vida

Efemeridade

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A vida é efêmera. É preciso não esquecer disso ao abrir os olhos a cada manhã. Lembrar da possibilidade real de que podemos não estar aqui no minuto seguinte ou de que podemos não ter mais alguém para sempre ao dobrar de uma esquina faz com que as ações do dia mudem. Perder um tempo bom com aquela pessoa passa a ser desperdício irrecuperável, uma chance para sempre perdida de um olá, de um abraço, de um beijo. Não esquecer disso ajuda a evitar arrependimentos inconsertáveis. Sim, “é preciso amar como se não houvesse amanhã”.

Raízes e asas

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Inspirado por Fernando Pessoa.

Hoje a criança que há em mim escapou. Bobeei e ela fugiu. Minha maturidade cansada olhou e disse: “Deixa! Ela volta”. Eu deixei. Ela já saiu dando uma cambalhota no chão de terra molhado pela chuva, na qual dançou feito Fred Astaire. Pés descalços, chutando uma bola de meia, driblou senhores sisudos que vinham no contrafluxo de sua brincadeira e que, claro, reprovaram a afronta. Tomou nas mãos a bicicleta e disparou, permitindo-se um vento no rosto ladeira abaixo da rua, cabelos desgrenhados, mãos soltas do guidão, numa ousadia de que nem sequer me lembrava mais. Era acompanhado por Laika, uma vira-lata preta e dourada, que lembrava a Lassie. Ela latia como se batesse palmas para  seu dono. A criança não tinha um relógio.  O tempo era o que ela fazia. Minutos podiam ser horas, horas minutos. Uma total anarquia do tempo, como só as crianças sabem fazer.

Mastigava com prazer um chiclete de bola, daqueles de bolinhas coloridas. De cor vermelha. Num vacilo, engoliu o chiclete. Lembrou que ele poderia ficar no estômago para sempre, como haviam lhe dito. Aliás, haviam lhe dito tantas coisas que sua cabecinha inocente chegava a ferver. Logo se esqueceu disso e correu na areia que margeava o igarapé, se imaginando um gigante deixando pegadas no chão para amedrontar os pequeninos. Viu uma fila de formigas e com o dedo interrompeu-lhe a marcha. Adorava embaralhar o certo e formigas ficam perdidas quando um dedo é passado na linha imaginária de seu trajeto invisível. Mergulhou na água fria que fluía infinita, como infinita era sua vontade de ser feliz. Tirou do fundo do igarapé uma garrafa de guaraná, já gelada pela água, entornou num saquinho e bebeu com um canudinho. Largou o saquinho na mesa do caramanchão para correr atrás de um panapaná de borboletas pequenas e brancas que lhe convidara a correr pela areia do banho. Brincou alegre de manja-pira com as ziguezagueantes borboletas até ser enredado por outra brincadeira e se foi.

Voltando para casa, meu menino pegou um lápis e pediu de quem lhe estava próximo uma folha de papel. Nela, com um círculo fez um sol, cheio de raios. Pôs-lhe na boca um sorriso como o seu e desenhou uma árvore, junto a uma casa com chaminé, chaminé, aliás, que jamais vira, mas que tinha de fazer parte das casas desenhadas. Pontuou o céu com nuvens e pássaros.  Fez sete pessoas, em rabiscos. Os dois maiores, dizia, eram o pai e a mãe. A diferença era os rabiscos dos cabelos da mãe, em triângulo. Os cinco menores, em tamanho decrescente, eram os filhos: ele e seus irmãos. Ao explicar o desenho, o que toda criança faz com prazer, mostrou-se o menor de todos, apesar de ser o segundo na cronologia. Pois assim ele se via: sua família toda vinha na frente. Sua menorzeza não era por se achar menos, mas porque era mais generoso. Generosidade que vai se corroendo ao rolar pelas ruas de asfalto da vida, ganhando limo, perdendo rumo. Desenhou ainda um arco-íris, que pintou com sua caixa de lápis-de-cor com 48 cores, um de seus maiores tesouros. Ele pintava a vida como ninguém.

Com fome, tomou o copo de Ki-Suco de groselha nas mãos, um pacote de bolacha Maria e foi brincar na rua. Dividiu com os amigos goles do Ki-Suco e distribuiu, tal qual Jesus, as bolachas multiplicadas para o sem-número de crianças que também fugiram de seus adultos descuidados. Depois do cangapé e das bolinhas de gude – que ponteira linda aquela azul! –, uma pista de asfalto fez-se o Maracanã. As traves, duas sandálias. Par-ou-ímpar, você aqui e você pra lá. Partidas infinitas, uma atrás da outra. Pausas somente para enfiar a boca na torneira da casa sem muro para aliviar a sede de água. A única sede que lhe habitava. As demais eram sempre saciadas. Era um tempo de exploração. Era um tempo de conhecimento. Era um tempo de formação. Eu me perguntara, olhando o meu menino, onde estaria morando aquela vontade de tudo. Na sua casa hoje, com grade e portão de ferro, mora uma vontade de nada, um velho cansado, ranzinza, como aquele que furou a bola-balão colorida, chutada por ele,  que caiu em sua casa, terminando o campeonato. Dali, dia escurecendo, levava de volta o abraço suado dos parceiros, um pescoço com duas voltas de ceroto como medalha, um dedo esfolado na sarjeta, um segredo de um amigo e uma alegria de menino, daquelas que só dá em curumim, feito virose.

Tomou banho a muito custo a minha criança. Seus arranhões do dia arderam, mas ela nem reclamou. Era assim todo dia. No corpo as marcas da vida, da felicidade. Quando a gente se adultiza, chegamos em casa com arranhões também, mas na alma.

Depois do banho, do talco perfumado no corpo, cabelos penteados partidos no lado e Alfazema a lhe exalar o cheiro pela casa, arrumou seu álbum de figurinhas da copa. Olhos pesados de um sono iminente, veio a minha criança se aninhar em meus braços na rede que balançava na casa sem forro, de luz amarela. Cantei para ela Alecrim Dourado e Pica-pau Atrevido. Seu corpinho incessante se entregou ao sono no balanço da rede. Um sonho bom lhe passava à mente, decerto, porque sorria. Era o sorriso de seu tempo. Sorriso inocente, feliz. Sorriso da descoberta, das eurecas. Sorriso do tempo infinito, sorriso das travessuras desmedidas. Sorriso de criança.

Tempo em que o tempo era um tempo diferente. Meus olhos de adultos veem um tempo redefinido. O ontem virou anteontem. O hoje virou o agora. O anteontem, século passado. A urgência não permite à minha criança tardes inteiras sentadas à beira do barranco olhando os carros que passam lá embaixo, como se fossem as formigas da imaginação. Hoje os carros não passam. Quedam inertes em histéricos engarrafamentos. Não cabe mais deitar no chão frio do corodum da casa, jogar sabão e voar num deslize libertador. Crescer enrijece a vida, leve, solta, sem limites quando na infância.

Dormindo, minha criança me sorri. De repente, abre os olhinhos, bêbados de sono, estende um largo sorriso e – como que adivinhando o que penso –  me diz, quase sussurrando: “Não esqueça de mim… E não esqueça de você… ” Cerrou os olhos e voltou a dormir dentro de mim. A maturidade, protocolar e racional, com um maneio de cabeça falou em silêncio: “eu te disse…”. Alguém passou o dedo na minha trajetória de criança…

Peregrinações: a lei, a forma, o acontecimento

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I’m looking for the face I had before the world was made.
Yeats

Esse é um texto pessoal, escrito mais para mim do que para os outros. Leia se quiser.

Um dos livros que mais me influenciou dentre os muitos que li é Peregrinações, de Jean-François Lyotard. Volta e meia o pego na estante e o começo a ler de novo. O que me fascina no livro é sua discussão sobre sua trajetória de vida, considerando a lei, a forma e o acontecimento. Fiquei pensando na minha trajetória sob as perpectivas de Lyotard.

A lei sempre me foi cara. Não falo aqui da lei jurídica apenas, mas incluo no sentido o juridismo, a lei não escrita. Sempre fui um cara muito “certinho”, para usar um termo mais corriqueiro. Um bom filho, um bom aluno, um bom irmão, um bom amigo, um bom professor, um bom pai. O adjetivo bom me persegue. Não pense você que isso é um autoelogio. Reconheço sem falsa modéstias algumas qualidades que tenho, mas sei também dos limites e defeitos que me habitam. É que desses poucos sabem, dando a impressão de que o bom domina. Mas ser adjetivado nunca é bom, nem mesmo quando o adjetivo é bom. Quem mata um leão por dia sofre muito quando deixa escapar uma tartaruga num instante relapso.

Sinto falta de não ter sido mais fora-da-lei. Nunca sumi sem deixar notícias, nunca tomei um porre, nunca namorei sem ser a sério – a não ser numa fase bem galinha em que curti as ficações por ordem médica para recompor a autoestima depois de ter um casamento arrancado de mim por uma escolha fora-da-lei da outra parte. Aliás, tendo em vista o peso da lei, você que me lê deve imaginar o quanto sofri com isso. Grosso modo, nunca fui irresponsável. Sim, estou me ressentindo de não ter sido porra-louca. A lei sempre me foi cara. Eu sempre lhe fui subserviente.

A forma. A forma sempre foi subjugada à lei na minha trajetória. O estético sempre se definiu pelo que a conjuntura determinava. Apesar de ser um admirador explícito das rupturas, quase nunca me permiti ser seu sujeito. Sou um conservador. Não costumo me permitir experiências que não me são conhecidas. Não gosto de provar pratos novos, prefiro lugares e gente que já conheço. Morro de medo quando a lei me impõe novas formas. Mas como de costume, sempre obedeço. Apesar de ser curioso, a boa forma para mim é aquela que não apavora a mente.

Viver na lei e dentro de formas controláveis é, no entanto, impossível. Porque a vida tem o acontecimento. O acontecimento, um rebelde, não se permite controlar. Chega sem pedir licença, muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Foi o acontecimento que me levou a casar três vezes. Foi o acontecimento que encerrou meu primeiro casamento por um excesso de religião que ironicamente desligou o diálogo do casal. Foi o acontecimento caprichoso que me levou a conhecer minha mulher atual. Foi o acontecimento que me trouxe inesperadamente a minha filha caçula. Foi o acontecimento que me fez decidir fazer um concurso para professor da universidade no último dia de inscrição, no último minuto. O acontecimento é a falha na matrix. O acontecimento é o outro da lei, desafiando-a com novas formas, com novas trilhas, com novos sentidos.

Lei, forma, acontecimento. O que tenho percebido é que com o tempo, com a idade, tenho me flexibilizado quanto às três coisas. Isso tem seus motivos.

Ando muito triste com algumas escolhas que a lei me impôs. Estudei muito. Muito mesmo. Sempre gostei de estudar. Fiz mestrado. Fiz um doutorado na melhor universidade do país na minha área com a orientadora mais fodona na minha área. Tirei A em todas as disciplinas do curso. Estudar foi um acerto. Mas a forma foi errada. Fui ser professor universitário. Confesso que cada vez mais só gosto disso pela metade. Gosto da parte do trabalho, das aulas, das pesquisas, de escrever livros e artigos. Mas odeio o meu salário, me sinto humilhado ganhando o que ganho depois de estar no topo da titulação e no quase no topo da carreira , com vinte anos de universidade. Isso tem me deixado desgostoso, sem tesão acadêmico. Qualquer início de carreira de nível médio na Receita Federal ganha mais do que eu, com tudo isso. A lei não me foi mãe, me levando à forma equivocada, com grande parcela de (ir)responsabilidade minha, decerto.

Você que me lê pode estar dizendo: “Não está satisfeito? Muda!” E eu vou ser bem sincero: não dá. A essa altura do campeonato, a forma já fincou estacas. Passei batido. Tenho virado noites pensando em alternativas de dar uma boa qualidade de vida para a minha família sem me deixar abater pelos números do meu contracheque. O problema de ser aparentemente bom e forte o tempo todo faz as pessoas se desacostumarem de que a gente também fraqueja. Meus fraquejos são solitários. Não é por falta de ombros, não. Mas por escolha de não levar coisas ruins para os que eu gosto. Mas eu choro, fico acordando olhando o horizonte pela janela da cozinha, dirijo me perguntado por que a lei me trouxe essa forma. Tenho olhado a minha estante, cheia de livros, e me perguntado reiteradas vezes, com certa angústia ressentida: para que tudo isso?

A decepção com a lei e com a forma tem me levado a ser mais condescendente com o acontecimento. Estou menos exigente comigo mesmo e com os outros. Às vezes até displicente. Ando me permitindo fazer coisas pelas quais o eu de dez anos atrás me condenaria ao fogo eterno. Tenho apreciado novas formas, novos gostos, novas estéticas. Numa apropriação do Zeca Pagodinho com licença poética, eu diria que estou deixando o acontecimento me levar. Isso é bom. Isso é ruim. Quando a alma se acomoda, ela se apequena. É inevitável lembrar Pessoa. As coisas parecem não valer a pena às vezes. Ecos da boca torta da lei.

A lei vem e nos sugere as formas. O acontecimento vem e embaralha tudo. A ordem e a desordem. É ilusão acreditar que podemos programar a vida. A desordem é desejável para a própria existência e valorização da ordem. O que não está e não é também faz parte. A pausa do silêncio é que faz a música. A ruptura, filha do acontecimento, deve ser recebida com tapete vermelho, sem culpas ou remorsos por alterar formas conhecidas. Sem espaço para o acontecimento, represamos nossas vontades na lei. Presos à lei, as formas enferrujam. Formas estanques levam a almas mofadas. Tudo é episódico. Como sabê-lo sem vivê-lo? A lei é inimiga da ousadia, do deslimite e da felicidade. Lyotard diz:

“Declaramo-nos filósofos ou escritores, devemo-nos confessar impostores. Não existe pensar verdadeiro que o sentido de sua indignidade não escolte. A única maneira de sair desse atoleiro, pelo menos em parte, é exibir o inelutável. (…) De modo que o que ameaça o trabalho de pensar (ou de escrever) não é ele permanecer episódico, é ele fingir-se completo”.

Vou vivendo uma incompletude a cada dia, procurando o rosto que eu tinha antes do mundo ser criado, como disse Yeats no começo deste texto. A lei não me deixa arriscar muito as formas novas por conta de três pessoas que dormem aqui ao meu lado nesse instante. Mas boto minha fé no acontecimento. Que ele seja breve na chegada e longo no tempo de estadia. Certamente o acolherei com olhos menos casmurros, mesmo que aos olhos da lei ele se apresente criminoso, se me entendem a metáfora.

Lei, Forma, Acontecimento. Acabei de ler o livro pela enésima vez. Como você peregrina na vida, caro leitor? Vai, me ajuda a pensar aí. Estou à deriva, achando que quase tudo não vale a pena. A alma anda pequena.

Tão forte, tão perto

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“Em cada despedida existe a imagem da morte”.
George Eliot

Há verbos bons e verbos maus. Perder é um verbo mau. Perder sempre envolve lacuna, falta, desencontro. Perder uma pessoa torna o verbo mais malvado ainda.

A morte de alguém que amamos é devastadora. Um vazio psíquico de repente irrompe no mecanismo acomodado da vida. É como se nos fosse arrancada uma engrenagem na máquina da existência. A mente entra em desalinho e o mundo é instado a parar. Quer-se que o mundo estanque para que a sangria psíquica também estanque. Não se deseja levar a vida adiante para que não se lembre da perda do ser amado e para que não se sofra sua ausência. Esse desajuste, esse descarrilamento se chama luto.

Estudado por muitos, o luto é o período de reelaboração da realidade sem uma peça que até então era fundamental na convivência. É, portanto, um mecanismo necessário para o reequilíbrio psíquico. Acontece que o trabalho de curtir o luto, no sentido de gastar, como se curte o couro, é diferente de pessoa para pessoa. O normal – e é estranho falar em normal nesse assunto – é a pessoa passar pelo que Freud chamou de “teste de realidade”. Permitindo-se o contato com o mundo real, o enlutado descobre e redescobre que a pessoa amada não existe mais e a dor lancinante vira memória, saudade, lembrança, carinho. A máquina psíquica, de forma autopoiética, se recompõe e a vida segue. Alguns, no entanto, não se permitem voltar à realidade necessária à elaboração do luto.

Certas características do indivíduo podem fazer com que o processo de luto não se desenvolva e se torne patológico. Freud chamou o luto cristalizado de melancolia. Para Freud, no luto, há uma perda consciente. Na melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Diz ele: “A melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”. Dizendo de outro jeito: quando se perde alguém e se compreende a perda como parte do processo da vida, o luto é normal, com sua dor e tudo o mais, porque passa. Quando se perde alguém e nesse alguém se depositava um valor simbólico inconsciente, o próprio inconsciente não deixa a vida seguir em busca do fechamento de sentidos.

Ainda Freud: “Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo, a perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão de recriminação e autoenvelhimento, culminando numa expectativa delirante de punição”. O sujeito se pune porque quem amava se foi sem ser simbolizado.

Ok, talvez você não curta muito esse papo psicanalítico. Mas ele serve para eu tentar argumentar o assunto desse texto: a perda.

Tentando traduzir um pouco o jargão da psicanálise, depois de uma perda é preciso se permitir viver a vida para poder pô-la nos eixos. É necessário saber que também há perdas sem razões, por mais que isso nos desafie a mente cartesiana. Buscar uma explicação para a perda quando a explicação não existe é ficar eternamente dependente de uma resposta que nunca virá para que se possa ir adiante. O efeito colateral de se deixar enredar pela teia da melancolia é não perceber que outras coisas e pessoas precisam também de sua atenção para que a máquina psíquica não pare literalmente.

Isso vale tanto para pessoas quanto para fatos na vida. Há fatos que se perdem e que reclamam luto. Há amores que se vão e que precisam de alforria para se e lhe libertar. Há pessoas que terminam um relacionamento e não elaboram o luto porque inconscientemente acreditam que perderam a capacidade de amar e ser feliz junto com a pessoa que se foi. A melancolia bate palmas para esse sentido e ancora a pessoa na tristeza eterna. Se, por outro lado, se vence o luto da ruptura, o mecanismo psíquico se ajusta e aquela pessoa que se foi passa a ser memória, saudade, lembrança. E uma outra passa a simbolizar a felicidade e o amor.

Há sempre a possibilidade de se elaborar e reelaborar. Há sempre a necessidade de simbolizar. O Real, inacessível ao sujeito, é mediado pelo imaginário, que é o conjunto de imagens inconscientes que fazemos do mundo por meio da linguagem, simbólica por natureza. A língua, daí o meu interesse por toda essa conversa, nos separa da natureza ao nos forçar a dar sentidos a tudo. Que imagens fazemos das coisas que perdemos? Melhor perguntando: o que perdemos junto com aquilo ou aquele que perdemos? Até que ponto o que perdemos não é ressimbolizável? Luto ou melancolia? De dentro do luto, a estrada a tomar passa por gastar a dor e seguir adiante. E  antes que alguém diga, falar de fora do luto é mais fácil, reconheço.

Discursivamente falando, pessoas são conceitos ou um conjunto de conceitos. Nós as lemos, nos as consultamos, nos as admiramos, elas nos sustentam. Daí a perda dolorosa quando algum desses nossos alicerces conceituais desaparece. Os sentidos nos faltam. Mas a falta não é de todo ruim. Os sentidos sempre nos faltarão porque a falta é constitutiva da subjetividade. Aprender a conviver com a falta é meio caminho para evitar a melancolia.

Se você tiver a chance, assista a “Tão Forte, Tão Perto” (“Extremely Loud and Incredibly Close”). Foi esse filme que me inspirou essa conversa. É um filme sobre perdas, sobre luto, sobre melancolia, sobre culpa por não compreender, sobre a busca insana de uma chave que abra a porta da explicação inexistente, sobre cegueira afetiva, sobre a vida, enfim. Porque tudo isso está tão perto de cada um de nós. E chega de forma tão forte. Porque perdemos. Quando se aprende a perder, começa-se a ganhar. Ganhar é um verbo bom.

Canção pra você viver mais

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Nunca pensei um dia chegar/ E te ouvir dizer: “Não é por mal, mas vou te fazer chorar/Hoje vou te fazer chorar… Não tenho muito tempo. Tenho medo de ser um só/Tenho medo de ser só um alguém pra se lembrar,/alguém pra se lembrar/alguém pra se lembrar…”/Faz um tempo eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais/Faz um tempo que eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais/Deixei que tudo desaparecesse/E perto do fim/não pude mais encontrar/O amor ainda estava lá/O amor ainda estava lá!/Faz um tempo eu quis/fazer uma canção/pra você viver mais…

A única certeza que temos sobre o que nos vai acontecer no futuro é a morte. Ela vem, infalível. Vem para mim, vem para você, vem para todos.

Elizabeth Kubler-Ross, psiquiatra suíça, ficou famosa por seus escritos sobre a morte. Em 1969, ela escreveu “On Death and Dying”. Nesse livro, a autora apresenta os estágios pelos quais as pessoas passam quando estão na fase final de vida: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

O primeiro estágio, a negação, ocorre porque o Ego não aceita a notícia. Surge uma dor psíquica pela incompatibilidade do destino anunciado e os planos para a vida. Como o Ego não dá conta da coisa, vem a raiva. “Por que logo comigo? O que fiz para merecer?” Perguntas retóricas brotam férteis. O mundo todo recebe a culpa da proximidade do derradeiro destino. A pessoa fica amarga e revoltada. Sem forças para agredir o mundo, que é maior, passa-se a negociar com Deus uma sobrevida em troca de promessas de uma vida de fé, dedicada a outras pessoas, à caridade ou algo assim. Como Deus não fala mais diretamente com a gente, como fazia no Antigo Testamento, a impressão é a de que fica tudo na mesma. Daí vem a depressão, a tristeza, o fundo do poço. Sem forças para reverter o destino fatal, se aceita a morte como inevitável.

Kubler-Ross falava desses estágios vividos a partir de alguém destinado a fechar os olhos e perder seus 21 gramas de alma. Mas eu acho que os estágios servem para qualquer tipo de morte, não somente àquela que nos leva aos sete palmos do laborum meta. Servem para as mortes simbólicas também.

Quando a morte de um amor é anunciada, por exemplo, ocorre a mesma coisa: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Quando perdemos um emprego, idem. Um amigo que nos trai a amizade? Mesma coisa. Um relacionamento? Uma fé que falha? A gente nega, fica chateado, tenta negociar, se desespera e, por fim, aceita. Ou não, ficando estagnado em uma dessas etapas, com a vida congelada. Isso é importante: não estagnar. É necessário fechar ciclos. Faz parte de nossa constituição simbólica. A vida nos exige o clique no cadeado na saída.

Se tomarmos os estágios de Kibler-Ross como parâmetros da morte, real ou simbólica, talvez tenhamos mais margem de manobra de nossas dores, pois saberemos o caminho a ser percorrido. Talvez. Receitas não funcionam na dor. Certo é que a nossa morte real ou a morte simbólica daquilo que nos compõe a vida não é uma decisão nossa e elas vêm, infalíveis. Vêm para mim, vêm para você, vêm para todos.

Não queremos pensar no dia em que isso vai chegar. Mas tudo o que a gente gosta vai morrer. Não é por mal que quem vai vai nos fazer chorar. Vai porque tem de ir. Se é tão certo que a morte vem, é certo também que o amor sempre vai estar lá. Não deixemos, pois, que tudo desapareça antes do fim para que, arrependidos, perto do fim, não possamos mais encontrá-lo. Se ajeite, respire fundo e faça as pazes com quem você gosta e de quem você anda afastado. Seja você a dar o primeiro passo. É triste cantar a linda música do Pato Fu para alguém real, alguém que gostaríamos que tivesse vivido um pouquinho mais a ponto de receber um abraço reparador. Esse, amigo leitor, é um arrependimento irremediável.

Faz um tempo eu digo às pessoas que gosto o quanto gosto delas. Faço isso desavergonhadamente. Antes que elas se vão. Porque elas vão. Receber o calor do abraço amoroso de alguém é muito bom. Sabe, leitor, faz um tempo eu quis fazer uma canção pra você viver mais. Mais tempo, mais intensamente.

Grávido de Novo Airão

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É o poeta Manoel de Barros, por quem ando apaixonado ultimamente, que diz: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. Já há algum tempo, eu aprendi que sempre dá para aprender muito quando você sai da sua zona geográfica de conforto e experimenta um deslocamento para outros lugares. É no estranho que eu me conheço melhor.

Estive em Novo Airão dando e recebendo aulas. Cidade pequena, com a típica identidade do interior do Amazonas. Lá as ruas são pontuadas de motos e bicicletas e tudo parece ter um quê de diferente, se tomo os parâmetros da capital e seus problemas.

O primeiro aprendizado da viagem foi me desprender um pouco da internet e da conexão digital com o mundo. Não por opção, fiquei sem celular e sem acesso à internet por dois dias. Passei por uma desintoxição digital, com direito a delirium tremens de abstinência e tudo. Só há uma operadora lá. Foi ela que teve um problema na torre que deixou a cidade à mercê do velho telefone com fio,  caso eu quisesse falar com minha família, lá longe, bem distante fisicamente, mas sempre presente por onde quer que eu vá. Presença é dividida em presença presente e presença ausente.

Estar desconectado me conectou mais ainda com os afetos que me constituem. A impossibilidade do contato constante via telefonemas fáceis ou redes sociais instantâneas fez perceber o tamanho da presença quando ela vira uma presença ausente. Tal qual um sujeito que depois de passar a vida tomando o ar como garantido descobre o quanto ele lhe é quando ele lhe falta.

Caminhando no meu contraturno de trabalho, fui observando a vida tal qual ela se organiza por lá. A dona da Pousada, dona Fátima, com seu típico nome de dona de pousada, pousa o dia todo na cadeira em frente a TV na recepção, se permitindo de lá sair apenas para exercer seu cargo de gerente geral do lugar, para receber quem chega e quem sai. Caminho mais um pouco e chego à praça que tem um brontossauro de pedra imenso, colocado lá por um prefeito que sonhou com isso, segundo a história que chegou a mim. Inevitável pensar no monumento caso seu sonho tivesse tido um teor erótico. Mais um pouco à frente na praça, três meninos com varas e canos nas mãos lutam para recuperar um balanço que subiu e enroscou na árvore onde estava pendurado. O balanço subiu e embolou. Tento ajudar, em vão. Sigo em frente me perguntando como aquelas pessoas vivem só com o que tem. No caminho, percebo que para se chegar à resposta certa, a pergunta tem de ser certa. Refaço a pergunta: por que que a gente precisa de tanto para poder achar que vive bem?

Mototaxistas sentados no banco da praça dividem o marasmo e falta de clientes. Olham curiosos para mim e minha máquina fotográfica Nikon. Em tempo: na primeira foto que bati da minha turma, alguém falou: “Meu Deus! O professor aprisionou minha alma agora”. Foi uma aluna descendente dos Baré.

Tempo. Em Novo Airão o tempo é outro. São as mesmas 24 horas, mas elas se cadenciam mais devagar. O tempo parece não passar. O magnetismo da cidade retarda o passo dos ponteiros do relógio. Carros passam lentos em intervalos longos. Até os vira-latas andam numa displicência contagiante. O céu tem mais estrelas, definitivamente.

Passeio obrigatório, eu fui ver os botos, a atração da cidade. Andei até o flutuante que faz dos bichos o seu negócio. Dez reais a cabeça. Um grupo de turistas enfeitiçados pelo animal. O boto, de fato, é um animal místico. Exerce um fascínio imenso sobre as pessoas do lugar, que contam suas história como testemunhas oculares das suas peripécias donjuanescas.

De onde surgiu essa crença do boto que vira homem e sai do rio para engravidar as meninas? Provavelmente de uma moça que fez saliência escondido e embuchou. A desculpa deve ter funcionado e virou crença. Alunos meus me contaram histórias impressionantes: de uma mulher que estava menstruada, passou a mão no boto e começou a sangrar, numa forte hemorragia, tendo que ser levada a Manaus de urgência. Outro aluno contou que a vagina da bota é muito parecida com a da mulher. Contou ainda que um grupo de pescadores foi fachear – termo que depois descobri que significa pescar à noite com o facho de luz – e pegaram uma bota fêmea. A bota estava em período de acasalamento. De repente, um dos pescadores endoideceu e queria porque queria transar com a bota. Os demais tiveram que amarrá-lo porque ele estava fora de si. Uma outra aluna conta que uma amiga numa festa dançou a noite toda com um forasteiro, alto e bonito, que no fim da festa pediu licença, correu para o rio e saiu nadando. Com várias testemunhas. Fascínios femininos se mimetizando na natureza. A ligação do boto com a sexualidade é clara. Detalhe: sempre histórias presenciadas, nunca de segunda mão. E outra: os feitiços do boto só encantam mulheres menstruadas. Já dizia Rita Lee: mulher é bicho esquisito. Todo mês sangra.

Fui em um passeio até as ilhas de Anavilhanas, um arquipélago de 400 ilhas, segundo Carlos, meu aluno-guia. Entrando num furo – o beco do rio –, o barqueiro desligou o motor do barquinho e pude ouvir o som da natureza. Um silêncio rasgado por cantares de pássaros, de tucanos, de gaviões. Batidas de jacaré se mexendo na água. De repente, um boto cor-de-rosa gigante começa a coreografar ao lado da canoa. Sobe e desce, como que a se amostrar aos olhos humanos. Confesso que a cena é impressionante. Não admira que esse bicho tenha lá suas histórias. É, de fato, um animal fascinante. O olho do boto… sei não.

Um barulho rasga o silêncio como uma zagaia. Era o celular do guia, tocando no meio do mato. Paradoxo. Oxímoro. Antítese. Tudo isso naquela cena. Ele dizendo ao seu interlocutor que estava num furo perto do lago do Tamuatá. Quando desligou o celular e o motor do barco, a natureza falou. A natureza fala com a gente. Basta escutar. Os barulhos da florestas fascinam e comunicam. Tive uma epifania: o homem nasce feliz com a natureza. Ele é que estraga tudo. Isso foi sob uma cortina de cipós.

Ouvi histórias fantásticas. Mulheres que engravidam do boto, barrigas que sempre vingam. Outras engravidam da arraia. Essas não vingam. A parteira deve ser chamada para interromper a gravidez. Há a história do pano vermelho, que aparece para trazer más notícias. Tem ainda a jaraba, uma espécie de vespa gigante que come gente que queima comida. Há fantasmas. Eu vi uma. Don’t ask. Enfim, são narrativas que merecem um texto próprio, não?

De repente Manaus. O tempo acelera. A TV só traz notícias desagradáveis. A realidade urbana eclipsa a realidade paralela que vivi por dezessete dias. Que pena. Preciso de mais pausas como essa. Voltei na certeza de que trouxe mais do que deixei. Preciso me encontrar naquilo que me falta. Muita coisa que ainda me falta já se faz presente em mim. Toca aqui, Manoel de Barros.

Um dia de domingo

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Para os Ms.

Eu preciso te falar/Te encontrar de qualquer jeito/Pra sentar e conversar/Depois andar de encontro ao vento/Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia/E na pele quero ter o mesmo sol que te bronzeia/Eu preciso te tocar/E outra vez te ver sorrindo/ Te encontrar num sonho lindo/Já não dá mais pra viver um sentimento sem sentido/Eu preciso descobrir a emoção de estar contigo/Ver o sol amanhecer/E ver a vida acontecer/Como um dia de domingo/Faz de conta que ainda é cedo/Tudo vai ficar por conta da emoção/Faz de conta que ainda é cedo/E deixar falar a voz do coração.

E quando a presença da ausência bate forte e transborda dentro de nós? A saudade é um visitante folgado que chega sem avisar numa foto, num cheiro, numa música. Num dia de domingo. Ah, essa vontade de ter o teu ouvido para ouvir minhas falas no timbre que só tu, entre bilhões de pessoas, compreende, do jeito que eu quero que se compreenda… Aí eu te busco. Insano, tento te encontrar de qualquer jeito. Eu te procuro na sala, no quarto, embaixo da cadeira, sob do lençol da cabana. Eu te procuro nos teus objetos que guardo e que guardam teus toques, teu cheiro, teu jeito. Eu te procuro nas pequeníssimas coisas que me lembram o quanto és imenso pra mim. E eu te acho em tudo, mas não te tenho aqui. A tua onipresença se esvazia frente à falta do teu sorriso que não está aqui para eu ver. Eu te quero aqui, com teus olhos a me ler e a me acariciar a alma. Eu te quero aqui, acalentado e acalentando quem te acalenta até o sono tranquilo…

Ah, como eu queria sentar e conversar. No chão da sala, no tapete do quarto, na companhia, ainda que corrida, do alimento. Como eu queria pisar na tua bagunça e me ver nos teus desenhos… Sair por aí de mãos dadas, de encontro ao assanhado vento assanhando com carinho nossos cabelos e soprando para longe nossas inquietações. Em nós juntos, tão apertados, não cabem inquietações. Só placidez. Só mansidão. Tu és minha mansidão… Na tua falta, sou só tormenta, vento desarrumado, ressaca de mar…

Meu ar não é mais o mesmo porque tu não o respiras comigo. Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia, me molhar na chuva da mesma nuvem que pranteia suas dores sobre o mundo, me bronzear no mesmo sol que te bronzeia, suar junto contigo, ficar acabado, arrasado, morto de vivo pela tua companhia. Mergulhar de mãos dadas nas águas dos sonhos como mergulhamos no rio da vida. De mãos dadas. A mãozinha esticada para eu segurar, que é de?

Tua ausência me faz perceber que tentar preencher vazios com vazios não resolve. Eu invento coisas, escolhos os caminhos mais difíceis só para não ter tempo de sentir a tua falta ao meu lado. Que bobo eu! A tua falta não está ao meu lado. Está dentro de mim. Tu estás em mim. Tu és eu. Eu sou tu. Desde que tu vieste, eu passei a ser tu e não mais eu. Por isso não adianta eu viajar trilhas novas, construir castelos. Eu vou me perder de ti, os castelos cairão como cartas que empilho para o tempo passar. Inútil empreitada… Sem ti, o tempo se redimensiona. Cada segundo é dias. O tempo entre cada piscada é anos. Sem ti, não há tempo. Não há espaço. Só há vácuo.

Amar na ausência é um sentimento sem sentido. Eu não quero pensar em cada segundo que perdi por tu estares longe. O que tu fazes? Por que sorris? O que te faz brotar as lágrimas? Como foi teu dia? Me conta o que tu aprendeste hoje? Perguntas que ficam sem respostas, diminuindo a alma, amiudando o coração, a vontade de viver. Onde o som da tua voz? Não quero perder tua vida. Acompanhá-la e descobri-la contigo, como hei de? Que medo de esquecer a emoção de estar contigo… Eu quero estar contigo. Eu preciso estar contigo. É urgente. Estou mal, sofrendo de hipotu: pouco de ti me enfraquecendo… eu, Popeye raquítico; tu, espinafre da minha alegria.

Vamos ver o sol amanhecer? Vamos correr pela praia, brincar de pular onda? Se enfiar de mãos dadas embaixo da cachoeira gelada? Eu preciso urgente ver a vida acontecer. A vida de verdade. A vida que te inclui na presença, em tudo que eu penso e faço. Ainda é cedo! Não vai ainda seguir o caminho possível que a vida te deu. Que a vida nos deu. Fica, vai ter amor. Só mais um pouquinho… só para mais um cheiro no pescoço, só mais uma cosquinha na barriga, uma história inventada para eu te ensinar a vida e aprender contigo o meu papel… Suspendamos as obrigações! Vamos deixar tudo por conta da emoção… Fica, vai ter vida… Faz de conta que ainda é cedo… Vamos ficar abraçados pra sempre. Só isso que me importa. Vamos deixar falar a voz do coração… que é tão bonita quanto a tua voz nos meus ouvidos, no meu coração… Fica, vai ter um dia de domingo… Eu bem te quis, eu bem te quis… E ainda quero muito mais. Maior do que a imensidão da paz. E bem maior que o Sol. Fica. Então me beija só mais uma vez, pelo menos. Depois volta pra lá…

Mesoconto. VIDA QUE SEGUE.

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Luan conheceu Sandra no Ano Novo. Pularam carnaval juntos. Um relacionamento doce como os chocolates da Páscoa. Ela pensou muito em ser mãe de um filho dele. O primeiro Dia dos Namorados que curtiram misturando calorzinho foi maravilhoso. Pularam a fogueira, iá-iá, de mãos dadas e mesmo um sendo Garantido e o outro Caprichoso, guerreiros da selva, dançaram a dois toadas bem coreografadas. No Dia dos Pais, ela disse a ele que queria ter uma criança. Mais um brasileirinho pra curtir o feriadão da Pátria. Ela ganhou sapatinhos de presente no dia 12 de outubro. Em novembro, o amor morreu. No Natal, depois do panetone, ele se foi. Ela decidiu que na virada do ano teria a vida nova. Colocou na lista. Sandra conheceu André no Ano Novo…

Felicidade

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Participação na campanha da Coca-Cola. Gosto do conceito, por isso participei.

A goiabeira da casa 20

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Páscoa é passagem. É passar, mudar. Muitos são os que nos lembram da necessidade de mudar nesses tempos. O ponto sustentado é o de que ninguém está imóvel no mundo, como uma estátua de mármore. A metáfora do mundo contemporâneo é a de Heráclito de Éfeso, do homem que se banha no rio sempre de forma diferente, pois não é mais o mesmo homem e não se tem mais o mesmo rio no segundo banho. Vivemos na urgência do movimento.  Sujeitos que se fragmentam e se adequam à velocidade dos tempos líquidos. Homo liquidus.

Mas mesmo tendo a mudança como regra atual, há em nós o que teima em se perpetuar. Cada um de nós guarda em si traços imutáveis e resistentes em relação às demandas por mudanças que o mundo nos traz. Se muita coisa muda, tantas outras se querem permanentes. Estão bem, obrigado, guardadas em nossa pasta de certezas.

Ainda que sob o olhar da desconfiança, a permanência é boa. A permanência dá segurança. A permanência nos dá chão seguro. Ficamos mais permanentes na medida em que a vida passa. Ousamos menos e nos confortamos com o previsível. A dúvida, alimento da alma juvenil, passa a ser vista como uma possibilidade remota, secundária. A certeza construída e trazida dobrada na carteira é que é o parâmetro. Andar pelo caminho de sempre, olhando as árvores conhecidas e o desenho de seus galhos, traz paz. Anestesiar-se das coisas, vez por outra, é bom.

Quando valorizamos mais a permanência, vivemos surtos nostálgicos. A nostalgia é querer que a memória permaneça como realidade. É querer o que já foi, o que já se moveu. É olhar uma fotografia e desejar a permanência daquele cenário, daqueles personagens, daquele cheiro, daquele gosto. É querer, pelo túnel do tempo das reminiscências, retornar para aquele momento acalentado nas esquinas da nossa memória. É olhar a data no canto da foto e lamentar que aquele dia acabou, como as datas nos cantos das fotos.

Para ser sujeito hoje, nos exigem que desejemos a metamorfose ambulante. É charmoso caminhar, cantar e seguir a canção. Está na agenda coletiva. Mas preciso reconhecer que a permanência tem me ocupado o pensamento nesses últimos dias. Quero ficar mais comigo nas minhas certezas. Quero aquietar-me nos meus quintais conhecidos, vestindo aquela camiseta amolengada pelo tempo, que me abraça mais do que me veste. Quero aquele sapato velho, com toda poesia da música. Quero a casa sem forro e a luz amarela no teto de telha de amianto aparente, pois foi nessa tela que pintei as pinturas das minhas insônia e sonhos da cama de cima do beliche de tempos de criança. Quero a rede de punho, não de bits. Eu quero o bife da mãe.

Não, não brigue comigo, leitor. Não me chame de chato porque quero estacionar por uns tempos o carro da vida, ouvindo a trilha sonora que a embalou, deitado no banco das preocupações reclinado ao máximo. Não me critique porque não quero saber do novo, que me força a mudar e, ao mudar, deixar uma parte de mim para trás. Sinceramente, eu não quero me dar o trabalho de mudar agora. Eu passo. Sem culpa. A culpa vem quando a coisa acontece. Não quero a culpa do não acontecimento. Não ralhe comigo porque a naftalina no canto de minhas gavetas revive o cheiro do amor bom, da brincadeira entre irmãos que se foi, da inocência da amizade cúmplice que já vivi com amigos que, que coisa!, não permaneceram e se foram. Pessoas queridas de quem não tenho mais notícias. Estarão lembrando de mim?

Eu quero é a goiabeira da casa 20, a casa da minha infância. Eu quero o pé ralado do futebol no asfalto. Eu quero a minha permanência no tempo que ficou para trás e que, ao mesmo tempo, veio comigo. É dessa permanência de que falo. Da permanência das coisas. Da permanência do mundo. Não lá fora. Mas aqui dentro de mim. Quero repousar nas minhas lembranças.

Eu não quero inundar o mundo com o excesso de falas novas para preencher o vazio aqui de dentro. O grito exagerado revela o silêncio ensurdecedor da psiquê sem controle. Fala-se para Não se ouvir. O vazio aqui dentro eu quero preencher, sim, mas com o transbordamento de mim mesmo. Quero transbordar para dentro e não para fora. Transbordar para fora é uma forma de exorcismo. Transbordar para dentro é uma forma de oração. Por falar nisso, quero o Deus da missa das crianças de domingo de manhã.

Hoje um homem de mármore mora no 603. Mas ainda visita a casa 20 do moleque danado. Porque Páscoa, afinal, é passagem, não é? Pensei em voz alta… Desculpe, leitor, viajei parado. Enfim… tenha uma Boa Páscoa. Na mudança ou na permanência. No 603 ou na casa 20. Ou onde quer que sua (in)quietude esteja. Esse texto é uma metáfora.