valores

Máquina do Tempo

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Eu sou esse, de botinhas, olhando para a câmera.Quando era criança de idade, eu era muito danado, dizem meus pais. Há registros nas delegacias da memória de que eu rasguei um sofá a faca para ver o que tinha dentro, de que com a mesma curiosidade, espatifei uma televisão máscara-negra no chão, de que recortei os elefantinhos que estampavam uma toalha de mesa de plástico de uma das minhas tias. Entre os crimes mais leves, conta minha mãe que tirei todas as etiquetas que identificavam os tecidos nas lojas Pernambucanas para fazer um baralhinho. Aprontava tanto que uma vez no catecismo a professora perguntou: “Quem jogou a pedra no Golias?” e eu fiquei quietinho com medo de pensarem que tinha sido eu.

A infância é um momento mágico. O mundo é sempre uma novidade. Conceitualmente, como não temos nada, teoricamente podemos tudo. Da mesma forma que experimentamos com o mundo que se descortina, experimentamos com a linguagem que o desenha para nós. Vejam se não é poesia pura: “Pai, bati meu cotovelo do pé”, “o sanduíche deu um hambúrguer para o sonho do sorvete que o picolé sonhou”, “se minha mãe é mamma mia, papai é pappa pia”, “noite é dia com luz apagada”, “você mentirou pra mim”, “Não fiz nada! É mentira do barulho!”, “hoje não é amanhã”, “eu também quero fazer xixi de canudinho”, “brinca eu, mãe? Tá aqui os brincos”, “pai, você não é criança porque você é pessoa”.

Assim como a liberdade linguística vai se esvaindo com o tempo, perdendo a poesia da linguagem infantil, o mundo vai se adultizando, se pasqualezando com a idade. E cá entre nós: quantos de nós, adultos, lembramos de nossa infância com uma ternura perfumada? Porque, de fato, crescer é muito chato. Para suportar crescer é preciso deixar que a criança que mora na gente não se vá. Muitos enterram a criança quando encontram seu primeiro emprego, quando compram seu primeiro carro ou têm seu primeiro filho. Outros lhe tiram o oxigênio quando arrumam um namorado ou porque alguém disse que se fica feio quando se faz caretas. Ou porque não se sabe dançar.

Claro que precisamos das responsabilidades, mas esquecê-las de vez em quando faz parte de uma irresponsabilidade infantil necessária. É tão necessário para a sanidade lamber a tampa de iogurte, chupar a lata de leite condensado e raspar a forma do bolo de chocolate quanto o é deixar o jantar pronto na hora certa, pagar as contas em dia e se sentir socialmente útil.  Ser uma boa mãe não é incompatível com pedir colo para a sua tantas vezes quanto achar que precisa. Não há nada melhor do que estar exposto a alguém em quem você confia. Minhas filhas se jogam com borra e tudo na piscina quando sabem que os meus braços estão lá dentro a lhes esperar.

Admitamos: ser adulto é muito chato. A gente só vai aguentar até o fim se deixar a criança gritar na igreja, pular cambalhota no rio, riscar a parede da sala da vida. Agradeça por ser adulto e poder dirigir, fazer sexo, comprar coisas. Agradeça por poder escolher com quem vai se relacionar, mas não esqueça de se relacionar com muitas crianças ou com aqueles adultos “idiotas”, aqueles que fazem piadas de tragédias, que não perdem a chance de rir, inclusive de si mesmo. Tire sua criança do armário, sempre que quiser, para fazer coisas bobas e ser mais feliz. Seja, desavergonhadamente, uma criança grande, e deixem que lhe chamem assim. Seja bobo, otário, esquisito, rótulos que adultos que não conseguem se criancizar usam com muita frequência.

Meu número especial, sempre que estou muito adulto, é puxar a bermuda até o peito e sair correndo onde quer que esteja feito um maluco com as pernas abertas. Nada paga o sorriso aberto que minhas filhas dão diante da cena grotesca e divertida. Eu me vejo com 70 anos, vovô, velhinho, divertindo os meus netos com isso, sob a reprovação resignada da minha velha.

Olhos para as minhas filhas e já sinto saudade da época em que as ninava no colo. O tempo passa. É assim. Choro um choro saudável ouvindo “Máquina do Tempo”, do Flávio Venturini. Só rezo ao bom Deus, enquanto tento fazer minha parte, para que elas nunca deixem de ser criança, apesar do tempo que foge. Para mim, como são sempre os filhos para seus pais, elas serão sempre “as meninas”. E eu, bom… eu vou sempre tentar não ser sempre “pessoa”, para ser criança quando der. Feliz dia das crianças para vocês, para os meus irmãos Biafra, Papau, Drida e Djub. E para as crianças. Livres ou reclusas. Novas ou velhas. Como eu.

Um texto antigo para recordar

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O MAR E OS SABICHÕES

“O Mar...Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, o levou para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:  Me ajuda a olhar!”

Essa história do ““Livro dos abraços”” de Eduardo Galeano serve de mote para abordar um assunto que vem me inquietando: o efeito socrático reverso. O aforismo “só sei que nada sei” é citado para exemplificar que quanto mais acesso ao conhecimento se tem, mais se tem também a noção da pequeneza da capacidade humana de conhecer. Dito de outra forma: quando mais se avança no conhecimento, maior deve ser a humildade de quem faz o percurso por saber o tamanho do mar do conhecimento frente à limitação do alcance de seus olhos.

A minha preocupação com o efeito socrático reverso se refere ao crescente número de pessoas que ao terminar um ciclo de sua escolaridade encharca-se de arrogância, fazendo do passo dado racionalização para o pedantismo. Vejo várias pessoas que concluíram seus mestrados ou doutorados se achando deuses. Gente que vê no título conseguido um álibi perfeito para jamais fazer o que um dia talvez tenha feito, como pisar no chão de uma sala de aula (ou qualquer chão). Pensam que são sábios, mas não passam de sabichões. Alimentam-se da teorização de idéias recicladas e costuradas em seus papers misteriosos com epígrafe de Paulo Freire, cujo conteúdo ironicamente jamais utilizam em suas práticas.

Lembro-me do corredor da sala de professores do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. Ali, atrás daquelas portas, estão nomes brilhantes, presentes na bibliografia de qualquer coisa que se publique sobre linguagem nesse país. O corredor era apelidado de corredor da humildade, tamanho o desprendimento dos professores em relação às vaidades. O senso comum diria que ali ela, a vaidade, deveria arder em várias fogueiras. Ledo engano. Tal qual Diego, os socráticos professores de lá têm a noção de que para ver o mar só seus olhos não bastam. Pedem ajuda a seus alunos por compreenderem que o conhecimento se dá pelo diálogo genuíno com a diferença.

Não, amigos, os sabichões não sabem tudo. Ninguém sabe. Tem gente que sempre sabe mais do que os sabichões. Não, amigos, a vida acadêmica não tem fim. A incompletude lhe é constitutiva. Sim, amigos, outros podem fazer igual ou melhor que os sabichões e isso não é demérito, ainda que os sabichões pensem que seja. Os sabichões não deveriam deixar que a visão do igarapé a que tiveram acesso lhes impeça de ver o mar. Deveriam, sim, desatolar-se do seu montinho de areia e caminhar até as dunas. Tal qual Diego, os sabichões devem respeitar o tamanho do mar, reconhecendo sua incapacidade de olhar sozinho. Quem sabe assim seus narizes se desempinem, seus corações desazedem e eles percebam que o verdadeiro sábio sente um genuíno incômodo em afirmar que sabe, verdadeiro prazer em afirmar que busca, mas sempre pedindo um olhar emprestado para fugir do caminho da iconoclastia fácil.

Saber entender o recado é meio caminho andado. Espero que reste aos sabichões autocrítica para ver o mar de Diego e para vivenciar o nada cognitivo socrático. Se não houver, é questão de tempo sabermos de seus inevitáveis afogamentos nos rasos igarapés do saber, atolados na areia da própria parvuleza.

Cantando a pedra

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Passei batido na diagonal

 

A vida da gente é feita de momentos simbólicos. São pontos, dobras, que servem de localização no itinerário de nossa história. A turma de alunos do mestrado em que sou professor resolveu comemorar o fim de período letivo e os aniversários com uma festa junina. Eu fui, como sempre vou quando sou convidado. Acredito que essas atividades de socialização dão liga àquilo que tem se perdido e vem sendo esmaecido pelo corre-corre contemporâneo: a relação boa, desinteressada e sincera entre pessoas que dividem um mesmo espaço de convivência. Gosto de gente. Também por isso escolhi ser professor. Otimizo minhas relações sociais e ando fugindo de quem azeda balde da sal de frutas e azinhavra maçaneta de porta quando pega. Não. Gosto mesmo é de alto astral, como tem o povo dessa turma.

Lá chegando, comi umas bananas fritas deliciosas,me diverti  um bocado e fui jogar bingo. Havia vários prêmios, cuja singeleza trazia a amizade em forma de pacotinhos com lacinhos amarelos e vermelhos. Aceitei jogar, mesmo sabendo que nunca na história da minha existência ganhei em sorteios, rifas ou quejandos. Vertical, horizontal ou diagonal. Valia bater de qualquer jeito. Quando alguém batesse, o bingo seguiria até que os prêmios se acabassem. Começaram a cantar as pedra e eu marcava um número aqui outro ali, como o esperado. Todo mundo batendo e eu me debatendo no meu azar nos jogos que, com o nome apropriado, se chamam de jogos de azar.

Passei rodadas esperando o 5 para bater. 16, 52, 64. E nada do 5. 22, 1, 75. Deu a hora de ir embora e decidi deixar minha cartela com a Mayara, uma sortuda, que certamente ganharia. Fiquei ali me despedindo e nada do 5. O bingo correndo. Os prêmios acabando. Até que acabaram. A Mayara então veio me devolver a cartela. Eu já na porta, finalizando um copo de coca-cola para ir embora. Disse ela: “É, professor, não deu”. Ao dizer isso, percebeu um detalhe. Eu havia passado batido na diagonal. Eu havia batido e não tinha visto, tão concentrado que estava na espera do 5.

Fui para casa. Pensei em como às vezes a gente passa batido na vida também. Concentramo-nos demais na espera dos cincos e deixamos de ver a fileira de coisas boas que se nos apresentam, quase gritando conosco. Desatentos, ignoramos felicidades ofertadas e só as percebemos quando já é tarde demais, na devolução da cartela usada. Não nos damos conta de que para ganhar é preciso se dar conta de que estamos no jogo da vida, com as perdas e ganhos que ele envolve. Prestemos atenção, pois, porque às vezes é cartela cheia, às vezes é linha. Às vezes pensamos em longo prazo e a acontecência pede o curto. Às vezes queremos o já e a vida nos alonga a querência. Às vezes o prêmio parece grande e não nos diz nada. Às vezes é singelo e nos plenifica de afeto, nos oxigena de paz.

Pensando no bingo da vida, não posso então dizer que nunca ganhei. Seria uma injustiça com Deus. Talvez eu nunca tenha me dado conta dos meus prêmios, o que é outra coisa. Até porque estou cada vez mais convicto de que, como dizia Einstein, “nada é por acaso. Deus não joga dados com o mundo. Deus é sutil, mas não é maldoso”. Resta-nos perceber sua sutileza. Resta-nos pensar fora da caixa e nos permitir ansiar por mais do que somente o cinco. Quase sempre, em quase tudo, a gente já ganhou e não sabe. Porque não consegue ver. Porque não se permite viver seus prêmios. Porque se ignora que já ganhou, passando batido. Mas o jogo segue. E na próxima rodada, meu jogo vai ser diferente. Ah, vai.

O preço de dizer-se azul

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AzulMuitos avaliam o mundo pós-moderno como o paraíso da relativização. Nesses dias de hoje tudo pode, todos os sentidos são possíveis. É o fim das certezas, das grandes narrativas, das receitas prontas. Essa leitura da pós-modernidade é só um lado da história.

Se tudo pode, se as grandes receitas – como a religião ou o marxismo – estão sendo postas em cheque, vivemos o advento das pequenas receitas e da emergência do local. Se o a priori fica prejudicado, abre-se espaço para o a posteriori. Se o que era dominante hoje já não o é é porque cedeu lugar para sentidos minoritários se estabelecerem. Portanto, é falsa a ideia de que o mundo se acomodou ao niilismo pós-moderno. Essa ideia  é desafiada pelo aparecimento das verdades fragmentadas dos grupos, das tribos. Nunca como antes o campo da certeza foi tão amplo e tão estreito. Não há mais verdade absoluta geral, só relativa. Mas não há relativização da verdade do grupo a que se pertence. Foi-se a grande certeza e vieram as certezas contingentes.

A própria democracia preza o respeito pelas diferenças. Mas os diferentes não abrem mão de suas verdades. Assim é com os negros, com os índios, com os capitalistas, com os religiosos, com os comunistas, enfim, como todo mundo. Por isso, ainda que vivamos na retórica da diferença, a intolerância de todos os tipos tem aumentado consideravelmente porque as certezas são mais certas. Porque se reconhece a diferença – o que não se fazia antes – para combatê-la e, se possível, suprimi-la.

Há verdade nos discursos que nos habitam e pré-construindo nessas verdades significamos o mundo. Mas afirmar-se azul sem reconhecer o direito dos outros em se afirmar amarelos, vermelhos ou verdes é sair da retórica padrão das expectativas pós-modernas. Ter convicção sobre sua azulidade é um problema. Não se pode. Ou não se deve. Dizer-se azul tem um preço a ser pago.

Eu sou contra cotas nas universidades, a favor da demarcação contínua na Raposa Serra do Sol. Sou a favor da interrupção da gravidez em bebês anencéfalos e em caso de estupro. Defendo o uso da camisinha por uma questão de saúde pública. Abomino qualquer forma de violência, física ou simbólica. Concordo com a proposta do vereador que quer conceder o título de utilidade pública à Associação das Prostitutas. Tenho preocupações ambientais com a sustentabilidade desde que não se fale de intocabilidade da natureza. Respeito quem pensa diferente, mas respeitar quem acredita no contrário não me faz acolhedor de suas verdades. Aliás, se puder convencê-los melhor ainda.

Aonde quero chegar? Quero dizer que o mundo da verdade única acabou. Em seu lugar, surge o mundo das verdades fragmentadas. Em sua fragmentação, essas verdades ganham mais sustança e convicção. O desafio é conviver com a diferença sem naturalizá-la, posto que ela é histórica, e fazendo-se sujeito do convencimento alheio pela superação da diferença e não por sua supressão, sua eliminação, seu silenciamento. No mundo cada vez mais colorido, dizer sua cor e assumir seus tons é um diferencial. Ainda que ter opinião incomode. Aliás, por isso, voto em Márcia Perales para reitora da Ufam.

SF, 31/03/2009, 09:00h

O ouro e a madeira

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Diferente dos outros ou igual a mim?

O ouro afunda no mar/madeira fica por cima/ostra nasce do lodo/gerando pérolas finas/ Não queria ser o mar, me bastava a fonte/ muito menos ser a rosa, simplesmente o espinho/ Não queria ser caminho, porém o atalho/ muito menos ser a chuva, apenas o orvalho/ Não queria ser o dia, só a alvorada/ muito menos ser o campo, me bastava o grão/ não queria ser a vida, porém o momento/ muito menos ser concerto, apenas a canção.

 

Arrumando meus CDs, me deparei com um chamado Samba Bom Nunca Morre. Levei para o carro para ouvir e lá pelas tantas tocou “O ouro e a madeira”, de 1975, cantada pelo grupo Nosso Samba.

Como trabalho com discurso, aponto duas posições em jogo na música. A posição de quem quer, por um lado, estar em evidência, tem como ambições as expectativas do que é socialmente mais valorizado e, por outro, a posição de alguém cuja realização subjetiva está em ser, estar e permanecer em lugares simbólicos que podem não ter apelo social, mas satisfazem a subjetividade na sua simplicidade.

Há pessoas ouro e há pessoas madeira. Ambos reais e legítimos. Ser um ou outro é resultado das querências históricas que moldam as vidas. Onde habita a melhor da vida? Na fama, sucesso, prestígio social, com bastante dinheiro? Ou na realização pessoal de uma vida fora de tudo isso, no anonimato escolhido, no encaixe social previsível, no prestígio interno e com dinheiro o bastante para viver bem? Ser mar ou fonte? Rosa ou espinho? Caminho ou atalho? Chuva ou orvalho? Dia ou alvorada? Campo ou grão? Vida ou momento? Concerto ou canção? Até que ponto a busca pela provável grandiosidade simbólica não sombreia a paz de uma escolha simples pela felicidade? Quem define o tamanho das nossas ambições, materiais ou existenciais? Nós ou os outros?

Minha tese é a de que o valorativo não é inerente ao lugar, mas surge no encontro (ou desencontro) entre ele e o sujeito. Não há um lugar melhor do que outro a priori. Parece-me que o melhor/pior só aparece na coincidência ou não entre o lugar desejado e o desejo alcançado. Há pessoas que querem ser o mar, o são e são absolutamente felizes. Há pessoas que são o mar e prefeririam ser a fonte, como o eu-lírico da música. Há pessoas que são a fonte e prefeririam ser o mar. E há pessoas que são a fonte e estão realizadas em sê-lo. As duas pontas não são problemáticas. Os miolos sim, pelas não-coincidências.

Angústia, decepções, azedume, tristeza e incapacidade de viver feliz vêm dessa não-coincidência: o sujeito deseja um outro lugar, sofrendo por habitar o seu. O que fazer então? Há duas opções lógicas: continuar tentando migrar a todo custo ou redimensionar seus desejos em função dos limites. Desconhecer o que se quer e o que se é é o primeiro problema a superar. Ser feliz passa por refletir sobre a tristeza.

De que, afinal, estou falando? Estou falando que uma música me diz o que minha vó dizia: “Tudo é do tamanho que você faz. Se fizer pequeno será pequeno, se fizer grande será grande”. É isso. Não dá para criticar sonhos alheios. Nem que ele seja o de não sonhar. Cada um toca sua canção, carrega seu grão, faz o seu momento. A felicidade é escolha. Cada qual no seu quadrado.

 

SF, 15.03.2009, 7:45h

Menos é Mais

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Para pensar, na sexta-feira:

A Navalha de Occam:
“Pluralitas non est ponenda sine neccesitate”
“Quando nada fizer nehuma diferença, se der no mesmo, a explicação mais simples é a que estará certa.”
Wiiliam de Ocham, frade inglês

Para completar o princípio da Navalha de Occam:

“A perfeição é alcançada não quando não existe nada mais para se acrescentar, mas quando não existe nada para se retirar.”
Antoine de Saint Exupery

“Qualquer tolo inteligente consegue fazer coisas maiores e mais complexas. É necessário um toque de gênio – e muita coragem – para ir na direção oposta.”
Albert Einstein

“A habilidade de simplificar significa eliminar o desnecessário para que o necessário possa se manifestar.”
Hans Hofmann

“Menos é mais”
Robert Browning

Mundo Cinza

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É cada vez mais difícil tomar posição sobre as grandes questões em debate na sociedade. Ambientalistas x desenvolvimentistas, criação x, evolução, esquerda x direita, ciência x religião… Todo mundo tem certeza, todo mundo tem razão. A gente lê uma argumentação brilhante e concorda com ela. E – graças à internet – segundos depois lê uma contra-argumentação tão brilhante quanto e também concorda com ela.

Dá a impressão que antigamente as coisas eram mais claras. De que havia o preto e o branco, o bem e o mal e não era difícil escolher de que lado ficar. Mas será que essa “facilidade” acontecia por serem as coisas, digamos, mais simples? Ou será que antigamente, sendo mais jovens e inexperientes, nosso repertório, nosso conhecimento, nosso raciocínio é que era simplório e escolhia de forma superficial, pelas aparências? Conforme vamos evoluindo, ouvindo e lendo mais, refinando nossa capacidade de análise crítica, reparamos nos detalhes sutis, entendendo as argumentações sofisticadas e a multiplicidade de pontos de vista. E o que era preto ou branco – pela certeza da ignorância –
fica cinza…

Por exemplo, a Colômbia acertou ou errou quando invadiu o território do Equador para liquidar os terroristas das FARC? Em minha opinião a Colômbia errou. Quebrou um princípio básico : invadiu a casa do vizinho. Isso não se faz, é um ato de violência, passível de retaliação. Mas em minha opinião a Colômbia acertou: eliminou os terroristas que estavam seqüestrando, matando e ameaçando um governo eleito democraticamente. Mesmo que para isso tivesse que invadir a casa do vizinho.
Portanto, tenho que condenar a Colômbia. Mas não me atrevo a censurá-la. No lugar de Uribe eu faria a mesma coisa.

É o velho choque entre princípios e pragmatismo. Quem estuda política está familiarizado com essa discussão.

Princípios ou crenças e valores constituem a base que suporta as ações de um indivíduo. São como filtros que determinam aquilo que entendemos como certo, correto, justo e leal. Esses filtros são desenvolvidos ou inibidos conforme nossa educação, na família principalmente, pelos exemplos de nossos pais e das pessoas que estão próximas enquanto crescemos.
Por exemplo, tenho como princípio não roubar. Qualquer ação que eu decidir praticar tem que estar de acordo com esse princípio e não admito deslizes. É claro e simples assim.
Mas então surge o pragmatismo, o ponto de vista que subordina a verdade à utilidade. Não roubo, por princípio. Mas se a vida de meu filho depender de eu roubar, vou roubar sim.
Você pode até dizer que isso é compreensível, que o princípio do roubo foi atropelado por um princípio mais forte: o da preservação da vida. Mas a minha decisão terá sido pragmática.

O caso das pesquisas com as células-tronco envolve o mesmo conflito entre princípios e pragmatismo. A legalização do aborto. E a questão do aquecimento global também. Lula abraçado a Sarney ou Collor é um exemplo do pragmatismo que se sobrepõe a princípios. Todo aquele discurso idealista da esquerda cai por terra assim que ela assume o poder. Muitos dirão que Lula está errado ao trair seus princípios. Outros dirão
que se ele não agir assim, não governa: para exercer política é necessário ser pragmático. E então passamos a aceitar certos deslizes como sendo “parte do jogo”. Deixamos de lado nossos princípios em nome do pragmatismo.

Esse é o momento em que a luz de alarme deve ser acesa. Afinal, o que é que você leva em consideração para escolher um amigo ou eleger um político? Os princípios ou pragmatismo dele?
Pois é… Não existe mais preto ou branco.
O mundo ficou cinza.

Luciano Pires