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Tá todo mundo louco?

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Foto: Emanuela Godoy/ Jornalistas Livres


Sou psicólogo e linguista, com formação em Análise de Discurso. Por essa condição sou constantemente perguntado sobre alguma explicação plausível para o comportamento assustador desses grupos de pessoas que hoje acampam na frente de quartéis, sem aceitar o resultado das eleições, com condutas que, de fora, parecem loucura. Penso que podemos buscar explicações a partir de vários vieses. Mas vamos fazer o recorte a partir desses dois lugares a partir dos quais me sinto confortável para falar: psicologia e linguagem.

Como muita gente já apontou, muitos dos comportamentos de grupo que vemos no pessoal com a camisa do Brasil podem ser explicados a partir do que Freud apresenta em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921. Nele, Freud afirma que na massa, o indivíduo tem sua afetividade intensificada, sua capacidade intelectual diminuída e suas inibições instintivas próprias suprimidas. O indivíduo se acha ligado ao líder – e aqui a eleição de Bolsonaro ajudou a organizar essa trupe – e aos outros indivíduos por uma energia libidinal. Para se ligar a outros, diz Freud, é preciso se desligar de si.

Na formação da massa, os indivíduos agem como se fossem homogêneos, pois na massa aparecem restrições ao amor-próprio narcisista. Daí a primeira leitura é a de que essa gente parece que saiu de si. “Ele não era assim…”, “Parecem robôs”, “Agem todos da mesma forma!” são constatações comuns.

Se o comportamento do grupo é muito igual, a adesão ao grupo se dá de forma diferente para cada indivíduo que participa do grupo. Sim, há várias motivações para a adesão. Aqui o inconsciente se cruza com a ideologia. Grosso modo, ou a pessoa é motivada por uma falta – a vida sem sentido, por n motivos, encontra um sentido em um grupo que acolhe – ou, também, a adesão é motivada por questões de classe, naquilo que o bom e velho Marx descreveu bem. Ódio inconsciente e às vezes consciente em relação aos pobres. Daí a existência de um bando de gente abastada de verdade (e outros que se acham ricos), bem de vida financeira (uns muitos com o carro financiado em 60 vezes), que são paupérrimos em saúde psíquica. Esse pessoal engrossa o caldo do grupo e financia a sobrevivência da trupe. Há ainda a mistura das duas coisas, sendo, na verdade, um contínuo combinatório. Diga-se que a classificação aqui é meramente didática. Dizendo de novo: se o comportamento do grupo é homogêneo e robotizado, as motivações para aderir fazem parte de um espectro amplo. Mas depois que adere, há uma homogeneidade nos comportamentos. Por que essa homogeneidade? Porque o grupo precisa se perpetuar.

Quando a pessoa acha num grupo a razão de ser, há um grande investimento psíquico para se manter nele. Aí é preciso negociar crenças, valores, ideias. É preciso aceitar e repetir as ideias hegemônicas do grupo sob o risco de ser expelido e ver ruir todo o investimento psíquico inconsciente. Isso acontece com determinadas religiões mais fundamentalistas. Freud também fala disso em “O futuro de uma ilusão”, de 1927, um dos livros sociais de pai da Psicanálise. E o que acontece quando a pessoa entra no grupo e não pensa exatamente como ele? Dá um tilt, mas é preciso se adaptar. Acontece o que Leon Festinger, professor da New School for Social Research de Nova York, chamou de dissonância cognitiva.

A teoria da dissonância cognitiva sustenta que um indivíduo passa por um conflito no seu processo de tomada de decisão quando pelo menos dois elementos cognitivos não são coerentes. Em outras palavras, quando uma pessoa possui uma opinião ou um comportamento que não condiz com o que pensa de si, das suas opiniões ou comportamentos, ocorre uma dissonância. Aí ela tem de decidir e decide pelo grupo, renunciando a si e às suas crenças, pagando esse preço para não ser expulsa do grupo e desabar na perda de seu investimento. As pessoas saem de si, repetem roboticamente as ideias do grupo porque, agora, é isso que ancora sua subjetividade. De novo, é um comportamento de seita, robotizado.

Tudo isso gera um grupo ideológico por identificação, caracterizado por crenças sociais e políticas específicas, ligadas às ideias de direita ou extrema-direita. Esses grupos partem de verdades retóricas parafraseadas do pátria, família, religião. Mas não respeitam a democracia e têm repulsa à diversidade, são ancoradas num moralismo retórico: cobram os outros, mas sempre tem lá no meio o pedófilo, o comerciante sonegador, o homofóbico, o empresário pilantra, a família que escraviza pessoas, o violento misógino, a senhora perfumada racista e por aí vai. Quando esses elementos moralistas de enunciação são descobertos em suas práticas ruins, as redes não perdoam e gritam: “Não falha um!”. E aí vêm os inexoráveis vídeos de desculpa que, quase sempre, são ridículos porque não passam de teatrinho para dar conta de evitar um cancelamento.

É importante notar também que outros discursos que sustentam as mesmas ideias reforçam a noção de pertencimento. Isso se dá por exemplo, com o grupo de pessoas evangélicas, principalmente neopentecostais. Porque as pessoas fazem parte de vários grupos, que podem relativizar ou recrudescer o discurso do grupo dos amarelinhos.

Muitas razões para entrar, uma forte razão para ficar, pagando o alto preço da alienação de si. O comportamento do grupo vai sendo direcionado para sua sobrevivência, praticando atos, criando e disseminando ideias – e as redes digitais, que não existiam nos tempos de Freud, têm um papel importante nessa disseminação – e criando comportamentos de manada que incluem muita violência, física e simbólica. A gente está vendo isso. Há uma irracionalidade que tem como lastro o bando. Horda primeva.

Esse é o esboço de uma explicação. Como qualquer explicação é bastante generalizante. Mas penso que nos ajuda a tentar compreender o que está acontecendo com gente querida e gente nem tão querida assim.

Qual é a saída? Não sei. Só sei que se Freud estiver certo – e costumo apostar nos palpites dele -, quando esses grupos se dissolverem, a quebra vai ser grande, embora tenham ajudado a adensar um discurso ideológico forte. Mas imagine você apostar todas as suas fichas em algo e esse algo que te sustenta desaparecer? Vai haver uma perda de ancoragem subjetiva imensa para muita gente.

Talvez nós, psicólogos, sejamos bastante demandados por essas pessoas. Ou pelos seus queridos que se importam com elas. Porque acho que elas mesmas vão estar bem mal para ter minimamente força para se erguer sozinhas. A ver. 

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Tá escrito

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Sérgio Freire
31.10.2022

“Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar”

Agora que minha rouquidão passou, já consigo escrever. Como boa parte dos brasileiros que se preocupa com um projeto de país acolhedor dos grupos minorizados e menos privilegiados, fiz campanha, votei, acompanhei a apuração, explodi de alegria e soltei rojões quando virou. Depois dancei leve na sala com minha mulher e minhas filhas. Dormi com uma alegria que há muito não sentia. Ressaca da boa.

Lula ganhou. Ganhamos. Isso significa tanta coisa para tanta gente que passou quatro anos sob as nuvens de um (des)governo mais preocupado com a destruição do meio ambiente e o desmonte de sua fiscalização, com a ampliação das aprovações de agrotóxicos para beneficiar o agronegócio a um custo altíssimo, com o exercício da necropolítica na saúde e na economia sempre com a promessa de melhora pelo rolando-lero do Guedes, com suas damares e a disseminação do preconceito de todo tipo, com a depredação do Brasil sob todos os aspectos em que você pensar. Pense aí. Qualquer um. E vai ver o desastre que foi.

Um presidente et caterva muito mais preocupados com seus projetos pessoais e com os dólares de ministros em paraísos fiscais do que com bem-estar social. O Brasil, que antes era um player de peso, sumiu do mapa mundi da geopolítica mundial com este presidente minúsculo, que vai ser enxotado do Palácio do Planalto em janeiro. Mas Lula mal foi eleito e o mundo já correu para ele.

“Ain, mas o país está dividido”. Sempre esteve. Quem conhece um pouco de história ou estudou sociologia básica sabe que este país sempre esteve dividido. Isso desde a época das capitanias hereditárias, com os projetos de escravidão da população negra e com as recorrentes e históricas investidas contra as populações originárias. Essa divisão está no DNA brasileiro tanto quanto a mais balada mistura de raças. Convoco também o bom e velho Marx para nos lembrar da divisão de classes, que sempre recebeu roupagens diferenciadas, mas que sempre também fez questão de deixar muito claro quem manda nesse país.

Há análises e análises mostrando como chegamos aonde chegamos. O golpe parlamentar em Dilma, fomentado pelas passeatas dos 20 centavos em 2013, foi, a meu ver, a dobra do origami. Depois veio a Lava-Jato e todo o lawfare que tirou Lula da eleição de 2018, lawfare hoje desmontado pelas ilegalidades de um juiz que hoje rasteja nos cantos fedorentos da história. Tudo isso foi amplificado pela grande imprensa, criando um caldo que levou ao desejo da eleição do “novo”. Foi nesse cenário que Bolsonaro se elegeu.

Além do capitão, coronéis, delegados e toda uma reculhamba de parlamentares foi eleita também. Governadores sem passado político entraram nesse vácuo, como Romeu Zema (MG) e Wilson Lima (AM). Esses parlamentares da lei, truculentos e da pancada, e esses governadores “novos” – entre todas as aspas – representavam, na cabeça de muitos brasileiros, quem iria restituir a ordem no país. A psicanálise talvez nos sussurrasse nessa hora que o povo brasileiro, em grande parte, estava em busca de um pai disciplinador da desorganização social. E veio Bolsonaro.

Pandemia. O mundo sem saber direito o que fazer. Alguns poucos governantes, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, ouviram a ciência, fizeram barreira sanitária, fechando seus países e foram bem-sucedidos no combate ao inimigo desconhecido. Os países da Europa ficaram no meio-termo entre a proteção da vida com lockdowns e a manutenção da economia. As mortes só aumentaram e tiveram de voltar atrás. O presidente do Brasil, na má companhia de Trump nos EUA, Lukashenko na Bielorus – aquele que queria curar a COVID com vodka – e Obrador no México, escolheram uma política negacionista, ignorando a OMS e atrasando as medidas necessárias. No Brasil, a compra de vacinas se adquiridas na temporalidade certa poderia ter salvado, segundo especialistas, mais de 300 mil pessoas da morte. Além disso, os mercadores da morte ainda negociavam propinas dentro do Ministério da Saúde em cima de doses que faltavam à população. Experimentavam ao modo nazista a imunidade de rebanho em Manaus, o que causou um dos momentos mais dolorosos na história da minha cidade. Dor e caos amplificados pela falta de oxigênio nos hospitais, causada pela negligência do governo federal e do Estado do Amazonas. É pouco um parágrafo para falar da pandemia e suas consequências no Brasil, com as hoje quase 700 mil mortes. E esse cenário de negacionismo mundial ainda foi piorado no Brasil pelo papel das igrejas neopentecostais e seus pastores, que arregaçaram as portas dos templos para a política partidária, deixando um tal de Jesus em segundo plano.

Com todo o cenário acima, com o histórico de Bolsonaro e a sua personalidade conhecidamente escrota no Congresso, as rachadinhas da família, o desgoverno total em quatro anos, vem a pergunta: como explicar então os 58 milhões de votos que ele ainda teve? Recorro de novo à psicanálise e ao psicanalista Christian Dunker. Para Dunker, uma parcela significativa dos bolsonaristas se sente traída pelo PT. Embora tenha conseguido ascensão social, a classe trabalhadora esperava viver em melhores condições. Sem associar os problemas atuais à figura do atual presidente, “que age como se não fosse propriamente um governo”, resta a decepção com quem representa o estado para essas pessoas – Lula e Dilma. “Elas se voltam com uma certa agressividade, com um certo ódio, para aqueles em quem localizam a falsa promessa”, diz o psicanalista. Sobre o perfil psicológico de Bolsonaro, Dunker diz que suas atitudes se explicam pela patologia dos tiranos: “Para ser um tirano eficaz, o sujeito tem que ser meio débil, meio incapaz de separar o público do privado”. Bolsonaro pode ser visto, assim, entre outras coisas ruins, também como um sintoma de um Brasil neurótico.

Além dos ressentidos – daí a agressividade, a receptividade ao discurso armamentista e golpista com pedido de AI-5 – , há a ponta de cima da pirâmide social, a “elite do atraso”, como nomeou Jessé de Souza. Dona dos meios de produção, essa elite apoia e aplaude o governo de Bolsonaro com suas políticas de arroxo a direitos trabalhistas, o que, claro, aumenta os seus lucros. Luciano Hang, o Véio sonegador da Havan, é um exemplo dessa gente. Mas o seu Zé, da taberna, também veste essa camisa, no entremeio entre o grupo um e dois. Boa parte da classe média, com suas bolsas de grife e seus perfumes doces, também veste a canarinho e esteve aí pendurando a bandeira nas sacadas e nos carros. Se a escolha dos ressentidos é uma inconsciente vendeta do desejo não realizado, a elite rica desse país fez e faz uma escolha pragmática pelo viés do capitalismo mais selvagem mesmo. E a classe média que embarcou nessa se mira numa riqueza que de fato não tem, mas pensa que tem, coitada. Um terceiro grupo nessa equação de sustentação de Bolsonaro é o das igrejas evangélicas. Em última instância, elas também se movem pelo dinheiro, mas com um discurso transverso da pauta de costumes para caber melhor. São as máquinas de dinheiro dos malafaias, macedos e os valadões da vida. Essas igrejas estão hoje corroídas por dentro na sua prática do exercício religioso e são, mais do que já foram, currais político-eleitorais, na cara dura. Usam Jesus como fiador com uma procuração falsa.

Com tudo isso, Lula ganhou. Por isso foi tão apertado. Lula segurou no voto os bilhões do orçamento secreto, a enxurrada do dinheiro dos empresários jogada na campanha de Bolsonaro, a sabotagem do governo nas ações da PRF no dia das eleições, o ódio ressentido dos mais humildes e a máquina religiosa do evangelismo capitalista. Além, claro, de boa parte da imprensa que prefere um projeto mais liberal em relação ao que Lula oferece. Um feito e tanto. Mas e agora?

Diferente do que se acostumou a chamar de bolsonarismo – e eu sugiro que a gente abandone o uso desse termo para não sedimentá-lo –, que tem como prática lidar com o contrário pela supressão, silenciamento e violência – às vezes aniquilamento físico mesmo – temos com a eleição de Lula de buscar um outro caminho. É preciso sair desse Fascismo e reestabelecer os processos democráticos de respeito à alteridade.

Em vez de suprimir o outro, precisamos superar esse cenário e minar o protagonismo dessa gente pela organização social. Sim, mas como fazer isso? Por meio da ampliação das práticas democráticas e da reconquista de espaços sociais perdidos. Por meio do exercício real da redistribuição de renda que devolva à população a sensação de bem-estar que um dia já teve, inclusive num próprio governo Lula passado. Por meio do aumento do Estado de bem-estar social, com acesso à saúde, educação e cultura. Por meio de uma política agressiva de desarmamento que mude a cultura do aniquilamento que se estabeleceu com a multiplicação de clube de tiros e acesso a armas patrocinado por Bolsonaro. Por meio da regulação do agronegócio na sua parte nefasta e irresponsável, dos agrotóxicos, que aumentam os lucros, lucros hoje que não voltam para políticas públicas, mas são canalizados para o fomento do desmatamento e do financiamento da agropolítica vendendo a imagem de que o agro é pop, quando só a parte responsável dele merece ser. Pelo cuidado draconiano com a proteção do meio ambiente. Por meio do retorno da demarcação de terras indígenas. Por meio da taxação e de maior controle social sobre igrejas, para que voltem a ser um lugar de relação do sujeito com a espiritualidade e não esses cassinos que hoje são, resguardadas as exceções de sempre na minha crítica, claro. Por meio da criação e ampliação de políticas públicas para as populações minorizadas – negros, índios, mulheres, LGBTQIA+, PCDs. Confesso que retomada das conferências nacionais anunciada por Lula em seu discurso em São Paulo deu um alento nessa direção.

O caminho é longo. Vai dar muito trabalho. Lula foi eleito para isso. Lula foi eleito por isso. Porque acreditamos num país que considere essas coisas. Ele não vai conseguir fazer tudo isso e mais outras coisas igualmente necessárias, claro. Mas a trilha em que o país volta a pisar em primeiro de janeiro do ano que vem certamente vai nessa direção. Vamos deixar para trás essa página infeliz da nossa história, responsabilizando quem deve ser responsabilizado. Sem revanchismo, mas sem leniência também. Deixamos frouxa a cobrança dos responsáveis pelos crimes da ditadura militar e isso nos fez muito mal como país. Não podemos repetir o erro e devemos responsabilizar, “dentro das quatro linhas da constituição”, quem deve ser responsabilizado. Derrotar o pensamento de extrema-direita no país deve ser a obsessão política dos próximos anos, comum a todos os democratas – de direita, centro ou esquerda.

Porque quem cultiva a semente do amor segue em frente e não se apavora. Se na vida encontrar dissabor vai saber esperar a sua hora. Cuspamos então o dissabor. Chega. Então, meu amigo e minha amiga, erga essa cabeça, meta o pé e vai na fé. Manda essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar. O sambinha diz, com propriedade, que na vida é preciso aprender que se colhe o bem que plantar. É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar. E Ele apontou na eleição de domingo. Vamos lá, Brasil.

Palavra de bêbado

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Em “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, escrita na pauleira da censura do início dos anos 70, é conhecida a homofonia que faz deslizar a letra da música do religioso para o político. “Afasta de mim este cálice/cale-se.”

Há, no entanto, uma passagem pela qual sempre tive uma predileção especial: “Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa”.

Leio sobre Psicanálise desde 1994. Penso a Psicanálise como um dispositivo de interpretação da cultura. Não à toa meu baratinho é Análise de Discurso. Agora ando estudando o trabalho dos sonhos.

Freud diz que os sonhos montam suas histórias, aparentemente sem sentido, com três coisas: restos da véspera, sensações fisiológicas sentidas durante o sono e desejos recalcados na vigília. É por isso que, por exemplo, ter encontrado um coleguinha de infância que não se via há anos, dormir descoberto no frio e ter sofrido bullying dolorido na tenra idade podem aparecer no sonho como, digamos, uma cena no topo do gélido Himalaia. De repente, subindo a montanha, você escorrega e cai, mas se segura em algo. O amigo recém-visto, que no sonho aparece de repente como um companheiro de escalada, surge gargalhando e pisa com força em sua mão para você despencar. Você, no fim, se salva, atualizando o desejo de se ver livre das cicatrizes psíquicas do bullying. Mesmo não tendo sido o tal colega um dos que fizeram bullying com você lá atrás, em sua figura emprestada da experiência do dia estão condensados todos os bullies atormentadores. Esqueminhas do sonho para contar as histórias. Freud, seu bruto.

A arte faz isso também. Gil conta que “Cálice” foi composta no apartamento de cobertura de Chico na Lagoa Rodrigo de Freitas. Ambos bebendo Fernet, uma bebida amarga. Tanto a bebida amarga quanto a lagoa da realidade entraram na música como deslizamentos metafóricos. Restos da realidade trazidos para significar no tecido da letra. A letra, by the way, é cheia de deslizamentos e intertextos. Uma riqueza, obra-prima, de chorar. Juntando os dois assuntos, a passagem da música que destaquei acima como predileta é muito psicanalítica. O silenciamento é imposto ao Ego pela censura do Superego, recalcando o desejo do Id.

Esse desejo, claro, fica atento e vivo na pulsão inquieta, batendo tambor no inconsciente. A pulsão vai uma hora ou outra emergir da lagoa de alguma forma, pois vocação de pulsão é ser. Vira neurose ou dor no corpo ou sublimação ou gozo. Foi isso tudo que fez o monstro da lagoa de Gil e Chico emergir nas Diretas Já, depois de anos daquele terror da ditadura militar. Fazendo um intertexto com o Gonzaguinha, dá para dizer que o copo estava cheio e já não dava mais pra engolir. Foi tudo isso que fez o monstro da lagoa, sem um rosto definido, emergir em junho de 13. Insatisfações de toda ordem. Monstro sem coleira, sem dono, comendo tudo e, principalmente, nossa capacidade de viver no contraditório. Foi tudo isso que fez o monstro da lagoa emergir na eleição de Bolsonaro. As pulsões machistas, preconceitos de todas as formas e tipos, mal-resolvidos de toda ordem, vontade de apagamento do outro…

Tudo o que vinha sendo engolido porque os avanços nas pautas sociais não permitiam mais esses desejos perversos ganhar pastos e sair serelepes por aí. A eleição de Bolsonaro foi a abertura da caixa de Pandora, foi a porteira da boiada do Salles. Fez emergir esse terrível monstro da lagoa que hoje engole nosso sentido de país, que, puf!, vaporizou. A eleição do xexelento só foi possível, esse monstro nojento só emergiu, porque essa turma ficou calada por muito tempo porque a gente tinha tomado esses espaços deles. Mas deu uma grande merda geral. Triste conjunção de cenários que tornou o Brasil um país marginal no mundo, um Tuvalu na geopolítica mundial. Enfim, o que quero dizer é que mesmo calada a boca resta a cuca dos bêbados do centro da cidade.

Muitos de nós estamos embriagados por goles diários de uma dura realidade. Realidade feita de um negacionismo que denegou um inimigo real que tirou vidas porque só sabe existir para combater seus inimigos imaginários, de um (des)governo que faz tudo ao contrário. De uma polícia que castiga corpos pretos todo dia com a naturalidade de quem toma um café. De patroas que apertam o botão do andar da morte social e fazem espatifar junto com os corpos de miguéis os cristais de esperança que teimamos carregar na malinha de mão do nosso coração.

Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano! Danei-me tanto essa noite que decidi escrever porque, Pai, caramba, afasta de mim esse cale-se, essa bebida amarga. Ando cansado de tragar a dor. Mas, sabe, #soubêbadodocentrodacidade. Resta a cuca. Fecho com Ivan Lins na pandemia: no literal, eu lavo as mãos com álcool gel. Mas na metáfora, eu não lavo as mãos e não me calo. Quem é isento nesses tempos é cúmplice. Eu não lavo as mãos e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo.

Atento na arquibancada pra, a qualquer momento, ver emergir um monstro na lagoa. Um monstro que engula esses canalhas todos. Na forma da lei. A eleição está aí.

A camisa toda suja de batom

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Já há algum tempo, eu tenho visto aqui e ali, todos os dias, pessoas reclamando ou comentando que estão hipersensíveis a tudo ou estão meio que sem lugar no mundo. Um tiktok de um doguinho caramelo pedindo carinho comove a ponto de olhos encherem d´água. Uma surpresa carinhosa de uma filha a um pai, vista quando zapeamos pelos reels do Instagram, faz subir no peito uma vontade de chorar que vem das entranhas. Qualquer paisagem postada ao som de Suite for Violoncelo No 1 em G Maior inunda a gente com uma tristeza sem razão aparente. Às vezes olhamos uma coisa que antes era dona de nossa atenção sempre e a vontade é deixar pra lá. Sabemos mais ou menos o que sentimos – algo entre uma melancolia, uma mofineza e uma languidez –, mas não conseguimos identificar de onde vem essa coisa estranha. Quase certeza de que você também que me lê já se sentiu assim nesses tempos recentes.

Nas minhas hipóteses, essa angústia sem remetente direcionada à posta-restante de nossa alma é um subproduto da pandemia. Estamos muito cansados do peso de nossa cabeça, desses dois anos passados, presentes, vividos entre o sonho de existir plenamente – ou de sua ilusão, pelo menos – como era antes do vírus, e o som dessa interminável chuva de lutos e reacomodações que hoje se impõem. Estamos muito cansados. Fatigados a ponto de não poder falar palavra sobre essas coisas sem jeito que trazemos no peito e que, não, definitivamente não achamos tão bom.

Daí vem uma procrastinação como a dizer para não nos preocuparmos com os compromissos nesse mundo agora marcado pela incerteza. O que esperar ao dobrar a próxima esquina? Esbarrar com uma guerra estúpida? Ter de lidar com um presidente imbecil e asqueroso? Ficar no prego de gasolina a quase oito reais o litro? Perder um amigo querido para o suicídio? Quando bate essa desalegria, a reação do eu parece que é rasgar no grito as amarras e se jogar, gritando Esparta!, no hedonismo, nos prazeres, grandes e pequenos, permitidos ou proibidos. É ir para o carnaval purgar a prisão involuntária imposta pelo Corona. É tacar um foda-se no autocuidado, levados por uma pulsão de morte que blefa com a Magra da foice, pagando para ver. Vem, safada! Põe pra cima! É deixar a pulsão dos desejos do Id assumir a porra das rédeas, mandando o superego às favas. Vai controlar a puta que te pariu, bedel dos infernos! É botar o bloco na rua, seja lá o que isso metaforize na sua vida sem carnaval, suspenso em sua folia por essa merda toda que esse vírus trouxe.

O desejo recalcado passa a ser visto com bons olhos. Por que não desejar? Por que não esticar a corda se eu nem sei se haverá corda ao acordar no dia seguinte? À gente só resta ousar quando a única alternativa sobre o gelo fino é a velocidade.

Fato é queremos uma balada nova, falando de brotos, de coisas assim. Falando de money, de banho de lua, de ti e de mim. Ficamos tão mais sentimentais. Tão à flor da pele que o beijo da Marieta Severo com o Reginaldo Farias na novela nos faz chorar. Tão à flor da pele que nosso desejo se confunde com a vontade de não ser, que a nossa pele traz o fogo do juízo final. Nesses dias de desalegria, singramos um rio desconhecido num barco sem porto, sem rumo, sem vela. Cavalgamos um cavalo sem sela; bicho solto, cães sem dono, crianças e bandidos viramos. Vamos de extremo a extremo: às vezes nos preservamos, por outra suicidamos.

Não engula o choro da pandemia. Sim, essa agonia, esses gatilhos invisíveis fazendo sintoma, é tudo causa do choro da pandemia. Choro pelos que perdemos e cujas ausências nos dilaceram as lembranças quando os recordamos. Porque “recordar” vem de re-cardio, passar de novo pelo coração. Aí dói demais. Arde qual álcool em ferida exposta. Como psicólogo, sou obrigado a dizer para você buscar um equilíbrio restaurador e isso passa por se permitir o inédito para dar conta desse lamaçal em que nos metemos. Sem culpas. Habeas corpus. Habeas anima. Está pesado demais para ficarmos catando culpas. Vaze pelos seus poros.

No fundo, penso que todos nós estamos precisando mesmo é daquela sessão de cinema das cinco, para beijar a menina ou o menino, o que faça seu gosto, e levar a saudade na camisa toda suja de batom ou de outras substâncias que do desejo decorrem.

Indo para o supermercado, ouvindo Belchior de manhã cedo no rádio do carro, chorei feito um condenado. Condenado à incompletude, à finitude, ao descontrole sobre o mundo. A moça do caixa, eu acho, nem notou que chorei muito. Se notou, ela foi discreta. Só perguntou se a tristeza era no crédito ou no débito, se meu sentimento torto era por aproximação ou penetrativo.

Ouçam Belchior bem alto aí. E na semana que começa, leitor e leitora queridos, sujem a camisa de batom, if you know what I mean.

Covid, negacionismo, discurso e psicanálise: flores no concreto

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Sérgio Freire
Doutor em Linguística (UNICAMP), Psicólogo
Professor da Universidade Federal do Amazonas

Com tantas informações disponíveis sobre a gravidade da situação e a necessidade de seguir orientações básicas da OMS, muitas pessoas ainda se recusam a aceitar a realidade dos fatos. Por quê? Afinal, que diabos acontece que faz com essas pessoas não aceitem algo que nos parece tão claro? É de deixar perplexo mesmo. Como a gente explica isso?

Motivado por vários comentários nas minhas postagens nas redes sobre a gravidade da situação da COVID-19 em Manaus, andei pensando na questão. Refleti e trago essa reflexão a partir da Psicologia e da Teoria do Discurso, que é por onde transito teoricamente.

Em “O ego e os mecanismos de defesa”, de 1946, Anna Freud nos apresenta as técnicas de defesa a que o ego recorre para não sofrer tanto com a realidade. No caso dos “teimosos” da Covid, trata-se claramente do acionamento de um desses mecanismos apresentados pela autora: a negação. Está na literatura psicológica que as pessoas desenvolvem estratégias para se proteger. Uma dessas estratégias é simplesmente negar a existência de qualquer fonte ameaçadora, seja ela um fato ou uma dor. A negação é uma forma que as pessoas encontram para se defender da ansiedade intrusiva, para fugir de algo que, inconscientemente, sabem que não podem enfrentar. Por exemplo: quando alguém da família morre e uma pessoa não chora, não sofre, mantém a vida como se nada tivesse acontecido, diz-se que está em negação. Situações que causam muita ansiedade, como a perda de alguém ou uma pandemia que mata muita gente, são percebidas como ameaças e podem, por isso, disparar o mecanismo de defesa da negação.

No caso da pandemia, a negação se manifesta de várias maneiras. Pode ser se recusando a usar máscara em público ou participando de grandes aglomerações. Pode ser, ainda, refutando a ciência porque ela contradiz sua crença de que a ameaça não é nada e por não ser nada pode ser controlada com medicamentos ou produtos sem comprovação científica de eficácia. Há ainda os que esvaziam a realidade, negando-a, criando teorias conspiratórias como a de que o vírus foi uma criação chinesa, ou a de que a vacina vai alterar seu DNA ou, ainda, de que o número de mortes reportados são alterados para algum fim maquiavelicamente planejado. O limite é a criatividade.

Basicamente, as formas de negar são variações daquilo que no discurso chamamos de frase de base. A frase de base é “Bem, como eu não quero ou não posso lidar com ela, a pandemia é uma farsa. Ela realmente não existe. É uma invenção com algum propósito escuso.”  É claro que essa fase de base que sustenta o discurso negacionista é um pilar inconsciente e, por isso, escapa à razão do indivíduo. O sujeito negacionista nunca admitirá isso – porque ideologia e inconsciente são transparentes ao sujeito – e ele continuará racionalizando, ou seja, achando razões que sustentem a sua negação.

Usar a negação como mecanismo de enfrentamento nem sempre é uma escolha ruim. Ela faz parte do repertório do sujeito para lidar com a vida. No curto prazo, a negação dá à pessoa tempo para se ajustar a uma situação. Quando se torna uma muleta de longo prazo, no entanto, ela coloca outras pessoas em perigo e passa a ser perigosa. É o caso da pandemia. Daí as pessoas continuarem a fazer festas clandestinas, a ir às praias lotadas, a minimizar o risco, sempre apoiados num discurso racionalizante de que a economia e convivência social não podem parar “por causa da gripezinha.” Mistura-se a isso o que o pai de Anna, Sigmund Freud, chamou de “pulsão de morte”, no livro “Além do princípio do prazer”, de 1920.

Falamos de racionalizar. A negação às vezes se confunde com a racionalização, que é outro mecanismo de defesa. A racionalização se dá quando as pessoas tentam explicar ou diminuir a ameaça da fonte de ansiedade. Por exemplo: quando as pessoas dizem que “a Covid-19 é apenas uma gripezinha”, elas estão admitindo que ela existe, mas estão minimizando a coisa e dizendo que não é tão grave quanto todo mundo – “os conspiracionistas ou mal informados” – está dizendo. Quando citam uma médica ginecologista negacionista para legitimar práticas clínicas que desautorizam a ciência verdadeira – aquelas das pesquisas comprovadas –  e a refutam com crendices ou achismos, é a racionalização que está trabalhando. Acha-se sempre uma razão para o que se acredita. No fim, o argumento acaba sendo: “é a minha opinião e pronto!”. Como se ciência se reduzisse a opiniões. Portanto, há graus e graus de negação e racionalização.


Tanto a negação quanto a racionalização que se perpetuam são consideradas inadequadas. Isso significa que elas não ajudam o indivíduo a se adaptar à fonte da ameaça. Na verdade, podem expô-los a uma chance ainda maior de qualquer coisa que seja ameaçadora, como a vulnerabilização de pessoas que se automedicam, prejudicando seu fígado ao ingerir doses descontroladas de medicamentos prescritos por médicos negacionistas ou ao tratar baixos níveis de oxigenação no corpo com mastruz ou jambu.

Ok. Negacionistas são pessoas que se protegem da realidade negando que ela existe e agindo a partir dessa crença. Mas o que leva uma pessoa a ser negacionistas e outra não? Aqui entram de novo psicologia, psicanálise e discurso.

Segundo a psicologia do desenvolvimento, é por volta dos 6 ou 7 anos que uma criança é capaz de entender o que é fato e o que é ficção. Em nossa cultura, a ficção é reforçada. Há Papai Noel, há Fada do Dente, há Coelhinho da Páscoa. Essas construções fazem parte do desenvolvimento e ajudam as crianças com a fantasia e a fantasia é necessária para o desenvolvimento do simbólico e do imaginário. No entanto, a fantasia precisa ser balanceada como o aprendizado de como tomar decisões com base em informações factuais. E a escolarização tem, junto com os pais, um papel fundamental nisso. Quando os adultos foram criados em um ambiente onde crenças infundadas fizeram parte do discurso, é muito mais provável que acreditem em teorias da conspiração e boatos. Eles também tendem a tomar decisões com base em palpites e ideias preconcebidas e preconceitos, em vez de usar informações factuais e baseadas na ciência. Assim se constroem discursos: crenças são baseadas em ideologias e as ideologias sustentam as verdades em que acreditamos. Quando o sujeito se desenvolve dentro de discursos não acostumados a enfrentar diversidades, tem-se o cenário propício para o protonegacionista. A criança que aprendeu essa prática de pensamento sempre fugirá do enfrentamento como prática de comportamento na vida adulta. Sim, estou dizendo que há uma grande correlação entre negacionistas e sujeitos que tiveram escolarização falha e uma falta para a prática do enfrentamento a situações ansiogênicas na infância. É a hipótese.

John Cook, professor da George Mason University, nos EUA, passou a última década estudando a psicologia dos negadores do clima e os últimos meses tentando entender seus primos ideológicos: pessoas que zombam do coronavírus. Em uma entrevista para o The New York Times, ele diz: “A ideologia é um grande indicador das atitudes das pessoas em relação às mudanças climáticas, mas o tribalismo é ainda mais”, disse ele. “Em última análise, os humanos são animais sociais. Se minha tribo acredita que a mudança climática é uma farsa, é muito mais provável que eu acredite nisso também. E isso definitivamente também está em jogo com a Covid.” É o tal do comportamento de rebanho, de gado. Faz sentido o apelido da turma?  O pesquisador ainda é mais incisivo: “Em ambas as questões, [porque a questão é tribal], a liderança é crucial para mudar atitudes e conquistar a negação.” Mas não é isso que acontece no Brasil, com o presidente que temos, um negacionista também. Vamos é na direção contrária com Bolsonaro.

Até aqui explicamos por que as pessoas negam a realidade da COVID, de onde vem essa prática negacionista e qual é a importância de um líder para modificar comportamentos de grupos. Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud apresenta suas considerações sobre o fenômeno psicológico que mantém coesa uma massa de pessoas. Vale a leitura, de tão atual que é.

Ok. Sabemos por que negacionistas se comportam assim, o que provavelmente faz as pessoas serem negacionistas e a necessidade de um líder para fazer esse grupo mudar de rumo ou ampliar seu comportamento negacionista, que é o caso do Brasil. Aqui, no Patropi, há saída para esse atoleiro?

Em um artigo de novembro de 2020, chamado “Psychoanalysis in combatting mass non-adherence to medical advice”, o pesquisador Austin Ratner diz: “Como os psicanalistas podem ajudar a tratar a negação em massa e a não adesão em massa? Tanto epidemiologistas quanto psicanalistas resolvem problemas aumentando a conscientização; epidemiologistas conscientizam sobre os perigos para a saúde pública, enquanto psicanalistas conscientizam as pessoas sobre suas próprias defesas psicológicas, que trabalham para tirar o perigo e a ansiedade da consciência, precisamente porque são difíceis de enfrentar. Embora os psicanalistas não possam tratar cada caso de negação individualmente, eles podem educar os profissionais de saúde e líderes governamentais sobre a negação e trabalhar com eles em mensagens eficazes que ajudem a dissipar e delimitar essa força psicológica serpentina.” Claro. Isso quando líderes estão dispostos a tal. Dançamos de novo no Brasil.

Ratner talvez aponte um caminho. Se as pessoas são negacionistas e não se cuidam, parece que o amor pelas pessoas de sua família seja a única coisa mais forte que pode fazer o negacionista cair na real. E o discurso deve ser esse: se não for por você, que seja pelo seu pai, sua mãe, seus filhos. Campanhas de saúde e prevenção devem sustentar essa linha discursiva, ao mesmo tempo que o governo deve agir com poder de polícia para decretar recolhimentos e lockdowns para os mais resistentes. Força e jeito.

Querer convencer individualmente a pessoa, em comentários infinitos nas redes sociais, tem se mostrado improdutivo, ineficaz e cansativo. Porque a barreira do negacionismo inconsciente é feita de concreto semântico. Mas resta a poesia: flores nascem nas fissuras do concreto. Parece piegas terminar o texto assim: mas só amor salva.

A escolha de Sofia

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O filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

Ouro de memória

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Nessa semana eu participei na universidade em que trabalho da cerimônia do chá, promovida pelos professores do curso de Japonês. Como a curiosidade me habita desde que me entendo por gente, fui pesquisar mais para aprender melhor o significado de tudo aquilo. Comecei a ler sobre cultura japonesa. E eis que me deparo com o Kintsugi.
Kintsugi (金継ぎ) significa algo como “junção com ouro”. É um estilo de arte japonês em que peças de cerâmica quebradas são consertadas, mas com todas as suas rachaduras aparentes sendo destacadas e preenchidas com uma liga que envolve pó de ouro. Por trás de uma aparentemente simples técnica de reparo, há uma bonita filosofia de vida, diferente daquela com que estamos acostumados por essas bandas do mundo.
Nessa banda ocidental capitalista, o novo, o inteiro, o perfeito é o parâmetro do bom, o que é valorizado. Buscamos consertar as coisas para que aparentem ser de novo como novas. Ou mesmo substitui-las, se ficar muito complicado resgatar a semelhança. As velhas coisas, consertadas, quanto mais parecidas com o que eram antes de dar defeito, mais perfeitas as consideramos. Essa busca fixada pela perfeição nos leva às ditaduras da beleza, do corpo, das aparências irretocáveis perante os outros. Vivemos a necessidade de instagramizar a vida, mostrando aos outros nossas perfeições de várias formas.
Acontece que a vida vem e não pede licença. Ela é real e de viés. A vida real, em outras palavras, é muito mais foda do que a das redes sociais. A vida acontece e nos transforma e nunca mais somos os mesmos. Daí, temos duas possibilidades lógicas de encarar essa vinda da vida: ou gastamos esforços hercúleos para tentar deixar como novo o que a vida estilhaça ou aprendemos a consertar essas rachaduras na cerâmica de nossa vida com ligas de ouro, preenchendo as rachaduras com o ouro da memória, como sugere o Kintsugi.
Acostumar-se a dar sentidos às rachaduras da vida pode ser uma forma de aprender a sofrer menos. Se deixarmos de vê-las como algo ruim, deixamos também de considerá-las indesejáveis e passamos a entendê-las como partes, pedaços, estilhaços de nós mesmos. Cacos de nossa história. Ao contrário de querer que as coisas voltem a ser como novas, é preciso compreender que parte do nosso legado é aquilo que somos tentados a esconder com mais determinação: as nossas falhas e defeitos. As falhas e defeitos, mais do que problemas, são partes constitutivas de nosso eu, daquilo que resulta da minha interação com o mundo. Estamos em movimento e o movimento deixa marcas. A estética Kintsugi foca exatamente nas questões como a transitoriedade e a impermanência do que na beleza propriamente dita. Aliás, redefine o conceito de beleza como sendo exatamente aquilo que temos de igual, mas também, e principalmente, aquilo que nos faz diferentes dos outros do mundo. Nossa cicatrizes são as lembranças de nossa caminhada e essa caminhada é só nossa e de mais ninguém. Sua unicidade é que nos faz indivíduos no meio de um mundo social porque refletem nossa história.
Cicatrizes são história. As menores, memórias de alguma arte a infância. Eu tenho uma no queixo e outra no pé. As maiores, uma prova de que se é um sobrevivente. Tenho várias no coração. A idade e minhas leituras em discurso e em psicologia têm me feito preencher esses espaços craquelados com o ouro da memória, dando a tudo isso significados que hoje me fazem ser quem eu sou. Eu sou esse inteiro, boca linda, dedos feios, mãos macias, barriguinha de chope, sinalzinho único perto da boca. E tenho uma autoestima de periguete como resultado de me gostar com meus ranços e avanços cada vez mais. Eu me gosto pacas.
Screen Shot 2016-02-06 at 2.02.53 PM.pngNão estou dizendo para fazer o jogo do contente, ignorar desequilíbrios e ir no fluxo da vida sem agência alguma. Longe de mim achar que não se deva buscar equilibrar o que está desequilibrado. O que estou dizendo é que é possível reequilibrar os desbalanços simplesmente mudando os critérios da balança. Não dá para eu ficar lamentando as vezes em que me perdi no caminho. Foi sair da estrada que me fez chegar, de outra forma, até aqui. Tudo isso deve ser visto como meu pote. A parte inteira e a parte rachada. O que pegou, o que pesou, hoje é ouro para mim, remendando meu eu, me dando unidade para ir adiante e me consertando. Mais: me concertando na sinfonia do mundo. Porque a vocação do ser humano é ser feliz, é cantar, é dançar, mesmo que desengonçado como eu. É meu charme. Quais são as suas rachaduras que ainda precisam do seu ouro de memória, querido leitor?
Que tal mexer nisso nesse carnaval, hein? Porque, como diz Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Somos dores e delícias. Nem mais, nem menos. Mas tudo isso. A cultura japonesa é muito bonita.

O selo de Tutankamon

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Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

Não é só por um pirulito

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Eu tenho procurado reduzir um pouco minha presença nas redes sociais. Por várias questões que não vêm ao caso. Meu jejum, no entanto, foi quebrado motivado pelo vídeo que andou circulando sobre o episódio da agressão de um jovem por outro. A agressão repercutiu porque foi filmada por uma jovem que a registrou, em meio a risadas.

Há um velho conselho prático das redes sociais: não leia os comentários. Pois além de ver o vídeo, eu li os comentários. Todos. O vídeo e os comentários me suscitaram algumas questões.

O que primeiro me chama a atenção é a espetacularização do fato. Em nossa era da digitalização da vida, não é suficiente viver os acontecimentos: é preciso torná-lo imagem e distribui-lo ao mundo. Redefiniu-se o próprio conceito de fato: só é fato aquilo que aparece. Mas não bastam as imagens. Elas precisam gerar interação, ranger os sentidos. Impossível não lembrar de Guy Debord e seu “A sociedade do espetáculo”. Debord diz que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social de pessoas, mediadas pela imagem”. Filmar a agressão é dar vazão a esse desejo de ser protagonista das redes, ser parte dos BBBs dos facebooks ou whatsapps da vida. Para isso, suspende-se sem pensar qualquer valor e capacidade de julgamento sobre as consequências. “Danem-se o que isso significa! Isso vai me dar likes” parece ser o lema do sujeito da sociedade digital. Essa necessidade crescente de apresentar/representar a vida via redes tem modificado as relações pessoais e sociais e é objeto de inquietação de muitos pesquisadores, entre eles o sociólogo Zygmunt Bauman. Bauman constata que tudo se tornou líquido e escorre pelos dedos: trabalho, valores, amores e afetos. Vejo recorrentemente isso acontecer naquilo que tenho chamado de “sequestro da singularidade”. A ninguém mais é dado o direito de viver uma experiência sem que alguém sequestre a singularidade do momento, comentando imediatamente que também já fez isso, já esteve no mesmo lugar ou coisa parecida. É a necessidade do protagonismo, em um narcisismo que Gilles Lipovetsky considera fundador de nosso tempo, chamado por ele convincentemente de a “era do vazio”.

Para além da espetacularização, há o fato da agressão em si. O bullying é um problema crônico nas escolas, com consequências sérias tanto para vítimas quanto para agressores. As formas de agressão entre alunos são as mais diversas: empurrões, pontapés, insultos, histórias humilhantes, mentiras para implicar a vítima em situações vexatórias, invenção de apelidos que ferem a dignidade, captação e distribuição de imagens, ameaças e exclusão. No entanto, o universo escolar é reflexo da sociedade mais ampla de que faz parte. O crescente assédio violento tem se dado em todos os setores da vida: no trabalho (assédio moral), nas questões de sexualidade (assédio sexual, homofobia), na família (alienação parental, agressão à mulher), na política (intransigência e ódio político), na relações com as minorias (preconceito) etc. O que temos de fato é a mesma prática. Ela só é renomeada dependendo do cenário. E muitos dos que condenam o bullying escolar praticam abertamente outros tipos de violência simbólica. O mais grave: sequer se dão conta disso. Nos comentários sobre o vídeo, não foram poucos o que juraram o garoto agressor de uma boa surra. A diferença constitui nossa sociedade e nosso maior desafio neste início de século é encontrar um modo de viver com a diferença que amplie a qualidade de vida de todos. Penso que a cada um de nós cabe combater a assimetria de poderes mal distribuídos, assimetria essa que leva às práticas abusivas. E a responsabilidade não é só do Estado – também é em parte, com as políticas regulatórias e aqui vai uma vaia imensa à redução da maioridade penal. Mas o Estado também somos nós nas nossas práticas cotidianas. É como diz o filósofo José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.

Um terceiro ponto que me tocou nesse episódio é a atribuição de responsabilidade pelo fato da agressão ter acontecido. Uns dizem que a culpa é da escola. Por ser de uma escola particular entre as mais caras de Manaus, o menino seria mimado e dono do mundo, sem disciplina. Há de se ter cuidado. É uma generalização apressada. Li em algumas opiniões um indisfarçável ranço de classe, a despeito do fato de que a disparidade econômica, muitas vezes, coloca alguns sujeitos em uma cega posição que transforma sua superioridade econômica em pretensa superioridade social de fato. Mas de novo, isso é reflexo do tecido social. Quantos juízes, médicos e outras profissões mais valorizadas na sociedade não mimetizam esse comportamento de casta superior? E novamente essa é uma generalização apressada que faço e que precisa de todos os aviso da existência de exceções. Penso que a questão não está na escola em si, a despeito da crítica que possamos ter à sua linha pedagógica. O buraco é mais embaixo: a questão é a divisão social do trabalho valorada pela performatividade, um problema do próprio sistema capitalista. Jean-François Lyotard, em “A condição pós-moderna”, já falava sobre isso. Em 1977. Leiam. Não cabe aqui. Culpar a escola é cair num reducionismo pueril, a meu ver.

Muita gente atribuiu a responsabilidade à escola pelo fato de os jovens estarem uniformizados. Quanto a isso, à escola cabe lidar com a questão em função de suas regras, afinal, uniformizados, os alunos são a escola. Assim como é necessário posicionamento da escola de língua em cujas dependências aconteceu a agressão. Silenciar é a pior das opções. Chamem os RPs para lidar com a crise de imagem que esses alunos geraram. E que eles sejam responsabilizados por seus atos, sim. Atos têm consequências. Qualquer um. Até a omissão.

Um parêntese. Uma nota sobre a escola e seu papel. Com a própria dinâmica social, a escola recebeu papéis que não eram seus. A função fundamental da escola é a escolarização. Escolarização é apenas um dos componentes da educação, que é bem mais ampla e complexa, composta por várias variáveis. Ao se equalizar escolarização com educação atribui-se um papel messiânico e salvador que a escola não tem e se atribui aos professores tarefas que não lhes cabem, entre elas a de preencher as demandas afetivas e valorativas que deveriam ser responsabilidades da família imediata. Essa dinâmica social a que me referi é perversa porque, entre outras coisas, empurra para a escola o papel até de provedora de sobrevivência. Quem vive escola pública sabe o caos que é quando falta merenda. Fecha parêntese.

Por fim, penso que muitos dos comentários que li são tão sintomáticos do estado assustador em que nos encontramos quanto a própria agressão em si. A agressão é triste, sim. E precisa ser comentada e debatida. Precisa gerar deslocamentos. Ela mostra o quanto estamos doentes e temos urgência em repensar as desigualdades em todos os níveis, dando mais atenção às relações humanas. Sem ter a pretensão de negar a sociedade digital – uma impossibilidade, de fato –, urge de vez em quando desconectar o smartphone e olhar as pessoas nos olhos para relativizar a digitalização da vida, com tudo que ela traz de bom e ruim, por meio do exercício da condição humana. Os comentários ao vídeo definitivamente nos escancaram para a constatação de que esse tipo de agressão não se dá só por um pirulito. Há uma tábua cheia de furos sustentando esses e outros pirulitos pelos quais brigamos diariamente. Essa tábua com furos é o tecido de nossa subjetividade, incompleta por constituição. Olhar para a tábua mais do que para o pirulito talvez nos esclareça melhor os cenários, as diferenças, os problemas, as inquietações e, com isso, nossas próprias questões para que possamos encontrar uma existência menos angustiante, depressiva e opressora, com um pouco mais de paz, serenidade e poesia. Estamos precisando. Feliz Páscoa.

Aviso

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Quando eu for velho eu vou usar laranja
Com bermuda florida que não combina e que vai ficar papagaiado em mim.
Vou gastar minha aposentadoria em minha coleção de corujas
Que vai se espalhar pela casa causando constrangimento às minhas filhas e dó às minhas visitas.
Vou a todo canto de chinelo e sempre vou dizer que não tenho dinheiro pra conta.
Quando eu for velho, vou sentar no chão quando estiver cansado, como fazia quando era criança, o que desde sempre me valeu o apelido de Velhinho.
Vou comer as amostras grátis no supermercado e pegar tudo que for brinde. “Para minhas netinhas”, direi eu à moça sem graça, que não me negará.
Quando eu for velho, vou roubar livros em livrarias e se o alarme tocar vou dizer que são meus pinos, meu filho.
Vou usar minha bengala para apertar válvulas de pneus de maus motoristas, desses que estacionam em vagas de velho. E vou sentar no meio-fio para ver a cara do imbecil.
Quando for velho, vou roubar flores dos jardins dos outros. Se for pego, vou dizer que é pra minha velha. Rirei um riso banguela e ganharei olhares ternos do dono do jardim.
Quando for velho, fingirei surdez precoce e profunda para ouvir as pessoas fofocando.
Vou escrever cartas à mão para um monte de gente, dizendo tudo que penso delas.
Vou furar as caixinhas de leite condensado e detoná-las inteiras, mesmo sendo jurado de asilo pelas minhas meninas, preocupadas com meu açúcar.
Quando eu for velho, darei a mim álibis para justificar desatinos que compensem a sobriedade de minha juventude. Fui muito certinho.
Quando for velho, e enquanto a mão obedecer, vou escrever poemas em folhas soltas e guardar dentro dos livros da estantes para que sejam descobertos por leitores anônimos quando eu me for.
Quando eu for velho, ninguém mais vai mandar eu fazer as coisas. Só farei o que quiser.
Ah, e quando eu for velho, eu vou dobrar a bainha da minha calça pra cima, com dobras bem largas.