sociedade

Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.

A miss e nós

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Saiu o resultado. O cumprimento elegante de praxe à vencedora dado pela segunda colocada. Mas na hora da coroação da miss, a vice-miss perdeu o rebolado, atacou a ganhadora e lhe arrancou a coroa, atirando longe. E saiu triunfante, de punho erguido, sob vaias e aplausos da plateia e das outras candidatas a miss.

Acordei com essa história bombando nas redes. Ao G1, a vice-miss Sheislane Hayalla disse que não aceitou o resultado. Que aquilo era um protesto contra a grana. “Simplesmente, em Manaus, é o dinheiro que manda e eu estou mostrando para o povo amazonense que o dinheiro não manda aqui. Ela não mereceu!”, disse ela, racionalizando seu gesto, um gesto que, como todo gesto, convoca as interpretações. Apesar do caráter inusitado e até pateticamente engraçado do fato, penso que o que Sheislane fez exemplifica e muito o tempo em que vivemos.

Na sociedade da visibilidade, aparecer faz parte da necessidade básica de sobrevivência social. É preciso ocupar espaços. Inconscientemente, brigamos por espaço no trabalho, nas relações grupais, nas relações afetivas. Só que as regras sociais nos impedem de arrancar as coroas alheias quando temos vontade. Pode-se argumentar que sempre foi assim. Sim, sempre foi assim. O que tem mudado radicalmente é o conceito de espaço, que hoje está inegavelmente atrelado à visibilidade mais do que ao espaço físico, como já foi na época das conquistas territoriais. A questão é simbólica. O poder, palavra-chave para compreender meu argumento, passa necessariamente pela construção de um capital imagético que se configura e se sustenta pela circulação nas redes via capital digital. Resumindo: tem de aparecer e tem de circular. Só assim a gente consegue ser hoje na sociedade da informação. Se você digitar seu nome no Google e ele não voltar nada, pode esquecer: você não existe.

Estamos vivendo uma crescente instagramação da vida. No mundo da imagem, da evasão da privacidade, viver o momento vira secundário. O registro do momento é potencialmente mais valioso para a construção do capital imagético e digital. Vide a moça que sofreu o acidente e, em vez de se preocupar em buscar socorro em primeiro lugar, imediatamente postou nas redes a foto de seu rosto todo arrebentado. Fez uma selfie de sua cara estropiada. Há algo mais sintomático do momento em que vivemos?

Mas voltando às misses. O próprio concurso entra em um jogo de imagens arquetípicas. Há a princesa, que ganha a cora, e há a plebeia, seu contrário. A miss, que vai aumentar seu capital imagético, e a vice-miss, que não vai ser nada, num país em que vice e nada são a mesma coisa. As coisas não deram certo para Sheislane. Se tivessem dado certamente a sua crítica ao poder da grana como determinante nessas e em outras questões não teria aparecido. Só veio porque as coisas desandaram. Aí ela, que perdeu o papel de princesa, assumiu o papel de Fora-da-lei, que rompe com as regras que, como sabem os foras-da-lei, foram feita para ser quebradas. O arquétipo do Fora-da-lei é conhecido também como Revolucionário. Esse arquétipo libera as vontades reprimidas da sociedade, daí tanta gente vibrando, gozando com o pau de Sheislane. Quem de nós não queria, como ela, chutar o pau da barraca ou dar com o pau de selfie nas injustiças que conhecemos? A identificação nos faz feliz com seu gesto. Quando a consciência do Fora-da-lei está presente, as pessoas têm uma percepção mais aguda dos limites que a civilização impõe à expressão humana.

Aí a gente se pergunta: será que ela não pensou nas consequências disso? Arrisco a dizer que sim e que não. Que não porque agiu por impulso. Que sim porque, de certa forma, exatamente porque foi por impulso, deu vazão ao inconsciente e à sua avaliação, também determinada pelo discurso da ideologia inconsciente, de que o barraco lhe capitalizaria imageticamente mais do quer ser miss. Não deu outra. Sheislane deve estar adorando os flashes de ser notícia nacional enquanto Carolina Toledo – who? – ficou com essa faixa chinfrim.

Enfim, na guerra da vida, estamos lutando a Batalha da Imagem. Eu tenho de ter mais experiências bacanas, em lugares bacanas, com os melhores vinhos, nas melhores praias, comendo as melhores comidas. Meus filhos têm de ter as melhores festas, o melhor celular, as melhores colocações no ranking escolar. Se alguém posta uma foto de um hotel em Katmandu, tenho de sequestrar a singularidade de sua experiência e postar nos comentários uma minha lá também. Não nos enganemos. Praticamente nada vale se não se tiver um câmera por perto para mostrar para outros, para postar no Instagram, compartilhando ao mesmo tempo no Twitter, Face, Tumblr, Pinterest, Vine, Flickr…

Como toda ação traz uma reação, já vivemos a contracultura da imagem. Gente que resiste ao discurso da visibilidade não tendo perfis em redes, andando com celular peba que nem foto tira, se desligando, no que pode, da ditadura da imagem. Quem não consegue se desligar, evita pôr sua foto no perfil. Usa cachorro, borboleta ou qualquer outra coisa no lugar de sua foto como forma de resistência. Estou nas redes, sim, pero no mucho. Há gente, no entanto, que vira a miss e parte para a briga contra a sociedade da informação, arrancando-lhe a coroa, valorizando o encontro olho no olho e a conversa sem registro a não ser na memória dos interlocutores. E que sai triunfante com seu ato político. No entanto, sem saber – e sem querer – essas pessoas entram de novo no jogo arquetípico: para a sociedade da imagem não passam de meros bobos-da-corte. “Se eu não puder dançar, não quero tomar parte da sua revolução”, diz o bobo. Pergunta dos integrados: “como pode, gente, alguém resistir às redes sociais? Durma segurando um forninho desses”.

Jung à parte, onde é que você se localiza nesse jogo todo, leitor? Faz uma selfie com a coroa, arranca a coroa e joga longe ou nem sabe o que aconteceu porque evita as redes? Ou tudo junto e misturado?

Fato é que é assim. Nem ruim nem bom. É, ponto. Ruim ou bom já é dar valor a partir de onde nos localizamos. É isso que eu tinha para dizer. Deixa agora eu postar logo esse texto no meu blog do WordPress e na minha página no Face para aumentar meu capital digital. Beijo, Leila Lopes!

Tempo

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Ontem o tempo voava, escorria pelas mãos. Hoje o tempo vem e vai à velocidade dos zeros e uns, à velocidade da luz. Nossos olhos acostumados não o veem mais porque não têm fôlego para acompanhar o novo tempo, esse alucinado. Por mais destras que sejam, nossas mãos não conseguem mais pegá-lo, nem pelo instante ilusório um pouco antes de ele se esvair por entre os dedos. Porque ele não se esvai mais. Ele é impegável. O tempo, que já foi sólido lá atrás, acaba de deixar de ser líquido: agora ele é holográfico. O presente foge em fast forward e o futuro não passa de um desejo abstrato, uma ficção. Tudo é já sempre passado. Por isso estamos todos correndo para a nostalgia ou um mashup dos tempos, num steampunk que alivie as dores. Para lidar com o inelutável, nos resta viver pela intuição. Assim, perdemos menos a vida, que, como de costume, segue os caprichos do tempo.

Mundo topocêntrico

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Vivemos a ilusão de que o mundo se organiza por meio das pessoas. Na verdade, o mundo se organiza por meio de uma teia de lugares sociais que as pessoas ocupam. Quando a permanência em alguns desses lugares são mais perenes, apaga-se mais facilmente essa constituição. Quando são mais efêmeros, visualiza-se. Alguns perdem os lugares, caem na relação simbólica valorizada e não conseguem lidar com isso. Viram fantasmas obsessores do lugar perdido. Saber lidar com os sentidos produzidos pela relação de lugares faz com que o sujeito sofra menos quando as pessoas passam a tratá-lo diferentemente porque já não é mais quem era no xadrez do tabuleiro social. A sabedoria popular criou um ditado para isso: “Rei morto, rei posto”. No fundo, na sociedade de hoje, não interessa quem você é, como indivíduo empírico, mas de onde você fala e qual o grau de legitimação desse lugar de fala. Parece cruel, mas no mundo líquido de hoje, a ciranda é rápida, a identidade é determinada pela alteridade e somos todos lugares e não pessoas. Vivemos uma ilusão necessária de um humanismo, mas o mundo é centrado no valor simbólico do lugar.

Mouse pintado não basta

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O Grupo de Pesquisa Discurso e Práticas Sociais (UFAM/CNPq), que coordeno, tem analisado na Universidade questões sobre contemporaneidade e redes digitais. Uma das áreas em que tenho orientando pesquisando é a da democracia na interface com o mundo digital. O que temos percebido é que as redes digitais estão sugando a indignação das pessoas quanto às questões  políticas dando a impressão de que aumentou o controle social e, portanto, a pressão política. Por que “dando a impressão”? Porque essa indignação manifesta nas redes não tem tido força para sair do mundo dos bits & bytes. Vide no Brasil casos como o “Fora, Sarney!” e toda pressão sobre Belo Monte.

Com o advento das tecnologias de informação e comunicação (TIC), a mobilização que tem efeito político real para políticos da era pré-internet [a maioria que ainda decide o jogo] perdeu força. Por mais que a tese seja controversa para alguns, a Internet não gera revolução via hashtags ou botão de curtir. E a Primavera Árabe? O que aconteceu na Primavera Árabe, vejam só, foi o resultado de um acúmulo de situações históricas que levaram a indignação às ruas, em efeito dominó. As TIC desempenham um papel importante não como disparadoras, mas como propagadoras. Aí sim.

Isso tudo para dizer que vimos todos os dias nas redes indignação de toda sorte. É com a segurança que assusta, com a educação de má qualidade, com o transporte que não serve, com a cidade tomada pelo lixo, com os aluguéis estranhos de casa de amigos, com shows caríssimos mal explicados, mas tudo segue do mesmo jeito. O poder público parece nem se importar com o vulcão revolto das redes porque percebeu que ele está circunscrito às telas de computadores, como a vela digital que fizeram para Steve Jobs. Vivemos com o vulcão digital em permanente erupção. Na tela do computador.

Papo de acadêmico? Pode ser. Divisão social do trabalho é assim. A saída parece não ser gritar mais alto nas redes. Nâo somente isso. Isso também. Mas mudar efetivamente a matriz política que está aí, lembrando de todas essas indignações na hora de votar. O que precisamos é fazer as indignações se materializar num quadro político que entenda que a internet não é uma coisa à parte da sociedade, mas parte integrante dessa nova sociedade. Políticos e agentes públicos em geral que vivenciam a internet têm mais condição de transformar as lavas do vulcão digital em combustível propulsor de mudanças. Os outros estão velhos demais para isso, não se importam e continuam a não se incomodar com o que rola nas redes digitais. E como eles estão numa rede de poder real, dão as cartas com a Poker Face de sempre. Vendem as ilusões de uma cidade e de um estado lindos nas propagandas, de um judiciário não corporativista e de um legislativo que vem fazendo a sua parte sem advogar administrativamente – coisas contra as quais muita gente se indigna tanto [na internet] – E seguem as estripulias.

No fundo, mudou o cenário, mas o enredo é o mesmo. No entanto, não é o cenário que temos de mudar: é a história e os protagonistas. Isso a Primavera Árabe nos mostrou lá fora. Mas temos exemplos aqui mesmo em casa, como o movimento das Diretas Já. É preciso mais do que pintar o mouse de verde e amarelo. É necessário mesmo é pintar as caras, como alguns fizeram um dia nesse país.


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A vida online e os neoluditas

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NeoluditasA Internet veio para alterar muita coisa. Até aí morreu o neves. O que muita gente ainda não percebeu é que essas muitas coisas que estão sendo alteradas requerem a movimentação de um novo sujeito , do ponto de vista social e comportamental.

Eu não sou afetado pela greve dos bancos nem pela dos correios. Pago todas as minhas contas online, cuja segunda via também possa tirar online. Leio minhas revistas e jornais também na Web. Virtualmente tudo que me chega via correio e que posso fazer numa agência bancária, posso substituir online. Não é à toa que essas greves não têm o efeito que os grevistas desejam. Há de se pensar em outras formas de posicionamento político. Estratégias da Revolução Industrial em tempo de sociedade da informação dá nisso.

Cds, eu só compro quando gosto muito. Uma faixa ou outra, baixo o MP3. Não me aponte o dedo, leitor: tenho mais de 2 mil Cds originais. Locadora de vídeo, faz tempo que não visito. Ou compro o DVD, cujos preços caíram absurdamente, ou baixo e assisto depois apago do pendrive.  Os melhores papos que tenho levado atualmente não têm sido em mesas de bar, mas no Twitter. Gente interessante, gente nem tanto assim. Gente.

Quando a internet surgiu na década de 90, ouvia e lia muito catastrófico prevendo o fim dos livros e da televisão. Acabaria com a socialização. Hoje compro livro e vejo a programação da TV pela Internet. E vejam isso: o rádio levou 38 anos para ter 50 milhões de ouvintes. A televisão, 15 anos para ter 50 milhões de expectadores. A Internet,  4 anos para ter 50 milhões de usuários. Se o Facebook fosse um país, seria o 4º em população.  Segundo dados disponíveis na Rede, 96% dos jovens da Geração Y estão conectados a alguma rede social. Oitenta por cento das pessoas que tuitam usam celulares. São mais de 200 milhões de blogs. Um breve resumo de dados que estão aqui: http://www.youtube.com/watch?v=sIFYPQjYhv8

Fato é que toda comunicação unidirecional está perdendo espaço para a online, interativa. Os jornais de papel perdendo circulação, a TV perdendo audiência. Se hoje buscamos produtos e serviços, num futuro próximo eles nos buscarão via mídia social. Além de sujeitos coletivos, somos cada vez mais sujeitos conectivos. Foi-se a época em que éramos apenas consumidores. Hoje consumimos e produzimos. Somos prossumidores. De informação, de notícia, de tudo.

A pergunta de um milhão de dólares é: o que isso tudo altera a política, o jornalismo, as relações públicas, os serviços, os negócios, a educação, a literatura, as relações afetivas, a ecologia, a discussão dos problemas sociais? Para cada área, mil páginas de discussão. Sem uma árvore sequer derrubada. Do átomo ao bit.

Sempre há os integrados, que tudo aceitam como panaceia. Há sempre também os apocalípticos, que tudo rejeitam por catastrofismo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O lance é que os neoluditas surgem e insurgem-se contra o inevitável: uma nova subjetividade está se configurando tributário do noco cenário. A todo dia. Toda hora. O mundo não vai parar para se adequar à gente.  Só resta o contrário. Com a prudência e a canja de galinha de sempre, dá para fazer isso sem dor. E com prazer. Mas há quem prefira a fila do banco. Nesse caso, be my guest.

A Feira de livro e o bola murcha

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Estou escrevendo de Ribeirão Preto. Estou aqui a convite da Fundação Feira do Livro participando da 9ª FeiraCafé Filosófico na 9a. Feira do Livro, em Ribeirão Preto. Sérgio Freire. Nacional do Livro. Na segunda-feira, fui o palestrante convidado de um café filosófico, falando sobre o que sei e gosto: linguagem. Foi excelente, como no ano passado, quando estive aqui pela primeira vez.

A Feira, a segunda maior a céu aberto do Brasil, começou no dia 18 e vai até 28 de junho. Em dez dias estão programados mais de 600 eventos gratuitos, abrangendo literatura e manifestações artísticas. Há mais de 100 escritores da literatura nacional e internacional que participaram e participarão de palestras e debates. São nomes como Milton Hatoum, Carlos Heitor Cony, Fernando Morais, Thiago de Melo, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Eliane Brum, entre tantos outros. Há mais de 60 apresentações musicais, com grandes nomes da MPB e apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, além de shows dos chilenos Tita Parra e Antar Parra e de Adriana Calcanhotto, João Bosco, Jorge Vercilo, Lenine, Luiz Melodia, Maria Rita, Oswaldo Montenegro, Paula Toller, Paulinho da Viola, Toquinho, MPB4 e Vanessa da Mata.

A cada ano, a Feira homenageia um país, um estado e uma personalidade. Este ano foram o Chile, o Amazonas e Cora Coralina. E aqui entra um misto de alegria, de espanto e de indignação.

A alegria vem pela escolha do Amazonas como Estado homenageado. Ela se estende porque represento meu Estado junto com Márcio Souza, Thiago de Melo e Milton Hatoum, grandes nomes da literatura da minha terra. O espanto se dá por ter constatado, para um Estado homenageado com uma cultura artística e literária rica, a ausência dessa riqueza. Onde está nossa música? Por que somente nós quatro? Ressalte-se a presença da Editora Valer, disseminando a publicação regional. A indignação emerge por saber que a ausência do Estado não se deu por causa da organização da Feira, mas por vaidade de quem gere a cultura no Amazonas.

A Feira enviou um emissário a Manaus para articular a presença do Estado no evento, com público de mais de 400 mil pessoas. Foram 21 dias em Manaus tentando falar com quem decide. No Município, a secretária de cultura marcou e furou, deixando o representante esperando. No Estado, os ofícios da Fundação foram solenemente ignorados pelo Secretário que, estou começando a desconfiar, tem bronca com livros. Sua vaidade não permite que uma feira de livro aconteça em Manaus. Razão: numa feira de livro quem brilha são os autores e não quem organiza, como num Festival de Ópera ou de Cinema, quando holofotes se voltam para sua figura de black-tie. E não é falta de competência. Quando ele quer, a coisa sai bonita. Quando ele não quer, no entanto, ignora o potencial de retorno estratégico e turístico que um evento como esse tem, deixando de fazer seu papel institucional.

Fico pensando nessa vaidade toda em época de copa do mundo. Ou alguém convida o secretário para dar o pontapé inicial no primeiro jogo em Manaus ou não sei não. Fica aqui a indignação dirigida ao governador Eduardo Braga, para quem a imagem externa do Amazonas parece ter algum valor. Já que falamos em futebol, pisaram na bola, Governador. E feio. E o secretário é o bola murcha do ano.

Entrevista com Contardo Calligaris

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VEJA, 30 de maio de 2009

Nossa, como eles sofrem

O psicanalista explica a angústia de homens contemporâneos
com a perda de papéis tradicionais e o que mais eles precisam
que as mulheres lhes deem – compreensão e carinho


Juliana Linhares

Lailson Santos
“O homem passou a não saber
mais como ‘ser homem’. Alguns
encaram os esportes radicais
como o que lhes sobra de virilidade.
Para outros, é a vida sexual”

O psicanalista Contardo Calligaris é bonitão, sedutor e tem a solução para melhorar seu casamento: deixe seu marido comprar aquela televisão enorme, compartilhe suas fantasias sexuais, incentive-o a largar o emprego e vagar de moto pela América Latina. E sempre, sempre, trate-o como um super-herói. Bem, como sabemos que isso não vai acontecer, Calligaris também se tornou especialista nas sofridas psiques masculinas. Quando fez o primeiro seminário sobre o tema, no fim dos anos 80, em Paris, ouviu de alguns dos presentes: “Mas o homem é uma questão? Há alguma coisa para dizer sobre isso?”. Na época, as mudanças nos papéis femininos ainda estavam na berlinda. Colunista e autor da peça O Homem da Tarja Preta, Calligaris, de 61 anos, italiano com nacionalidade americana radicado em São Paulo, fala aqui do duro processo de aprendizagem que já alcançou progressos como a “realização de que o bife não salta direto do supermercado para o prato”.

Do que, afinal, os homens reclamam? O homem herdou, em especial a partir do século XIX, dois tipos de papel na sociedade. Um deles era o de provedor, representado bem pela figura de terno e gravata, marido e pai de família. O outro era o de aventureiro, alguém eventualmente próximo até de um criminoso. Essas duas figuras representavam quase a totalidade do leque possível da masculinidade. A partir da metade do século passado, a situação começou a mudar. O papel tradicional das mulheres passou por grandes transformações, muito antes do dos homens. Elas tornaram-se sujeitos jurídicos verdadeiros, não se viam mais na dependência de um casal ou de um marido. E o lugar do provedor, que até então era exclusivamente masculino, passou a ser distribuído entre homens e mulheres. O homem não se justificava mais simplesmente por ser quem dava o sustento à família. E o avanço delas no campo até então masculino não parou por aí. Elas passaram a ser mães solteiras, não só por ação do destino, mas por vontade própria. Assim, outra faceta do papel do homem, o de ter e cuidar de uma família, também caiu por terra.

Como eles passaram a ver seu novo papel? Isso é uma coisa que quase todos os homens gostariam de saber. Algo que pode nos dar uma pista é olhar para os ideais que foram propostos aos meninos pelo mercado cultural na fase do pós-guerra. Houve uma enorme proliferação de heróis masculinos profissionais. Mais tarde, surgiu uma outra categoria de heróis, aqueles que cultuavam a ambição pelo poder, fosse ele econômico, militar ou político. Na geração dos anos 60, por exemplo, apareceu a fantasia do herói revolucionário. Che Guevara e Lenin faziam parte disso. Uma vez internalizado esse ideal de herói, surgiu uma questão para os homens que, é preciso que se diga, não se resolveu até hoje, que é a de redefinir a sua virilidade. Se por um lado ele vinha perdido, por não possuir mais o papel central de provedor, por outro, a exigência de que ele fosse um super-herói, ou algo muito próximo dessa condição, só aumentava. Em várias línguas existe a expressão “seja homem”. Por trás dela há uma ordem para que o homem seja capaz, por exemplo, de arriscar a sua vida ou aguentar uma dor muito forte.

Por que esse imperativo, que existe desde sempre, teria agora se tornado mais pesado para os homens? Porque antes o lugar de provedor que eles ocupavam, e que até então era exclusivo, de alguma forma funcionava como uma moeda de troca. Agora, as mulheres competem por essa posição. No mercado de trabalho, por exemplo, elas disputam quase em pé de igualdade. O homem passou a não saber mais como “ser homem”. Alguns começaram a encarar o risco mortal na prática dos esportes radicais como tudo o que lhes sobra de virilidade. Há outros que encaram a vida sexual como um lugar onde eles deveriam provar a sua masculinidade.

“Exceto se for um Colombo ou um Pizarro, a grande maioria dos homens vive entre a padaria, o bar, o escritório e a casa. E eles se relacionam muito mal com essa vida cotidiana.
É como se não devessem fazer isso”

O impulso das grandes realizações não é parte natural da psique masculina? Não foi ele que promoveu, por exemplo, a era das grandes navegações e as viagens no espaço? Esse sentimento teve dois preços. O primeiro foi a supressão do corpo. A ideia de sacrifício, de estoicismo, está sempre ligada aos heróis masculinos. O segundo preço está relacionado com a distância da vida cotidiana. A não ser que o sujeito seja um Colombo ou um Pizarro, a grande maioria dos homens vive entre a padaria, o bar, o escritório e a casa. E eles se relacionam muito mal com essa vida cotidiana. Uma grandíssima parte de sua existência é sempre vivida como se não fosse o que eles deveriam estar fazendo. Isso não acontece com as mulheres. Elas têm um saber prático, de apreciação da vida. Para eles, é como se fossem obrigados a se acostumar com uma mediocridade que não é verdadeiramente o seu destino.

E todos os bons maridos e bons pais, que constroem uma vida em comum, dividem tarefas e parecem muito satisfeitos? Os homens se adaptaram muito bem à prática de compartilhar a função de provedor com a mulher e mesmo à de dividir as atribuições materna e paterna. Os dois hoje educam e cuidam dos filhos juntos. Ela pode dar muito mais regras e instruções às crianças do que o homem, e ele pode acompanhá-las até o colégio, dois hábitos que, até pouco tempo atrás, eram feitos de maneira inversa. Evidentemente que com alguns percalços, mas tudo isso tem funcionado. O grande descompasso do homem contemporâneo está em outro lugar. Para ele, mesmo que esteja empregado em um lugar bacana, que esteja ganhando tudo de que precisa e pagando todas as contas, ainda o persegue o fantasma, fruto da tradição, de que ele não está dando tudo de si.

Um exemplo prático, por favor. O sujeito está se matando no trabalho, mas lamenta o fato de não ser um Indiana Jones. A mulher pode achar isso engraçado, mas para o homem não é. Na média, ele pode ter tudo o que quiser, casa na praia, viagens para o exterior uma vez por ano, mas lhe falta a dimensão de heroísmo. Ele não toca nem de perto a constelação de imagens que culturalmente constituem o universo de figuras masculinas com as quais sonhou. O que ele quer, acima de tudo, é uma dimensão de aventura. Uma dimensão na qual ele tem de dar provas extremas de bravura, de coragem, de desprendimento, em circunstâncias extremas.

Ah, mas as mulheres reclamam de maridos que nem sequer compram um bujão de gás. Em primeiro lugar, preciso esclarecer que, quando digo que os homens estão oprimidos, não acho que o sejam necessariamente pelas mulheres. E nem estou negando que tenham sido, por um longuíssimo período, os opressores delas. Posto isso, acredito que estão certíssimas em reclamar. O homem tem uma enorme incapacidade de lidar com a vida prática. É muito difícil comprar o gás se você está viajando naquele momento, querendo ser dom Pedro às margens do Ipiranga. É isso que está na cabeça deles na hora do supermercado.

Por falar no que vai na cabeça deles, que informação importante, do ponto de vista da sexualidade, as mulheres ignoram? O mundo das fantasias masculinas é muito grande. Não existe um homem que consiga ter uma vida sexual sem que ela seja organizada por fantasias. Alguns casais conseguem compartilhar essas fantasias. Mas na maioria elas são completamente silenciadas. Os homens acham que não têm espaço para falar sobre o assunto e vivem uma vida de casal em que frequentemente a mulher aparece como a mãe que poderá a qualquer momento surpreendê-los fazendo algo errado e feio. Isso definitivamente não é a receita de um casal feliz. Mas é uma posição na qual as mulheres entram com facilidade. As fantasias para o homem fazem com que ele mantenha o desejo vivo, inclusive o desejo por sua própria mulher. E isso é muito difícil de ser entendido pelas mulheres, porque o erotismo para elas não funciona da mesma maneira. Um casal que não compartilha suas fantasias incorre em dois riscos. O primeiro, claro, é o de o homem tentar realizá-las fora de casa. O outro é o de o interesse sexual se acabar. O casal começa a ter relações sexuais uma vez por semana, depois uma vez por mês e termina virando amigo. O que não é algo necessariamente ruim. Mas simplesmente não precisa ser assim.

As mulheres devem tentar chegar mais perto dessas fantasias? Esse é um conselho difícil de dar. Até porque muitas vezes as fantasias do homem são ligadas a uma mecânica de poder e podem parecer estranhas até para ele mesmo. É um clássico, por exemplo, a fantasia de ter relações com a mulher em um local público, aos olhos de todos. Mas a grande função das fantasias na vida do casal é a de serem ditas, e não necessariamente a de serem realizadas. O papel da fantasia é manter o desejo vivo entre os dois.

Em que medida o homem se sente responsável pelo prazer da mulher? Eu acho que essa é uma declaração mais moral do que científica. Mas o homem é responsável, sim, pelo prazer da sua mulher. Além disso, ele se sente responsável por esse prazer. Essa é uma das expectativas que pesam em cima dele.

Não é importante para a imagem que os homens têm de si mesmos propiciar esse prazer? No sentido darwiniano, não. Darwin diria que o homem que sente essa responsabilidade perde tempo em muitas atividades que não são necessárias para a reprodução. Mas, emocionalmente, o homem que não gosta de dar prazer à sua mulher é, sim, pouco evoluído, quase primário.

“O homem espera que a mulher participe de seu entusiasmo. Seja para fazer uma viagem longa e largar o emprego por um ano, seja para comprar uma televisão enorme. Ele gostaria que a mulher não colocasse o peso dela para matar seus sonhos”

Não havia muito mistério no que um homem do passado esperava de sua mulher. Mas o que ele espera dela hoje? A coisa mais importante é que ela seja a companheira que lhe permita pelo menos cultivar os seus sonhos, mesmo os mais estranhos e, eventualmente, ir atrás deles. Ele espera que a mulher participe de seu entusiasmo. Seja para fazer uma viagem longa, em que eles tenham de, por exemplo, largar o emprego por um ano, seja para comprar uma televisão enorme, cara e aparentemente desnecessária. Ele gostaria que a mulher não colocasse o peso dela para matar seus sonhos.

É, de fato, muito difícil para o homem aguentar o fato de que sua mulher ganha mais do que ele? Sim, há homens para quem isso é um problema. Eles se sentem atingidos na tentativa de salvar o que lhes restou da posição de provedor. Pior ainda é aguentar que a mulher e os filhos dela com um primeiro marido recebam ajuda financeira desse cara. O atual marido tem horror de se sentir o amante da mãe, provisoriamente hospedado naquela casa. Acha que, se ele não está bancando tudo, não vai conseguir ocupar nem a função de marido nem a de padrasto.

O homem ainda mente muito sobre sexo? Sim, sobretudo dizendo que pensa nisso mais do que verdadeiramente pensa. O homem mente porque um dos lugares onde ele joga e arrisca sua imagem masculina é no sexo. Ele mente também sobre o caráter aventuroso dele e sobre a própria intensidade de seu interesse por sexo. Ele vive tentando demonstrar que o sexo está constantemente presente na cabeça dele, o que muitas vezes não é verdade. Isso porque a intensidade de seu desejo é uma demonstração de virilidade. Para a mulher, de alguma forma, é mais fácil. Mesmo às que têm uma vida sexual pobre não faltam ocasiões em que podem se assegurar da própria feminilidade. Um exemplo claro é entrar em um restaurante e ver que há vários homens olhando para ela. Já para o homem, isso não é tão fácil. Para se assegurar de sua masculinidade é necessário que ele cultive seu desejo sexual.

Dá para dizer, afinal, o que os homens querem? A queixa dos homens é que, agora, elas não têm mais tempo para eles. Que não cuidam mais deles. E a verdade é que eles querem muito ser cuidados.

Não est@mos sós

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A internet como extensão do corpoEstamos conectados de várias formas. Orkut, Twitter, MSN, Facebook. A ideia de privacidade está sendo refeita. Vivemos na era da exposição e o público e privado começam a se confundir. Saímos da invasão de privacidade vista como um problema para a evasão de privacidade entendida como uma necessidade. As pessoas não param de falar e não querem parar de receber. Elas querem se exibir e querem ver. Tudo.

A narrativa do cotidiano, o diário on-line, a rádio e TV viraram pessoais. É a comunicação do trivial.  Expor, receber e partilhar pela internet parece ser a nova exigência social do século XXI. A busca por essa nova discursividade do virtual começa a ser  estudada por pesquisadores que, nas opções lógicas,  são adesistas, catastróficos ou relativistas. Alguns dizem que o aumento do uso das redes sociais ocorre porque a  internet permite que se tenha “microfama” num mundo da celebração do holofote. É uma hipótese.

Sou um observador atento de tudo isso. Gosto de tecnologia. Meu primeiro computador foi um TK-85, em 1984. Meu primeiro celular foi um tijolo da Motorola, em 1992. Meu aparelho de telefone atual tem Wi-fi, Bluetooth e toca MP3.  Ao mesmo tempo em que sou usuário, penso, por dever de ofício, no que tudo isso representa do ponto de vista social. O sujeito social está mudando com o novo cenário. Nada para se apavorar, ainda que para os que nasceram antes dos anos 1970 o aprendizado assuste mais. Quem nasceu depois já naturalizou a mudança. Quando disparo minha Nikkon digital, minha filha de dois anos pede para ver como ficou a foto. Simples assim.

Nos movimentos conceituais da sociedade sempre há ganhos e perdas. Na passagem da sociedade nômade para a agrária, ganhou-se em tecnologia de alimento e perdeu-se em exploração geográfica. Com o advento da revolução industrial, ganhou-se em produtos que aumentaram a qualidade de vida e perdeu-se na desigualdade social que o capitalismo trouxe. E agora, com a explosão da cibercultura, o que se ganha e o que se perde? São perguntas que os estudiosos estão se fazendo, alucinados para compreender tudo isso.

Arrisco meu pitaco. Ganhamos em instantaneidade, em sociabilidade e em acesso à informação. O avião caiu no Rio Hudson e dois minutos depois tinha uma foto no Twitter enviada por celular por alguém que estava numa balsa por perto.  Acabo de conhecer uma prima de Fortaleza que me achou no Orkut. Fui avisado pela lista de discussão da Comunidade Virtual da Linguagem (CVL) que dois novos livros na área de discurso foram lançados. Como o volume de informação aumentou exponencialmente, precisamos exercitar a capacidade cognitiva para lidar com tanta informação sem nos afogar nelas.

E o que perdemos? Perdemos fundamentalmente a capacidade de estar sozinhos. Há sempre uma conexão por perto, um SMS no celular,  um scrap no Orkut. Sem isso, temos crises de abstinência. O exibicionismo e voyeurismo típicos da rede criaram um Big Brother particular. Não ter um e-mail é não ser cidadão virtual. É ser um sem-arroba.

Fato é que isso tudo esta aí, criando novos desejos, novos mundos, novos sujeitos, novas linguagens. Nós estamos no meio dessa pororoca de bits & bytes. Nunca sós. E você, leitor, tem MSN? Orkut?

Contardo Calligaris

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Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo, ontem:

Zoé e o demônio do meio-dia


O demônio do meio-dia é o tédio moderno, efeito de um mundo com poucos mistérios


DESDE PEQUENA, Zoé, 9 anos, adora filmes e histórias de terror. Seus pedidos espantam a moça da locadora de DVDs, que, provavelmente, duvida da sanidade mental dos pais.
De fato, Zoé assiste com prazer a filmes que, às vezes, deixam insones seu irmão mais velho, suas baby-sitters e mesmo sua mãe. Talvez Zoé seja cinéfila a ponto de assistir aos ditos filmes com o distanciamento de um crítico dos “Cahiers du Cinéma”. Ela desmontaria os “truques” destinados a produzir espanto nos espectadores e, com isso, os filmes lhe proporcionariam uma experiência parecida com a de um bom exorcista: ela venceria o mal desvendando seus estratagemas.
Mas a paixão de Zoé pelas histórias de terror tem outra explicação possível, que me apareceu quando Zoé quis que sua festa de aniversário fosse o cenário de um filme.
Com a ajuda de um cineasta amigo da família, Zoé e seus convidados foram co-autores e protagonistas de um curta que, claro, é a história do aniversário de uma menina, durante o qual um monstro diabólico e sedento de sangue etc.
Graças ao filme (que, aliás, é bem legal) pensei o seguinte: talvez Zoé queira sobretudo convencer-se de que sempre, mesmo no dia ensolarado de seu aniversário, há zonas de sombra, por onde andam seres repugnantes e perigosos. Alguém perguntará: “Mas por que ela gostaria de pensar assim?”
Pois é, eu acho que essa idéia é, para qualquer um, uma fonte de alívio. Explico por quê.
O Salmo 90 (na numeração Clementina) expressa a esperança de que Deus nos guarde tanto das abominações “que circulam pelas trevas” quanto “do demônio do meio-dia”. Sobre o tal demônio do meio-dia muito foi escrito e dito: diferente dos diabos que se escondem nos cantos escuros, o que será esse malefício que nos espreita justamente quando o sol está no zênite e o mundo nos aparece sem sombras?
Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios.
Em outras palavras, as luzes da razão e da ciência acabaram com aquele sentido que só uma transcendência (divina ou diabólica, benéfica ou maléfica, tanto faz) podia conferir à vida. Por excesso de luz, em suma, o mundo perdeu seus horrores, mas também seu encanto; com isso, é preciso que Deus nos proteja do demônio do meio-dia, ou seja, do tédio e da tristeza.
Ao inventar cantos escuros e ao povoá-los de “troços” inquietantes, Zoé está se protegendo contra o demônio do meio-dia -com toda razão, pois esse é provavelmente o mais pernicioso de todos. Muito melhor se deparar com Freddy Kruger do que não achar graça no mundo.
“Filosofia do Tédio”, de Lars Svenden (Zahar), é uma brilhante meditação sobre a dificuldade moderna em nos interessarmos pela vida, uma vez que ela não é mais justificada pela palavra divina ou por nossa luta heróica contra os “troços” que circulam pelas trevas. Para Svenden, contra o tédio, ainda não inventamos nada melhor do que o remédio do Romantismo: uma mistura de anestesia (drogas lícitas e ilícitas) com transgressões que deveriam provar que estamos vivendo grandes aventuras e experiências “incríveis”. Se for para escolher, prefiro os esforços de Zoé para repovoar o mundo de monstros e demônios.
Mas há uma terceira via. Li, nestes dias, “O Olho da Rua”, de Eliane Brum (Globo). Brum, repórter especial da revista “Época”, reúne dez grandes reportagens escritas entre 2000 e 2008. Fazia tempo que um livro não me tocava tanto. Que Brum fale das parteiras do Amapá, da guerra em Roraima, dos velhos da casa São Luiz para Velhice, ou mesmo que ela acompanhe o fim da vida de uma paciente terminal, seu texto é uma verdadeira alegria – pois ele nos lembra, simplesmente, que o mundo importa, que ele vale a pena. Como ela consegue?
O tédio moderno é uma forma de arrogância: a vida é chata porque nós seríamos maiores que sua suposta trivialidade insossa; tendemos a menosprezar o cenário onde nos toca viver, como se ele fosse demasiado banal para nossas façanhas. Pois bem, o segredo de Brum é o oposto disso, é uma extraordinária humildade diante do que existe.
Quando Zoé cansar de inventar monstros para dar sentido ao mundo e à vida, vou lhe sugerir o livro de Eliane Brum.