WhatsApp

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Ela era uma mulher linda, decidida, resolvida, profissionalmente reconhecida. Aí, um dia, do nada, recebeu uma mensagem de WhatsApp: – “Não quero mais ficar com você. Tenho outra”. Era o marido, acabando tudo, em uma mensagem de WhatsApp. Ficou sem chão, chorou rios, sentiu a dor que sentem os desprezados. Ela merecia bem mais do que tudo isso. Mas ela era uma mulher linda, decidida, resolvida. Colocou seu melhor sorriso, decidiu ser feliz. Resolveu seguir a vida. Soube logo que sem se amar sem limites ser amada seria tarefa complicada. Nossa felicidade não depende de uma pessoa específica. A vida seguiu. E tanta gente esperando só um sorriso dela para chegar perto e ela nem desconfia…

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Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.

A redenção pelo McFly

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McFly FreireHoje é o dia em que Marty McFly chega, vindo da década de 80. Todo esse buzz, os memes e vídeos que derivam da chegada do McFly nos apontam para duas coisas. A primeira é a apropriação voraz na internet de agendas que ela mesma cria – para depois desaparecer com a mesma rapidez. E a segunda coisa é o fascínio que o futuro exerce sobre cada um de nós.
A liquidez evidenciada por Zygmunt Bauman foi acelerada. Vivemos uma quase condensação das coisas. É tudo tão rápido que já não são mais tempos líquidos, mas tempos gasosos. “Senhora, senhora” já é coisa do ano passado, parece. Tudo que era sólido se liquefez e tudo que é líquido se desmancha no ar. O passado se adensa, se atulha com a memória metálica das tecnologias e o presente corre desesperadamente em um tempo que tudo é urgente. Vivemos a morte da contemplação. Ser permanente em tempos de impermanência chega a ser um ato de rebeldia, um ato revolucionário. Daí algumas pessoas irem montanhar sem relógio e sem internet. Resistência pura. Daí as pessoas serem tragadas por religiões que prometem organizar a vida, tão caótica porque em pó. Desistência pura. Essa mudança do passado que antes ficava na memória biológica para um passado que se tem disponível a um click de mouse e do presente contemplativo da racionalidade moderna para um presente que urge as urgências urgentes da pós-modernidade potencializaram a necessidade de desejar pelo futuro. Desejar mais. Para fugir do atoleiro. Para, como avestruzes dimensionais, enfiar a cabeça em outra dimensão e escapar do mal-estar do presente.
Mote da trilogia que está na pauta, o desejo pelo futuro é uma maneira inconsciente do sujeito exilar-se do presente. Buscamos desesperadamente as mudanças porque não temos como pagar a conta psíquica dessa realidade. E por que não damos conta dela?
Com a globalização, pós-modernidade, sociedade da informação ou em rede – escolha no cardápio o nome –, deu-se fim à hierarquia e à ordem como desejável. O saber virou genérico. Todo mundo sabe tudo. Basta o Google e enter. Flatou-se tudo, de flat, do inglês. Com a desordem como o novo parâmetro – sem o peso pejorativo do termo – não nos queixamos mais de não conseguir atingir nossos objetivos, mas reclamamos porque nos afogamos nas infinitas possibilidades que se apresentam como objetivos. É tanto objetivo possível que angustia. Se antes buscávamos uma certeza verdadeira para a pacificação e alívio do sujeito, hoje buscamos uma certeza convencida porque a verdadeira leva tempo de maturação, tempo que já não temos mais. Basta uma certeza convencida. Não cabem mais verdades no figurino desse mundo. Mas espera aí. Mudou tudo assim tão rápido e nem nos demos conta? Sim. Muita coisa, muito rápido, não nos demos e não damos conta. E agora? Agora? Agora vamos então falar sobre a nova TekPix? Ou sobre o futuro?
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Freud: ”O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”. No filme, McFly só sabe o que tem do outro lado quando chega lá. Mexer com o passado exige coragem e ousadia, pois reverbera no presente. E aí? Vamos esperá-lo na praça do relógio? E você leitor, para ir lá, o que deixa do lado de cá que lhe angustia tanto? SF.

Over

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Sério: quando um relacionamento termina, ele tem de acabar. “Ain, mas a gente é amigo!”. Amigo é meu ovo! Terminou, acabou! “Ain, mas ele está sofrendo!”. Problema dele, dos amigos dele e da família dele. Não existe uma forma de reequilibrar a vida pós-término sem se distanciar. Corte tudo que alimenta a centelha de esperança, apague os nomes das agendas, limpe o Facebook, bloqueie todo mundo que vai fazer mal. Depois, lá na frente, quando encontrar no shopping um dia, diga “oi, tudo bem?”. Mas lá na frente. No começo, mude de calçada mesmo. Vai por mim. Se não a bagaça não sara. Como sarar se ficar cutucando a casquinha?

Drops da Florida

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Estávamos num Wallgreens e a Fabiana olhando uns cosméticos. Eu zanzando por perto. Aí eu ouvi a frase:
– Wait! I don’t speak English! My husband! Wait!
Ela usava essa frase quando o dialeto que ela inventou pra se comunicar – uma espécie de papiamento misturando português, espanhol, inglês, caipirês – não funcionava mais e ela me chamava para ser intérprete, se fiando no fato do papai aqui ser professor de inglês na universidade.
– O que foi, amor?
– Traduz pra ela o que eu quero.
– E o que é?
– Um cc-cream com um necessário fator de proteção semi-intenso 20 para tez suave. Matizada. Tem de ser matizada, tipo fosco, mas nem tanto.

Foi assim que eu vi que tenho de mudar de profissão. Ou fazer um curso de inglês instrumental de makes. Arreguei. Fui ver meus cabos de computador. E ela teve de apelar pro papiamento dela. Comprou.

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Era umas oito da noite e a Fabiana resolveu que a gente tinha de comprar toalhas para levar pro Aquatica Orlando, de manhã cedo, no dia seguinte. Todo mundo podre de cansado. Ela disse:
– Me dá dinheiro aí. Vou a pé nessas lojinhas do outro lado da rua.
– Vai sozinha?
– É perigoso?
– Não, não… é por causa do inglês. Vai usar o papiamento?
– Me dá dinheiro.
Levou 25 obamas e foi. Daqui a pouco ela volta, com duas toalhas.
– E aí? Deu certo?
– Tu nem sabes… Eu achei essas duas toalhas, $12 cada. Eu tinha $25, calculei que dava daí. Quando fui pagar, deu $ 25.44. Tinha esquecido da pegadinha do imposto de 6% separado do preço. Falei pra mulher: “Wait!Best Western International Drive – Orlando! Go money!”. Disse pra ela guardar a toalha que eu vinha aqui pegar no hotel os ¢50. Mas ela disse: “No! Don’t worry!” e pegou uma moedinha de um potinho. Acho que um potinho que eles têm pra isso. Eu disse “Thank you!”, sorri e vim embora.

E assim o Brasil teve um superávit de ¢50 na balança comercial com os EUA na primeira quinzena de setembro e a vendedora teve um prejuca de ¢50 na sua tip jar.

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Primeiro dia de Universal e Islands of Adventure. Chegamos com os parques abrindo, saímos com eles fechando. Felizes, mas muito, muito, muito cansados, pés doloridos, doidos pra chegar no hotel, tomar um banho e cair na cama. Na saída, já perto do globo, uma moça bonitinha perguntou se não gostaríamos de participar de uma pesquisa de satisfação. Eu e minha mente brazuca pensamos: – “Opa! Vai ter brinde!”. Aceitei com um solícito “Oh, yes! Why not?”. Foram 20 minutos de perguntas. Fabiana me fuzilando com os olhos. Marina, com dor de viado de tanto andar, já respondendo tudo “excellent” por mim para acabar logo. No final, um “Thank you!” fajuto. No gifts. Ninguém tocou no assunto até o outro dia de Universal, na saída, quando as meninas ao verem os entrevistadores recrutando gente para a pesquisa disseram, quase juntas: “Nem pensar, pai!”. Nem pensar. Nem pensar.

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Reconheçamos: os americanos são grandes entrepreneurs. Tudo que se metem a fazer fazem muito bem, de forma planejada, impecável. As gramas nas laterais das ruas são sempre verdinhas porque quando são colocadas lá, também já se colocam os sprinklers para regá-las na hora certa. As regras são cumpridas nem tanto por sua existência – ter regras não garante nada –, mas pelo enforcement, ou seja, pela certeza de que tem algo mais forte que vai fazê-las ser cumpridas. Se isso é admirável por um lado, é inevitável que por outro esse preciosismo no enforcement em tudo crie uma panela de pressão no sujeito que, curiosamente, não tem sprinklers de escape, de deriva. A americana é uma sociedade sem deriva, diferente da brasileira em que derivar é a regra e seguir a regra não é cool. Aqui as coisas são frouxas e perdemos muito por isso. A gente não planeja. A gente resolve no caminho. O psicanalista Contardo Calligaris fala disso no livro “Hello Brasil!”. Há regras, mas não se cumprem. Chega a ser até coisa de otário para muitos. Lá, ter de cumprir tanta regra leva o sujeito às vezes a bater a biela. Ou puxar o gatilho contra pessoas que são, pra ele, a sociedade que oprime personificada. Navegar, como dizia o poeta, exige precisão: da bússola, da carta, do trajeto. Viver não é preciso. Viver requer deriva, escape. Ou paga-se um preço alto quando as pulsões explodem. É o toma lá da cá das coisas.

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Nunca planejei tanto uma viagem. Fiz uma planilha no Excel e lancei previsão de gastos diários, com um plus por dia para imprevistos. Para cada atividade prevista, pesquisei preços, alternativas, detalhes importantes, pegadinhas para ficar atento, roteiros. Andei pelos lugares no Google Street View. Consultei o Yelp.com e o app para ver a reputação dos lugares. Comprei um GPS aqui – mesmo preço de lá e não entrou na cota por ser nacional, da Multilaser –, baixei nos fóruns de GPS um programa melhor (iGo), o mapa da Florida atualizado e pré-programei todas as nossas rotas. Está tudo na internet. Tem de garimpar, tem de organizar. Planejei comprar um chip pré-pago da T-Mobile com internet, mas ganhei um da minha amiga Marta que acabara de voltar dos Estêites e que valia até fim de setembro. Economia de $40. Lá, ao fim de cada dia, atualizava a planilha com os gastos reais no celular. Levei dinheiro baseado na planilha. E só dinheiro. Usar cartão de crédito nem pensar. Visa Travel Money não compensa também com o IOF alto. Escolhi hotéis com cofres peloBooking.com. Saía com o dinheiro do gasto planejado do dia e um plus de 100 dólares, só pra garantir. Sempre voltaram ao cofre. Sobrou dinheiro. Era para sobrar, já que tinha um plus previsto. O que pude pagar no Brasil, em Real, parcelado e antecipado, eu paguei: seguro-saúde, entrada dos parques e aluguel do carro. Como disse, evitei usar cartão de crédito. Com esse câmbio maluco e o IOF nas alturas é suicídio. Só usei para carregar o pedágio pré-pago no App do celular porque não tinha jeito, e, claro, para as garantias de praxe no aluguel do carro e nos hotéis. Nos parques, usava os apps para escolher os brinquedos e saber o tempo de filas. Tanto a Disney quanto a Universal tem programas bem bacanas, que mostram onde você está. Só errei numa coisa: programei dez dias e não contava que a lista das encomendas da minha sogra demorasse tanto para ser vencida. Se viajar e tiver as encomendas inevitáveis, ponha pelo menos mais dois dias aí no seu roteiro para distribuir melhor as coisas e ficar menos corrido. Já comecei a planejar nossa viagem ao Chile.

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Alguém falou pra Fabiana que comida industrializada podia levar. E líquido também, desde que limitado a 150 ml e dentro de um ziplock. Pronto. Lá fui no Carrefour antes da viagem comprar saquinhos ziplock. Miojo, Sustagen, Fandangos, Ruffles, Chocolate, Ninho 3+, tudo ziplockado. Quando vi, até minhas cuecas estavam no ziplock. Era tanto ziplock que o cara da alfândega perguntou se a gente representava a marca no Brasil. Depois de dois dias de parques, confesso que fiquei assado de tanto andar. Só me ocorreu colocar gelo no ziplock e… zip! fazer uma compressa geladinha nas partes. Que alívio! Dica: não esqueça dos seus ziplocks se for pros Estêites.  

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deio montanhas-russas. Aliás, qualquer coisa com movimentos bruscos. passo mal, fico gelado e tudo isso. Mas fiz um esforço de pai, jurando para a Ana Clara – que estava com medo, mas a fim de ir – que a Mina dos Sete Anões, no Magic Kingdom, ia ser show, que ela ia adorar e tal. Acabei convencendo e fomos. Ela e a mãe no carrinho da frente. Eu e a Nina no de trás. Quando aquele negócio acelerou, eu gritava:
– “Viu, filha! U-huuuu! Que show! WOW! Bacana! Uêba! U-huuuuu! Que massa!! Que legaaaalllllll!”
Quando acabou, na saída, disfarcei meu quase-desmaio e perguntei:
– “E aí, filha? Gostou? Não é bacana?”
Ela disse:
– “Adorei, pai. Valeu!”
Aí a Marina arrematou:
– “Papai quando fica apavorado fica gritando que está gostando pra disfarçar.”
– “Eu sei”, disse a Clara.
Pensei que estava enganando todo mundo.

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A comida nos EUA, pro meu gosto, é muito ruim. E, pro meu bolso, muito cara. A não ser que você tenha um cartão Platinum sem limite, não dá pra almoçar e jantar em restaurante, não. É quase um iPhone 6s por dia. Mas cansados de comer fast food, resolvemos ir ao Uno, restaurante bem em frente ao Best Western da International Drive, onde ficamos. Fomos atendidos por um garçom muito simpático que começou anotando nossos pedidos em inglês. Depois perguntou de onde éramos. Quando eu disse que éramos do Brasil, ele disse que se precisasse chamaria alguém para nos atender em português. Era gaiatice. Ele falava português, logo revelou. Adão – ou Adam – é um português que tinha imigrado há uns 15 anos para os States. Muito falador, se dirigia sempre a Bia. Até que disse, em bom português:
– Estou impressionado. Você é muito bonita e se parece com uma namorada brasileira que eu tenho, mas que ainda não conheço.
Pediu até pra tirar foto com ela.
Senti um clima. Domei meu ciúme e me concentrei no meu steak com molho barbecue que comi com a gana dos biafras africanos. Ao final, quando trouxe a conta, eu falei:
– Ok. Pode por mais 20% pelo serviço.
Ele olhou encantado pra Bia e disse:
– Não precisa tanto. 15% está bom.
Só não fiquei com mais ciúmes porque a moça que fez pesquisa de satisfação comigo quando estávamos saindo da Universal disse, quando eu falei que tinha 47 anos:
– Não acredito. Você é muito bonito e não parece tão velho.
É claro que não traduzi isso pra Bia. I’m not dead. Desmaiado talvez. Not dead.

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Papo no avião:
– Estou com frio na barriga.
– Normal. Ansiedade. Outro país, coisas novas.
– Mas estou com medo.
– Medo de quê? Vai dar tudo certo, amor.
– Medo, sei lá, de ser presa.
– Presa?! Tu não está pensando em roubar nada no Walmart, não, tá?
– Claro que não! Sei lá… Nos EUA de repente aparecem aqueles policiais vestindo preto e levam a gente.
Chegamos, pegamos a fila da imigração. Uma hora de fila. Quando estava chegando a nossa vez, uma gritaria vindo da fila de imigração dos diplomatas. Pelo que entendi, um gaiato hispanohablante não quis esperar na filona e tentou ir na dos diplomatas. Só veio o papoco. Uns cinco policiais, vestindo preto, chegaram perguntando alto:
– Who’s is he? Where is he?
E já foram algemando o cara, que gritava:
– ¡Ella está mintiendo! ¡No arrestarme!
Quando eu olho para Bia, ela está lívida, branca, como se ela fosse ser a próxima a ser algemada.
– Viu? Viu?
E passou o resto do tempo da fila em um silêncio sepulcral, com medo de ser presa por estar levando Sustagen e miojo na bolsa.

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Não gostei do pouco que vi de Miami, não. Já Orlando é uma cidade bacana. Chegamos em Miami e já fomos direto pra lá. Aluguei um Chrysler 200, muito confortável, todo completão, automático, cruise control, com tudo que se tem direito. Um carro que custa US$ 22 mil lá e a bagatela de R$ 190 mil aqui. Aluguei pela Thrifty e paguei em reais, parcelados, fugindo do dólar alto e do IOF idem. Marina ficou fascinada com o carro. E descobriu o botão para abrir o teto solar justamente na hora de um toró violento. Molhou todo mundo. As locadoras querem empurrar o SunPass – transponder de pedágio automático –, só que elas cobram muito caro. Disse que não queria. Saí do aeroporto sem o transponder e parei numa Walgreens num mall bem pertinho do aeroporto. Quis gastar meu inglês, mas só se fala espanhol na coxinhalândia americana. Comprei por US$ 5 dólares o sticker do SunPass (minha mulher aproveitou pra comprar o primeiro dos 375 Aussies), carreguei US$ 30 dólares pelo app da SunPass no celular e tchau e benção. Deu pra ida e ainda sobrou. Saí daqui de Manaus com a rota do Car Rental Center até o Wallgreens já armazenada no GPS. Aliás, todas as nossas rotas. Dá para ir de Miami para Orlando pela Florida Turnpike ou pela I-95. Preferi pagar mais pedágio e ir pela Turnpike. Ela tem plazas para parar no meio do caminho e lavar o rosto. A estrada é um retão e dá um sono. Já tinha tudo esquematizado aqui. Planejamento é tudo.

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Lá estávamos nós. Primeiro dia de parques. Começamos pelo Islands of Adventure. Entramos e eu, seguindo a dica do Eduardo Jorge S. Honorato, disse que era meu aniversário. Ganhei um bottom de aniversariante e mais de mil Happy Birthdays durante o dia. Na verdade era quase meu aniversário. Tinha sido no dia anterior. White lie. Fomos na área do Gatola da Cartola. De repente eu vejo o Gatola e grito, extasiado:
– O Gatola! Vão lá tirar foto com ele! Vão lá!
– Mas pai…
– Cuida! Se não ele vai embora!
– É que…
– Vão logo!
Elas foram. E tiramos as fotos. Andamos mais um pouco e vi uma fila pra tirar foto.
– Quem é esse?
– É o Gatola, pai.
– Gatola?! Mas e aquele?
– Era o que eu estava tentando dizer, pai. Que aquele não era o Gatola.
Preciso assistir mais aos desenhos…

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Na pausa pra comer alguma coisa no Outlet Premium, em seu Orlando, decidimos comer pizza e massa na Villa Fresh Italian Kitchen, na praça de alimentação. Tinha um gordinho muito mal-humorado que servia as coisas. Eu passei até que mais ou menos pelo humor dele. Mas o cara depois de mim na fila levou um esporro quando perguntou como era o talharim deles.
– “Listen, my friend! Here, in China, in Italy, in New Zealand, in Africa, everywhere, taglierin is taglierin, exactly the same!”
– “Ok, sorry for asking”, disse o homem desolado.
Me senti em Manaus por alguns minutos.

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Estávamos saindo do estacionamento do hotel em Orlando. Um senhor, bem apessoado, bem vestido, uns 50 e pouco anos, fez sinal para eu parar. Parei, baixei o vidro. E ele disse:
– Você pode me ajudar? Estava indo pro trabalho e fiquei sem gasolina. Você poderia me dar dinheiro pra eu poder ir trabalhar?
– Desculpa, amigo, mas não ando com dinheiro.

Lá também tem golpe e Miguelation. Saidinha de hotel.

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Duas coisas interessantes. Não tem moto nas ruas de Orlando. Aliás, vi uma Harley-Davidson, mas já perto da Nasa, em Cabo Canaveral. Se bem que HD não conta. É hobby, não é meio de transporte. Lá, a sociedade é dos carros. Ponto. Nada de mototaxistas com camisas da Sportline Nell fazendo zig-zags. E a outra coisa interessante é que não tem mosquito. Aliás, tem. Tem uns mosquitinhos safados que só voam transando, os marotos. Vi muitos deles na NASA, mas tinha em seu Orlando também. Depois descobri que eles se chamam love-bugs. That figures!

Quatro tons de Branco

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Eu acreditava que nunca mais iria gostar de alguém. Todo mundo quando está arrebentado de amor sempre acha que o coração não tem a capacidade de se regenerar e remendar os tecidos necrosados. Aí ou a gente vai para um ostrismo, toda fechada para o mundo, ou parte para explorar as possibilidades. Eu tinha entrado naquela fase de curtição, onde o limite é o prazer e não o afeto. Nessa fase, a regra é escolher alguém que mexe com você, no bom e no mal sentido.

A pauta era uma entrevista com um secretário de Estado. Dividir minha vida amorosa de franco-atiradora com a loucura da profissão de jornalista passou a ser a receita para manter a sanidade depois que ele se foi daquela forma abrupta naquele acidente.

– Toca pra Ilha da Fantasia, Cabeça.

Ilha da Fantasia é como, nós, jornalistas, chamamos o condomínio mais chic da cidade, onde moram vários políticos, empresários e mais uma dezena de pessoas que dividem o glamour das páginas sociais com o segredo de justiça dos inquéritos da Polícia Federal.

– Por que na Ilha, Fernandinha?, perguntou o Cabeça.
– Vai ser na casa dele. No escritório da casa dele. Foi a condição para ele dar a entrevista. O Kraken disse pra gente ir lá, a gente vai lá, Cabeça. Um dia quando tu fores editor, tu mandas. Por enquanto tu és o motorista. Obedece e pisa aí.
– “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
– Tu e tuas frases originais… Registrou essa? Alguém pode roubar…
– A sabedoria popular sabe das coisas, bebê…

Ele me esperava no escritório da casa. A casa tinha uma garagem com quatro carros estacionados. Uma SUV BMW branca chamava atenção. Ao entrar ali, caí na real quanto à desigualdade de distribuição de renda no país. Tem gente que é muito rica. São muitos mundos muito diferentes em um mesmo país. Confesso que tenho uma raiva ressentida dos muitos ricos. Sempre trago na cabeça o que meu pai me disse um dia: há um teto salarial para gente honesta. Mais do que aquilo, só pisando nas pessoas ou jogando valores no lixo. Parece que é assim mesmo.

– Bom dia!, eu disse ao entrar no escritório. Havia um quadro de Frida Kahlo e um de Picasso. Imitações, claro. Aquelas sobrancelhas de Frida sempre me deram arrepios.
– Olá, entre. Estava lhe esperando.

André Branco, uns 40 e poucos anos, meio grisalho, vestindo uma camisa polo preta. Era o secretário da minha pauta. Ele me cumprimentou com dois beijinhos. Foi estranho. Sempre olhei para aquele cara com a ojeriza de militante de esquerda. Mas a iniciativa foi dele e não tive muito como evitar.

– Posso fotografar o lugar?
– Claro. À vontade. Vocês não andam mais com fotógrafos?
– Redução de custos. A gente joga em todas. Depois que inventaram o videorreporter…

Enquanto fotografava, o perfume dele, que ficou colado em mim, me desconcentrava. Era francês, eu tinha certeza. Fiquei com vontade de perguntar o nome, mas não combinava nem com o momento e nem com a tarefa para qual eu havia sido designada. Era do tipo de perfume que a gente sente e tem vontade de comer a pessoa que está usando. O perfume certo na vulnerabilidade adequada pode render bons caldos.

– Quantos anos você tem?
– Isso não se pergunta a uma mulher, secretário.
– Kouros. Yves Saint Laurent.
– O quê?
– Meu perfume. Você não consegue disfarçar que gostou dele. Quantos anos? É justo. Uma informação para cada.
– Vinte e dois. Bom, tenho umas perguntas a lhe fazer. Podemos? Posso gravar?
– Claro.
– O senhor está sendo acusado de fraudar uma licitação na sua secretaria. O que o senhor tem a dizer sobre isso.
– Não há fraude. Tudo foi feito dentro da lei. O que houve foi uma dispensa de licitação porque a empresa que ganhou o serviço era a única com capacidade técnica atestada. O problema é que as pessoas não entendem e quando se fala em ‘dispensa de licitação’ acham que isso é ilegal. Lei 8.666. É só ler.
– Mas na denúncia apresentada pelo Ministério Público…
– O Ministério Público quer ser mais real do que o rei. São administradores frustrados que querem administrar pelo executivo. Até hoje eles não entenderam direito qual é a função deles. Você é uma jovem repórter. Sabe qual é a sua função no jornal. Se quiser fazer a função de outro, cujo conhecimento técnico não possui, não vai dar certo, entende?

Achei que foi uma indireta para a função de fotógrafa.

– Segundo a denúncia do MP, a empresa é de um primo seu.
– E qual é o problema? Era a única empresa com capacidade técnica para fazer o que tinha de ser feito. Eu vou prejudicar a população porque a empresa é de um primo? Besteira. Seu nome é Fernanda, não é?
– Sim.
– Então, Fernanda. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto.

Ele falou aquilo olhando nos meus olhos. Aquele homem não chegara aonde chegara à toa. Ele sabia o que dizia. Ele sabia convencer. Ele era um homem bonito. Já não me parecia um monstro abominável do capitalismo selvagem.

A entrevista continuou. Ele respondeu tudo com segurança. Saí meio que convencida.

No carro, Cabeça perguntou se tinha ido tudo bem. Eu disse que sim e fomos adiante. Tinha outra pauta. Era sobre o aniversário da cidade. Um historiador da universidade. Gente chata. O cara já tinha desmarcado duas vezes.

– Vamos para a Universidade, Cabeção. Ver se dessa vez rola.

– “Água mole em pedra dura…”

Não sei dizer a razão, mas aquele cara não me saía da cabeça. Fui fuçar para ver se ele tinha Facebook. Tinha. Era casado. Mulher bonita. Dois filhos. Um casal. Fotos em Chicago, em Veneza, Paris. Torcedor do Botafogo. Acho que um dos cinco da cidade, pensei comigo, o sacaneando mentalmente. Ri sozinha. Alicia perguntou quem era.

– Quem é o quê?
– Me poupe, Fernanda. Eu te conheço. De quem é esse perfil do Facebook aberto aí.
– Virou advinha agora?

Fato é que Alicia me conhecia como ninguém. Minha amiga, confidente, cúmplice. Contei a história para ela.

– Furada. Tu sabes. Casado é rolo.
– Ele nem sabe de mim… quer dizer, nem sabe que estou stalkeando ele.
– Cara, eu te apoio em tudo. Mas se tu se meter nessa, tu tá sozinha…
Depois que voltei da casa da Alícia, fiquei pensando. Fiquei tentada a ligar para ele. Ele me deu o cartão com o número do celular anotado à mão. Resolvi mandar uma mensagem.

– “Olá. Aqui é Fernanda, do jornal. Preciso de informações para fechar a matéria. Aguardo retorno.”
– “Olá. Aqui é Branco. Quando quiser. E onde quiser…”

Caraca. Por essa eu não esperava. “Onde quiser…”! Reticências. Reticências são malvadas. Reticências contêm o mundo. Comecei a gostar do joguinho.

– “Eu escolho o lugar? Perigoso isso…”
– “O perigo dá o tom da vida… Me ligue amanhã à tarde e combinamos.”

Passei a noite olhando para o teto do meu quarto e pensando em algumas coisas. Pensei sobre a regra de ouro de nunca ir para a cama no primeiro encontro. Pensei em todos os conselhos para nunca se meter com homem casado. Pensei na ameaça explícita da Alícia. Pensei no desejo que aquele homem me desperta. Pensei na tensão. Pensei no tesão. Pensei na transa. Pensei muito na transa. Minha imaginação dirigia o movimento dos meus dedos por baixo do edredom. Olhos fechados, viajei na sua presença dentro da minha imaginação, dentro de mim. Definitivamente eu o queria. Se ele fazia isso comigo só no desejo, imagina no jogo de corpos. Dormi leve como uma nuvem.

“Oi, quero você.”

Send. Dane-se. Vamos ver o que rola. Nem esperei amanhã à tarde,

“Onde te encontro, menina?”, veio a resposta.

“Queria tomar água de coco, mas não rola. Estou sozinha com minha vó.”

“Mande seu endereço”. Eu mandei. Tem uma hora na vida da gente que a gente vai dando enter, enter, enter, sem ler. Seja o que Deus quiser…

Quarenta minutos depois, um SMS avisando que chegou. Um carro preto parado em frente de casa, sob a mangueira do terreno do outro lado da rua. Eu decidi ir lá. Confesso que estava suando frio. Minhas mãos molhadas. Meu coração saindo pela boca. Era muita porra-louquice. Mas o desejo de ver aonde isso ia dar era maior que o medo.

– Oi…
– Quer entrar? A porta de lá está aberta.
– Tá.

Ao entrar no carro, senti o perfume no ar. Desconfio que o filho da mãe borrifou para me inebriar. Sem falar nada, ele alcançou um saco plástico no banco de trás e aumentou um pouco o som – rolava Tarde em Itapoã. Ele estendeu o saco plástico e disse:

– Pra você, menina.
– O que é isso?, disse, abrindo a sacolinha.
– Água de coco. Faz bem para o colesterol e evita câimbras. É em caixinha, mas dadas as circunstâncias…

Tive que rir. Além de bonito, cheiroso, o cara ainda era espirituoso. Gosto de homens que me fazem sorrir. Não gosto dos que me fazem gargalhar, no entanto. Quer dizer, não para ter algo. Tem de ser aquele sorriso roubado, que não dá para conter. Ponto para ele. Charme é aquilo que desequilibra os olhos e baculeja os pensamentos. Ele era muito charmoso, vamos combinar.

– Obrigada. Não precisava. Quer uma?
– Quero. Obrigado.

Ele colocou o canudinho na caixinha dele e me deu, antes de enfiar na minha e ficar para ele.

– O que você quer de mim?, ele perguntou enigmático.
– Quero testar o meu poder de sedução. Provar que não existe homem fiel. Mostrar que o homem age por instinto e não pela razão.
– Eu estava me referindo à informação para a sua matéria. Mas já que você falou isso, quem é que traumatizou você assim?

Oops! Sorri para disfarçar que acusei o golpe. Ele falou “você”… Quando um homem muda do “tu” para “você” é porque ele está a fim. Ele estava a fim. Mas não era efusivo, nem afoito. Mais um ponto para ele. Não gosto de efusividades.

– Ninguém me traumatizou. Você é casado. O que você está fazendo aqui?
– O que uma coisa tem a ver com a outra?
– Vocês homens são todos iguais.
– Frase original…

Eu me senti o Cabeça.

– Você quer casar comigo? Acabar com meu casamento?
– Claro que não!
– Então não vejo problema. Há diferentes tipos de afetos. Uma coisa é você ter sua família, gostar dela, protegê-la. Outra é você dar vazão para as paixões que se apresentam na vida.
– Quer saber? Esse seu papo é muito canalha, cara!
– Quer que eu vá embora? Sem problema.
– Não, não quero. Eu quero você. Quis no dia que vi você.

Lá estava eu falando “você”…

Ele olhou para mim. Sorriu. Ouviu o que queria. Conversamos amenidades por meia hora. Ele trocou a música. Colocou Marisa Monte, “Beija eu”.. Ele foi se aproximando de mim. O perfume foi ficando mais forte e quanto mais forte ficava, mais eu sentia que ia me entregar àquele homem. Ele chegou com o rosto perto de minha boca. Dava para sentir o seu hálito de menta. Ele veio em minha direção e parou. Olhou-me bem dentro dos olhos. Disse, num sussurro:

– Eu sou um obediente musical.

Chegou mais perto. Senti que estava prestes a me beijar. Antes de colar seus lábios nos meus, no entanto, passou a ponta da língua no canto da minha boca. Depois passeou com ela pelos meus lábios. Explorava meu rosto como se desbravasse uma selva que lhe era virgem. Mordeu de leve. Eu já estava maluca e ele sabia disso. Sentia e ouvia a sua respiração quente. Ele enfiou a língua em minha boca e encontrou a minha língua, molhada e receptiva. Foi a primeira vez que ele entrou em mim. Chupava minha língua sem força, quase flutuando sobre ela, como quem sorve um sorvete de casquinha no início, num beijo leve e bom. O beijo é o que muda o desejo de lugar.

Seu corpo se envergou sobre o meu. Ele me abraçou enquanto me beijava. Estava completamente entregue àquilo. De repente, ele puxou a gola de minha blusa e começou a morder meu ombro, meu pescoço, minha nuca. Eu queria explodir. Estava completamente encharcada de desejo. Ele, atraído por isso, eu desconfio, pousou a mão sobre a minha coxa. Foi deslizando a mão para a parte interna da minha perna. Devagar. Segurei sua mão. Ele recolheu. Segurei sua mão. Ele entendeu. Seu dedo achou o caminho até mim. Deixei que ele entrasse em mim pela segunda vez. Gozei pela primeira vez de incontáveis vezes.

Sua mão era macia. Senti a maciez também quando a colocou em minha barriga, levantando a minha blusa. Sabia que aquilo era um caminho sem volta. A gente sabe quando chega ao ponto do não retorno nas querências, cujo o único destino possível é o sexo. O sexo bom. Como aquele que se anunciava com seu polegar a explorar caminhos por debaixo do elástico meu soutien… Sua mão não tinha pressa. Já tinha mostrado que sabia aonde ia. Levantou meu soutien, libertando o que era seu objetivo. A rigidez do mamilo denunciava o quanto eu queria e sinalizava para ele para que continuasse. Senti seu polegar apertar de leve. Depois foi o indicador a circular a auréola como um cego lendo desejos em braile. Eu respirava forte e cada vez mais rápido. Sua mão envolvia meu seio e com a palma ele fazia leves pressões. Soltei um “ai” involuntário. Tesão dói.

Minha blusa já estava no meio da barriga quando ele olhou para mim e, com o olhar, anunciou que iria levantá-la mais. Pegou delicadamente a blusa com as duas mãos em sua extremidade inferior e foi levantando. Ali estava eu, com praticamente um estranho, de peito nu. Ele olhou. Ficou um tempo admirando como se estivesse me fotografando mentalmente. Passou a mão numa pinta que tenho acima do seio direito. Mordeu o lábio. Sem dizer nada, foi chegando de novo junto a mim. Mergulhou nos meus peitos e cheirou meu corpo. Eu apertava seu rosto contra o meu corpo e passava a mão por entre seus cabelos. Ele se deliciou comigo. Sua língua me fazia sentir raios no corpo. Mordiscava e lambia. De mim, ele sentia o gosto. Por ele, eu me senti desejada.

Decidi devolver o carinho. Minha mão correu por sobre sua perna. Pude sentir o tamanho do seu desejo por mim. Roupas prendem desejos. Roupas impedem o toque. Delicadamente abri o botão de sua calça e abri seu zíper. Não tinha mais volta. Ele seria meu. Ele puxou o banco do carro para trás, reclinou, deitou e passou a mão nos meus cabelos. Foi a senha. Beijei sua barriga. Senti mais de perto aquele perfume que me deixava zonza. Eu também tinha meus segredos com a língua. Eu também sabia mordiscar. Eu também gosto de sorvete. Foi a terceira vez que ele entrou em mim. Eu não sei que música tocava, mas tinha um solo de guitarra delicioso que cadenciava os meus movimentos. Eu adoro isso.

Ele, que não dissera uma palavra até então, disse:

– Sabe onde eu queria estar agora, menina?

Me chamar de menina tornava a coisa mais proibida. O cara era bom.

– Onde?, respondi fazendo minha parte no joguinho.

– Dentro de você…

Fui pra cima dele. Enquanto nos beijávamos, ele levantou minha saia, acariciou minhas coxas e abaixou até onde pôde a minha calcinha, um estrago a essa altura do campeonato brasileiro série A. O resto ficou comigo. Na dança de corpos, nos procuramos. E nos achamos. Quando nos achamos, paramos, ambos. Ao mesmo tempo. Ele pegou meu rosto com as duas mãos e disse:

– Eu te quis na hora que eu te vi.

Ele deslizou para dentro de mim sem esperar mais, me preenchendo as vontades. Estava suada. Ele também. Mesmo com o ar-condicionado do carro ligado. Minha barriga molhada esfregava na dele. Minhas mãos entrelaçavam e apertavam as mãos dele. Eu cavalgava em cima daquele homem. Surfava nele. Ele me puxava os cabelos e alternava seus beijos em minha boca e em meus peitos. Seus beijos eram meu açoite. Sentei olhando para ele. Sentei olhando para as estrelas pelo para-brisa. Era a quarta vez que ele entrava em mim. Não estava claro quem dominava quem. Também pouco me interessava. A última coisa que eu queria naquela hora era pensar em masturbação sociológica de gênero. Sociológica de gênero, que fique claro.

Eu gozei muito. Longamente. Minhas pernas perderam as forças. Senti choques pelo corpo. Tremi. Arrepiei. Tive câimbras que a água de coco não conteve. Ele esperou muito por mim. Mas por fim gozou também. E eu com ele, de novo. Ele me apertou com tanta força quando explodiu que me deixou a cintura roxa. Foi a melhor transa da minha vida. Eu pensei que não diria essa frase de novo. Comecei a desconfiar de que só o sexo com amor vale a pena. Ali era puro sexo, puro tesão, carnaval, festa da carne. Mal conhecia o cara. Ele mal me conhecia. Mas a gente se encaixou maravilhosamente bem. A vida tem dessas. Não é porque é sexo casual que a pessoa tem de tratar você mal.

Dane-se o moralismo! Até esqueci que ele era casado. “Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa”, diria Cabeça se estivesse de voyeur da cena.

Ele passou a mão nos meus cabelos, tirando do meu rosto. Eles estavam desgrenhados. Ele sorriu e disse:

– Você tem uma boca linda. Mas a pintinha é a cereja do bolo.

Ele tinha gostado da pintinha. Eu sorri. Eu disse que precisava voltar. Procurei minhas roupas largadas do avesso pelo assoalho do carro. Vesti e falei:

– Eu ia te fazer a pergunta para a matéria agora. Mas acho que vou deixar pra outro dia.

Ele entendeu. Saí sem dar tchau. Esperou eu entrar e foi. Aquilo ainda me renderia um baita sermão da Alícia no dia seguinte. Mas eu não conseguia tirar da cabeça e do corpo as nuances do Dr. Branco. As quatro vezes que ele entrou em mim. Definitivamente eu queria mais. Mais tons de Branco.

É. Coisas precisam acontecer. Nós criamos as condições para que elas aconteçam. As pessoas usufruem ao máximo delas. Depois a gente passa e o que fica é a lembrança do usufruto. Tive a nítida impressão de que essa história iria continuar…