UFAM

Linha 352

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Aí eu perguntei: – Vai pra Zona Leste? O motora do 352 fez que sim com a cabeça e eu entrei. Dei dez reais pro cobrador que me olhou com uma cara feia. Mas tinha acabado de ter aula de anatomia e de ter visto cadáveres. A cara dele, então, era fichinha. Ele me deu o troco em moedas de 5 centavos. Passei e consegui sentar lá na frente. Logo o ônibus lotou. Quando chegou no ICHL, umas três pessoas, quase que simultaneamente, jogaram as bolsas no meu colo e disseram: – Segura pra gente aí, tio! Teve um calouro sem noção que percorreu o corredor todo com a mochila maceta nas costas fazendo strike na cabeça das pessoas sentadas nas cadeiras do corredor. É. aquilo ali era uma aventura darwnista. A sobrevivência dos mais fortes. Uma bunduda começou a esfregar a bunda dela no meu ombro. Mais do que ônibus lotado, acho que ela tava folgando mesmo. Do meu lado, um cara que fazia história – presumi pelo livro do Hobsbawm no colo – começou a colocar umas músicas cabeças no celular de dois chips dele. Alto pra cacete. Uma galera reclamou, mas ele nem aí. Olhei e o pessoal que estava de pé, exceto a gorda da bundona que continuava se esfregando na cabeça do meu úmero, estava todo em 45 graus para evitar o esfrega dos pervertidos, como manda o manual. Uma menina pegou o celular pra falar. Uma senhora mais idosa foi chegando perto do Hobsbawm para pedir lugar. Ele, num reflexo impressionante, desligou o celular e caiu num sono fingido para garantir o assento. De repente, um ladrãozinho puxou da mão dela e saiu correndo pela porta quando o busão parou perto do Coroado. Tudo muito rápido. Um herói, um aluno de língua portuguesa, ameaçou correr atrás, mas a moça disse que tudo bem, que aquele celular peba era o do assalto mesmo. Ela explicou: ela sempre andava com dois: o celular dela de uso mesmo, entocado e desligado, e um pebinha, pro ladrão. Numa faixa de pedestre na Cosme Ferreira, o motora deu uma freada que foi um freio de arrumação só: galera deu uma compactada. A gorda bunduda simulou desequilíbrio e caiu sentada no meu colo. Alguém estava com problemas nas glândulas sudoríparas e sebáceas, que estavam juntas numa revolta só no odor que aquele sujeito exalava. Com a freada, o cheiro da criatura deu um 360 no ônibus todo, vindo da hipoderme. Sim, minha aula de anatomia tinha sido sobre o sistema tegumentar. O cebolal estava cruel, de fazer chorar. Pior que o formol do laboratório. Fui chegando perto da minha parada. Devolvi a bolsa aos donos, disse que ia sair. Pedi licença à gorda, que saiu do meu colo. Desci na parada em frente de casa. Quando olhei, vi que a gorda desceu atrás de mim. Apressei o passo. Ela também. Entrei no condomínio quase correndo e gritei pro porteiro: – Braga, fecha o portão! Nem olhei pra trás com medo de virar estátua de sal. Cheguei em casa. Antes de subir, tive a leve impressão de que meu carro, na garagem, deu uma risada sacana pra mim e piscou um pisca só. Foi só impressão, claro.

PS: Nem voltei de ônibus. Minha mulher foi me buscar. A historinha aí foi criada a partir de relatos dos colegas, que me dissuadiram da aventura. Ainda invejo aqueles que vivem com adrenalina no toco por ter de pegar o 352 todos os dias. Quantas histórias eles devem ter…

Je vous salut, UA (28 anos depois)

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O ano era 1986. Dire Straits arrebentava os alto-falantes do meu fusca branco com o sax de “Your latest trick”, sax que até hoje ainda me treme as carnes. Eu começa o curso de Letras na UA. Era assim que a gente chamava a UFAM naqueles tempos coloridos do new wave e dos cabelos mullets. A UFAM veio um pouco depois. UA ou UFAM, a universidade tem o seu papel.

Fazer faculdade muda a vida da gente. Reclamamos porque, como dizem os veteranos, só há duas alegrias: uma quando entramos e outra quando saímos. Reclamamos das noites mal dormidas e viradas para fazer aquele fichamento do texto chato de Metodologia que a professora jura que é legal, filosofamos com Platão e mito das cavernas, achamos complexo, mas genial Marx e a sacação da mais-valia da aula de Sociologia. E conhecemos gente. Gente que vai seguir com a gente e dividir as angústias, os sorrisos e o salgado na cantina. Eu, por exemplo, conheci a minha primeira esposa na sala de aula. Ficamos batendo papo e rolou numa das ausências frequentes do professor de Psicologia. Aliás, isso é outra coisa que preciso pontuar: os professores e as disciplinas.

Em qualquer curso na UA, na UNICAMP ou em Harvard, há disciplinas boas e há disciplinas ruins. Há professores cujas aulas a gente não quer perder nem em dia de chuva torrencial e há outros para cujas aulas não ir se justifica por qualquer nuvem pesada no céu, um dia bonito de sol ou até mesmo um fio de tristeza nos olhos do cachorro. Tudo é motivo. Mas é assim. Logo a gente aprende que das boas aulas temos que sugar tudo e morrer de prazer. Eu e mais uns seis sempre ficávamos depois do horário ouvindo o professor João Bosco Araújo falar de filosofia numa das aulas mais encantadoras que tive oportunidade de assistir. Para as aulas ruins e chatas, resta cumprir tabela e torcer para o professor não atrapalhar. Tirei dez em Psicologia com o professor faltoso que certamente vale muito menos do que o 6,9 de filosofia registrado no meu histórico escolar, histórico esse resgatado com carinho meio amarelado de uma pasta de arquivo. A aula boa, aproveitemos. A aula ruim é fazer e seguir em frente do jeito que der. E por que escolhi falar sobre isso?

Vinte e oito anos depois, eu sou calouro de novo. Comecei meu curso de Psicologia. E tudo isso veio na memória como um filme bom. Lá estou eu de novo, caderno na mão, anotando nome de osso e estudando de madrugada as partes da escápula. Lá estou eu de novo, conhecendo pessoas legais, cheias de juventude – que um dia eu tive -, me fazendo querer que o fim de semana passe logo para a gente se encontrar de novo. O brilho nos olhos dessa moçada me energiza de uma forma bacana. Confesso que tenho gostado mais de ser aluno do que de ser professor. Pode ser mérito da novidade unida ao decurso de prazo mesmo. Afinal são 23 anos dando aulas na UFAM. Eu juro que eu tento dar uma aula bacana. Jamais assustaria os alunos batendo a cabeça do fêmur na mesa de ferro. Pausa. Risos. Volta. Mas por mais que eu tente dar uma aula agradável, penso que vez por outra meus alunos já me sentem meio cansado. Alguns devem certamente me colocar na lista das aulas chatas, preferindo ficar na cantina a me ouvir falar. Faz parte. Perceber-se cansado é um toque da vida para buscar mudanças. Talvez ser aluno de psicologia seja uma maneira de buscar a compreensão desses toques de forma fundamentada. Quem sabe?

Fazer outro curso de graduação me rejuvenesce, de certa forma. Colegas e amigos perguntam: “Por que diabos tu ainda vais estudar?”, “Mas tu já não és doutor? Pra quê?” Talvez uma pergunta responda a outra. Por ser doutor é que eu sei que não posso parar de estudar. Estudar o que eu não sei me exercita a mente e funciona como uma fonte de juventude para meus ânimos. O rádio é lateral. A Ulna é medial, Ci Thaline. O nó que esses 206 ossos estão dando na minha cabeça me devolve a humildade socrática: só sei que nada sei. Mas ando com o Atlas do Sobotta debaixo do braço para saber. É meu desafio. Acrômio, trocanteres, fossas e tubérculos. A linguagem anda enciumada de meus novos amiguinhos. Mas eu saúdo o novo sempre.

O título desse texto é o mesmo de um texto que escrevi em 1986, quando entrei na UA como calouro de Letras. Estava justamente a saudar a universidade. À época, o filme “Je vous salut, Marie!” de Godard havia sido censurado no Brasil. Eu saudava a UA, empolgado e desejoso de que aqueles tempos fossem tempos grandiosos na formação de um moleque de 17 anos. Queria aprender o mundo sem censuras, daí a provocação do título. Retomo o título 28 anos depois. Vivemos na democracia, tempos de liberdade de expressão, tempos de liberdade política, tempos outros, enfim. As roupas não têm mais aquelas cores berrantes, K&K e Company não são mais marcas da moda, eu já casei três vezes e Dire Straits só toca na sessão naftalina das rádios. Mas nesse lapso de vida de lá até aqui, aprendi a respeitar o conhecimento, a reverenciar a dúvida e a duvidar das certezas. Por isso resolvi começar de novo. Je vous salut, UFAM. Onde foi que deixei o meu CD azul do Dire?… SF

A greve nas universidades federais

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Os professores das universidades federais que estarão em greve a partir do dia 17 de maio reinvindicam uma carreira única, uma data-base, o cumprimento de acordos firmados (ignorados pelo governo) e a incorporação das gratificações. O Governo Federal nem quer sentar para negociar.

O salário inicial de um professor auxiliar de ensino, em início de carreira, é de R$ 2.762,37. Na outra ponta, o mais alto, do professor titular em fim da carreira, com doutorado e mais de 30 anos de docência, é de R$ 11.755,05. O de um professor com mestrado, com dez anos de carreira, é de R$ 4.651,59. O salário de um doutor, com 20 anos de carreira, é um pouco mais de R$ 7 mil. São salários de dedicação exclusiva (não permitem ter outro emprego), brutos, sem os descontos de IR (com aliquotas que chegam até 27,5%) e INSS (com aliquotas que chegam a 11%).

Ao mesmo tempo em que sou a favor de uma avaliação mais meritocrática dos servidores públicos em todos os níveis – os profissionais dedicados sempre pagam pelos maus profissionais -, reconheço que é muito desestimulante passar 20 anos numa carreira docente, fazer dois anos de mestrado e quatro de doutorado, para receber pouco mais de 5 mil reais líquidos no fim do mês. É para se pensar na valorização do trabalho intelectual no Brasil.

Nos últimos anos tenho sido meio descrente da greve como instrumento de luta profissional. Mas dessa vez, amigos, estou plenamente convencido de que se não houver melhorias significativas, muitos deverão buscar alternativas. Eu, inclusive.

Tabela completa de salários aqui.

UFAM – Metodologia do Ensino de LI

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Este semestre usarei uma ferramenta de LMS (Learning Management System) com a turma de Metodologia do Ensino de Língua Inglesa I. Será o CourseKit. Vamos correndo atrás do presente…

Metodologia do Ensino de Ling Inglesa I

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AVALIAÇÃO FINAL

Escreva um texto retomando brevemente a história do ensino de língua estrangeiras a partir do séc. XX. No texto, comente os quatro momentos que o ensino viveu em relação às metodologias: o pré-científico (Grammar-Translation e Direct Method), o Estrutural (SLT, Audiolinguismo), o dos Métodos de Grife (década de 1970) e o Comunicativo (Natural Approach e Communicative Approach). Descreva o que de forma mais determinante caracteriza cada um desses períodos. Em seu texto, também, discorra sobra a importância do professor de línguas conhecer os pressupostos teóricos que embasam cada abordagem e o porquê de podermos afirmar que hoje vivemos em uma Era Pós-Método.

 

Prazo: O texto deve ser enviado ao meu email: sergio_freire@uol.com.br até meia-noite do dia 26/06.

Discurso de formatura 2010

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Pelo protocolo, cabe ao diretor de Unidade fazer um discurso. Etimologicamente discurso vem da palavra latina cursum (curso, carreira, corrida), junto ao prefixo dis, que indica, divisão de um todo em partes. Discurso significa dividir um todo e discorrer sobre uma determinada parte desse todo. Por isso os discursos são diferentes: porque recortam e escolhem assuntos diversos para abordarem.

Faço essa introdução para apresentar o recorte deste meu discurso. Escolhi, dentre vários assuntos que poderiam lhes ser importantes nesse momento simbólico de dobra na vida de vocês, dois recortes: um mais racional, ligado à objetividade da academia e da formação que lhe acompanha. Outro, fundamentalmente emocional, relativo à humanidade que ultrapassa cada profissional que hoje se forma e atinge de maneira muito direta o ser humano que lhe dá concretude.

A mensagem racional é bem direta. Vivemos em uma era de redes sociais, em uma sociedade que se organiza em torno da informação. O problema de hoje, diferente do de algumas décadas, não é o acesso à informação, mas a competência para não se afogar nesse volume de informação que se nos apresenta todos os dias das mais variadas formas. O diferencial do profissional ativo hoje é saber separar a informação relevante das irrelevantes e dela fazer uso significativo para a sociedade. Isso se chama de competência. E são cinco as competências de um profissional, independe de sua área de atuação.

A primeira delas é a competência teórica. Não se avança profissionalmente se não conhecemos os conceitos e a agenda de nossa área. Conhecer a área, buscar a atualização constante, o upgrade de conhecimento é uma competência fundamental para o bom profissional. E essa busca, queridos formandos, não termina hoje. Começa hoje.

Não basta saber sobre algo se não usarmos esse conhecimento para alterarmos a realidade. Daí a necessidade da competência aplicada. A competência aplicada é o uso social do conhecimento teórico que se possui. Conhecimento que não tem fim social é conhecimento morto, de nada serve.

Saber e saber usar o saber também de nada adiantam se o sujeito não compreender que o mundo é feito de regras. Cada lugar por onde passamos e onde vivemos tem sua ordem de discurso e de funcionamento. A família, as relações sociais, as relações afetivas. Tudo tem regras, limites e, claro, possibilidades de transgressões. Aprender a usar o conhecimento que se tem dentro das regras do jogo é o que faz a diferença entre os profissionais de hoje. Competente é aquele profissional que entende que até para alterar as regras tem de fazê-lo dentro das regras vigentes. A isso, chamo de competência institucional.

Como todas as instituições e relações têm suas regras, assim também acontece com a língua. Este discurso se atém a regras de linguagem diferentes daquelas que usamos na mesa de um bar, ou numa conversa que travamos com nossos amigos na cantina do ICHL. A competência linguística, a quarta que lhes apresento, é fundamental para o profissional que se quer diferente. Isso significa fazer-se poliglota na própria língua.

E a última competência, meus caros formandos, é uma competência sem a qual as outras quatro se desfazem, se embrutecem. Trata-se da competência de saber, de saber aplicar, de saber aplicar dentro das regras, de saber aplicar dentro das regras com a linguagem apropriada sem esquecer, esse é seu cerne, de que tudo isso se faz entre pessoas. É preciso ter competência afetiva. Gostar das pessoas, respeitá-las nas suas diferenças, nas suas especificidades. É preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que é o humanismo – que tem sido perdido por uma série de demandas, entre elas a econômica e o individualismo – é o que alicerça o tecido social. Sem a sensibilidade social, meus amigos, joguem este diploma que vocês receberam na primeira lata do lixo que encontrarem. É preciso gostar de gente. Porque nós somos gente. E com isso faço a ponte para finalizar com o segundo recorte, mais emocional.

Vocês hoje fecham um ciclo. Um ciclo de formação, mas, antes disso, um ciclo de convivência, de amizades, de sorrisos, de angústias. Um ciclo em que vocês riram, choraram, amaram, odiaram, vacilaram, falharam, escolheram, venceram. E que não ocorreu com vocês sozinhos, mas em compartilhamento com seus colegas e professores que aqui se encontram ou não, por mil motivos que as bifurcações da vida nos trazem.

É hora, meus amigos, de recordar. Recordar, desculpem o cacoete de linguista, é etimologicamente passar de novo pelo coração. Só recorda, só lembra, quem está cheio de memórias, quem viveu, quem transborda de saudade. Porque, não nos enganemos, a linguagem pode ser muitas coisas. Há mil faces ocultas sob a face neutra, como dizia Drummond. E a palavra saudade, normalmente associada com perda e tristeza, pode ser igualmente associada com ganho e alegria. Saudade é a presença de uma ausência presente. De algo que se foi e, engraçado, nunca se deixou ir por completo. A saudade é a máquina do tempo que nos permite ir até onde já estivemos para viver o que ainda nos habita a alma.  Por isso sentimos saudades do nosso pai, da nossa mãe, dos nossos amigos, enfim, dos nossos que não estão aqui, mas que, como entrega o pronome, são “nossos”, nos pertencem para sempre.

Foi a saudade de Camões, vivida n’OS Lusíadas, que revigorou o espírito coletivo de sua gente fazendo Portugal se reerguer. Foi a saudade do Brasil que fez com que José Bonifácio renunciasse as vantagens que lhe foram oferecidas pela Europa e viesse a ser o grande organizador do estado  brasileiro. Foi a saudade do Brasil que inspirou Gonçalves Dias a escrever no exílio os brasileiríssimos versos em “Minha terra tem Palmeiras. Sem a saudade do tempo de sua meninice, vivida em torno da casa-grande, teria sido impossível a José Lins do Rego escrever sua tão viva obra. E viva porque feita de saudade.

Por isso, invoco para que todos vocês sintam saudade. Ela, de hoje por diante, agirá como um cordão umbilical que os manterá vivos e presentes, lhes alimentando a alma, embora estejam agora fisicamente ausentes deste espaço e distante dessas almas amigas que lhes acompanharam por tanto tempo.

Diz a sabedoria popular que conselho não se dá. Mas eu vou dar mesmo assim, assumindo os riscos de ser ignorado, dada a ansiedade pelo fim da cerimônia: se cerquem de criatividade e inovação. Que as dúvidas no exercício da profissão sejam banidas pela presença de um passado específico, cheio de lições de saudade, lições das quais vocês mesmos foram atores principais.

Com o exercício das competências e muita saudade, sejam felizes. “Cada ser em si possui o dom de ser capaz de ser feliz”. Tornem o mundo melhor.  Tenho certeza que vocês, como eu, se lembrarão dos anos de faculdade como os melhores anos de suas vidas. Que Deus lhes abençoe, sucesso e saudades. Obrigado.

Ainda rolam os dados

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Concorri, junto com a professora Rosemara Staub, à direção do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Amazonas. Não vencemos. Ficamos com quase 40% dos votos. E na democracia é assim: respeita-se o resultado do processo. Sucesso ao professor Nelson Noronha e à professora Márcia Mello em sua gestão. Aceitar o resultado, no entanto, não nos exime de refletir pedagogicamente sobre ele e fazer a partir dele leituras políticas. Aliás, não só não exime como nos exige.

Primeiro, é necessário pensar o que o resultado significa politicamente. Tomar partido por projetos, sejam projetos políticos ou projetos de vida, nos coloca em uma posição e não em outra. É assim. Tomamos, Rose e eu, partido por uma sociedade e por uma universidade que precisam mais de gestão do que firulas democratistas, firulas essas que fazem parte de um discurso sedutor que junto com determinado physique du role credencia, na memória de alguns, o ser universitário. Por saber que é preciso tomar partido e decidir é que aceitamos ser candidatos. Por isso também, em outro momento, aceitamos participar de administração pública na prefeitura de Manaus. Por isso, ainda, que de lá saímos quando vimos que um partido político recém-chegado à base política da administração da qual fazíamos parte estava exercitando práticas políticas incompatíveis com nossa visão ética.

A tomada de partido é necessária, não como um exercício a priori, mas como decorrência de análises conjunturais. Ser a favor ou ser contra é produto, a meu ver, de juízos de valor formados nas contingências da dinâmica social e não no dogmatismo político-partidário. É uma leitura. É a nossa. Há outras, claros. A polissemia, palavra que tanto incomodou a outra chapa durante a campanha, faz parte da linguagem, sim. Ninguém tem a exclusividade de conceitos, a patente da verdade, o domínio exclusivo do conhecimento.

Assim, lemos a votação final como o resultado de um conjunto de fatores. Entendemos a votação como uma reação à administração atual da Ufam, que ajudamos a eleger, porque tomamos partido naquela disputa, recebendo os bônus e os ônus do pacote da escolha. É sintoma, mais do que causa, de que a administração superior precisa ver qual a parte que lhe cabe nesse latifúndio. Queremos uma Ufam que dê certo e aquele foi o melhor projeto que se apresentou. Mas eleição, sabemos hoje mais do que nunca, não acaba quando sai o resultado. Até que ponto pessoas que fazem parte da administração atual em cargos de confiança atuaram nessas eleições para desenhar um cenário de dificuldade política para a própria administração de que fazem parte, por motivos pessoais ou de projetos de partido político? O letramento político necessita de exercício.

Outra opção que fiz foi a de aceitar a indicação do colegiado do meu Instituto para ser seu vice-diretor, quando o professor Ricardo Nogueira foi abandonado por seu companheiro de chapa. Isso permite a leitura de que nossa administração – e digo nossa porque embora não tenha participado desde o começo nela estou – não logrou êxito em se mostrar merecedora de crédito administrativo futuro. O que nos faltou e o que nos sobrou? Pensar sobre isso também é exercício de casa.

Uma terceira leitura possível dos resultados é a que nos faz refletir sobre a identidade do ICHL. Ancorado em enunciados sedutores de mudança, alça-se à direção um grupo democratista que, espero estar errado, terá problemas para lidar com a temporalidade da administração. São pessoas que na boa fé de suas convicções apostolam fundamentos – às vezes fundamentais e às vezes fundamentalistas – que não encontram o compasso da bateria da gestão administrativa, que falam muito bem de seus importantes lugares históricos de enunciação, mas gaguejam – no sentido figurado – ao perceber que quem administra tem de tomar partido (e não se trata aqui de partido político, esclareça-se, antes do sorriso), ao se dar conta de que não dá, na administração, para dividir a satisfação entre todos igualmente no sonho do marxismo utópico, sobre o que o velho Marx diferia do jovem Marx. Sob o manto do novo, velhas práticas dos companheiros se estabelecem no espaço de direção do meu Instituto, com suporte daquele mesmo partido que nos fez sonhar em outro lugar e não mais na prefeitura.

Outra lição pedagógica é a de nos faltou militância. Não paramos com nossas atividades. A nossa militância foi pontual e fragmentada. Nem Rose nem eu somos atuantes em partidos políticos. Nosso partido é o ICHL, é a UFAM. Alunos, professores e técnicos que compraram nosso sonho deram tudo de si por nossas propostas, mas seu belo e admirável voluntarismo não teve volume como o da chapa contrária teve. Isso, reconheçamos com honestidade intelectual, eles fizeram muito bem. Os alunos de filosofia, curso do professor Nelson, ficaram full time no processo, mostrando que só declarar o voto não basta. Aprendemos humildemente. E é preciso aprender porque professor, como diz Guimarães Rosa, é quem de repente aprende.

Há também as questões pessoais de sempre. Mas essas eu me abstenho de comentar porque para mim uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, ainda que muitos achem que elas sejam a mesma coisa. Aqueles que souberem entender me entenderão.

Enfim, o processo fechou um ciclo. Não ganhamos. Aceitamos o resultado, senão seremos sujeitos de uma democracia de conveniência que passamos a campanha toda criticando na chapa contrária. Mas não nos apagamos politicamente. Porque aprendemos que mesmo quando não há vitória numérica, há vitória política. Representamos quase 40% do Instituto que não quer mais discutir a análise de conjuntura de Honduras para fundamentar a compra de ventiladores para a cantina. Se vocês acham que estou derrotado, saibam que ainda estão rolando os dados. Toca aqui, Cazuza.

Rose e eu passaremos agradecendo os votos recebidos da mesma forma que fomos pedi-los nas salas e corredores de nosso Instituto. E limparemos o ICHL de nosso material de campanha, como já havíamos decidido, caso ganhássemos ou perdêssemos. Renovo os sinceros votos de boa administração a Nelson e Márcia. Contem conosco no apoio às propostas  quando entendermos que elas são para a melhoria do Instituto e contem conosco também na crítica propositiva vigilante, que faz parte da construção de qualquer processo administrativo.

Quando cheguei em casa às duas da manhã, depois da apuração, minha filha Clara, de três anos, me disse: “Pai, você perdeu, né? Mas a gente não pode ganhar sempre, né?”. É, filha. Nem desistir nunca. Obrigado por terem acreditado. Vamos trabalhar.

Mestrado em Comunicação

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Na foto abaixo, o Diálogos Interfaces de que participei. Gente boa demais essa turminha.

Edilene, Cris (minha orientanda), Judy, Daniella, Ulysses, Fábio, Mayara (minha outra orientanda), Cleamy e eu, na mesa.
Edilene, Cris (minha orientanda), Judy, Daniella, Ulysses, Fábio, Mayara (minha outra orientanda), Cleamy e eu, na mesa.

O peixe não vê a água

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O peixe, de MiróHá textos que lemos que passam batidos. Há outros que nos inquietam. Ou porque falam diretamente sobre questões que nos são caras demais ou porque falam demais sobre questões que nos são muito diretas. A linha entre um texto que merece ser ignorado e um que merece ser comentado é tênue. Esse preâmbulo é para dizer que decidi comentar um texto de Márcio Souza, publicado em um jornal de Manaus, apesar do apelo para ignorá-lo.

Márcio descobriu que vivemos uma nova era. Deixamos a era da leseira baré pela era da idiotia baré. Caracteriza esse momento como o tempo da “glorificação da ignorância em detrimento da inteligência”, da troca do “diálogo civilizado” pela violência. Lamenta que Manaus tenha se tornado uma “cidade de simplórios” que elegem apresentadores de programas de TV “hidrófobos”. Critica ainda as reações locais à posição de Carlos Minc quanto à agenda politiqueira de Alfredo Nascimento sobre a BR319, lamentando as “bravatas provincianas e insultos preconceituosos”, expressão do “raciocínio indigente”, “do mais baixo oportunismo” e de um “deslavado fisiologismo político” que ignora o mérito da questão. Finaliza dizendo que o idiota baré toma como “axiomáticas as idéias de que alpinismo social, privatização da coisa pública e aparelhamento do estado são reflexo de alto realismo político”. É sua tese.

Para justificar a argumentação, de forma pouco inteligente para quem tem um percurso literário como o seu, Márcio troca o diálogo civilizado por agressões violentas contra o atual reitor e contra a futura reitora da Ufam. Critica a lentidão da resposta institucional quanto à agressão sofrida pelo professor Gilson Monteiro e o silêncio da reitora eleita – com o que concordo e sobre o que já escrevi alhures – , mas o faz por vias simplórias da desqualificação acadêmica, usando insultos hidrófobos e fugindo do mérito. Cai no caminho fácil das bravatas provincianas e no raciocínio indigente do “ad hominem” ao julgar o comportamento da reitora eleita por sua tese “ininteligível [para ele] onde (sic) excreta erudição mal digerida”. E sentencia: “A Universidade do Amazonas já foi lugar de argumentação erudita e busca pelo saber”. Quando? Quando era “grupo escolar”, rótulo atribuído ao próprio escritor? Estou na Ufam e ela está em mim. Foi aí que cruzei a linha tênue entre ignorar ou comentar. Queria que o escritor respeitasse o meu trabalho porque respeito o seu.

É complicado falar em alpinismo social quando se faz autopromoção à custa do desrespeito profissional. É estranho falar criticamente em privatização da coisa pública quando se tenta vender apresentações teatrais para o município a preço de ouro, num ato que eu e “aqueles que aprenderam a separar o joio do trigo” lemos como fisiologismo político. Mais Márcio: “A diferença entre a leseira baré e a idiotia baré [é a de que] o leso toma a incredulidade como um bem absoluto e com isso é capaz de resistir. Já o idiota baré, este é fruto dos conflitos entre o conhecimento intelectual e o mais baixo oportunismo, do rigor ético com o mais deslavado fisiologismo político”. Concordo. Não deu para ficar quieto. Ficar quieto é coisa de quem não canta. Eu canto.

PS: Márcio e eu estaremos na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Quarta eu comento a Feira.

Doutorado em Linguística UFAM/UFSC

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Semana que vem estarão abertas as inscrições para o Doutorado Interinstitucional em Linguística UFAM/UFSC, que eu coordeno pela UFAM. É preciso ser professor ou técnico-administrativo da UFAM para se inscrever na seleção. Inscrições de 01 a 05 de junho. Maiores informações, clique na aba acima DINTER UFAM/UFSC.