Vambora

Vambora: uma história de amor

Postado em Atualizado em

Parte I

Tudo dava certo em minha vida. Estava com 32 anos, terminando um doutorado, profissional respeitado. Menos os afetos. Os afetos não davam certo. Eu estava devastado com o fim do segundo casamento. Estava querendo desistir, virar um solteirão convicto. Na análise, que fui fazer por recomendação de minha cunhada médica, a analista até me mandou curtir mais a vida, ficar com mulheres sem maior compromisso. Cumprindo ordens médicas, até fiz isso por uns meses. Mas não era a minha. Sou igual a uma arara, um ser de par. Por isso sofria tanto com a ida da minha ex-mulher, que optou por viver uma vida diferente com alguém de outra cultura. Uma cultura indígena para ser mais específico. Ela me trocou por um índio. Tudo bem, a vida é assim. Era a volta do anzol. Eu havia trocado a minha primeira mulher por ela.

Gosto de escrever. Aquele foi um período de muitos escritos. Extravasava minhas angústias escrevendo. Quando meu sobrinho nasceu, no meio dessa efervescência, eu estava dando aulas em Tabatinga, cidade a 1.100 Km de Manaus, já na fronteira com a Colômbia. Escrevi um texto chamado “Vambora”, baseado na letra da musica da Adriana Calcanhoto. No texto, saudava a chegada da vida nova do meu sobrinho e brindava, em um pensamento desejoso, o início de uma nova vida para mim. Decidira que dali em diante não mais sofreria pelo que passara.

Parte II

De volta a Manaus, final de julho de 2002, estava dando aulas. Precisava ganhar dinheiro para pagar minhas dívidas da separação. Saí quebrado financeiramente também. Dava aulas à noite, até às dez da noite. Num dia de aulas desses, quanto terminei, peguei o celular, que fica sempre no silencioso enquanto dou aulas, e nele havia nada menos do que 14 ligações do meu irmão Paulo, que é musico e estava então morando em Campinas. Fiquei preocupado pelo número de ligações e retornei na hora. Deu-se a conversa:

– Oi, mano! Tudo bem aí?

– Tudo, tudo. Tá em casa?

– Não. Estou saindo de uma aula. O que houve?

– Chega em casa e me liga. Tenho de te falar uma coisa.

– Tá bom. Ligo, sim.

Fiquei curioso. Fui pra casa. Liguei. Novo diálogo:

– E aí? O que foi?

– Seguinte: te casei de novo!

– Como assim?!

– Seguinte: fui tocar num bar ontem aqui no Cambuí. A Zu foi junto. Lá estavam a prima da Zu, a Nívea, que mora aqui em Campinas, e uma amiga dela, a Fabiana. É com ela que eu te casei.

– Com a prima da Zu?

– Não! Com a Fabiana, a amiga dela.

– …

– Deixa eu te contar. No intervalo, estávamos conversando na mesa. Aí rolou o seguinte papo:

E ele narrou para mim o papo:

– E aí, Fabiana? Cadê seu namorado?

– Ah, tenho namorado, não. Hoje não tem mais homem romântico, que queira compromisso… os caras só querem ficar.

– Ei, eu conheço um cara que é assim: romântico e apaixonado. Você vai gostar. É o meu irmão.

– É? E onde ele está?

– Em Manaus.

– Manaus?!! Não, esquece… é muito longe.

– Mas ele já morou em Campinas, estudou aqui, gosta daqui. Moraria aqui de novo tranquilo.

– Bom, aí já começa a me interessar….

– Ele inclusive tá meio arrasado porque saiu de um casamento e…

– … Separado? Não quero, não. Filhos… isso é muito complicado.

– Não. Ele não teve filhos, não.

– Hum… então ficou melhor de novo.

– Nem do primeiro, nem do segundo casamento….

– O quê? Dois casamentos?! Esquece… deve ser uma cara complicado. Alem do mais, tenho o sonho de casar na igreja e ele provavelmente já casou e queimou o cartucho.

– Verdade, mas o primeiro casamento dele, o que foi na igreja católica, foi anulado. Ele pode casar de novo.

– Anulado?! Eita… Mas passou a ficar interessante de novo.

E ficaram nessa conversa de vai-e-vem. Interessa, não interessa e foi só.

– E aí tu me casaste com ela por causa dessa conversa…

– Então! Eu pedi pra Zu pedir pra Nívea o telefone dela. Eu disse que tu ias ligar. Anota aí.

– Tá maluco, rapaz! Como é que eu vou ligar pra uma mulher que eu não conheço, numa outra cidade, para cantar a mulher?!

– Que que tu tens a perder? Anota, pô!

– Deixa eu pegar uma caneta…

Parte III

No dia 26 de julho de 2002, às 17h, horário Manaus, estava eu na varanda da casa de meus pais, para onde tinha ido momentaneamente enquanto aguardava a entrega do meu apartamento, quando bateu o estalo. Procurei o papelzinho na carteira. Vamos lá.

Peguei o telefone, sentei na cadeira da varanda e liguei:

– TRIMMM…

– Alô!

– Alô, boa tarde. Eu gostaria de falar com a Fabiana.

– Quem deseja?

– Sérgio, de Manaus.

– Babiiiiiiiiiiiiii! Telefone! Sérgio, de Manaus.

– …

– Alô!

– Oi, Fabiana. Aqui é o Sérgio, de Manaus, irmão do Paulinho. Tudo bem?

– … Oi… tudo bem…

– Então, o Paulo me deu seu telefone e estou ligando.

– … pois é… (Esse cara é doido! E ela fez o sinal de maluco com o dedo girando na cabeça em direção à mãe, que atendera o telefone e ficara grudada de pé ao lado).

– Ei, o Paulo me falou que você gosta de cantar e que canta bonito. Canta pra mim?

– Como é?

– Canta pra mim. Eu liguei pra ouvir você cantar pra mim…

– Só se você tocar no violão então!

– Peraí!

Ela não contava que eu tocasse violão e que tivesse com um em mãos. Mas estava.

– Já. Escolhe a música.

– Hum…. “Vambora”, da Adriana Calcanhoto.

– …

– O que foi?

– Nada… bem… é que eu acabei de escrever um texto sobre essa música. Coincidência, né?

– É? Puxa… muito… Posso ler?

– Está no meu site, anota aí…

– Já…

– Então vai!

– “Entre por essa porta agora, você tem meia hora, pra mudar a minha vida… vem, Vambora”…

E conversamos por horas naquele dia. E no dia seguinte. E no outro. E no outro… Dois dias depois, escrevi este texto.

Parte IV

Todos os dias eu ligava para ela. Recebi meu apartamento. Fui para dentro dele com um colchonete e uma mala. Muito leve. Por dentro e por fora. Já não havia mais o peso da separação. Eu já sentia algo muito especial por aquela menina que só vira por uma foto enviada por e-mail, mas cuja voz já me fazia sentir as borboletas da paixão no estômago. Era 2002, não esqueçamos. Nada das facilidades da banda larga como possibilidades de comunicação online…

Um pouco mais de duas semanas após a primeira ligação, no dia 11 de agosto, o seguinte diálogo, de novo por telefone. As conversas duravam três horas…

– Oi, Bia. E aí? Como foi o seu dia hoje?

– Nós somos namorados?

– Hã?

– Nós somos namorados?

– Por quê? Como assim?

– Olha, Sérgio, você me liga todos os dias, a gente conversa mais de três horas, eu lhe conto minha vida, você me conta a sua. A gente divide tudo. Nós somos namorados?

– Que dia é hoje, Fabiana?

– Domingo. 11 de agosto.

– Então tá. Estamos namorando. Você é minha namorada.

– E você o meu namorado.

– S2

– ❤

Parte V

Já não aguentava mais não conhecer a dona daquela voz que despertava em mim sensações tão únicas. Inventei que tinha de resolver umas coisas na UNICAMP e que, por isso, teria de ir a Campinas. Aproveitaria e passaria meu aniversário, dia 06 de setembro, com ela.

– Bi, meu amor, estou indo para Campinas. Chego em Sampa dia 30 de agosto.

– Poxa! Mas é dia de semana… estou na clínica… não vou poder ir a São Paulo pegar você. =/

– Tudo bem. O Paulo me pega em Congonhas, eu vou pra Campinas com ele e a gente almoça junto. Que tal?

– Então tá bom. Estou ansiosa pra te ver. Porque já te amo muito.

– Eu também…

– Ei, escrevi outro soneto pra você. Quer ouvir?

– Claro!

AMOR A ZERO VISTA

Falam os corações de amores instantâneos,
Cantam os poetas o amor idealista!
Dizem de um amor que surge momentâneo,
Crêem que se dê à primeira vista…

Louvam os amores longos, construídos
Que estações demoram para começar.
Amores violentos, brutos, aguerridos
Que uma vida levam pra dizer “amar”.

Pois o meu surgiu, não foi da visão.
Nem levou um tempo para a explosão.
E, vejam, que tão belo!, surge mutualista!

Amo e amo forte, pleno de paixão!
Tenho-te aqui dentro sem te ter na mão.
Temos um amor, um Amor a zero vista.

Eu escrevia um soneto por dia. Tenho todos até hoje. A cada noite também escolhíamos uma música por dia para compor nossa trilha sonora.

Parte VI

Senhores passageiros, bem-vindos a São Paulo. Tripulação, portas em manual. Cheguei. Congonhas. Peguei a mala. Saí no desembarque procurando o rosto conhecido da família. Onde estava o Paulo? Procurei com a vista pelo saguão até vê-lo, em pé, longe, de braços cruzados.

– Ei, mano! Vem cá! Dá um abraço! Saudade!

– E aí? Fez boa viagem?

– Fiz. Cadê a Zu?

– Ah, tá por aí…

De repente, um par de mãos trêmulas e geladas tapam meu olhos por trás. Não, não era a Zu. A Zu estava de longe filmando o primeiro encontro de duas pessoas apaixonadas que nunca haviam se visto na vida. Filmou tudo. Segurei as mãos trêmulas com as minhas, não menos trêmulas, virei, olhei naqueles olhos graúdos com as pupilas dilatadas – dizem que quando a gente está perto de quem a gente ama as pupilas dilatam – e disse:

– Não é que você existe mesmo…

– Existo.

Ela tinha ido. E assim deu-se o nosso primeiro beijo. Tudo registrado. Vimos e revimos o filme ao chegarmos em Campinas. Que casal tem seu primeiro encontro filmado?

À tarde, naquele mesmo dia, na escola de minha sobrinha, havia uma festinha das crianças. Minha cunhada Zu filmou a festinha. Na mesma fita, em cima do nosso encontro.

Estávamos amando demais, sem tempo para pensar em outras coisas.

Parte VII

Minha mãe havia entocado esta carta para a Bia, sem que eu soubesse. A carta está aqui.

A carta assustou a Bia. Era muita responsabilidade.

Parte VIII

Depois de voltar a Manaus, o telefonemas continuaram. A conta com interurbanos chegou a 800 reais. Foi quando eu a convidei para conhecer Manaus. Ela topou.

Nesse meio tempo, no entanto, estava vivendo a difícil situação de gerenciar uma espécie de recaída da ex-mulher. Sabe como é: território perdido desperta os instintos.

Em outubro, ela viajou para Manaus. Fomos a um Hotel de Selva, focamos jacaré à noite, tomamos banho em nascentes, fizemos hiking nas trilhas. Detalhe: só eu e ela de brasileiros no grupo.

Mas ela tinha de trabalhar. E voltou para Campinas. E a Embratel enriquecendo às nossas custas. Não aguentei de saudades. Fui de novo em novembro. A Bia chegava atrasada todo dia. =)

Voltei. Dezembro, Natal, Ano Novo. Mais telefone. Mais saudade. Fui em janeiro de novo. Ela veio em fevereiro. Nosso amor enriquecendo. Nossas finanças empobrecendo. Mas foi o melhor carnaval de todos os tempos. Preciso dizer que a Bia teve uma paciência de monge baiana comigo. Eu andei insuportavelmente ciumento por uns tempos. Era o medo de perder alguém de novo que fazia o ciúme e a insegurança brotarem de uma forma exagerada.

Em março, numa conversa telefônica, o diálogo:

– Eu acho que assim assim está complicado, né? A distância é ruim…

– Então pede demissão da clínica e do Haras aí e vem pra Manaus.

– Tá bom.

Alguns dias depois:

– Oi, amor.

– Oi. Já.

– Já o quê?

– Pedi demissão de tudo.

– …

Pausa. Ouça essa música. É ela cantando pra mim. Clique aqui.

Em abril de 2003, eu fui para Campinas de novo. É preciso dizer que a família da Fabiana estava em polvorosa. Lá de longe surge um cara, que foi casado duas vezes, dizendo que iria levar ela embora. Não tiro a razão deles. Eu também ficaria preocupado.

Para minimizar a preocupação, compramos alianças e marcamos o noivado. Meu irmão, minha cunhada e minhas sobrinhas representaram a minha família. E lá estava eu fazendo aquilo que já fizera duas vezes e pensara que nunca mais faria. Mas fiz de uma forma completamente diferente. Eu estava muito, muito feliz. Ouvi o sermão do pai da Bia e celebramos. Era dia 19 de abril. Dia do Índio.

No dia seguinte, malas prontas, muito choro. A família da Bia se despediu dela que estava largando tudo, família, cidade, emprego, amigos, para ir morar em Manaus. Quem mais chorou foi a Tia Lena, a tia da Bia portadora de Síndrome de Down, 56 anos:

– Não quero que você vá! Fica aí arrumando esse marido porcaria!

Eu era o marido porcaria para a tia Lena. Mas daquele dia em diante, me propunha a ser o melhor marido que uma mulher pudesse ter. Aquilo tudo não era coincidência.

Parte IX

Uma casa nova, uma cidade nova, uma linguagem nova, uma vida nova. Tudo era maravilhoso. Era uma lua-de-mel doce e sem fim.

No dia 17 de maio de 2003, Adriana Calcanhoto fez um show em Manaus. É claro que nós fomos. Foi um show intimista, muito bonito.

Nos primeiros acordes de “Vambora”, nos olhamos e eu perguntei:

– Quer casar comigo? Vambora?

– Vambora…

E trocamos as alianças de mãos. Estávamos casados.

Parte X

Família pede filho. Queríamos um filho. Desejamos muito. Mas nada. Decidimos fazer os exames em Campinas. Descobrimos que precisaríamos tentar inseminação. Já estamos em outubro de 2005. A Bia fez todo o tratamento em Campinas. Eu, à época, estava como subsecretário de educação de Manaus, trabalhando muito.

Com tudo pronto, viajei numa sexta, colhi o material, foi feita a inseminação no sábado e no domingo eu voltei para Manaus, pois tinha de trabalhar.

Quinze dias depois, dia 17, eu recebi uma ligação de uma mulher com voz embargada:

– Você vai ser pai!

Depois de uma “leve sugestão” do meu sogro, decidimos casar oficialmente. E casamos no dia 02 de fevereiro de 2005.

Quando soube que ia ser pai, escrevi este texto.

Parte XI

Ana Clara nasceu em 12 de junho de 2006, na data simbólica do Dia dos Namorados. Linda, boca rosada, olhos graúdos espiando o mundo. Hoje tem quatro anos. Mas quando Clarinha tinha três meses, um belo dia a Bia falou:

– Estou com enjoo. Acho que estou grávida.

– Como grávida?! A gente tem dificuldade pra ter filhos…

– Mas a sensação é a mesma.

– Só para deixar você calma, vou ali comprar um teste de farmácia.

Pausa.

– Deu positivo.

– Positivo? Não, Bia, não pode. Esse teste está com defeito, o segundo risquinho tá muito clarinho, ó…

– Sérgio, deu positivo.

– Vamos fazer o de sangue. Vamos agora.

O exame de sangue confirmou que o risquinho não estava fraquinho e que o teste de farmácia não estava com defeito. Mas mesmo assim, no dia seguinte, ligamos para a médica de ultrassom, uma amiga, que disse para irmos em seu consultório. Era um sábado e ela estaria lá. Fomos.

– TUM, TUM, TUM.

Era o coraçãozinho de Marina, que veio sem pedir licença. A Bia chorou, num misto de alegria e medo. Eu segurei sua mão e disse:

– Não chore. Nosso bebê vai ser lindo, como a Ana Clara.

Ela sorriu. E nove meses depois, quinze dias após o aniversário de um ano da Clarainha, Marina veio. Era 27 de junho de 2007. Hoje ela está com três anos. Mas a história das meninas é uma outra história…

Eu fiz o convite em 2002:

– Vambora?

E ela veio. Pra sempre. Para ser minha última namorada. Alguém que mora no céu gosta da gente…

Ana Clara
Marina
Nós quatro…