religião

Natal e as Redes Sociais

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Fantástico. É isso!

Bola de meia, bola de gude

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Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto balança/Ele vem pra me dar a mão/Há um passado no meu presente/Um sol bem quente lá no meu quintal/Toda vez que a bruxa me assombra/O menino me dá a mão/E me fala de coisas bonitas/Que eu acredito/Que não deixarão de existir/Amizade, palavra, respeito/Caráter, bondade alegria e amor/Pois não posso/Não devo/Não quero/Viver como toda essa gente/Insiste em viver/E não posso aceitar sossegado/Qualquer sacanagem ser coisa normal/Bola de meia, bola de gude/O solidário não quer solidão/Toda vez que a tristeza me alcança/O menino me dá a mão/Há um menino/Há um moleque/Morando sempre no meu coração/Toda vez que o adulto fraqueja/Ele vem pra me dar a mão…

 

Vez por outra na vida é preciso parar para um balanço. Sim, o balanço infantil mesmo, aqueles dos parquinhos. Sentar, jogar o corpo para frente e para trás, simbolizando o movimento do pensamento que, inquieto, vai para trás em busca das compreensões do que já passou e se joga para frente em projeções da vida por vir.

Estou nesse exato momento sentado no meu balanço. O ano está terminando, outro prestes a começar. O que ficou para trás? O que vem pela frente? Enquanto busco impulso, perguntas começam a brotar na minha cabeça com uma fertilidade nordestina.

Na ida para trás, o balanço faz pensar nas escolhas. Foram acertadas? De todas as certezas que tenho hoje, a mais certa é da opção pela minha família. Não falo da família que já está aqui antes da gente. Essa Deus escolhe por nós e, sem dúvida, Ele foi muito generoso comigo. Falo da família que vem depois da gente. Da companheira com quem você divide ônus e bônus dessa coisa doida que é viver. Dos filhos que daí vêm. Minha família é o meu melhor acerto. Andei em descaminhos em outras tentativas, na vontade sincera de acertar. Não deu. Não era para dar para que desse agora. Lapsos, erros, aprendizagem. Quedas. Reerguidas. Quem não?

Olhando para trás, penso em minha escolha profissional. Com o benefício do tempo passado, tenho certeza de que a escolha da profissão é algo que, como diz o lugar-comum, deve contemplar dois parâmetros: a satisfação pessoal e o retorno financeiro. Esses parâmetros vão dançar, brigando pela prioridade, dependendo do nosso plano de vida. Sou absolutamente realizado como professor. Gosto de gente. Gosto de mexer com cabeças. Gosto de fazer a pessoa sair positivamente diferente de alguma forma em relação a como ela chegou para nosso encontro. Sou doutor, estou bem na carreira, tenho certo reconhecimento profissional. Nota dez no quesito realização. Mas hoje vejo que ignorei o outro lado. Escolhi uma profissão que não traz reconhecimento suficiente do ponto de vista financeiro para o investimento de vida que se faz. Eu gostaria de dar à minha família bem mais. Errei no planejamento. Tivesse eu investido na medicina ou no direito, com esse tempo de estrada, estaríamos bem melhor. A essa altura do campeonato não era para eu estar mais dando aulas aos domingos para fazer as contas fecharem. Nota 2. Na média, 10+2/2 = 6.0, eu passo, mas não convenço. Isso tem me incomodado e me inquietado.

A vida vale a pena quando vivemos inquietações diferentes. Não dá é para morarmos nas mesmas inquietações. Então jogo a cadeira do balanço para frente: é preciso mudar, fazer algo. Não sei viver na mesma inquietação perene. Coisas de quem trabalha com a linguagem, sempre nervosa e mutante. No balanço das horas tudo pode mudar. No entanto, não é fácil. É complicado começar de novo quando a mudança tem impactos em pessoas que você ama. Incertezas para si é um a coisa. Incertezas para os seus é outra. O medo, confesso, paralisa. Já ensaiei e refuguei. Já me convenci e me dissuadi. Já me empolguei e me entorpeci. Há uma dúvida que bate como o badalo do sino que se dobra cotidianamente: o dois certo, com frustração, ou um dez incerto, com risco real de um zero? O medo de ir adiante, de abrir essa porta, faz o mundo parar, a vida procrastinar a vida. 2010 foi um ano inerte.

O banco do balanço volta no rumo de trás. Quando estava como subsecretário de Educação de Manaus, vivi a tal da solidão do poder. Só quem passa por isso sabe o que é. Não me peça para explicar. Em um dia particularmente ruim, abri meus e-mails e lá estava um que dizia: “Não deixa que ninguém te cobre mais do que podes dar. Te amo muito e vou continuar aqui no meu cantinho rezando por ti e por tua família. Que Deus te abençoe e Nossa Senhora te cubra com seu manto, te livre de todos os males que apareçam e te proteja contra a incompreensão, a inveja, a mesquinharia… Te amo muito, muito e te desejo toda a felicidade do mundo”. Era de uma tia minha, a quem amo de paixão, embora o corre-corre da vida não nos deixe muito tempo para abraços e beijos merecidos. Ela mandou isso do nada. Do nada, não. Ela, me conhecendo como me conhecia, tendo me carregado no colo, sentiu a necessidade de chegar perto com carinho, do jeito possível. Quem ama tem uma antena poderosa para captar a angústia silenciosa do ser amado. E foi na hora certa, no dia certo. E teve um efeito balsâmico sobre a minha alma chorosa que talvez nem ela saiba, pois só revelo agora. Não seria eu a me cobrar demais? Guardo o e-mail até hoje. Releio-o quando me sinto fraco, errante, debilitado. Ou em momentos de balanço, como esse.

É essa força invisível incomensurável que me faz, junto com a certeza da minha melhor escolha, arranjar mais forças. Daí eu enxugo minhas lágrimas, que insistem em vir mais recorrentes, e dou um impulso para frente no balanço. E me vejo sorrindo, como uma criança de cinco anos que um dia se balançou feliz, sem preocupações, no playground do jardim-de-infância de uma escolinha no Parque Dez, numa imagem achada na memória afetiva. “Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. É essa criança que grita para o adulto de 42 anos: “Empurra! Mais forte! Ainda temos tempo de brincar!”. Preciso fechar os olhos e sentir o vento no rosto… Preciso…

O Papa é pop

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Escrito em 09 de abril de 2005

A partida de João Paulo II tem gerado certas reflexões em mim. Gostaria de dividi-las com vocês que têm a paciência de ler o que escrevo.

Televisão ligada. Um telejornal transmitia uma das inúmeras coberturas jornalísticas sobre a agonia final do Papa, mais especificamente a que mostrava o comunicado oficial de sua morte. Vi uma multidão de fiéis aglomerados silenciosamente na Praça de São Pedro. Rezavam em uma corrente de oração correspondente a umas cem hidrelétricas de Itaupus. Na minha família e entre amigos, vi pessoas tristes com todo o processo do alquebrado fim de vida do Sumo Pontífice. Eu mesmo sofri ao ver o único papa que minha mente adulta registrou esvair-se em dor, estampada em sua face numa imagem que correu o mundo em jornais e capas de revista.

Eu prefiro uma lembrança mais bonita do rosado rosto de Karol Wojtyla. Ela guarda um sorriso dirigido, junto com um aceno, a mim, um menino de doze anos, semi-escondido ao lado de uma árvore. O papamovel passou, o Papa acenou e sorriu. Era 1980. A imagem que mais me tocou e enterneceu, no entanto, levando-me à reflexão que agora faço, foi a de uma jovem de não mais de 20 anos chorando, em silêncio, uma lágrima de tristeza e vazio no momento do anúncio oficial da morte de João Paulo II. Chicobuarqueanamente, seus olhos estavam  embotados de silêncio e lágrimas.

Que relação impessoal e ao mesmo tempo tão pessoal é essa que nos leva a chorar dolorosamente por alguém com quem nunca sequer conversamos? Como explicar esse choro doído da jovem, suas lágrimas pingando no piso frio da Praça de São Pedro, lavando com sua dor o paralelepípedo inerte? Como compreender essa sensação de perda de alguém com quem não possuímos vínculos diretos de relacionamento? Por que eu, um católico infreqüente, me peguei abatido, na varanda, rezando por João Paulo II? Parei pra pensar.

No curso da vida há relações sociais oficiais e reconhecidas: pai, mãe, irmão, tios, tias, primos, amigos de trabalho, namorados, namoradas, conhecidos próximos e distantes. Paralela a elas, há também uma espécie de rol de amor não declarado. São pessoas cuja importância apagamos porque não as percebemos. Invisivelmente fazem parte de nossa vida e de nossa história sem o devido registro nos compêndios de nossa memória declarada. Gente que atravessa nossa existência, influenciando decisões, realizando por nós aquilo que está fora de nosso alcance, representando no mundo nossos pedaços mais fracos. Pessoas cujas ausências revelam as presenças fortes e nos surpreendem pelo pedaço que levam de nós quando se vão.

Ayrton Senna era uma delas. Senna representava o campeão presente em nós, mas desconhecido por nós, brasileiros sofridos sem a infra-estrutura na vida que ele tinha nos boxes. Ele era nós. Ele nos preenchia. Quando se foi, morremos um pouco. Tancredo Neves representava a democracia que nos roubaram. Naquele homem falava a voz de milhões de pessoas que gritavam pelas Diretas-Já. Por isso choramos quando o porta-voz da presidência anunciou em rede nacional sua ida. Os Mamonas Assassinas eram representantes de nós próprios, eram nossa versão moleque. Um lado moleque que as normas e regras sociais da adultidade não nos permitem viver na plenitude sem olhares cortantes de censura. Por isso, ficamos tristes com o desaparecimento do grupo. Com ele, espatifou-se também a forma de realizar o deboche que adoramos e que um adulto não pode fazer sem cair no rótulo do ridículo.

A pouca leitura em psicanálise tem me ajudado a compreender bastante o papel fundamental da falta na importância dos laços. As relações inexplicáveis de que falo ajudam a entender um pouco os fãs, que acham em seus ídolos os espelhos da ausência de si. O Papa representava a fé, a ligação com Deus que não achávamos por conta própria. Sob esse ponto de vista, João Paulo II era um fusível da fé. Sua perda significa a perda da compensação da fé que não consiguimos ter. Quem vai ter fé por nós agora? Quem vai completar e avalizar para Deus o que nos falta? O camerlengo, cardeal que governa a igreja interinamente, não resolve. É uma gambiarra que não tem a história e a memória papal. É um clipe que colocamos para que não se rompa a corrente de energia entre nós e Deus, mas que não vai durar muito tempo. Os fiéis da Praça de São Pedro rezavam por si. Em minha varanda, eu me entristecia pela minha ausência da igreja. A bela e triste jovem chorava por ela mesma.

Ainda que sejam inconscientes, esses processos não possuem um lado só. Há os que privilegiam o lado da rejeição à tradição, a tudo que está estabelecido. A isso chamamos de iconoclastia. “Dane-se o Papa!”, “Os Mamonas morreram? Já vão tarde…”, “O casamento é uma instituição falida”. Essas são frases típicas de um iconoclasta, alguém que ataca os ícones sociais porque ele próprio aceita o reflexo de si no que critica. O iconoclasta está sempre fortemente presente no que ataca, ainda que não aceite e não o saiba. O iconoclasta é um sujeito incapaz de lidar com sua multiplicidade e, mais, com suas limitações só realizáveis por meio de um processo de convivência, transferência e realizações dessas limitações no social, através de pessoas públicas ou não, famosas ou anônimas, fatos, ícones. O iconoclasta não chora, engole o choro. Não vive o luto, vive em luto. Não aceita, se rejeita. Não vive a plenitude da incompletude ontológica do ser humano. Vive a mentira da auto-realização independente. Dialeticamente, o iconoclasta revela seu compromisso com a coisa negada ao negá-la.

O pensador Michel de Certeau dizia que reinventamos o cotidiano. As normas, regras e leis que não podemos mexer nos fazem, pela natureza movente do ser humano, criar o diferente dentro do mesmo. Só que esse mesmo não é o mesmo depois da apropriação individual. Jogamos diferentemente o jogo do xadrez social, possuidor de regras que não podemos alterar. As regras são as do xadrez, mas os movimentos das peças são a nossa apropriação dessas regras, a individualização do social. Crer que o xadrez se joga sempre através da mesma seqüência de movimentos não é jogar xadrez. Há regras, mas há vida. Chutar o tabuleiro em nome de um tudo-pode inconseqüente é igualmente não jogar xadrez. Há vida, mas há regras.

Os nossos movimentos na vida são possíveis através das regras que respeitamos e reinventamos ao mesmo tempo. Há vida e há regras. Entender isso é reconhecer que somos limitados, incompletos e dependentes. É aceitar que necessitamos de ordem para extrapolar limites, para completar incompletudes e para declarar a independência, pelo menos no plano consciente. Essa forma de pensar nos tira do isolamento, nos faz valorizar o outro que nos completa.  Viver a ambivalência nos torna pop, no sentido de seres pertencentes a um espaço social, coletivo, interdependente e diverso. Nesse sentido, o Papa João Paulo II era pop. Quão pop somos nós?

Lá na praia eu deixei o meu barco…

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Texto escrito para o Portal Amazônia

Domingo passado eu iria começar a dar aulas em um curso de pós-graduação. É, domingo. Acordei com minha aula preparada, como sempre faço, e fui dar uma olhada na Internet, com sempre faço também. Tuitei que estava precisando ir à igreja. E fui ganhar o pão.

Chegando à Instituição, havia outro professor esperando para dar aulas para a mesma turma. Houve algum ruído na comunicação e dois professores foram convidados a iniciar naquele dia. Como o outro professor tinha sido meu aluno, ficamos conversando antes da chegada do coordenador, decidimos que ele iniciaria e eu só começaria depois da sua disciplina. O relógio marcava 8:10 da manhã de um domingo. Bateu um estalo: por que não ir à missa?

Estava perto da igreja de Nossa Senhora Aparecida. Foi nessa igreja que meu sujeito religioso fez-se gente. Ali eu fiz catequese, a primeira-comunhão. Ali eu ia às missas das crianças do domingo de manhã. Ali eu aprendi a amar o próximo e me dei conta de que esse universo é muito perfeito para ser obra do acaso. Naquela igreja, embora morasse em outro bairro, está registrada minha vida religiosa de épocas mais intensas. Pausa. Meu perfume de rosas chegou forte. Sua benção, vó. Falar nisso, foi naquela a igreja em que minha vó viveu sua vida inteira.

Entrei, peguei o boletim e os cânticos na caixinha lateral, como fizera milhares de vezes há tempos idos. Sentei. Logo, uma mão macia e conhecida tocou-me o ombro e os cabelos. Era minha mãe, que estava na missa. Como sempre esteve em todas aquelas de que participei. Assistimos à missa juntos. Memórias vieram num fluxo transbordante.

Tive a nítida impressão de que as pilastras da Igreja conversavam entre si. E eu era o assunto. Pilastras que viram um menino descobrir um mundo. Pilastras que testemunharam a construção de meu templo individual. Nossa Senhora e Jesus, nos quadros que ficam de cada lado do altar, os mesmos de minha infância, acenaram e sorriam para mim como se acena e se sorri para um velho amigo. Eu juro. Naquela missa das crianças, com o harmônio ecoando e o coral de crianças cantando, eu me reencontrei comigo criança, sem as angústias e dores da adulteza. Eu comunguei, no sentido etimológico da palavra: comunicar-se, compartilhar. E no religioso também. Limpeza.

E já que estamos falando de religião e fé, confesso de público que tenho sido hoje bem mais cristão do que católico, ainda que assim me identifique ao ser indagado. E confesso que percebo, aos 41, a importância de tantos anos na igreja. Foi ela que me deu alguns dos parâmetros e valores fundamentais para o mundo, que hoje são pilastras da minha subjetividade. Foi a igreja que me ensinou a querer o bem às pessoas e ao mundo. Com a roda-viva, pode-se até perder assiduidade física, mas jamais se perde o valor incrustado na alma. Pode-se até entrar no forte jogo do dia-a-dia, mas quem tem formação religiosa não se esquece nunca da finitude. A leitura da missa falava sobre isso. De que vale tanta correria e acúmulo se no fim dos trabalhos tudo se deixa?

Em “A Psicanálise e o Religioso”, Freud dizia que a religião é para os desamparados. Ele tem razão. Achar que não precisamos de amparo frente à fragilidade, à vulnerabilidade e à efemeridade humanas é de uma arrogância sem tamanho. Alguém me perguntou dia desses no Formspring: como você lida com o discurso cristão presente em seus textos? Eu nunca tinha parado para pensar em como o discurso cristão está presente em meus textos. E está. Porque está na minha vida. É a isso que nós, analistas do discurso, chamamos de Discurso Fundador: aquele que é fundação de nossa personalidade, pilastra de nosso edifício semântico. Pilastras das boas. Como as da Igreja de Aparecida.

Meu desejo matinal foi atendido: fui à igreja. E passei a semana com o cântico da comunhão na cabeça: “Senhor, tu me olhastes nos olhos. A sorrir, pronunciaste meu nome. Lá na praia eu larguei o meu barco. Junto a ti, buscarei outro mar…”. É. Esse universo é muito perfeito para ser obra do acaso. Meu curso só começará em outubro. Fui ensinar naquele dia. Quem aprendeu fui eu. Fui ganhar o pão num domingo. E ganhei.

Anjos eficientes

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Um belo dia um grupo de anjos-crianças dirigiu-se a Deus. Estavam preocupados com o mundo e seus habitantes. Deus explicou a eles que havia dado ao homem livre arbítrio e que, portanto, ele era responsável por seus atos e por levar o mundo por caminhos não tão promissores. Preocupados, os anjos fizeram uma proposta a Deus. Como se sabe, Ele ama a todos os seus filhos e mais especialmente as crianças.

O primeiro anjo disse: “Senhor, os homens na Terra estão precisando ver melhor as coisas. Não conseguem vislumbrar que toda causa gera uma conseqüência. Vou dar a eles, Senhor, a minha visão para que possam enxergar a necessidade de cuidar uns dos outros e do planeta”, disse.

“Estão assim porque não dialogam mais”, afirmou o segundo anjo. “Falam de si, mas são incapazes de ouvir o outro. Pensam no individual e esquecem que ninguém vive só. Pois dou a eles, Senhor, a minha audição. Que com ela os homens escutem o próximo e as vozes da natureza com o coração”.

“Deixa eu lhes ajudar, irmãozinhos, doando aos homens a minha fala. Quem sabe possam conversar mais e superar as dificuldades entre os diferentes. Quero que conversem e se entendam. Permita, Pai, que eu lhes doe a linguagem perfeita que sai de minha boca”..

Um quarto anjo voou para perto e disse: “Além de não ver, não ouvir e não dialogar, os homens estão se arriscando em caminhos tortuosos. Suas pernas os levam por duvidosas trilhas nas bifurcações da vida, muito desgastada pelo corre-corre desenfreado. Consintais, Deus, que eu lhes ofereça as minhas pernas, para que com pernas novas os seus passos possam caminhar por caminhos mais primaveris”.

“Os pobres homens estão com a sensibilidade exposta”, interveio um anjo que acompanhava atento a conversa. “Posso entregar-lhes minhas fibras para que reforcem seu sistema nervoso, protegendo-se assim dos males de seu desequilíbrio. Isso, claro, se o Senhor me facultar fazê-lo”. Deus a tudo ouvia.

Um sexto anjo pronunciou: “Não poderia me furtar a ajudar a melhorar o mundo. Quero entender os homens. Deixe-me, Pai Grandioso, buscar na Terra um cromossomo para ver se melhor compreendo no DNA da humanidade o porquê de tanta guerra, de tanta discórdia”.

O sétimo falou: “Eu também quero ajudar. Preocupa-me o uso descuidado do cérebro humano. O homem já não raciocina direito. Como minha parte, Senhor, quero lhes doar a capacidade dinâmica de meu cérebro. Quem sabe assim as pessoas ajam mais fraternalmente”.

E assim foi: uma multidão de anjos-crianças juntou-se em volta de Deus, cada um com sua oferta, que de tão generosa e altruísta foi prontamente aceita por Ele.

Para quem não sabe, os anjos-crianças vêm ao mundo em forma de bebês. Dos que fizeram a proposta a Deus, o primeiro nasceu cego. O segundo, surdo. O terceiro, disléxico. O quarto, com pernas mais curtas. O quinto, com esclerose múltipla. O sexto, com síndrome de Down. O sétimo, com paralisia cerebral. O oitavo e nono, que não aparecem na história, com autismo e com síndrome de Williams, respectivamente.

Assim, cada criança que nasce com o que os humanos chamam de deficiência é a mais pura manifestação da doação dos anjos por um mundo melhor. Na sua sabedoria, Deus concedeu aos pequenos uma benção em troca de sua entrega: determinou que esses anjos nascessem em famílias especiais. Essas famílias sabem, cada uma delas, do que estou falando. Deus sempre dá um jeito de lhes contar a história de seus anjos eficientes.

Paixão, morte e vida

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Páscoa é passagem. Lembro de minha catequista com cara de boneca Emília me ensinando isso há muito tempo na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, em alguma tarde de sábado da década de 70. Hoje me voltou à memória a frase, conduzida justamente pelo momento, ainda que adornado com ovos de todos os tipos, marcas e sabores.

Então, lembrando a passagem que me veio assim, de passagem, pela cabeça, resolvi sentar e escrever sobre a necessidade de se passar.

Passar exige movimento, movimento exige mudança, mudança exige coragem. Tudo o que é velho nos conforta, nos acalma, nos tranquiliza. O novo, no entanto, apavora. Porque ainda não é mesmo velho, como diz a música. E apavora a mente. Mudar não é fácil. Tem vezes que esguicha sangue de tão doloroso. Mas é tão necessário quanto viver. As dobras de nossa vida são mudanças grandes, decisões que se sobressaltam no fio da memória. Mas quantas são as decisões que tomamos todos os dias sem dar conta? A escolha do perfume, o movimento da escova por entre os cabelos, os alimentos do café da manhã. A roupa que vai cobrir ou despir nosso pudor ou a falta dele. Escolhas, pequenas escolhas que fazem as grandes possíveis.

Mudamos a cada segundo. Fisicamente, rugas surgem, cabelos afinam, gorduras fincam bandeira. Mas mudamos animicamente também. Quem é igualzinho ao que era na semana passada? Ninguém. Por isso, vivemos a Páscoa todos os dias. O que parece que urge é saber-se em Páscoa permanente. A certeza desses movimentos de rotação e translação pessoal assusta a muitos, mas quando aceita sinaliza que a vida chegou ao ponto de contemplação mais do que de angústia. Jovens ardem para se mostrar mutantes, sem saber que já o são. Os mais velhos querem se mostrar serenos e fixos, como se não continuassem mesmo em inércia em direção ao já sabido. É a inquietude do ser humano. É a paixão humana, no duplo sentido do sintagma. Não seria melhor viver de trás para frente mesmo, como Benjamin Button?

Sábado de Aleluia é dia de malhar o Judas. Aqui, controvérsias: o escritor Jorge Luís Borges dizia em um conto que Judas foi o mais cristão dos apóstolos. Ele teria forçado a entrega de Jesus porque tinha a absoluta certeza de que Jesus era mesmo o filho de Deus. Quis criar o fato para ver se Jesus mostrava logo quem era e acabava logo com aquilo. Judas teria sido, então, um incompreendido. É uma versão. A oficial, no entanto, é a de que Judas traiu Jesus, que sabia que ia ser traído, como a mulher de “Mil Perdões” de Chico Buarque. Por isso, malha-se o Judas. Criam-se os bonecos e senta-se o pau neles, geralmente mimetizando alguém que esteja na agenda negativa da população. Como o enfoque do texto é mudanças, podemos entender a malhação do Judas como um processo interno de detonação de algum Judas nosso, de algo que nos trai e nos faz mal. Todos temos segredos inconfessáveis, tijolos particulares que nos pesam o lombo. Aproveitemos a simbologia de hoje e os joguemos fora. Malhemos nossos Judas.

No domingo, a ressurreição. Tem de morrer pra germinar. Plantar n’algum lugar, ressuscitar do chão. Não há gênese sem memória. Morrer é viver para a vida eterna. Lembro-me que a catequista, a boneca Emília, me disse também que a Bíblia não deveria nunca ser lida literalmente. Desde então sempre busquei outros sentidos em tudo que lia. A morte na Bíblia é sempre passagem. A morte na vida também. A morte da inocência, a morte da infância, a morte de amores, a morte da vida. A morte daquele eu que eu não quero mais. Passagens. Páscoas.

Este é o ciclo da vida: a paixão, a expiação de si próprio e a ressurreição. Sofrer, morrer e germinar. É nesse movimento que singramos o mar da existência. Só sofrer é uma escolha triste. Deixa-se morrer é um movimento necessário. Mas germinar, ah, germinar é o ápice. Até a próxima paixão, no reciclo. Seria esse o Graal?

Escolha seu Judas, malhe e renasça. É Páscoa. É passagem. Por onde andará minha catequista com cara de Emília?

Oração de pai pra Pai

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Pai e paiPai nosso que estás nos céus, quem Vos fala é um pai de filhas que estão na terra.

Que santificado seja o vosso nome e santo também sejam o meu nome e a imagem que minhas filhas construam de mim, por minhas ações, atos e também omissões. Sim, às vezes é preciso se omitir de certas práticas nefastas que se nos apresentam no enredo da vida.

Pai, que venha a mim o Vosso reino e que no meu pequeno reino, aqui nessa terra, eu consiga à imagem e semelhança do Vosso, construir castelos de respeito, com fossos para nos separar do mal, do vil, do indigno, do sórdido. E que esse meu pequeno reino seja um reino onde habitem crianças de alegria e júbilo, de paz no coração e de mente sadia. Que nos prados e campinas dessas terras minhas crianças genuinamente fiquem felizes com a felicidade alheia. Crianças que colham flores, que riam com pássaros, que brinquem com as formas das nuvens e, sobretudo, que façam o bem.

Que seja, Pai, feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Que essa vontade Vossa possa guiar-me na terra quando meu livre arbítrio fraquejar, quando minha pequenez humana engasgar nos desafios da vida. Minhas filhas precisam de mim. Os filhos precisam do Pai, bem sabeis. Quando eu chegar ao céu, quero olhar para baixo e para trás na certeza de que nossas vontades coincidiram ao máximo. Vivo dia a dia a esperança que minhas meninas vivam isso. Quero a certeza para segurar as mãos de minhas filhas ao atravessar a rua da vida com que Vós segurais a mão desse Vosso filho. Nesse aperto de mão, se apertam também os laços de amor, de cuidado, de preocupação, de afeto.

O pão nosso de cada dia dai hoje. E dai permitindo que eu vá atrás, que eu o busque. Permita, Pai, que o faça no limpo, respeitando outros pais que igualmente buscam o seu pão de cada dia. Para isso, peço mais: além do pão, dê-me saúde, serenidade, paciência e altruísmo genuíno, sem os quais a jornada diária pelo trigo que alimenta é muito mais árdua.

Perdoai minhas ofensas, assim como eu perdoo a quem me tem ofendido. E seja complacente nesse pedido. Pois se para Vós que sois Pai maiúsculo é fácil perdoar, para mim que sou pai minúsculo é laborioso por vezes desendurecer o coração com os outros, quando esses outros são pequenos, mesquinhos, invejosos, cruéis. Perdoai-me quando não conseguir perdoar. Sei que o perdão prolonga a vida ao expelir a mágoa para fora da alma. Então, Pai, que o perdão seja o desjejum diário de minhas filhas.

Não me deixeis cair em tentação. A tentação do desânimo, a tentação da desistência, a tentação da impaciência, a tentação da desatenção, a tentação da naturalização dos afetos. Minhas filhas compõem-se de cada gesto meu digerido por suas existências. A atenção que não lhes dou é preenchida com outra coisa. O cansaço que me impede de com elas brincar lhes rouba a brita do alicerce da alegria em família. A impaciência no trato com duas pequenas coisinhas, frágeis e dependentes, experimentando e descobrindo um mundo tão complexo, sinaliza uma falta que não posso deixar acontecer. Eu sou responsável por parte do sentido que o mundo terá para elas. Poupe-me das tentações, Pai, para que esses sentidos sejam os melhores no que depender de mim.

E livrai-me do mal. Livrai-me do mal da dor da impotência diante das doenças. Livrai-me do mal da dor do desrespeito mútuo. Livrai-me do mal da dor de falhar como pai. Afasta de mim tudo aquilo que tire das minhas filhas seus lindos e iluminados sorriso de suas bocas. Tudo aquilo que lhes façam se sentir menos gente nesse mundo em que o humanismo é visto como besteira bolorenta. Que o mal se afaste e o bem prevaleça. É o que eu, pobre pai aprendiz, Vos pede, com fé e de todo o coração. Com a certeza de um filho que terá seu pedido atendido. Assim seja. Amém.

Que pastor é esse?

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Tânia Fusco publicou no Blog do Noblat o artigo intitulado “QUE PASTOR É ESSE?”, sobre a polêmica decisão do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, de excomungar a mãe da menina estuprada em Recife que buscou autorização judicial, e obteve, para interromper a gravidez da filha. Também foram excomungados os profissionais de saúde que atenderam a menina de nove anos de idade.
Aborto é pecado mais grave que estupro. É pouco ou quer mais?

Pois essa pérola de insensibilidade humana, tão descolada do espírito cristão, é o presente que Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, oferece às mulheres brasileiras na véspera do Dia Internacional da Mulher.

Diga-se de passagem que o estupro em questão foi perpetrado contra uma menina de nove anos, que dividia a tragédia com a irmã de 14. Duas crianças, a mais velha inclusive é especial. Ou seja, tem também a fragilidade de uma deficiência.

O padrasto estuprador das duas, no entanto, foi qualificado pelo bispo apenas como mais um grave pecador. Já a família da violentada e os médicos que lhe fizeram o humanitário aborto salvador mereceram sumária excomunhão — pecado sem perdão.

Saiba o senhor bispo que as duas coisas são absurdas violências. Mas o aborto, que também fere corpo e alma da mulher, ao menos pode ser uma decisão pessoal. (No caso da menina, nem isso. Porque alguém de nove anos não tem condições sequer de decidir se quer ou não abortar a invasão que lhe gerou fetos gêmeos. Fez por uma decisão médica. Seu útero ainda não tinha maturidade suficiente para suportar uma gravidez. Alguém precisou decidir por ela. Qualquer um com um mínimo de lucidez sabe disso. Menos o senhor arcebispo de Olinda e Recife).

Provavelmente para o senhor Dom José Cardoso Sobrinho também os torturadores são merecedores do mesmo perdão que a Igreja oferece a qualquer pequeno mentiroso. Porque o estupro, caro arcebispo, é uma tortura continuada. Além da indignidade, da dor e da humilhação ainda deixa no corpo violentado o esperma do agressor, que pode resultar na gravidez indesejada, como a da pequena pernambucana.

Gerar, gestar e parir filhos é uma benção da natureza às fêmeas racionais ou irracionais. Entre os irracionais não há o estupro, porque a atividade sexual é conduzida pelo instinto. Com os racionais, senhor arcebispo, o ato sexual tem que ser consensual. Ele pode nem envolver amor e afeto, mais exige o desejo de ambos para não ser agressão, para não ser tortura imposta por um pecador e seu incontido (e perdoável?) desejo animal.

As leis da Igreja ainda consideram o aborto como assassinato. Para parte de nós mulheres cristãs é difícil compreender essa insensibilidade. Mas aceitamos o debate e lutamos para reverter essa posição radical tão distante da realidade. Como decisão e risco pessoal, muitas cristãs enfrentam medo e ameaças e fazem abortos em clínicas clandestinas, sujeitas a toda a espécie riscos, porque a proibição da Igreja não permite que o aborto seja um procedimento médico regular, feito em condições ideais de segurança, higiene, etc.

Essa rigidez da lei católica castiga muito mais as mulheres pobres, senhor arcebispo. Porque as que podem pagar, conseguem fazer seus abortos com bons médicos, com as melhores condições de segurança hospitalar. As carentes, coitadas, vão a aborte iras que, ainda hoje, usam até agulhas de tricô e crochê para provocar a expulsão dos fetos. Muitas morrem nesses procedimentos. Isso acontece cotidianamente pelo mundo afora.

No momento em que escrevo, senhor arcebispo, milhares de abortos estão sendo feitos no Brasil e em todo o mundo. Isso é publico e notório. Só a hipocrisia oficial – santa ou não — ainda se dá o direito de negar a realidade evidente, explicita e dolorosa.

Todas essas mulheres serão excomungadas? Ou só as que tiverem a infelicidade adicional de, ainda por cima, serem vitimas de tragédias que tornem seus casos públicos, como a da pequena inocente de sua arquidiocese?

Aliás, senhor Dom José Cardoso Sobrinho, não ocorreu ao seu espírito cristão que a menina em questão já foi suficientemente violentada para merecer da Igreja da fé, que muito provavelmente ela professa, ainda a crueldade do castigo máximo da excomunhão aos seus próximos?

Seu confessor lhe dará a absolvição para o pecado público de tão distinto tratamento – a generosidade do perdão ao estuprador e a condenação inapelavelmente aos médicos e à família da pequenina estuprada.? Em que cofre foi confinado sua caridade cristã?

Quem será merecedor do Céu: médicos e família excomungados ou tão radical e insensível pastor de almas?

Tânia Fusco é jornalista

Se eu quiser falar com Deus

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Texto de 2002, era de turbulência afetiva. Descobri que você só pode amar desprendido dos amores que se foram. Hoje amo na plenitude porque entreguei o que não era mais meu.

Se eu quiser falar com Deus /Tenho que ficar a sós /Tenho que apagar a luz /Tenho que calar a voz /Tenho que encontrar a paz /Tenho que folgar os nós /Dos sapatos, da gravata /Dos desejos, dos receios /Tenho que esquecer a data /Tenho que perder a conta /Tenho que ter mãos vazias /Ter a alma e o corpo nus/Se eu quiser falar com Deus /Tenho que aceitar a dor /Tenho que comer o pão /Que o diabo amassou /Tenho que virar um cão /Tenho que lamber o chão /Dos palácios, dos castelos /Suntuosos do meu sonho /Tenho que me ver tristonho /Tenho que me achar medonho /E apesar de um mal tamanho /Alegrar meu coração/Se eu quiser falar com Deus /Tenho que me aventurar /Tenho que subir aos céus /Sem cordas pra segurar /Tenho que dizer adeus /Dar as costas, caminhar /Decidido, pela estrada /Que ao findar vai dar em nada /Nada, nada, nada, nada /Nada, nada, nada, nada /Nada, nada, nada, nada /Do que eu pensava encontrar

Uma vez uma aluna perguntou, durante um curso de Introdução à Análise de Discurso, se eu acreditava em Deus. Eu disse que sim. Ela rebateu dizendo que eu estava sendo incoerente com a teoria do discurso. Eu disse a ela que não. Primeiro porque nossa relação com Deus no plano da intimidade não dá para ser explicada por nenhuma teoria. Por isso é fé. Segundo, aí já no campo da teoria que explica o funcionamento de um discurso religioso, o fato de eu saber como é produzido esse regime de verdade não torna essa verdade menos verdadeira para mim. Não sei se ela se convenceu, mas eu estou convicto da minha relação com Deus, relação que andou meio abalada, confesso publicamente.

Andei meio distante de Deus nesses últimos tempos. Usei as desculpas de praxe: pouco tempo, os padres estão chatos, a missa é muito longa e repetitiva, a política me enoja, o Equador vai jogar com a Croácia, enfim, mil desculpas.

Nesse aspecto, Deus é legal, pois Ele não nos força a nada. É como disse há muito tempo o Pe. Cânio Grimaldi, o personal father da nossa família: as coisas do espírito não podem ser obrigadas. Então, se você está a fim de chegar perto de Deus, ser afagado, lá está Ele, tal qual nossa mãe. Chamá-lo de Pai é herança do patriarcado dos hebreus. Ele é mais mãe. Se você se afasta, busca outros rumos, outras prioridades, Ele não reclama. Aliteração necessária: Deus deu a dádiva do livre arbítrio foi para isso. Mas mais cedo ou mais tarde, quem d’Ele sentiu o carinho volta.

Eu voltei um pouco hoje. Um muito. E como um católico básico, um-ponto-zero, voltei porque estava angustiado, perdido, dolorido com as coisas que a vida traz. O católico-padrão age assim: só volta estropiado, feito menino-barrigudo que não ouve conselhos. Hoje eu estava assim. Entre as várias coisas que me ocorreram fazer para minimizar minha angústia, entre algumas opções sensatas e outras nem tanto, estava a de entrar numa igreja e rezar. Entrar, sentar lá no banco de trás e rezar. Visitar um velho amigo. Tomar um cafezinho, perguntar pelos seus.

Parei e estacionei. Nem me importei com o flanelinha pedindo para “reparar o carro”, coisa que geralmente me irrita. Concordei e fui. Na verdade, acabei me convidando para uma missa de 15 anos que estava para começar. Peguei o boletim personalizado que todas as missas de 15 anos têm, ajoelhei meio sem jeito no fundão, deslocando até o menisco por falta de calo. Afrouxei o nó da gravata, dos desejos, dos receios. Calei a voz, e fechei os olhos. Dispus-me a lamber o chão dos palácios e castelos suntuosos dos meus sonhos, como na receita de Gilberto Gil.

Fui muito bem recebido, senti uma paz de espírito que não sentia desde que, ainda limpo da vida suja e mesquinha de cada dia, fiz minha primeira comunhão num domingo ensolarado na Igreja de Aparecida. Parece que Ele estava me esperando. Até a leitura impressa no boletim parecia conter, acima do texto, um post-it amarelinho colado e escrito à mão: “Para o Sérgio”.

A festa era para a Érika, felicíssima, e para mim, tristíssimo. Ela, 15 anos de vida. Eu, 15 anos de ausência. Ok, uma missa aqui, outra ali, Natal, Páscoa, mas nada tão inclusivo quanto à época em que fazia parte do grupo de jovens, da pastoral da música, num ato de nepotismo religioso muito grande do Paulo, meu irmão, que tocava o violão. Eu carregava o violão. Mas carregava com uma fé!

As músicas eram só músicas “do meu tempo”. Ave-Maria do Pe. Zezinho, Renova-me, Fica sempre um pouco de perfume, Utopia. De repente eu voltei no tempo, vi-me criança no catecismo do sábado à tarde. Senti a mão da minha vozinha correndo por entre meus cabelos, sentindo que ela olhava ternamente para mim com seus olhos infinitamente azuis e seu sorriso lindo e contornado por seu batom vermelho que deixava uma cicatriz de amor em nossas bochechas a cada beijo. Era como ela fazia naquelas tardes de sábado. Teria sido um anjo? Minha vó era um anjo. Eu senti, juro. Pensei comigo: “Meu Deus, que paz!”. Alguém respondeu sorrindo: “Eu sei”.

Fiquei ali por mais de uma hora. Não queria mais sair. Entrei pesado, triste, amargo, quebrado, sozinho. Tudo foi-se no primeiro fechar de olhos. Tudo. Olhei lá frente, pois já tinha recuperado a força para erguer a cabeça, e vi Jesus na cruz. Pensei naquele amor todo. Pensei em quão pequeno se tornara meu problema, minha dor, diante de tal resignação, de tal entrega. Resolvi entregar. Resolvi me entregar. Deixar de ser um humano arrogante, racional, e reconhecer que não estava conseguindo e nem iria conseguir. Descobri que minha dor era fruto de meu egoísmo, de eu querer algo para mim, sem pensar nos outros envolvidos. A leitura falava do manjadíssimo “Amai-vos uns aos outros”. Simples, direto. Eu estava no “Amai-me a mim mesmo”. Era esse o nó. Desatei. Desatamos. Desataram.

Renovado, como o pedido da música, dei os parabéns para a Érika, para seu Wladimir e para dona Ivone, os seus pais. Devem estar se perguntando até agora quem era aquele rapaz com olheiras profundas, mas tão feliz. Não tive a cara de pau de ficar para os comes & bebes, apesar da idéia ter me passado pela cabeça.

Saí e, na porta, voltei. Esqueci de agradecer a acolhida. Olhei para Jesus na cruz e agradeci. Olhei Nossa Senhora de Nazaré e vi que ela estava feliz, com um sorriso maroto. Era como se dissesse: “Volta, hein!” Voltarei, sim. Cantei para ela a música do Pe. Zezinho, que também parecia ter sido feita para mim. Prometi que a próxima vez não seria só na missa do aniversário de 30 anos da Érika.

Minha mãe Helena me disse que não há amor maior do que o que os pais sentem pelos filhos. Não tenho filhos ainda, mas amo muita gente. E com uma intensidade mil pontos na escala Richster dos amores. O amor por um filho deve, então, ser um amor muito grande mesmo. Mais uma vez vou com a minha gordinha e vou acreditar nela. Até porque hoje eu senti esse amor, como filho. Por parte dela, minha mãe, e na igreja. E re-aprendi que, diferentemente do que a gente aprende no mundo sem Deus, é preciso dar para receber, que meia bolacha na cara não tem graça, pois é preciso dar o outro lado ao bofete. Que amor é doação. É renúncia. É abrir mão. Como quando você solta uma pombinha pela paz. E paz não é utopia. Não busque explicar tudo isso pela razão. Não dá.

Tal qual Abraão, decidi depois dali oferecer e entregar a Deus algo muito especial, tão insubstituível para mim como seu filho Isaac era para ele. E essa renúncia era a razão da minha angústia inicial. Tinha que fazê-la, mas me angustiava, faltava-me algo. Depois dali, passou a angústia, veio o conforto. Lembrei que fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas.

E o conforto é explicável: o aniversário era da Érika, mas quem ganhou um presente fui eu, o penetra: ganhei minha fé de volta. E que presente. Coisa de pai para filho mesmo.


12 de junho de 2002