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A escolha de Sofia

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screen-shot-2017-01-29-at-11-04-37-amO filme é de 1982. Em 1947, Stingo (Peter MacNicol), um jovem aspirante a escritor vindo do sul, vai morar no Brooklyn na casa de Yetta Zimmerman (Rita Karin), que alugava quartos. Lá conhece Sofia Zawistowska (Meryl Streep), sua vizinha do andar de cima, que é polonesa e fora prisioneira em um campo de concentração e Nathan Landau (Kevin Kline), seu namorado, um carismático judeu dono de um temperamento totalmente instável. Em pouco tempo tornam-se amigos, sendo que Stingo não tem a menor ideia dos segredos que Sofia esconde. Dentre esses segredos está a história de seu dilema. Seu dilema surge ao ser forçada por um soldado nazista a escolher um de seus dois filhos para ser morto. Se ela se recusasse a escolher um, ambos seriam mortos. Meryl Streep, como sempre, deu um show e ganhou o Oscar. E mais não conto porque você tem de ir lá assistir ao filme.

Diferentemente da escolha da Sofia de Meryl, de uma brutalidade inimaginável para qualquer pai ou mãe, eu queria falar aqui de outra escolha. A escolha que tantas mães e pais fazem pela vida. A escolha pelo acolhimento de uma vida que chega pela adoção.

Adotar é um ato de coragem, de grandeza e de amor. Requer coragem acolher como seu um filho que não foi gerado biologicamente nas suas entranhas, que já vem semipronto com sua breve experiência de vida, com porções de sua personalidade já marcadas por um período da infância sobre o qual se sabe pouco ou nada. Requer coragem porque foge à ordem natural da procriação biológica. Essa coragem, no entanto, vem acompanhada de uma grandeza imensa. Porque tudo isso vira detalhe em função do acolhimento, tudo o de antes se esvai ao tomar a criança no colo pela primeira vez, ao ver seu sorriso iluminando magicamente a nossa alma. E isso é amor, em uma das suas formas mais bonitas.

Nosso mundo é plural e, por isso, as verdades são plurais também. Há pessoas que acham que só se deve ter relações sexuais para procriar. Outros veem no sexo de um casal, além da necessidade fisiológica da espécie, um momento sublime de estreitamento de laços afetivos, de cumplicidade; há quem só considere como possibilidade o parto normal. Há quem entenda que o parto cesárea é um recurso da medicina, que deve ser usado por uma série de razões, como evitar que a mãe sofra por horas no esforço do parto normal, sofrimento esse imediatamente rebatido e ressignificado como privilégio pelo discurso dos naturalistas; há quem sustente que filho é apenas uma categoria biológica. E há os que sabem que filho é uma categoria simbólica. Mais do que isso: um sujeito que vai se fazendo pelo afeto. Para uns, nasce-se filho. Para outros, faz-se filho.

Também tenho meus sentidos sobre família, filho, irmãos, pais, adoação. O biológico é importante, mas, para mim, muito mais importante é a construção simbólica que alicerça as relações. Há irmãos que vieram de diferentes barrigas que são mais irmãos que Yaqub e Omar, que vieram do mesmo óvulo. Há pais e mães impedidos biologicamente de ter seus filhos que são mais pais e mais mães do que muitos pais e mães que põem crianças no mundo e se eximem do exercício dos papéis simbólicos de pai e mãe, tão fundamentais para o sujeito, absolutamente estruturantes seja lá qual for a teoria da personalidade que você escolha na psicologia para explicar. Tão importantes que tive de repetir ‘pai’ e ‘mãe’ tantas vezes nesse parágrafo.

Muitas pessoas adotam, mas se deixam escravizar pelo conceito biológico. Escondem da criança adotada sua condição de adotada enquanto podem. É como se a adoação não fosse uma filiação plena, o que ela só passa a ser se “filho” for entendido, repito, como um lugar construído e não como uma condição biológica apenas. Particularmente penso que as pessoas têm direito à sua história. Que os filhos adotivos devam saber de sua condição desde cedo, encontrando-se, claro, as formas adequadas para se apresentar a situação. O filho da barriga, o filho do coração. Deve estar claro que ele/ela jamais será filho biológico de seus pais. Para muitos, essa é uma falta que precisa ser bem elaborada e desconstruída, seu peso nos ombros aliviado pela ênfase no lugar simbólico de filho/filha, construído pelo acolhimento, pelo afeto, pelo amor da convivência. Os desarranjos do esperado sempre irão requerer dos sujeitos rearranjos. Assim é a vida. Para tudo.

Diz o povão: “Pai é quem cria”. E é isso mesmo. Pode coincidir de que quem crie seja o pai biológico ou não. A vida é uma teia de relações. Precisamos cuidar delas. A família é a teia inicial, a teia de sustentação. Tenha ela a configuração que tenha, seja ela feita do mesmo sangue, seja ela feita da mesma alma.

Chegou a Sofia, minha sobrinha. Adotada pela minha irmã e meu cunhado. Chega brilhando depois de uma longa espera, depois de uma gravidez simbólica regada pacientemente com amor. Oferta-se à nossa família para receber muito carinho, muito cheirinho, muita babação. Vem para nossa família e já é filha, sobrinha, neta, sobrinha-neta, irmã, prima. É como disse o Thomaz Nogueira, veio para ocupar o lugar do vovô na Kombi.

Nosso mundo é um mundo plural. Há quem não acredite que exista alguém lá em cima mexendo os pauzinhos, cuidando do script das nossas vidas. Há quem acredite. Para quem acredita, eu incluído, Sofia fez uma boa negociação por lá e escolheu vir para um colo especial, de uma família bonita, onde certamente será muito feliz. Falei, divaguei e filosofei. Mas, no fundo, era dessa “Escolha de Sofia” que eu queria falar. Ela ainda caprichou na escolha: fechou ter vindo ao mundo no dia do aniversário da minha irmã, a fofura.

Bem-vindo ao seu novo mundo, Sofia. Que a felicidade seja a melhor hóspede, sua e de seus pais, para sempre. É amor, de todas as cores e sabores, que nós desejamos para vocês. Amém.

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Ouro de memória

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Nessa semana eu participei na universidade em que trabalho da cerimônia do chá, promovida pelos professores do curso de Japonês. Como a curiosidade me habita desde que me entendo por gente, fui pesquisar mais para aprender melhor o significado de tudo aquilo. Comecei a ler sobre cultura japonesa. E eis que me deparo com o Kintsugi.
Kintsugi (金継ぎ) significa algo como “junção com ouro”. É um estilo de arte japonês em que peças de cerâmica quebradas são consertadas, mas com todas as suas rachaduras aparentes sendo destacadas e preenchidas com uma liga que envolve pó de ouro. Por trás de uma aparentemente simples técnica de reparo, há uma bonita filosofia de vida, diferente daquela com que estamos acostumados por essas bandas do mundo.
Nessa banda ocidental capitalista, o novo, o inteiro, o perfeito é o parâmetro do bom, o que é valorizado. Buscamos consertar as coisas para que aparentem ser de novo como novas. Ou mesmo substitui-las, se ficar muito complicado resgatar a semelhança. As velhas coisas, consertadas, quanto mais parecidas com o que eram antes de dar defeito, mais perfeitas as consideramos. Essa busca fixada pela perfeição nos leva às ditaduras da beleza, do corpo, das aparências irretocáveis perante os outros. Vivemos a necessidade de instagramizar a vida, mostrando aos outros nossas perfeições de várias formas.
Acontece que a vida vem e não pede licença. Ela é real e de viés. A vida real, em outras palavras, é muito mais foda do que a das redes sociais. A vida acontece e nos transforma e nunca mais somos os mesmos. Daí, temos duas possibilidades lógicas de encarar essa vinda da vida: ou gastamos esforços hercúleos para tentar deixar como novo o que a vida estilhaça ou aprendemos a consertar essas rachaduras na cerâmica de nossa vida com ligas de ouro, preenchendo as rachaduras com o ouro da memória, como sugere o Kintsugi.
Acostumar-se a dar sentidos às rachaduras da vida pode ser uma forma de aprender a sofrer menos. Se deixarmos de vê-las como algo ruim, deixamos também de considerá-las indesejáveis e passamos a entendê-las como partes, pedaços, estilhaços de nós mesmos. Cacos de nossa história. Ao contrário de querer que as coisas voltem a ser como novas, é preciso compreender que parte do nosso legado é aquilo que somos tentados a esconder com mais determinação: as nossas falhas e defeitos. As falhas e defeitos, mais do que problemas, são partes constitutivas de nosso eu, daquilo que resulta da minha interação com o mundo. Estamos em movimento e o movimento deixa marcas. A estética Kintsugi foca exatamente nas questões como a transitoriedade e a impermanência do que na beleza propriamente dita. Aliás, redefine o conceito de beleza como sendo exatamente aquilo que temos de igual, mas também, e principalmente, aquilo que nos faz diferentes dos outros do mundo. Nossa cicatrizes são as lembranças de nossa caminhada e essa caminhada é só nossa e de mais ninguém. Sua unicidade é que nos faz indivíduos no meio de um mundo social porque refletem nossa história.
Cicatrizes são história. As menores, memórias de alguma arte a infância. Eu tenho uma no queixo e outra no pé. As maiores, uma prova de que se é um sobrevivente. Tenho várias no coração. A idade e minhas leituras em discurso e em psicologia têm me feito preencher esses espaços craquelados com o ouro da memória, dando a tudo isso significados que hoje me fazem ser quem eu sou. Eu sou esse inteiro, boca linda, dedos feios, mãos macias, barriguinha de chope, sinalzinho único perto da boca. E tenho uma autoestima de periguete como resultado de me gostar com meus ranços e avanços cada vez mais. Eu me gosto pacas.
Screen Shot 2016-02-06 at 2.02.53 PM.pngNão estou dizendo para fazer o jogo do contente, ignorar desequilíbrios e ir no fluxo da vida sem agência alguma. Longe de mim achar que não se deva buscar equilibrar o que está desequilibrado. O que estou dizendo é que é possível reequilibrar os desbalanços simplesmente mudando os critérios da balança. Não dá para eu ficar lamentando as vezes em que me perdi no caminho. Foi sair da estrada que me fez chegar, de outra forma, até aqui. Tudo isso deve ser visto como meu pote. A parte inteira e a parte rachada. O que pegou, o que pesou, hoje é ouro para mim, remendando meu eu, me dando unidade para ir adiante e me consertando. Mais: me concertando na sinfonia do mundo. Porque a vocação do ser humano é ser feliz, é cantar, é dançar, mesmo que desengonçado como eu. É meu charme. Quais são as suas rachaduras que ainda precisam do seu ouro de memória, querido leitor?
Que tal mexer nisso nesse carnaval, hein? Porque, como diz Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Somos dores e delícias. Nem mais, nem menos. Mas tudo isso. A cultura japonesa é muito bonita.

O selo de Tutankamon

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The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

Não é só por um pirulito

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Eu tenho procurado reduzir um pouco minha presença nas redes sociais. Por várias questões que não vêm ao caso. Meu jejum, no entanto, foi quebrado motivado pelo vídeo que andou circulando sobre o episódio da agressão de um jovem por outro. A agressão repercutiu porque foi filmada por uma jovem que a registrou, em meio a risadas.

Há um velho conselho prático das redes sociais: não leia os comentários. Pois além de ver o vídeo, eu li os comentários. Todos. O vídeo e os comentários me suscitaram algumas questões.

O que primeiro me chama a atenção é a espetacularização do fato. Em nossa era da digitalização da vida, não é suficiente viver os acontecimentos: é preciso torná-lo imagem e distribui-lo ao mundo. Redefiniu-se o próprio conceito de fato: só é fato aquilo que aparece. Mas não bastam as imagens. Elas precisam gerar interação, ranger os sentidos. Impossível não lembrar de Guy Debord e seu “A sociedade do espetáculo”. Debord diz que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social de pessoas, mediadas pela imagem”. Filmar a agressão é dar vazão a esse desejo de ser protagonista das redes, ser parte dos BBBs dos facebooks ou whatsapps da vida. Para isso, suspende-se sem pensar qualquer valor e capacidade de julgamento sobre as consequências. “Danem-se o que isso significa! Isso vai me dar likes” parece ser o lema do sujeito da sociedade digital. Essa necessidade crescente de apresentar/representar a vida via redes tem modificado as relações pessoais e sociais e é objeto de inquietação de muitos pesquisadores, entre eles o sociólogo Zygmunt Bauman. Bauman constata que tudo se tornou líquido e escorre pelos dedos: trabalho, valores, amores e afetos. Vejo recorrentemente isso acontecer naquilo que tenho chamado de “sequestro da singularidade”. A ninguém mais é dado o direito de viver uma experiência sem que alguém sequestre a singularidade do momento, comentando imediatamente que também já fez isso, já esteve no mesmo lugar ou coisa parecida. É a necessidade do protagonismo, em um narcisismo que Gilles Lipovetsky considera fundador de nosso tempo, chamado por ele convincentemente de a “era do vazio”.

Para além da espetacularização, há o fato da agressão em si. O bullying é um problema crônico nas escolas, com consequências sérias tanto para vítimas quanto para agressores. As formas de agressão entre alunos são as mais diversas: empurrões, pontapés, insultos, histórias humilhantes, mentiras para implicar a vítima em situações vexatórias, invenção de apelidos que ferem a dignidade, captação e distribuição de imagens, ameaças e exclusão. No entanto, o universo escolar é reflexo da sociedade mais ampla de que faz parte. O crescente assédio violento tem se dado em todos os setores da vida: no trabalho (assédio moral), nas questões de sexualidade (assédio sexual, homofobia), na família (alienação parental, agressão à mulher), na política (intransigência e ódio político), na relações com as minorias (preconceito) etc. O que temos de fato é a mesma prática. Ela só é renomeada dependendo do cenário. E muitos dos que condenam o bullying escolar praticam abertamente outros tipos de violência simbólica. O mais grave: sequer se dão conta disso. Nos comentários sobre o vídeo, não foram poucos o que juraram o garoto agressor de uma boa surra. A diferença constitui nossa sociedade e nosso maior desafio neste início de século é encontrar um modo de viver com a diferença que amplie a qualidade de vida de todos. Penso que a cada um de nós cabe combater a assimetria de poderes mal distribuídos, assimetria essa que leva às práticas abusivas. E a responsabilidade não é só do Estado – também é em parte, com as políticas regulatórias e aqui vai uma vaia imensa à redução da maioridade penal. Mas o Estado também somos nós nas nossas práticas cotidianas. É como diz o filósofo José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.

Um terceiro ponto que me tocou nesse episódio é a atribuição de responsabilidade pelo fato da agressão ter acontecido. Uns dizem que a culpa é da escola. Por ser de uma escola particular entre as mais caras de Manaus, o menino seria mimado e dono do mundo, sem disciplina. Há de se ter cuidado. É uma generalização apressada. Li em algumas opiniões um indisfarçável ranço de classe, a despeito do fato de que a disparidade econômica, muitas vezes, coloca alguns sujeitos em uma cega posição que transforma sua superioridade econômica em pretensa superioridade social de fato. Mas de novo, isso é reflexo do tecido social. Quantos juízes, médicos e outras profissões mais valorizadas na sociedade não mimetizam esse comportamento de casta superior? E novamente essa é uma generalização apressada que faço e que precisa de todos os aviso da existência de exceções. Penso que a questão não está na escola em si, a despeito da crítica que possamos ter à sua linha pedagógica. O buraco é mais embaixo: a questão é a divisão social do trabalho valorada pela performatividade, um problema do próprio sistema capitalista. Jean-François Lyotard, em “A condição pós-moderna”, já falava sobre isso. Em 1977. Leiam. Não cabe aqui. Culpar a escola é cair num reducionismo pueril, a meu ver.

Muita gente atribuiu a responsabilidade à escola pelo fato de os jovens estarem uniformizados. Quanto a isso, à escola cabe lidar com a questão em função de suas regras, afinal, uniformizados, os alunos são a escola. Assim como é necessário posicionamento da escola de língua em cujas dependências aconteceu a agressão. Silenciar é a pior das opções. Chamem os RPs para lidar com a crise de imagem que esses alunos geraram. E que eles sejam responsabilizados por seus atos, sim. Atos têm consequências. Qualquer um. Até a omissão.

Um parêntese. Uma nota sobre a escola e seu papel. Com a própria dinâmica social, a escola recebeu papéis que não eram seus. A função fundamental da escola é a escolarização. Escolarização é apenas um dos componentes da educação, que é bem mais ampla e complexa, composta por várias variáveis. Ao se equalizar escolarização com educação atribui-se um papel messiânico e salvador que a escola não tem e se atribui aos professores tarefas que não lhes cabem, entre elas a de preencher as demandas afetivas e valorativas que deveriam ser responsabilidades da família imediata. Essa dinâmica social a que me referi é perversa porque, entre outras coisas, empurra para a escola o papel até de provedora de sobrevivência. Quem vive escola pública sabe o caos que é quando falta merenda. Fecha parêntese.

Por fim, penso que muitos dos comentários que li são tão sintomáticos do estado assustador em que nos encontramos quanto a própria agressão em si. A agressão é triste, sim. E precisa ser comentada e debatida. Precisa gerar deslocamentos. Ela mostra o quanto estamos doentes e temos urgência em repensar as desigualdades em todos os níveis, dando mais atenção às relações humanas. Sem ter a pretensão de negar a sociedade digital – uma impossibilidade, de fato –, urge de vez em quando desconectar o smartphone e olhar as pessoas nos olhos para relativizar a digitalização da vida, com tudo que ela traz de bom e ruim, por meio do exercício da condição humana. Os comentários ao vídeo definitivamente nos escancaram para a constatação de que esse tipo de agressão não se dá só por um pirulito. Há uma tábua cheia de furos sustentando esses e outros pirulitos pelos quais brigamos diariamente. Essa tábua com furos é o tecido de nossa subjetividade, incompleta por constituição. Olhar para a tábua mais do que para o pirulito talvez nos esclareça melhor os cenários, as diferenças, os problemas, as inquietações e, com isso, nossas próprias questões para que possamos encontrar uma existência menos angustiante, depressiva e opressora, com um pouco mais de paz, serenidade e poesia. Estamos precisando. Feliz Páscoa.

Aviso

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Quando eu for velho eu vou usar laranja
Com bermuda florida que não combina e que vai ficar papagaiado em mim.
Vou gastar minha aposentadoria em minha coleção de corujas
Que vai se espalhar pela casa causando constrangimento às minhas filhas e dó às minhas visitas.
Vou a todo canto de chinelo e sempre vou dizer que não tenho dinheiro pra conta.
Quando eu for velho, vou sentar no chão quando estiver cansado, como fazia quando era criança, o que desde sempre me valeu o apelido de Velhinho.
Vou comer as amostras grátis no supermercado e pegar tudo que for brinde. “Para minhas netinhas”, direi eu à moça sem graça, que não me negará.
Quando eu for velho, vou roubar livros em livrarias e se o alarme tocar vou dizer que são meus pinos, meu filho.
Vou usar minha bengala para apertar válvulas de pneus de maus motoristas, desses que estacionam em vagas de velho. E vou sentar no meio-fio para ver a cara do imbecil.
Quando for velho, vou roubar flores dos jardins dos outros. Se for pego, vou dizer que é pra minha velha. Rirei um riso banguela e ganharei olhares ternos do dono do jardim.
Quando for velho, fingirei surdez precoce e profunda para ouvir as pessoas fofocando.
Vou escrever cartas à mão para um monte de gente, dizendo tudo que penso delas.
Vou furar as caixinhas de leite condensado e detoná-las inteiras, mesmo sendo jurado de asilo pelas minhas meninas, preocupadas com meu açúcar.
Quando eu for velho, darei a mim álibis para justificar desatinos que compensem a sobriedade de minha juventude. Fui muito certinho.
Quando for velho, e enquanto a mão obedecer, vou escrever poemas em folhas soltas e guardar dentro dos livros da estantes para que sejam descobertos por leitores anônimos quando eu me for.
Quando eu for velho, ninguém mais vai mandar eu fazer as coisas. Só farei o que quiser.
Ah, e quando eu for velho, eu vou dobrar a bainha da minha calça pra cima, com dobras bem largas.

Aniversário Solidário

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Vou fazer 45 anos dia 06 de setembro. A vida me deu muito. Não preciso de nada além de saúde e da oração sincera de vocês para mim. Mas queria pedir um presente para você que gosta de me ler por aqui. Queria que você participasse do Vakinha, Aniversário Solidário do Sérgio Freire. Funciona assim: você entra no site e doa qualquer quantia por boleto ou cartão de crédito. Minha vontade é atingir R$ 3 mil até 15 de setembro. Tenho mais de 7 mil pessoas me seguindo no Facebook e 6 mil Twitter. Acho possível atingir. Todo dinheiro arrecadado, cujo total é acompanhado pelo site, será doado a uma instituição de caridade de Manaus. Um presentão pra mim e para quem precisa. Vou ficar muito feliz! SF http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=214322

Tornar-se possível

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SuperaçãoO escritor francês Jean Cocteau escreveu uma frase muito citada por aí: “Ne sachant pas que c’était impossible, été là et fait”. Na língua de Machado de Assis seria algo como “Não sabia que era impossível, foi lá e fez”. O que gosto nessa frase é que ela desloca as coisas de fora para dentro.

Passar por problemas na vida não é privilégio de ninguém. Todo mundo, cedo ou tarde, vê uma dificuldade aparecer no caminho. Todos nós nos deparamos com inevitáveis pedras no meio do caminho porque no meio do caminho tem sempre uma pedra, já avisava Drummond. Até aí é igual para todo mundo, em Manaus ou Fortaleza, Macapá ou Marabá, Ipatinga ou Itatinga. O que se faz com a situação é o que vai fazer a diferença.

As duas opções lógicas: dar-se por satisfeito e se acomodar ao script da vida ou, como na frase do escritor francês, ir lá, virar o jogo e fazer acontecer, principalmente quando todo mundo acha que dali não sai mais nada.

Quando a gente se deixa levar pelo que vem de fora, muitas vezes estanca no “impossível”. Não se move, não se mexe, paralisa a vida, o corpo, a mente, a alma. Mas quando a vontade é interna, quando vem de dentro, a gente dá um jeito. Se repensa, se refaz, se remexe e se reinventa. São as histórias que as revistas publicam sob o rótulo de superação. Porque é isso mesmo. É uma super ação que move o mundo.

A gente se supera. A gente se supera como autossabotadores. A gente se supera como um falso feliz com a vida. A gente se supera como um procrastinador profissional. A gente se supera simplesmente por não se querer só naquilo, mas por morar eternamente na querência do algo mais.

Minha mãe resolveu fazer faculdade depois de ter todos os filhos. Aí, depois de formada, resolveu estudar e fazer concurso para professora da universidade. Sua obstinação mudou nossa vida qualitativamente e deu um belo recado sobre o valor da educação nas nossas vidas. Há um claro e incontestável antes e depois na nossa família. Vai sem dizer que todos querem melhorar de vida. Mas melhorar de vida precisa ser entendido de forma mais ampla do que apenas melhorar financeiramente, o que é importantíssimo. Mas é mais. Por isso tantas pessoas hoje buscam fazer uma faculdade depois da época devida porque não lhes foi dada a chance naquela época, porque foram priorizadas outras coisas. Por isso tantas pessoas descontentes consigo dão uma guinada e começam de novo em busca da satisfação pessoal. Romper com o comodismo é para os fortes. Às vezes sangra.

É preciso ter a coragem de viver uma vida que a gente queira e não que os outros queiram para nós. É preciso ter a coragem de não trabalhar tanto para realizar seu velho plano. É necessário ter a coragem de expressar seus sentimentos de forma clara antes que seja tarde. É fundamental não deixar de viver momentos com sua família e amigos por conta de pequenas coisas. É, enfim , preciso se deixar ser mais feliz. A decisão é nossa e de mais ninguém. Tornar-se possível é o desafio da vida.

Uma das cenas mais bonitas e marcantes do cinema tem Will Smith dando um conselho a seu filho no filme “À procura da felicidade”, ele próprio uma bela história de superação. Diz ele ao menino: “Nunca deixe que alguém te diga que não pode fazer algo. Nem mesmo eu. Se você tem um sonho, tem que protegê-lo. As pessoas que não podem fazer por si mesmas dirão que você não consegue. Se quer alguma coisa, vá e lute por ela. Ponto final.” Tudo é realizável. Tonar possível é uma escolha. Basta não dar ouvidos aos que dizem que o seu sonho é impossível. E mudar o foco para dentro. Aí é só ir lá e fazer, como disse Cocteau. Simples assim. É querer e fazer. Como a minha mãe. Como a mãe de muita gente. Gente que se tornou possível. E se fez feliz.