vida

A goiabeira da casa 20

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Páscoa é passagem. É passar, mudar. Muitos são os que nos lembram da necessidade de mudar nesses tempos. O ponto sustentado é o de que ninguém está imóvel no mundo, como uma estátua de mármore. A metáfora do mundo contemporâneo é a de Heráclito de Éfeso, do homem que se banha no rio sempre de forma diferente, pois não é mais o mesmo homem e não se tem mais o mesmo rio no segundo banho. Vivemos na urgência do movimento.  Sujeitos que se fragmentam e se adequam à velocidade dos tempos líquidos. Homo liquidus.

Mas mesmo tendo a mudança como regra atual, há em nós o que teima em se perpetuar. Cada um de nós guarda em si traços imutáveis e resistentes em relação às demandas por mudanças que o mundo nos traz. Se muita coisa muda, tantas outras se querem permanentes. Estão bem, obrigado, guardadas em nossa pasta de certezas.

Ainda que sob o olhar da desconfiança, a permanência é boa. A permanência dá segurança. A permanência nos dá chão seguro. Ficamos mais permanentes na medida em que a vida passa. Ousamos menos e nos confortamos com o previsível. A dúvida, alimento da alma juvenil, passa a ser vista como uma possibilidade remota, secundária. A certeza construída e trazida dobrada na carteira é que é o parâmetro. Andar pelo caminho de sempre, olhando as árvores conhecidas e o desenho de seus galhos, traz paz. Anestesiar-se das coisas, vez por outra, é bom.

Quando valorizamos mais a permanência, vivemos surtos nostálgicos. A nostalgia é querer que a memória permaneça como realidade. É querer o que já foi, o que já se moveu. É olhar uma fotografia e desejar a permanência daquele cenário, daqueles personagens, daquele cheiro, daquele gosto. É querer, pelo túnel do tempo das reminiscências, retornar para aquele momento acalentado nas esquinas da nossa memória. É olhar a data no canto da foto e lamentar que aquele dia acabou, como as datas nos cantos das fotos.

Para ser sujeito hoje, nos exigem que desejemos a metamorfose ambulante. É charmoso caminhar, cantar e seguir a canção. Está na agenda coletiva. Mas preciso reconhecer que a permanência tem me ocupado o pensamento nesses últimos dias. Quero ficar mais comigo nas minhas certezas. Quero aquietar-me nos meus quintais conhecidos, vestindo aquela camiseta amolengada pelo tempo, que me abraça mais do que me veste. Quero aquele sapato velho, com toda poesia da música. Quero a casa sem forro e a luz amarela no teto de telha de amianto aparente, pois foi nessa tela que pintei as pinturas das minhas insônia e sonhos da cama de cima do beliche de tempos de criança. Quero a rede de punho, não de bits. Eu quero o bife da mãe.

Não, não brigue comigo, leitor. Não me chame de chato porque quero estacionar por uns tempos o carro da vida, ouvindo a trilha sonora que a embalou, deitado no banco das preocupações reclinado ao máximo. Não me critique porque não quero saber do novo, que me força a mudar e, ao mudar, deixar uma parte de mim para trás. Sinceramente, eu não quero me dar o trabalho de mudar agora. Eu passo. Sem culpa. A culpa vem quando a coisa acontece. Não quero a culpa do não acontecimento. Não ralhe comigo porque a naftalina no canto de minhas gavetas revive o cheiro do amor bom, da brincadeira entre irmãos que se foi, da inocência da amizade cúmplice que já vivi com amigos que, que coisa!, não permaneceram e se foram. Pessoas queridas de quem não tenho mais notícias. Estarão lembrando de mim?

Eu quero é a goiabeira da casa 20, a casa da minha infância. Eu quero o pé ralado do futebol no asfalto. Eu quero a minha permanência no tempo que ficou para trás e que, ao mesmo tempo, veio comigo. É dessa permanência de que falo. Da permanência das coisas. Da permanência do mundo. Não lá fora. Mas aqui dentro de mim. Quero repousar nas minhas lembranças.

Eu não quero inundar o mundo com o excesso de falas novas para preencher o vazio aqui de dentro. O grito exagerado revela o silêncio ensurdecedor da psiquê sem controle. Fala-se para Não se ouvir. O vazio aqui dentro eu quero preencher, sim, mas com o transbordamento de mim mesmo. Quero transbordar para dentro e não para fora. Transbordar para fora é uma forma de exorcismo. Transbordar para dentro é uma forma de oração. Por falar nisso, quero o Deus da missa das crianças de domingo de manhã.

Hoje um homem de mármore mora no 603. Mas ainda visita a casa 20 do moleque danado. Porque Páscoa, afinal, é passagem, não é? Pensei em voz alta… Desculpe, leitor, viajei parado. Enfim… tenha uma Boa Páscoa. Na mudança ou na permanência. No 603 ou na casa 20. Ou onde quer que sua (in)quietude esteja. Esse texto é uma metáfora.

Faz escuro, mas escrevo…

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Escrevo eete texto motivado por uma pergunta feita por quem tenho grande admiração. A pessoa queria saber sobre a razão de eu escrever crônicas e artigos. Indagava meu interlocutor se eu acreditava mesmo que com palavras mudaria algo e se com algumas opiniões incômodas não estaria me expondo. Parei, pensei, reguei e cheguei a algumas respostas, brotadas do jardim de minhas inquietações.

Primeiro, escrevo porque gosto. Ninguém deve fazer o que não gosta.  É minha filosofia desde que optei por me separar de minha primeira esposa, de quem gostei muito antes de decidir que não gostava mais da nossa vida a dois e de que não gostava mais de ser infeliz. Gostar do que se faz é essencial. Portanto, enquanto houver prazer, eu escrevo.

Segundo, escrevo porque adoro pôr o real em palavras, imprimi-lo no papel, como uma fotografia. Quem é fotógrafo sabe o prazer de dar um ângulo só seu a um objeto do dia-a-dia. Gosto de falar das coisas da vida. Assim, enquanto houver vida, eu escrevo.

Terceiro, escrevo para rir. O senso de humor é umas mais belas virtudes do ser humano. O incapaz de rir de si próprio tem uma carência fundamental, que amarga não só a si, mas a todos que o cercam. Observe, leitor. Escrevemos o que somos, nos ensina Edgar Allan Poe. Escrevo para rir porque sou feliz. Logo, enquanto houver riso, eu escrevo.

Quarto, escrevo para falar sobre amor, política e educação, assuntos relevantes à vida, que me faz rir e também me indigna.  Diferentes atitudes correspondem a diferentes sonhos políticos. O meu sonho é uma sociedade menos injusta. Vejo injustiça em opções que beneficiam poucos em detrimento da maioria. Vejo injustiça na força que tenta física ou moralmente calar os mais fracos. E antes que alguém me acuse de ser um romântico idealista, eu digo: sou um romântico idealista. Não podemos perder a esperança injustificável por um mundo melhor. Mas esperança não se espera, se ganha no grito. Dessa forma, enquanto houver indignação, eu escrevo.

Sim, eu acho que posso mudar o mundo. Triste quem se acha indiferente ao prazer, à vida, ao riso e à indignação. Pode ser uma mudança de nada, mas é. Bem-aventurados os que brindam à vida, com prazer e humor, e em nome da existência dessa vida se indignam com o individualismo de uma choldra que há de ter seus atos e omissões julgados, aqui ou além.

É por isso escrevo: prazer, vida, riso e indignação. Isso move e muda a vida e o mundo. Há quem opte pelo desgosto, pela perda, pela tristeza e pela resignação. Não eu.

Quanto a se expor, não se expor é igualmente se expor. Dá na mesma.  Há sempre alguém a dizer que pegou pesado e outro a dizer que pegou leve. Quem goste e quem deteste. Estou com Guimarães Rosa: “pãos ou pães é questão de opiniães”. Palavras são como filhos: ninguém as domina quando ganham o mundo. Além do mais, gosto de uma boa briga de argumentos. Sei reconhecer quando sou convencido, mas eu adoro mesmo é convencer. Por isso, eu escrevo também.

Thiago de Mello publicou um livro em tempos bicudos: “Faz escuro, mas eu canto”. Parafraseio Thiago: “Faz escuro, mas eu escrevo”. Com prazer, com vida, com humor e com indignação. Ponto. Seguido.

Tamanho paideguão, pô!

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[13/06/2001]

Uma das características de todo e qualquer irmão é deixar a gente sempre em situações embaraçosas e complicadas. E essa é uma afirmação ampla que vai desde o complicado lúdico, quando armam situações que acabam sendo engraçadas, ao complicado trágico, como naquela história daqueles irmãos que moravam em Parintins e acabaram se estranhando, o Caim (Caprichoso) e o Abel (Garantido).

Meu irmão Paulo me deixou numa dessa hoje.  O Paulo, para quem não conhece, é um músico de grande sensibilidade, um professor adorado pelas suas alunas de pedagogia e encanador autorizado da Tigre, entre outras coisas. Sério! É tão único que já foi embora de Manaus de vez umas quatro vezes. Tem dois raptos em seu currículo (consentidos e com posterior devolução das moças aos pais, diga-se) e três filhas lindas, tendo passado, portanto, de consumidor a fornecedor.

Pois bem. O Paulo esteve aqui em casa semana passada. Veio de Itajubá, sul de Minas, onde ficaram a Zuleica e a Eliza, minha cunhada e minha sobrinha. Veio em Campinas para me visitar e comprar a passagem de volta para Manaus. Ou vice-versa. Dentre suas milhões de qualidades, meu mano Paulo tem um defeito: ele é viciado em alugar carros.

Mal chegou, começou a comichão. “Tens uma lista telefônica aí?” Já conhecia o tom da pergunta. “Tenho”, disse eu encenando minha parte, indiferente. “Acho que vou alugar um carro, o que tu achas?” Essa pergunta é a típica pergunta amenizadora de peso na consciência. É aquela pergunta que a gente faz para os outros quando estamos em processo de convencimento para comprar algo. Acontece que, para comprar coisas, o processo com o Paulo é mais rápido do que o saque do Guga no saibro. Ele já tinha decidido. Quando saiu de Manaus.

Ligou para Localiza, Unidas e outras. Indignou-se porque não achou a Hertz. Mas nessas grandes, a diária estava muito cara. Pensou por um minuto se deveria alugar mesmo. Amadurecimento esse que se deve à convivência com minha cunhada, que pensa por dois: dois minutos, antes de comprar. Decidiu então tentar as locadoras nanicas. E achou a Brasil Rent a Car, uma empresa quase familiar com uma gerente gordinha e bonachona, como todos os gordinhos, que além de muito simpática era muito boa de negócio. Fomos lá. E alugamos. Quer dizer, eu aluguei no meu cartão e o Paulo me deu em dinheiro mais tarde. Dinheiro que acabei gastando antes do dia de pagar, como sempre (essa história de ter dinheiro na carteira, encontro de contas, etc, sempre me deixa confuso…) Não saímos, no entanto, sem que o Paulo já agendasse um aluguel em Julho, quando voltará aqui com as outras filhas para um passeio pelo Hopi-Hari e Wet’n’ Wild. De carro alugado, claro.

Para encurtar a história, que já está ficando tão longa e estranha quanto a mal explicada história das mortes dos bebês na maternidade Balbina Mestrinho, em Manaus: o Paulo voltou para Itajubá na quinta, de Fiesta alugado e comichão devidamente saciada. Voltou a Campinas no sábado à noite e pegou o ônibus para Cumbica no domingo de manhãzinha. Ele deixou o carro aqui comigo para eu entregar na segunda-feira, às oito da manhã. Detalhe: com a minha mulher viajando e o Mateus, meu hóspede, ainda não iniciado na chata arte de dirigir, tive que levar o carro sozinho e voltar de ônibus. E aí eu retomo o que disse no começo: irmão põe a gente em cada uma…

Não sabia mais pegar ônibus. Gente, isso é muito sério. Podia voltar de táxi, tudo bem, mas pegar ônibus de repente se pôs para mim como um desafio. Se decidisse pelo táxi estaria desmoralizado, humilhado. “Tamanho paideguão!”, como diz meu pai, num esporro amazonense típico, significando “como é que um adulto, maior de idade, pode ser capaz de se comportar dessa maneira tão infantil e tão idiota?”

Com o Guia de Campinas nas mãos para consultar todos os itinerários, saí da locadora andando, coisa que também não fazia há milênios. Olhei para um lado, olhei para o outro, respirei fundo o cheiro do outono e tomei a direção da rua principal, por onde passavam os ônibus. Lembrei-me dos velhos tempos, quando estudava inglês no centro de Manaus e tinha que pegar o ônibus em frente ao Atlético Rio Negro Clube, na Praça da Saudade, cujo nome não poderia ser melhor para a circunstância. Disse a mim mesmo várias vezes: se uma criança pode, você pode. “Tamanho paideguão!”, a voz do meu pai me coagia e me estimulava.

Esperei por aproximadamente quarenta minutos, quando avistei o 4.08 – Shopping Iguatemi. Moro perto do Shopping Iguatemi. O Guia, muito bem disfarçado, claro, em uma pasta de papelão preta da Panasonic, tinha me salvado. O ônibus parou. Minha primeira dúvida: qual das três portas? Na minha época, o ônibus só tinha duas portas: uma para entrar e outra para sair. Mas esse tinha três. Olhei por alguns segundos e fui por eliminação, já que das duas outras portas  saíram um negão com um rádio no ombro cantando tchu-tchu-ca e uma velhinha paraense com uma batinha florida, segurando uma sacola amarela das Casas Pernambucanas, daquelas que têm um olho. Acho que ela era paraense por causa da sacola amarela das Pernambucanas. Todo paraense da gema, daqueles que comem maniçoba e tal, anda com uma sacola das Pernambucanas ou com uma máquina fotográfica.

Bati na porta e o motorista, parecido com o Tatoo da Ilha da Fantasia, abriu a porta sanfonada e olhou pra mim. Devia estar se divertindo com minha falta de jeito, com meu olhar nervoso de redescoberta, que examinava tudo rapidamente para apreender o ambiente. O mesmo olhar de espanto de quando se vê o mar pela primeira vez. Nesse rápido olhar, vi que a borboleta (ainda chamam de borboleta?) ficava imediatamente após a porta de entrada e que não havia cobrador, aquela figura que costumava ficar sentado, camisa a meio botão, palito na boca, recebendo o dinheiro de uns e deixando os “peixes” passarem por baixo, sem pagar.

Tatoo me olhou com um olhar pragmático, do tipo: “Sim, e aí?” Aí, a pergunta fatal: “Quanto é, moço?”, perguntei. Não. Na verdade sussurrei. Mas falei alto o suficiente para que um japa que dormia (e até babava) acordasse para olhar, olhos estranhamente arregalados para um japa, o extraterrestre que havia entrado na linha 4.08. “Um real”. Pergunta dois: “Pago pro senhor mesmo?” Tatoo divertiu-se com “o senhor”. Fez que sim com cabeça, dei um real para ele e rolei a borboleta, não antes sem deixar cair o Guia no chão do ônibus, chamando de vez a atenção e provocando o riso de três adolescentes, daquelas que riem de tudo, até de fratura exposta, naquele eterno qui-qui-qui-qui.

Sentei em um banco sem vizinhos e tentei passar por nativo. Fingi um sono, simulei uma baba. Com um olho entreaberto vi que, pelo menos, puxar a velha cordinha de varal esticada ainda era o sistema para avisar que você quer descer na próxima. Depois de uma meia hora de viagem por um caminho que eu não havia escolhido (quando quem guia são os outros, nós vamos aonde nos levam…), puxei a cordinha e desci. Desci errado, duas paradas antes da mais próxima do meu apartamento. Andei, de novo. No total, andei o que ando em seis meses e meio, segundo cálculos do DataSérgio.

Na passagem, parei na padaria e comprei 100g de queijo prato. Sempre falta queijo prato. Eu como muito queijo prato. Ou compro muito pouco de cada vez. Problema de opção… Bom, cheguei e Chaplin, o porteiro do bigodinho, me entregou a Época e umas contas. Antes de entrar em meu bloco, ainda vi ali meu Pálio, como se estivesse rindo de mim, o sacana. Dei um sorriso sem graça para ele e subi. Tive a impressão de vê-lo piscando as luzes do alarme, como se tivesse acenando de volta.

Ao Paulo, que riu da história quando contei para ele no telefone, eu agradeço as pimentas murupi que trouxe e a chance de pensar sobre a questão das opções. Na verdade, essa foi  a grande lição da história e a razão de eu trazê-la: pensar sobre as opções.

Eu era um estranho no ônibus por opção minha, quando muitos o são por falta de opção. Eu cansei, linguão palmo-e-meio de fora e peito arfante, por andar dois quarteirões por causa de minha opção por uma vida sedentária, regrada a Pepsi e a salaminho, quando muitos fazem da caminhada diária a possibilidade mesma de sobrevivência, sem Pepsi, sem salaminho, sem lenço e sem documento.

Opções implicam responsabilidades e riscos. Opções implicam ser olhado como estranho e ter que assumir essa “estranhidade” sem condenar aqueles que não optaram por optar pelo fato de a opção não ser considerada nem mesmo uma opção. E aí incluo tudo: opção ética, opção política, opção amorosa, opção profissional, opção no dizer. Não posso condenar quem me olha estranho por opções que fiz. Podia não fazê-las, mas fiz. É diferente de quem tem uma única saída como opção, o que já não é opção, mas obrigação. Aí não vale. É cruel condenar a diferença que vem da falta de opção. E falta de opção é uma violência à cidadania.

O Caetano, de estanhas opções ultimamente, disse um dia: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Cada um deveria saber que às delícias da opção tomada correspondem proporcionais dores possíveis. Então é pesar, optar e aguentar. Mas  ter honestidade intelectual e coragem para assumir as opções.

É cômodo querer anular o olhar da crítica à opção que fazemos, reduzindo o problema ao olhar e não à opção, onde muitas vezes mora de fato o problema.

É como aquela história do sujeito que aponta para lua e o idiota olha para o dedo. O problema não está no olhar do idiota, que também só é idiota por causa dessa ilusão da falsa origem do problema. O problema está para onde aponta o dedo. Não perceber isso como a própria possibilidade da construção de verdade, isso sim, faz de nós de bobos inocentes, no mínimo, a idiotas e merecedores de um esporro amazônico: “Tamanho paideguão, pô!”

A menina de Piúma, o barbeiro barbeiro, o parafuso frouxo e o pênis de Herodes.

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[Escrito em 28/01/2002]

Você deve está se perguntando, caro leitor, a respeito dessa combinação mais esdrúxula de assuntos que eu inventei dessa vez. Mas eu explico.

Passamos uma semana descansando em Piúma, cidade praiana do Espírito Santo. O Espírito Santo, aliás, é um estado bonito, mas low profile, quase não se houve falar dele. Já notou? Bem, mas fomos de carro e ficamos no apartamento de praia da minha tia Celeste. Até aí tudo bem. Aproveitamos para conhecer Vitória, uma cidade agradável, porém violenta – só perde para Cali, na Colômbia. Mas foi em Piúma que eu a vi. E fiquei meio atônito com a cena, confesso.

Em uma cidade com 13 mil habitantes, cujas ruas não são asfaltadas para não atrair muitos turistas e acabar com o sossego do lugar, pude ver um quadro surrealista. Uma moça, dentro de uma lojinha da L’Acqua de Fiori, vestindo a mesma fardinha creme/verde e usando um lenço no pescoço, maquiagem a ponto de sufocá-la, coitada. A loja seguia rigorosamente os mesmos padrões da empresa de perfumes. Em Piúma ou no Shopping Eldorado, em São Paulo, são idênticas. Do lado de fora, pescadores e gente como a gente, de bermuda e sandália, traje apropriado para o verão e para o lugar. Aquela loja estava totalmente fora de lugar e de propósito. Fico imaginando o que se passava na cabeça daquela menina de Piúma, que, com certeza e para manter o padrão, até devia falar “o senhor vai estar levando qual?”. Pausa.

Minha juba já estava se recusando a aceitar pentes e escovas. A mulher já começando a dizer “Tá bom de cortar”. Minha mãe, sempre cúmplice da esposa, concordando. Tanta pressão psicológica e resolvi ir até o centro de Piúma encontrar um salão ou algo assim. Andei, andei, passei pela Medina de Piúma (uma espécie de shopping center) e nada. Andei mais um pouco e achei uma salinha, muito parecida com do seu Antônio, barbeirinho do bairro de Aparecida, no fim da Ramos Ferreira, que cortava nosso cabelo aos sábados à tarde quando éramos crianças. Na salinha, uma cadeira de babeiro das antigas (com pedal para subir e tudo), um ventilador no teto rangendo, uma penteadeira com algumas tesouras, um quadro com o escudo do Vasco feito de linha, os indefectíveis talco e vassourinha e, claro, Djalma, o barbeiro. Acho que o nome dele era Djalma, pois estava escrito na placa da porta: “Djalma’s Cabeleireiro”. Sentei e disse: “Passa a máquina!”. Djalma riu e comentou: “Mudança radical, né, doutor?”. Na verdade era. Mandei passar a número quatro. Enquanto passava a máquina, Djalma falou de tudo. De onde vocês acham que peguei as informações sobre as estatísticas de violência em Vitória, sobre o asfalto e sobre a população de Piúma? Pois é. Depois chegou um carioca que morava em Guadalupe, bem sotacoso, daqueles que coloca o “a” no final de cada palavra. Ele chegou, entrou na conversa e se sentiu ofendido porque o Djalma falou que Vitória é mais violenta que o Rio. “Quea nada, aia, a. O Rioa éa muitoa mais violentoa. Eua acordoa com bala de fuzil AR-15 zuinindoa na minha cabieça”.  E devia estar falando a verdade, pois quando o Djalma deu aquele empurrãozinho no lado da minha cabeça para aparar a costeleta, pude ver algumas marcas de buraco no carioca. Valeu, Djalma. Paguei os cinco reais, muito mais pelas informações do que pelo corte, e saí me coçando todo, como convém a um bom cliente de babeiro. Pausa dois.

De volta a Campinas, fomos a Serra Negra, aqui pertinho, comprar roupas. Quer dizer. A mulherada foi comprar. Eu e meu pai ficamos sentados numa calçada, esperando aquilo acabar, segurando os sacos. Literal e metaforicamente. Triste sina de acompanhantes homens a esses lugares. E mulher comparando pano não acaba nunca, já perceberam? Estávamos lá, almoçando, quando “a luz foi embora”, como a gente diz em Manaus. Já perto de voltarmos é que soubemos, pela senhora da loja de couro, que a falta de luz era um apagão que envolvia oito estados. E ela acrescentou, inclusive, que a amiga da funcionária dela tinha ligado para a irmã em Apucarana, no Paraná, onde também faltava luz. Ela, a de Apucarana, disse que o apagão era obra do Fernando Henrique. Ele mandara desligar tudo para que não fosse transmitido o enterro do Celso Daniel, prefeito assassinado de Santo André e que estava sendo enterrado naquele dia. Pegava mal para o país, segundo a tese dela. Se o crime não foi político, a razão do apagão era. No mínimo, uma trama bem bolada, digna de um livro de Joseph Conrad. Chegando em Campinas e vendo os jornais, soube que o governo informou que a causa da falta de energia em vários estados fora um parafuso frouxo. Pausa três.

Por fim, Herodes. Li na Folha de São Paulo de hoje: “O maior vilão do Novo Testamento teve um fim melancólico, acossado por uma doença crônica nos rins e uma infecção incomum no pênis chamada de gangrena de Fournier”. Quem descobriu isso foi um professor da Universidade de Washington. Impressionante. De qualquer forma, bem feito para Herodes. Quem mandou matar criancinhas e não viver perto da Dra. Zuleica, a melhor nefrologista que eu conheço. Se tivesse cuidado dos rins, não teria tido a gangrena.

Mas o que essas quatro histórias têm em comum? Fiquei pensando. A que ponto chega a lógica do capitalismo, com a história do padrão de qualidade. Empacota a menina de Piúma para presente. Aquela loja só existe porque vende. E só deve vender porque representa o inacessível acessível, o oásis simbólico vendido nos trabalhos de marketing e merchandising da vida. Comprar um perfume ali é comprar o ticket de entrada para um outro mundo, para um outro lugar, para uma terra de magia. Para Howgarts, como em Harry Potter. Por outro lado, esse padrão de qualidade é tão vulnerável, às vezes, que um reles parafuso frouxo deixa meio Brasil sem energia. Só não disseram a quem pertencia o parafuso frouxo. Será que caiu da cabeça de um daqueles que gerem a política energética no Brasil? Do Ministro? Do próprio Presidente? Mistério indecifrável, como o assassinato do prefeito de Campinas, Toninho, até hoje não esclarecido.

O que sobrou do padrão ISO9000 na loja da menina de Piúma, faltou ao Djalma. Descobri mais tarde que minhas duas costeletas estavam aleijadas. Uma maior que a outra. Bem maior. Muito maior. Só aí lembrei que ele só tinha dado o empurrãozinho para um lado. Mas tudo bem, afinal ele é barbeiro e tem um bom papo. E mil vezes, em Piúma, cortar com o Djalma, o aleijador de costeletas, do que em um salão padrão ISO9000, onde as atendentes não conversam porque o treinamento em São Paulo assim exige. Eu também não compraria perfume na loja da menina de Piúma. Fui pra lá para fugir disso, dessa pasteurização e objetificação do ser humano, cada vez maior nas grandes cidades. Na verdade, nada pessoal contra a menina, acontece que tomei aquela loja como ofensa. Como uma certa invasão de privacidade. Da próxima vez, vou até pedir: “Djalma, uma costeleta maior que a outra!”, só em protesto contra a normatização da vida. E feliz e meio-Elvis, comerei meu Peruá frito (com as mãos, diga-se de passagem) na Barraca do Picão.

Por falar em picão, e o pênis de Herodes? Bem, o pênis dele não se encaixa muito bem na história, não. Mas é uma informação porreta demais para passar despercebida. Gangrena de Fournier. Dizem que coça muito. Bem feito. Será que minha coceira na cabeça, depois de sair do Djalma…não, não, acho que não…

 

As vitrines

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Para Ana Clara e Marina.
Quando tinham 4 e 3 anos.

Eu te vejo sair por aí/Te avisei que a cidade era um vão/- Dá tua mão!/- Olha pra mim!/- Não faz assim!- Não vai lá não!/Os letreiros a te colorir/Embaraçam a minha visão/Eu te vi suspirar de aflição/E sair da sessão, frouxa de rir/Já te vejo brincando, gostando de ser/Tua sombra a se multiplicar/Nos teus olhos também posso ver/As vitrines te vendo passar/Na galeria, cada clarão/É como um dia depois de outro dia/Abrindo um salão/Passas em exposição/Passas sem ver teu vigia/Catando a poesia/Que entornas no chão…

Ontem eu fui buscar minha filha na escola. Cheguei cedo e pelo vidro, escondido,  fiquei olhando aquela menininha, cabelo preso com um rabo de cavalo, sentada na carteira escolar, copiando a tarefa escrita pela professora no quadro. Ela está no terceiro período, sendo alfabetizada. O inusitado é isso: quando a realidade bate em sua cara com uma sandália havaiana molhada e cheia de terra.

Recobrando os sentidos, olhei e me dei conta de como é independente a minha filha de quatro anos. Já não mais chora para pedir leite, dorme sozinha, dispensando meu canto de outrora, cujos falsetes desafinados embalavam o seu sono, às vezes o nosso. Já escreve seu nome na firmeza do lápis. Já tem uma identidade que a distingue. Já tem gostos só seus. Sabe o que quer com firmeza. E o que não quer com certeza. Toma a frente para fazer as coisas, para experimentar. E só tem quatro anos, a minha menina. Em dois planos, vi duas cenas olhando para o mesmo lugar: pela janela da sala, a minha filha já sendo. Na janela da sala, pelo reflexo, um pai se dando conta de que a vida segue.

Enquanto eu escrevo, olho os vários porta-retratos de minha filha espalhados em meu escritório com suas fotos: um bebê, uma menina cambaleante, segurando as mãos do pai, uma menina em gargalhada aberta sentada no chão da calçada junto comigo a aconchegá-la, protegendo-a entre minhas pernas, numa tarde de pai e filha e velocípede. As fotos passam com um filme, quadro a quadro, lembrando que o tempo passa e ela cresce. E escapa líquida pelos meus dedos.

Fico pensando o dia em que minha criança sairá sozinha pela primeira vez. Nesse dia decretará o brado retumbante às margens de seu Ipiranga particular. Deixará um pai órfão de sua obrigação perene de pai: acompanhá-la por onde for. E eu terei que vê-la sair por aí… Não sem antes avisá-la repetidamente do abismo que é a cidade, o mundo. Definitivamente, o mundo não foi feito para pais. Pais sofrem com mundo. Ele ameaça o que têm de mais sagrado: seus filhos. Ah, filha, cuidado! O mundo é um vão…

O paradoxo de saber da necessidade de que os filhos se vão para ser gente e ao mesmo tempo em acreditar no instintivo pátrio dever da proteção eterna nos faz pensar em dizer, com rigor paterno: – Dá tua mão! – Olha para mim! Não faz assim! Não vai lá, não! – Fica aqui, deixa eu cuidar de você. Para sempre. Para sempre… Filhos são para sempre. Filhos se demoram. Essa é sua beleza. Mas o pacote traz junto com os filhos a vulnerabilidade eterna. Filhos são nossos alicerces e nossa vulnerabilidade. Sem eles, Deus nos livre, o nosso mundo desmorona, cai em pedaços. Sem eles, nossa vida se agriculturiza e vira vegetativa.

Mas tudo bem. Saiam. Ganhem o mundo. Ganhem os prados. Por via das dúvidas, vamos atrás, de longe. Só por garantia. Ficamos somente olhando. Sem se meter. Prometemos. E eles saem…

Na nossa certeza, vamos estar lá, pulando em frente de carros, lhes salvando contra ladrões, feito Sportacus avisados pelo nosso coração. Estamos prontos para intervir no primeiro susto. Mas cadê o susto que não vem?… Nossas crianças passeiam com desenvoltura pelas ruas. Os letreiros das lojas e fachadas vão lhes colorindo na passagem como se lhes saudassem a vinda e a vida. A vida de quem faz sua subjetividade na independência que, pretensiosos, julgávamos impossível sem nós. A falibilidade já nos tinha sido anunciada: quantas vezes pedimos impotentes que a febre passasse para nós?

Nossa ansiedade aumenta. Seguimos os passos de nossos filhos, mas os nossos passos vigilantes são hipérboles supérfluas de amor, desnecessárias, vãs. A cidade é um vão… Os letreiros brilham por sobre nossos filhos e embaraçam a nossa visão porque não conseguimos – ou não queremos – vê-los desenvoltos por lugares que outrora nós mesmos pisamos em falso, buscando nós próprios a nossa luminosidade.

Viramos espectros de seus caminhos. Se vão ao cinema, ficamos furtivamente na última fila, incógnitos. Estamos prontos para oferecer o ombro e o colo ao surgir o primeiro monstro na tela, um Robin Rotten, sei lá… Somos capazes de perceber a aflição suspirada, afinal conhecemos cada centímetro daquele ser, cada fio de cabelo, cada jeito de olhar, cada um dos 21 gramas daquela alma. Dizem que alma tem 21 gramas. Se tem, eu conheço cada um dos gramas da minha filha. Não duvide de um pai. Mas não… Vou me desnecessarizando de sua vida,  como as rodinhas da bicicletas, que uma dia foram fundamentais e depois, de repente, viram-se descartáveis. Com um outro, um substituto de mim, minha filha de repente sai confortada, alegre, frouxa de rir. E eu morro um pouquinho na quebra da minha certeza de que só eu era capaz de fazê-la rir daquele jeito. Sinto-me arrasado como quando trocamos amores em miúdos. Claro, mas é assim, é assim, sabemos… Componha-se!

É. Tem uma hora que a gente percebe que os filhos começam a gostar de ser. Desenham paisagens com seus próprios crayons, recortam o mundo com sua própria tesoura do desejo. Suas sombras a se multiplicar nos inquietam na impossibilidade de seguir cada uma delas. Vamos deixando de ser os pais que ocupam os espaços para  sermos pais que liberam espaços para os filhos como condição primeira para continuar sendo pais. É preciso se esvaziar de presença para estar presente: é esse o oximoro paterno.

Quando ela volta para casa, faço cafuné, abraço, beijo suas bochechas. Olhos nos olhos e nos seus olhos eu posso ver as vitrines do mundo a vendo passar nas galerias da vida, das querências, dos desejos, dos medos, das (in)certezas. Cada clarão refletido em suas pupilas é como o raiar do sol de um dia depois de outro dia depois de outro dia depois de outro dia. Olho em seus olhos os reflexos do porta-retratos do bebê risonho e do pai que o segura, feliz. Serão sempre os bebês os nossos filhos. E que abram, em cada passo que derem, mil salões de alegria, de sucesso, de ternura. Que não esqueçam a ternura ao passarem expostos ao mundo.

É com ternura que serei o eterno vigia de minha filha. Vigia que ela nunca vai ver lhe vigiando e lhe sufocando, pois precisa ganhar a segurança da liberdade. Um vigia que vai zelar sempre por ela, a cada dia, em cada galeria, no reflexo de cada vitrine, de cada vidro de janela das sala de aula da vida. Que vai estar catando toda poesia que ela derramar no chão, que será guardada naquela velha caixa cor-de-rosa onde estão depositadas as primeiras, aquelas entornadas e recolhidas naquele dia de felicidade indescritível na maternidade…

Resposta ao tempo

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O tempo gosta de nos ensinar algumas coisas quando já estamos ficando velhos. Inteligente é quem usa o aprendizado para melhorar a qualidade de vida. Triste de quem não aprende com a trilha da própria existência.

Entre algumas lições, aprendi, com a meia idade, que amor bom é o amor manso. Nada de ciúmes desgastadores, brigas agressivas, dormir sem se falar. Nenhum amor vale a pena se o sofrimento é maior do que o sorriso manhoso e cúmplice da companhia escolhida. A paixão, ao contrário do andam pregando por aí, não é agoniada, rápida, falta de controle. A paixão mesmo, que os mais velhos conhecem, é tranquila,  se demora, é dirigida e digerida. A paixão é materialização do amor real. Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

O senhor tempo me ensinou também a entender a história. Um dia já fui possessivo, insuportável. Queria saber tudo de todos, controlar o mundo. Ser eu a escrever os textos alheios. Hoje, se sei o suficiente para ser feliz, agradeço ao bom Deus antes de dormir. É o que me basta para começar um  novo dia.  Não posso controlar o que os outros pensam e dizem, mas tenho absoluto controle sobre como reajo a isso. Esse é meu campo de ação. É aqui que eu me equilibro. Santa descoberta! Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

Já tive ciúmes retroativos de quem amei, achando que esse ciúme de uma vida da qual não fazia parte era prova de que meu amor era grande, transcendia o tempo. Ledo engano. Boba ilusão. Quem eu amo não seria quem é sem ter percorrido seus caminhos e desviado por seus descaminhos. Como eu. Por um capricho do destino, cruzei no Twitter com a sobrinha de uma paixão antiga, minha quase ex-futura sobrinha. Foi bom lembrar. Concluo que  o que passei e senti com outras mulheres só apurou e decantou meus quereres para usar hoje, com a Bia. Simples, hein! Mas por que a gente só entende depois de certo tempo?

Aprendi que o relacionamento com quem se gosta passa necessariamente por si. Como gostar sem se gostar? Primeiro é nós, Queiróz. Egoísmo? Nada… A máscara de oxigênio primeiro na gente e depois no outro para encarar as despressurizações e pressurizações do avião da vida. Fortes, somos fortes para amar. Fracos, somos fracos para amar. Se o outro não nos fortalece, nos enfraquece. Lógica. E se enfraquece, ficar juntos não é masoquismo? Mas por que só se aprende isso depois de certo tempo?

Pois é. Meu toque, do alto dos meus quarenta anos: apaixone-se sem controle para aprender e apreender a paixão mansa. Gaste toda sua possessividade para saber que o amor real não prende, não tira o ar. Ao contrário, o amor dos vera dá e quer pastos, quer correr nos campos, sem amarras, sem coleiras, sem cóleras. Quer ir para poder voltar. E volta porque quer. Porque se sente aconchegado. Porque se sente pertencido. Quanto ao cíume, tenha ciúmes, mas um ciúme manso, regulador de seu querer e não do querer do outro. Ciúme raivoso é a gota de fel que azeda o doce néctar da vida a dois. Por fim, se ame. Obamamente, Yes! We can! Vá lá e faça. Seja feliz. Sem ser feliz essa coisa doida de viver não vale a pena. E para isso não precisa esperar a lição do tempo. Basta olhar com olhos com querência de aprender para qualquer criança. As crianças nos ensinam que a felicidade é simples como uma caixa de fósforos, que num desejo vira uma casinha de uma família grande, de gente igual, magra e cabeçuda.

O rabisco do mapa de seus caminhos é feito por você. Ainda dá tempo de tomar o lápis dos outros. Há sempre um tempo para quem se perdeu ter nova chance de se encontrar. Há sempre tempo para tomar as rédeas de seu tempo. Tempo. É a palavra-chave. E aí? Vai ficar aí parado? Não vai dar sua resposta ao tempo?

Um dia, um adeus

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Só você pra dar à minha vida direção, o tom, a cor… /Me fez voltar a ver a luz/ Estrela no deserto a me guiar/Farol no mar da incerteza… /Um dia um adeus/ E eu indo embora…/Quanta loucura por tão pouca aventura…/Agora entendo que andei perdido/ O que é que eu faço pra você me perdoar?…/ Ah! que bom seria se eu pudesse te abraçar/beijar, sentir como a primeira vez… /Te dar o carinho que você merece ter /E eu sei te amar como ninguém mais… /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou…/ /Ninguém mais! /Como ninguém jamais te amou/ Ninguém jamais te amou,/te amou como eu, como eu…

Quando o céu é azul e o mar é plácido, o que leva alguém a buscar as nuvens pesadas? O que move alguém a caçar ondas ferozes que podem arrebentar na areia, lhe levando junto? A saída da rota conhecida na busca de estradas vicinais nos afetos pode desviar e fazer se perder do caminho sempre percorrido de forma indelével, irreparável. É só nos descaminhos que se percebe a beleza do caminho que temos por garantido.

Os novos caminhos são meras miragens. Tais quais oásis criados pela mente dos sedentos, as trilhas da aventura não trazem aventura: trazem a falta de rumo, a escuridão, a miragem, assim que se estende a mão para pegá-las. É nessa hora que percebemos, tardiamente talvez, que só aquela pessoa pode dar direção à nossa vida. Ela estava lá e nós caminhamos na direção contrária. Só ela, ali, perfeita, pode nos pôr de volta no tom correto da canção planejada a dois. Só ela pode nos avivar a cor à vida do pálido trapo em que nós, aventureiros ignóbeis, nos tornamos. Só ela nos conhece mais do que nós mesmos.

Será que não dava para ver que aquela pessoa é a luz a nos guiar no deserto desse latifúndio maluco que é a vida? Será que a cegueira pelo prazer fast-food sempre apaga mesmo a luz do farol que nos leva a salvo à terra firme das escolhas afetivas no mar das incertezas dos relacionamentos? Quanta loucura…

Mesmo com todo o calor, a certeza, a luz, a cor, o tom, a gente às vezes ousa ir. Irracional escolha. Arrisca a própria vida, o próprio equilíbrio, a própria aposta certa de duas pessoas que construíram castelos de sonhos, que desenharam seu reino perfeito e nele tudo investiram. Por tão pouca aventura…

E rotos voltamos. Mendigos de dignidade, moral esfarrapada pelos arames-farpados dos descaminhos. Retornamos fedorentos pelos odores de trilhas cheias de capim-navalha que nos cortou, além das carnes, também a alma. A alma cabisbaixa… os olhos sem força para se erguerem, com vergonha da luz, que tanto guiou, que tanto afinou o tom, que tanto retocou impecavelmente a cor…

E aí, nessa hora, cai a ficha. Tudo foi puerilmente posto em jogo. Um jogo com fichas com as quais não se joga. Um jogo em que nem se entra para jogar, porque todo jogo traz a possibilidade da derrota. E o que o leva quem já obteve a maior vitória à roleta russa da infelicidade?

Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

Tão certo quanto o dia amanhece, no entanto, a luz ainda ilumina nosso rosto marcado por pesadas lágrimas de pesar… Caminhos negros trilham e riscam rosto abaixo nos caminhos das lágrimas… negros da sujeira que nos cobre… A luz, límpida como sempre, agora ofusca os olhos que andaram desacostumado da luz na escuridão da perdição. Sim, andamos perdidos… E agora? Sem forças… sem voz… sem chances… Como retornar à direção? Como ganhar a cor pelas mãos macias que largamos por vaidade, por desejo fugaz? Como sincronizar o nosso ao coração que, irresponsáveis, colocamos em arritmia? O farol quer se apagar e não há nada para nos apegarmos para não sucumbir… Nem voz sai. Se recusa. Não tem o que dizer… Não depende de nós… Já dependeu. E a escolha foi errada…

Ah, tanta loucura… ah, tão pouca aventura…

Perdão. Só nos resta o fio do perdão. A pergunta vem, com medo da resposta: “o que que eu faço pra você me perdoar?” Com a pergunta, no segundo antes da resposta, feito um acidentado que no minuto da iminente morte vê um filme completo passar na mente, a gente lembra da primeira vez, do beijo, do abraço, dos risos, dos amores, dos momentos, dos olhares, do carinho, do consolo, do companheirismo, dos planos… A gente lembra das milhares de borboletas que levantaram voo no nosso estômago… que bom seria poder beijar, abraçar, sentir como a primeira vez… a luz… está indo… tão pouca aventura… é insano! O farol… apagando… A estrela-guia no deserto… cadê? Quanta loucura…

Que bom seria perceber o prumo da vida que perdemos voltar a aprumar… Que bom seria se nos pudéssemos dar o carinho que essa pessoa merece ter… Nós não a merecemos… Nós fizemos escolhas pela escuridão quando tínhamos a luz presente, aquecendo a vida…

Buscamos, enfim, o apelo final: a promessa da afirmação de que nós sabemos amar essa pessoa como ninguém jamais a amou. Ninguém jamais! Ninguém jamais a amou como nós… Trincamos o cristal que nos servia o melhor champagne do mundo, apedrejamos a luz de nosso próprio farol no mar da vida, esmaecemos a nossa cor, como se estragássemos nosso Van Gogh particular… Mas ninguém jamais a amou como nós. Quanta loucura… e por tão pouca aventura…

“O que que eu faço pra você me perdoar?”…

Os cisnes que nos habitam

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“Quero falar de sua mania de negar o que é
e de explicar o que não é”.
Edgar Allan Poe
Duplo Assassinato na Rua Morgue

As contradições internas de nossa subjetividade e a dificuldade de se lidar com elas. É esse o tema de fundo de Cisne Negro (Black Swan). Assisti ao filme e gostei demais.

À primeira vista, a bailaria Nina Sayers (Natalie Portman, magnífica e merecedora do Oscar) é movida pelo desejo de superação. Quer se tornar a “prima ballerina” da companhia de Thomas Leroy (Vincent Cassel). Uma parede psicológica, no entanto, precisa ser superada: O Lago dos Cisnes, o balé de Tchaikovsky, que Leroy decide montar e que serve de trigger para os conflitos.

Para Nina, viver Odette, o “Cisne Branco”, não é problema. Ela é a própria metáfora do cisne branco: pura e inocente. Seu desafio é a interpretação de Odile, o “Cisne Negro”, o seu outro, a sensualidade, a  sedução. O público acompanha a desintegração de sua sanidade enquanto ela enfrenta a pressão do diretor, a projeção da mãe superprotetora  (Barbara Hershey) e a chegada de uma bailarina concorrente (Mila Kunis), em si própria um cisne negro por default.

Acompanhei o filme pensando em duas coisas: os conflitos internos que compõem a subjetividade e a relação da histórias com os conceitos de Real, Simbólico e Imaginário, do psicanalista Jacques Lacan. Vou de trás para frente.

Longe de querer simplificar e rasterizer os conceitos lacanianos, tentarei trazê-los para parâmetros de reflexão sobre o tema. Para Lacan, quando o indivíduo entra na linguagem, ele se subjetiva e se desnaturaliza. A linguagem se interpõe entre o sujeito e seus desejos, suas querências. Não dá mais para realizar o gozo dos desejos animais porque a linguagem nos ensina valores, conceitos e regras que nos limitam em nossas ações e omissões. A linguagem, que é o Simbólico,  carrega os sentidos do mundo que aprendemos, monta o nosso mapa conceitual desse mundo, muitos conceitos dos quais não temos domínio sobre. É um processo do inconsciente. Esse mapa, o conjunto de imagens, é o Imaginário. Mas para onde vão os desejos represados pelo simbólico? Vão para o inconsciente, em forma de pulsão e lá ficam malucos para sair. Saem às vezes em atos falhos e lapsos. Aquilo que o sujeito não consegue atingir, o estado bruto, é o Real.

Ok. Lacan em um parágrafo é querer demais. Mas dá para fazer o link com o tema do filme.

Todos nós, por meio da moldagem da linguagem, formamos uma personalidade visível e uma espécie de personalidade pulsional, o outro eu: o cisne negro, no caso de Nina. O branco andava livre, respaldado pela mãe superprotetora, numa naivité característica. O cisne negro de Nina vai ganhando espaço, se realizando na mudança do imaginário quanto a seu papel no mundo. O sujeito normal encontra formas de aliviar a pressão do que é recalcado, mas quando essa pressão é muita, o sujeito quebra, como Nina, que rompe com os limites do Simbólico, deslocando o Imaginário, reconfigurando-o. Ela rompe ao dar-lhe asas quando toma ecstasy e faz sexo com sua rival, quando a mata, quando se liberta da mãe. Desejos. Pulsões. Seu Real é magnificamente pictorizado no filme pela materialização do cisne negro em seu corpo, como se o aparecimento do mesmo fosse a transformação real do corpo humano no corpo do animal. Ela vai perdendo a razão – isso! a razão! – e a sua desrazão vai tomando conta, dando um 180 na parte dominante de sua personalidade. Sai Odette, entra Odile.

E nós, homens banais, que podemos pensar a partir do filme e de sua leitura lacaniana? Papo acadêmico apenas? Como analista de discurso, creio que nem todo academicismo é masturbação teórica. Eu me arrisco no que segue.

Nós, homens banais, precisamos ouvir Tchaicovsky. Metáfora. Necessitamos achar o equilíbrio entre os cisnes que nos habitam. Entre o eu permitido e o eu pulsional. Entre as contradições. Muito recalque, o sujeito implode psiquicamente. Muita alternância, eis que surge um terreno fértil para a esquizofrenia. O sujeito não pode tocar o Real puro. Tocar o Real puro é atingir a loucura. Precisamos do Simbólico a nos definir o Imaginário, que sempre está se movendo, sob o risco de alienação. É imperioso para o sujeito simbolizar o Real, dar-lhe sentido: pela arte, pela música, pela escrita, pelas tatuagens, pelas mil formas que cada um encontra para deixar vazar aquilo que é demais para lidar cara-a-cara. Somos todos, enfim, Odette e Odile.

Nietzsche dizia: “a alegria deve ser buscada não na harmonia, mas na dissonância”. Dou RT em Nietzsche. Porque nada jamais é descoberto: tudo é reencontrado, trazido à tona graças a um gatilho. Por falar nisso, o que que é aquele sinalzinho no rosto da Natalie Portman… =X

Adoro um livrinho chamado “O Real e seu Duplo”, de Clément Rosset. Já o li inúmeras vezes, cada uma de forma diferente. Diz ele: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a imperiosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescritível – o do real a ser percebido -, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sob certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e mostra-se desagradável, a tolerância é suspensa”. Só que o controle dessa tolerância não é nosso…

Quantos cisnes e de que matizes existem dentro de você, leitor? E como eles convivem entre si? Quem subjuga quem? Até quando continuaremos com essa mania de, como diz Poe lá em cima, negar o que é e explicar o que não é?

No fundo, todos nós sabemos muito bem que só viveremos uma vez, que somos um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de cisnes fundidos em um todo. Resumo do texto: dance o ballet da vida com suas contradições e sem medo. Duplo sentido para a palavra suas.

Sete mil amores

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Há alguns dias soube da Luíza. Soube por amigos que são amigos da Carol (@ccvarella), sua mãe, e de Marcos (@mv_mao), seu pai. Li um pouco mais sobre o que estava acontecendo no texto do Ismael Benigno Neto. Apesar de não conviver com a família, sempre leio o blog da Carol e com ela troquei mensagens no Twitter sobre diversos assuntos. Gente do bem. E ainda que não seja próximo, fiquei muito triste e abalado com a notícia. Atribuo a tristeza ao sentimento do mundo, sobre que Che Guevara discorreu. Dizia ele que há uma ligação entre todos os seres que habitam o planeta pelo simples fato de pertencermos à raça humana. O que acontece a alguém em algum lugar do mundo a mim importa. Atribuo o abalo ao fato de ser pai e ter filhas. A notícia foi como um soco no peito que me tirou o ar, confesso.

A iminente luta de Luíza e de sua família me fez parar. Fez-me desligar o carro e pausar a roda-vida por alguns dias. Dei um tempo no Twitter, reorganizei prioridades, redesenhei alguns planos para a vida. Inevitável a reação de pai, que o Ismael magistralmente sintetizou em seu texto: “O reflexo involuntário de todo pai é olhar pros filhos, beijá-los, amá-los ainda mais”. Desliguei das coisas e liguei o potenciômetro dos chamegos gratuitos com as minhas filhas ao máximo. Lembrei da efemeridade da vida e das guinadas que ela dá para nos testar, fazer crescer, fazer amar mais. Nada vale a pena se a alma é pequena, parafraseando o poeta. Tantas miudezas, briguinhas, rancores, provocações, mimimis. Tudo reduzido a pó diante do amor que se tem por um filho. Diante do amor. Diante da vida.

Tenho acompanhado silenciosamente os passos de Luíza e sua família. Tenho me fortalecido na fortaleza de Carol e de Marcos, davis gigantes diante de um golias que, como na história, certamente derrotarão. Tenho visto como a solidariedade é realmente um dos mais lindos alimentos da alma. Pessoas de todos os lados, fé, crenças, tribos, fazendo uma corrente de fé pelo final feliz da história de Luíza, manifestando-se de várias formas, uma delas pelo Twibbon da hashtag #ForçaAnaLuiza, em http://twb.ly/d0TxQx.

Não há nada mais precioso do que um filho. Absolutamente nada. Empresto todas as minhas forças aos pais de Luíza. Eu os tenho colocado em minhas orações de pai todos os dias, pedindo ao bom Deus que lhes dê serenidade na turbulência e que mantenha a força descomunal do amor que os pais têm pelos filhos e os filhos têm pelos pais, o mais puro e verdadeiro tipo de amor que o ser humano conhece.

Quando eu era  jovem, sempre disse que um dia que tivesse uma filha ela se chamaria Luíza. É porque sou um ser musical e “Luíza” é uma das mais belas músicas que conheço. Casei, descasei, casei, descasei e casei. E vieram minhas duas filhas, que se chamam Clara e Marina. Uma, a Clara, é um coração de mel, de melão, de sim e de não, feito um bichinho no sol da manhã, novelo de lã. A outra, a Marina, é morena, bonita com que Deus lhe deu. A minha Luíza não veio. Mas veio para outros pais. Veio para o Marcos e para a Carol.

Não há muito a dizer. Mas queria dizer, ainda que fosse pouco:

Marcos e Carol: depois de tudo isso, eu tenho certeza que vamos lhes ver, braços abertos, cantando em uníssono: “Vem cá, Luíza!/Me dá tua mão/O teu desejo é sempre o meu desejo/Vem, me exorciza/Dá-me tua boca/E a rosa louca/vem me dar um beijo/e um raio de sol/nos teus cabelos/como um brilhante, que partindo a luz,/explode em sete cores/Revelando então os sete mil amores/que eu guardei somente pra te dar, Luíza”. Nós estaremos aqui, amigos, fazendo o backing vocal para a canção como se estivéssemos cantando para a Luíza de cada um de nós. Neste momento, a Luíza de vocês é de cada um de nós. É a Luíza dos sete mil amores…

42 anos

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São 42 anos. Tenho uma mulher maravilhosa, duas filhas lindas, uma família digna, amigos de verdade e uma profissão de que gosto.

42 é um número esfênico. O número 42 é a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo mais, n’O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Level 42 é o nome de uma banda do cacete dos anos 80.  Colocando na calculadora do Google em Inglês “the answer to life, the universe, and everything”, você receberá como resposta 42. Um dos números misteriosos em Lost é 42. Em Arquivo-X, o número do apartamento de Mulder é 42. 42 é o número total de volumes do mangá Dragon Ball. 42 é o que havia dentro da mala no filme “Ronin”. Ninguém sabe se era de madeira, hélio, ouro ou ponto de cruz. Em Alice no País das Maravilhas, a regra 42 estabelece que “todas as pessoas maiores que uma milha – 1600m – devem deixar a corte”. O original de Alice no País das Maravilhas tem 42 ilustrações. Na série House, 42 é o número favorito do personagem principal, Gregory House. “42” é o nome de uma música da banda británica Coldplay: http://www.youtube.com/watch?v=Z0xfWCDLoCU O nome de Buda na vida era Sidarta. Se transformarmos as letras em números (a=1, b=2, c=3, etc), a soma de todos será 42. O molibdênio é o único metal da segunda série de transição que é essencial para a vida,seu número atômico é 42. Segundo o novo testamento 42 é o numero de gerações de Abraão até Jesus Cristo. “Ô, 42! Me dá a 12 aqui!”. Capitão Nascimento sobre 42. “O verso do cão arrependido deve ser repetido 42 vezes”… Chaves, sobre a importância do número 42 na literatura moderna. “Quarenta e dois” tem treze letras. Zagallo, sobre um número mais interessante. 42 é o número em graus da inclinação do Arco-íris. 42 é o código ASCII do *. O * pode ser qualquer coisa… sacou o poder? Há 42 leis do Ma’at, a personificação no Egito antigo da ordem, da verdade e da lei moral e física. 42 é o número com o qual Deus criou o universo na tradição cabalística. O Apocalipse diz que a Besta dominará o mundo por 42 meses. 42 é o nome da nave do Buzz Lightyear. No endereço do dentista que capturou o Nemo tem 42: P. Sherman, 42 Wallaby Way, Sydney. Há 42 galões em um barril de petróleo. Ayrton Senna morreu quando ia obter a 42a vitória, e o número de seu kart, nos primórdios de sua carreira automobilística, também era 42. Em Bee Movie, um dos personagens calça 42. Bota de inverno, solado de borracha, boa qualidade. Tamanho 42. Monty Python, ep 24: Public service filme #42: How Not to be seen. “Sérgio” tem 6 letras, mesmo número somando 4+2. “How can you describe poetry like American Bandstand? ‘I like Byron, I give him a 42 but I can’t dance to it!'” – Keating, Sociedade dos Poetas Mortos. Fatorando 42, temos 7, 2 e 3. 23. 2 * 3 = 6. 6 = 4 + 2. Isso TEM que significar algo. 42 em hexadecimal é 2A que é o modelo de pilha mais utilizada no mundo. (21.5+20.5) = 42. Agora pasme: (21.5)²-(20.5)²=? Sim, 42!

Sorte de hoje no Orkut: “Cada homem é arquiteto de sua própria sorte”. É bem por aí…