O selo de Tutankamon

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The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

Memórias de um riacho

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“Estava correndo tranquilo, quando senti uma vontade danada, daquelas que coçam na gente, de molhar os pés de alguém. Atraí os pés de uma moça bonita e os envolvi por um longo tempo em minhas águas geladas e aconchegantes”.

WhatsApp

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Ela era uma mulher linda, decidida, resolvida, profissionalmente reconhecida. Aí, um dia, do nada, recebeu uma mensagem de WhatsApp: – “Não quero mais ficar com você. Tenho outra”. Era o marido, acabando tudo, em uma mensagem de WhatsApp. Ficou sem chão, chorou rios, sentiu a dor que sentem os desprezados. Ela merecia bem mais do que tudo isso. Mas ela era uma mulher linda, decidida, resolvida. Colocou seu melhor sorriso, decidiu ser feliz. Resolveu seguir a vida. Soube logo que sem se amar sem limites ser amada seria tarefa complicada. Nossa felicidade não depende de uma pessoa específica. A vida seguiu. E tanta gente esperando só um sorriso dela para chegar perto e ela nem desconfia…

Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.

A redenção pelo McFly

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McFly FreireHoje é o dia em que Marty McFly chega, vindo da década de 80. Todo esse buzz, os memes e vídeos que derivam da chegada do McFly nos apontam para duas coisas. A primeira é a apropriação voraz na internet de agendas que ela mesma cria – para depois desaparecer com a mesma rapidez. E a segunda coisa é o fascínio que o futuro exerce sobre cada um de nós.
A liquidez evidenciada por Zygmunt Bauman foi acelerada. Vivemos uma quase condensação das coisas. É tudo tão rápido que já não são mais tempos líquidos, mas tempos gasosos. “Senhora, senhora” já é coisa do ano passado, parece. Tudo que era sólido se liquefez e tudo que é líquido se desmancha no ar. O passado se adensa, se atulha com a memória metálica das tecnologias e o presente corre desesperadamente em um tempo que tudo é urgente. Vivemos a morte da contemplação. Ser permanente em tempos de impermanência chega a ser um ato de rebeldia, um ato revolucionário. Daí algumas pessoas irem montanhar sem relógio e sem internet. Resistência pura. Daí as pessoas serem tragadas por religiões que prometem organizar a vida, tão caótica porque em pó. Desistência pura. Essa mudança do passado que antes ficava na memória biológica para um passado que se tem disponível a um click de mouse e do presente contemplativo da racionalidade moderna para um presente que urge as urgências urgentes da pós-modernidade potencializaram a necessidade de desejar pelo futuro. Desejar mais. Para fugir do atoleiro. Para, como avestruzes dimensionais, enfiar a cabeça em outra dimensão e escapar do mal-estar do presente.
Mote da trilogia que está na pauta, o desejo pelo futuro é uma maneira inconsciente do sujeito exilar-se do presente. Buscamos desesperadamente as mudanças porque não temos como pagar a conta psíquica dessa realidade. E por que não damos conta dela?
Com a globalização, pós-modernidade, sociedade da informação ou em rede – escolha no cardápio o nome –, deu-se fim à hierarquia e à ordem como desejável. O saber virou genérico. Todo mundo sabe tudo. Basta o Google e enter. Flatou-se tudo, de flat, do inglês. Com a desordem como o novo parâmetro – sem o peso pejorativo do termo – não nos queixamos mais de não conseguir atingir nossos objetivos, mas reclamamos porque nos afogamos nas infinitas possibilidades que se apresentam como objetivos. É tanto objetivo possível que angustia. Se antes buscávamos uma certeza verdadeira para a pacificação e alívio do sujeito, hoje buscamos uma certeza convencida porque a verdadeira leva tempo de maturação, tempo que já não temos mais. Basta uma certeza convencida. Não cabem mais verdades no figurino desse mundo. Mas espera aí. Mudou tudo assim tão rápido e nem nos demos conta? Sim. Muita coisa, muito rápido, não nos demos e não damos conta. E agora? Agora? Agora vamos então falar sobre a nova TekPix? Ou sobre o futuro?
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Freud: ”O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”. No filme, McFly só sabe o que tem do outro lado quando chega lá. Mexer com o passado exige coragem e ousadia, pois reverbera no presente. E aí? Vamos esperá-lo na praça do relógio? E você leitor, para ir lá, o que deixa do lado de cá que lhe angustia tanto? SF.

Over

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Sério: quando um relacionamento termina, ele tem de acabar. “Ain, mas a gente é amigo!”. Amigo é meu ovo! Terminou, acabou! “Ain, mas ele está sofrendo!”. Problema dele, dos amigos dele e da família dele. Não existe uma forma de reequilibrar a vida pós-término sem se distanciar. Corte tudo que alimenta a centelha de esperança, apague os nomes das agendas, limpe o Facebook, bloqueie todo mundo que vai fazer mal. Depois, lá na frente, quando encontrar no shopping um dia, diga “oi, tudo bem?”. Mas lá na frente. No começo, mude de calçada mesmo. Vai por mim. Se não a bagaça não sara. Como sarar se ficar cutucando a casquinha?

Drops da Florida

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Estávamos num Wallgreens e a Fabiana olhando uns cosméticos. Eu zanzando por perto. Aí eu ouvi a frase:
– Wait! I don’t speak English! My husband! Wait!
Ela usava essa frase quando o dialeto que ela inventou pra se comunicar – uma espécie de papiamento misturando português, espanhol, inglês, caipirês – não funcionava mais e ela me chamava para ser intérprete, se fiando no fato do papai aqui ser professor de inglês na universidade.
– O que foi, amor?
– Traduz pra ela o que eu quero.
– E o que é?
– Um cc-cream com um necessário fator de proteção semi-intenso 20 para tez suave. Matizada. Tem de ser matizada, tipo fosco, mas nem tanto.

Foi assim que eu vi que tenho de mudar de profissão. Ou fazer um curso de inglês instrumental de makes. Arreguei. Fui ver meus cabos de computador. E ela teve de apelar pro papiamento dela. Comprou.

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Era umas oito da noite e a Fabiana resolveu que a gente tinha de comprar toalhas para levar pro Aquatica Orlando, de manhã cedo, no dia seguinte. Todo mundo podre de cansado. Ela disse:
– Me dá dinheiro aí. Vou a pé nessas lojinhas do outro lado da rua.
– Vai sozinha?
– É perigoso?
– Não, não… é por causa do inglês. Vai usar o papiamento?
– Me dá dinheiro.
Levou 25 obamas e foi. Daqui a pouco ela volta, com duas toalhas.
– E aí? Deu certo?
– Tu nem sabes… Eu achei essas duas toalhas, $12 cada. Eu tinha $25, calculei que dava daí. Quando fui pagar, deu $ 25.44. Tinha esquecido da pegadinha do imposto de 6% separado do preço. Falei pra mulher: “Wait!Best Western International Drive – Orlando! Go money!”. Disse pra ela guardar a toalha que eu vinha aqui pegar no hotel os ¢50. Mas ela disse: “No! Don’t worry!” e pegou uma moedinha de um potinho. Acho que um potinho que eles têm pra isso. Eu disse “Thank you!”, sorri e vim embora.

E assim o Brasil teve um superávit de ¢50 na balança comercial com os EUA na primeira quinzena de setembro e a vendedora teve um prejuca de ¢50 na sua tip jar.

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Primeiro dia de Universal e Islands of Adventure. Chegamos com os parques abrindo, saímos com eles fechando. Felizes, mas muito, muito, muito cansados, pés doloridos, doidos pra chegar no hotel, tomar um banho e cair na cama. Na saída, já perto do globo, uma moça bonitinha perguntou se não gostaríamos de participar de uma pesquisa de satisfação. Eu e minha mente brazuca pensamos: – “Opa! Vai ter brinde!”. Aceitei com um solícito “Oh, yes! Why not?”. Foram 20 minutos de perguntas. Fabiana me fuzilando com os olhos. Marina, com dor de viado de tanto andar, já respondendo tudo “excellent” por mim para acabar logo. No final, um “Thank you!” fajuto. No gifts. Ninguém tocou no assunto até o outro dia de Universal, na saída, quando as meninas ao verem os entrevistadores recrutando gente para a pesquisa disseram, quase juntas: “Nem pensar, pai!”. Nem pensar. Nem pensar.

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Reconheçamos: os americanos são grandes entrepreneurs. Tudo que se metem a fazer fazem muito bem, de forma planejada, impecável. As gramas nas laterais das ruas são sempre verdinhas porque quando são colocadas lá, também já se colocam os sprinklers para regá-las na hora certa. As regras são cumpridas nem tanto por sua existência – ter regras não garante nada –, mas pelo enforcement, ou seja, pela certeza de que tem algo mais forte que vai fazê-las ser cumpridas. Se isso é admirável por um lado, é inevitável que por outro esse preciosismo no enforcement em tudo crie uma panela de pressão no sujeito que, curiosamente, não tem sprinklers de escape, de deriva. A americana é uma sociedade sem deriva, diferente da brasileira em que derivar é a regra e seguir a regra não é cool. Aqui as coisas são frouxas e perdemos muito por isso. A gente não planeja. A gente resolve no caminho. O psicanalista Contardo Calligaris fala disso no livro “Hello Brasil!”. Há regras, mas não se cumprem. Chega a ser até coisa de otário para muitos. Lá, ter de cumprir tanta regra leva o sujeito às vezes a bater a biela. Ou puxar o gatilho contra pessoas que são, pra ele, a sociedade que oprime personificada. Navegar, como dizia o poeta, exige precisão: da bússola, da carta, do trajeto. Viver não é preciso. Viver requer deriva, escape. Ou paga-se um preço alto quando as pulsões explodem. É o toma lá da cá das coisas.

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Nunca planejei tanto uma viagem. Fiz uma planilha no Excel e lancei previsão de gastos diários, com um plus por dia para imprevistos. Para cada atividade prevista, pesquisei preços, alternativas, detalhes importantes, pegadinhas para ficar atento, roteiros. Andei pelos lugares no Google Street View. Consultei o Yelp.com e o app para ver a reputação dos lugares. Comprei um GPS aqui – mesmo preço de lá e não entrou na cota por ser nacional, da Multilaser –, baixei nos fóruns de GPS um programa melhor (iGo), o mapa da Florida atualizado e pré-programei todas as nossas rotas. Está tudo na internet. Tem de garimpar, tem de organizar. Planejei comprar um chip pré-pago da T-Mobile com internet, mas ganhei um da minha amiga Marta que acabara de voltar dos Estêites e que valia até fim de setembro. Economia de $40. Lá, ao fim de cada dia, atualizava a planilha com os gastos reais no celular. Levei dinheiro baseado na planilha. E só dinheiro. Usar cartão de crédito nem pensar. Visa Travel Money não compensa também com o IOF alto. Escolhi hotéis com cofres peloBooking.com. Saía com o dinheiro do gasto planejado do dia e um plus de 100 dólares, só pra garantir. Sempre voltaram ao cofre. Sobrou dinheiro. Era para sobrar, já que tinha um plus previsto. O que pude pagar no Brasil, em Real, parcelado e antecipado, eu paguei: seguro-saúde, entrada dos parques e aluguel do carro. Como disse, evitei usar cartão de crédito. Com esse câmbio maluco e o IOF nas alturas é suicídio. Só usei para carregar o pedágio pré-pago no App do celular porque não tinha jeito, e, claro, para as garantias de praxe no aluguel do carro e nos hotéis. Nos parques, usava os apps para escolher os brinquedos e saber o tempo de filas. Tanto a Disney quanto a Universal tem programas bem bacanas, que mostram onde você está. Só errei numa coisa: programei dez dias e não contava que a lista das encomendas da minha sogra demorasse tanto para ser vencida. Se viajar e tiver as encomendas inevitáveis, ponha pelo menos mais dois dias aí no seu roteiro para distribuir melhor as coisas e ficar menos corrido. Já comecei a planejar nossa viagem ao Chile.

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Alguém falou pra Fabiana que comida industrializada podia levar. E líquido também, desde que limitado a 150 ml e dentro de um ziplock. Pronto. Lá fui no Carrefour antes da viagem comprar saquinhos ziplock. Miojo, Sustagen, Fandangos, Ruffles, Chocolate, Ninho 3+, tudo ziplockado. Quando vi, até minhas cuecas estavam no ziplock. Era tanto ziplock que o cara da alfândega perguntou se a gente representava a marca no Brasil. Depois de dois dias de parques, confesso que fiquei assado de tanto andar. Só me ocorreu colocar gelo no ziplock e… zip! fazer uma compressa geladinha nas partes. Que alívio! Dica: não esqueça dos seus ziplocks se for pros Estêites.  

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deio montanhas-russas. Aliás, qualquer coisa com movimentos bruscos. passo mal, fico gelado e tudo isso. Mas fiz um esforço de pai, jurando para a Ana Clara – que estava com medo, mas a fim de ir – que a Mina dos Sete Anões, no Magic Kingdom, ia ser show, que ela ia adorar e tal. Acabei convencendo e fomos. Ela e a mãe no carrinho da frente. Eu e a Nina no de trás. Quando aquele negócio acelerou, eu gritava:
– “Viu, filha! U-huuuu! Que show! WOW! Bacana! Uêba! U-huuuuu! Que massa!! Que legaaaalllllll!”
Quando acabou, na saída, disfarcei meu quase-desmaio e perguntei:
– “E aí, filha? Gostou? Não é bacana?”
Ela disse:
– “Adorei, pai. Valeu!”
Aí a Marina arrematou:
– “Papai quando fica apavorado fica gritando que está gostando pra disfarçar.”
– “Eu sei”, disse a Clara.
Pensei que estava enganando todo mundo.

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A comida nos EUA, pro meu gosto, é muito ruim. E, pro meu bolso, muito cara. A não ser que você tenha um cartão Platinum sem limite, não dá pra almoçar e jantar em restaurante, não. É quase um iPhone 6s por dia. Mas cansados de comer fast food, resolvemos ir ao Uno, restaurante bem em frente ao Best Western da International Drive, onde ficamos. Fomos atendidos por um garçom muito simpático que começou anotando nossos pedidos em inglês. Depois perguntou de onde éramos. Quando eu disse que éramos do Brasil, ele disse que se precisasse chamaria alguém para nos atender em português. Era gaiatice. Ele falava português, logo revelou. Adão – ou Adam – é um português que tinha imigrado há uns 15 anos para os States. Muito falador, se dirigia sempre a Bia. Até que disse, em bom português:
– Estou impressionado. Você é muito bonita e se parece com uma namorada brasileira que eu tenho, mas que ainda não conheço.
Pediu até pra tirar foto com ela.
Senti um clima. Domei meu ciúme e me concentrei no meu steak com molho barbecue que comi com a gana dos biafras africanos. Ao final, quando trouxe a conta, eu falei:
– Ok. Pode por mais 20% pelo serviço.
Ele olhou encantado pra Bia e disse:
– Não precisa tanto. 15% está bom.
Só não fiquei com mais ciúmes porque a moça que fez pesquisa de satisfação comigo quando estávamos saindo da Universal disse, quando eu falei que tinha 47 anos:
– Não acredito. Você é muito bonito e não parece tão velho.
É claro que não traduzi isso pra Bia. I’m not dead. Desmaiado talvez. Not dead.

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Papo no avião:
– Estou com frio na barriga.
– Normal. Ansiedade. Outro país, coisas novas.
– Mas estou com medo.
– Medo de quê? Vai dar tudo certo, amor.
– Medo, sei lá, de ser presa.
– Presa?! Tu não está pensando em roubar nada no Walmart, não, tá?
– Claro que não! Sei lá… Nos EUA de repente aparecem aqueles policiais vestindo preto e levam a gente.
Chegamos, pegamos a fila da imigração. Uma hora de fila. Quando estava chegando a nossa vez, uma gritaria vindo da fila de imigração dos diplomatas. Pelo que entendi, um gaiato hispanohablante não quis esperar na filona e tentou ir na dos diplomatas. Só veio o papoco. Uns cinco policiais, vestindo preto, chegaram perguntando alto:
– Who’s is he? Where is he?
E já foram algemando o cara, que gritava:
– ¡Ella está mintiendo! ¡No arrestarme!
Quando eu olho para Bia, ela está lívida, branca, como se ela fosse ser a próxima a ser algemada.
– Viu? Viu?
E passou o resto do tempo da fila em um silêncio sepulcral, com medo de ser presa por estar levando Sustagen e miojo na bolsa.

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Não gostei do pouco que vi de Miami, não. Já Orlando é uma cidade bacana. Chegamos em Miami e já fomos direto pra lá. Aluguei um Chrysler 200, muito confortável, todo completão, automático, cruise control, com tudo que se tem direito. Um carro que custa US$ 22 mil lá e a bagatela de R$ 190 mil aqui. Aluguei pela Thrifty e paguei em reais, parcelados, fugindo do dólar alto e do IOF idem. Marina ficou fascinada com o carro. E descobriu o botão para abrir o teto solar justamente na hora de um toró violento. Molhou todo mundo. As locadoras querem empurrar o SunPass – transponder de pedágio automático –, só que elas cobram muito caro. Disse que não queria. Saí do aeroporto sem o transponder e parei numa Walgreens num mall bem pertinho do aeroporto. Quis gastar meu inglês, mas só se fala espanhol na coxinhalândia americana. Comprei por US$ 5 dólares o sticker do SunPass (minha mulher aproveitou pra comprar o primeiro dos 375 Aussies), carreguei US$ 30 dólares pelo app da SunPass no celular e tchau e benção. Deu pra ida e ainda sobrou. Saí daqui de Manaus com a rota do Car Rental Center até o Wallgreens já armazenada no GPS. Aliás, todas as nossas rotas. Dá para ir de Miami para Orlando pela Florida Turnpike ou pela I-95. Preferi pagar mais pedágio e ir pela Turnpike. Ela tem plazas para parar no meio do caminho e lavar o rosto. A estrada é um retão e dá um sono. Já tinha tudo esquematizado aqui. Planejamento é tudo.

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Lá estávamos nós. Primeiro dia de parques. Começamos pelo Islands of Adventure. Entramos e eu, seguindo a dica do Eduardo Jorge S. Honorato, disse que era meu aniversário. Ganhei um bottom de aniversariante e mais de mil Happy Birthdays durante o dia. Na verdade era quase meu aniversário. Tinha sido no dia anterior. White lie. Fomos na área do Gatola da Cartola. De repente eu vejo o Gatola e grito, extasiado:
– O Gatola! Vão lá tirar foto com ele! Vão lá!
– Mas pai…
– Cuida! Se não ele vai embora!
– É que…
– Vão logo!
Elas foram. E tiramos as fotos. Andamos mais um pouco e vi uma fila pra tirar foto.
– Quem é esse?
– É o Gatola, pai.
– Gatola?! Mas e aquele?
– Era o que eu estava tentando dizer, pai. Que aquele não era o Gatola.
Preciso assistir mais aos desenhos…

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Na pausa pra comer alguma coisa no Outlet Premium, em seu Orlando, decidimos comer pizza e massa na Villa Fresh Italian Kitchen, na praça de alimentação. Tinha um gordinho muito mal-humorado que servia as coisas. Eu passei até que mais ou menos pelo humor dele. Mas o cara depois de mim na fila levou um esporro quando perguntou como era o talharim deles.
– “Listen, my friend! Here, in China, in Italy, in New Zealand, in Africa, everywhere, taglierin is taglierin, exactly the same!”
– “Ok, sorry for asking”, disse o homem desolado.
Me senti em Manaus por alguns minutos.

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Estávamos saindo do estacionamento do hotel em Orlando. Um senhor, bem apessoado, bem vestido, uns 50 e pouco anos, fez sinal para eu parar. Parei, baixei o vidro. E ele disse:
– Você pode me ajudar? Estava indo pro trabalho e fiquei sem gasolina. Você poderia me dar dinheiro pra eu poder ir trabalhar?
– Desculpa, amigo, mas não ando com dinheiro.

Lá também tem golpe e Miguelation. Saidinha de hotel.

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Duas coisas interessantes. Não tem moto nas ruas de Orlando. Aliás, vi uma Harley-Davidson, mas já perto da Nasa, em Cabo Canaveral. Se bem que HD não conta. É hobby, não é meio de transporte. Lá, a sociedade é dos carros. Ponto. Nada de mototaxistas com camisas da Sportline Nell fazendo zig-zags. E a outra coisa interessante é que não tem mosquito. Aliás, tem. Tem uns mosquitinhos safados que só voam transando, os marotos. Vi muitos deles na NASA, mas tinha em seu Orlando também. Depois descobri que eles se chamam love-bugs. That figures!

Discurso & Psicanálise

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A gente é o que a gente tem sido. Somos produtos de nossa prática de pensamento. Ninguém nasce de direita, de esquerda, preconceituoso, religioso, machista, amigo dos animais, liberal, comunista, fã do Roberto. A gente aprende a pensar assim pela vida que chega e não pede licença. E a vida entra via linguagem, no conjunto de experiências a que somos expostos. O jeito de pensar as coisas como nossas verdades se chama discurso. Quem compartilha o mesmo jeito de pensar, então, está certo, coerente, correto, é um dos nossos. É até uma pessoa mais bonita. Quem não compartilha é cego, é estúpido, está errado, é dos deles. E como fica feia a pessoa que pensa diferente de mim… É esse o efeito. O certo e o errado, o bom e o mau são efeitos. Efeitos reais, mas efeitos. Tanto para um grupo quanto para os outros a verdade se constrói da mesma forma sólida e verdadeira. Funciona igual para todo mundo, por isso as pessoas divergem. Isso acontece porque a história não é igual para as pessoas. Daí a diversidade. Assim se produzem verdades. Mas e daí em diante? Daí em diante, no aspecto do jogo das relações humanas e sociais, há um jogo de impor verdades – as nossas – sobre a dos outros. E isso é o político da linguagem: entender como se dá a correlação de forças na sociedade. Há discursos que querem superar as diferenças e achar um modo de sobrevivência nas diferenças. E há discursos que querem suprimir a diferença e aniquilá-las. No aspecto subjetivo, há também de se pensar sobre a relação de harmonia/resistência do sujeito com os discursos que o compõem. Há sujeitos que entram azeitados nas engrenagens discursivas a que estão sujeitos e há outros que tentam, inconscientemente, exorcizá-las, libertando-se desses discursos incomodadores e sofrem com a tarefa. A Análise de Discurso (AD) estuda o jogo de correlação de forças na sociedade, o político, a pólis. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para explicitar como está funcionando a construção do sentido para cada grupo de sujeitos. E a Psicanálise cuida do sujeito e sua relação com seus discursos fundadores. Analisar o sentido que se tem de governo – se deve ser mais social, se deve ser menos interventor na economia – é de interesse da AD. Interrogar o que o ódio mortal que seu Zé tem pelo Lula significa e o que que esse ódio metaforiza do não simbolizado em sua história de vida é de interesse da Psicanálise. Compreender como a discursividade sobre a homoafetividade tem mudado no tempo com os deslocamentos das relações humanas é de interesse da AD. Explicitar por que o seu Zé tem uma raiva atávica de gays e o que isso tem a ver com questões mal elaboradas de sua sexualidade é o baratinho da Psicanálise. Estou com saudade das aulas de Discurso…

O leão que caçamos

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O dentista americano Walter J. Palmer matou um leão na África, mais especificamente no Zimbabwe’s Hwange National Park, no Zimbabwe. Acontece que o leão era Cecil, uma espécie de símbolo nacional do país, e fazia parte de um projeto de pesquisa da Universidade de Oxford. Ele usava um GPS para monitoramento e foi atraído para fora da reserva onde vivia para ser morto com um arco e flecha. Detalhe importante. Depois de morto, teve sua cabeça cortada como um troféu. Essa história está rodando a internet e você deve conhecê-la, a não ser que tenha passado essa última semana em Plutão ou na Terra 2.0.

Fiquei me perguntando o que leva alguém a matar um animal por esporte. Antigamente, o homem matava animais em autodefesa ou por fome. É claro que o compele caçadores esportivos hoje nada tem a ver com o que movia caçadores da era paleolítica. Hoje, caçar por esporte é uma maneira socialmente aceitável – ok, cada vez menos – para justificar o prazer de matar por matar. Isso acontece no mundo o tempo todo e dessa vez só deu treta porque o leão era conhecido. Se fosse um leão da periferia, negro, pobre e do morro, talvez fosse mais um bicho na estatística.

O que o liongate me faz pensar, na verdade, é nos leões que nós caçamos e queremos matar para equilibrar nossas faltas. É uma metáfora, claro. O único bicho que mato é barata porque senão minha mulher não consegue dormir se souber que ela escapou. Mas, sim, os nossos leões.

A vida precisa de equilíbrio psíquico. Se sobra exagero de um lado da balança é porque há uma falta que pesa no outro prato. Muito silêncio ou muito barulho sobre algo, dizia Freud, é sinal de que esse algo precisa ser ouvido. Caçar, matar um animal, sentir o prazer de tirar a vida de um bicho desnecessariamente é claramente uma compensação narcisística por alguma falta. Imagine alguém que deliberadamente mata um cachorro na rua. É lógico que isso tem o peso de algum desequilíbrio que precisa dessa overdose compensatória de gozo. Não. Isso não é normal. Se a gente pensar no processo psicodinâmico de um sujeito em paz consigo definitivamente há alguma coisa aí. Só há causa daquilo que falha.

No caso de Walter Palmer, sua forma de compensar a falta – sabe-se lá qual – é matar por esporte. Há compensações menos nocivas e outras mais, tanto para o sujeito quanto para quem o circunda. No caso de muita gente, a compensação é um cair de cabeça na religiosidade ou espiritualidade. Outros vão para drogas, álcool, sexo compulsivo. Uns compram um carrão. Tem gente que se entope de chocolate ou de sorvete. Tem gente que para de comer ou vomita o que come. Pessoas limpam casas compulsivamente para dar conta de sujeiras psíquicas. Alguns exercitam a pedofilia, o sexismo, a violência física contra si ou contra os outros. Un outros destilam ódio gratuito nas redes sociais contra a Dilma ou o Lula. Tem gente que se mete de corpo e alma em campanhas sociais, ONGs, coletivos. Tem umas pessoas que viram the great outdoors e vão mochilar pelo mundo ad eternum, postando suas fotos de braços abertos na montanha para o mundo dar like. Tem gente que escreve. Há todos os tipos de leões para matar.

Que a gente precisa de equilíbrio psíquico não é lá uma grande novidade. A questão é que o desequilíbrio compensador sempre pega interna e externamente. Porque as compensações, quando não trabalhadas na sua origem, são falsas soluções. É mais ou menos como a febre. O sujeito sente febre e equilibra a temperatura do corpo com um antitérmico. Mas a febre, um desequilíbrio, precisa ser escutada. Ela está dizendo algo. Não basta combatê-la num falso equilíbrio. A febre é um desequilíbrio aliado. Da mesma forma, os excessos ou silenciamento eloquentes precisam ser ouvidos. Não é suficiente dar a dipirona das coisas para equilibrar a falta que faz o desequilíbrio. Tem de saber o que nos causa o mal-estar, pensado aqui como conceito psicanalítico.

O fato é que matar leões, até um por dia, pode não ser uma boa metáfora. Em vez de buscar a adrenalina fora talvez seja necessário buscar a endorfina dentro. A ideia não é aniquilar as questões que desequilibram – isso, penso, talvez seja um sonho impossível e algo até ruim porque eles são necessários –, mas aprender a conviver com elas sem tanto sofrimento e sem a necessidade de puxar o pino da bomba atômica para matar o mosquito. Só um detalhe: de dentro, a gente quase nunca enxerga. Daí a necessidade de uma boa terapia (aqui eu já fazendo propaganda para quando eu me formar, claro).

Clemént Rosset tem um livrinho que eu adoro: “o Real e seu duplo”. Ele diz em determina altura do texto: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a impiedosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescindível – o do real a ser percebido –, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sobre certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e se mostra desagradável, a tolerância é suspensa”. A recusa do Real, claro, pode tomar formas muito variadas. O Real, quando teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar, como numa dose a mais de álcool ou numa cabeça de um leão africano morto com um arco-e-flecha.

Admitir que há uma falta que nos constitui sempre e que precisamos conviver com ela é doloroso. Às vezes rola sangue. Preferimos um mundinho arrumado, ainda que falsamente arrumado. Mas admitir nossas faltas constituintes é fundamental para manter a vida acontecendo de forma suportável. Porque senão a gente sai que nem um louco matando leões. E pior, com arco-e-flecha para o sofrimento do bicho ser maior. Metaforize aí.

O sentido da vida deve ser buscado não na harmonia, mas na dissonância. Se há mal-estar, que bom! Hora de buscar compreender. Qual é a cabeça de leão que você anda atrás para pendurar como um troféu na parede de seu quarto da vida, leitor querido? Olhe para dentro. Porque nada jamais é descoberto. Tudo é apenas reencontrado.

O forninho do Walter Palmer caiu. Segura o seu aí.