Superação

Tornar-se possível

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SuperaçãoO escritor francês Jean Cocteau escreveu uma frase muito citada por aí: “Ne sachant pas que c’était impossible, été là et fait”. Na língua de Machado de Assis seria algo como “Não sabia que era impossível, foi lá e fez”. O que gosto nessa frase é que ela desloca as coisas de fora para dentro.

Passar por problemas na vida não é privilégio de ninguém. Todo mundo, cedo ou tarde, vê uma dificuldade aparecer no caminho. Todos nós nos deparamos com inevitáveis pedras no meio do caminho porque no meio do caminho tem sempre uma pedra, já avisava Drummond. Até aí é igual para todo mundo, em Manaus ou Fortaleza, Macapá ou Marabá, Ipatinga ou Itatinga. O que se faz com a situação é o que vai fazer a diferença.

As duas opções lógicas: dar-se por satisfeito e se acomodar ao script da vida ou, como na frase do escritor francês, ir lá, virar o jogo e fazer acontecer, principalmente quando todo mundo acha que dali não sai mais nada.

Quando a gente se deixa levar pelo que vem de fora, muitas vezes estanca no “impossível”. Não se move, não se mexe, paralisa a vida, o corpo, a mente, a alma. Mas quando a vontade é interna, quando vem de dentro, a gente dá um jeito. Se repensa, se refaz, se remexe e se reinventa. São as histórias que as revistas publicam sob o rótulo de superação. Porque é isso mesmo. É uma super ação que move o mundo.

A gente se supera. A gente se supera como autossabotadores. A gente se supera como um falso feliz com a vida. A gente se supera como um procrastinador profissional. A gente se supera simplesmente por não se querer só naquilo, mas por morar eternamente na querência do algo mais.

Minha mãe resolveu fazer faculdade depois de ter todos os filhos. Aí, depois de formada, resolveu estudar e fazer concurso para professora da universidade. Sua obstinação mudou nossa vida qualitativamente e deu um belo recado sobre o valor da educação nas nossas vidas. Há um claro e incontestável antes e depois na nossa família. Vai sem dizer que todos querem melhorar de vida. Mas melhorar de vida precisa ser entendido de forma mais ampla do que apenas melhorar financeiramente, o que é importantíssimo. Mas é mais. Por isso tantas pessoas hoje buscam fazer uma faculdade depois da época devida porque não lhes foi dada a chance naquela época, porque foram priorizadas outras coisas. Por isso tantas pessoas descontentes consigo dão uma guinada e começam de novo em busca da satisfação pessoal. Romper com o comodismo é para os fortes. Às vezes sangra.

É preciso ter a coragem de viver uma vida que a gente queira e não que os outros queiram para nós. É preciso ter a coragem de não trabalhar tanto para realizar seu velho plano. É necessário ter a coragem de expressar seus sentimentos de forma clara antes que seja tarde. É fundamental não deixar de viver momentos com sua família e amigos por conta de pequenas coisas. É, enfim , preciso se deixar ser mais feliz. A decisão é nossa e de mais ninguém. Tornar-se possível é o desafio da vida.

Uma das cenas mais bonitas e marcantes do cinema tem Will Smith dando um conselho a seu filho no filme “À procura da felicidade”, ele próprio uma bela história de superação. Diz ele ao menino: “Nunca deixe que alguém te diga que não pode fazer algo. Nem mesmo eu. Se você tem um sonho, tem que protegê-lo. As pessoas que não podem fazer por si mesmas dirão que você não consegue. Se quer alguma coisa, vá e lute por ela. Ponto final.” Tudo é realizável. Tonar possível é uma escolha. Basta não dar ouvidos aos que dizem que o seu sonho é impossível. E mudar o foco para dentro. Aí é só ir lá e fazer, como disse Cocteau. Simples assim. É querer e fazer. Como a minha mãe. Como a mãe de muita gente. Gente que se tornou possível. E se fez feliz.