Saudade

Amar na ausência

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Há pessoas que amamos e cuja distância física nos machuca. Por isso, penso que momentos com aqueles a quem amamos, que trazemos dentro de nós – ainda que o dia a dia deles nos faça esquecer – precisam ser aproveitados ao máximo. Se você não pode ficar junto de quem você ama durante um ano, fique um mês. Se não der um mês, fique uma semana. Se não der uma semana, fique um dia. Se não der um dia, fique um minuto. Mas fique intenso, olhando nos olhos, ouvindo, segurando a mão. Viva a plenitude da presença. Porque a ausência de quem a gente ama é a regra do mundo. E aprender a amar na ausência leva tempo. E dói muito.

Saudade

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É tão injusto quando as pessoas que amamos são arrancadas de nós pelos arranjos, rearranjos e desarranjos da vida. Pessoas que queríamos abraçar, beijar, sorrir juntos. Ainda que saibamos da impossibilidade de fazer isso todos os dias pelas contingências da vida de cada um, queríamos que elas estivessem sempre disponíveis para suprir nosso desejo quando ele reclamasse por elas. Pessoas queridas que se vão e são separadas de nós por muros construídos por motivos que nos escapam e nem nos dizem respeito. Com cada carreira de tijolo subida pelo tempo, elas ficam mais distantes, com mãos difíceis de serem alcançadas, com seus cheiros sendo levados pelo vento de outros lugares e paisagens. A ordem natural das coisas lhes queria coladas ao nosso peito, mas o mundo nos diz “não” por várias razões. Meus olhos se enchem de lágrimas quando a mente me traz a imagem dessas pessoas, com suas memórias e momentos que dividimos e que, agora, não mais podemos. Perder seus cotidianos é duro. Mas elas serão sempre parte de minha vida, ainda que levadas fisicamente para longe. Elas sempre terão morada em meu coração e no meu afeto porque deles nunca saíram e nem sairão. O vai-e-vem da vida machuca a gente, cruel como um cossaco russo. É preciso aprender a (con)viver com isso para não morrer em vida. Porque saudade dói fisicamente, arde os olhos, murcha a alma…

Detalhes

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Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito tempo em sua vida eu vou viver…/Detalhes tão pequenos de nós dois/são coisas muito grandes pra esquecer/E a toda hora vão estar presents/Você vai ver…/Se um outro cabeludo/aparecer na sua rua e isto lhe trouxer saudades minhas a culpa é sua…/O ronco barulhento do seu carro/A velha calça desbotada ou coisa assim/ Imediatamente você vai lembrar de mim…/Eu sei que um outro deve estar falando ao seu ouvido palavras de amor como eu falei/Mas eu duvido, duvido que ele tenha tanto amor/e até os erros do meu português ruim/E nessa hora você vai lembrar de mim…/A noite envolvida no silêncio do seu quarto/Antes de dormir você procura o meu retrato/mas da moldura não sou eu quem lhe sorri/Mas você vê o meu sorriso mesmo assim/E tudo isso vai fazer você/lembrar de mim…/Se alguém tocar seu corpo como eu não diga nada/Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada…/Pensando ter amor nesse momento desesperada você tenta até o fim/E até nesse momento você vai lembrar de mim…/Eu sei que esses detalhes vão sumir na longa estrada do tempo que transforma todo amor em quase nada/Mas “quase” também é mais um detalhe/Um grande amor não vai morrer assim/Por isso, de vez em quando você vai, vai lembrar de mim…/Não adianta nem tentar me esquecer/Durante muito, muito tempo em sua vida eu vou viver/Não, não adianta nem tentar me esquecer…

Um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada e por muito tempo insiste em viver ali, dentro de nós.

Passado um tempo, a cada esquina o dia a dia nos traz lembranças de um momento de uma vida a dois que se prometeu para sempre. No entanto, a promessa por alguma razão foi interrompida, abortada. Encerrou, mas não acabou.  Porque continuamos esbarrando em cheiros, cores, lugares e pessoas que são máquinas do tempo nos levando àquela época que hoje parece uma dimensão paralela, um tempo de cuja existência esquecemos quando nos pegamos distraídos com a vida. Pegos no susto da lembrança, exclamamos, surpresos: puxa, eu já amei essa pessoa!

Os detalhes tão pequenos de uma trama de afeto são coisas muito grandes para cair no vale do esquecimento. O tamanho de tudo quando se fala em amor não é físico, mas simbólico. Pode caber no espaço de um pingente ou numa aliança tosca de compromisso feita de tucumã. Há detalhes. Aquela história, aquele pôr-do-sol, aquela viagem. Aquela mania, aquela preferência, aquela implicância. O lugar na cama, a tampa da manteiga sempre aberta, a roupa sempre espalhada. Aquele perfume, aquela música, aquele boteco, aquele jeito de sentir prazer. Aquele defeito tão bonito. Como nós não podemos apagar o mundo que circunda aqueles que passaram em nossa vida, os detalhes sempre se farão presentes. Os detalhes moram do mundo, mas pertencem a enredo de dois.

No curso da vida surgirão outros amores. Esses amores novos nos amarão bem menos e pior do que o que se foi. Por isso, amores capengas nos farão lembrar do amor que passou justamente pela intensidade e pela qualidade de tudo o que vivemos e que não temos mais. Alguns outros amores, por outro lado, nos amarão bem mais e melhor do que o suspenso. Esses nos trarão à memória a tristeza da potencialidade não exercida daquele amor que acabou, que não foi tudo aquilo que poderia ter sido. Não tem jeito: a memória é um beco saída. Uma vez dentro, nos encurralamos contra o muro da lembrança. Só tem saudade quem viveu.

Se há uma coisa que constrange o coração é reconhecer em um novo amor a presença de um antigo. Um mesmo hábito, o mesmo jeito de sorrir, o mesmo perfume. A maneira de mexer no cabelo, os movimentos dos abraços ou do quadril… Ou falta de tudo isso. O novo faz assim, mas o antigo fazia assado. Ou cozido. Detalhes. Diz a frase que o diabo mora nos detalhes. Se assim é, o diabo e as lembranças são colegas de quarto. Nos detalhes, a essência do que se foi.

Sabe o que mais dói quando um amor entra em suspensão? É a perda dos detalhes do outro. Perde-se alguém quando se perde seu cotidiano, sua micro-história, suas tristezas e alegrias, que ficam incompartilháveis. Mais: outra pessoa está presente naquele dia a dia que era nosso por direito. Com certeza a vaca ou o babaca está lá com menos afinco do que nós. Outra pessoa está ouvindo frases que eram nossas, fazendo carinhos que deveriam estar vindo de nós e para nós. Humanos pretensiosos, temos a mais absoluta certeza de que o outro que está falando palavras de amor no ouvido que se foi não tem tanto amor como nós tínhamos. Apostamos um dedo polegar em que o impostor não fala do jeito que nós falávamos. É um ultraje esse outro viver a nossa vida, protagonizar os nossos atos, atuar em nossos enredos. Um canastrão qualquer agora encena esse papel que era nosso. Que triste espetáculo!

Detalhes. Arrumando as coisas, uma foto dentro de um livro. No livro, uma dedicatória feita em tempos outros para nós, que já não existimos mais. Como era verdadeira aquela dedicatória… Até a letra era caprichada. Há dúvidas se o cheiro de mofo é do livro ou dos sentidos contidos naquele pedaço de texto. Na foto, um sorriso que preenchia boa parte do nosso dia. Instante de um momento cujas circunstâncias passamos a recordar. Com detalhes. Mas tal qual em “De volta para o futuro”, a companhia da foto está esmaecida porque o futuro não aconteceu por um desvio de rota no passado.

Jogamos fora as fotos, apagamos e-mails e posts, colocamos uma outra foto no porta-retratos. De que adianta tudo isso se o cérebro continua mandando torpedos para o coração? Do que vale trocar as fotos se nas molduras onde há a presença de outra pessoa que lhe sorri, nós continuamos a ver outro sorriso mesmo assim? A lembrança é um espírito obsessor que nos acompanha no carro, no banho, na lua cheia que olhamos, pensando em cenas românticas.

Amores e suores. Delícias de enredos a dois. Se fosse um filme, seria um clássico. Se fosse um livro, seria um best-seller. Se fosse uma música, uma do Roberto. Mas foram-se as histórias. Saíram de cartaz. A vida seguiu e outros amores vieram para beijar nossa boca, lamber nossa carne, tocar nosso corpo. Evitamos falar qualquer coisa no frenesi do balé dançado nos lençóis com o receio apavorante e real de dizer o nome acostumado sem querer à pessoa errada. O breve segundo de consciência sobre quem está encaixado em nós nos tira a concentração. Desesperados, tentamos artifícios para ir até o fim. Recorremos aos olhos fechados para garantir a presença ausente naquele corpo que agora explora o nosso. Por instantes, fingimos acreditar em prazeres novos, nos iludindo em um hedonismo da carne, do sexo e da luxúria, sem sustança afetiva. O sexo é bom. Mas não é igual. É legítimo dublar corpos?

A longa estrada do tempo tem seus caprichos. Ela tende a transformar todo um amor imenso em quase nada, apagando os detalhes, deixando só os rascunhos da história em linhas muito gerais. Quase nada. Mas o quase é mais um detalhe também. É por esse fio de memória que um grande amor se oxigena na história de nossas vidas e não morre nunca. No máximo, fica cataléptico. Dorme para despertar ao seu capricho.

Não, não adianta tentar esquecer. Durante muito tempo os detalhes vão viver. Fato é que tentar apagar detalhes entranhados em nossa carne, em nossa alma, em nossa história é querer apagar uma parte de nós. Não se passa borracha em vidas. Memórias não são retornáveis. Nem devem ser. A antologia universal do amor guarda algumas páginas para os nossos amores. Amores que se foram, é verdade. Mas que deixaram em nós traços de si, nos tornando melhores e nos preparando para outro alguém que tecerá uma vida cheia de mais outros detalhes, feito um manto do Arlequim. É mais prudente guardar nossa caixa de detalhes dos que cruzaram nossas vidas e acarinhar cada souvenir deixado por quem passou do que fingir que não existiu histórias que nos trouxera até aqui. Ciclos precisam se fechar para que outros se abram. Mas não precisam sumir. Se o novo amor exige isso, livre-se dele. Ele não respeita seus pedaços. Ele não entende que nós somos o que nós temos sido. Que amores que passaram e de certa forma ficaram fizeram de nós as pessoas por quem ele se apaixonou.

Porque um amor nunca acaba. Um verdadeiro amor se entranha na gente. Por mais que ele passe no tempo cronológico e os corpos deixem de se encaixar ligando as almas, um amor dos vera finca morada dentro de nós e por muito tempo insiste em viver ali. Em detalhes.

A perda

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QUE TRISTEZA. QUE VAZIO. QUE DOR. A perda é irreparável.  Foi presente da minha mãe. Ninguém faz isso com quem está exilado de sua terra… Cortar os vínculos simbólicos é uma violência injustificada, crime inafiançável, crime ecológico contra a natureza dos afetos à terra natal. Estou vivendo meu holocausto particular, pediram a cassação da minha alegria…

Era só minha. Tão minha. Estava ali, todos os dias, companheira inabalável da rotina. Umas  vezes mais doída, outras menos, mas sempre ali. Nunca se negou a dividir comigo meu prazer, minha dor. Mas com ela a dor era prazerosa, numa contradição justificável, numa antítese permitida. Antes dela tinha tentado algo parecido, campineiro mesmo, mas não deu. Ela era como Tom Jobim, Patrícia Poeta e banho de cachoeira. Ou como banho de cachoeira com a Patrícia Poeta ouvindo Tom Jobim. Não tem igual. Ela é só ela. Nem clonando. E foi minha mãe que me deu… Puxa, que dor… irreparável perda.

Ficava contando as horas, olhando refolhadamente o relógio na sala de aula, esperando o momento de vê-la, de reencontrá-la.  Uma ansiedade de adolescente que vislumbra os primeiros frios da paixão na barriga. Um desejo de tocar sua pele quente, sensações rasgantes e inigualáveis. Só ela fazia isso. Só ela. O pensamento exclusivamente nela me desconcentrava do meu propósito de ter vindo aqui: estudar linguagem, língua. Porque pensar na língua era pensar nela. Não tinha jeito. Ela, língua… ideias…

Hoje cheguei e como sempre fui ao seu encontro na certeza de seu toque quente. Ledo e Ivo engano, como diz o Cony. Só silêncio. Só vazio. Alguma coisa estava errada. Pressenti a angústia por vir como se pressente o pai da namorada chegando de sorrate, namorada cujo seio estamos sofregamente a acariciar o cume. Aquela sensação instintiva de um algo terrível por vir. Olhei. Nada. Tateei. Nem sinal. Onde estaria minha companheira de pecado capital? Que fim levara? Revirei a casa toda. Necas de pitibiriba….

Efigênia!! Só a Efigênia, a eficiente e genial senhora (daí seu nome, creio) que trabalha aqui em casa, poderia me dar pista de seu paradeiro. Afinal, Efigênia, uma alagoana que veio fazer São Paulo, passara o dia todo em casa. Na minha casa. Eu estudando, com o ansiado reencontro com minha criança ressignificando as teorias de aquisição de linguagem, e Efigênia no batente, defendendo o seu, entre panelas e louças. Ela haveria de saber. “Claro!”, sorri por dentro, como diria meu primo Silvio. Mas Efigênia estava em casa àquela altura. Na sua casa. Foi embora antes de eu chegar. Tinha deixado a chave com Chaplin, o porteiro do bigodinho. Dez e meia da noite… será tarde? Incomodarei se ligar? Fiz várias perguntas que sabia no fundo serem retóricas. Claro que ligaria! Tarde nada! Tinha que saber, tinha que saber…

De repente o medo apoderou-se de mim. Uma voz ao fundo, em eco, sussurrava: “E se foi ela, a Efigênia?” Parei a ligação no terceiro número. Enfrento essa mórbida possibilidade? Ligo para aquela que poderia ser a algoz da minha loura, a razão do meu desespero, a Dona Regina do meu painel do senado? Tenho que ligar… sem notícias corria o risco de perder minha própria identidade, virar um sem-identidade. Um rosto na multidão paulista. Talvez até alguns erres retroflexos se apoderariam de minha língua… Língua! Lá volta o pensamento nela. Não! Sou Amazonense, da terra dos barés e dos igarapés. Preciso da minha cabocla. Anoiteceu e eu preciso só saber: onde está você? Já estava começando a cantar Roberto Carlos com a letra trocada, tal meu estado de confusão mental. Enquanto isso pensava se ligava ou não para a Efigênia.

Pensei em recorrer a molibdomancia, mas daria muito trabalho ir ao Aurélio para saber que diabos era isso. Desisiti. “Vou ligar!”, gritei valente. Mas antes de ligar, desci ao térreo do meu prédio. Fui procurar lá embaixo algum vestígio de seu cadáver, algum resto mortal, alguma pista. Pensei em Santa Rita de Cássia. Mas talvez Santa Rita, a das causas impossíveis, não compreendesse. Ela era de Cássia e Cássia fica na Itália e não no Amazonas. Então meti a mão na massa e procurei e chafurdei e futuquei em busca de seu cadáver. Nada. “Nonada”, ecoei na cabeça à moda de Guimarães Rosa.

Liguei. Criei coragem e liguei. “Efigênia, você viu… você sabe…?” Fez-se um silêncio de um segundo infinito e nele passou minha vida, num flash, como nos relatos de experiências de quase-morte. E foi como um choque de 1000 kilowatts! (E ainda por cima, com esse consumo,  vou ter que pagar a sobretaxa do apagão do irresponsável FHC).

Ela sabia. Foi ela. E confessou com uma frieza que atribuí ao clima para amenizar a barbaridade: “Botei fora, seu Sérgio. Mas se o senhor quiser arranjo outra”. Não, Efigênia, não… não é simples assim… é de amor que falamos. E amor para mim não é descartável. É um processo. Já sou um tio Sukita para a galera do “ficar”. Arranjar outra… em São Paulo?! Como? Ela é insubstituível, Efigênia… mesmo sabendo que em São Paulo tem uma ou outra até considerável numa emergência. Mas não dá, não dá… estou abatido, amuado, mofino. Um goleiro na hora do gol aos 47 do segundo tempo numa final de copa do mundo contra a Argentina,  revisitando mais dramaticamente Belchior.

Como, Efigênia, como?! Por quê? Pergunto, sem vislumbrar resposta que me conforte ou anime… Cadê minha mulher, o meu amor, preciso do teu cafuné…. Como, Efigênia de Deus, como é que você pôde jogar fora assim o saco de pimenta murupi que minha mãe trouxe pra mim…

 

 

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

Palavras viúvas

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Para o Aníbal Beça, com poesia.

Aníbal Beça, marido das palavras...Tenho que me acostumar com o inacostumável. Dia 06 de setembro faço 41 anos. Terei, cada vez com mais frequência, a notícia de que alguém se foi. A morte é a única certeza do futuro. Por isso assusta, desafia, inquieta e nos desconforta.

Hoje se foi o Aníbal. Sempre gostei da poesia de Aníbal. Desde quando a conheci, nos anos oitenta, em uma aula de literatura amazonense na faculdade. Depois, nesses ziguezagues da vida, convivi profissionalmente com o ele quando ele foi Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus, na época em que Manaus era mais feliz. O Conselho era ligado à Secretaria de Educação, da qual eu era subsecretário. Vez por outra me reunia com o poeta para tratar de coisas burocráticas. Ou nem tanto. Suas conversas de poeta desburocratizavam a vida, paralisavam o dia, me anestesiavam do corporativismo sufocante da classe. Gordo daquele jeito, Aníbal era de uma leveza…

A admiração pelo escritor, que ganhou vida concreta nessa breve convivência, virou respeito mútuo e um carinho gratuito. Sem muita razão para lhe dar – ele, ao contrário, deu-me sua poesia –, o poeta gostou de mim, gratuitamente, como fazem os poetas. Encontrávamo-nos por aí e sempre com muito afeto nos cumprimentávamos. Passei a receber seus belos poemas como scraps no Orkut, pelo seu perfil hoje cheio de justas saudades. Também os recebia por e-mail. Um deles me tocou sobremaneira. Chamava-se “A primeira falta”. Ela escrevera para sua mãe, dona Clarice, que havia partido. “Colher de pau/Solitária na parede/Onde os doces da mãe?”

A gratuidade do afeto fez com que um dia me ligasse, pedindo meu endereço para me mandar seus livros. Foi em dezembro de 2008. Fiquei envaidecido pela deferência do maior poeta amazonense, para mim sem controvérsias. Recebi os livros com as dedicatórias, cada uma aproveitando o título do livro: “Para o Sérgio Freire, uma incursão à arte oriental pelas Folhas da Selva”, “Para Sérgio Freire, estes 50 poemas escolhidos pelo autor” e “Sérgio querido, eis aqui a Palavra Parelha e outros poemas”. Todos com um desejo também de um “Natal Feliz”. Em outro encontro, sugeriu-me que resenhasse os livros em minha coluna de jornal. Nunca o fiz porque quem sou eu para falar da poesia de Aníbal Beça como crítico? Falo como leitor. Falo com sujeito de linguagem tocado pela sua sensibilidade. “Anúncio” é uma obra-prima: “Há um desejo que me faz cantor/ Há uma paixão saída da sua cor/ Há um amor na contramão da dor”.

Nos “50 poemas escolhidos”, Aníbal abre o livro dizendo “Passei a vida inteira com as palavras. Casado com elas”. É isso. Hoje elas ficaram viúvas. Aproveite os doces da mãe, amigo. Porque “há um amor na contramão da dor” que egoisticamente os que ficam sentem. E também “há uma paixão saída da sua cor”.  Ah, dá licença, poeta… Deixa eu me enxirir para falar da minha tristeza: “Caneta e papel/ Solitários sobre a mesa/ Onde os versos do Aníbal?”…

Um texto antigo para recordar

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O Fusca de todos nós

Saudade do velho Fusca...Hoje dirijo um carro com ar-condicionado, ouvindo MP3, direção hidráulica, vidros que obedecem ao toque de um botão. Escolho o combustível e nem me preocupo com a bateria, que é selada.

O conforto atual, fruto de muita ralação, só valoriza o legado do meu velho Fusca 76. Com um adesivo da K&K no vidro, seu ar-condicionado era o morcego, um quebra-vento que, com o tempo, não quebrava mais nada e fechava sozinho. Para não de morrer de calor, tínhamos de esculpir a habilidade de dirigir com uma só mão para guiar e trocar a marcha. Na arrancada, era necessário segurar com força a alavanca de câmbio ou sair de segunda. Como quase sempre o fisher da caixa-de-marcha estava quebrado, o carro tremia mais do que refém de Talibã. Subir a ladeira da Tapajós ou a do São Jorge, nem pensar!

Com o Fusca, todos éramos um pouco MacGyver. O levantador de vidro era uma manivela de plástico, cuja rosca comia rápido.  Para substituir os mecanismos de sustentação dos vidros, que quebravam sempre, colocávamos um pedaço de pau por dentro do forro para segurá-lo na posição. A direção era macia, sim, mas por causa da sua tradicional folga de ¼. Para fazer uma curva, começávamos a virar o guidom meia hora antes. O som era um toca-fitas Roadstar, de gaveta, que tirávamos e levávamos a tiracolo, exercitando os bíceps. Por causa do tira-e-põe, volta e meia dava problema nos contatos, o que exigia uma batidinha para poder dar contato de novo e tirar o som da fita-cassete. O Fusca era um carro muito individual: só seu dono e mais ninguém sabia dirigi-lo.

A relação de um dono de Fusca com o combustível nunca foi amistosa. O marcador vivia quebrado e prego de gasolina era comum. Ficávamos voando sem o “transponder”, por assim dizer. O exercício mental para calcular o combustível restante era façanhoso. A bomba de gasolina escangalhava demais, graças ao péssimo combustível, comprado dos postos-pirata do São Jorge nos dias de postos proibidos. Era indispensável levar uma agulha no porta-luvas (por onde quase sempre se via o porta-malas) para desentupir o tal do giglê. Soprar a pecinha fazia com que o perfume compulsório dos motoristas de Fusca fosse o pouco chique “Gasoline by Esso”.

Na época dos Fuscas, baterias tinham que receber água, de preferência da chuva. Quando nos socorria dos pregos, meu pai dava bronca por nossa negligência em não pôr água na bateria. Monitorar a quantidade de água nos buraquinhos era dose. E as partes do Fusca, compradas em qualquer biboca? Quem nunca comprou uma longarina, um pé-de-porta ou uma mini-frente que atire o primeiro estribo.

Ter um Fusca era tudo que um jovem queria para exercitar seu lado mecânico. Trocar o cabo de acelerador, o de embreagem, limpar o carburador, brincar com o afogador. Bombear o freio para ele pegar, trocar velas, retirar entulhos do compartimento do banco de trás aos sábados, na lavagem caprichada com mangueira, esponja, cera Grand Prix e estopa, para dar o grau. Deixá-lo tinindo era o programa do fim de semana.

Há coisas que de vez em quando voltam, numa nostalgia saudável. Testemunha de tempos de desvairada juventude, o meu Fusca 76 resolveu me visitar as memórias. Troquei-o com meu primo por uma filmadora depois que o motor pegou fogo pela segunda vez. Um fim melancólico para tanta história bonita, como nas grandes histórias de amor, algumas das quais ele próprio testemunhou.

Um texto antigo para recordar

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SAUDADE

Hoje acordei com saudades. Saudades da minha infância e da casa da minha infância: sua goiabeira, seu banheiro quente, o beliche no quarto dos homens. Saudades de ajudar meu pai a desentupir o ralo com um arame na chuva, de comprar bombinhas na taberna, de lavar o fusca na garagem com a mangueira esticada que fugia do bico da torneira.

Saudade dos meus cães Laika, Pongo, Saussure. Do futebol na rua e dos dedos esfolados no asfalto, a grama dos campos da infância nos anos 70. Saudade das brincadeiras de rua: garrafão, barra-bandeira, cemitério, coquinho-cocão, cangapé, das manjas. Saudade de entrar em casa, já escurecendo, imundo, com cordões de ceroto no pescoço. Saudade d’Os Trapalhões.

Tive saudades bem-comportadas dos amores de minha vida. Ana Maria, o primeiro beijo. A Margareth, que nunca me deu bola, a quem dei o disco do melô do piano em forma de coração no dia dos namorados de 82, em plena Copa da Espanha. Ela, insensível, não amoleceu o coração. Chorei copiosamente. Por ela e pelo estrago que o Paulo Rossi fez em cima do Brasil.

Sinto saudades dos brinquedos: Falcon, Forte Apache, Genius, Professor Corujinha, Espelho Mágico, Ludo. Nós e minha mãe, deitados no chão da sala, jogando dados, criando laços, mexendo os peões da vida. Saudades do jogo de botão aos domingos na Escola Técnica. Pai, como era bom!

E os amigos? Abraão e Moisés no velho grupo Leonilla Marinho. Dia desses falei com o Hiparco, de quem morri de inveja quando pronunciou “siderúrgica”. Não era todo menino que sabia o que era uma “siderúrgica”. E o Aílton, que colocava saúvas para brigar? Com o Aílton cedo tive a dimensão das minhas limitações. Jamais faria certas coisas. Lembro-me com carinho da Carla, a mais bonita da turma. Outros de fé: Ivanzinho Puguinha, Fred Quibe, Mario Blau-Blau e Lindemberg, o eterno representante de classe. No segundo grau: eu, Pedro Paulo e 43 mulheres. Delícia. Na faculdade: Sabá, grande amigo e um dos caras mais criativos que conheci.

Saudade do Globinho com a Paula Saldanha, do Sítio do Pica-Pau, da Família Barbapapa, Tom & Jerry, Pernalonga. Adorava a música de fundo do Pernalonga, que soube mais tarde que era Tchaikovsky. As músicas trazem de volta uma nostalgia gostosa. Jane & Herondi (“Não se vá!”), Vanusa (“Hoje vou mudar, vasculhar minhas gavetas”), Gilson de Souza (“Poxa, como foi bacana de encontrar de novo”). O sax de “Your latest trick” ainda me faz tremer as carnes. Esse povo compõe a trilha sonora da minha vida.

Estou com saudade da minha vó, com seu sorriso adornado pelo seu batom vermelho. Queria seus olhos azuis iluminando o espaço escuro de minhas angústias. Queria sua benção firme fortalecendo minha fé fraca. A saudade é a certeza da presença do ausente. Ter saudade é ter tido vida.

Falei de mim, mas substitua minha casa da infância pela sua, a manja pela brincadeira que lhe fazia suar, a Ana Maria pelo seu primeiro amor, o Hiparco pelo seu amigo que ficou no tempo, Jane & Herondi pelo cantor que aviva a memória, a Laika pelo seu cachorro. Substitua a minha vó pela pessoa de quem à simples lembrança os olhos encharquem. Estique sua mangueira da saudade bem esticada, mas amarre bem o bico para não soltar. Nunca.

SF, 29/09/2002