tempo

Tempo

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Ontem o tempo voava, escorria pelas mãos. Hoje o tempo vem e vai à velocidade dos zeros e uns, à velocidade da luz. Nossos olhos acostumados não o veem mais porque não têm fôlego para acompanhar o novo tempo, esse alucinado. Por mais destras que sejam, nossas mãos não conseguem mais pegá-lo, nem pelo instante ilusório um pouco antes de ele se esvair por entre os dedos. Porque ele não se esvai mais. Ele é impegável. O tempo, que já foi sólido lá atrás, acaba de deixar de ser líquido: agora ele é holográfico. O presente foge em fast forward e o futuro não passa de um desejo abstrato, uma ficção. Tudo é já sempre passado. Por isso estamos todos correndo para a nostalgia ou um mashup dos tempos, num steampunk que alivie as dores. Para lidar com o inelutável, nos resta viver pela intuição. Assim, perdemos menos a vida, que, como de costume, segue os caprichos do tempo.

Meia-noite em Paris

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Filme bom para mim ou me faz chorar ou me faz ter vontade de escrever sobre ele imediatamente.  Meia-noite em Paris, de Woody Allen, está nessa segunda categoria.

À medida que o filme vai rolando na tela, a cada recado dado, a palavra “genial” se apresenta à mente, se repetindo num loop que continua quando sobem os créditos.

Resumindo ao osso a história: Owen Wilson interpreta Gil, roteirista de Hollywood que está passando férias em Paris com a família da noiva, Inez (a belíssima Rachel McAdams), que cai na conversa de um pseudointelectual pedante (Michael Sheen, ótimo especialista em tudo), antigo namorado da faculdade. Gil adora a Cidade Luz. É lá que ele se conecta com a grande arte, longe dos enlatados encomendados de Los Angeles. Seu sonho era viver nos anos 1920, quando F. Scott Fiztgerald, Hemingway e  Picasso circulavam por ateliês e cafés da cidade. Certa noite, Gil misteriosamente realiza esse sonho e passa a conviver com essas figuras da cultura do início do século. Sempre ao badalar dos sinos da meia-noite, um carro antigo passa e lhe apanha em direção a Paris dos anos 20. Lá, além dos três ícones da arte mencionados acima, bate-papo com Buñuel (dando dica do roteiro para O Anjo Exterminador) e com o surrealista Salvador Dalí, dança com Djuna Barnes, é pupilo literário de Gertrude Stein. Senta-se a uma mesa no Moulin Rouge com Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Ouve Cole Porter cantando Let’s do it (Let’s fall in love).

A vontade de viver em tempos anteriores é o mote. Sempre tendemos a achar que o que veio antes foi um tempo melhor. Gil queria a Paris dos anos 20. Adriana (a bela Marion Cotillard), a moça dos anos 20 por quem se apaixona no tempo paralelo, queria a Belle Époque, ou seja, uma época anterior à dela. E, meta-viagem, para lá vai e  fica porque sempre achou que naquela época é que as coisas aconteciam. Ela se afasta de Gil ao saber que ele está noivo. Mas ao retornar a 2010, num “bouquiniste” às margens do Sena, Gil acha um livro de memórias que Adriana teria publicado. Ao lê-lo, ou melhor, ao pedir a uma guia de turismo (Carla Bruni, linda também) para traduzi-lo, ele fica sabendo se a moça gostava dele ou não. A inquietude com seu tempo é a marca da inquietude do ser humano com aquilo que lhe é possível. Sempre há quem ache que nasceu anacrônico, fora de seu tempo. É o caso de Gil. É o caso de Adriana. É o meu caso, às vezes.

Eu sou um nostálgico inveterado. Gosto da minha infância, gosto dos anos 80 da minha adolescência. Mas é diferente. Nostalgia em relação a um tempo em que se viveu é diferente de nostalgia de um tempo ido antes de nascermos, como no filme. Adoro ver os castelos e construções milenares, me delicio com a história de prédios e lugares que ainda guardam em si a pátina de um tempo em que não vivi. Sinto-me meio que em casa em construções antigas. Talvez os espiritualistas lidem melhor com essa sensação. Talvez essa sensação de pertença se explique porque, de alguma forma, estivemos por lá.

O medo da morte que o protagonista carrega parece ser o que lhe motiva a voltar no tempo e adiar esse dia que o certo para todos nós. A morte é uma certeza desagradável. Talvez os espiritualistas não o achem pela racionalização de fé na reencarnação. Não queria morrer, mas vou. E daí? Mas para além da morte biológica, há a morte em vida, que, para mim, é a incapacidade de compreender que o nosso tempo é esse em que respiramos. Saber vivê-lo com o que é possível, descobrir nos detalhes ignorados suas delícias e nas topadas inevitáveis a sabedoria, sorver a atmosfera das pessoas e da cultura que caminha passo a passo conosco é o desafio de se viver em paz e esperar a morte como o ponto final de um livro bem escrito, de uma história de que vale a pena ser protagonista.

No entanto, se viver o presente é condição sine qua non para ser feliz, viver só o presente é insuficiente para quem não tem limites para sonhar. É por isso que o filme me agrada.   Quem gosta de escrever, gosta de sonhar: outras pessoas, outros mundos, outras histórias, outras realidades. Sem, claro, despregar-se da sua realidade sob o risco do rótulo da loucura. A linha é tênue, mas cheia de adrenalina.

O que Woody Allen faz o tempo todo, com um filme com uma belíssima fotografia, é nos lembrar que o passado, mesmo o não vivido, nos compõe. Que pessoas, mesmo as distantes, nos dizem respeito. E que o melhor tempo é o hoje. Esse é o seu recado no filme: carpe diem! Porque o passado já foi. E o futuro, não o conhecemos ainda.  É de raízes e asas que somos feitos. “Ainda que sejam esses tempos difíceis para sonhadores”, num intertexto inevitável que me permito fazer com Amélie Poulain.

O filme termina com a frugalidade de um passear de Gil à meia-noite em Paris. Na chuva. Em companhia de alguém que lhe entende. Ao discutir o passado, é a beleza frugal do presente o recado de Allen. O presente! É o presente! Genial…

Resposta ao tempo

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O tempo gosta de nos ensinar algumas coisas quando já estamos ficando velhos. Inteligente é quem usa o aprendizado para melhorar a qualidade de vida. Triste de quem não aprende com a trilha da própria existência.

Entre algumas lições, aprendi, com a meia idade, que amor bom é o amor manso. Nada de ciúmes desgastadores, brigas agressivas, dormir sem se falar. Nenhum amor vale a pena se o sofrimento é maior do que o sorriso manhoso e cúmplice da companhia escolhida. A paixão, ao contrário do andam pregando por aí, não é agoniada, rápida, falta de controle. A paixão mesmo, que os mais velhos conhecem, é tranquila,  se demora, é dirigida e digerida. A paixão é materialização do amor real. Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

O senhor tempo me ensinou também a entender a história. Um dia já fui possessivo, insuportável. Queria saber tudo de todos, controlar o mundo. Ser eu a escrever os textos alheios. Hoje, se sei o suficiente para ser feliz, agradeço ao bom Deus antes de dormir. É o que me basta para começar um  novo dia.  Não posso controlar o que os outros pensam e dizem, mas tenho absoluto controle sobre como reajo a isso. Esse é meu campo de ação. É aqui que eu me equilibro. Santa descoberta! Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

Já tive ciúmes retroativos de quem amei, achando que esse ciúme de uma vida da qual não fazia parte era prova de que meu amor era grande, transcendia o tempo. Ledo engano. Boba ilusão. Quem eu amo não seria quem é sem ter percorrido seus caminhos e desviado por seus descaminhos. Como eu. Por um capricho do destino, cruzei no Twitter com a sobrinha de uma paixão antiga, minha quase ex-futura sobrinha. Foi bom lembrar. Concluo que  o que passei e senti com outras mulheres só apurou e decantou meus quereres para usar hoje, com a Bia. Simples, hein! Mas por que a gente só entende depois de certo tempo?

Aprendi que o relacionamento com quem se gosta passa necessariamente por si. Como gostar sem se gostar? Primeiro é nós, Queiróz. Egoísmo? Nada… A máscara de oxigênio primeiro na gente e depois no outro para encarar as despressurizações e pressurizações do avião da vida. Fortes, somos fortes para amar. Fracos, somos fracos para amar. Se o outro não nos fortalece, nos enfraquece. Lógica. E se enfraquece, ficar juntos não é masoquismo? Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

Pois é. Meu toque, do alto dos meus quarenta anos: apaixone-se sem controle para aprender e apreender a paixão mansa. Gaste toda sua possessividade para saber que o amor real não prende, não tira o ar. Ao contrário, o amor dos vera dá e quer pastos, quer correr nos campos, sem amarras, sem coleiras, sem cóleras. Quer ir para poder voltar. E volta porque quer. Porque se sente aconchegado. Porque se sente pertencido. Quanto ao cíume, tenha ciúmes, mas um ciúme manso, regulador de seu querer e não do querer do outro. Ciúme raivoso é a gota de fel que azeda o doce néctar da vida a dois. Por fim, se ame. Obamamente, Yes! We can! Vá lá e faça. Seja feliz. Sem ser feliz essa coisa doida de viver não vale a pena. E para isso não precisa esperar a lição do tempo. Basta olhar com olhos com querência de aprender para qualquer criança. As crianças nos ensinam que a felicidade é simples como uma caixa de fósforos, que num desejo vira uma casinha de uma família grande, de gente igual, magra e cabeçuda.

O rabisco do mapa de seus caminhos é feito por você. Ainda dá tempo de tomar o lápis dos outros. Há sempre um tempo para quem se perdeu ter nova chance de se encontrar. Há sempre tempo para tomar as rédeas de seu tempo. Tempo. É a palavra-chave. E aí? Vai ficar aí parado? Não vai dar sua resposta ao tempo?

Onde Deus possa me ouvir

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Texto escrito para o portal D24AM.

Sabe o que eu queria agora, meu bem?/Sair, chegar lá fora e encontrar alguém/que não me dissesse nada/não me perguntasse nada também./Que me oferecesse um colo ou um ombro/onde eu desaguasse todo desengano/Mas a vida anda louca,/as pessoas andam tristes,/meus amigos são amigos de ninguém./Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?/ Morar no interior do meu interior/Pra entender porque se agridem,/se empurram pro abismo,/se debatem, se combatem sem saber…/Meu amor, deixa eu chorar até cansar/me leve pra qualquer lugar/aonde Deus possa me ouvir/Minha dor, eu não consigo compreender/eu quero algo pra beber/me deixe aqui, pode sair./Adeus.

Há horas em que as horas se arrastam. Há dias em que tudo o que queremos é encontrar alguém que não nos diga nada, que só nos ofereça um colo, um ombro, um cafuné e seu olhar de colchão. Alguém que saiba quando calar para que nossos silêncios falem. Alguém cuja presença seja a estaca que segure a nossa alma, completamente tomada de hera dos fatos pesados da vida. São dias sem sol em que a sombra certa é tudo que desejamos que repousasse sobre nossas cabeças.

Todos nós, vez por outra, precisamos desaguar nossos desenganos. Queremos alguém que seja o receptáculo solícito de nossas angústias, tristezas e aflições. Mas quem? Por onde andará essa pessoa, com o dom e a sensibilidade de saber que a desculpa mais esfarrapada para deixar de viver é o máximo que conseguimos criar e, mesmo assim, ainda acredita em nós? Olhamos para os lados e o que vemos são pessoas e mais pessoas. Elas nos acompanham e no meio delas somos o mais sozinho ser do universo. Porque as pessoas andam tristes e na sua tristeza os amigos tornam-se amigos de ninguém.

A vida fica louca e sai do eixo. A vida parece que tem vida própria e independente de nós. Ficamos a seu reboque. Pagando com a alma se preciso for, queremos comprar a primeira passagem para o interior de nosso interior. Lá, talvez, a contemplação do silêncio ajude a entender porque as pessoas fazem o que fazem, por que tanto desentendimento em tempos de linguagem farta, por que se empurram para os abismos numa beligerância sem nexo, por que se debatem gratuitamente e se combatem com afinco sem saber.

Há momentos da vida em que queremos chorar até cansar. A esperança é que aquela sensação boa de depois de um choro venha enxaguar a sujeira que se acumula na casa desarrumada de nossa alma. Que ela faça uma faxina de quem tem TOC e devolva a cada coisa sua simetria perfeita no esquadro da existência. Porque está tudo bagunçado, está tudo confuso. Não achamos nem a porta para fugir. Ou até achamos, não temos mesmo é força.

Nossa via-crúcis particular não termina. Que droga! Por que não nos penduram logo numa cruz para acabar com esse tormento que martela de forma chinesa nas veias, no corpo, na mente? Quantas estações teremos que passar aguentando chibatadas e açoites que parecem ter combinado o tempo sincronizado para acertar as nossas costas?

Há tempos em que parece que estamos num casulo de Dante. Nem Deus consegue nos ouvir. A Ele, que ouve até nossos silêncios, lhe escapamos . E cadê a pessoa para nos carregar no colo até um lugar onde Ele possa sentir nossa respiração? Porque Lhe basta isso para olhar para nossas inquietudes e apaziguá-las…

A vontade nesses dias chuvosos é de se deixa encharcar. Sumir dos olhos de todos, buscar escapes, chutar o balde. Dar adeus a quem mais nos quer bem. E a quem definitivamente não nos quer bem. Mas não é sábio.

A vida de todo mundo é assim. Eu já vi fogo e eu já vi chuva. Eu já vivi dias chuvosos que pensei que jamais terminariam. Talvez vocês, meus dezessete leitores, não saibam, mas já cheguei muito perto, mas muito perto de renunciar à vida, quando estive afogado em certo dilúvio que me inundou a existência.

Depois o sol abriu. E com ele as cores do arco-íris. Porque é assim. A vida de todo mundo é assim. Vivemos os céus mais azuis e os infernos mais quentes intercalando-se na calada da vida. Vivemos a doçura mais deliciosa e o amargor do fel de ocasiões que chegam em bando, em gangue, para nos roubar a paz e nos estuprar a tranquilidade.

Ao descrever um momento acre da vida, a música de Vander Lee na belíssima voz de Gal Costa nos lembra, por tabela, que há momentos felizes, momentos de sorrisos fartos. A vida é agridoce. Se entendermos que é assim, talvez soframos menos. Talvez. Em minha felicidade, entendo a crítica de que sou suspeito para falar de tristeza.

Finício de Moraes

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Em “Uma Breve História do Tempo”, Stephen Hawking afirma que só o tempo (seja lá o que for isso) tem as respostas.  A deixa: dependendo de como encaramos o tempo, os fatos tomam sentidos diferentes. Para mim, há duas formas de significar fatos: vê-los no tempo cronológico, privilegiando “chronos”, ou vê-los no tempo contínuo, rendendo-se ao “aevum”.

Tomando os fatos como partes do “aevum”, tempo contínuo, tenderemos a distendê-los indefinidamente, fazendo com que funcionem como fios tramados que atravessam nossa existência e que, mesmo após ela, permanecem. Nesse modelo, esses fios são a nossa própria sustentação. Daí a necessidade de que tudo esteja sob controle para que possamos estar sãos e levar uma vida normal. Enquanto funciona a ilusão do controle, a coisa flui. Mas se um desses fios do continuum se rompe, arrasta com ele a rede de sustentação que possuíamos e que funcionava como viga-mestra de nosso equilíbrio, desnudando nossa impotência. Aí vem a instabilidade nos comportamentos. O desequilíbrio afeta o nosso juízo de ser no mundo. O senso comum chama isso de piração.

Por outro lado, considerando os acontecimentos como orquestrados por “chronos”, o tempo cronológico, a coisa muda. No “chronos”, os fatos são sucessões que se substituem. Mesmo havendo uma relação causal entre o antecessor e o sucessor, os fatos são vistos como nós de uma rede que funciona descentralizada, como a Internet. Se um desses nós se rompe, o efeito é somente o de uma instabilidade passageira cuja dor é diminuída pela certeza do conserto. Ciclos substituíveis infinitos.

Diferença fundamental: no “aevum”, cada fato é o todo e, por isso, crucial. Em “chronos”, cada todo se encerra no fato, que é só uma parte, por isso substituível. No primeiro, enquanto o sistema funciona tem-se segurança, mas vai-se ao luto quando uma parte pára. Porque o todo pára. No segundo, a possibilidade da falha sempre existe, mas tem-se a segurança da pronta correção da porção avariada, o que permite a sobrevivência.

E aí? Apostar na felicidade eterna sob o risco de morrer se ela não vier ou ter a certeza de que nada é para sempre e que a vida se refaz, sem, no entanto, viver a sensação da feliz eternidade? Segurança aconchegante com sofrimento fatal ou incerteza com regeneração certa? Afinal, as pessoas têm domínio sobre a forma de lidar com o real?   Creio que revezar entre os paradigmas ajuda a sustentar a vida e lidar com o para-sempre que não se tem ou com a falta da paz da certeza eterna.

O psiquiatra escocês Ronald Laing dizia que vivemos num momento da história em que as mudanças são tão rápidas que só começamos a ver o presente quando ele já está desaparecendo. Confesso que sempre fui mais “aevum” do que “chronos”. Mas porque precisamos viver nesse veloz jogo de espelhos refletindo novos “eus”, entrego-me cada vez mais a “chronos”, cheio de fins. Cada fim marca um início. Neologismo necessário, o “finício” remete a quem igualmente me entrego: Vinicius. Não dizia o poetinha que não seja “aevum”, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto “chronos”? É assim, não é? Bom, o tempo (seja lá o que for isso) dirá.

Darwin e o bico do tentilhão

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Tentilhões e seus bicos...Charles Darwin desenvolveu uma teoria da evolução biológica cujo motor é o fenômeno chamado “seleção natural”. Segundo a teoria, os organismos mais adaptados ao seu ambiente tendem a sobreviver e deixar descendentes, transmitindo suas características genéticas.

Na sua viagem a bordo do veleiro Beagle, Darwin passou pelas ilhas Galápagos, pertencentes ao Equador, durante seis semanas em 1835. Entre os animais que descreveu estavam os tentilhões, aves que têm uma grande variação em tamanho, forma do bico e hábitos alimentares. Existem tentilhões que têm bicos que lembram alicates, capazes de esmagar as sementes mais duras. Outros comem insetos, outros são vegetarianos e um deles, o tentilhão vampiro, dá bicadas para chupar o sangue de aves marinhas.

Segundo Darwin, os variados bicos dos tentilhões são diferentes respostas da natureza para lidar com diferentes necessidades de sobrevivência. Os bicos foram se alterando na medida em que a realidade alimentar foi se modificando. Lendo sobre isso, fiquei pensando nos nossos bicos.

É obvio que a sociedade em que vivo não é a mesma de 1968, quando nasci. Não é a mesma nem de 1995, quando surgiu a internet trazendo a informação como o novo elemento organizador social. Seguindo Darwin, ou meu vegetarianismo se relativiza e meu bico endurece para lidar com as sementes duras dos tempos de hoje ou eu danço. Deixo claro aqui, no entanto, que a questão não é valorativa. É de mérito. Não se trata de se tornar pior ou melhor, mas de se permitir se tornar.

As angústias dos nossos tempos se dão mais por inflexibilidade conceituais do que por outros motivos. Temos dificuldade para entender que o futuro não é mais como era antigamente, que nada mais é como era antigamente. Que bom que eu brincava de cangapé, barra-bandeira, garrafão! Mas querer que minhas filhas brinquem disso é lhes impor uma violência simbólica. Seu tempo e seu espaço são outros. Eu adorava o Sítio do Pica-pau Amarelo. Elas curtem Backyardigans. Eu viajava ouvindo New Wave na minha adolescência, os jovens de hoje curtem Beyoncé.

Para onde a gente olhar, vamos ver que o pau come por essa incapacidade que nós, tentilhões do século 20, temos de nos adaptar às contingências do séc. 21. No século 21, nem algarismos romanos se usam mais. O trema caiu. Os quinze minutos de fama que Andy Warhol previu são uma eternidade num mundo que tem de caber em 140 caracteres. Anteontem o jornal impresso era quente e a revista fria. Ontem o jornal on-line ficou quente, o jornal impresso frio e a revista congelada. Hoje, o Twitter é fervente, o jornal on-line é morno, o jornal impresso é congelado e a revista é glacial. O Orkut, pasmem, já é coisa de ontem.

Ou nosso bico se reinventa urgentemente ou ficaremos anacrônicos e anatópicos, fora do tempo e fora do lugar. Isso vale para as relações profissionais, pessoais, para a comunicação, para a linguagem, para a educação, para qualquer processo social, enfim. A sensação de não-pertencimento, de sentir-se deslocado, é consequência de nossa inabilidade de perceber a mudança e se perceber nela. A mudança tem de ser de essência e não de aparência. Não adianta se vestir de hipertexto e ter a alma de mimeógrafo a álcool. A propósito, adoro Single Ladies, da Beyoncé. O clip então é show.

O origami da vida

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origamiLi em um livro cujo título a memória me sonega a respeito da concepção de monges asiáticos sobre a vida. Eles dizem que passamos por momentos marcantes e significativos, a que chamam de dobras. Por exemplo: quando passei no vestibular, quando me formei, meu primeiro amor, o nascimento das minhas filhas, quando conheci minha mulher, a conclusão do mestrado e do doutorado… Algumas de minhas dobras.

É claro que a vida é real e de viés. Por isso, as dobras são sempre diferentes para as pessoas porque diferentes são suas histórias. Há gente cuja vida se resume a um papel sulfite liso, sem uma ruguinha sequer. Gente que passa a vida reto, sem dores ou alegrias marcantes. E por opção. Particularmente, penso que seja uma triste escolha, pois a alma que não se movimenta cria mofo, fica cinza. São pessoas que encaram mudanças como o fim do mundo, como os navegadores do século XVI que achavam que o mar acabava num abismo no horizonte.

Se há quem opte pela planitude da vida, há quem goste da plenitude. São pessoas que se sabem responsáveis por suas dobras. Criam situações, buscam movimentos, anseiam por novos ares e desafios. Muito açúcar lhes enjoa. Experimentam mais e por mais experimentarem aumentam a probabilidade de dobras na sua existência. Não suportam durex externo lhes limitando as pontas, ávidas que são suas almas por dobraduras. Admiro quem é assim, apesar de me considerar no meio caminho entre os dois extremos.

Gosto de dobras. Elas não me deixam esquecer de que estou vivo. Mas minhas dobras, reconheço, precisam de certa temporalidade para serem curtidas, gastas. Não gosto de dobras cujos vincos não se consolidam e nem gosto de dobras que de tão velhas amarelam, marcando na alma uma nociva imobilidade longeva que pui o fio da existência.

Na metáfora, o papel é a vida, as dobras os momentos que fazemos ou que fazem para nós. O origami, do japonês ori (arte) e kami (papel), é uma arte que precisa ser aprendida. Assim como viver. Podemos deixar a vida passar lisa e em branco. Podemos deixar que as dobras se apresentem feitas por outros. Podemos, no entanto, tomar em nossas mãos, literal e metaforicamente, as dobras de nossa existência e conduzir os movimentos em direção à imagem da vida pensada por nós e para nós. Fato é que a decisão é nossa. Ser feliz é um direito inalienável de cada um. Como diz a música: cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz de ser feliz.

No fim da vida, quando as mãos trêmulas abrirem a caixinha da nossa história, nossos olhos encontrarão uma folha de papel. Pode estar em branco, intacta. Mas certamente a vida terá tido mais sabor se estiver dobrada e cada dobra ativar nossos lugares de memória. Recordar significa etimologicamente passar de novo pelo coração. Terá vivido uma vida mais feliz quem segurar, mesmo com o tremor das mãos, seu origami particular e olhar, mesmo com a vista cansada pelo tempo, cada dobradura de sua existência com carinho e com uma saudade aconchegante, que areja o coração. É preciso desejar que a figura final da vida valha a pena. E dá para fazer valer a pena. É melancólico olhar um papel em branco nas mãos no fim de tudo. Há ainda tempo de novas dobras. Está esperando o quê?

Amor Desfeito é Amor Refeito

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Escrevi este texto em 2005 para a minha irmã Luciana, que sofria horrores com o fim de um namoro. Ele andou circulando pela net e, para minha surpresa, vi que serviu de remédio para um monte de gente na fossa. Isso me deixa feliz: saber que o que eu escrevo faz algum tipo de diferença. Então, da série Um texto antigo para recordar, lá vai de novo.

AMOR DESFEITO É AMOR REFEITO

Para a Lu, com amor.

“Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado”.
Corsário,
de João Bosco

Não há palavra no mundo que expresse a dor de um amor desfeito. Só aqueles que já vivenciaram – ou mortificaram – um momento de ruptura sabem o tamanho da dor vazia e surda que rasga a alma e paralisa a vida. A gente chora, olha o teto, anda em círculos, tem vontade de ligar e implorar, dirige a esmo pela cidade sombria pensando em bater nos postes que se oferecem, não tem vontade de comer, falta vontade de viver. O corpo se entrega de cara, jogando covardemente a toalha e deixando toda a responsabilidade de lidar com o monstro para a mente que, funcionando a todo vapor, mas sem rumo, beira o colapso.

O chão cai. Um buraco negro sem fim e fedorento engole a gente. A dor anímica é lancinante. E a gente chora. No travesseiro, nos colos solidários, no chão, no banho. Todos os gnomos das glândulas lacrimejantes são convocados para o trabalho. Produção total. Parece que não tem fim.

Chegam as pessoas amigas, famílias, parentes, gente de bom coração. Milhares de palavras sinceras, cafunés, ombros. Uns querem nos levar de volta à vida na marra, forçam saídas, cinemas, shows, bares. Outros querem logo nos casar porque acham que fantasma de amor só se exorciza com um amor real, novo, daqueles de dar friozinho na barriga. Fazem conchavos, convidam possíveis pares perfeitos para encontros arranjados. Mas um amor foi desfeito. Ninguém entende isso?

Quem teve o amor desfeito fica impermeável a sons, a palavras, ao mundo. Não adianta cem entre cem dizerem que, calma, tudo passa. Porque na mente do sujeito que teve seu amor desfeito, não há menor vislumbre de uma luz no fim do túnel. Não há túnel. Só escuridão. E na escuridão não há caminhos, só estagnação. Então não pode passar. As músicas falam de nós. As cores na retina são as favoritas do amor que se foi. Os lugares são testemunhas da aposta das fichas de nossas vidas que agora nos olham sem graça como quem diz: “e agora? Perdemos tudo…”. Os cheiros entram pelas narinas, sem nenhum traço da delicadeza que outrora tinham, para arrancar com sua mão pesada a imagem do amor desfeito. Os rostos se resumem a um só, como o vilão de Matrix: o do amor que se foi. As novelas zombam da gente. Os pagodeiros também. Até o cachorro que late para a gente, late ridicularizando o ridículo trapo humano em que nos transformamos. E a gente chora. Os olhos no espelho não são mais os nossos, mas os do Benicio del Toro de tanta papada. Estão roxos. E ainda tem aquela amiga desavisada que nos encontra, sorri e pergunta pelo nosso amor, sem saber que ele está desfeito. Engraçado… o mundo demora para se dar conta do amor desfeito.

Com o amor desfeito, a central de controle da vida fica à deriva, nau sem rumo. Quem diz quando é hora de rir, de comer, de amar? Ninguém, porque o único marujo na cabine de controle da mente está se virando para ver se consegue evitar que o navio afunde. Rir? Comer? Amar?! Isso é luxo para quem busca desesperadamente sobreviver. E a gente chora. Ensopa o colo da mãe, que sofre com a gente como só as mães sofrem. Tamanhos marmanjos se abebezando de novo no ninho materno, o único bálsamo que ameniza 0,1% a situação. Mãe é a morfina da alma de quem teve o amor desfeito. O único remédio não remédio. Precisamos terceirizar a mente: Olcadils, Lexotans, Lexpirides, Lex-Lutor… O mundo é um Lex-Lutor com pedras e pedras de Kriptonita nas mãos apontando para nós, super-homens transformados em sub-homens, Popeyes embrutecidos na alma e enfraquecidos no corpo sem o espinafre diário, ido na sacola da feira do amor desfeito, Sansões carecas e raquíticos, Rei Arthur sem Excalibur, Bochecha sem Claudinho…

E a gente chora. Chora até o sol nascer e constatar, consternado, que o choro continua. Chora na hora do Globo Esporte. Chora na Sessão da Tarde. As novelas, cruéis, nos fazem chorar. Chora com a musiquinha do Jornal Nacional. O que me interessa se a febre aftosa atingiu o gado gaúcho? Dane-se! Meu mundo acabando e o William Bonner preocupado com as vacas! E vou votar Não no plebiscito das armas porque preciso desesperadamente de uma arma. A gente chora, então. Para a lua, que, paciente, nos olha e espera que caiamos no sono de tanto chorar. Mais um dia se vai e a gente nem percebe. A vida gira em torno de um só nome: a do amor desfeito. Ficamos absolutamente monotemáticos.

É preciso gastar. É preciso viver a perda. Acabou e a gente não aceita. Queremos saber por quê? Por que o amor se foi? O que deu nele? Onde errei? Mas ele disse que me amava até ontem à noite, puxa vida? O que mudou? Chama o meu amor desfeito aqui! Ele precisa me dar explicações… As explicações…. as explicações não existem e nem fazem diferença, na verdade. O fato é: acabou. Querer explicações é uma tentativa da mente de continuar pensando no amor que se foi. Se foi. Ponto. E levou junto muita coisa.

O amor desfeito não leva somente o corpo que me dava prazer. Leva a alma que passeava de mãos dadas com a minha nos pensamentos dos planos futuros. Leva um pedaço da história de nossa vida que não tem mais volta. Leva o olhar cúmplice que dividia comigo os sentidos do mundo. Estou órfão de prazer. Estou com um amor desalmado, estou hanseniano de história: pedaços meus estão ficando para trás e não posso fazer nada. Estou impossibilitado de dar sentido ao mundo, mundo completamente sem sentido e dispensável.

E a gente chora. Ou tenta, pois a lágrima secou. Passou o tempo. Tem algo diferente. Já não dói tanto. Mas ainda dói muito. De repente, um vaga-lume. Luz? É. Luz.

De repente, saímos do olho do nosso Katrina particular. Respiramos no ritmo novamente. E o amor desfeito? Ah, o amor desfeito… O amor desfeito deixou em nós a lembrança de que é possível amar, de que o amor existe mesmo. O amor desfeito nos fez perceber que devemos viver a certeza da eternidade do amor enquanto durar, como dizia o poetinha, e que para isso é preciso acreditar que a felicidade só é possível com aquele amor específico, o que não é verdade. A gente pode ser feliz com qualquer pessoa porque a felicidade é intrínseca, vem de dentro. Por outro lado, “tudo na vida é frágil; tudo passa”, como retruca Florbela Espanca, a poetisa da dor. O amor pode passar. É uma possibilidade que não queremos, contra a qual lutamos, mas que não podemos desconsiderar. O amor desfeito nos amadurece ao lembrar que a vida é assim: as coisas vêm e vão. As pessoas vêm e vão. É da própria vida, que veio e um dia irá. O amor desfeito pisca para nós e diz: “Pronto, fiz minha parte na tua vida”. Zecabaleirianamente, ele nos lembra que percorreu a parte da sua estrada no nosso caminho.

Por isso não podemos odiar o amor desfeito. O amor desfeito deve ser amado pelo mundo que nos mostrou, pelos espaços que nos abriu, pelos sonhos que desenhamos juntos. O amor desfeito deve ter seus feitos registrados no livro da antologia universal do amor. As coisas ruins, bom…essas esquece! As boas, essas devem ser vividas e lembradas com carinho. Aquela música, aquele perfume, aquele beijo, aquela noite. Como era perfeito aquele amor desfeito. Mas é preciso que um amor se desfaça para que outro se faça. Um outro tão perfeito quanto. Mais perfeito que.

Quando a gente consegue heroicamente sobreviver ao ciclo do amor desfeito, somos capazes de converter a necessidade inegociável da sua presença em certeza inalienável de sua importância para nosso crescimento afetivo e pessoal. O mundo volta a ter sentido. A lua, num quarto-minguante feito para nós, sorri feliz. Aí a gente entende a razão de ser minguante. Ela sorri quando mingua a dor. O sol ilumina o dia e o céu azul lindo, que estava aí e nossos olhos de ressaca não viam. E chega um novo amor. De repente. De surpresa. E o nosso amor próprio, alquebrado pelo amor desfeito, desenganado pelos pessimistas do mundo, brilha de novo. Refaz-se.

Não há palavra no mundo que expresse a certeza de um amor refeito. Só aqueles que já vivenciaram um momento de abertura a um novo amor sabem o tamanho da alegria plena e verdadeira que inunda a alma e nos devolve a vida, à vida. A gente ri para o teto, anda sem rumo de tão feliz, tem vontade de ligar e conversar por horas, dirige pela cidade formosa pensando em gritar a todos que está amando, que não tem vontade de comer, mas tem muita vontade de viver. O corpo se entrega, jogando-se alucinadamente ao novo amor e deixando toda a responsabilidade de pensar nas responsabilidades do mundo lá fora para a mente que, funcionando a todo vapor, diz para o corpo: “Vai fundo! Aproveita! Carpe Diem!”

O chão do mundo novo é ladrilhado, como na canção de roda. Um tsunami de paixão engole a gente. A sensação de querer tudo e mais é atordoante. E a gente ri. No travesseiro, nos colos dos amigos – que reclamam que foram abandonados por nós depois que entramos no templo da paixão, como diz o Chico César. A gente ri no chão, no banho. Todos os gnomos do setor de produção da adrenalina são convocados para o trabalho. Produção total. Parece que não tem fim.

Chegam as pessoas amigas, famílias, parentes, gente de bom coração. Milhares de palavras sinceras, cafunés, ombros. Felizes por nos ver de volta à vida, sem ser na marra, sem saídas, cinemas, shows, bares forçados. Outros fazendo questão de nos lembrar que disseram que fantasma de amor só se exorciza com um amor real, novo, daqueles de dar friozinho na barriga, como o que sentimos ao ouvir o nome do novo amor. Um amor foi refeito.

Quem teve o amor refeito fica sensível a sons, a palavras, ao mundo. Não adianta cem entre cem dizerem para ir com calma. Bobagem. Porque na mente do sujeito que teve seu amor refeito não há menor vislumbre de calma. Só há luz, energia. Só há movimento. As músicas falam de nós. As cores são as favoritas do amor que se faz. Os lugares testemunhas da aposta das fichas de nossas vidas que agora nos olham vibrantes como quem diz: “Aposta tudo!”. Os cheiros entram pelas narinas para levar delicadamente, com sua bruma leve, a imagem do amor refeito. Os rostos se resumem a um só. As novelas falam da gente. Os pagodeiros também. Até o cachorro que late para a gente, late parabenizando o ridículo humano cheio de amor em que nos transformamos. E a gente ri. Os olhos no espelho são os nossos em seus melhores dias. Estão indisfarcavelmente brilhantes. E ainda tem aquela amiga desavisada que nos encontra, sorri e pergunta pelo nosso ex-amor, sem saber que ele está desfeito. Engraçado… a gente nem lembra mais do amor desfeito… Diz que está amando muito uma pessoa especial, dá dois beijinhos, se despede e corre para encontrar o onipresente novo amor.

Com o amor refeito, a central de controle da vida acha o caminho e descobre novas terras. Toda hora é hora de rir, de comer, de amar. Nosso navio singra os mares, potente, firme. E a gente ri. E traz o sorriso para os lábios da mãe, que ama com a gente como só as mães amam. Tamanhos marmanjos se abebezando de novo no ninho materno, ninho perfeito para descansar depois de um dia feliz. O amor de mãe é o modelo da alma para quem quer um amor refeito. Somos super-homens salvando o mundo das maldades. Popeyes fortificados no braço e no coração com espinafre fresquinho, trazido pelo amor novo. Sansões cabeludos, Rei Arthur empunhando Excalibur, Lennon e McCartney em seus melhores dias.

E a gente ri. Ri até o sol nascer e constatar, feliz, que o riso continua. Ri na hora do Globo Esporte. Ri na Sessão da Tarde. As novelas, engraçadíssimas, nos fazem rolar de rir. Coitadas das vaquinhas bonitinhas que sofrem de febre aftosa. Bem que o mundo poderia ser mais perfeito como o meu e do meu novo amor. E não é que o William Bonner e a Fátima Bernardes fazem um belo casal! E quer saber? voto Sim no plebiscito das armas porque sou pela vida. A gente ri e ri. Para a lua, que, preocupada, nos olha e pergunta se não temos medo de desmaiar de tanto rir. Mais um dia se vai e a gente nem percebe. A vida gira em torno de um só nome: a do amor refeito. Ficamos absolutamente monotemáticos. Sentimos até o cheiro quando pensamos no novo amor.

É. De nada adianta querer apressar as coisas. Tudo vem a seu tempo, dentro do prazo que lhe foi previsto, mas a natureza humana não é muito paciente. Temos pressa em tudo. Queremos apressar o rio e esquecemos que ele corre sozinho. Vemo-nos num labirinto e enlouquecemos. Mas um labirinto é a metáfora da vida: a busca louca pela saída nos faz ignorar a beleza dos descaminhos. Drummond dizia algo com que concordo: muito choro é limpeza de alma. E dizia também: “Tem tanta gente esperando apenas um sorriso seu para chegar perto de você”. Basta sorrir.

É preciso fazer com que o cofre de neve que cobre nosso coração, fervente e tropical por natureza, derreta. Então, valeu, ex-amor! Por tudo. Obrigadão e seja muito feliz. Mas dá uma licencinha agora…Venha você aqui pra pertinho, meu novo amor, razão da minha vida. Para sempre. Ou enquanto durar, “posto que é chama”… Devemos não esquecer o poeta para sofrer menos e viver mais felizes.

Sérgio Augusto Freire de Souza

12 de outubro de 2005

Fugacidade

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Para os que procrastinam as belezas da vida, uma dose de Mário Quintana.

“O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.”

Mário Quintana