saúde

Pregos na bunda

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Quando eu era criança,  sentei em uma tábua cheia de pregos. Minha bunda ficou toda furada. Com medo de mostrar para a minha mãe e levar uma bronca, coisa que quase todo dia acontecia comigo, fui tratado pelo meu irmão mais velho, que providenciou band-aids,  um para cada buraquinho. Fui descoberto na hora do banho. Minha mãe viu aquele monte de band-aids e eu tive que me explicar. Ganhei o maior esporro, talvez por eu ser estoporado e não ter prestado atenção na tábua com pregos, se mal lembro.

O motivo não importa. O que importa é que eu podia ter tido tétano ou coisa parecida. A preocupação de dona Helena era legítima. Uma preocupação saudável de mãe. Qual leoa não cuida dos seus filhotes? E quem tem filho feio é a coruja. A tábua de pregos enferrujados enfiados na bunda era, de fato, um motivo de real preocupação.

Dona Helena, no entanto, sempre nos deixou jogar bola na rua, voltar suados, com cordões de cerôto no pescoço. Via seus filhos bebendo água na boca da torneira para se refrescar do futebol, tomar banho de camburão, abraçar o cachorro, rolando com ele na areia. Minha mãe, sem ter conhecimento técnico-científico, compreendeu que era preciso nos expor para que criássemos defesas. E como nós nos expusemos…

Lembrei-me disso ao ler, postada no Facebook, uma matéria sobre uma pesquisa que concluía exatamente isso que a maioria das mães já sabe: expor as crianças ao dia-a-dia ajuda o corpo a criar anticorpos. É um princípio biológico básico que vale para a vida em geral.

Ninguém cria os anticorpos para as dores do amor se não se expõe a ele. Não dá para amar na teoria. Amar envolve se jogar na areia movediça dos sentimentos, com todos os bichinhos que nessa terra fazem morada. Para aproveitar o amor na plenitude é preciso tomar água direto na torneira para se refrescar dos momentos de sufoco. Amar envolve suar, inclui abraçar uns cachorros aí. Não ama quem apenas olha da janela a galera amando. Tem de meter o pé na lama. Ou na jaca.

Não há quem crie os anticorpos contra a maledicência,  derrubação e  falsidade que há em qualquer ambiente de trabalho sem que se exponha ao trabalho. É um pacote. Tem o lado bom e o lado ruim, que coça, dá urticária, deixa doente, com dores de cabeças. A gente vai aprendendo a reconhecer aquela pessoa que é toda-sorrisos e por de trás fala horrores de você. A intuição, com anticorpos, vai delatando aquele colega que sente inveja do espaço que você vai ocupando por sua competência. Vamos criando anticorpos para se proteger dessa gente ruim, criando um campo de força contra a turminha do mal.

O que quero defender neste texto é a necessidade de lidar com o mal, criada pelo design inteligente da vida para provocar o bem. Ninguém quer adoecer, lógico, mas não ter o mínimo de defesa se a doença chegar porque se viveu privado da chance de criar os anticorpos é antinatural. É o princípio das vacinas: expor o corpo a um pouco do vírus ajuda a defender o corpo daquele mesmo vírus.

Eu realmente fico assustado com exageros. Obrigar as pessoas a lavar a mão com álcool antes de chegar perto de um bebê ou não sair com a criança para tomar sol porque o ar pode conter micróbios oportunistas, por exemplo, mais do que proteção da criança demonstra uma insegurança patológica quanto à capacidade de cuidar.  É uma proteção para a insegurança dos pais mais do que um cuidado com a a saúde dos filhos. Em uma atitude egoista inconsciente, acaba-se fazendo um mal tremendo à criança, pois não lhe permite erguer suas barreiras necessárias. Os pais também estão sujeitos à mesma regra: precisam se expor a deixar os filhos viver para criar os seus próprios anticorpos da paternidade. Uma febre é uma aliada e não uma inimiga. São os anticorpos avisando que precisam de ajuda. Perdigotos podem, paradoxalmente, gerar saúde mais forte. Muita limpeza externa pode indicar transbordamendo de uma sujeira interna que precisa de atenção. Ah, o velho Freud.

De vez em quanto me pergunto se não estou superprotegendo minhas filhas a ponto de não lhes permitir viver para aprender. Marina, quatro aninhos, acaba de vir aqui para me mostrar que cortou o dedo na folha do livro de artes. Completou: “Papel corta, pai. A gente tem de ter cuidado quando vai pegar”. Claro que eu preferia que ela não tivesse se cortado. No entanto, não permitir que ela fizesse sua tarefinha no livro por causa da possibilidade de vir a se cortar não me parece uma medida de prevenção razoável e sadia.

Eu vim para o meu terceiro e derradeiro casamento cheio de anticorpos em relação às relação a dois. Aprendi que amor é equilíbrio. Lá e cá. É respeito e admiração. Está no meu conjunto de anticorpos do matrimônio que o amor acaba quando a gente permite que o vírus da indiferença destrua as células da admiração que temos por nossos parceiros. Enquanto cedermos a última almôndega do prato para o outro com prazer, a relação segue firme. Três casamentos foram a minha Tríplice.

A vida é linda, bela. Queremos e merecemos felicidade e paz. Sonhamos e batalhamos para o melhor do mundo para nós e para os nossos. Na hora de dormir, viva o banho quente e o ar-condicionado! Mas viver envolve mais. Envolve correr e suar. Inclui criar cerôto no pescoço, fazer chapinha descalço na lama,  tomar banho de chuva na calha. E, claro, sentar a bunda numa tábua com pregos enferrujados às vezes.

Olhai os lírios do campo

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“Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho”. Assim diz a Bíblia no Gênesis, falando da criação do mundo. Na minha época de catecismo na igreja de Aparecida, havia uma professora catequista cujo nome a memória guardou em algum lugar inacessível. Seu rosto de boneca Emília, no entanto, me é bem nítido. Num daqueles sábados ensolarados, aquela jovem professora me disse que as respostas para todas as nossas perguntas estavam naquele livrinho grosso com um fecho éclair. Aquela frase me pegou de jeito. Naquela época eu achava que as todas as respostas estavam no Manual dos Escoteiros Mirins do Huguinho, Zezinho e Luizinho, sobrinhos do Pato Donald. Das duas uma: ou a Bíblia tinha plagiado o Almanaque Disney ou o Almanaque Disney havia copiado as ideias da Bíblia. Verificando que o livro religioso era mais velho do que o gibi, dei o crédito para Deus, sem no entanto deixar de desejar o Manual, um livro mágico que certamente mexeu com a imaginação de muito guri na década de 70.

Tenho andado meio angustiado e cansado das coisas. Lembrando então da professora catequista, resolvi pegar a minha Bíblia para tentar entender a razão. Fui buscar respostas onde deveriam estar, como prometera a professora. Sendo catequista, claro que ela deveria saber o que estava dizendo. Abri a Bíblia aleatoriamente e fui bater exatamente na passagem que começa esse escrito. Tentei então fazer a ponte: o que Deus queria me dizer com isso? Será que eu tenho que descansar? Descansar do quê, mais especificamente? Fiquei imaginando a época em que a gente podia tirar essas dúvidas diretamente com Deus, como fizeram Moisés e Abraão. “Como assim, Deus?”, “Deus, dá pra explicar melhor esse negócio aí?”, “Ok, Deus, escreve aqui nessas tábuas um resumo do que tens para me dizer e depois a gente conversa para tirar as dúvidas”. Seria mais interessante ouvir a voz de Deus diretamente, sem a necessidade de padres e pastores que a interpretam para nós, sempre a partir de seus anseios e desejos humanos. Fechei os olhos e tentei ouvir a voz de Deus, como Charlton Heston em Os Dez Mandamentos. Queria ser o próprio Pablito Calvo, o menino de Marcelino Pão e Vinho e ficar tête-à-tête com Ele. Como queria falar com Deus, fiz o que manda o Gilberto Gil na música. Apaguei a luz, calei a voz, folguei os nós dos sapatos, dos desejos, dos anseios. E dormi.

Acho que Deus passou, falou e o belezinha aqui dormiu. No entanto, quando acordei já tinha a resposta. A inspiração divina ficou. O Todo – Todo-Poderoso é só para os menos chegados – queria me dizer exatamente o que diz no Gênesis: se até eu que sou Eu descansei, quem és tu, pobre caboquinho pávulo baré, para querer viver numa roda-viva sem descanso, vivendo mais angustiado do que barata de barriga pra cima, zanzando de um lado para o outro, que nem bolacha em boca de velha? Foi aí que Deus se encontrou com Karl Marx.

Marx dizia que é preciso entender como a sociedade se estrutura para poder propor análises e mudanças. Por isso estudou a fundo o capitalismo, elaborando conceitos interessantíssimos que ainda hoje – no capitalismo tardio – vivemos literalmente na pele. Um desses conceitos é a noção de mais-valia. Para quem fugiu das aulas de sociologia, aqui vai um exemplo caricato: um professor recebe xis por uma hora-aula, que é o tempo em que está na sala de aula com seus alunos. Só que para estar lá, ele precisa ler, estudar, preparar a aula, corrigir as provas, etc etc. Esse tempo excedente não é pago pelo patrão. Ele (o patrão) se apropria desse tempo, acumulando esse excedente e transformando em lucro. É a essência do capitalismo: quanto maior a produção e menor o salário, maior será o lucro. “Sim, mas cadê o encontro de Deus com Marx?”, já pergunta um leitor mais ansioso.

A tese de Deus: é preciso trabalhar e fazer bem feito, mas é necessário descansar também, meu filho. A antítese de Marx: no sistema capitalista, parte do trabalho do homem é apropriada pelo outro, companheiro. A síntese do Sérgio: quanto mais eu trabalho, menos eu descanso e mais sou explorado, meu caboco. Alguém vai ficando muito mais rico e eu vou ficando bem mais cansado. Por sua vez, o cansaço atinge não somente o meu corpo, mas também minh’alma, para usar uma contração que tem um charme religioso. Que faço eu? Deixo de trabalhar, então? Deus, o que fazer? Recorri à receita de Gilberto Gil de novo: deitei e esqueci a data, perdi as contas, tive as mãos vazias e pus a alma e o corpo nus. Dormi de novo, na esperança de que a resposta me fosse dada.

Essa técnica do Gil funciona mesmo. Ao acordar, tinha na cabeça a ideia que buscava. De início veio uma frase surrada: “O trabalho é importante e dignifica o homem”. Além disso, é o trabalho que garante o toddynho e o croissant com provolone do papai aqui. Então não posso deixar de trabalhar. A bem da verdade, nem quero. Gosto muito do que faço e já escrevi sobre isso. Mas preciso olhar com mais cuidado para minh’alma. E para dar uma boa guaribada em minh’alma, eu definitivamente preciso descansar. Descansar não significa dormir o dia inteiro. Descansar é esquecer do trabalho, mas lembrando das pequenas grandes coisas da vida. Abri de Bíblia de novo e ela me diz, em Eclesiastes 3, que “há um tempo para cada coisa na face da terra. Comer, beber e gozar do fruto do trabalho é um dom de Deus”. Juntando Marx e Deus de novo, decidi que vou trabalhar somente nos meus dias e horários de trabalho (essa é minha colaboração contra o capitalismo, companheiro professor), portanto fazendo o meu trabalho ser mais bem pago. Vou usar a experiência para tentar fazer mais em menos tempo. No tempo da mais-valia, apropriado por meu patrão, vou comer, beber e gozar o fruto de minha lida do horário trabalhado e efetivamente pago.

Portanto, já decretei: não mais trabalho aos domingos e feriados. Nesses dias, quero encontrar a minha família, rir com meus irmãos, espairecer com meus amigos, cafungar a minha mulher. De segunda a sábado, tudo bem, batente. Mas domingos e feriados são dias de descanso. Descanso junto à família, aos pais, irmãos, amigos, cônjuge, gato, o escambau a quatro que não seja ligado ao trabalho. Chega de ouvir minha mãe reclamando que ando sumido, meu pai mandando recado dizendo que está com saudade, como se vivêssemos em países distantes. Esse tempo precisa ser recuperado. É tempo para rir, se divertir, ver um filme de Chaplin, ouvir a coleção inteira do John Lennon, tomar café da manhã na estrada, jogar boliche, ler Florbela Espanca, coçar o saco, que seja. É tempo de tomar um banho na piscina do condomínio caro que pago e raramente uso porque tenho que trabalhar em casa. Isso já me rendeu até uma bronca do Roberto, o porteiro do meu prédio: “Seu Sérgio, aproveite seu patrimônio. Vá pra piscina, seu Sérgio…” Agora decidi mesmo: quero esquecer completamente as pequenezas e picuinhas do trabalho. De preferência de bubuia na piscina. Quero ler um livro sem culpa pela pilha de trabalhos para corrigir, sem ficar angustiado pela prova que ainda tenho que elaborar ou por aquele parecer sobre aquele processo que eu preciso dar.

Arrisco dizer que esse mundo véio sem porteira seria bem melhor se as pessoas ouvissem um pouco mais a Deus e a Marx. A Neila, a menina que limpa e arruma aqui em casa, me disse sobre o assunto em questão: “Seu Sérgio, o trabalho existe para nos ajudar a viver. Viver para o trabalho é inverter a ordem das coisas. É uma questão vetorial. Se nós não invertêssemos as coisas, não precisaríamos tanto de analistas e psicólogos, de Dorflexes e Lexotans. Não reclamaríamos tanto de falta de tempo para conversar com nossos queridos e seriamos certamente menos estressados. Teríamos filhos mais bem educados, seríamos menos neuróticos e mais tolerantes. Teríamos uma vida qualitativamente muito melhor e menos belicosa”. Pare aí e pense, leitor querido: a Neila tem ou não tem razão? Você trabalha para viver ou vive para trabalhar? Você permite que seu patrão se aproprie do tempo em que você deveria estar com sua família para que ele possa cada vez mais usufruir a dele? É justo isso? Você entra mesmo nesse jogo capitalista de corpo e alma? Avalie seriamente essa questão, reflita e me mande um e-mail. Aposto minha coleção de corujas que a maioria das pessoas vai reconhecer que veste demais da conta a camisa da empresa para a qual trabalha, despindo necessariamente para isso a camisa de outros times, entre as quais a do família e amigos.

Para mim, a mensagem foi clara como a luz do sol, clareira luminosa na escuridão. Trabalho é trabalho. Deve ser bem feito e caprichado. Descanso é descanso. Deve ser bem feito e caprichado. Agora é trabalhar isso na minha cabeça. Melhor dizendo: melhor é descansar minha cabeça do excesso de trabalho. Desligar. Puxar momentaneamente o plugue. E olhar os lírios do campo. Para entender como lidar melhor com o trabalho em uma sociedade como a nossa, sinto a necessidade de reler Marx. Para lidar com o cansaço d’alma, nada como ouvir a voz silenciosa de Deus. Ainda tem gente que acha que esses dois não combinam. Bom, vamos dar um desconto. Certamente essas pessoas devem estar estressadas e já não veem as coisas tão facilmente. Estão precisando descansar. Amém, companheiro.

22 de abril de 2004

A metamorfose

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[Texto escrito em fevereiro de 2001, na época em que escrevia crônicas]

No início do ano passado, surgiram umas pintinhas em uma parte íntima de meu corpo. Pois é. Agora você deve imaginar o porquê de tanta relutância para eu escrever sobre o…o…como chamá-lo?…o…vamos chamá-lo de Klebson, o meu menino.

Em dezembro, onze meses mais tarde, depois de muita insistência da patroa, decidi ir ao urologista. “Ao”, não: “à” urologista. Sim, porque filho de seu Jefferson não deixa outro barbado pôr a mão em algo tão pessoal assim. Pode ser besteira, mas raciocine comigo: um sujeito que dentre milhões de profissões escolhe essa… aí tem… Não. Prefiro uma tarada, sem preconceitos. Pegamos o livrinho do plano de saúde e verificamos o nome de urologistas mulheres em Campinas. Escolhi uma chamada Eliana de Paula. Nome de urologista. Eliana e Klebson. Um belo par, um bom começo. Casal de novela mexicana. E o que estava por vir não seria muito diferente disso.

Minha mulher foi comigo, dando o apoio moral de sempre. Chegamos no consultório da Dra. Eliana, depois de enfrentar uma chuva torrencial. Na porta, uma plaquinha: Eliana de Paula, urologista & Gilberto de Paula, ginecologista. De cara entendi tudo: conheceram-se na faculdade, namoraram, noivaram e, na hora de escolher as especialidades, ele escolheu gineco e ela, por vingança, uro. “Tu lá e eu cá, nego véio”, deve ter pensado.

Entramos e fui prontamente atendido por uma senhora de uns 180 anos. A velhinha, coitadinha, era secretária dos médicos. Escrevia devagarzinho e com aquela letra quadrada de quem aprendeu nos velhos cadernos de caligrafia da década de 20. Ao fundo, contrastando com a cena matusalênica, rolava em um hi-fi multicolorido na estante a jovial Jovem Pan, tocando disco music bate-estaca, que em nada parecia incomodar a idosa senhora. Quando falei com ela e disse que tinha consulta com a Dra. Eliana, ela disse: “hein?”. Por isso a disco não a perturbava, concluí. Era meio surda. Gritamos um com o outro por uns cinco minutos, tempo suficiente para ela anotar meus dados pessoais e pedir para eu aguardar que eu, logo logo, “iria estar sendo atendido” pela médica. Apesar da idade, Dona Juventina não deixava de usar o dialeto comercial, o tal infinitivo-gerúndio.

Fiquei ali, torcendo para não chegar mais ninguém. Ora, quem chegasse saberia o porquê de eu estar naquele consultório. Fiquei escondido atrás de uma revista Nova, que devia estar ali para as pacientes do marido da Dra. Eliana. Dona Juva me chamou, olhei para minha mulher, ela olhou para mim com uma cara de quem diz “cuidado!” Nos despedimos.

“Com licença?”

“Pode entrar, Sérgio”.

“Tudo bom, doutora?”

“Tudo bem. E você?”

“Bem”.

“…”

“…”

“…”

“…”

Um minuto de silêncio. Parecia jogo de futebol quando alguém morre. Como quebrar o gelo com uma urologista? Procurei um manual na Internet, revirei o Google, Altavista, Yahoo…Mas não achei nada. Um silêncio constrangedor.

“Pois é”.

“Então?”

“Então é…”

Aí ela disparou:

“O que lhe traz aqui?”

“Meu pinto, ora”, pensei em responder, mas só pensei.

“Sabe o que é, doutora Eliana…é que apareceram uns sinalzinhos no…no…”

“… pênis”, completou ela, à queima-roupa, referindo-se ao nome científico do Klebson.

“Isso”.

“Há quanto tempo? Um mês, dois?”

“Mais”.

“Três?”

“Mais”

“Seis meses?!”, perguntou já meio indignada com minha falta de companheirismo e compaixão com o Klebson.

“Mais…”

“Quanto tempo, seu Sérgio?”

“Um ano”, disse eu com um volume inversamente proporcional àquele utilizado com Dona Juva, minutos antes.

“Um ano!!!!! E você esperou todo esse tempo para vir aqui?!”

“Desculpa, é porque a minha mulher…”, tentei jogar a culpa na esposa, mas ela me cortou.

“Ai, ai, ai. O que você faz?”

“Como assim?”, perguntei desconfiado com a confiança dela.

“Profissão! Qual sua profissão, Sérgio?”

“Ah, bom…sou professor. Faço doutorado aqui na Unicamp. Sabe como é, muita leitura, resenhas, artigos, trabalhos, seminários, teses…pouco tempo, pouco tempo”, busquei cumplicidade, sem conseguir muito sucesso.

“Vamos ao ambulatório dar uma olhada”, falou a médica, sem saber que havia disparado em mim um constrangimento pelo qual, de alguma forma, eu já sabia que iria passar.

“É por aqui. Tire a roupa e ponha a bata azul que está pendurada atrás da porta. Vista com o buraco para frente”.

Tirei a calça, a cueca (lembrei a história da cueca limpa para casos de acidente que mães e esposas adoram contar) e vesti uma batinha azul, como manda o figurino de um paciente fashion. A bata realmente tinha um buraco bem na direção do Klebson. Era uma bata tipo lençol de virgem em noite de núpcias nas eras passadas. O noivo não vê nada, só comparece pelo orifício no lençol e tal. Fui até a maca, sobre a qual a doutora me mandou deitar, sob a luz de um holofote imenso. Klebson, coitado, apesar do calor da lâmpada, se comportava como se estivesse sob o duríssimo inverno da Sibéria. Todo encolhidinho, tímido, acanhado e medroso, se tremendo todo, olhando para mim, pedindo proteção. Um soldado raso, se comparado ao grande general de grandes batalhas que sempre fora. Covarde, não consegui olhar para ele, pois coloquei o braço por sobre os olhos de vergonha. Foi quando a médica conseguiu pinçá-lo e, para quebrar o gelo, começou a falar de pós-graduação, mudança, Manaus, Belém (ela era de lá e torcia pelo Payssandu) e sei lá mais o que. E eu só “humm-humm”, “é mesmo”, “pois é”. Até que ela entrou no mérito da questão:

“Realmente tem uns sinais aqui. Um, dois, três, quatro no corpo. Tem um…”

“…no crânio”, me antecipei para mostrar que sabia do que estávamos falando.

“…na glande”, disse ela, traduzindo. “E outro no…”, ela deu uma pausa esperando eu dizer “saco”, só que eu não disse.

“…escroto”, completou ela então.

“Também acho, doutora. Muito. Isso é lugar de nascer sinal! Que coisa mais…”, foi aqui que percebi que “escroto” não era “escroto”. Perguntei pelo Jader Barbalho e pela Dona Tomásia, uma amiga nossa lá de Belém, mulher do seu Manezinho, que fazia uma maniçoba da boa. Quanto ao Jader, ela disse “Vixe!” e quanto a D. Tomasia ela não conhecia. Continuou a falar do Klebson.

“Vamos ter que cauterizar”, disse ela babando com a novidade. Devia adorar cauterizar… No dos outros é refresco, pensei, esquecendo que no dela não podia ser.

“É, né…”, disse eu, disfarçando um “CARACA!” que passava pela minha cabeça. A do cérebro. A do pescoço. A da boca. A das orelhas, pronto!

“E temos que mandar para biopsia também”. “Biopsia”… Que palavra mais assustadora. “Biopsia” e “furúnculo” são as palavras horríveis. Só perdem para “carnegão”. Bio é vida, lembrei-me da aula de ciências da professora Verônica Abugouche, na quinta série. Haveria sinais de vida nos sinais do Klebson?

“Por quê doutora?”

“Não é por nada, não. É só para ver se não é DST”.

“DST! Peraí, doutora! Assim a senhora me ofende. Sou monogâmico. Trouxe até minha mulher aí fora. Pode perguntar para meus amigos, meus irmãos. Só não posso trazer testemunha porque jogaria toda minha defesa por água abaixo. Quem a senhora pensa que eu sou?”, pensei.

“E pode ser DST, doutora?”, perguntei agora em voz alta.

“Pode. Pênis tem cabeça, mas não tem juízo. Mas acho que é um tipo de dermatite. Mas não custa nada verificar, né?”

“Não. Só custa a minha dignidade de marido fiel”, pensei de novo.

“Pode se trocar”. Obedecemos e fomos. Eu e o Klebson.

No consultório. “Volte semana que vem para cauterizar. Marque lá com a Dona Juventina o dia.

Fui e voltei. Dessa vez de bermuda (e cueca sempre limpa, claro. Que Deus me livre, mas sempre pode acontecer um acidente…). Mantive meu diálogo de louco com dona Juva e entrei.

“E aí, vamos lá?”

“Vamos!”, disse eu, com a confiança de quem conhece o lugar e o procedimento. Já fui direto na batinha do buraco. Mal sabia o que me esperava.

“Deite como da outra vez. Vou dar uma anestesia. Quer anestesia, não quer?”

“Claro! E há quem não queira?!”

“Tem doido pra tudo…Vai dar uma picadinha”

“Metapicada”, pensei malicioso.

“UGHHH”

“Doeu?”

“Não… que é isso… magina”, falei como quem toma injeção no pênis de segunda à sexta, desde os dois anos de idade.

O Klebson desmaiou. Anestesia geral no rapaz. Largado, parecia um bêbado. Só ouvia os TSSI, TSSI, TSSI e o sentia o cheiro de carne queimada. Parecia uma vaqueira marcando gado zebu.

“E o Payssandu, hein, doutora? Perdeu pro São Raimundo na Copa Norte”, puxei papo furado, sem saber que alguns meses depois o Payssandu estaria prestes a roubar o tetra do Tufão na Copa Norte.

“Acontece…”, disse ela, sem cair na provocação amazonense. “Esse eu vou cortar com bisturi e mandar para a biopsia”. ZIP! Klebson nem gemia. Necas de pitibiriba, nem um pio do pobre pinto.

“Para o do crâ…da glande, eu vou ter que dar outra anestesia”, se corrigiu em tempo.

Meu amigo. Se alguém não sabe qual é a pior do mundo, eu posso dizer. Uma injeção na glande do pênis. Dada por uma paraense! Vocês acreditam que passei por isso? Dói, dói muito. Dói mais do que separação, mais do que bolada no saco (ou nos seios, para se ter um referencial feminino também), mais até que saudade da família. Uma anestesia intracraniana peniana. Só o nome não arrepia? Só uma coisa dessas para conter o tempestuoso Klebson…

“Tá sentindo algo?”, disse ela dando petelecadas na cabeça do pobre empalidecido, como se fossem cascudos em um moleque travesso.

“Tô tintindo nada”, falei, imitando o pintinho da piada da maconha.

ZIP!

“Pronto! Deixa só eu fazer um curativo. Pode se vestir”.

Quando olhei, Klebson era o próprio Tutakamon. Com seu manto de esparadrapo. Uma múmia. Coitadinho. Vesti a cueca (limpa, nunca se sabe o que o destino nos prepara!) e a bermuda, suas mortalhas. Ficou um volumão, bem maior do que o que costuma ser, modéstia à parte.

“Tome. Leve esse frasco aqui para a biopsia. E nada de sexo por duas semanas”. Era a mesma coisa de um ortopedista falar para alguém que quebrou os dois braços e as duas pernas:  “Nada de natação, seu moço!”…

“Minha mulher vai viajar para Brasília amanhã, doutora. Fique tranquila. Foi tudo milimetricamente planejado”, respondi, reafirmando minha fidelidade com uma piscadela safa.

“Tá bom. Quando tiver o resultado, volta aqui”.

A patroa se assustou com o volume. Perguntou o que acontecera lá dentro, já meio enciumada. Disse que nada de anormal. Só fui esquartejado, furado e encapado. Só. Quando mostrei o múmia para ela, ainda no elevador, seu ciúme virou deboche. De quem eu esperava apoio, olha só…

Voltei com o resultado da biopsia. Depois dos gritos de praxe na sala de espera, entrei.

“Olá, como estamos?”, perguntou a médica já incluindo Klebson na conversa.

“Estamos bem. Duas novidades: os sinais retirados deixaram umas marquinhas brancas e o Klebson mudou de nome: agora se chama Pongo, o dálmata. Metamorfoseou-se. Fora isso, um xixizinho aqui e outro ali. Vamos levando”.

“Normal. Depois as manchinhas somem e volta tudo ao normal. Deixa ver o resultado da biopsia…Ummmm”, gemelhicou ela ao ler o exame. “Normal. Não é DST, não, pode ficar tranquilo”.

Tranquilo eu estava desde quando surgiram as pintas no pinto. Mas achei por bem não polemizar com alguém que talvez venha a estar outra vez diante do Pongo com um bisturi na mão.

“Que bom”, disse eu. “Posso ir?”

“Pode. Agora está liberado”.

“Então tchau, doutora. Gostaria realmente de dizer que foi um prazer, mas…”

“Tudo bem”, disse ela compreensiva. “Cuidem-se”.

Check-up feito, orgulho restabelecido, partimos. Não sem antes dar um adeusinho, eu, e um latido, o Pongo, de despedida para a simpática Dona Juva, que não nos ouviu, claro…

Afônico

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Não posso falar nada. Estou afônico.