Sexo

Quatro tons de Branco

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Eu acreditava que nunca mais iria gostar de alguém. Todo mundo quando está arrebentado de amor sempre acha que o coração não tem a capacidade de se regenerar e remendar os tecidos necrosados. Aí ou a gente vai para um ostrismo, toda fechada para o mundo, ou parte para explorar as possibilidades. Eu tinha entrado naquela fase de curtição, em que o limite é o prazer e não o afeto. Nessa fase, a regra é escolher alguém que mexe com você, no bom e no mal sentido.

A pauta era uma entrevista com um secretário de Estado. Dividir minha vida amorosa de franco-atiradora com a loucura da profissão de jornalista passou a ser a receita para manter a sanidade depois que ele se foi daquela forma abrupta naquele acidente.

– Toca pra Ilha da Fantasia, Cabeça.

Ilha da Fantasia é como, nós, jornalistas, chamamos o condomínio mais chic da cidade, onde moram vários políticos, empresários e mais uma dezena de pessoas que dividem o glamour das páginas sociais com o segredo de justiça dos inquéritos da Polícia Federal.

– Por que na Ilha, Fernandinha?, perguntou o Cabeça.
– Vai ser na casa dele. No escritório da casa dele. Foi a condição para ele dar a entrevista. O Kraken disse pra gente ir lá, a gente vai lá, Cabeça. Um dia quando tu fores editor, tu mandas. Por enquanto tu és o motorista. Obedece e pisa aí.
– “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
– Tu e tuas frases originais… Registrou essa? Alguém pode roubar…
– A sabedoria popular sabe das coisas, bebê…

Ele me esperava no escritório da casa. A casa tinha uma garagem com quatro carros estacionados. Uma SUV BMW branca chamava atenção. Ao entrar ali, caí na real quanto à desigualdade de distribuição de renda no país. Tem gente que é muito rica. São muitos mundos muito diferentes em um mesmo país. Confesso que tenho uma raiva ressentida dos muitos ricos. Sempre trago na cabeça o que meu pai me disse um dia: há um teto salarial para gente honesta. Mais do que aquilo, só pisando nas pessoas ou jogando valores no lixo. Parece que é assim mesmo.

– Bom dia!, eu disse ao entrar no escritório. Havia um quadro de Frida Kahlo e um de Picasso. Imitações, claro. Aquelas sobrancelhas de Frida sempre me deram arrepios, preciso confessar.
– Olá, entre. Estava lhe esperando.

André Branco, uns 40 e poucos anos, meio grisalho, vestindo uma camisa polo preta. Era o secretário da minha pauta. Ele me cumprimentou com dois beijinhos. Foi estranho. Sempre olhei para aquele cara com a ojeriza de militante de esquerda. Mas a iniciativa foi dele e não tive muito como evitar.

– Posso fotografar o lugar?
– Claro. À vontade. Vocês não andam mais com fotógrafos?
– Redução de custos. A gente joga em todas. Depois que inventaram o videorreporter…

Enquanto fotografava, o perfume dele, que ficou colado em mim, me desconcentrava. Era francês, eu tinha certeza. Fiquei com vontade de perguntar o nome, mas não combinava nem com o momento e nem com a tarefa para qual eu havia sido designada. Era do tipo de perfume que a gente sente e tem vontade de comer a pessoa que está usando. O perfume certo na vulnerabilidade adequada pode render bons caldos.

– Quantos anos você tem?
– Isso não se pergunta a uma mulher, secretário.
– Kouros. Yves Saint Laurent.
– O quê?
– Meu perfume. Você não consegue disfarçar que gostou dele. Quantos anos? É justo. Uma informação para cada.
– Vinte e dois. Bom, tenho umas perguntas a lhe fazer. Podemos? Posso gravar?
– Claro.
– O senhor está sendo acusado de fraudar uma licitação na sua secretaria. O que o senhor tem a dizer sobre isso.
– Não há fraude. Tudo foi feito dentro da lei. O que houve foi uma dispensa de licitação porque a empresa que ganhou o serviço era a única com capacidade técnica atestada. O problema é que as pessoas não entendem e quando se fala em ‘dispensa de licitação’ acham que isso é ilegal. Lei 8.666. É só ler.
– Mas na denúncia apresentada pelo Ministério Público…
– O Ministério Público quer ser mais real do que o rei. São administradores frustrados que querem administrar pelo executivo. Até hoje eles não entenderam direito qual é a função deles. Você é uma jovem repórter. Sabe qual é a sua função no jornal. Se quiser fazer a função de outro, cujo conhecimento técnico não possui, não vai dar certo, entende?

Achei que foi uma indireta para a função de fotógrafa.

– Segundo a denúncia do MP, a empresa é de um primo seu.
– E qual é o problema? Era a única empresa com capacidade técnica para fazer o que tinha de ser feito. Eu vou prejudicar a população porque a empresa é de um primo? Besteira. Seu nome é Fernanda, não é?
– Sim.
– Então, Fernanda. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto.

Ele falou aquilo olhando nos meus olhos. Aquele homem não chegara aonde chegara à toa. Ele sabia o que dizia. Ele sabia convencer. Ele era um homem bonito. Já não me parecia um monstro abominável do capitalismo selvagem.

A entrevista continuou. Ele respondeu tudo com segurança. Saí meio que convencida.

No carro, Cabeça perguntou se tinha ido tudo bem. Eu disse que sim e fomos adiante. Tinha outra pauta. Era sobre o aniversário da cidade. Um historiador da universidade. Gente chata. O cara já tinha desmarcado duas vezes.

– Vamos para a Universidade, Cabeção. Ver se dessa vez rola.

– “Água mole em pedra dura…”

Não sei dizer a razão, mas aquele cara não me saía da cabeça. Fui fuçar para ver se ele tinha Facebook. Tinha. Era casado. Mulher bonita. Dois filhos. Um casal. Fotos em Chicago, em Veneza, Paris. Torcedor do Botafogo. Acho que um dos cinco da cidade, que vão pro estádio numa kombi, pensei comigo, o sacaneando mentalmente. Ri sozinha. Alice perguntou quem era.

– Quem é o quê?
– Me poupe, Fernanda. Eu te conheço. De quem é esse perfil do Facebook aberto aí.
– Virou advinha agora?

Fato é que Alice me conhecia como ninguém. Minha amiga, confidente, cúmplice. Contei a história para ela.

– Furada. Tu sabes. Casado é rolo.
– Ele nem sabe de mim… quer dizer, nem sabe que estou stalkeando ele.
– Cara, eu te apoio em tudo. Mas se tu se meter nessa, tu tá sozinha…
Depois que voltei da casa da Alice, fiquei pensando. Fiquei tentada a ligar para ele. Ele me deu o cartão com o número do celular anotado à mão. Resolvi mandar uma mensagem.

– “Olá. Aqui é Fernanda, do jornal. Preciso de informações para fechar a matéria. Aguardo retorno.”
– “Olá. Aqui é Branco. Quando quiser. E onde quiser…”

Caraca. Por essa eu não esperava. “Onde quiser…”! Reticências. Reticências são malvadas. Reticências contêm o mundo. Comecei a gostar do joguinho.

– “Eu escolho o lugar? Perigoso isso…”
– “O perigo dá o tom da vida… Me ligue amanhã à tarde e combinamos.”

Passei a noite olhando para o teto do meu quarto e pensando em algumas coisas. Pensei sobre a regra de ouro de nunca ir para a cama no primeiro encontro. Pensei em todos os conselhos para nunca se meter com homem casado. Pensei na ameaça explícita da Alice. Pensei no desejo que aquele homem me desperta. Pensei na tensão. Pensei no tesão. Pensei na transa. Pensei muito na transa. Minha imaginação dirigia o movimento dos meus dedos por baixo do edredom. Olhos fechados, viajei na sua presença dentro da minha imaginação, dentro de mim. Definitivamente eu o queria. Se ele fazia isso comigo só no desejo, imagina no jogo de corpos. Dormi leve como uma nuvem.

“Oi, quero você.”

Send. Dane-se. Vamos ver o que rola. Nem esperei amanhã à tarde,

“Onde te encontro, menina?”, veio a resposta.

“Queria tomar água de coco, mas não rola. Estou sozinha com minha vó.”

“Mande seu endereço”. Eu mandei. Tem uma hora na vida da gente que a gente vai dando enter, enter, enter na vida, sem ler. Seja o que Deus quiser…

Quarenta minutos depois, um SMS avisando que chegou. Um carro preto parado em frente de casa, sob a mangueira do terreno do outro lado da rua. Eu decidi ir lá. Confesso que estava suando frio. Minhas mãos molhadas. Meu coração saindo pela boca. Era muita porra-louquice. Mas o desejo de ver aonde isso ia dar era maior que o medo.

– Oi…
– Quer entrar? A porta de lá está aberta.
– Tá.

Ao entrar no carro, senti o perfume no ar. Desconfio que o filho da mãe borrifou para me inebriar. Sem falar nada, ele alcançou um saco plástico no banco de trás e aumentou um pouco o som – rolava Tarde em Itapoã. Ele estendeu o saco plástico e disse:

– Pra você, menina.
– O que é isso?, disse, abrindo a sacolinha.
– Água de coco. Faz bem para o colesterol e evita câimbras. É em caixinha, mas dadas as circunstâncias…

Tive que rir. Além de bonito, cheiroso, o cara ainda era espirituoso. Gosto de homens que me fazem sorrir. Não gosto dos que me fazem gargalhar, no entanto. Quer dizer, não para ter algo. Tem de ser aquele sorriso roubado, que não dá para conter. Ponto para ele. Charme é aquilo que desequilibra os olhos e baculeja os pensamentos. Ele era muito charmoso, vamos combinar.

– Obrigada. Não precisava. Quer uma?
– Quero. Obrigado.

Ele colocou o canudinho na caixinha dele e me deu, antes de enfiar na minha e ficar para ele.

– O que você quer de mim?, ele perguntou enigmático.
– Quero testar o meu poder de sedução. Provar que não existe homem fiel. Mostrar que o homem age por instinto e não pela razão.
– Eu estava me referindo à informação para a sua matéria. Mas já que você falou isso, quem é que traumatizou você assim?

Oops! Sorri para disfarçar que acusei o golpe. Ele falou “você”… Quando um homem muda do “tu” para “você” é porque ele está a fim. Ele estava a fim. Mas não era efusivo, nem afoito. Mais um ponto para ele. Não gosto de efusividades.

– Ninguém me traumatizou. Você é casado. O que você está fazendo aqui?
– O que uma coisa tem a ver com a outra?
– Vocês homens são todos iguais.
– Frase original…

Eu me senti o Cabeça.

– Você quer casar comigo? Acabar com meu casamento?
– Claro que não!
– Então não vejo problema. Há diferentes tipos de afetos. Uma coisa é você ter sua família, gostar dela, protegê-la. Outra é você dar vazão para as paixões que se apresentam na vida.
– Quer saber? Esse seu papo é muito canalha, cara!
– Quer que eu vá embora? Sem problema.
– Não, não quero. Eu quero você. Quis no dia que vi você.

Lá estava eu falando “você”.

Ele olhou para mim. Sorriu. Ouviu o que queria. Conversamos amenidades por meia hora. Ele trocou a música. Colocou Marisa Monte, “Beija eu”.. Ele foi se aproximando de mim. O perfume foi ficando mais forte e quanto mais forte ficava, mais eu sentia que ia me entregar àquele homem. Ele chegou com o rosto perto de minha boca. Dava para sentir o seu hálito de menta. Ele veio em minha direção e parou. Olhou-me bem dentro dos olhos. Disse, num sussurro:

– Eu sou um obediente musical.

Chegou mais perto. Senti que estava prestes a me beijar. Antes de colar seus lábios nos meus, no entanto, passou a ponta da língua no canto da minha boca. Depois passeou com ela pelos meus lábios. Explorava meu rosto como se desbravasse uma selva que lhe era virgem. Mordeu de leve. Eu já estava maluca e ele sabia disso. Sentia e ouvia a sua respiração quente. Ele enfiou a língua em minha boca e encontrou a minha língua, molhada e receptiva. Foi a primeira vez que ele entrou em mim. Chupava minha língua sem força, quase flutuando sobre ela, como quem sorve um sorvete de casquinha no início, num beijo leve e bom. O beijo é o que muda o desejo de lugar.

Seu corpo se envergou sobre o meu. Ele me abraçou enquanto me beijava. Estava completamente entregue àquilo. De repente, ele puxou a gola de minha blusa e começou a morder meu ombro, meu pescoço, minha nuca. Eu queria explodir. Estava completamente encharcada de desejo. Ele, atraído por isso, eu desconfio, pousou a mão sobre a minha coxa. Foi deslizando a mão para a parte interna da minha perna. Devagar. Segurei sua mão. Ele recolheu. Segurei sua mão. Ele entendeu. Seu dedo achou o caminho até mim. Deixei que ele entrasse em mim pela segunda vez. Gozei a primeira de incontáveis vezes.

Sua mão era macia. Senti a maciez também quando a colocou em minha barriga, levantando a minha blusa. Sabia que aquilo era um caminho sem volta. A gente sabe quando chega ao ponto do não retorno nas querências, cujo o único destino possível é o sexo. O sexo bom. Como aquele que se anunciava com seu polegar a explorar caminhos por debaixo do elástico meu soutien… Sua mão não tinha pressa. Já tinha mostrado que sabia aonde ia. Levantou meu soutien, libertando o que era seu objetivo. A rigidez do mamilo denunciava o quanto eu queria e sinalizava para ele para que continuasse. Senti seu polegar apertar de leve. Depois foi o indicador a circular a auréola como um cego lendo desejos em braile. Eu respirava forte e cada vez mais rápido. Sua mão envolvia meu seio e com a palma ele fazia leves pressões. Soltei um “ai” involuntário. Tesão dói.

Minha blusa já estava no meio da barriga quando ele olhou para mim e, com o olhar, anunciou que iria levantá-la mais. Pegou delicadamente a blusa com as duas mãos em sua extremidade inferior e foi levantando. Ali estava eu, com praticamente um estranho, de peito nu. Ele olhou. Ficou um tempo admirando como se estivesse me fotografando mentalmente. Passou a mão numa pinta que tenho acima do seio direito. Mordeu o lábio. Sem dizer nada, foi chegando de novo junto a mim. Mergulhou nos meus peitos e cheirou meu corpo. Eu apertava seu rosto contra o meu corpo e passava a mão por entre seus cabelos. Ele se deliciou comigo. Sua língua me fazia sentir raios no corpo. Mordiscava e lambia. De mim, ele sentia o gosto. Por ele, eu me senti desejada.

Decidi devolver o carinho. Minha mão correu por sobre sua perna. Pude sentir o tamanho do seu desejo por mim. Roupas prendem desejos. Roupas impedem o toque. Delicadamente abri o botão de sua calça e abri seu zíper. Não tinha mais volta. Ele seria meu. Ele puxou o banco do carro para trás, reclinou, deitou e passou a mão nos meus cabelos. Foi a senha. Beijei sua barriga. Senti mais de perto aquele perfume que me deixava zonza. Eu também tinha meus segredos com a língua. Eu também sabia mordiscar. Eu também gosto de sorvete. Foi a terceira vez que ele entrou em mim. Eu não sei que música tocava, mas tinha um solo de guitarra delicioso que cadenciava os meus movimentos. Eu adoro isso.

Ele, que não dissera uma palavra até então, disse:

– Sabe onde eu queria estar agora, menina?

Me chamar de menina tornava a coisa mais proibida. O cara era bom.

– Onde?, respondi fazendo minha parte no joguinho.

– Dentro de você…

Fui pra cima dele. Enquanto nos beijávamos, ele levantou minha saia, acariciou minhas coxas e abaixou até onde pôde a minha calcinha, um estrago a essa altura do campeonato brasileiro série A real oficial. O resto ficou comigo. Na dança de corpos, nos procuramos. E nos achamos. Quando nos achamos, paramos, ambos. Ao mesmo tempo. Ele pegou meu rosto com as duas mãos e disse:

– Eu te quis na hora que eu te vi.

Ele deslizou para dentro de mim sem esperar mais, me preenchendo as vontades. Estava suada. Ele também. Mesmo com o ar-condicionado do carro ligado. Minha barriga molhada esfregava na dele. Minhas mãos entrelaçavam e apertavam as mãos dele. Eu cavalgava em cima daquele homem. Surfava nele. Ele me puxava os cabelos e alternava seus beijos em minha boca e em meus peitos. Seus beijos eram meu açoite. Sentei olhando para ele. Sentei olhando para as estrelas pelo para-brisa. Era a quarta vez que ele entrava em mim. Não estava claro quem dominava quem. Também pouco me interessava. A última coisa que eu queria naquela hora era pensar em masturbação sociológica de gênero. Sociológica de gênero, que fique claro.

Eu gozei muito. Longamente. Minhas pernas perderam as forças. Senti choques pelo corpo. Tremi. Arrepiei. Tive câimbras que a água de coco não conteve. Ele esperou muito por mim. Mas por fim gozou também. E eu com ele, de novo. Ele me apertou com tanta força quando explodiu que me deixou a cintura roxa. Foi a melhor transa da minha vida. Eu pensei que não diria essa frase de novo. Comecei a desconfiar de que só o sexo com amor vale a pena. Ali era puro sexo, puro tesão, carnaval, festa da carne. Mal conhecia o cara. Ele mal me conhecia. Mas a gente se encaixou maravilhosamente bem. A vida tem dessas. Não é porque é sexo casual que a pessoa tem de tratar você mal.

Dane-se o moralismo! Até esqueci que ele era casado. “Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa”, diria Cabeça se estivesse de voyeur da cena.

Ele passou a mão nos meus cabelos, tirando do meu rosto. Eles estavam desgrenhados. Ele sorriu e disse:

– Você tem uma boca linda. Mas a pintinha é a cereja do bolo.

Ele tinha gostado da pintinha. Eu sorri. Eu disse que precisava voltar. Procurei minhas roupas largadas do avesso pelo assoalho do carro. Vesti e falei:

– Eu ia te fazer a pergunta para a matéria agora. Mas acho que vou deixar pra outro dia.

Ele entendeu. Saí sem dar tchau. Esperou eu entrar e foi. Aquilo ainda me renderia um baita sermão da Alícia no dia seguinte. Mas eu não conseguia tirar da cabeça e do corpo as nuances do Dr. Branco. As quatro vezes que ele entrou em mim. Definitivamente eu queria mais. Mais tons de Branco.

É. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto. Tive a nítida impressão de que essa história iria continuar…

Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.

Amado I

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Há dias seus olhares se cruzavam. No início, coincidiram. Com o tempo, se buscavam. Agora, se caçavam. Nenhuma palavra. E quem falou que para haver conexões de alma a palavra é necessária? Para estabelecer a conexão, a palavra é dispensável. Para exercê-la, no entanto, é essencial. A cada dia, a sensação do por vir certeiro consumia corpos e mentes. Ambos. Sóis queimavam, um dia atrás do outro, como assumindo para si o calor dos corpos, emanação adiada por caprichos do destino, por desencontros. As noites chegavam e iam, impacientes pela não cumplicidade exercida.

Ele sabia que poderia encontrá-la. Para isso se preparava, mesmo sabendo da inevitabilidade de falhar em todos seus ensaios textuais. Ela perfumava-se com uma fragrância tão suave e gostosa que inevitavelmente forçava as pessoas que a sentiam a querer lamber seu corpo, como se fosse possível sorver o sabor que perturbava os sentidos através da língua. Ao esfregar as gotas do perfume em seu corpo, fechava os olhos e imaginava que efeitos aquele cheiro teria nele. O perfume era para ele. Ela era para ele. Ao amassar o cabelo, para secá-lo, imagina outras mãos percorrendo os embaraços dos fios. Essa era a trama.

Nunca se falaram. Mas se diziam por completo. O destino, o mesmo que os fez esperar longamente, é esperto e sabe o que e como faz. Encontraram-se, engraçado, em uma festa de aniversário de um filho de uma amiga dele, de um amigo dela. Os olhares acharam-se. E caçaram-se por boa parte da noite. Anitta tocando, numa trilha sonora surreal para o tamanho desejo latente. Garçons passando por entre as mesas, quebrando a ligação invisível entre os olhares, bloqueando a conversa sem palavras, os gritos de desejos sem sons.

Ele era e sempre foi tímido. Jamais tomaria a iniciativa. Ela, decidida e audaciosa, sorriu. Era o máximo que se permitia como estratégia de preservação. Falsa preservação. Ele baixou a cabeça. Quando a levantou, ela não estava mais. Parou de rir. Caçou o olhar dela por entre balões, palhaços e homens-aranha. Ficou preso na teia de sua desatenção. Ficou preso na teia dela. A lua, feliz cúmplice, observava tudo, pacientemente.
Ela passa por trás de sua mesa, junto com seu perfume. Ele olha. Ela sorri, num riso largo que força as bochechas a fechar os olhos. Ela o encara. Ele levanta. Ela sorri. Ele anda em sua direção. “Eu preciso dizer que te amo” substitui convenientemente Anitta no som. Ela vai para o seu carro. Ele vai para o seu carro. Ela dá a partida e ronco do motor frio compete com o frio que lhe percorre o corpo. Ou seria o calor. Agridoce temperatura. Ele faz o mesmo.

O semáforo fechou. Ela passa. Ele passa. Duas multas da fiscalização eletrônica. Assim foi documentado o momento do início. Ela chega em casa. Estaciona em frente. Ele atrás dela, mimetizando o por vir. Ela olha para ele. Ele para ela. A Lua para ambos. Ela entra e deixa a porta aberta. Ele entra e abre seu desejo contido. A porta se fecha, decretando o início do jogo, tão anunciado pelo silêncio.

Os olhares que tanto se caçaram. Ali, sozinhos. Ela liga o som. “Explode coração”. Zizi Possi, magnífica transmutação de Gonzaguinha. A música é o diálogo não travado. Eles se aproximam. Sem piscar. Faz parte do jogo. Abraçam-se e começam a dançar. Chega de tentar dissimular e disfarçar o que não dá mais para ocultar. Eles já não podem mais calar já que o brilho dos olhares foi traidor e entregou o que tentaram conter. A respiração ofegante dele em seu ouvido, no ritmo de seu coração acelerado a deixava em transe. O perfume dela em seu nariz o entorpecia. O desejo querendo se derramar. Não dava mais para segurar. O coração a explodir.
Seu rosto colado, num leve movimento à esquerda, coloca seus lábios junto ao ouvido dela. Mais perto. Ele de leve morde a pontinha de sua orelha, tocando-a com a ponta da língua em seguida. Ela inspira o ar descompassadamente, como se perdesse o equilíbrio da respiração. As bochechas se tocam. Ele faz uma espécie de sim com a cabeça, bem lentamente. O primeiro contato de pele. Quer senti-la. Quer tocá-la com seus poros. Sua mão desliza pela costa, explorando a superfície, ainda por cima da blusa. Sua mão sobe por entre a costa e os cabelos longos ondulados. Toca-lhe a nuca. Acaricia com a ponta dos dedos. Massageia. Ela fecha os olhos e suspira. Sua boca entreaberta pelo relaxamento natural do corpo. Sua mão esquerda desliza por sobre o rosto dela, como um cego a tatear um rosto desconhecido. A mão vira. Agora é o dorso da mão que percorre o rosto quente. Ele sente a respiração acelerada nos dedos. A ponta do indicador percorre o contorno dos lábios. Ela movimenta a cabeça lateralmente, como quem diz que seu desejo é ser tocada.

Diana Krall, suave, canta “Let’s fall in love”. Ele toca, boca fechada, seus lábios em seu pescoço, aspirando o cheiro dos longos cabelos encaracolados. Concorda com a música. “Let’s fall in love, why shouldn’t we?” O que impedia? Estavam fazendo seu próprio paraíso. A língua úmida toca seu pescoço. Ela relaxa e aperta o corpo dele contra o seu. No movimento da música, se deixam cair ao tapete, por sobre as almofadas floridas. Delicadamente se olham. Nunca a distância entre seus olhares foi tão curta. Ele sorri. Ela sorri, dando uma piscada em câmera lenta pela sedução. Os lábios, enfim, se tocam. Estão molhados. As línguas, rápidas aprendizes, se buscam, se caçam. Isley Brothers, “Let’s fall in love”. Trilha perfeita.

Um beijo longo, tão esperado, perde a noção do tempo. Como ele pode ser tão igual e tão diferente de como foi sonhado? E os cabelos? Tão macios… O perfume, tão embriagador. A pele. Doce como seda. Macia como mel. O beijo longo cede espaços para pequenas mordidas nos lábios. Dollar, “I need you”. A música diz tudo. Precisavam-se. “Por que demoramos tanto?” se perguntariam se se lembrassem de perguntar algo naquela hora.
Seus lábios descem. Mordem o queixo oferecido. Beijam o pescoço e continuam a descer. Um botão atrapalha sua jornada pelo corpo dela. As mãos vêm socorrer. Ele olha para ela como a comunicar o que vai fazer. Ela sorri. É a senha. Earth, Wind & Fire, “Could it be right?” Mas o que seria certo ou errado ali? Nada de valores. Só o desejo. Puro desejo mútuo de viver o momento. Carpe diem. A mão esquerda desabotoa o primeiro botão. O segundo. O terceiro. O quarto. Não, a sala era perfeita. O corpo parcialmente descortinado à sua frente. Um minuto de admiração. Led Zeppelin, “Stairway to heaven”. O paraíso a caminho. Sua boca desce até a barriga, que sobe e desce ofegante. Sua língua percorre a região do umbigo, acompanhando a geografia irregular de seu corpo. As mãos, independentes, buscam um leve toque na depressão entre os seios. A palma da mão percorre quase sem tocar o seio esquerdo. Ele sente no meio da mão o rígido mamilo. Toca com polegar. Ela suspira. Ele sobe a cabeça e lhe beija longamente no ritmo do dedilhar da guitarra de Jimmy Page. Ao descer a cabeça, desce também a alça do sutiã, liberando a pressão. Sua mão retira a cobertura que separa sua boca da parte do corpo dela que quer e irá beijar.

Djavan, “Oceano”. O dia amanheceu no mar alto da paixão. Sua boca buscou seu peito. Com movimentos leves, a ponta de sua língua circulou o cume do seio diligentemente, como uma criança que cobre uma linha guia desenhada para ela. Várias voltas, como a avisar que vai entrar. Com movimentos lentos, a ponta da língua agora entra em contato direto com a ponta do seio. Ela suspira. Os lábios tomam conta e envolvem toda a área. Um beijo cheio de desejo. Corpos se conhecendo. Ela o empurra levemente, colocando deitado de costas. É sua vez.

Desabotoa um a um os botões da blusa preta que ele veste. Desnuda seu corpo, seu peito. Beija sua barriga. Lambe sua barriga. Seu cabelo escorre e varre o corpo dele. Joe Dassin, “Et Si Tu N’existais Pás”. Um toque francês. Ela desce e beija seu umbigo. Olha cheia de desejos. Morde os lábios. Abre o cinto. Abre o fecho éclair. Retira a calça e deixa-o quase nu. Seu desejo é grande. É visível. Sua boca beija suas coxas, morde de leve os músculos da perna. Seus dedos percorrem os pelos que se estendem por toda perna, numa gramado negro que convida os pensamentos à diversão.

Vercilo, Fênix. Segue…

Tempos da caça

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costela“Fragilidade, teu nome é mulher”. Essa frase é de Shakespeare. Como a literatura tem a ver com a sua época para desvelar seus sentidos, a frase do bardo é um retrato da mulher do Século XVI. Se o escritor inglês chegasse hoje em uma máquina do tempo, com toda a poesia do mundo, e gritasse a frase na praça de alimentação de qualquer shopping center, é provável que fosse vaiado. Pelas mulheres. Muita gente diria, certamente: “Esse barbadinho pode até entender tudo de poesia. Mas não entende nada de mulher”.

A questão é, claro, a mudança no papel social da mulher. Esqueçamos aqui o machismo que acha que o único movimento possível para a mulher é o dos quadris e o feminismo que acha que a mulher não pode usar um vestido de alcinha para seduzir. São extremos e me dão sono. Vejamos: desde a queima dos sutiãs em 1968, no bra-burning de Atlantic City, a mulher vem dando um chega pra lá nos homens e ocupando papeis que antes eram reservados por convenção social e cultural a eles. Em tempos atuais, nas sociedades ocidentais, soa muito estranho e démodé dizer que o homem tem de sair para buscar a caça e a mulher deve ficar em casa cuidando da cria.  Hellô-ô! Por opção, vá lá! Mas por obrigação? É ruim, hein!

Os papeis que homem e mulher desempenhavam no sexo tinham regras claramente estabelecidas. Fazia parte desse jogo de sedução e conquista o homem insistir na proposta sexual e a mulher recusar. O homem, claro, apostava no sucesso da empreitada e para isso movia mundos. Quando homem quer não tem vó doente, dor de dente, final de campeonato ou chuva que o impeça. Quanto mais a mulher recusava, mais o homem insistia, aumentando a emoção do jogo – uma emoção restrita a ele, diga-se. Para a mulher não era tão lúdico assim. Além da culpa cristã por estar permitindo intimidade a um homem, seu desejo e prazer eram solenemente desconsiderados. Como lidar com o paradoxo? Porque ela queria, mas ela não podia relaxar na vigília um segundo. Sabia que se não se controlasse seria descartada e ainda por cima chamada de fácil. O homem continuava insistindo e ela resistindo. O importante era chegar ao objetivo final. Aprisionados a uma moral antissexual, nenhum dos dois tinha chance de experimentar o prazer das trocas de sensações eróticas. Se a mulher cedesse, aí pronto: o homem se apaziguava com a confirmação de se sentir competente e se afirmar como macho. E o ciclo recomeçava.

“Ah, mas ainda é assim!”, se apressa em dizer a leitora mais afoita. Sim, ainda é assim. Com uma diferença: a mulher está ocupando esse lugar de sujeito proativo, de quem vai para cima, algumas como um jaguar. O homem se vê na defensiva. Com o espaço conquistado em outras áreas, ela também conquista terreno na autonomia sexual. Na medida em que a mulher passa a disputar o papel de independência social, profissional e financeira, ela se lança na disputa também pelo pacote completo. E leva. No pacote está incluso o passe-livre para tomar a iniciativa nas questões afetivas e sexuais também. Mexendo a posição das peças em jogo, a mulher passa a dar xeque naqueles homens que não conseguiram ainda pensar fora da caixa dos conceitos de antes.

A cotação do machão comedor está em baixa. Há quem ainda compre suas ações, mas a mulher quer um homem que se relacione com ela de igual para igual, inclusive no sexo. Essa repentina mudança tem deixado a macharada em níveis de ansiedade comparáveis aos daqueles caras do esquadrão antibomba: se não cortar o fio certo… Para evitar o estresse, muitos homens ainda procuram mulheres passivas, acreditando estar mais garantidos. Pfff. O problema é que, pelo andar da carruagem, em pouco tempo elas entrarão em extinção. É Darwin, parceiro…

As mudanças não são totais, no entanto. A maioria dos homens ainda vê o sexo como uma questão quantitativa e não qualitativa. Tire-se pelo ciúme. O ciúme do homem é quantitativo: queremos saber com quantos caras a mulher foi para a cama. O da mulher é qualitativo: pouco importa a ela se o homem teve trinta mulheres. À mulher importa de fato se ele foi apaixonado de verdade por alguma dessas trinta. Essa vaca é seu alvo.

Vivemos numa fase de transição e reacomodação de papeis. O homem flerta mais cuidadoso, se ajeitando aos novos tempos. “Sabe-se lá se ela é predadora…” A mulher resiste de charminho, mas se tiver a fim não dispensa, cada vez mais sem a culpa da moral. “Será que eu vou ter outra chance com o boy magia?” Nisso tudo, há uma monogamia social esperada a ser considerada para complicar as coisas. Os limites são tênues. Mas a linha é sempre tênue para quem não sabe o que quer. Desejos, mesmo antes de Freud, já estavam a nos mover. Freud ajudou a dar o nome aos bois. Há os casos em que conquistar é uma necessidade compensatória de uma falta na infância. Mas isso é papo-cabeça para outro texto. Fato é que ninguém está livre dos encantos alheios.

Encantar-se e desejar faz parte. É da natureza da afetividade humana. Dar sinais de encantamento é biológico. Não dá para sentir culpa por pensar como seria bom estar com alguém num momento ideal. Bate, Platão! Dar o próximo passo já é da razão, pois aí entram desdobramentos que precisam ser avaliados e ponderados em suas implicações. Às vezes, nessa hora, o Batman precisa dar um tapa de alerta no Robin, para usar a imagem do meme do Facebook.

Deixar fluir ou guardar para explodir de outros jeitos? A pergunta é: muita adrenalina ou muita ocitocina? Ser um sujeito – ou uma sujeita – que vive na plenitude seus quereres ou ser alguém que não se permite sair do paradigma da racionalização dos afetos? Aproveitar a vida porque ela é como uma nuvem que passa  e vai ou sossegar o facho em nome de uma escolha eterna? “Eis a questão…”, completaria um resignado Shakespeare, sob os olhos desconfiados de Freud e de um liberado Platão. Enquanto Darwin ri alto de tudo ao fundo…

Alugam-se acreanas

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Lendo os classificados de sábado passado, em busca de uma boa oferta de alguém aperreado (as boas ofertas são sempre de alguém aperreado), que me deparei com a seção de Serviços, na categoria de Turismo e Lazer. E li, então, as ofertas da seção.

O primeiro item em oferta era uma acreana. Isso mesmo, uma acreana recém-chegada, com atendimento em domicílio (no seu ou no dela). Interessante como no sex business ser acreana é um diferencial de qualidade. É mais ou menos como carro que tem ar-condicionado em Manaus. É valor agregado. Assim como as videntes recém-chagadas de Faro, no Pará, são as bambambãs da futorologia, as acreanas recém-chegadas de Xapuri são as cinco estrelas da cama. Diz até meu amigo Mateus, que trabalha com linguística indígena, que Xapuri, na língua dos índios que habitam a base do Rio Xipamanu, significa Enguia-elétrica. Fico pensando sobre as relações e imaginado essas mulheres-poraquês em ação. Ah, o nome da acreana era Aisha e fazia dança do ventre. Essas novelas dão cada idéia para essas meninas…

Além da acreana, tinha outro anúncio das patotinhas do sadomasoquismo. A chamada do anúncio dizia em maiúsculas negritadas “SADOMAZOÍCO” (sic). E seguia: “três morenas fora do comum, são elas que fazem a fantasia ser real. Saia da rotina e prove a delícia de uma boa dominação”. Bom, dominado eu já sou, pela patroa. É ela quem manda em mim e na casa. Já é a minha rotina. Mesmo assim, fico imaginado as três morenas fora do comum – teriam elas três peitos, bunda de cinco bochechas, duas vaginas cada? – mandando eu fazer só coisas que eu não gosto: “vai levar o lixo lá fora! Ajuda a enxugar a louça! Liga pro rapaz do telefone para mandar consertar! Vem me acompanhar na feirinha de roupas!”. Não, não. Já tenho minha personal sadist exercitando todo seu poder de dominação em casa. Estou fora. Fui para o próximo.

“ABC massagens: venha aprender com belas loiras e morenas”. Para quem tem fetiche por professoras é uma boa pedida. Fico só imaginando a base epistemológica da pedagogia das tias: seriam freireanas, piagetianas, skinnerianas, rogerianas? Ou estariam mais para uma pedagogia no estilo da escola Sumerhill, aquela lá na Inglaterra, onde não há  normas nem regras, onde vale tudo? Como acadêmico, acredito que devemos procurar ter coerência epistemológica em nossas escolhas pedagógicas. Mas o papo está muito cabeça e o buraco é, literalmente, mais embaixo.

Tinha uma dupla de macho lá na relação. “Beto & Douglas, recém-chegados em Manaus. Atendemos mulheres, casais e suas fantasias”. O que primeiro me chamou a atenção foi esse nome de dupla sertaneja. “Senhoras e senhores, agora com vocês: BETO & DOUGLAS!”. Outra coisa: será que ser recém-chegado tem algum poder afrodisíaco? Todo mundo é recém-chegado em Manaus. Contando essa história para um amigo meu do Twitter (cujo nome não digo porque essa sociedade em que vivemos ainda é muito hipócrita), não é que ele perguntou se eu ainda tinha o jornal? Será que o Beto e o Douglas também topam corrente alternada? Meu amigo ficou ouriçadíssimo.

Outro anúncio dizia: “As mais belas garotas de Manaus. Totalmente liberais”. Fiquei pensando. Será que elas são a favor das privatizações, das leis de mercado e tal? Garotas liberais… Será que não teriam algumas progressistas, de esquerda? Sei lá, compatibilidade ideológica pode ajudar na hora de colocar o voto na urna…

E assim iam os anúncios. Outra “morenaça” se oferecia para aqueles que curtem “um super DP”. Fiquei pensando o que seria um super DP. Depósito Pessoal, Distrito Policial, um PC com Duplo Processador, uma revisão na D Paschoal? Foi meu tio Cado, com pós-graduação em sexoantropologia aplicada aos trópicos úmidos feita na USP de Bauru, quem me disse que DP é dupla penetração. Pensei em ligar para a morena e dar o telefone do Beto & Douglas.

Por fim, tinha esse aqui: “Venha conhecer Ratirarrasya. Não vá para cama sem ela”. Primeiro que esse nome tira o tesão de qualquer um. Imaginem, na hora H: “Vem, meu amor, minha Ratirarrasyazinha linda…”. Não dá. Segundo, isso está mais para nome de remédio para dormir. “Amor, você viu meu frasco de Ratirarrasya que estava em cima do microondas?” É uma dose. De doze em doze horas. Confesso que só consegui digitar o nome dela certo depois da quarta tentativa.

Meu amigo do Twitter acaba de me ligar e confirmar, eufórico, que o Beto & Douglas topam tudo. Vai ligar para eles e contratá-los. Políticos gostam dessas demonstrações de poder, né? Freud explica…