vida

Banzeiro

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“O tempo por vezes requer uma viagem ao interior de si. Parar sem pressa e pôr os pés em nascentes dos rios da alma que sequer imaginávamos que existissem. Olhar para cima e ver os filetes de sol da reflexão rasgando a copa dos problemas que cobrem nossa flora, nossas flores. Caminhar descalços dos conceitos e regras da cidade externa ao corpo e à alma, despidos do mundo que insiste em regrar nossos comportamentos: pôr regras naquilo que queremos solto. Mergulhar nos rios de contemplação, no silêncio quebrado pela paz da música dos uirapurus. Deixar a correnteza levar os despojos das sujeiras que grudaram em nós por causa de nossa caminhada no dia-a-dia. Fazer renascer o nosso sol depois de noites intermináveis; fazer brilhar nossas estrelas, esmaecidas pelas nuvens escuras que insistiram em pairar sobre nossas cabeças. Retonar à cidade da realidade ouvindo o tuque-tuque melódico do motor, deitado na rede da meditação, com o vento a lamber-nos o rosto e o banzeiro a ninar o barco no leito do rio. Fazer do inferno astral o verão boreal, a antítese, o contrário, o avesso da alma da ida. A linguagem é o silêncio. Só nos ouvimos no silêncio de dentro de nós. Por isso a rede. Por isso a viagem. Por isso o retorno ao silêncio, o estado mais puro da linguagem”. SF

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Exílio

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Sempre fui um cara tímido. A timidez me fez ser professor. A timidez me fez palestrante. A timidez me fez escrever. Na sala de aula, num auditório lotado de uma feira literária nacional ou com os dedos no teclado escrevendo, eu exercito a minha subjetividade mais atrevida, a que vai lá e resolve, a que é assertiva e diz o que pensa, a que provoca reações e questionamentos, a que fustiga, a que flerta com sentidos. Mas ainda hoje sou incapaz de puxar uma conversa ao vivo com alguém ou ligar e falar com a moça do delivery. Na única vez em que fui ousado em coisas do coração, eu encontrei a minha companheira de vida. Mas eu estava fora de mim com o fim de um casamento em que fui descartado. Concluí que o desequilíbrio eventual é bom, daí. Porque reequilibra o universo.

Pregos na bunda

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Quando eu era criança,  sentei em uma tábua cheia de pregos. Minha bunda ficou toda furada. Com medo de mostrar para a minha mãe e levar uma bronca, coisa que quase todo dia acontecia comigo, fui tratado pelo meu irmão mais velho, que providenciou band-aids,  um para cada buraquinho. Fui descoberto na hora do banho. Minha mãe viu aquele monte de band-aids e eu tive que me explicar. Ganhei o maior esporro, talvez por eu ser estoporado e não ter prestado atenção na tábua com pregos, se mal lembro.

O motivo não importa. O que importa é que eu podia ter tido tétano ou coisa parecida. A preocupação de dona Helena era legítima. Uma preocupação saudável de mãe. Qual leoa não cuida dos seus filhotes? E quem tem filho feio é a coruja. A tábua de pregos enferrujados enfiados na bunda era, de fato, um motivo de real preocupação.

Dona Helena, no entanto, sempre nos deixou jogar bola na rua, voltar suados, com cordões de cerôto no pescoço. Via seus filhos bebendo água na boca da torneira para se refrescar do futebol, tomar banho de camburão, abraçar o cachorro, rolando com ele na areia. Minha mãe, sem ter conhecimento técnico-científico, compreendeu que era preciso nos expor para que criássemos defesas. E como nós nos expusemos…

Lembrei-me disso ao ler, postada no Facebook, uma matéria sobre uma pesquisa que concluía exatamente isso que a maioria das mães já sabe: expor as crianças ao dia-a-dia ajuda o corpo a criar anticorpos. É um princípio biológico básico que vale para a vida em geral.

Ninguém cria os anticorpos para as dores do amor se não se expõe a ele. Não dá para amar na teoria. Amar envolve se jogar na areia movediça dos sentimentos, com todos os bichinhos que nessa terra fazem morada. Para aproveitar o amor na plenitude é preciso tomar água direto na torneira para se refrescar dos momentos de sufoco. Amar envolve suar, inclui abraçar uns cachorros aí. Não ama quem apenas olha da janela a galera amando. Tem de meter o pé na lama. Ou na jaca.

Não há quem crie os anticorpos contra a maledicência,  derrubação e  falsidade que há em qualquer ambiente de trabalho sem que se exponha ao trabalho. É um pacote. Tem o lado bom e o lado ruim, que coça, dá urticária, deixa doente, com dores de cabeças. A gente vai aprendendo a reconhecer aquela pessoa que é toda-sorrisos e por de trás fala horrores de você. A intuição, com anticorpos, vai delatando aquele colega que sente inveja do espaço que você vai ocupando por sua competência. Vamos criando anticorpos para se proteger dessa gente ruim, criando um campo de força contra a turminha do mal.

O que quero defender neste texto é a necessidade de lidar com o mal, criada pelo design inteligente da vida para provocar o bem. Ninguém quer adoecer, lógico, mas não ter o mínimo de defesa se a doença chegar porque se viveu privado da chance de criar os anticorpos é antinatural. É o princípio das vacinas: expor o corpo a um pouco do vírus ajuda a defender o corpo daquele mesmo vírus.

Eu realmente fico assustado com exageros. Obrigar as pessoas a lavar a mão com álcool antes de chegar perto de um bebê ou não sair com a criança para tomar sol porque o ar pode conter micróbios oportunistas, por exemplo, mais do que proteção da criança demonstra uma insegurança patológica quanto à capacidade de cuidar.  É uma proteção para a insegurança dos pais mais do que um cuidado com a a saúde dos filhos. Em uma atitude egoista inconsciente, acaba-se fazendo um mal tremendo à criança, pois não lhe permite erguer suas barreiras necessárias. Os pais também estão sujeitos à mesma regra: precisam se expor a deixar os filhos viver para criar os seus próprios anticorpos da paternidade. Uma febre é uma aliada e não uma inimiga. São os anticorpos avisando que precisam de ajuda. Perdigotos podem, paradoxalmente, gerar saúde mais forte. Muita limpeza externa pode indicar transbordamendo de uma sujeira interna que precisa de atenção. Ah, o velho Freud.

De vez em quanto me pergunto se não estou superprotegendo minhas filhas a ponto de não lhes permitir viver para aprender. Marina, quatro aninhos, acaba de vir aqui para me mostrar que cortou o dedo na folha do livro de artes. Completou: “Papel corta, pai. A gente tem de ter cuidado quando vai pegar”. Claro que eu preferia que ela não tivesse se cortado. No entanto, não permitir que ela fizesse sua tarefinha no livro por causa da possibilidade de vir a se cortar não me parece uma medida de prevenção razoável e sadia.

Eu vim para o meu terceiro e derradeiro casamento cheio de anticorpos em relação às relação a dois. Aprendi que amor é equilíbrio. Lá e cá. É respeito e admiração. Está no meu conjunto de anticorpos do matrimônio que o amor acaba quando a gente permite que o vírus da indiferença destrua as células da admiração que temos por nossos parceiros. Enquanto cedermos a última almôndega do prato para o outro com prazer, a relação segue firme. Três casamentos foram a minha Tríplice.

A vida é linda, bela. Queremos e merecemos felicidade e paz. Sonhamos e batalhamos para o melhor do mundo para nós e para os nossos. Na hora de dormir, viva o banho quente e o ar-condicionado! Mas viver envolve mais. Envolve correr e suar. Inclui criar cerôto no pescoço, fazer chapinha descalço na lama,  tomar banho de chuva na calha. E, claro, sentar a bunda numa tábua com pregos enferrujados às vezes.

Efemeridade

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A vida é efêmera. É preciso não esquecer disso ao abrir os olhos a cada manhã. Lembrar da possibilidade real de que podemos não estar aqui no minuto seguinte ou de que podemos não ter mais alguém para sempre ao dobrar de uma esquina faz com que as ações do dia mudem. Perder um tempo bom com aquela pessoa passa a ser desperdício irrecuperável, uma chance para sempre perdida de um olá, de um abraço, de um beijo. Não esquecer disso ajuda a evitar arrependimentos inconsertáveis. Sim, “é preciso amar como se não houvesse amanhã”.

Raízes e asas

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Inspirado por Fernando Pessoa.

Hoje a criança que há em mim escapou. Bobeei e ela fugiu. Minha maturidade cansada olhou e disse: “Deixa! Ela volta”. Eu deixei. Ela já saiu dando uma cambalhota no chão de terra molhado pela chuva, na qual dançou feito Fred Astaire. Pés descalços, chutando uma bola de meia, driblou senhores sisudos que vinham no contrafluxo de sua brincadeira e que, claro, reprovaram a afronta. Tomou nas mãos a bicicleta e disparou, permitindo-se um vento no rosto ladeira abaixo da rua, cabelos desgrenhados, mãos soltas do guidão, numa ousadia de que nem sequer me lembrava mais. Era acompanhado por Laika, uma vira-lata preta e dourada, que lembrava a Lassie. Ela latia como se batesse palmas para  seu dono. A criança não tinha um relógio.  O tempo era o que ela fazia. Minutos podiam ser horas, horas minutos. Uma total anarquia do tempo, como só as crianças sabem fazer.

Mastigava com prazer um chiclete de bola, daqueles de bolinhas coloridas. De cor vermelha. Num vacilo, engoliu o chiclete. Lembrou que ele poderia ficar no estômago para sempre, como haviam lhe dito. Aliás, haviam lhe dito tantas coisas que sua cabecinha inocente chegava a ferver. Logo se esqueceu disso e correu na areia que margeava o igarapé, se imaginando um gigante deixando pegadas no chão para amedrontar os pequeninos. Viu uma fila de formigas e com o dedo interrompeu-lhe a marcha. Adorava embaralhar o certo e formigas ficam perdidas quando um dedo é passado na linha imaginária de seu trajeto invisível. Mergulhou na água fria que fluía infinita, como infinita era sua vontade de ser feliz. Tirou do fundo do igarapé uma garrafa de guaraná, já gelada pela água, entornou num saquinho e bebeu com um canudinho. Largou o saquinho na mesa do caramanchão para correr atrás de um panapaná de borboletas pequenas e brancas que lhe convidara a correr pela areia do banho. Brincou alegre de manja-pira com as ziguezagueantes borboletas até ser enredado por outra brincadeira e se foi.

Voltando para casa, meu menino pegou um lápis e pediu de quem lhe estava próximo uma folha de papel. Nela, com um círculo fez um sol, cheio de raios. Pôs-lhe na boca um sorriso como o seu e desenhou uma árvore, junto a uma casa com chaminé, chaminé, aliás, que jamais vira, mas que tinha de fazer parte das casas desenhadas. Pontuou o céu com nuvens e pássaros.  Fez sete pessoas, em rabiscos. Os dois maiores, dizia, eram o pai e a mãe. A diferença era os rabiscos dos cabelos da mãe, em triângulo. Os cinco menores, em tamanho decrescente, eram os filhos: ele e seus irmãos. Ao explicar o desenho, o que toda criança faz com prazer, mostrou-se o menor de todos, apesar de ser o segundo na cronologia. Pois assim ele se via: sua família toda vinha na frente. Sua menorzeza não era por se achar menos, mas porque era mais generoso. Generosidade que vai se corroendo ao rolar pelas ruas de asfalto da vida, ganhando limo, perdendo rumo. Desenhou ainda um arco-íris, que pintou com sua caixa de lápis-de-cor com 48 cores, um de seus maiores tesouros. Ele pintava a vida como ninguém.

Com fome, tomou o copo de Ki-Suco de groselha nas mãos, um pacote de bolacha Maria e foi brincar na rua. Dividiu com os amigos goles do Ki-Suco e distribuiu, tal qual Jesus, as bolachas multiplicadas para o sem-número de crianças que também fugiram de seus adultos descuidados. Depois do cangapé e das bolinhas de gude – que ponteira linda aquela azul! –, uma pista de asfalto fez-se o Maracanã. As traves, duas sandálias. Par-ou-ímpar, você aqui e você pra lá. Partidas infinitas, uma atrás da outra. Pausas somente para enfiar a boca na torneira da casa sem muro para aliviar a sede de água. A única sede que lhe habitava. As demais eram sempre saciadas. Era um tempo de exploração. Era um tempo de conhecimento. Era um tempo de formação. Eu me perguntara, olhando o meu menino, onde estaria morando aquela vontade de tudo. Na sua casa hoje, com grade e portão de ferro, mora uma vontade de nada, um velho cansado, ranzinza, como aquele que furou a bola-balão colorida, chutada por ele,  que caiu em sua casa, terminando o campeonato. Dali, dia escurecendo, levava de volta o abraço suado dos parceiros, um pescoço com duas voltas de ceroto como medalha, um dedo esfolado na sarjeta, um segredo de um amigo e uma alegria de menino, daquelas que só dá em curumim, feito virose.

Tomou banho a muito custo a minha criança. Seus arranhões do dia arderam, mas ela nem reclamou. Era assim todo dia. No corpo as marcas da vida, da felicidade. Quando a gente se adultiza, chegamos em casa com arranhões também, mas na alma.

Depois do banho, do talco perfumado no corpo, cabelos penteados partidos no lado e Alfazema a lhe exalar o cheiro pela casa, arrumou seu álbum de figurinhas da copa. Olhos pesados de um sono iminente, veio a minha criança se aninhar em meus braços na rede que balançava na casa sem forro, de luz amarela. Cantei para ela Alecrim Dourado e Pica-pau Atrevido. Seu corpinho incessante se entregou ao sono no balanço da rede. Um sonho bom lhe passava à mente, decerto, porque sorria. Era o sorriso de seu tempo. Sorriso inocente, feliz. Sorriso da descoberta, das eurecas. Sorriso do tempo infinito, sorriso das travessuras desmedidas. Sorriso de criança.

Tempo em que o tempo era um tempo diferente. Meus olhos de adultos veem um tempo redefinido. O ontem virou anteontem. O hoje virou o agora. O anteontem, século passado. A urgência não permite à minha criança tardes inteiras sentadas à beira do barranco olhando os carros que passam lá embaixo, como se fossem as formigas da imaginação. Hoje os carros não passam. Quedam inertes em histéricos engarrafamentos. Não cabe mais deitar no chão frio do corodum da casa, jogar sabão e voar num deslize libertador. Crescer enrijece a vida, leve, solta, sem limites quando na infância.

Dormindo, minha criança me sorri. De repente, abre os olhinhos, bêbados de sono, estende um largo sorriso e – como que adivinhando o que penso –  me diz, quase sussurrando: “Não esqueça de mim… E não esqueça de você… ” Cerrou os olhos e voltou a dormir dentro de mim. A maturidade, protocolar e racional, com um maneio de cabeça falou em silêncio: “eu te disse…”. Alguém passou o dedo na minha trajetória de criança…

Peregrinações: a lei, a forma, o acontecimento

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I’m looking for the face I had before the world was made.
Yeats

Esse é um texto pessoal, escrito mais para mim do que para os outros. Leia se quiser.

Um dos livros que mais me influenciou dentre os muitos que li é Peregrinações, de Jean-François Lyotard. Volta e meia o pego na estante e o começo a ler de novo. O que me fascina no livro é sua discussão sobre sua trajetória de vida, considerando a lei, a forma e o acontecimento. Fiquei pensando na minha trajetória sob as perpectivas de Lyotard.

A lei sempre me foi cara. Não falo aqui da lei jurídica apenas, mas incluo no sentido o juridismo, a lei não escrita. Sempre fui um cara muito “certinho”, para usar um termo mais corriqueiro. Um bom filho, um bom aluno, um bom irmão, um bom amigo, um bom professor, um bom pai. O adjetivo bom me persegue. Não pense você que isso é um autoelogio. Reconheço sem falsa modéstias algumas qualidades que tenho, mas sei também dos limites e defeitos que me habitam. É que desses poucos sabem, dando a impressão de que o bom domina. Mas ser adjetivado nunca é bom, nem mesmo quando o adjetivo é bom. Quem mata um leão por dia sofre muito quando deixa escapar uma tartaruga num instante relapso.

Sinto falta de não ter sido mais fora-da-lei. Nunca sumi sem deixar notícias, nunca tomei um porre, nunca namorei sem ser a sério – a não ser numa fase bem galinha em que curti as ficações por ordem médica para recompor a autoestima depois de ter um casamento arrancado de mim por uma escolha fora-da-lei da outra parte. Aliás, tendo em vista o peso da lei, você que me lê deve imaginar o quanto sofri com isso. Grosso modo, nunca fui irresponsável. Sim, estou me ressentindo de não ter sido porra-louca. A lei sempre me foi cara. Eu sempre lhe fui subserviente.

A forma. A forma sempre foi subjugada à lei na minha trajetória. O estético sempre se definiu pelo que a conjuntura determinava. Apesar de ser um admirador explícito das rupturas, quase nunca me permiti ser seu sujeito. Sou um conservador. Não costumo me permitir experiências que não me são conhecidas. Não gosto de provar pratos novos, prefiro lugares e gente que já conheço. Morro de medo quando a lei me impõe novas formas. Mas como de costume, sempre obedeço. Apesar de ser curioso, a boa forma para mim é aquela que não apavora a mente.

Viver na lei e dentro de formas controláveis é, no entanto, impossível. Porque a vida tem o acontecimento. O acontecimento, um rebelde, não se permite controlar. Chega sem pedir licença, muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar. Foi o acontecimento que me levou a casar três vezes. Foi o acontecimento que encerrou meu primeiro casamento por um excesso de religião que ironicamente desligou o diálogo do casal. Foi o acontecimento caprichoso que me levou a conhecer minha mulher atual. Foi o acontecimento que me trouxe inesperadamente a minha filha caçula. Foi o acontecimento que me fez decidir fazer um concurso para professor da universidade no último dia de inscrição, no último minuto. O acontecimento é a falha na matrix. O acontecimento é o outro da lei, desafiando-a com novas formas, com novas trilhas, com novos sentidos.

Lei, forma, acontecimento. O que tenho percebido é que com o tempo, com a idade, tenho me flexibilizado quanto às três coisas. Isso tem seus motivos.

Ando muito triste com algumas escolhas que a lei me impôs. Estudei muito. Muito mesmo. Sempre gostei de estudar. Fiz mestrado. Fiz um doutorado na melhor universidade do país na minha área com a orientadora mais fodona na minha área. Tirei A em todas as disciplinas do curso. Estudar foi um acerto. Mas a forma foi errada. Fui ser professor universitário. Confesso que cada vez mais só gosto disso pela metade. Gosto da parte do trabalho, das aulas, das pesquisas, de escrever livros e artigos. Mas odeio o meu salário, me sinto humilhado ganhando o que ganho depois de estar no topo da titulação e no quase no topo da carreira , com vinte anos de universidade. Isso tem me deixado desgostoso, sem tesão acadêmico. Qualquer início de carreira de nível médio na Receita Federal ganha mais do que eu, com tudo isso. A lei não me foi mãe, me levando à forma equivocada, com grande parcela de (ir)responsabilidade minha, decerto.

Você que me lê pode estar dizendo: “Não está satisfeito? Muda!” E eu vou ser bem sincero: não dá. A essa altura do campeonato, a forma já fincou estacas. Passei batido. Tenho virado noites pensando em alternativas de dar uma boa qualidade de vida para a minha família sem me deixar abater pelos números do meu contracheque. O problema de ser aparentemente bom e forte o tempo todo faz as pessoas se desacostumarem de que a gente também fraqueja. Meus fraquejos são solitários. Não é por falta de ombros, não. Mas por escolha de não levar coisas ruins para os que eu gosto. Mas eu choro, fico acordando olhando o horizonte pela janela da cozinha, dirijo me perguntado por que a lei me trouxe essa forma. Tenho olhado a minha estante, cheia de livros, e me perguntado reiteradas vezes, com certa angústia ressentida: para que tudo isso?

A decepção com a lei e com a forma tem me levado a ser mais condescendente com o acontecimento. Estou menos exigente comigo mesmo e com os outros. Às vezes até displicente. Ando me permitindo fazer coisas pelas quais o eu de dez anos atrás me condenaria ao fogo eterno. Tenho apreciado novas formas, novos gostos, novas estéticas. Numa apropriação do Zeca Pagodinho com licença poética, eu diria que estou deixando o acontecimento me levar. Isso é bom. Isso é ruim. Quando a alma se acomoda, ela se apequena. É inevitável lembrar Pessoa. As coisas parecem não valer a pena às vezes. Ecos da boca torta da lei.

A lei vem e nos sugere as formas. O acontecimento vem e embaralha tudo. A ordem e a desordem. É ilusão acreditar que podemos programar a vida. A desordem é desejável para a própria existência e valorização da ordem. O que não está e não é também faz parte. A pausa do silêncio é que faz a música. A ruptura, filha do acontecimento, deve ser recebida com tapete vermelho, sem culpas ou remorsos por alterar formas conhecidas. Sem espaço para o acontecimento, represamos nossas vontades na lei. Presos à lei, as formas enferrujam. Formas estanques levam a almas mofadas. Tudo é episódico. Como sabê-lo sem vivê-lo? A lei é inimiga da ousadia, do deslimite e da felicidade. Lyotard diz:

“Declaramo-nos filósofos ou escritores, devemo-nos confessar impostores. Não existe pensar verdadeiro que o sentido de sua indignidade não escolte. A única maneira de sair desse atoleiro, pelo menos em parte, é exibir o inelutável. (…) De modo que o que ameaça o trabalho de pensar (ou de escrever) não é ele permanecer episódico, é ele fingir-se completo”.

Vou vivendo uma incompletude a cada dia, procurando o rosto que eu tinha antes do mundo ser criado, como disse Yeats no começo deste texto. A lei não me deixa arriscar muito as formas novas por conta de três pessoas que dormem aqui ao meu lado nesse instante. Mas boto minha fé no acontecimento. Que ele seja breve na chegada e longo no tempo de estadia. Certamente o acolherei com olhos menos casmurros, mesmo que aos olhos da lei ele se apresente criminoso, se me entendem a metáfora.

Lei, Forma, Acontecimento. Acabei de ler o livro pela enésima vez. Como você peregrina na vida, caro leitor? Vai, me ajuda a pensar aí. Estou à deriva, achando que quase tudo não vale a pena. A alma anda pequena.

Tão forte, tão perto

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“Em cada despedida existe a imagem da morte”.
George Eliot

Há verbos bons e verbos maus. Perder é um verbo mau. Perder sempre envolve lacuna, falta, desencontro. Perder uma pessoa torna o verbo mais malvado ainda.

A morte de alguém que amamos é devastadora. Um vazio psíquico de repente irrompe no mecanismo acomodado da vida. É como se nos fosse arrancada uma engrenagem na máquina da existência. A mente entra em desalinho e o mundo é instado a parar. Quer-se que o mundo estanque para que a sangria psíquica também estanque. Não se deseja levar a vida adiante para que não se lembre da perda do ser amado e para que não se sofra sua ausência. Esse desajuste, esse descarrilamento se chama luto.

Estudado por muitos, o luto é o período de reelaboração da realidade sem uma peça que até então era fundamental na convivência. É, portanto, um mecanismo necessário para o reequilíbrio psíquico. Acontece que o trabalho de curtir o luto, no sentido de gastar, como se curte o couro, é diferente de pessoa para pessoa. O normal – e é estranho falar em normal nesse assunto – é a pessoa passar pelo que Freud chamou de “teste de realidade”. Permitindo-se o contato com o mundo real, o enlutado descobre e redescobre que a pessoa amada não existe mais e a dor lancinante vira memória, saudade, lembrança, carinho. A máquina psíquica, de forma autopoiética, se recompõe e a vida segue. Alguns, no entanto, não se permitem voltar à realidade necessária à elaboração do luto.

Certas características do indivíduo podem fazer com que o processo de luto não se desenvolva e se torne patológico. Freud chamou o luto cristalizado de melancolia. Para Freud, no luto, há uma perda consciente. Na melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Diz ele: “A melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”. Dizendo de outro jeito: quando se perde alguém e se compreende a perda como parte do processo da vida, o luto é normal, com sua dor e tudo o mais, porque passa. Quando se perde alguém e nesse alguém se depositava um valor simbólico inconsciente, o próprio inconsciente não deixa a vida seguir em busca do fechamento de sentidos.

Ainda Freud: “Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo, a perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão de recriminação e autoenvelhimento, culminando numa expectativa delirante de punição”. O sujeito se pune porque quem amava se foi sem ser simbolizado.

Ok, talvez você não curta muito esse papo psicanalítico. Mas ele serve para eu tentar argumentar o assunto desse texto: a perda.

Tentando traduzir um pouco o jargão da psicanálise, depois de uma perda é preciso se permitir viver a vida para poder pô-la nos eixos. É necessário saber que também há perdas sem razões, por mais que isso nos desafie a mente cartesiana. Buscar uma explicação para a perda quando a explicação não existe é ficar eternamente dependente de uma resposta que nunca virá para que se possa ir adiante. O efeito colateral de se deixar enredar pela teia da melancolia é não perceber que outras coisas e pessoas precisam também de sua atenção para que a máquina psíquica não pare literalmente.

Isso vale tanto para pessoas quanto para fatos na vida. Há fatos que se perdem e que reclamam luto. Há amores que se vão e que precisam de alforria para se e lhe libertar. Há pessoas que terminam um relacionamento e não elaboram o luto porque inconscientemente acreditam que perderam a capacidade de amar e ser feliz junto com a pessoa que se foi. A melancolia bate palmas para esse sentido e ancora a pessoa na tristeza eterna. Se, por outro lado, se vence o luto da ruptura, o mecanismo psíquico se ajusta e aquela pessoa que se foi passa a ser memória, saudade, lembrança. E uma outra passa a simbolizar a felicidade e o amor.

Há sempre a possibilidade de se elaborar e reelaborar. Há sempre a necessidade de simbolizar. O Real, inacessível ao sujeito, é mediado pelo imaginário, que é o conjunto de imagens inconscientes que fazemos do mundo por meio da linguagem, simbólica por natureza. A língua, daí o meu interesse por toda essa conversa, nos separa da natureza ao nos forçar a dar sentidos a tudo. Que imagens fazemos das coisas que perdemos? Melhor perguntando: o que perdemos junto com aquilo ou aquele que perdemos? Até que ponto o que perdemos não é ressimbolizável? Luto ou melancolia? De dentro do luto, a estrada a tomar passa por gastar a dor e seguir adiante. E  antes que alguém diga, falar de fora do luto é mais fácil, reconheço.

Discursivamente falando, pessoas são conceitos ou um conjunto de conceitos. Nós as lemos, nos as consultamos, nos as admiramos, elas nos sustentam. Daí a perda dolorosa quando algum desses nossos alicerces conceituais desaparece. Os sentidos nos faltam. Mas a falta não é de todo ruim. Os sentidos sempre nos faltarão porque a falta é constitutiva da subjetividade. Aprender a conviver com a falta é meio caminho para evitar a melancolia.

Se você tiver a chance, assista a “Tão Forte, Tão Perto” (“Extremely Loud and Incredibly Close”). Foi esse filme que me inspirou essa conversa. É um filme sobre perdas, sobre luto, sobre melancolia, sobre culpa por não compreender, sobre a busca insana de uma chave que abra a porta da explicação inexistente, sobre cegueira afetiva, sobre a vida, enfim. Porque tudo isso está tão perto de cada um de nós. E chega de forma tão forte. Porque perdemos. Quando se aprende a perder, começa-se a ganhar. Ganhar é um verbo bom.