vida

Um certo alguém

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um certo alguémPai e mãe são escolhas de Deus. Caímos na vida de um casal e dele dependemos de toda sorte na formação de nosso caráter, na consolidação de valores humanos, no modo de ver o mundo e a relação com o próximo.  Assim é com irmãos e irmãs. Não os escolhemos. Calhamos de co-existir e nessa relação inevitável aprendemos a compartilhar, a dividir, a brigar por espaço, a brigar pelo sangue, a tomar dores pelo amor que atravessa a convivência e as cicatrizes na pele e na alma. Assim é com filhos. O bebê que vem habitar o ventre da mãe e o sonho do pai, num primeiro momento, e o berço no quarto e o espaço mais nobre no coração dos pais, num segundo, é posto em nossa existência também por escolha direta de Deus. O livre-arbítrio não chega ao ponto de definir qual filho queremos. Filho vem, nasce e se demora por toda a vida.

Contudo, com a pessoa com quem dividimos a vida é diferente. Essa somos nós que escolhemos. Por ser nossa, não faz sentido ser infeliz se a escolha tiver sido infeliz. Por isso as pessoas casam e descasam às vezes. Erro humano de análise. Há ex-maridos e ex-mulheres, mas não há ex-pais, ex-filhos, ex-irmãos. Eu, por exemplo, passei por três escolhas, sendo as duas primeiras equivocadas às suas formas. Por inversão, este texto se apresenta para dizer que a terceira foi a escolha certeira, feliz e inequívoca. Se Deus não mete o bedelho como faz no caso dos pais, irmãos e filhos, ele certamente trisca no traçado que nos permite encontrar um certo alguém que, dentre 6,6 bilhões de pessoas, vai mexer com você, fazer você perder o ritmo da respiração, causar suor nas mãos e fazer seu corpo cair morto de prazer. Alguém com quem você dividirá alegrias, comida, sorrisos, vitórias. Alguém com quem você amargará tristezas, vazios, lágrimas, derrotas. Alguém de quem você conhecerá segredos. E cada forma de olhar.  Alguém que saberá no tom da sua voz que algo ameaça a ordem das coisas.

Não somos perfeitos. Acertamos no atacado e erramos no varejo. Por isso, entre as belas paisagens de nosso trajeto a dois, vez por outra escorregamos e magoamos esse certo alguém. Sem querer deixar de chegar ao objetivo conjunto – repousar lado a lado no sono eterno – , desviamos por caminhos estranhos, desaconselháveis pela censura social. O que nos resta é lembrar que nosso certo alguém é escolha nossa e, por isso, somos responsáveis por sua proteção, por sua impermeabilização dos sofrimentos do mundo. Nas falibilidades humanas, saber cair antes para poder amortecer a queda do nosso certo alguém passa a ser a arte da convivência feliz, a condiçào da permanência da escolha certa.

Meu certo alguém é uma linda mulher de 35 anos hoje. De público,  eu peço que tome as minhas eventuais cambaleadas como passadas passadas no passado. Espero e desejo, como na música, que você me dê a mão, porque é ela que me dá a firmeza mais firme. Venha ser a minha estrela, para iluminar o que nos resta de percurso a dois no caminho da existência. Com você, toda complicação é tão mais fácil de entender. Hoje é seu dia: vamos dançar? Vamos luzir a madrugada? Porque eu desejo com todas as minhas forças que você seja a inspiração para absolutamente tudo que eu viver. Pai, mãe, irmãos, filhos: não escolhemos. Mas você eu escolhi. Meu certo alguém, que cruzou o meu caminho, que me mudou a direção. Mais do que meu certo alguém: o meu alguém mais certo. A minha melhor escolha na vida. Parabéns, Bi.

Um texto antigo para recordar

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Baratas e cigarras catalépticas

Uma parte de mim é só vertigem:
outra parte, linguagem.

Ferreira Gullar

Cheguei em casa e no chão da cozinha uma cigarra jazia de pernas para cima, imóvel. Imaginei que havia entrado pela janela que sempre fica aberta, já que eu moro no sexto andar. A Bia deu a idéia de eu recolher aquele corpo inerte com a pá de lixo. Viria por baixo e com jeito levantaria a defunta e jogaria no lixo. Sou muito nojento para bicho morto e assim que consegui colocar o cadáver na pá, não esperei: joguei a cigarra morta pela janela mesmo. Quando estava lá pelo quarto andar, num passe de mágica, a cigarra acordou e passou a voar normalmente. Já tinha visto muita coisa estranha nessa minha vida, mas cigarra cataléptica foi a primeira vez.

O que estaria fazendo a cigarra deitada em minha cozinha? Se refrescando do calor no chãozinho de piso frio? Meditando? Fazendo Swásthya Yôga? Estaria atingido o Nirvana? Seria ela uma cigarra eremita que escalou uma montanha de seis andares como fazem os homens eremitas, aqueles que buscam as alturas para se desprender das mundanidades da vida? Sei lá… A cigarrinha cataléptica me fez pensar sobre a vida e me deu até ânimo para escrever.

O lingüista francês Jean-Claude Milner diz que não existe língua sem poesia. Toca aqui, Milner. As línguas são fascinantes e por isso me meti nessa vida de linguista. Particularmente, gosto de metaforizar as coisas. A metáfora e a metonímia são toques especiais na linguagem que, em si, trazem à tona a poesia constitutiva da própria língua. Então, lá vou eu: o que a cigarra cataléptica metaforizaria?

Aquela cigarra é como algumas de nossas experiências de vida. Em determinados momentos, voamos livremente com uma situação ou uma idéia atrelada em nós – ou nós nela. Uma idéia que naquele ali e naquela hora é tudo para nós. Vivemos por ela, cantamos sua canção para o mundo, lutamos por ela e por ela juramos eternidade. No entanto, a vida, que é real e de viés, vai propondo novas estradas, embolando nossos planos. Esses planos de tão planos e claros vão a esburacados e obscuros. Começamos a duvidar de nossas certezas, a ter mais certeza de nossas dúvidas. Já não mais vislumbramos a eternidade, a música que tanto costumávamos cantar enjoa. Cansamos. E precisamos repousar. Precisamos deitar a idéia no chão gelado da cozinha, como se estivesse morta. Deixar de mão, dar um tempo.

Essa catalepsia da alma nos acomete em vários campos e tempos da vida. Pode atingir um projeto importante engavetado, uma desejada decisão radical adiada, um amor não vivido em sua plenitude. Como a cigarra em minha cozinha, eles precisam apenas de algo que as sacuda, que lhes jogue no ar, que lhes dê o tom para que comecem a cantar novamente, devolvendo-lhes as asas. E aí, até o mais pueril poeta sabe aonde vai dar o vôo de idéias com asas…

Por ocasião do meu aniversário, um dos meus milhares de primos perguntou se eu já tinha começado a contar os anos regressivamente. Segundo seu argumento, o sujeito sabe que está ficando velho quando altera o modelo de contagem: de “mais um aninho” passa-se a “menos um aninho”. Ainda não cheguei nesse estágio. Acredito até que esse é apenas um dos sintomas, ao qual vêm se juntar outros, como o aumento de religiosidade. Esse aumento no geral culmina, entre outras coisas, com a reza do terço. Sinceramente, o terço é resquício de outros tempos. Uma repetição enfadonha que acho que nem mesmo Nossa Senhora agüenta. Tenho a impressão de que as pessoas ficam no repeteco como que estivessem propondo uma troca: para cada mistério que rezo, eu dedico um tempo da minha vida. Minha vida está com os dias contados. Logo, espero de volta uma sobrevida aí, ó Deus. Mas Deus, acredito, não é burro nem surdo. Basta uma vez bem rezada, com o coração, que ele dispensa o terço todo. Deus é qualidade e não quantidade.

Assim, até nossa religiosidade é uma cigarra cataléptica. Às vezes achamos que não a temos mais. De repente, caímos buscando Deus nas menores coisas, achando nele a justificativa para nossa incapacidade de lidar com uma vida que não nos agrada, com situações que claramente fogem de nosso escopo de ação ou com a pura e simples falta de coragem para agir. Se eu não consigo lidar com algo, se esse algo é maior do que eu, pronto: Deus está me testando. Não consigo assumir minha incapacidade de lidar com a coisa e jogo nas costas do bom Deus. Por outro lado, se consigo gerenciar a situação complexa, minha incapacidade de reconhecer isso diz que é Deus que está por trás, que eu não tenho mérito nenhum. Não sei, preciso elaborar mais essa questão da relação minha e dos outros com o divino. Fico incomodado com tanto canal religioso na TV a cabo. Ao zapear por eles, vendo pastores, padres e terceiros – os que rezam o terço – não consigo conter frases indignadas: “Deixa Deus em paz!”, “Vai jogar bola, menino, em vez de ficar aí entediado rezando o terço!” É como diz o Chico César: tem gente perto demais de Deus; tem gente que não deixa Deus em paz. Deus me livre! Deus me guarde! Deus me faça a feira!

Mas se ando meio que buscando respostas metafísicas, de uma coisa tenho cada vez mais certeza: dentro de nós trazemos adormecidas cigarras nossas, dormentes, mas não mortas. Elas estão prontas para serem revividas, se for o caso. São nossos lázaros particulares. Quais as suas cigarras catalépticas, leitor? Se bem que mais importante do que identificar quais são, acredito, é identificar por que dormem. Então, refazendo: por que dormem suas cigarras? É por incapacidade sua de lidar com um eu que rompe demais com as coisas? É incapacidade de processar uma decisão mal tomada? É medo de voar como dantes? Em “Traduzir-se”, epígrafe desse texto, o grande poeta Ferreira Gullar afirma que uma parte de nós almoça e janta e a outra parte se espanta. Desde quando você não se permite o espanto? Desde quando você só almoça e janta, numa previsibilidade que equaciona sua vida numa matemática perfeita que a empobrece, se o bom da vida mesmo é a deriva, a possibilidade de tudo poder vir a ser outra coisa?

Dois dias depois do episódio da cigarra, foi a vez de uma barata na varanda. Mesma coisa: perninha pra cima, imóvel, pazinha de lixo. Vapt! Joguei a nojenta varanda abaixo. Pela altura do quarto andar, lá se vai a barata voando… Se tem cigarra cataléptica, também tem barata cataléptica. Por que não? Esse é o outro lado da questão.

Temos dentro de nós um nojentinho adormecido que só precisa de oportunidade para reviver e infernizar a vida dos outros. É aquele prazerz pequenininho de marcar poderzinho com aqueles atos miudinhos que cometemos no trabalho, por exemplo. É aquela desnecessária sacaneada que damos naquela pessoa de quem não gostamos, é uma espetadinha verbal no vizinho fofoqueiro que insiste em estacionar na porta de nossa casa. Aquele maltrato desnecessário à moça que nos serve no restaurante e que esqueceu da água mineral pedida. Coisas tão pequenas que dão um prazer enorme. Um prazer sádico, mal, de auto-afirmação, mas um prazer. E não venha me dizer que você não exerce esse prazer que direi que você está mentindo. Todo mundo tem suas baratas catalépticas dentro de si, zumbizando na espera da chance de vir à tona.

Baratas nojentas ou cigarras cantoras? Quais bichos catalépticos você guarda mais aí dentro, prontos para emergir? Quais você deixa emergir? Por quê? Para quê? Quais não deixa? E por que não? Quais você finge que não existe? E por que finge? Definindo o ser humano para terminar esse escrito: uma parte de mim é só cigarra, que canta e se espanta com a vida. Outra parte é uma barata, que vomita e que lambe a ferida. As pessoas vivem no balanço entre as duas. Nem só uma idealista cigarra pomba-lesa, nem só uma nojenta barata escrota. No meu balanço, tenho sido mais cigarra do que barata. Muito mais. Mas tenho percebido com o passar do tempo que às vezes as pessoas nos forçam a baratear nossas ações, ou seja, a ressuscitar a barata cataléptica que jaz aqui dentro. E é incrível como o mundo gosta das cigarras, mas só respeita as baratas. Somos um híbrido das duas coisas. O mundo platônico é das cigarras. O aristotélico é das baratas. Vou ousar ser poeta para dizer isso, chupando a estrutura do poema de Gullar:

Uma parte de mim todo mundo conhece/
outra parte, escondida,só adormece.
Uma parte de mim é paz, amor/
outra parte tristeza, mágoa e dor.

Uma parte de mim canta a canção/
outra quebra com gosto o violão.
Uma parte de mim faz todo dia/
Outra parte ignora e sempre adia.

Uma parte de mim parece igual/
outra parte, por trás, maquina o mal.
Uma parte de mim é uma cigarra/
outra parte,barata.

Aceitar uma parte e a outra parte
_ que é uma questão de vida ou morte _
será arte?

Setembro de 2004

Nós e o Office

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Quem você é?Estava olhando meu computador aqui e vi que na pasta do Office há uma série de aplicativos. Fiquei pensando como os programas têm uma correspondência com a diversidade de pessoas na vida real.

Eu, por exemplo, sou Word. Gosto de falar, escrever, convencer. Sou do tipo sociável, popular. Quase todo mundo escreve usando Word. Raramente fico chateado, mas às vezes, como o programa, eu travo e ponho todo o trabalho a perder. E se não se perde tudo, perde-se boa parte, reconheço. Não tem Control Z que resolva.

Conheço pessoas que são Excel. Não conseguem pensar a vida senão por equações, como se ela, a vida, fosse tão equacionável assim. Os Excel abdicam do presente quando não conseguem formular uma maneira de lidar com um fato, ainda que esse fato lhes agrade. É tão irrefreável a vontade de controlar tudo que os Excel escrevem textos em planilhas. Ignoram que o mundo real não cabe em células, muda o tempo todo – a não ser o que está morto, como diz Clarice Lispector – e que a matematização da vida traz infelicidade, pois afeto, por exemplo, não tem lógica, acontece.

Tenho um amigo que é um verdadeiro Access. Pergunte o nome completo do Galvão Bueno e ele, na bucha: Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno. Indague qual é a capital de Tuvalu e ele não só diz que é Funafuti como também lhe explica por que o país está afundando. As mulheres são Access de série, pois são capazes de lembrar uma ex-namorada sua, sobre quem você comentou há dez anos, se essa ex lhe deixar um scrap no Orkut.

Há muitas pessoas Powerpoint também. São as que gostam de se amostrar, como dizem os amazonenses. Espalhafatosas, cheias de efeitos e transições, gostam de circular muito. Quase sempre carecem de conteúdo externo para mostrar suas roupagens por aí. Tem aos montes.

Ainda há os Outlook. Esses adoram redes sociais. Conseguem se integrar rapidamente a novos contatos. Tem uma excelente memória, como os Access, guardando conversas por anos. Às vezes, no entanto, os Outlook se colocam senhas e se tornam inacessíveis e impenetráveis. Vastos, misteriosos e assustadores. Como o Mar.

E os Project? Os Project são os que planejam tudo, controlam cada detalhe, organizam as tarefas e cobram prazos. Os Project se zangam se alguém atrasa o cronograma. Verdadeiros bedéis da vida, eles se dão muito bem na carreira privada, mas não rodam direito em computadores públicos.

Você conhece os Publisher? São uns fofoqueiros. Não podem saber de uma informação que logo buscam uma maneira de publicá-la para o mundo. Para isso, já trazem modelos de divulgação pré-formatados. Disseminadores da vida alheia, esses Publisher.

Por fim, os Groove. Feitos para trabalhar em equipe, os Groove de repente dão pau e se isolam. Estamos interagimos bem e, do nada, perde-se o contato e se fica falando sozinho. É muito ruim a sensação de desconexão, principalmente sem nenhuma mensagem plausível do sistema. Indiferença machuca mais do que raiva.

A verdade é que cada um de nós é um pacote com um pouco dos programas do Office, uns mais conhecidos, outros menos. Somos assim para poder rodar num mundo cheio de janelas, tal qual o Windows. Como os programas do Office, somos indispensáveis e, ao mesmo tempo, cheios de bugs. Mas já não dizia Caetano que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é? Save. Send.

[PS: O Pessoal do código aberto já reclamou que estou fazendo propaganda de software proprietário. Tudo bem, farei uma versão do texto para Linux e OpenOffice…]

The Road Not Taken: escolhas

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Escolhas...

TWO roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost
Uma boa tradução aqui.

Uma frase para começar a semana…

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Se o amor é fantasia eu me encontro ultimamente em pleno Carnaval…

Escravo da alegria, Toquinho e Vinicius

Um texto antigo para recordar

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Anjos

AnjoAnjos. Eles existem? Anjos aparecem em nossas vidas de várias formas, de muitos jeitos. Anjos surgem do nada e entram na nossa vida para fazer o bem. Para nos fazer sentir bem. Sabe aquela pessoa que lhe deu uma informação-chave que lhe mudou a vida? Era um anjo. E aquele sorriso que mudou seu dia, do nada, de graça? Anjo. Aquele estanho que ajudou quando seu carro pifou, de noite, naquele lugar ermo? Anjo. Aquela amiga que te apresentou o amor da sua vida? Anjo. Um olhar cruzado no meio de uma multidão? Coisa de anjo, claro.

Anjos estão escondidos em corpos mais insuspeitos. Num chefe que faz a gente pensar e crescer após uma dura. No subordinado que, na sua simplicidade profissional, lembra ao chefe que no mundo real todos somos iguais. No policial que assusta por sua postura solícita.  No bandido que te assalta os bens e te devolve o senso de finitude, lembrando com o susto que o ser humano é efêmero e passageiro, forçando um repensar de valores. Anjos estão no cão salsichão que se entrelaça nas suas pernas, fazendo você sorrir. Mas anjos gostam mesmo é de vir em forma de crianças. A menininha de trança que sorriu e correu, lembra? Era um anjo. Como também era um anjo o garoto banguela que riu pra você naquele dia difícil. Como anjos são todas as crianças: o Pedro, a Eliza, a Mayara, a Bia, a Clara, a Nina…

A palavra “anjo” vem do grego ángelos e nos chegou por meio da latina angelu: mensageiro. Os anjos são mensageiros que executam as ordens do Criador. Os anjos são pura energia e assumem a forma que lhes convir. São representados com asas, simbolizando sua leveza e rapidez de locomoção. Uma auréola na cabeça lembra sua origem divina. Por vezes, são crianças que cedem sua figura aos anjos, simbolizando a inocência e a pureza. Os anjos são criaturas puras, evoluídas, com grande capacidade de amar e que, diferentemente dos seres humanos, não sofrem influência do meio físico.  Anjos são bons. Os anjos são certos e certeiros. Por mais que a gente não entenda qual é a dos anjos, qual é sua missão, por mais fora da racionalidade que essa missão possa parecer, saiba que os anjos não dão ponto sem nó. Eles sabem o que fazem.

Ah, quantos anjos já apareceram na minha vida… Muitos eu vi, muitos passaram por mim sem serem vistos. Muitos me acalmaram a alma, muitos me seduziram para momentos únicos e inesquecíveis. Muitos anjos tomaram conta de mim em momentos em que minha alma se achava inquieta e a colocaram no prumo. Muitos anjos me sacudiram a alma quando ela, muito quieta, se atrofiava com a vida. Fizeram-me correr por pastos virgens, afogar-me em laguinhos na praia. Muitos me puseram no colo e me ninaram. Muitos eu ninei. Muitos deitaram no chão comigo e olharam a lua sorridente. Muitos silenciaram e me deixaram sorver minha dor em um silêncio cúmplice. Muitos me inspiraram a escrever poesia. Muitos me fizeram rasgar poemas. Ainda não entendi muita coisa. Nem sei se vou entender. O anjo não espera compreensão: ele compreende. Franciscanamente, o anjo não odeia: ama. O anjo não ofende: perdoa. O anjo não traz discórdia: une. O anjo não duvida: crê. O anjo dá sem receber. O anjo não sofre: faz cafuné e consola.

Anjos são reconhecíveis por meio de algumas características: têm olhos brilhantes como o sol de Fortaleza, sorriso largo como do Curinga do Batman, gargalhada solta como a de um bebê que ri. Falam e nos surpreendem. Calam e nos dizem muito. Anjos transgridem para nos lembrar que as regras do mundo humano são reconfiguráveis. Sempre. E transgridem felizes, como o menino que avança por sobre o muro para emprestar de vez a maçã do vizinho do lado. Anjos possuem um canal direto com nosso coração. Basta ver um anjo, um rosto na multidão, e ele se fixa na sua retina, se mescla à sua mente, se integra à sua vida de forma indelével.

Anjos são inexplicáveis. Anjos não cabem em textos. Anjos são a própria linguagem do afeto, do bem-querer, do segredo divino. Meu anjo da guarda, guarde meus anjos para que nunca, nunca mesmo, eles deixem de povoar meus sonhos mais reais e minha realidade mais onírica. Guarde o perfume cigano do meu mundo gajão. Visite, meu anjo da guarda azul, lugares verdes interditos onde minhas asas jamais chegarão – a não ser as da minha imaginação fértil com seus dizeres interditos! – , mas as suas sim. E quando eu estiver distante da mulher que eu amo, sejam segundos ou anos, traga para mim o seu bem querer acostado na brisa mais compassada, que sopra sem rumo, mas que, com certeza, sopra pra mim. Com certeza, sopra pra mim.

Sérgio Augusto Freire de Souza 
 13 de julho de 2005

A vírgula fora do lugar

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commaUm dos problemas comuns na escrita é a separação do sujeito e predicado com uma vírgula. A vírgula fora do lugar está nos textos escritos e também nos vividos. Às vezes fazemos algo que destoa do texto que escrevemos e somos repreendidos pelos Pasquales que nos observam.

Meu amigo André sempre tirou a carinha do som do carro. Quando não o fez, roubaram. Vírgula fora do lugar. Um bom texto tem seu objetivo definido; a vida também. Um bom texto surpreende o leitor; a vida também. Por vezes tratamos nosso texto como um bilhete de mesa de bar. Pôr a vírgula fora do lugar nessas situações não tem problema, pois o certo e o errado vão pelo contexto. Na feira, pergunto: “pra quanto a enfiada de peixe, mano?” Se perguntar “Você pode me informar quanto custa um conjunto de dez jaraquis, senhor?” estarei pondo uma vírgula fora do lugar. Numa prova, a aluna escreveu: “Tem neguinho que acha que Paulo Freire já era”. Tem neguinho que acha que pode falar “tem neguinho” em textos acadêmicos. Vírgula fora do lugar.

Quem nunca teve dúvida na hora da vírgula? Será que me declaro para ela ou isso é separar o sujeito do predicado? Arrisco uma mexida no texto da minha vida ou deixo como está, sem saber se poderia ser mais interessante?

Há pessoas que amam vírgulas fora do lugar. Suas mãos teimam em rabiscar vírgulas errantes. Metem os pés pelas mãos ou as vírgulas pelos espaços em branco. Andam com errorex na bolsa, que corrige, mas deixa a marca.

E os revisores dos textos alheios? Fulano se esforça para escrever um texto e vem o espírito-de-porco botar uma vírgula. Vírgula posta por outro em nosso texto é vírgula moralmente fora do lugar. Os virguladores do texto alheio querem mostrar que sabem virgular, numa afirmação que esconde a incapacidade de escrever seu próprio texto. Vírgula no texto do outro é refresco.

No amor, quantos belos textos são jogados no lixo por causa daquele erro na mão? Vale a pena jogar fora uma biblioteca de Shakespeare por causa de um Paulo Coelho na estante? Será que o Paulo Coelho não tem a função de nos dar a percepção do valor do Shakespeare ignorado?

Por vezes tenho a impressão de que nós próprios somos vírgulas fora do lugar. Dá uma sensação de que estamos sobrando. Como uma vírgula que separa sujeito do predicado, temos a impressão de que nossa subjetividade está separada do mundo com sua sintaxe própria. Mera impressão: às vezes somos as vírgulas certas nos textos errados.

Tenho uma certeza sobre minhas vírgulas: são minhas. Nós não perdemos a capacidade de escrever belos textos porque pomos a vírgula fora do lugar. Não somos maus escritores. Somos escritores conjunturais, de textos de vida. Bem ou mal pontuados, mas nossos. Não importa se escritos a pena ou a faca, como os de Lampião, o Virgulino.

Se a vida é um texto, que mal há em experimentar as vírgulas? Há sempre a chance de começar um texto novo, de resgatar um texto amassado da lixeira. Precisamos aceitar que uma vírgula fora do lugar não pode pôr a perder um texto bonito. Às vezes, quando parece que é hora de um ponto final, basta pôr uma vírgula e continuar a história. Ela não perde o seu valor por causa de uma vírgula. Às vezes, de repente, até ganha.

Sérgio Augusto Freire de Souza

Jornal Em Tempo, 26 de março de 2008

A vida…

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Temos de ser nutridos, expelir os excessos e respirar para que nossas células não morram. Fora isso, o resto é opcional.

In the mood…

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Indian Summer
by  Dorothy Parker

In youth, it was a way I had
To do my best to please,
And change, with every passing lad,
To suit his theories.

But now I know the things I know,
And do the things I do;
And if you do not like me so,
To hell, my love, with you!

It depends on you…

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For what it’s worth: it’s never too late or, in my case, too early to be whoever you want to be. There’s no time limit, stop whenever you want. You can change or stay the same, there are no rules to this thing. We can make the best or the worst of it. I hope you make the best of it. And I hope you see things that startle you. I hope you feel things you never felt before. I hope you meet people with a different point of view. I hope you live a life you’re proud of. If you find that you’re not, I hope you have the strength to start all over again.

From: Benjamin Button