Colhendo amoras

06/06/2010

“E ninguém sou eu. E ninguém é você. Esta é a solidão”.
Clarice Lispector

É clássica a história de que os esquimós têm várias palavras para se referir ao gelo: gelo para construir iglu, gelo de neve, gelo para a coca-cola. As línguas recortam o mundo de forma diferente. Os amazonenses, por exemplo, têm suas nuances na linguagem das águas. No campo semântico de “rio”, há “igapó”, “igarapé”, “furo”, “paraná”, “pari”, “braço”, para citar alguns.

Fato é que quanto mais línguas uma pessoa fala, mais relativiza os sentidos de sua língua materna. Ao entrar em outro universo simbólico e perceber que o mundo pode ser recortado e lido de outras maneiras, sai-se do (des)conforto de sua língua para o (des)conforto dos sentidos plurais que uma outra língua descortina.  Há uma inegável correlação: quem fala mais línguas tende a ser mais tolerante com os sentidos do mundo do que quem não fala. Tem mais janelas para ver a paisagem e a janela faz parte da paisagem do sentido.

Caetano Veloso exagera quando diz que “está provado que só é possível filosofar em alemão”. No entanto, há idiossincrasias linguísticas interessantes. O “saudade” do português dá de goleada na expressão do banzo pela ausência de alguém frente ao “I miss you” do inglês, ao “te echo de menos” do espanhol ou ao “tu me manques” do francês. Não é a mesma coisa. Não tem o mesmo peso.

Linguista de formação, longe de mim afirmar que há línguas melhores e piores, mais fáceis ou mais difíceis. Claro que não há. Mas há formas mais poéticas de recortar o mundo. No tupi, “catapora” quer dizer “marca de fogo”. Quem teve catapora sabe como isso é preciso. “Tupuy” significa ao mesmo tempo “ser” e “som em pé”. Nessa língua, ser e linguagem são uma coisa só. Em tupi ainda, “choram-se as pitangas” quando a dor é grande, uma expressão que o português também herdou. Pitangas são vermelhas. Metaforizam lágrimas de sangue. A dor é aguda. Dá licença, é poesia pura.

Esse preâmbulo todo é só para falar da diferença que a língua inglesa faz daquilo que a portuguesa chama de “solidão”. O que o português resume em uma, o inglês desdobra em duas palavras: “loneliness” e “solitude”.

Há momentos em que queremos alguém, buscamos companhia. Queremos dividir as dores do mundo. Ou suas alegrias. Queremos aquele abraço analgésico, um cafuné terapêutico, o ouvido para desaguarmos nossos desenganos. Queremos um ser amigo que empreste a fundo perdido o ombro ou o colo para o recosto da cabeça pesada de coisas, ardendo de ideias mentoladas a inquietar nossa paz. Mas olhamos para todas as direções e essa pessoa simplesmente evadiu-se da nossa rosa dos ventos. Ela não há. “Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amora”, como reclama a poetisa Sylvia Plath. É a solidão. E solidão, não se engane, não se resolve com a presença do corpo. É preciso que a alma esteja lá para dialogar. Há solidões em meio a multidões. Essa solidão de que falamos aqui é uma solidão estéril em sua busca. Queremos alguém, mas não temos. Procuramos, mas não achamos. É a “loneliness” do inglês.

Por outro lado, há o momento de saturação. O mundo transborda para dentro de nós de tal jeito que a possibilidade de sobrevivência passa necessariamente por se descolar ao máximo dele. Porque ninguém serve e todos atrapalham. Qualquer coisa é demais. Vem aquela vontade recorrente de se ausentar por uns tempos, de hibernar a alma em algum lugar inacessível às nossas redes sociais para depois, quiçá, voltar. Uns não suportam o caminho de volta e por lá ficam. Como Sylvia Plath, Virgina Woolf, Hemingway, Kurt Cobain, Raul Pompéia e tantos que prefiram a solidão eterna. É uma hora em que explicações perdem a valência: não vale a pena relatar ao mundo o que se passa porque ninguém vai entender mesmo. A única companhia que queremos é a do silêncio de nossos gritos internos. Ou do barulho de nossos silêncios externos. Buscamos o livro mais alto e mais grosso na estante de nossa vida para nos enfiar entre suas páginas de forma que fiquemos inencontráveis. O desencontro é o combustível. Quando Picasso fala que “não se pode fazer nada sem a solidão” é a esse tipo que se refere. A solidão desejada. Nós temos alguém, mas não queremos. “Solitude”.

Aristóteles, que também supostamente foi e não quis voltar, disse que “o homem solitário é uma besta ou um deus”. A dualidade da solidão depende da incapacidade de se ter alguém ao lado ou da divina capacidade de marcar um encontro consigo e só consigo para dançar de olhos fechados as bachianas no seu interior. Antes que alguém reclame de que a solidão não combina com o amor, Rainer Rilke, poeta alemão, mata a pau: “O amor são duas solidões protegendo-se uma à outra”.

Clarice Lispector, que começou o texto lá em cima, vem para terminá-lo cá embaixo: “Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa”.

É. Danço eu, dança você, na dança da solidão…


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