Uncategorized

Reunião de Condomínio

Postado em

Reunião de condomínio  tem algumas peculiaridades que se repetem independente do local.

Ontem teve reunião aqui no meu condomínio, que começou depois da primeira convocação, claro, quando o quorum chegou. A Bia, que nunca morou em apartamento, decidiu ir comigo para conhecer a coisa por dentro. Depois que casei pela primeira vez, sempre morei em apartamento. Portanto, decidi que poderia muito bem servir de guia traquejado para explicar para a debutante do momento as coisas que aconteceriam. Além de tudo, eu sou presidente do Conselho Fiscal, eleito democraticamente durante minha ida ao banheiro na primeira assembléia. Sou autoridade, respeito é bom e eu gosto.

Didaticamente, como compete a um professor, comecei explicando que a primeira coisa a ser feita pelo recém-chegado numa reunião de condomínio é tentar identificar os mocinhos e os bandidos. Tem sempre dois grupos antagônicos que se enfrentam. Dependendo do nível de sofisticação do condomínio, esse número pode ser até maior. Quanto mais sofisticado, mais barraqueiros. São eles que animam a festa.

Uma vez mapeado os grandes grupos e decidido em qual ficar, é preciso passar a uma segunda etapa e mapear as figuras individualmente. Tem sempre o chato, o Maria-vai-com-as-outras e a antipática que acha que sabe tudo e se acha a última jujuba do saquinho. Tem sempre o japonês que fala pouco mas presta uma atenção danada. Tem também o dirigente, que gosta de estar ali naquela posição que controla as falas, exercendo o poder moderador. Tem o sujeito que sempre levanta a interminável questão dos inadimplentes. Tem os inadimplentes abusados, que não pagam, mas vão à assembléia e querem votar. Eles inexoravelmente fazem parte do grupo em que não está o levantador de questões sobre inadimplência, lógico. Tem aquele que reclama que a taxa do condomínio está alta, que é geralmente um pré-inadimplente. Tem a gostosona, que recebe olhares, fulminantes e indisfarçáveis se  vindos das esposas feias, e gulosos, se vindos da macharada. Ah, tem também sempre aquele exemplar que diz: “lá onde eu morava, era assim, ó: blá-blá-blá”. Tem aquele outro, baixinho e gordo, com uma pochete ridícula, que sempre insinua que o síndico está metendo a mão. Tem o síndico, que se injuria com as insinuações e coloca o cargo à disposição. Tem aquele casal de namorados, que não desgruda e que está junto há doze anos, um ano a menos do que o enrolão do Amaro, meu primo que é webdesigner da Suframa, noivo há treze. E tem nós, claro, que estamos fora de qualquer classificação por motivos óbvios.

Além dessa fauna, há também o comportamento do ecossistema para ser analisado. A Bia ficou intrigada com o fato das discussões se concentrarem em pontos quase sempre secundários e serem completamente repetitivas. Pacientemente, eu disse a ela que reunião de condomínio com objetividade e sem repetição não é reunião de condomínio. Faz parte do caráter da instituição ser assim. Senão esculhamba. Minha explicação sobre o assunto equivale, assim, a dizer para o neófito do buraco que o dois é curinga. Coisa básica, sabe? Isso depois de eu ter de convencê-la que ela não podia votar também.

Depois de muitos repetitiones e do saco cheio, finalmente chega-se às votações. Vota-se tudo, pois, claro, o condomínio é um espaço democrático. Mas primeiro vota-se sempre pelo adiamento de uma parte da pauta que ninguém terá paciência de discutir. Cada votação é sistematicamente seguida de uma recontagem porque parece que o japonês do 401 não levantou a mão direito – ou seu braço curto deu ilusão de ótica. Conta de novo. Mantém o braço até o gerente da mesa contar. Estica, japa! Vota-se para ver se já está na hora de votar. A sabe-tudo, tendo seu voto vencido, reclama da votação perdida e sai resmungando. O chato levanta a mão e sempre declara voto, desfiando um rosário de razões pelas quais votou na proposta do Humberto do 202 da torre 1. Nem o Humberto do 202 da torre 1 aguenta esse chacrilongo.

Quando acaba a assembleia, geralmente perto de meia-noite, tem a parte dos comentários outdoors. Cada grupo se reúne informalmente no caminho para seus apartamentos e comenta os absurdos das propostas sugeridas pelo pessoal da outro facção. Lamenta-se, claro, a ausência do Roberto do 403, que se tivesse comparecido teria feito a diferença para nosso lado na votação. O desconfiado da pochete sempre acha um momento para dizer: “sei não, mas acho que se apertar esse síndico, ele peida. Acho que aí tem!”

Para fechar o esquema, depois dos boas-noites no elevador, ao entrar no apartamento, o casal – eu e a Bia, no caso em tela  – comenta entre si o que percebeu mas não pode ter sido dito na hora. Isso porque a fofoqueira do 601, aquela do cabelo roxo, da calça de lycra colada e parecendo o bonequinho da Michelin de tanta dobrinha, estava bem atrás de nós, de trela com o louro do bloco 3, ambos prestando uma atenção danada: ela na minha conversa e ele na bunda da gostosona, encostada na porta de pé de propósito.

Depois dessa, parece que minha patroa decidiu que acha melhor morar em casa mesmo. Não gostou muito da experiência, pelo jeito. Numa casa, o sistema é outro. Nada de democracia fajuta cheia de verborragia. Em uma casa, nós somos déspotas, soberanos – “nós” modifalar: elas são. A mulher decide e está acabado. O marido, os filhos e o cachorro é que se atrevam a discordar. Paredon

Hora de dormir. Quando supero o aumento da taxa de condomínio – maldito Roberto do 403! –  e caio no sono, sou acordado pela digníssima consorte. Ela pergunta ansiosa: “Amor, amor! Pra quando mesmo foi marcada a próxima reunião, hein?”. Me abstenho de continuar escrevendo. Eu, Sérgio Augusto Freire de Souza, apartamento 603, bloco 1, lavro essa ata que, depois de lida e aprovada, deverá ser assinada por todos os presentes.

29 de janeiro de 2004

Nossa sintaxe

Postado em Atualizado em

Tu és sujeito da minha gramática
Eu, predicativo. Apossas-te de mim!
Por ser quem sou só posso ser assim
Uma textura mais que enigmática

Sou o adjunto, me junto a teu nome
Pra servir a ti, núcleo, que és o centro
Pois como núcleo, pões-me para dentro
Do teu sintagma, me use, me tome

Sou uma oração mais que subordinada
À tua coordenadíssima organização
Sem nosso o amor, a nossa conexão
Minhas palavras correm para o nada

Sou prefixo e mudo o teu sentido
Sou sufixo e a tua classe altero,
Nesse jogo prolixo e sincero

Política: a ciência dos negócios do Estado

Postado em

Trabalhando com linguagem, cedo descobri que se a etimologia não é garantia de sentido, ela é pelo menos um bom ponto de partida. “Política” vem de “politike”, a ciência dos negócios do Estado. Assim, ser político nem sempre é ser a mesma coisa. Depende do foco.

O político pode entender a política como a “ciência” dos negócios do Estado, como a ciência dos “negócios” do Estado ou como a ciência dos negócios do “Estado”. A diferença é qualitativa. Explicarei, leitor, e aí você enquadra os nossos políticos em uma das três categorias.

Um político que enfatiza o termo “ciência” é um político que trata questões públicas como um grande objeto teórico. Tem até boas intenções, mas padece de falta de sincronia. Seu tempo é o tempo acadêmico, da elucubração. Adora um fórum. Sofre de democratite, numa necessidade eterna de consultar as bases para decidir qualquer coisa, contradizendo a própria legitimidade a ele dada pela votação. Normalmente é considerado um bom político, mas que pouco faz, porque de fato passa tanto tempo discutindo com as bases a filosofia da roda que não dá tempo de pô-la para rodar em benefício do social.

O segundo tipo é o político que foca nos “negócios” do Estado. Seu interesse é fazer de seu papel de representante popular uma empresa de factoring  de poder. É arrogante, se acha o dono do mundo e não quer respeitar as regras do jogo.  Arrota bravatas e ameaças quando sua vontade é contrariada, geralmente uma vontade que atenta contra o interesse público. Advoga pelo benefício particular (próprio ou de afilhados) em detrimento do coletivo. Acredita que em tudo se pode dar um jeitinho. E quer ser chamado de doutor. Por ser o que é, deixa de ser o que é e passa a ser o que não era sem cerimônia, sendo extremamente venal em princípios e posições.

O terceiro tipo de político é o que enfatiza o “Estado”. Esse tipo faz o que deve ser feito se for a benefício do coletivo. Por isso, contraria muita gente, entre eles os políticos-cientistas, que acham que ele decide sem ouvir as bases o suficiente, e os políticos-negociantes, porque o “leso” não tira proveito financeiro do que faz a fim de repartir ganhos. Por razões distintas, os grupos incomodados tentam desqualificá-lo com críticas superficiais porque não conseguem sustentar críticas concretas. Acaba sendo rotulado de antipolítico porque a acepção de estadista é uma impossibilidade semântica no dicionário dos que criticam. O político-estadista não define políticas de governo, mas políticas de Estado, que ficam para além de seu mandato.

A administração pública convive com os três tipos. Os políticos-estadistas infelizmente são poucos. Os políticos-cientistas também são poucos, mas muito chatos.  Os políticos-negociantes são muitos e perigosos. A questão é a dosemetria: quais os limites de quem administra na relação com políticos? Acredito que seja compor em demandas legais, morais e coletivas e defuntear as ilegais, imorais ou de interesse puramente pessoal.

O político-cientista tende a ter seu nome esquecido em um ano. O político-negociante acaba dando nome a um bairro. Quanto ao político-estadista, esse certamente será parte da história.

Mudar: viver não é preciso

Postado em

A dialética nos explica que tudo está em processo. Sempre. A pós-modernidade diz que não há mais identidades, só processos de identificação. Lulu Santos canta que nada do que foi será de novo de jeito que já foi um dia. Cecília Meireles nos lembra que a mudança acontece e, às vezes, nem a percebemos. Quando demos conta, já era. A poetisa diz “Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: em que espelho ficou perdida a minha face?”.

A natureza nos lembra o tempo todo da necessidade de mudar. A cigarra vive sob a terra e um belo dia sobe as árvores para cantar. A lagarta se mete na crisálida e sai de lá outra, como borboleta. E nós, homens e mulheres? Qual será nossa crisálida? Quando saímos de baixo da terra?

Esse texto meio poético e filosófico ganha corpo nesse espaço por um motivo muito especial. Tenho notado que as pessoas têm uma resistência imensa à mudança, como se toda a mudança fosse um plano maquiavélico exclusivamente desenhado para alterar sua vida para pior. Essa leitura se dá, apelando de novo para os poetas, porque “à mente apavora o que ainda não é mesmo velho”.  Mexer com o que está aí, com o que é conhecido, é mexer na zona de conforto. Mas a zona de conforto vai contra a natureza humana da mudança. O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar às situações novas. Pare e pense na sua vida hoje, leitor. O quanto ela é diferente da sua vida há cinco anos. É claro que uns sofrem mais e outro menos no processo de mudança. Mas ela, a mudança, é inexorável. Senão a gente mofa a mente e a alma. Como a mudança é inevitável, tentar lutar contra ela é desperdício. É mais negócio reunir esforços para retrabalhar os processos internos de como reagir a elas.

O nosso real é feito de símbolos. Portanto, o nosso real está sempre passível de mudanças. Há dois termos na moda: flexibilização e resiliência. Ambos se referem à qualidade que uma pessoa tem de se rever no tocante a suas crenças e valores. Quem disse que tem de ser assim sempre? Por que não pode ser de outro jeito? Resumindo: chutar o balde de vez em quando é uma forma de exercitar a exceção que faz a regra. Quanto deixamos de viver, de aprender e de crescer porque, cigarras covardes, não saímos do fundo da terra para cantar? Que lugares bonitos deixamos de ver porque, lagartas acomodadas, não rompemos o casulo como borboletas em direção ao mundo?

Saber-se mutante é saber-se humano. Ser de desejos, de planos, de projetos, de superação de limites. Saber-se parado é saber-se alienado da vida. Etimologicamente, “alienare”, latim, significa “abrir mão de”.  Abre-se mão de ser gente. Abre-se mão dos sonhos, que não estão aqui, e dependem das mudanças para acontecer. Ok, mudar às dói. “Às vezes escorre sangue”, diz Clarice Lispector.

Ontem, pensando nas mudanças das últimas semanas, ao fazer a Ana Clara dormir, me peguei cantando: “A vida vem em ondas como o mar: num indo e vindo infinito”. A vida vem e não pede licença. Porque se navegar é preciso, viver não é preciso. Viver é preciso (necessário), mas não é preciso (algo matemático). Fernando Pessoa é genial. Por causa desse “preciso” mal interpretado, muita gente mofa. Qual é o significado de “preciso” que você prefere, leitor?

Eu, daqui a 20 anos

Postado em

Em 20 anos, ainda enxutão… http://in20years.com

A bunda da Siemens

Postado em Atualizado em

[Texto publicado originalmente em 05 de fevereiro de 2004. Já discutia o bloqueio de informaçõe na internet].

Muita gente me pergunta a razão de eu não publicar os escritos em algum jornal. A resposta é que, primeiro, eu nunca ofereci e, segundo, nem sei se eles aceitariam essas mal digitadas. Até que poderia ser uma boa, pelo menos em termos de alcance de leitores. Mas enquanto eu não recebo uma proposta irrecusável da Folha de São Paulo, eu publico aqui mesmo no meu site e envio os textículos – com xis! – para uma lista de amigos, parentes e alunos que, gostando, vão passando e vão passando e vão passando…

Adoro feedback. Gosto de saber o que as pessoas pensam a respeito do que escrevo. Sempre recebo mensagens muito legais, como o gentil e-mail que me foi enviado pela mãe do meu cunhado Digão, a Dona Nazaré, se dizendo minha fã. Ganhei o dia. Mas na última semana, quando escrevi sobre reuniões de condomínio, uma resposta me surpreendeu. O e-mail era da Siemens, a fábrica. Primeiro pensei que pudesse ser obra sacana do My Doom, o vírus que encheu o saco e as caixas de entrada semana passada. De repente poderia ter vindo atachado nas infinitas e pesadas  apresentações de Powerpoint enviados pela Ana Célia. Mas como diria a Néia, que trabalhou para a minha mãe: O “peor” é que não era o vírus, não. Era um e-mail automático da empresa mesmo dizendo que meu texto havia sido sumariamente deletado assim que chegou a seus servidores pelo fato de conter a palavra “bunda”.  Parece que essa é uma palavra proibida de circular na Siemens. Será que lá ninguém tem bunda? Curioso com o fato, analisei detalhadamente o e-mail e verifiquei que se tratava de um programa censor automatizado que se baseia numa série de palavras para vetar alguns e-mails recebidos pelos funcionários, no caso em tela uma aluna minha da pós-graduação que lá trabalha e que, suponho, não recebeu o texto e, por conseguinte, não viu minha bunda passar.

São duas as questões que tilintam nos meus dedos por causa desse episódio: os limites da liberdade de expressão e o controle da linguagem. As perguntas que se colocam são: até que ponto podemos selecionar previamente um conteúdo para outras pessoas, seja ele qual for? Até que ponto podemos decidir para terceiros o que é ou não desejável, bonito, ofensivo ou abominável, tirando-lhe assim o direito de conhecer para escolher ou, inclusive, para não escolher? Taí: se tem uma coisa que é abominável e ofensivo na minha opinião é a censura prévia. Não concordar com algo e fazer uso de qualquer nível de poder para forçar que outras pessoas também não concordem é uma violência simbólica ferrada. Não gosta, mermão? Então não lê, não assiste, não compra, não usa, muda de canal. Há quem goste, quem leia, quem compre, quem use e até quem grave o canal. Tem gosto para tudo. Tem gente que veste amarelo. Tem até quem seja Flamengo! O direito à escolha é uma prerrogativa do seres humanos e dos Flamenguistas  e temos vários momentos na história da humanidade em que esse direito foi cerceado, estando a própria história aí para dizer como foram ruins esses momentos e como eles não deixam nenhuma saudade.

Escolher seja lá o que for não é um ato neutro. O programador – ou alguém que manda nele – listou uma série de palavras e decidiu por todos, como se tivesse procuração geral. Decidiu que eles não deveriam ler aquilo que ele acha indecente, imoral ou inapropriado, conceitos, aliás, bastante subjetivos e definidos por formações discursivas diferentes de formas diferentes. Sei não, mas eu estou mais na turma do “Deixa eu ver para ver se quero” do que na do “Vixe! Tira isso daqui! Deusulivre, mana! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!” Recebo todo dia um monte de mensagens sobre coisas que não importam, muitas das quais não preciso, como aquelas mensagens de enlarge your penis . Eu passo a vista e decido se me útil ou não. Nesse caso, diga-se de passagem, não é. O importante disso tudo é que eu decido e não quero ninguém decidindo por mim.

Agora pára e pensa, leitor amigo: e se o programador – ou o chefe dele, ou o chefe do chefe etc – for Testemunha de Jeová e colocar “doação de sangue” na lista negra de palavras e expressões abomináveis? Quantos potenciais doadores não deixariam de participar, digamos, de uma campanha convocada pelo e-mail? Se for do PSTU e vetar “Estados Unidos”, quantos negócios a empresa não perderia? E se o censor for o meu primo Amaro Junior, webdesigner da Suframa, que enrola a noiva há treze anos, detonando toda e qualquer ocorrência de “casamento” ou “matrimônio”, como tem feito por mais de uma década? As possibilidades são infinitas. Basta fazer um rápido exercício mental e ver como é injusto o outro decidir por nós baseado em suas crenças, valores, conceitos e preconceitos. Já pensou se uma empresa chamada World Bunda Incorporated, de Singapura, digamos, manda uma mensagem a fim de encomendar negócios milionários em aparelhos de telefones da Siemens. Sua bunda não passa da porta digital. É barrada na chegada.

A empresa tem todo direito de ter suas regras, claro. Mas controlar a linguagem é uma das crenças mais pueris do ser humano. Linguisticamente, dizemos que mais do que falar a língua, é ela que nos fala através dela. E a língua é líquida. Escorre pela mãos e acha por onde escorrer. Ninguém aprisiona o sentido, pois ele sempre escapa, ele é fluido. Pode-se, por exemplo, escrever b*u*n*d*a, em vez de bunda, para burlar o bedel digital. Ou, como diria o Didi dos Trapalhões, pode-se falar “região glútea”. Mais opções? Nádegas, popozão, anca. Enfim…

É preciso saber que se pode dizer muito através do silêncio, como faziam os jornais na época do regime militar. Censurados, eles publicavam um vazio ou uma receita de bolo na primeira página, no lugar da matéria cortada. Pode-se dizer dizendo de outra forma. As músicas duplex de Chico Buarque são obras-primas nisso. A “Bárbara” da música de Chico, mais do que um nome de mulher bonita – e estou pensando na minha prima Bárbara Cyrino, para ser sincero –  era um adjetivo para a ditadura. “Cálice” falava pela homofonia: “Pai, afasta de mim este cálice/cale-se”.

A questão de fundo é: quem pratica a política do silenciamento lingüístico fomenta o silenciamento da política, entendida como a capacidade do ser humano de tomar decisões. Hoje sabemos que o que se quer é gente no mundo e nas empresas para pensar e decidir a partir das informações que chegam – que chegam! – e não somente para executar tarefas mecânicas, como o Carlitos de Charles Chaplin em Tempos modernos. Há um grande choque de objetivo quando uma empresa decide que seu empregado não precisa decidir porque já decidiram. É um contra-senso, uma verdadeira pavulice para os tempos de hoje.

Penso sinceramente que gastar dinheiro em sistemas de censura é alocar mal os recursos que já são poucos em tempo de estagnação econômica. A propósito, a palavra bunda entrou na Língua Portuguesa através de mbunda, de um dialeto da Angola, trazida pelos escravos, segundo o honesto Houaiss. Censurar a bunda é coisa de gente bun… digo, gente nadegona. Ah, deixem minha bunda em paz. E minha aluna, coitada, que não vai ler essa de novo…

Amor perfeito

Postado em Atualizado em

Em frente à casa da rua três, Paulo, eu, Paula e Mauro. A lu ainda tinha chegado. Atrás, a leoa.

Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Essa mulher aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson e com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. É como o nascer do sol que damos por garantido todos os dias, mas que quando se permite ser sorvido no silêncio ganha um significado renovado. Ela deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe transcende o biológico. Mãe é concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Minha mãe me ensinou a exercer a autoridade sem violência, a ter compaixão sem assistencialismo, a curtir as vitórias sem humilhações, a compreender as derrotas como lições. Aprendi com minha mãe que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que, nessa simetria, se perca o respeito. Aprendi com minha mãe que antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe me ensinou a discordar sem agredir. Minha mãe me ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente. Ele sempre me diz o que eu preciso ouvir, não o que eu quero ouvir.

Nesse dia das mães, quero tornar (mais) pública a minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, por meio de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica. Minha mãe, não me ocorre metáfora melhor, sempre jogou o ping-pong da vida de salto alto. E sempre venceu.

Lembro de nossa despedida quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, a casa das minhas memórias, a minha mãe com olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Faltou pouco para eu desistir de ir. Mas ela ficaria desapontada. Pois minha mãe sempre me disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para desfazer-me em viscosas lágrimas no avião.

Hoje, como pai em relação às minhas filhas, sempre primeiro dou ouvidos a meus instintos (e aos da minha mulher, claro). Mas em segundo lugar, penso em como a minha mãe agiria. E ela só não vem primeiro lugar porque me ensinou de forma competente a acreditar em mim.

Inevitável voltar ao passado e recorrer à memória afetiva. O menino da foto, peito estufado, cantando: Andei por todos os jardins procurando uma flor pra te ofertar. Em lugar algum eu encontrei a flor perfeita pra te dar. Ninguém sabia onde estava a flor mimosa, perfeição. Ela se chama flor-mamãe. E só na nasce do jardim do coração. Enfeita nossos sonhos, perfuma nossa ilusão. Flor divina, eu suponho, faz milagre em oração. Nesse dia de carinho, quero senti-la no peito. Emoldurando a minha alma,  Flor-mamãe, amor perfeito.

Quando eu era menino, na época dessa foto e dessa música, eu achava a minha mãe a “melhor mãe do mundo”. Os superlativos de criança. Depois de quarenta anos de avaliação, com a objetividade de um pesquisador com doutorado, tenho certeza inconteste de que esse título é seu mesmo, minha mãe. Você é a melhor mãe do mundo.

Falando da minha mãe, desejo um excelente dia das mães para a mãe das minhs filhas, a Bia. Sem ela definitivamente não dá. E desejo um maravilhoso dia das mães para você que me lê. Aproveitando o incomparável cheiro de mãe no abraço, se estiver perto, ou com os olhos fechados para sentir e sorver a presença da ausência, se estiver longe. Sei que o dia das mães pode fazer o coração pesar para várias pessoas, por vários motivos. Que a leveza do amor, no entanto,  alivie esse peso e que a serenidade invada seu dia. É o meu desejo mais profundo e sincero.

Mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”.

 Te amo. Sua benção. E feliz dia das mães.

PS: Ei, mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, malcriadamente não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

Mãos

Postado em Atualizado em

Efeito Borboleta

Postado em

“Felizmente não sabemos nada a respeito das coisas que chegam muito perto de nós e nossas vidas e passam sem nos afetar. Se soubéssemos das muitas possibilidades de mudar nosso destino, nossa vida seria excessivamente cheia de esperanças e medos, surpresas e decepções, o que certamente não nos permitiria ter um minuto sequer de paz”.

Assim Nathaniel Hawthorne começa e termina o conto “David Swan”, a história de um rapaz que está viajando a pé de uma cidade a outra. No meio da viagem, cansado, David dorme na grama ao lado da estrada. Muitas pessoas passam por ele durante o sono. Um pastor achou que estivesse bêbado e acaba usando o que viu como exemplo na pregação do domingo, citando os devastadores efeitos do álcool. Um casal de idosos pensou em adotá-lo para que herdasse sua fortuna, já que não tinha filhos. Ladrões por pouco não concretizam um assalto, em que, inclusive, haviam planejado matá-lo se reagisse. David acorda e segue a viagem sem dar conta de tudo que havia passado e que poderia ter alterado sua vida.

Robert Frost escreveu “The road not taken”, (algo como O caminho não escolhido), poema que também fala dos rumos da vida, mas como dependentes das decisões que tomamos ou, na metáfora do poema,  das estradas que escolhemos nas bifurcações da existência. Diferentemente de Hawthorne, Frost chama atenção para as escolhas que se apresentam e sobre as quais tomamos ciência. São, pois, duas as possibilidades de mudanças em nossas vidas: uma pelas decisões que o destino escolhe para nós e outra pelas decisões que escolhemos para fazer destino.

Fico pensando nas pessoas que foram colocadas no meu caminho e as que quase foram. Meu primeiro casamento, por exemplo. O que teria acontecido se tivesse tomado a estrada de insistir em mantê-lo, ainda que desgastado? Não teria tido as minhas filhas! Quem foram os amores que a vida me trouxe eu não pude viver? Por que passaram por mim por um triz?  E se eu tivesse morrido no acidente de 1999? Quem ficaria com minha vaga no doutorado da Unicamp? A vida dessa pessoa mudaria por conta do meu acidente?

De um simples fato, combinando se’s, exponenciam-se possibilidades. Pare e pense na infinita análise combinatória dos “e se’s” de sua vida, leitor. Se mudasse uma coisinha lá trás, todo o resto que veio depois também mudaria. É o chamado efeito borboleta: o bater de asa da borboleta no Brasil afeta a trajetória de um ciclone no Taiti.

O quadro que retrata nossa vida, pintado por Deus, é como o Guernica, pintado por Picasso. Ninguém entende de primeira. Resta-nos a paciência para saber se abrir para a inspiração para poder vê-lo com os olhos do artista e assim achar o detalhe daquele sorriso escondido atrás do cavalo morto. Dar sentidos aos traços divinos leva tempo. Às vezes nem conseguimos.

É como diz Hawthorne: “Felizmente não sabemos nada a respeito das coisas que chegam muito perto de nós e nossas vidas e passam sem nos afetar. Se soubéssemos das muitas possibilidades de mudar nosso destino, nossa vida seria excessivamente cheia de esperanças e medos, surpresas e decepções, o que certamente não nos permitiria ter um minuto sequer de paz”.