Velhice

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol

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Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

Meu pai morreu há três meses. Foi o mais próximo que a morte chegou de mim. Antes disso, ela tinha me visitado quando levou minha vó, há 15 anos. Um hiato que me fez esquecer da morte por um bom tempo, ocupado que estive em viver as coisas da vida.

Procurei entender a morte do meu pai. Eu li tudo que pude sobre perda, separação, angústia, luto. Li sobre a dor do amor. Livros, artigos, assisti a vídeos e filmes. Tentei buscar um sentido para a morte do meu velho, como recomenda o psicólogo judeu Vicktor Frankl. Ele sobreviveu à barbárie de Auschwitz dando sentido à experiência trágica. Frankl dizia a si mesmo que precisava explicar ao mundo a psicologia de um campo de concentração e isso o manteve vivo. Só de Frankl, eu li três livros.

Descobri nas minhas leituras que o luto normal demora pelo menos um ano. Tempo do primeiro tudo sem a pessoa: primeiro dia sem, primeiro mês sem, primeiro dia dos pais sem, primeiro aniversário seu sem, primeiro aniversário dele sem, primeiro Natal sem, primeiro ano sem, primeira falta de colo. A morte do meu pai me trouxe mais pesadamente a consciência da finitude. Mas me trouxe muito mais do que isso: trouxe uma maior clareza sobre minha própria existência.

Ter consciência sobre si mesmo é um dom que desenvolvemos com a idade. Podemos potencializar e acelerar esse dom por meio de eventos pontuais de dor. Aprendemos a ter consciência do que vale e não vale a pena investir, de quem vale e de quem não vale gostar. Fica clara a consciência de que a vida precisa ter qualidade. Abandonamos sem dó aquilo e aqueles que nos fazem mal. No entanto, esse ter consciência sobre si traz no pacote a ferida da mortalidade. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns) e vamos morrer. Simples assim. E complexo assim. Porque precisamos decidir o que é, afinal, a morte para nós e isso vai fazer diferença em como a gente vai viver.

As pessoas lidam com a morte de formas diferentes. Há graus de angústia da morte. Pensar nela geralmente nos paralisa porque é a única certeza que temos sobre o futuro. Como não podemos ficar paralisados, senão vira algo patológico, desenvolvemos formas de elaborar essa angústia do inevitável. Há quem não pense na morte, um grau zero que se toca com o grau cem: o medo é tanto que se evita falar sobre. Há quem desafie o medo da finitude buscando construir uma obra na terra que lhe perpetue, ou por meio dos filhos ou por meio de algo notável. Há quem busque na religião o exílio, a explicação e o conforto contra a ideia de que a morte seja o fim definitivo. Enfim, fato é que a angústia de morrer se faz presente de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, como pensamento casual ou ideia que persegue cotidianamente. A morte é pauta inevitável da vida.

A angústia de morrer vai e vem durante nossa existência. As crianças são introduzidas à morte pelos bichinhos de estimação que se vão, pelas folhas secas caídas que encontram ao pé das árvores, pelos avós que desaparecem de repente. Quando contei às minhas filhas Clara (dez anos) e Marina (nove) sobre a morte do avô, as reações foram diferentes. Marina chorou demais, trocou de mal com Deus por lhe levar o avô. Clara se manteve em silêncio. Marina vez por outra me vem dizer que está com saudade do avô e chora. Clara, não. No entanto, pegando sua agenda escolar para verificar o que tinha de tarefa, vi escrito no calendário, no dia 1o de setembro, com sua letrinha redonda, “Vô, três meses. Saudade. :.(“. Meu pai morreu no dia 1o de julho. As crianças, como todo mundo, também têm formas singulares de elaborar a perda de quem amam.

Os adolescentes, em geral, desafiam a morte. Nesse período a angústia explode com força. Arriscam-se em atividades radicais, saltam de paraquedas, fazem rachas. Adoram ícones da morte, como Hitler. Lançam a catexia fortemente em jogos como Grand Theft Auto, em que a morte é banalizada. Alguns chegam mesmo a considerar o suicídio. Este é o recado: “Dona morte, não tenho medo de você. Não me venha com close errado”. Assim se cruza o tempo da juventude. A vida segue e viramos adultos.

Como adultos, as preocupações mudam. Vem a carreira profissional para cuidar. Vem a família para zelar. Deixamos a morte de lado porque a roda-vida exige demais e quase não deixa tempo para pensar nisso. Só que, de repente, duas coisas acontecem: a meia-idade e sua crise e a morte recorrente de pessoas da geração anterior. Parentes, tios, pais de amigos, os próprios amigos mais velhos, nossos pais. Eles começam a ir. À medida que eles vão, a meia-idade vem. Esse encontro inevitavelmente faz da morte uma presença constante nessa parte da vida que é, fato, a parte descendente da existência. Nascemos, crescemos, procriamos (alguns). O próximo passo é morrermos. Como lidar com essa certeza, que é a certeza derradeira da vida?

As pessoas lidam com a morte à espreita de várias formas. Por causa de sua história pessoal, de sua singularidade, umas buscam auxílio na família e nos amigos. Outras se aproximam da espiritualidade como forma inconsciente de buscar um seguro para o depois da morte. Alguns, mais cientes de sua fragilidade humana, vão à terapia. Outros, ainda, escrevem textos sobre a morte para lidar com a morte que se apresenta.

Meu pai morreu há três meses. Meu velho me deu um grande presente no fim da vida. Ele me fez redefinir minha relação com a morte. Eu tinha medo da morte. Hoje não tenho medo. Meu medo foi ressignificado. Hoje eu vejo a morte como algo que faz parte da vida, algo sobre o que você pode partilhar com outras pessoas, sem razão para ter medo ou vergonha de fazê-lo. Hoje eu converso sobre a morte, coisa que evitava fazer. Redimensionei a importância do velório como prática social. A presença em velórios tem uma função afetiva fundamental. São partículas de afeto que se juntam numa constelação de carinho e que ajudam a sustentar o corte abrupto do afeto roubado pela morte. Estar lá é dizer: eu me importo. E isso faz uma diferença imensa para quem está machucado.

Hoje a morte tem uma forma bem diferente para mim. Ela não é mais aquela morte de roupa preta com a foice na mão. Ela é bem distinta daquela morte dos nossos encontros cotidianos, em que a vemos como algo violento, assustador e tabu. Há outras mortes além daquela que a mídia nos entrega diariamente. Descobrir isso é libertador.

A lição que resume tudo isso é que o confronto com a morte não precisa ser um desespero. A morte sempre convoca um renascimento obrigatório de nós mesmos. Renascer é um sentido bom que podemos dar à morte porque pensar na morte requer pensar na vida. No fundo, eu acho que não seja da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca ter vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos porque nunca conseguimos descobrir o que é a vida de fato. Mas sempre é tempo. Cuide de seus canteiros, “antes que chegue a morte ou coisa parecida e nos arraste moço sem ter visto a vida”. Cecília.

Em “Um conto de duas cidades”, Charles Dickens nos fala da morte. “Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho. Meu coração é tocado por lembranças que estavam há muito tempo adormecidas”. É isso. A morte é o nosso reencontro com um começo de que já não nos lembramos mais. Afinal, existirmos: a que será que se destina?

A morte é a noite da vida. É um laço que caça a infinitude. É o anzol que volta, sem falha, para fisgar a existência que se pensava eterna. É pau. É a pedra de Drummond. Mas definitivamente não é o fim do caminho.

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Os cabelos roxos da alma

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ve.lho 1. Que ou aquele que tem idade avançada e geralmente se torna fraco ou doente, em consequência disso: um leão velho; os velhos merecem respeito. 2. Deteriorado pelo uso ou pelo tempo: carro velho; roupa velha. 3. Experiente; tarimbado: um velho motorista da família. 4. Antiquado; arcaico; obsoleto: ideias velhas. 5. Diz-se carinhosamente de qualquer figura célebre da antiguidade: o velho Sócrates. 6. Extremamente conhecido; manjado: lá vem ele com suas velhas desculpas; 7. Que pertence ao passado: os bons velhos tempos. 8. Que existe desde um passado distante: um velho companheiro de escola. 9. Feito ou produzido há muito tempo: um vinho velho. 10. Que tem sentimentos e ideias de uma pessoa mais velha: ela é velha para os anos que tem. 11. Carinhosamente: querido: meu velho pai. Do latim vetulus. 1 velharia (vè) s.f. (1. ação, dito ou coisa própria de velho; 2. traste antigo).

A linguagem é uma senhora sábia. Daquelas que controla a todos sob o manto da neutralidade. Sempre cremos que a  escolhemos e a dominamos quando, coitados, somos escolhidos e determinados por ela. Ao nos imputar seus sentidos de mundo, a velha linguagem nos configura como sujeitos, nos faz ser o que somos e pensar como pensamos.

É preciso desconstruir de início uma velha verdade: os sentidos que a linguagem circula nas palavras que a compõem não são fixos e imutáveis. Eles são plásticos, resilientes, líquidos. Não existe sentido literal. Sentido literal foi invenção de  um velho  dicionarista qualquer.  Todo sentido é conjuntural, depende da realidade, das acontecências. O pé-da-letra não é perfeito: tem joanete e chulé. Como imperfeitas são as velhas regras da gramática que quer aprisionar a língua, carnavalesca e malemolente, em uma valsa de dois pra lá dois pra cá. Luís Fernando Veríssimo diz que a gramática precisa apanhar muito para saber quem é que manda. O próprio Veríssimo se diz um gigolô das palavras. Eu diria que eu sou mais um prostituto da linguagem, a minha cafetina. É ela que manda em mim, dizendo o que posso e o que não posso dizer e fazer.

A minha tese: os sentidos das palavras (que nos determinam) mudam porque o mundo muda. O mundo muda porque o tempo, mano velho, manda. O tempo manda porque ele é vivo, porque ele acontece, porque ele não pede licença. O que foi não é mais. O que era deixou de ser. O que é não será. É assim. E daí algumas angústias contemporâneas.

Nós sofremos porque somos sujeitos de nossa história e por causa dela nossos referenciais de leitura de mundo leem o mundo como leem. Se nos indignamos com um político corrupto é porque ele não considera a ética e o respeito pelo dinheiro público como nós consideramos (ou, talvez, porque gostaríamos de estar no lugar dele, segundo a psicanálise, o que já é uma outra história). Se queremos carinho e presença dos nossos queridos em momentos difíceis, de tristeza, como uma doença do filho, e nos decepcionamos e frustramos quando isso não vem de onde jurávamos que viria é porque acreditamos que nossos queridos não valorizam a presença solidária do jeito que nós valorizamos. Ou seja, os sentidos do mundo estão em nós, não nos outros. Sofremos porque queremos o que temos em nós e não temos dos outros. Sentimentos são efeitos disparados pela coincidência ou não do sentido que esperávamos dos outros. Com o tempo, à medida em que a expectativa de vida das pessoas aumenta, aprendemos a diminuir e redimensionar nossas expectativas em relação às pessoas e ao mundo, velhas utopias da juventude.

Daí que perceber de onde emana o referencial ajuda bastante a não sofrer nesse mundo de sentidos mutantes. Querer mudar os outros e seus modos de agir é tão pretensioso quanto querer apagar o sol. Não é mendigando sentidos iguais aos nossos que melhoramos nossa qualidade de vida. É redimensionando nossas expectativas, tentando compreender o efeito de seus encontros com a realidade. É aquela velha história: quem se deixa levar pelo sentido alheio vive outras vidas e não a sua.

Quando o fulano me xinga, posso confrontá-lo para querer mudar o seu modo de me ver ou posso tentar compreender seu xingamento como um efeito do que eu represento para ele. Se opto pela segunda, não sofro e devolvo a bola para o fulano. Ele que se entenda consigo e com sua necessidade de me xingar. É um alívio para mim, respaldado pela certeza cada vez maior de que não sou responsável pelos sentidos que os outros atribuem ao mundo. Repare: as pessoas da esquerda radical sofrem, ficam doentes, azedos e rabugentos porque querem mudar o mundo para seus referenciais, sem sucesso, claro. Cada Sísifo com sua pedra.

Ei, Sérgio Freire, mas porque aquele verbete de dicionário lá no começo do texto? Pois é. É para mostrar como o sentido de uma palavra pode bailar entre ser algo bom ou ser algo ruim. Velho pode ser algo positivo ou negativo. Olha lá. O sentido não é literal, como eu disse lá em cima em algum lugar. O sentido é sempre conjuntural: “o velho sábio criticava as velhas ideias”. De quantos sentidos essa frase está grávida? “Palavras: cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra … Trouxeste a chave?”. Bate aqui, Drummond.

E já que usei esse verbete como exemplo, falemos do velho e de sua renovação. “O novo envelhece o velho”. Escolha a acepção que você quiser dentre as que estão lá em cima para o velho dessa frase. O CD envelheceu o velho LP. E por não ser mais a novidade, o LP se valorizou. Custa R$ 150 um bolachão dos Beatles feito no Japão. As redes sociais surgiram com sua rapidez comunicacional? Escreva uma carta, à mão, assinada e perfumada, envie para alguém e veja o efeito. Práticas antigas, velhas, viram velhas práticas valorizadas. Como ligar para um velho amigo e perguntar como ele, que esteve doente, está. Ou fazer uma visita para conversar sobre a vida. Ou mandar um cartão de Natal desejando boas festas em sua caligrafia. Comprar as velhas rosas vermelhas num buquê em vez de mandar um cartão digital é o caminho mais fácil para abrir um vinho velho com aquela velha paixão. Vai por mim.

Não. Isso não é uma lamentação ou uma nostalgia piegas de alguém que está ficando velho (escolha de novo a acepção. Já escolhi a minha). É a mera constatação da mudança. Porque muda. É assim. Mas é a constatação também de que a mudança tem como consequência o olhar carinhoso sobre o que se vai e que um dia foi e agora não é mais. Inevitável. Ficar velho é rejuvenescer o sentido e no valor. Para melhor. É lindo o mapa da minha vida que as rugas desenham em minha testa… Usar botox é apagar a história, arrancar os cabelos brancos é matar aquele beijo que nunca aconteceu e que por isso ficou marcado. Quem apaga o passado vive num presente de Alzheimer.

Pense no porquê da valorização de coisas como o slow food, do hiking, das coisas feitas à mão. Mais do que modismo de agenda social, o discurso da sustentabilidade é a nostalgia do bucolismo de um passado distante. Pense no porquê de dizer obrigado e com licença tem efeitos assustadores para certas pessoas. Porque são coisas velhas, que poucos prezam fazer. Porque o velho, como o novo, é bom. Não são excludentes, mas complementares. O velho só deixou de ser novo. Patinou-se pelo tempo. Ganhou histórias e garbo.

É. Como diz um velho provérbio chinês e sua velha sabedoria: a linguagem é uma velha vadia de cabelos roxos. Minha alma deu agora para desfilar por aí de cabelos roxos. E a sua, leitor(a) querido(a)?