reflexões

Tudo que vai

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Fui deixar meu irmão no aeroporto. Foi ver o filho, que mora em Sampa. Chegamos em cima da hora do voo. Aeroporto lembra partidas e chegadas. Partidas e chegadas lembram o constante movimento das coisas. Coisas vêm e vão. Pessoas vêm e vão. O movimento faz parte da vida.

Não há ganho sem perda nem perda sem ganho. Isso é uma lei, como a da gravidade. Quando decidimos por algo ou alguém decide algo por nós, sempre há ganhos e sempre há perdas. Sempre. Quando somos nós que decidimos, o normal é que haja mais ganhos do que perdas na decisão. Assim a vida dá seus passos e vamos em frente. Quando são os outros que decidem por nós e, de novo, os ganhos se sobressaem diante das perdas, ótimo! A vida segue feliz, como se espera dela. No entanto, quando decidem por nós e há perdas dolorosas e ganhos irrisórios, ficamos machucados e tristes. E quando, enfim, nós decidimos por algo que nos traz mais perdas do que ganhos, quem sabe está na hora de uma boa conversa com o analista para tentar descobrir por que nos punimos nas nossas escolhas.

Veja você, caro leitor, que das quatro possibilidades lógicas expostas acima, apenas uma está fora do nosso alcance de decisão: quando decidem por nós e perdemos mais do que ganhamos. Nas outras possibilidades, ou a gente está no lucro ou a gente pode mudar o rumo das coisas. Saquei isso há algum tempo, quando fiz análise, exatamente para compreender por que alguém que eu amava decidiu me colocar numa grande perda com a qual eu não soube lidar sozinho. A partir dali, passei a concentrar esforços para maximizar meus ganhos nas decisões dos outros em que há uma perda muito grande para mim. Tem sido um exercício. É aí que tenho de colocar força: como transformar o pequeno ganho que veio da perda grande em um grande ganho, em um ganho que valha a pena.

Minha vida ficou bem mais feliz quando passei a maximizar o ganho das pessoas ou minimizar suas perdas quando a decisão depende de mim. Qualitativamente, sou mais realizado desde quando decidi escolher a felicidade e optar pelo ganho e não pela perda nas decisões que dependem de mim e, em não dependendo de mim, criar mecanismos de focar no ganho, ainda que mísero, quando alguém me faz perder. Qual a consequência prática desse perde-ganha todo?

De tudo isso decorre que é preciso que certas coisas partam, que a gente as apague da existência. Para funcionar a equação da felicidade, é preciso compreender que certas pessoas devem ir embora da nossa vida, devem ser riscadas do mapa. Parece forte, mas não é. É apenas necessário. Coisas que só nos trazem perdas e pessoas que nos sequestram os ganhos merecem a porta da rua, merecem pegar a boroca e rumar a venta para plagas outras quaisquer que não seja a nossa vida feliz. “Ain, mas é difícil…” É. Coldplay na veia: ninguém disse que seria fácil. No entanto, é preciso viver o luto de uma perda, fazer gastar a angústia, curtir a dor, como se curte o couro. E depois seguir. Morar no luto é transformá-lo em melancolia, que é o luto eterno que paralisa tudo. O luto é necessário; a melancolia é patológica. Que luto você ainda não viveu? Por quem você paralisou tudo na melancolia?

Nesse jogo da vida, ainda, entram os nossos. Os nossos são aqueles que gostam de nós. Eles desempenham um papel fundamental nessa matemática inexata da felicidade. São os que nos amam. Para alguém me amar é preciso ficar feliz quando estou feliz e triste quando estou triste. Amar é isso. Se o contrário ocorre (a felicidade com a tristeza alheia ou a tristeza com a felicidade do outro), tem-se um estranho amor do avesso, que é, também, patológico ou, no mínimo, um pecado capital mal resolvido. Porque amar, meus caros, envolve empatia. Amar dos vera inclui a capacidade de se colocar no lugar do outro e sentir por ele e com ele. Quem gosta de uma pessoa guarda o luto com ela, ratifica seus silêncios; quem gosta de alguém não fica prendendo o outro no lodo da melancolia, seja lá por que justificava for. Quem gosta de uma pessoa retifica suas engrenagens da alma. Quem, leitor querido, você diz que ama e cujo luto você não respeita? De quem você gosta, mas sente um prazer esquisito de ver na melancolia? Pense aí.

O aeroporto foi reformado. Eu quase errei a entrada. Mas chegamos a tempo. Meu irmão foi ver o filho e está muito feliz. Eu fiquei muito feliz por ele. Eu o amo. Na vida refeita, temos de aprender as novas entradas dos acontecimentos. Para aprender as novas é preciso desaprender as velhas, que não existem mais ou que, se existem, levam aonde não queremos mais ir. Assim chegaremos a tempo à felicidade. Para lembrar, como diz Fernando Pessoa, é preciso esquecer.

Hoje eu fico bem à vontade com muitas ausências que já foram presenças indispensáveis. Hoje eu já me acostumei a esquecer tudo que vai. Salas e quartos somem sem deixar vestígio. Rostos em pedaços se misturando com o que não sobrou do que eu sentia. Eu juro: eu nem me lembro mais. Bom escutar Capital de madrugada.

Brisas e bafos

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Na sociedade da visibilidade ė arriscado ser visível. Parece contraditório, mas à medida que cada vez mais se faz necessário estar presente no mundo das redes de relacionamento, maior parece ser a briga pelo espaço, virtualmente infinito. Ter contatos, desenvolver networking, se relacionar bem: tudo isso passa a ser passaporte para ser levado à boca do sapo por um alguém acredita que você está roubando uma luz que deveria estar apontada para ele. Como dizia Tom Jobim: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”.

Falamos de democracia, respeito à diversidade e cada vez mais estamos agindo por instinto animal em relação aos outros. É gente derrubando gente, gastando seu tempo para prejudicar o colega de trabalho ou simplesmente fazendo o mal como hobby. Gente cuspindo sua amargura no prato alheio como forma de exercer o seu sadismo contra o próximo. Aliás, essa gente ruim quer manter o próximo próximo para ter com quem malinar. É um rancor à flor da pele. Aí vem a pergunta: o que leva alguém a odiar gratuitamente? Refazendo, num pensamento corrigido: o que leva alguém a odiar? Porque nada é gratuito.

Vou tentar responder fazendo a regra de três da pergunta. O que leva alguém a gostar de alguém? Gostamos de alguém quando essa pessoa nos faz bem. Quando ela nos traz brisa. Porque tem gente que traz brisa e tem gente que traz bafo. Gostamos de alguém que nos faz sentir melhor ao sair do encontro com ela. Bem melhor do que estávamos ao chegar. Gostamos de pessoas que o corpo sinaliza, que nossos olhos buscam, que nossa alma anseia encontrar. Gente que tem perfume, sem passar nada no corpo. Pense aí nas pessoas que lhe atraem das diversas formas, leitor. Veja como elas são magnéticas pela leveza que representam. Elas fazem parte daquela gente que quando chega num ambiente todos sorriem. São pessoas cujas companhias são disputadas, queridas, desejadas. São pessoas que queremos do nosso lado e nos esprememos todas para que caibam. Pois é. Dessa gente a gente gosta fácil. Mas por que não se gosta de alguém?

Para fins de argumentação, pressuponhamos que não se gosta de alguém por questões inversas daquelas pela quais se gosta. Então, não se gosta de uma pessoa porque quando chega ela traz consigo uma nuvem escura que faz com que o ambiente fique pesado. Por conta dessa energia ruim, que dá gastura, saímos mofinos de um encontro com ela. Por isso, passamos a evitá-la ao máximo, fugimos dela sempre. Nossos olhos fingem que eles não a estão vendo. Nossas almas desguiam desse corvão da urucubaca. É uma gente que fede, ainda que seja limpinha e perfumada.

Ok. Até aqui morreu o Neves. Mas quando a pessoa não gosta de você porque você traz brisa? Quando a pessoa não lhe suporta porque você é querido? Quando a pessoa se treme de raiva porque você deu certo, depois de muita ralação? Aí, caro leitor, entra em jogo o bichão verde da inveja.

Sobre ela muito se escreveu. “A inveja é a arma dos incompetentes”, dizia um adesivo pregado no vidro lateral do fusca azul que meu pai tinha quando éramos crianças e do qual nunca esqueci. “O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”, diz Zuenir Ventura num livro invejável sobre a inveja. “A inveja é uma merda”, complementam alguns mais diretos. Por que a gente é vítima das ondas azedas da inveja?

Uma pessoa que você não conhece desejar lhe ver morto e enterrado no cemitério do Mauazinho só pode ser indício de uma inveja patológica. Um colega de trabalho que passa seu tempo maquinando traquinagens para lhe prejudicar só pode ser um invejoso incompetente que queria muito, mas muito, ser como você. Ou ter você, sei lá. Não consegue e se projeta negativamente. Começa a espalhar que a uva está verde.

Conquistar um lugar ao sol dispara imediatamente uma nuvem de chuva pesada, cheia de raios e trovoadas, na cabeça da criatura invejosa. Ela fica ruminando para si palavras de ordem, como se fossem mantras vodus. Pois é. Só foi eu descrever e você já está pensando numa pessoa específica que é assim, não é, caro leitor? Confesso que eu estou pensando em uma aqui também. Ela é meu modelo para a escrita desse texto. Se ela ler esse texto (porque ela me lê, claro), ela vai saber que é dela que estou falando. O invejoso adora enfiar a cabeça em carapuças que passam.

Os invejosos são perigosos. Simpáticos às vezes. Amáveis quase sempre. Venenosos feito uma cascavel sempre. Meu conselho: isole-se de gente assim. Ninguém precisa delas. Bloqueie-as em suas redes sociais, dê unfollow em suas pretensas amizades. Em um mundo tão complexo e cheio de desafios de tantas ordens, deixe essas criaturas para nossos colegas psicólogos e psiquiatras cuidarem. Otimize as suas relações e sua felicidade. Tenha relacionamentos sustentáveis.

Essas pessoas urubulinas são fáceis de reconhecer. Mesmo quando não se rasgam abertamente em seu incômodo com nossa vida, elas se manifestam de outras formas identificáveis. No Twitter e no Facebook, sempre discordam de você por padrão, mais para marcar posição e se amostrar do que pelo mérito do assunto em discussão. Reclamam demais de você e para você, mas não largam o osso e continuam lendo o que você escreve e compartilha. Ficam putinhas da vida quando são bloqueadas. Não admitem isso e xingam você de arrogante, prepotente e boçal. Mas, como assim, Bial, eu não tenho direito sobre meus espaços virtuais? No trabalho, são elas que falam mal do outros para você. E não se iluda: de você para os outros também. Olhe para o lado e identifique os sinais. Porque a baba escorre. É viscosa. Cheira a enxofre.

Eu acredito veramente que o que é nosso está guardado. Mas também acredito que a gente tem de levantar a bunda da cadeira e ir lá buscar. Só que quando a gente vai, acaba ferindo de morte os bundões que não se dão ao trabalho de correr atrás. Eles ficam lá, babando sua raiva, seu ódio, seus maus fluidos. Tudo porque são medíocres, mesquinhos, amargos, infelizes e mal-amados. Falta-lhes amor. Falta-lhes sexo bom. Precisam de análise, de Deus, de maconha, do Santo Daime, sei lá, mas de alguma coisa que lhes mostre que os problemas do mundo de que tanto reclamam estão dentro deles mesmos. Eles precisam urgentemente deitar na BR.

Viver a necessária visibilidade, vivendo seus ônus e bônus, ou manter um low-profile e ir ficando para trás na sociedade em rede? Dureza de escolha, claro. Mas uma coisa é certa: nesse novo começo de era, quero conviver com gente fina, elegante e sincera, com habilidade para dizer mais “sim” do que “não”, mas que saiba dar um “não” sem culpa à gente grossa, deselegante e falsa. Chega de ser politicamente correto com quem é incorreto em tudo que pode. Que levem suas amarguras para seus umbrais e que lá fiquem. Gente bonita é tão mais legal para os olhos e para a alma. Ser gente boa é muito mais in. Os hipsters acham tudo que é mainstream ruim. Mas há algo mais mainstream do que o amor e a amizade?

Eu quero gente que ama. Eu quero abraço apertado, eu quero o riso frouxo, eu quero “oi” que dê frio na barriga, eu quero os pés se embolando embaixo do lençol. Eu quero apenas olhar os campos e rir meu riso e cantar meu canto. Eu quero é brisa no rosto. De bafo, leitor amado, já basta o clima da minha Manaus.

O açúcar é doce, o sal é salgado

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O mundo é pequeno pra caramba/Tem alemão, italiano, italiana/O mundo, filé à milanesa/Tem coreano, japonês, japonesa…/O mundo é uma salada russa/Tem nego da Pérsia/Tem nego da Prússia/O mundo é uma esfiha de carne/Tem nego do Zâmbia/Tem nego do Zaire…/O mundo é azul lá de cima/O mundo é vermelho na China/O mundo tá muito gripado/Açúcar é doce/O sal é salgado…/O mundo caquinho de vidro/Tá cego do olho/Tá surdo do ouvido/O mundo tá muito doente/O homem que mata/O homem que mente…/Por que você me trata mal?Se eu te trato bem!/Por que você me faz o mal?/Se eu só te faço bem!…/ Todos somos filhos de Deus/Todos somos filhos de Deus/Só não falamos/As mesmas línguas…/Everybody filhos de God/Everybody filhos de God/Só não falamos/As mesmas línguas…/Everybody filhos de Gandhi/Everybody filhos de Gandhi/Só não falamos/As mesmas línguas…

Já diziam os antigos filósofos gregos que a virtude está no meio. Eu respeito muito os filósofos gregos. Assim como respeito os velhos e sábios provérbios chineses. A propósito, há um velho e sábio provérbio chinês que diz que “a fruta madura não é a verde nem a podre”. Simplicidade de ideias. Sonho de consumo de quem escreve.

O ponto tanto dos filósofos quanto dos chineses é o mesmo: a vida precisa de equilíbrio. O desequilíbrio ferra tudo. O corpo precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a doença. O amor precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a crise. O bolso precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é a falência. A fé precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é o fanatismo. O humor precisa de equilíbrio e seu desequilíbrio é o preconceito. Se há o meio, há sempre os dois lados.

Por um lado, a vida é feita das preocupações sociais. Não podemos esquecer da crise do Euro, CPI do Cachoeira, Mensalão petista, Privataria tucana, Belomonte, Código Florestal, Adote um Bichinho Coitado, das liberdades das práticas religiosas que oprimem. É enriquecedor apreciar o cinema alternativo do Canal Brasil, a música metafórica de Chico Buarque, a bem-cuidada literatura de Milton Hatoum e dos clássicos russos Dostoievsky e Tostoi. Como são lindos os quadros retratando o feminino de Modigliani. Ainda que não saibamos, cada uma dessas coisas faz parte de nossas vidas, uma vez que vivemos em um mundo enredado em que o bater das asas de um borboleta na Indonésia tem efeitos no clima do Brasil, como nos ensina a teoria d’O Efeito Borboleta de Edward Lorenz. Seu “capital simbólico”, um conceito de Bourdieu, aumenta se você conhecer a teoria de Lorenz. E a teoria de Bourdieu, claro.  Precisamos mais do que nunca estar antenados para tudo isso aí de cima, conhecendo a história humana e ampliando nosso espaço de circulação cultural.

Mas a vida tem um outro lado. Se ela é feita das necessárias preocupações sociais, ela exige para seu equilíbrio um lado mais leve, o lado do lúdico. A vida é feita também de humor, de alegria. “O que que um gás disse pro outro? Vamos vazar!” Eu achei isso muito engraçado.  É do Patati & Patatá, que me lembram o humor direto, básico e politicamente incorreto d’Os Trapalhões de quando eu era criança. É legal pegar uma roupa de boneca,  vestir o Manolo, meu gato, e postar a foto engraçada no Facebook. Ele é nosso gatinho, brincamos com ele, o amamos de paixão e isso não fere “o direito dos animais”, como às vezes uns azedos comentam. É fundamental respeitar quem encontra em Deus e na religião o seu refúgio e seu bálsamo. A intolerância religiosa se refere inclusive àqueles que não têm religião em relação aos que têm. Deixa o cara rezar! Se ele enche sua timeline de post religiosos que lhe incomodam, bloqueie ou deixe de seguir suas postagens. A não ser que você curta um masoquismo. Sinceramente, eu acho que é bom demais cantar aquela música grudenta das empreguetes da novela, ler vez por outra Paulo Coelho com sua literatura de autoajuda, que vende e que, por isso, incomoda muita gente. Eu penso que é inveja pura do Mago. E os grafittis de rua? Cada coisa mais linda… Quem foi para o Roça d’A Fazenda? E para o paredão do Big Brother? Sim, a vida tem suas horas de Djavan. Mas a vida também  é feita de  tchu, de tcha, de tchu tcha tcha tchu tchu tcha, tchu tcha tcha tchu tchu tcha. É feita de videocassetadas, de jogar gelinho, de chorar de rir de piada tosca e politicamente incorreta com os amigos na mesa de bar.  A vida precisa de tosquices. A tosquice tem um caráter balanceador na sanidade das pessoas. Eu tenho medo das pessoas que não se permitem curtir tosquices.

Antes que cheguem e-mails e comentários cabeças me xingando, um aviso: não estou dizendo que as pessoas devam curtir uma coisa ou outra, seja na linha do papo-cabeça ou da cultura pop. São exemplos apenas. O que estou sustentando – e este é o assunto desse texto – é que a vida precisa de equilíbrio. Em vez do Chico, Beto Guedes. No lugar da Big Brother, JackAss. Sei lá. Que cada que um ache os seus. É o tchiiiii da panela de pressão de cada um que precisa funcionar, senão ela explode. Gente sem equilíbrio é azeda ou é fanática. Ou as duas coisas. De qualquer forma, é sempre insuportável. As pessoas precisam de açúcar e de sal.

O mundo é uma salada russa. O mundo é azul lá de cima. O mundo é vermelho na China. O mundo tá muito gripado. O açúcar é doce, o sal é salgado.

Pregos na bunda

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Quando eu era criança,  sentei em uma tábua cheia de pregos. Minha bunda ficou toda furada. Com medo de mostrar para a minha mãe e levar uma bronca, coisa que quase todo dia acontecia comigo, fui tratado pelo meu irmão mais velho, que providenciou band-aids,  um para cada buraquinho. Fui descoberto na hora do banho. Minha mãe viu aquele monte de band-aids e eu tive que me explicar. Ganhei o maior esporro, talvez por eu ser estoporado e não ter prestado atenção na tábua com pregos, se mal lembro.

O motivo não importa. O que importa é que eu podia ter tido tétano ou coisa parecida. A preocupação de dona Helena era legítima. Uma preocupação saudável de mãe. Qual leoa não cuida dos seus filhotes? E quem tem filho feio é a coruja. A tábua de pregos enferrujados enfiados na bunda era, de fato, um motivo de real preocupação.

Dona Helena, no entanto, sempre nos deixou jogar bola na rua, voltar suados, com cordões de cerôto no pescoço. Via seus filhos bebendo água na boca da torneira para se refrescar do futebol, tomar banho de camburão, abraçar o cachorro, rolando com ele na areia. Minha mãe, sem ter conhecimento técnico-científico, compreendeu que era preciso nos expor para que criássemos defesas. E como nós nos expusemos…

Lembrei-me disso ao ler, postada no Facebook, uma matéria sobre uma pesquisa que concluía exatamente isso que a maioria das mães já sabe: expor as crianças ao dia-a-dia ajuda o corpo a criar anticorpos. É um princípio biológico básico que vale para a vida em geral.

Ninguém cria os anticorpos para as dores do amor se não se expõe a ele. Não dá para amar na teoria. Amar envolve se jogar na areia movediça dos sentimentos, com todos os bichinhos que nessa terra fazem morada. Para aproveitar o amor na plenitude é preciso tomar água direto na torneira para se refrescar dos momentos de sufoco. Amar envolve suar, inclui abraçar uns cachorros aí. Não ama quem apenas olha da janela a galera amando. Tem de meter o pé na lama. Ou na jaca.

Não há quem crie os anticorpos contra a maledicência,  derrubação e  falsidade que há em qualquer ambiente de trabalho sem que se exponha ao trabalho. É um pacote. Tem o lado bom e o lado ruim, que coça, dá urticária, deixa doente, com dores de cabeças. A gente vai aprendendo a reconhecer aquela pessoa que é toda-sorrisos e por de trás fala horrores de você. A intuição, com anticorpos, vai delatando aquele colega que sente inveja do espaço que você vai ocupando por sua competência. Vamos criando anticorpos para se proteger dessa gente ruim, criando um campo de força contra a turminha do mal.

O que quero defender neste texto é a necessidade de lidar com o mal, criada pelo design inteligente da vida para provocar o bem. Ninguém quer adoecer, lógico, mas não ter o mínimo de defesa se a doença chegar porque se viveu privado da chance de criar os anticorpos é antinatural. É o princípio das vacinas: expor o corpo a um pouco do vírus ajuda a defender o corpo daquele mesmo vírus.

Eu realmente fico assustado com exageros. Obrigar as pessoas a lavar a mão com álcool antes de chegar perto de um bebê ou não sair com a criança para tomar sol porque o ar pode conter micróbios oportunistas, por exemplo, mais do que proteção da criança demonstra uma insegurança patológica quanto à capacidade de cuidar.  É uma proteção para a insegurança dos pais mais do que um cuidado com a a saúde dos filhos. Em uma atitude egoista inconsciente, acaba-se fazendo um mal tremendo à criança, pois não lhe permite erguer suas barreiras necessárias. Os pais também estão sujeitos à mesma regra: precisam se expor a deixar os filhos viver para criar os seus próprios anticorpos da paternidade. Uma febre é uma aliada e não uma inimiga. São os anticorpos avisando que precisam de ajuda. Perdigotos podem, paradoxalmente, gerar saúde mais forte. Muita limpeza externa pode indicar transbordamendo de uma sujeira interna que precisa de atenção. Ah, o velho Freud.

De vez em quanto me pergunto se não estou superprotegendo minhas filhas a ponto de não lhes permitir viver para aprender. Marina, quatro aninhos, acaba de vir aqui para me mostrar que cortou o dedo na folha do livro de artes. Completou: “Papel corta, pai. A gente tem de ter cuidado quando vai pegar”. Claro que eu preferia que ela não tivesse se cortado. No entanto, não permitir que ela fizesse sua tarefinha no livro por causa da possibilidade de vir a se cortar não me parece uma medida de prevenção razoável e sadia.

Eu vim para o meu terceiro e derradeiro casamento cheio de anticorpos em relação às relação a dois. Aprendi que amor é equilíbrio. Lá e cá. É respeito e admiração. Está no meu conjunto de anticorpos do matrimônio que o amor acaba quando a gente permite que o vírus da indiferença destrua as células da admiração que temos por nossos parceiros. Enquanto cedermos a última almôndega do prato para o outro com prazer, a relação segue firme. Três casamentos foram a minha Tríplice.

A vida é linda, bela. Queremos e merecemos felicidade e paz. Sonhamos e batalhamos para o melhor do mundo para nós e para os nossos. Na hora de dormir, viva o banho quente e o ar-condicionado! Mas viver envolve mais. Envolve correr e suar. Inclui criar cerôto no pescoço, fazer chapinha descalço na lama,  tomar banho de chuva na calha. E, claro, sentar a bunda numa tábua com pregos enferrujados às vezes.

Pensando alto. E rápido.

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Não é novidade dizer que a Internet alterou nossa noção de tempo e de espaço. O ontem já faz muito tempo e o agora não inclui mais o hoje pela manhã; vai-se de Marabá a Porto Alegre num clique de mouse. Ando pensando aqui numa questão que tenho chamado de explosividade efêmera. Para mim, está me parecendo cada vez mais essa a forma de ser da Internet: algo explode, viraliza, ganha corpo, se espalha, circula, satura e some de forma rápida, para dar lugar à nova explosão e reiniciar esse processo. Isso vale para a Banda Mais Bonita da Cidade, para a Luiza do Canadá, para o Para Nossa Alegria, para a receita milagrosa para emagrecer, mas vale também – mais preocupante – para a política, para as questões sociais em gerais, para as causas coletivas. Pensar por explosões – episodicamente – tem alterado o modo de criar memória social. Os 15 minutos de fama de Warhol viraram uma eternidade no ciberespaço. Esse novo rationale altera o modo de fazer educação, jornalismo, política. Cria-se uma ilusão de profundidade quando o que se tem, de fato, é um barulho quantitativo. Estou elaborando sobre isso ainda. Mas já estou muito inquieto. A ver.

Peregrinações: a lei, a forma, o acontecimento

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I’m looking for the face I had before the world was made.
Yeats

Esse é um texto pessoal, escrito mais para mim do que para os outros. Leia se quiser.

Um dos livros que mais me influenciou dentre os muitos que li é Peregrinações, de Jean-François Lyotard. Volta e meia o pego na estante e o começo a ler de novo. O que me fascina no livro é sua discussão sobre sua trajetória de vida, considerando a lei, a forma e o acontecimento. Fiquei pensando na minha trajetória sob as perpectivas de Lyotard.

A lei sempre me foi cara. Não falo aqui da lei jurídica apenas, mas incluo no sentido o juridismo, a lei não escrita. Sempre fui um cara muito “certinho”, para usar um termo mais corriqueiro. Um bom filho, um bom aluno, um bom irmão, um bom amigo, um bom professor, um bom pai. O adjetivo bom me persegue. Não pense você que isso é um autoelogio. Reconheço sem falsa modéstias algumas qualidades que tenho, mas sei também dos limites e defeitos que me habitam. É que desses poucos sabem, dando a impressão de que o bom domina. Mas ser adjetivado nunca é bom, nem mesmo quando o adjetivo é bom. Quem mata um leão por dia sofre muito quando deixa escapar uma tartaruga num instante relapso.

Sinto falta de não ter sido mais fora-da-lei. Nunca sumi sem deixar notícias, nunca tomei um porre, nunca namorei sem ser a sério – a não ser numa fase bem galinha em que curti as ficações por ordem médica para recompor a autoestima depois de ter um casamento arrancado de mim por uma escolha fora-da-lei da outra parte. Aliás, tendo em vista o peso da lei, você que me lê deve imaginar o quanto sofri com isso. Grosso modo, nunca fui irresponsável. Sim, estou me ressentindo de não ter sido porra-louca. A lei sempre me foi cara. Eu sempre lhe fui subserviente.

A forma. A forma sempre foi subjugada à lei na minha trajetória. O estético sempre se definiu pelo que a conjuntura determinava. Apesar de ser um admirador explícito das rupturas, quase nunca me permiti ser seu sujeito. Sou um conservador. Não costumo me permitir experiências que não me são conhecidas. Não gosto de provar pratos novos, prefiro lugares e gente que já conheço. Morro de medo quando a lei me impõe novas formas. Mas como de costume, sempre obedeço. Apesar de ser curioso, a boa forma para mim é aquela que não apavora a mente.

Viver na lei e dentro de formas controláveis é, no entanto, impossível. Porque a vida tem o acontecimento. O acontecimento, um rebelde, não se permite controlar. Chega sem pedir licença, muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Foi o acontecimento que me levou a casar três vezes. Foi o acontecimento que encerrou meu primeiro casamento por um excesso de religião que ironicamente desligou o diálogo do casal. Foi o acontecimento caprichoso que me levou a conhecer minha mulher atual. Foi o acontecimento que me trouxe inesperadamente a minha filha caçula. Foi o acontecimento que me fez decidir fazer um concurso para professor da universidade no último dia de inscrição, no último minuto. O acontecimento é a falha na matrix. O acontecimento é o outro da lei, desafiando-a com novas formas, com novas trilhas, com novos sentidos.

Lei, forma, acontecimento. O que tenho percebido é que com o tempo, com a idade, tenho me flexibilizado quanto às três coisas. Isso tem seus motivos.

Ando muito triste com algumas escolhas que a lei me impôs. Estudei muito. Muito mesmo. Sempre gostei de estudar. Fiz mestrado. Fiz um doutorado na melhor universidade do país na minha área com a orientadora mais fodona na minha área. Tirei A em todas as disciplinas do curso. Estudar foi um acerto. Mas a forma foi errada. Fui ser professor universitário. Confesso que cada vez mais só gosto disso pela metade. Gosto da parte do trabalho, das aulas, das pesquisas, de escrever livros e artigos. Mas odeio o meu salário, me sinto humilhado ganhando o que ganho depois de estar no topo da titulação e no quase no topo da carreira , com vinte anos de universidade. Isso tem me deixado desgostoso, sem tesão acadêmico. Qualquer início de carreira de nível médio na Receita Federal ganha mais do que eu, com tudo isso. A lei não me foi mãe, me levando à forma equivocada, com grande parcela de (ir)responsabilidade minha, decerto.

Você que me lê pode estar dizendo: “Não está satisfeito? Muda!” E eu vou ser bem sincero: não dá. A essa altura do campeonato, a forma já fincou estacas. Passei batido. Tenho virado noites pensando em alternativas de dar uma boa qualidade de vida para a minha família sem me deixar abater pelos números do meu contracheque. O problema de ser aparentemente bom e forte o tempo todo faz as pessoas se desacostumarem de que a gente também fraqueja. Meus fraquejos são solitários. Não é por falta de ombros, não. Mas por escolha de não levar coisas ruins para os que eu gosto. Mas eu choro, fico acordando olhando o horizonte pela janela da cozinha, dirijo me perguntado por que a lei me trouxe essa forma. Tenho olhado a minha estante, cheia de livros, e me perguntado reiteradas vezes, com certa angústia ressentida: para que tudo isso?

A decepção com a lei e com a forma tem me levado a ser mais condescendente com o acontecimento. Estou menos exigente comigo mesmo e com os outros. Às vezes até displicente. Ando me permitindo fazer coisas pelas quais o eu de dez anos atrás me condenaria ao fogo eterno. Tenho apreciado novas formas, novos gostos, novas estéticas. Numa apropriação do Zeca Pagodinho com licença poética, eu diria que estou deixando o acontecimento me levar. Isso é bom. Isso é ruim. Quando a alma se acomoda, ela se apequena. É inevitável lembrar Pessoa. As coisas parecem não valer a pena às vezes. Ecos da boca torta da lei.

A lei vem e nos sugere as formas. O acontecimento vem e embaralha tudo. A ordem e a desordem. É ilusão acreditar que podemos programar a vida. A desordem é desejável para a própria existência e valorização da ordem. O que não está e não é também faz parte. A pausa do silêncio é que faz a música. A ruptura, filha do acontecimento, deve ser recebida com tapete vermelho, sem culpas ou remorsos por alterar formas conhecidas. Sem espaço para o acontecimento, represamos nossas vontades na lei. Presos à lei, as formas enferrujam. Formas estanques levam a almas mofadas. Tudo é episódico. Como sabê-lo sem vivê-lo? A lei é inimiga da ousadia, do deslimite e da felicidade. Lyotard diz:

“Declaramo-nos filósofos ou escritores, devemo-nos confessar impostores. Não existe pensar verdadeiro que o sentido de sua indignidade não escolte. A única maneira de sair desse atoleiro, pelo menos em parte, é exibir o inelutável. (…) De modo que o que ameaça o trabalho de pensar (ou de escrever) não é ele permanecer episódico, é ele fingir-se completo”.

Vou vivendo uma incompletude a cada dia, procurando o rosto que eu tinha antes do mundo ser criado, como disse Yeats no começo deste texto. A lei não me deixa arriscar muito as formas novas por conta de três pessoas que dormem aqui ao meu lado nesse instante. Mas boto minha fé no acontecimento. Que ele seja breve na chegada e longo no tempo de estadia. Certamente o acolherei com olhos menos casmurros, mesmo que aos olhos da lei ele se apresente criminoso, se me entendem a metáfora.

Lei, Forma, Acontecimento. Acabei de ler o livro pela enésima vez. Como você peregrina na vida, caro leitor? Vai, me ajuda a pensar aí. Estou à deriva, achando que quase tudo não vale a pena. A alma anda pequena.

Detalhes

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Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo em sua vida eu vou viver…/Detalhes tão pequenos de nós dois/são coisas muito grandes pra esquecer/E a toda hora vão estar presents/Você vai ver…/Se um outro cabeludo/aparecer na sua rua e isto lhe trouxer saudades minhas a culpa é sua…/O ronco barulhento do seu carro/A velha calça desbotada ou coisa assim/ Imediatamente você vai lembrar de mim…/Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido palavras de amor como eu falei/Mas eu duvido, duvido que ele tenha tanto amor/e até os erros do meu português ruim/E nessa hora você vai lembrar de mim…/A noite envolvida no silêncio do seu quarto/Antes de dormir você procura o meu retrato/mas da moldura não sou eu quem lhe sorri/Mas você vê o meu sorriso mesmo assim/E tudo isso vai fazer você/lembrar de mim…/Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada/Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada…/Pensando ter amor nesse momento desesperada você tenta até o fim/E até nesse momento você vai lembrar de mim…/Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada do tempo que transforma todo amor em quase nada/Mas “quase” também é mais um detalhe/Um grande amor não vai morrer assim/Por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim…/Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver/Não, não adianta nem tentar me esquecer…

Um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada e por muito tempo insiste em viver ali, dentro de nós.

Passado um tempo, a cada esquina o dia a dia nos traz lembranças de um momento de uma vida a dois que se prometeu para sempre. No entanto, a promessa por alguma razão foi interrompida, abortada. Encerrou, mas não acabou.  Porque continuamos esbarrando em cheiros, cores, lugares e pessoas que são máquinas do tempo nos levando àquela época que hoje parece uma dimensão paralela, um tempo de cuja existência esquecemos quando nos pegamos distraídos com a vida. Pegos no susto da lembrança, exclamamos, surpresos: puxa, eu já amei essa pessoa!

Os detalhes tão pequenos de uma trama de afeto são coisas muito grandes para cair no vale do esquecimento. O tamanho de tudo quando se fala em amor não é físico, mas simbólico. Pode caber no espaço de um pingente ou numa aliança tosca de compromisso feita de tucumã. Há detalhes. Aquela história, aquele pôr-do-sol, aquela viagem. Aquela mania, aquela preferência, aquela implicância. O lugar na cama, a tampa da manteiga sempre aberta, a roupa sempre espalhada. Aquele perfume, aquela música, aquele boteco, aquele jeito de sentir prazer. Aquele defeito tão bonito. Como nós não podemos apagar o mundo que circunda aqueles que passaram em nossa vida, os detalhes sempre se farão presentes. Os detalhes moram do mundo, mas pertencem a enredo de dois.

No curso da vida surgirão outros amores. Esses amores novos nos amarão bem menos e pior do que o que se foi. Por isso, amores capengas nos farão lembrar do amor que passou justamente pela intensidade e pela qualidade de tudo o que vivemos e que não temos mais. Alguns outros amores, por outro lado, nos amarão bem mais e melhor do que o suspenso. Esses nos trarão à memória a tristeza da potencialidade não exercida daquele amor que acabou, que não foi tudo aquilo que poderia ter sido. Não tem jeito: a memória é um beco saída. Uma vez dentro, nos encurralamos contra o muro da lembrança. Só tem saudade quem viveu.

Se há uma coisa que constrange o coração é reconhecer em um novo amor a presença de um antigo. Um mesmo hábito, o mesmo jeito de sorrir, o mesmo perfume. A maneira de mexer no cabelo, os movimentos dos abraços ou do quadril… Ou falta de tudo isso. O novo faz assim, mas o antigo fazia assado. Ou cozido. Detalhes. Diz a frase que o diabo mora nos detalhes. Se assim é, o diabo e as lembranças são colegas de quarto. Nos detalhes, a essência do que se foi.

Sabe o que mais dói quando um amor entra em suspensão? É a perda dos detalhes do outro. Perde-se alguém quando se perde seu cotidiano, sua micro-história, suas tristezas e alegrias, que ficam incompartilháveis. Mais: outra pessoa está presente naquele dia a dia que era nosso por direito. Com certeza a vaca ou o babaca está lá com menos afinco do que nós. Outra pessoa está ouvindo frases que eram nossas, fazendo carinhos que deveriam estar vindo de nós e para nós. Humanos pretensiosos, temos a mais absoluta certeza de que o outro que está falando palavras de amor no ouvido que se foi não tem tanto amor como nós tínhamos. Apostamos um dedo polegar em que o impostor não fala do jeito que nós falávamos. É um ultraje esse outro viver a nossa vida, protagonizar os nossos atos, atuar em nossos enredos. Um canastrão qualquer agora encena esse papel que era nosso. Que triste espetáculo!

Detalhes. Arrumando as coisas, uma foto dentro de um livro. No livro, uma dedicatória feita em tempos outros para nós, que já não existimos mais. Como era verdadeira aquela dedicatória… Até a letra era caprichada. Há dúvidas se o cheiro de mofo é do livro ou dos sentidos contidos naquele pedaço de texto. Na foto, um sorriso que preenchia boa parte do nosso dia. Instante de um momento cujas circunstâncias passamos a recordar. Com detalhes. Mas tal qual em “De volta para o futuro”, a companhia da foto está esmaecida porque o futuro não aconteceu por um desvio de rota no passado.

Jogamos fora as fotos, apagamos e-mails e posts, colocamos uma outra foto no porta-retratos. De que adianta tudo isso se o cérebro continua mandando torpedos para o coração? Do que vale trocar as fotos se nas molduras onde há a presença de outra pessoa que lhe sorri, nós continuamos a ver outro sorriso mesmo assim? A lembrança é um espírito obsessor que nos acompanha no carro, no banho, na lua cheia que olhamos, pensando em cenas românticas.

Amores e suores. Delícias de enredos a dois. Se fosse um filme, seria um clássico. Se fosse um livro, seria um best-seller. Se fosse uma música, uma do Roberto. Mas foram-se as histórias. Saíram de cartaz. A vida seguiu e outros amores vieram para beijar nossa boca, lamber nossa carne, tocar nosso corpo. Evitamos falar qualquer coisa no frenesi do balé dançado nos lençóis com o receio apavorante e real de dizer o nome acostumado sem querer à pessoa errada. O breve segundo de consciência sobre quem está encaixado em nós nos tira a concentração. Desesperados, tentamos artifícios para ir até o fim. Recorremos aos olhos fechados para garantir a presença ausente naquele corpo que agora explora o nosso. Por instantes, fingimos acreditar em prazeres novos, nos iludindo em um hedonismo da carne, do sexo e da luxúria, sem sustança afetiva. O sexo é bom. Mas não é igual. É legítimo dublar corpos?

A longa estrada do tempo tem seus caprichos. Ela tende a transformar todo um amor imenso em quase nada, apagando os detalhes, deixando só os rascunhos da história em linhas muito gerais. Quase nada. Mas o quase é mais um detalhe também. É por esse fio de memória que um grande amor se oxigena na história de nossas vidas e não morre nunca. No máximo, fica cataléptico. Dorme para despertar ao seu capricho.

Não, não adianta tentar esquecer. Durante muito tempo os detalhes vão viver. Fato é que tentar apagar detalhes entranhados em nossa carne, em nossa alma, em nossa história é querer apagar uma parte de nós. Não se passa borracha em vidas. Memórias não são retornáveis. Nem devem ser. A antologia universal do amor guarda algumas páginas para os nossos amores. Amores que se foram, é verdade. Mas que deixaram em nós traços de si, nos tornando melhores e nos preparando para outro alguém que tecerá uma vida cheia de mais outros detalhes, feito um manto do Arlequim. É mais prudente guardar nossa caixa de detalhes dos que cruzaram nossas vidas e acarinhar cada souvenir deixado por quem passou do que fingir que não existiu histórias que nos trouxera até aqui. Ciclos precisam se fechar para que outros se abram. Mas não precisam sumir. Se o novo amor exige isso, livre-se dele. Ele não respeita seus pedaços. Ele não entende que nós somos o que nós temos sido. Que amores que passaram e de certa forma ficaram fizeram de nós as pessoas por quem ele se apaixonou.

Porque um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada dentro de nós e por muito tempo insiste em viver ali. Em detalhes.

Grávido de Novo Airão

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É o poeta Manoel de Barros, por quem ando apaixonado ultimamente, que diz: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. Já há algum tempo, eu aprendi que sempre dá para aprender muito quando você sai da sua zona geográfica de conforto e experimenta um deslocamento para outros lugares. É no estranho que eu me conheço melhor.

Estive em Novo Airão dando e recebendo aulas. Cidade pequena, com a típica identidade do interior do Amazonas. Lá as ruas são pontuadas de motos e bicicletas e tudo parece ter um quê de diferente, se tomo os parâmetros da capital e seus problemas.

O primeiro aprendizado da viagem foi me desprender um pouco da internet e da conexão digital com o mundo. Não por opção, fiquei sem celular e sem acesso à internet por dois dias. Passei por uma desintoxição digital, com direito a delirium tremens de abstinência e tudo. Só há uma operadora lá. Foi ela que teve um problema na torre que deixou a cidade à mercê do velho telefone com fio,  caso eu quisesse falar com minha família, lá longe, bem distante fisicamente, mas sempre presente por onde quer que eu vá. Presença é dividida em presença presente e presença ausente.

Estar desconectado me conectou mais ainda com os afetos que me constituem. A impossibilidade do contato constante via telefonemas fáceis ou redes sociais instantâneas fez perceber o tamanho da presença quando ela vira uma presença ausente. Tal qual um sujeito que depois de passar a vida tomando o ar como garantido descobre o quanto ele lhe é quando ele lhe falta.

Caminhando no meu contraturno de trabalho, fui observando a vida tal qual ela se organiza por lá. A dona da Pousada, dona Fátima, com seu típico nome de dona de pousada, pousa o dia todo na cadeira em frente a TV na recepção, se permitindo de lá sair apenas para exercer seu cargo de gerente geral do lugar, para receber quem chega e quem sai. Caminho mais um pouco e chego à praça que tem um brontossauro de pedra imenso, colocado lá por um prefeito que sonhou com isso, segundo a história que chegou a mim. Inevitável pensar no monumento caso seu sonho tivesse tido um teor erótico. Mais um pouco à frente na praça, três meninos com varas e canos nas mãos lutam para recuperar um balanço que subiu e enroscou na árvore onde estava pendurado. O balanço subiu e embolou. Tento ajudar, em vão. Sigo em frente me perguntando como aquelas pessoas vivem só com o que tem. No caminho, percebo que para se chegar à resposta certa, a pergunta tem de ser certa. Refaço a pergunta: por que que a gente precisa de tanto para poder achar que vive bem?

Mototaxistas sentados no banco da praça dividem o marasmo e falta de clientes. Olham curiosos para mim e minha máquina fotográfica Nikon. Em tempo: na primeira foto que bati da minha turma, alguém falou: “Meu Deus! O professor aprisionou minha alma agora”. Foi uma aluna descendente dos Baré.

Tempo. Em Novo Airão o tempo é outro. São as mesmas 24 horas, mas elas se cadenciam mais devagar. O tempo parece não passar. O magnetismo da cidade retarda o passo dos ponteiros do relógio. Carros passam lentos em intervalos longos. Até os vira-latas andam numa displicência contagiante. O céu tem mais estrelas, definitivamente.

Passeio obrigatório, eu fui ver os botos, a atração da cidade. Andei até o flutuante que faz dos bichos o seu negócio. Dez reais a cabeça. Um grupo de turistas enfeitiçados pelo animal. O boto, de fato, é um animal místico. Exerce um fascínio imenso sobre as pessoas do lugar, que contam suas história como testemunhas oculares das suas peripécias donjuanescas.

De onde surgiu essa crença do boto que vira homem e sai do rio para engravidar as meninas? Provavelmente de uma moça que fez saliência escondido e embuchou. A desculpa deve ter funcionado e virou crença. Alunos meus me contaram histórias impressionantes: de uma mulher que estava menstruada, passou a mão no boto e começou a sangrar, numa forte hemorragia, tendo que ser levada a Manaus de urgência. Outro aluno contou que a vagina da bota é muito parecida com a da mulher. Contou ainda que um grupo de pescadores foi fachear – termo que depois descobri que significa pescar à noite com o facho de luz – e pegaram uma bota fêmea. A bota estava em período de acasalamento. De repente, um dos pescadores endoideceu e queria porque queria transar com a bota. Os demais tiveram que amarrá-lo porque ele estava fora de si. Uma outra aluna conta que uma amiga numa festa dançou a noite toda com um forasteiro, alto e bonito, que no fim da festa pediu licença, correu para o rio e saiu nadando. Com várias testemunhas. Fascínios femininos se mimetizando na natureza. A ligação do boto com a sexualidade é clara. Detalhe: sempre histórias presenciadas, nunca de segunda mão. E outra: os feitiços do boto só encantam mulheres menstruadas. Já dizia Rita Lee: mulher é bicho esquisito. Todo mês sangra.

Fui em um passeio até as ilhas de Anavilhanas, um arquipélago de 400 ilhas, segundo Carlos, meu aluno-guia. Entrando num furo – o beco do rio –, o barqueiro desligou o motor do barquinho e pude ouvir o som da natureza. Um silêncio rasgado por cantares de pássaros, de tucanos, de gaviões. Batidas de jacaré se mexendo na água. De repente, um boto cor-de-rosa gigante começa a coreografar ao lado da canoa. Sobe e desce, como que a se amostrar aos olhos humanos. Confesso que a cena é impressionante. Não admira que esse bicho tenha lá suas histórias. É, de fato, um animal fascinante. O olho do boto… sei não.

Um barulho rasga o silêncio como uma zagaia. Era o celular do guia, tocando no meio do mato. Paradoxo. Oxímoro. Antítese. Tudo isso naquela cena. Ele dizendo ao seu interlocutor que estava num furo perto do lago do Tamuatá. Quando desligou o celular e o motor do barco, a natureza falou. A natureza fala com a gente. Basta escutar. Os barulhos da florestas fascinam e comunicam. Tive uma epifania: o homem nasce feliz com a natureza. Ele é que estraga tudo. Isso foi sob uma cortina de cipós.

Ouvi histórias fantásticas. Mulheres que engravidam do boto, barrigas que sempre vingam. Outras engravidam da arraia. Essas não vingam. A parteira deve ser chamada para interromper a gravidez. Há a história do pano vermelho, que aparece para trazer más notícias. Tem ainda a jaraba, uma espécie de vespa gigante que come gente que queima comida. Há fantasmas. Eu vi uma. Don’t ask. Enfim, são narrativas que merecem um texto próprio, não?

De repente Manaus. O tempo acelera. A TV só traz notícias desagradáveis. A realidade urbana eclipsa a realidade paralela que vivi por dezessete dias. Que pena. Preciso de mais pausas como essa. Voltei na certeza de que trouxe mais do que deixei. Preciso me encontrar naquilo que me falta. Muita coisa que ainda me falta já se faz presente em mim. Toca aqui, Manoel de Barros.

Emagrecer a alma

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Fui almoçar num restaurante simples. Olhei e vi na mesa um adoçante. De repente me dei conta da onipresença do discurso light. São revistas falando em ser esbelto, clínicas lotadas de gente para lipoaspirar. A sociedade conspira a favor da magreza.

Havia na mesa ao lado um casal. Ele, vermelho de raiva. Ela, azul de fome. Haviam chegado há algum tempo e nada da comida. A cada minuto, o vermelho espumava e reclamava por causa da demora de sua carne. Teve uma hora que se zangou e mandou cancelar tudo e trazer a conta, xingando a garçonete. De repente, a carne chegou. Ele reclamou que já não era sem tempo. Depois, reclamou porque foi servida numa tábua. Por fim, reclamou porque estava mal passada. Tudo em num showzinho ridículo. Foi aí que eu fiz a conexão: tem suco light, maionese light, chocolate light. Mas não vejo ninguém fazendo a mesma pressão para generalizar outro tipo de dieta igualmente necessária: a pessoa light.

Muitos fazem tudo para ser magro. Poucos se dão ao trabalho para ser leve. Tem magro de 45 quilos que é uma porta de grosso. Essas pessoas vivem se queixando da perseguição contra elas. Nessa reclamação, nem se dão conta de sua arrogância e prepotência. Têm certeza que o universo gravita em torno de seu umbigo. Não perdem a chance de ser maldosas, com piadinhas e fofocas sobre os outros. Não conseguem ver graça em nada, não relevam as chatices comuns do dia-a-dia, levam tudo muito a sério. Igual ao cara vermelho da mesa ao lado. Os pesos pesados de alma patrulham os outros nos seus gostos e ações, censuram tudo e todos. Eles são pesados porque carregam as dores do mundo nas costas. São da pesada.

Como se já não bastasse a violência, a fome, a miséria, o calor e o trânsito, ainda temos de ouvir  a rudeza de gente como o cara vermelho da mesa ao lado. Gente sem a menor vocação para o sorriso. Levar a vida na boa é algo sem serventia para as almas pesadas. Perguntam como é que alguém pode achar prazer em coisas sérias como o trabalho e a família. Não compreendem como é que se vive sem criar problemas, sem armar barracos e sem gritar com quem lhe presta serviço, quem sabe menos ou quem pode menos. É, porque os pesos pesados de alma são covardes. Só se metem com os mais fracos, mas se borram diante do chefe.

Proponho uma campanha: a do selo pessoa light. Nossa seriedade não se perde se formos mais bem-humorados, se nossos espíritos andarem desarmados. Respeitabilidade e leveza combinam, a despeito do que pensam os obesos de alma. Precisamos exercitar o agir com leveza, sem sofrer com a vida, e ter mais jogo de cintura, de respeito ao próximo. Se nós não deixarmos para sofrer por aquilo que é mesmo trágico e passarmos a vida se maldizendo por causa dos pequenos incômodos cotidianos fica impraticável viver em sociedade.

Todos nós passamos nossos baixos: dor de amor, carteira vazia, angústia existencial. Daí soterrar os outros com seu peso particular já é demais. Segure as pontas e emagreça onde precisa emagrecer: na alma, no espírito, no humor. O mundo fica horrível cheio de homens vermelhos reclamando da carne na mesa ao lado.