Meu pai morreu no dia 1o de julho. As crianças, como todo mundo, também têm formas singulares de elaborar a perda de quem amam.

Os adolescentes, em geral, desafiam a morte. Nesse período a angústia explode com força. Arriscam-se em atividades radicais, saltam de paraquedas, fazem rachas. Adoram ícones da morte, como Hitler. Lançam a catexia fortemente em jogos como Grand Theft Auto, em que a morte é banalizada. Alguns chegam mesmo a considerar o suicídio. Este é o recado: “Dona morte, não tenho medo de você. Não me venha com close errado”. Assim se cruza o tempo da juventude. A vida segue e viramos adultos.

Como adultos, as preocupações mudam. Vem a carreira profissional para cuidar. Vem a família para zelar. Deixamos a morte de lado porque a roda-vida exige demais e quase não deixa tempo para pensar nisso. Só que, de repente, duas coisas acontecem: a meia-idade e sua crise e a morte recorrente de pessoas da geração anterior. Parentes, tios, pais de amigos, os próprios amigos mais velhos, nossos pais. Eles começam a ir. À medida que eles vão, a meia-idade vem. Esse encontro inevitavelmente faz da morte uma presença constante nessa parte da vida que é, fato, a parte descendente da existência. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns). O próximo passo é morrermos. Como lidar com essa certeza, que é a certeza derradeira da vida?

As pessoas lidam com a morte à espreita de várias formas. Por causa de sua história pessoal, de sua singularidade, umas buscam auxílio na família e nos amigos. Outras se aproximam da espiritualidade como forma inconsciente de buscar um seguro para o depois da morte. Alguns, mais cientes de sua fragilidade humana, vão à terapia. Outros, ainda, escrevem textos sobre a morte para lidar com a morte que se apresenta.

Meu pai morreu há três meses. Meu velho me deu um grande presente no fim da vida. Ele me fez redefinir minha relação com a morte. Eu tinha medo da morte. Hoje não tenho medo. Meu medo foi ressignificado. Hoje eu vejo a morte como algo que faz parte da vida, algo sobre o que você pode partilhar com outras pessoas, sem razão para ter medo ou vergonha de fazê-lo. Hoje eu converso sobre a morte, coisa que evitava fazer. Redimensionei a importância do velório como prática social. A presença em velórios tem uma função afetiva fundamental. São partículas de afeto que se juntam numa constelação de carinho e que ajudam a sustentar o corte abrupto do afeto roubado pela morte. Estar lá é dizer: eu me importo. E isso faz uma diferença imensa para quem está machucado.

Hoje a morte tem uma forma bem diferente para mim. Ela não é mais aquela morte de roupa preta com a foice na mão. Ela é bem distinta daquela morte dos nossos encontros cotidianos, em que a vemos como algo violento, assustador e tabu. Há outras mortes além daquela que a mídia nos entrega diariamente. Descobrir isso é libertador.

A lição que resume tudo isso é que o confronto com a morte não precisa ser um desespero. A morte sempre convoca um renascimento obrigatório de nós mesmos. Renascer é um sentido bom que podemos dar à morte porque pensar na morte requer pensar na vida. No fundo, eu acho que não seja da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca ter vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos porque nunca conseguimos descobrir o que é a vida de fato. Mas sempre é tempo. Cuide de seus canteiros, “antes que chegue a morte ou coisa parecida e nos arraste moço sem ter visto a vida”. Cecília.

Em “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens nos fala da morte. “Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho. Meu coração é tocado por lembranças que estavam há muito tempo adormecidas”. É isso. A morte é o nosso reencontro com um começo de que já não nos lembramos mais. Afinal, existirmos: a que será que se destina?

A morte é a noite da vida. É um laço que caça a infinitude. É o anzol que volta, sem falha, para fisgar a existência que se pensava eterna. É pau. É a pedra de Drummond. Mas definitivamente não é o fim do caminho.

O selo de Tutankamon

Postado em Atualizado em

The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

A redenção pelo McFly

Postado em Atualizado em

McFly FreireHoje é o dia em que Marty McFly chega, vindo da década de 80. Todo esse buzz, os memes e vídeos que derivam da chegada do McFly nos apontam para duas coisas. A primeira é a apropriação voraz na internet de agendas que ela mesma cria – para depois desaparecer com a mesma rapidez. E a segunda coisa é o fascínio que o futuro exerce sobre cada um de nós.
A liquidez evidenciada por Zygmunt Bauman foi acelerada. Vivemos uma quase condensação das coisas. É tudo tão rápido que já não são mais tempos líquidos, mas tempos gasosos. “Senhora, senhora” já é coisa do ano passado, parece. Tudo que era sólido se liquefez e tudo que é líquido se desmancha no ar. O passado se adensa, se atulha com a memória metálica das tecnologias e o presente corre desesperadamente em um tempo que tudo é urgente. Vivemos a morte da contemplação. Ser permanente em tempos de impermanência chega a ser um ato de rebeldia, um ato revolucionário. Daí algumas pessoas irem montanhar sem relógio e sem internet. Resistência pura. Daí as pessoas serem tragadas por religiões que prometem organizar a vida, tão caótica porque em pó. Desistência pura. Essa mudança do passado que antes ficava na memória biológica para um passado que se tem disponível a um click de mouse e do presente contemplativo da racionalidade moderna para um presente que urge as urgências urgentes da pós-modernidade potencializaram a necessidade de desejar pelo futuro. Desejar mais. Para fugir do atoleiro. Para, como avestruzes dimensionais, enfiar a cabeça em outra dimensão e escapar do mal-estar do presente.
Mote da trilogia que está na pauta, o desejo pelo futuro é uma maneira inconsciente do sujeito exilar-se do presente. Buscamos desesperadamente as mudanças porque não temos como pagar a conta psíquica dessa realidade. E por que não damos conta dela?
Com a globalização, pós-modernidade, sociedade da informação ou em rede – escolha no cardápio o nome –, deu-se fim à hierarquia e à ordem como desejável. O saber virou genérico. Todo mundo sabe tudo. Basta o Google e enter. Flatou-se tudo, de flat, do inglês. Com a desordem como o novo parâmetro – sem o peso pejorativo do termo – não nos queixamos mais de não conseguir atingir nossos objetivos, mas reclamamos porque nos afogamos nas infinitas possibilidades que se apresentam como objetivos. É tanto objetivo possível que angustia. Se antes buscávamos uma certeza verdadeira para a pacificação e alívio do sujeito, hoje buscamos uma certeza convencida porque a verdadeira leva tempo de maturação, tempo que já não temos mais. Basta uma certeza convencida. Não cabem mais verdades no figurino desse mundo. Mas espera aí. Mudou tudo assim tão rápido e nem nos demos conta? Sim. Muita coisa, muito rápido, não nos demos e não damos conta. E agora? Agora? Agora vamos então falar sobre a nova TekPix? Ou sobre o futuro?
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Freud: ”O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”. No filme, McFly só sabe o que tem do outro lado quando chega lá. Mexer com o passado exige coragem e ousadia, pois reverbera no presente. E aí? Vamos esperá-lo na praça do relógio? E você leitor, para ir lá, o que deixa do lado de cá que lhe angustia tanto? SF.

Discurso & Psicanálise

Postado em

A gente é o que a gente tem sido. Somos produtos de nossa prática de pensamento. Ninguém nasce de direita, de esquerda, preconceituoso, religioso, machista, amigo dos animais, liberal, comunista, fã do Roberto. A gente aprende a pensar assim pela vida que chega e não pede licença. E a vida entra via linguagem, no conjunto de experiências a que somos expostos. O jeito de pensar as coisas como nossas verdades se chama discurso. Quem compartilha o mesmo jeito de pensar, então, está certo, coerente, correto, é um dos nossos. É até uma pessoa mais bonita. Quem não compartilha é cego, é estúpido, está errado, é dos deles. E como fica feia a pessoa que pensa diferente de mim… É esse o efeito. O certo e o errado, o bom e o mau são efeitos. Efeitos reais, mas efeitos. Tanto para um grupo quanto para os outros a verdade se constrói da mesma forma sólida e verdadeira. Funciona igual para todo mundo, por isso as pessoas divergem. Isso acontece porque a história não é igual para as pessoas. Daí a diversidade. Assim se produzem verdades. Mas e daí em diante? Daí em diante, no aspecto do jogo das relações humanas e sociais, há um jogo de impor verdades – as nossas – sobre a dos outros. E isso é o político da linguagem: entender como se dá a correlação de forças na sociedade. Há discursos que querem superar as diferenças e achar um modo de sobrevivência nas diferenças. E há discursos que querem suprimir a diferença e aniquilá-las. No aspecto subjetivo, há também de se pensar sobre a relação de harmonia/resistência do sujeito com os discursos que o compõem. Há sujeitos que entram azeitados nas engrenagens discursivas a que estão sujeitos e há outros que tentam, inconscientemente, exorcizá-las, libertando-se desses discursos incomodadores e sofrem com a tarefa. A Análise de Discurso (AD) estuda o jogo de correlação de forças na sociedade, o político, a pólis. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para explicitar como está funcionando a construção do sentido para cada grupo de sujeitos. E a Psicanálise cuida do sujeito e sua relação com seus discursos fundadores. Analisar o sentido que se tem de governo – se deve ser mais social, se deve ser menos interventor na economia – é de interesse da AD. Interrogar o que o ódio mortal que seu Zé tem pelo Lula significa e o que que esse ódio metaforiza do não simbolizado em sua história de vida é de interesse da Psicanálise. Compreender como a discursividade sobre a homoafetividade tem mudado no tempo com os deslocamentos das relações humanas é de interesse da AD. Explicitar por que o seu Zé tem uma raiva atávica de gays e o que isso tem a ver com questões mal elaboradas de sua sexualidade é o baratinho da Psicanálise. Estou com saudade das aulas de Discurso…

O leão que caçamos

Postado em

O dentista americano Walter J. Palmer matou um leão na África, mais especificamente no Zimbabwe’s Hwange National Park, no Zimbabwe. Acontece que o leão era Cecil, uma espécie de símbolo nacional do país, e fazia parte de um projeto de pesquisa da Universidade de Oxford. Ele usava um GPS para monitoramento e foi atraído para fora da reserva onde vivia para ser morto com um arco e flecha. Detalhe importante. Depois de morto, teve sua cabeça cortada como um troféu. Essa história está rodando a internet e você deve conhecê-la, a não ser que tenha passado essa última semana em Plutão ou na Terra 2.0.

Fiquei me perguntando o que leva alguém a matar um animal por esporte. Antigamente, o homem matava animais em autodefesa ou por fome. É claro que o compele caçadores esportivos hoje nada tem a ver com o que movia caçadores da era paleolítica. Hoje, caçar por esporte é uma maneira socialmente aceitável – ok, cada vez menos – para justificar o prazer de matar por matar. Isso acontece no mundo o tempo todo e dessa vez só deu treta porque o leão era conhecido. Se fosse um leão da periferia, negro, pobre e do morro, talvez fosse mais um bicho na estatística.

O que o liongate me faz pensar, na verdade, é nos leões que nós caçamos e queremos matar para equilibrar nossas faltas. É uma metáfora, claro. O único bicho que mato é barata porque senão minha mulher não consegue dormir se souber que ela escapou. Mas, sim, os nossos leões.

A vida precisa de equilíbrio psíquico. Se sobra exagero de um lado da balança é porque há uma falta que pesa no outro prato. Muito silêncio ou muito barulho sobre algo, dizia Freud, é sinal de que esse algo precisa ser ouvido. Caçar, matar um animal, sentir o prazer de tirar a vida de um bicho desnecessariamente é claramente uma compensação narcisística por alguma falta. Imagine alguém que deliberadamente mata um cachorro na rua. É lógico que isso tem o peso de algum desequilíbrio que precisa dessa overdose compensatória de gozo. Não. Isso não é normal. Se a gente pensar no processo psicodinâmico de um sujeito em paz consigo definitivamente há alguma coisa aí. Só há causa daquilo que falha.

No caso de Walter Palmer, sua forma de compensar a falta – sabe-se lá qual – é matar por esporte. Há compensações menos nocivas e outras mais, tanto para o sujeito quanto para quem o circunda. No caso de muita gente, a compensação é um cair de cabeça na religiosidade ou espiritualidade. Outros vão para drogas, álcool, sexo compulsivo. Uns compram um carrão. Tem gente que se entope de chocolate ou de sorvete. Tem gente que para de comer ou vomita o que come. Pessoas limpam casas compulsivamente para dar conta de sujeiras psíquicas. Alguns exercitam a pedofilia, o sexismo, a violência física contra si ou contra os outros. Un outros destilam ódio gratuito nas redes sociais contra a Dilma ou o Lula. Tem gente que se mete de corpo e alma em campanhas sociais, ONGs, coletivos. Tem umas pessoas que viram the great outdoors e vão mochilar pelo mundo ad eternum, postando suas fotos de braços abertos na montanha para o mundo dar like. Tem gente que escreve. Há todos os tipos de leões para matar.

Que a gente precisa de equilíbrio psíquico não é lá uma grande novidade. A questão é que o desequilíbrio compensador sempre pega interna e externamente. Porque as compensações, quando não trabalhadas na sua origem, são falsas soluções. É mais ou menos como a febre. O sujeito sente febre e equilibra a temperatura do corpo com um antitérmico. Mas a febre, um desequilíbrio, precisa ser escutada. Ela está dizendo algo. Não basta combatê-la num falso equilíbrio. A febre é um desequilíbrio aliado. Da mesma forma, os excessos ou silenciamento eloquentes precisam ser ouvidos. Não é suficiente dar a dipirona das coisas para equilibrar a falta que faz o desequilíbrio. Tem de saber o que nos causa o mal-estar, pensado aqui como conceito psicanalítico.

O fato é que matar leões, até um por dia, pode não ser uma boa metáfora. Em vez de buscar a adrenalina fora talvez seja necessário buscar a endorfina dentro. A ideia não é aniquilar as questões que desequilibram – isso, penso, talvez seja um sonho impossível e algo até ruim porque eles são necessários –, mas aprender a conviver com elas sem tanto sofrimento e sem a necessidade de puxar o pino da bomba atômica para matar o mosquito. Só um detalhe: de dentro, a gente quase nunca enxerga. Daí a necessidade de uma boa terapia (aqui eu já fazendo propaganda para quando eu me formar, claro).

Clemént Rosset tem um livrinho que eu adoro: “o Real e seu duplo”. Ele diz em determina altura do texto: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a impiedosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescindível – o do real a ser percebido –, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sobre certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e se mostra desagradável, a tolerância é suspensa”. A recusa do Real, claro, pode tomar formas muito variadas. O Real, quando teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar, como numa dose a mais de álcool ou numa cabeça de um leão africano morto com um arco-e-flecha.

Admitir que há uma falta que nos constitui sempre e que precisamos conviver com ela é doloroso. Às vezes rola sangue. Preferimos um mundinho arrumado, ainda que falsamente arrumado. Mas admitir nossas faltas constituintes é fundamental para manter a vida acontecendo de forma suportável. Porque senão a gente sai que nem um louco matando leões. E pior, com arco-e-flecha para o sofrimento do bicho ser maior. Metaforize aí.

O sentido da vida deve ser buscado não na harmonia, mas na dissonância. Se há mal-estar, que bom! Hora de buscar compreender. Qual é a cabeça de leão que você anda atrás para pendurar como um troféu na parede de seu quarto da vida, leitor querido? Olhe para dentro. Porque nada jamais é descoberto. Tudo é apenas reencontrado.

O forninho do Walter Palmer caiu. Segura o seu aí.

A falta que nos faz

Postado em Atualizado em

O sonho, de Salvador Dali.

Manoel de Barros, um dos meus poetas preferidos, tem uma frase que adoro: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. O poeta diz de forma fácil o que demorei algum tempo pra compreender teoricamente. Por trabalhar com um determinada corrente de Análise de Discurso, tive de percorrer caminho variados que essa corrente convoca e um desses caminho é o da Psicanálise.

Um dos conceitos em que a Psicanálise se ancora é no conceito de “falta”. A língua, que estrutura o sujeito, separa esse sujeito da natureza, cerceando seus desejos por contingências jurídicas, morais, éticas e de outras ordens que se lhe impõem no momento mesmo em que ele aprende a linguagem. Aprendemos com a língua mais do que sintaxe e morfologia. Esse sujeito, no entanto, resiste à censura do mundo. Seus desejos cerceados criam as faltas, segundo a Psicanálise. Elas vão para o inconsciente e fervilham para, de alguma forma, tentar sair. Por onde saem? Pelas próprias falhas da língua: lapsos, atos falhos e afins. E por comportamentos que lhe dão vazão.

Assim, toda língua falha. Da falha pode surgir o discurso bem-sucedido, que é o desejo reprimido se soltando, um desejo que constitui o sujeito. Virando Descartes de cabeça para baixo, Freud dizia: “Penso onde não sou [na razão]. Logo, sou onde não penso [no inconsciente]. Se compartilharmos das ideias da Psicanálise, então, podemos dizer que a falta nos faz sujeito de linguagem e sujeitos no mundo. É pela falta que nos completamos e na linguagem que ela se faz evidente. É a falta que nos faz.

Ler o mundo discursivamente, sob esse viés, é buscar evidenciar na língua as marcas desse desejo constitutivo do sujeito, do qual nem ele mesmo tem consciência. Comportamentos são práticas e discursos. Portanto, em tudo há uma causa. Umas mais fundantes, outras menos. Umas que se acomodam e umas que incomodam.

Um ódio muito grande em relação à homoafetividade, por exemplo, pode significar uma condenação a um desejo homossexual reprimido por alguma razão. Pode ser a religião dizendo que não dá. Ela diz que não pode, o desejo quer e é reprimido. Aí ele retorna em forma de ódio em relação ao outro que, na verdade, é a transferência do ódio a mim mesmo – nele representado – por eu querer o que me é proibido. “Ah, então quem discorda de gay é gay?” Nem sempre. Freud também dizia que um charuto às vezes é só um charuto. Por isso é preciso fazer análise. Mas pode ser.

A dificuldade de se relacionar afetivamente, de querer namorar, ter uma relação mais séria, de constituir uma família, pode ter origem em alguma falta na infância. A falta da figura paterna – ou sua presença ruim, batendo na mãe ou algo assim – pode levar a pessoa a não querer repetir o risco de ver acontecer com ela o que aconteceu com sua família. A mãe que não deixa o filho casar, por exemplo, porque foi abandonada pelo marido tende a ver na saída do filho de casa o retorno daquele abandono. A falta da figura paterna pode levar o sujeito à adoração de figuras que demonstram um extremo de autoritarismo, em uma forma de preenchimento. “Amo o autoritário porque ele me devolve a autoridade que não tive de meu pai, que me faltou”. O inconsciente dá as cartas.

Uma mãe superprotetora pode querer estar compensando a falta de proteção que lhe fez falta. “Minha mãe não me dava atenção, me abandonou, preferiu meu irmão a mim. Não vou fazer isso com meu filho. Meu filho ninguém abandona, nem por um segundo. Não vou repetir nele a minha falta”. A razão pode dar outras razões, mas o inconsciente pode estar guiando o comportamento.

Veja alguém que esbanja dinheiro, faz questão de fazer a melhor festa das galáxias, de usar as coisas mais caras, ter o último iPhone e um carro de 500 mil. O excesso pode ser sintoma de uma falta de antes – não ter tido recursos financeiros que hoje tem, por exemplo – ou uma falta de hoje: “preencho a vida com isso porque me falta afeto na relação conjugal ou porque, como meu casamento não vai bem, vou punir meu marido gastando muito”. São razões que razão desconhece. Muitas e variadas. Todas vindo de uma falta.

A identificação e preconceito também podem ter causas inconscientes. Muitas pessoas que adoram o ex-presidente Lula o fazem porque veem nele um dos nossos que chegou lá. “Ele sou eu que deu certo”. É a mesma razão, mas com efeito contrário, de quem por ele nutre um ódio irracional – irracional porque foge a razão mesmo, sendo inconsciente. “Odeio o Lula porque ele me lembra um grupo de pessoas de que não gosto, porque ele me lembra que um dia eu já fui igual a ele e odiava sê-lo”. Não adianta perguntar ao sujeito. O inconsciente lhe escapa. As razões da razão serão outras. Tudo processo inconsciente e resguardando o charuto poder ser simplesmente um charuto de novo.

Essa eleição presidencial está cheia de sintomas. Gente que odeia a Dilma porque ela representa o pobre que incomoda de alguma forma. Gente que odeia o Aécio porque ele representa a elite que não se é. Gente que vota com a pesquisa porque, afinal, precisa vencer em algo já que a vida não lhe traz vitórias. Gente que que se sabota porque, por alguma razão, não se vê no direito de ser feliz. Enfim.

Há casos relatados de gente que tem prisão de ventre porque passou necessidade na infância e é avaro até com as fezes. Cleptomaníacos roubam sem necessidade porque acham que não tiveram atenção suficiente na infância e roubam com o desejo inconsciente de ser pegos e ter essa atenção que lhe faltou. Por aí vai a falta fazendo história.

Você pode achar esse papo de Psicanálise um besteira. Muita gente acha. Eu não acho. Por isso, resolvi estudar psicologia. Quanto mais eu leio sobre isso, mais fácil vai ficando entender certos sentidos no mundo e compreender que os comportamentos não são gratuitos. Eles normalmente têm um preço, uma dívida a ser paga. Mas a gente tem de querer olhar o gavetão de nosso inconsciente. É preciso fazer análise e terapia não funciona com o sujeito obrigado. Está a fim?

Faltas. Excessos. Busca de equilíbrio. Diz aí, leitor, qual é a falta que te faz?