Mãe, matéria e memória

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Em 1896, o filósofo Henri Bergson publicou um livro chamado “Matéria e Memória”. No ensaio, Bergson discute a relação corpo-espírito. Ele diz que essa relação é mediada pela memória, que considera algo profundamente espiritual.
Afirma o filósofo francês que existem dois tipos de memória a nos constituir: a memória-hábito e memória-lembrança. A memória-hábito replica o passado e o repete. Não é reconhecida como passado. É automática. Está inscrita no corpo por práticas cotidianas e tem fim utilitário. Como se portar à mesa, por exemplo, é uma memória-hábito. A memória-lembrança ou memória pura, por outro lado, regista o passado sob a forma “lembrança-imagem”. Representa o passado e o passado é reconhecido como passado. É da ordem contemplativa e teórica, gratuita e profundamente espiritual. É a verdadeira memória.
Trago a obra de Bergson para falar das mães. Mães são memórias puras. Mães são memórias-lembranças. Mães são pontes entre os nossos corpos – desde o empréstimo do seu – e os nossos espíritos. É lembrando das mães que o passado se presentifica e o presente se passadifica. Porque as mães estão atravessadas na nossa existência, no nosso corpo e na nossa alma.
Por ser o liame, a ligação entre o corpo e a alma, a mãe tem um lugar fundamental na constituição daquilo que somos. Não é à toa que a teoria da Psicanálise guarda um lugar crucial para a figura materna na construção do eu. A importância da mãe – por sua presença ou sua falta – na elaboração de nossa estrutura egóica é quase um dogma nas diversas teorias do desenvolvimento. Por isso que quando há excesso de mãe ou vazio de mãe a gente desequilibra e corre para a terapia. Ou deveria. Reflexões teóricas.
Filosofias e teorias à parte, mãe é mãe. Há mãe que é mãe. Há pai que é mãe. Há vó que é mãe. Há vô que é mãe. Porque mãe não é gênero, mas um lugar simbólico. Uma identidade pressuposta que primeiro acolhe, depois cuida, depois aninha, depois pede cuidado e, por fim, cumprindo o ciclo da vida, se vai.
A memória-lembrança da mãe começa no acolhimento. Não há lugar melhor no mundo do que aquelas quarenta semanas na barriga da mãe. Assim como mãe é um lugar simbólico que pode ser ocupado por pais, tios, avós etc, a barriga da mãe não precisa necessariamente ser a barriga da mãe biológica. A barriga da mãe às vezes está fora do corpo físico. O acolhimento começa na tomada nos braços de um filho concebido por outras pessoas como se seu biologicamente o fosse. “Adotar” vem do latim “adoptare”, ad+optare, ou seja, optar por ficar junto. É uma escolha consciente de querer ficar junto daquele bebê que, em princípio, não era parte sua. Adotar é encarnar nas suas uma carne externa. A mãe se faz encarnada e, ao se fazer, pare o filho que não gerou. Por pura opção. Isso é tão forte e tão lindo. Digno de mães.
Se pouco nos fica de memória-lembrança do acolhimento, seja biológico ou encarnado, muito nos toca as memórias o tempo do cuidado. É aqui que o espírito dança terno ao lembrar da mãe acarinhando nosso rosto, cantando para a gente dormir. É esse o tempo de construir nosso playlist particular da novela de nossa vida. A minha mãe nos fazia dormir no embalo da rede da casa sem forro cantando “Pica-pau atrevido que do pau fez um tambor” ou “Alecrim dourado”. Talvez essas escolhas tenham a ver com o atrevimento da minha irmã mais velha ou com a certeza que nós lá de casa temos de que sempre, em qualquer lugar, pode ser tempo de alecrim com seu cheiro bom, com sua doçura levadas pelas abelhas para fazer o doce mel dourado. Sem dúvida que nessas escolhas, nesses cuidados, as marcas da memória-lembrança são cravadas no corpo.
O tempo vai passando. A gente vai crescendo. Vem o tempo de ir cuidar da vida. Mães e filhos vivem um luto duplo, o luto necessário para que nos façamos gente. A mãe deixa de tomar conta e de decidir pelos filhos. Saímos de casa e passamos a ser responsáveis por nós e logo por outros. Tempos agridoces, de fato. Amargos porque saímos de perto daquela que nos cuidava – e é preciso dizer aqui que as mães têm formas diferentes de cuidar, umas muito estranhas até. E doces porque, afinal, a vida para a qual ela nos preparou com mantos de carinho e proteção precisa ser vivida. Hora do vamos ver, da real. Vamos para nosso canto. Compramos nossa lata de leite condensado para chupar livres. Mas sempre “lá em casa” vai ser a casa da mãe. Sempre o bife de fígado – coloque aqui a comida que ela fazia porque você gostava – vai ter um sabor único. O feijão da minha vó põe na boca da minha mãe até hoje um gosto de amor inigualável. O feijão da minha vó é o meu bife de fígado ou o seu não-sei-o-quê delicioso. Comida de mãe é memória viva. De lembrar enquanto escrevo eu salivo. Ao salivar, eu me vejo moleque comendo meu bife de fígado, sentado na mesa grande da cozinha da casa 20, uma mesa coberta com uma toalha de plástico branca com desenhos de legumes. E vejo minha mãe sentada na cadeira de macarrão, se embalando. Meu corpo respondendo ao meu espírito. Bergson estava certo.
Casa de mãe, melhor ninho. Colo de mãe, melhor lugar. Quarenta e sete anos no lombo e ainda corro vez por outra para deitar no colo da minha mãe. Meu conforto, minha paz. Ouvi-la dizer “Meu filho, vai dar tudo certo” na hora em que nada parece dar certo tem um poder pentecostal. Fecho os olhos, sinto o seu coração bater, volto ao seu ventre. Aconchego. É difícil quem está longe da mãe, geográfica ou afetivamente, e não tem esse lugar de reparação da alma. É complicado quem mora longe da mãe, às vezes habitando na quadra ao lado, e perde a chance de se reabastecer de gás carinhoso maternal para a vida. É doloroso quem já não a tem mais por perto. Porque mães envelhecem. E um dia se vão.
Ando lendo muito sobre a velhice. Talvez por estar me encaminhando para seu edifício. Mas muito por causa de meu pais. Eles envelheceram. E a velhice é um tempo de perda. Perda de trabalho, perda das capacidades, perda de saúde, perda de memória. Para Bergson, a perda da memória é somente desgaste do cérebro. Claro, se o cérebro não funciona a contento, isso acaba atingindo a memória-lembrança, que é o que mantém viva as pessoas. Parêntese: estou terminando de ler “Memória e sociedade: lembrança dos velhos”, da Ecléa Bosi. Que livro lindo! Reconstruir a memória social pela memória pessoal, de velhos que um dia foram jovens e construíram suas histórias. Fecha parêntese. Então, a mãe envelhece. E as coisas mudam de lugar.
É fundamental perceber quando a mãe pede cuidado. Como filhos, ocupamos nós agora o lugar simbólico de acolher, cuidar e aninhar. Somos nós que precisamos fazê-los sentir pertencer a nossas vidas para além da retórica. Somos nós que precisamos cuidar, levar no médico, sair juntos para tomar um café da tarde, fazer supermercado. Tem uma idade em que a mãe precisa de cuidado. Mesmo a contragosto – ninguém gosta de ver seus heróis falhando – as mães começam a falhar. E aí temos de segurar sua mão para atravessar a rua, temos de dar banho, temos de pentear seus cabelos, acarinhar seu rosto, cantar “Alecrim dourado” para ela dormir. É esse o tempo de cantar todo o nosso playlist particular da novela de nossa vida. É esse o tempo de acolher.
Elas se vão. Os corpos delas se vão. Não mais a colher de pau da parede. “Onde os doces da mãe?”, pergunta do poeta Aníbal Beça, chorando a ausência eterna da sua. Onde o cheiro único? Onde o abraço quente? Onde o beijo primeiro? Precisamos – porque é o que temos – aprender a amar nossa mãe de um jeito novo quando ela se vai. Carecemos de aprender a amá-la sem o estímulo de sua presença física. Desamar para reamar. Um reamor. É isso. Mas construir o reamor por perdas não é tarefa fácil. Desamar amor puro dói. Às vezes escorre sangue de tão doloroso. Meu carinho mais sincero para você que está em processo de reamor, que vai para o seu primeiro Dia das Mães sem a sua, com cada propaganda, postagem em rede social, cartaz, tudo, lembrando que ela não está mais ao alcance de um abraço. Pode chorar. Chore em homenagem à sua mãe. Deixa ela saber que ela faz falta.
Matéria, memória, lembranças, mãe. Tanta coisa junta. Se você chegou até aqui e leu o textão – um escândalo em tempos de posts curtos –, eu desejo a você e à sua mãe um Feliz Dia das Mães. Para ti também, mãe Helena. E para a mãe perfeita das minhas filhas, Fabiana. Ah, e aproveitem para resgatar as memórias-lembranças. Aproveitem para dar um abraço e um beijo se ainda a benção divina lhes permite tais coisas. Aproveitem para acolher, cuidar, aninhar. Porque um dia, queridos amigos, isso não vai ser mais possível. Aliás, será sim. De outra forma, talvez.
Dona Alice, uma das velhinhas entrevistadas por Ecléa Bosi para seu livro, diz que uma das coisas de que lembra com afeto é da época de sua primeira comunhão aos treze anos na Igreja de Santo Antonio, na Barra Funda, em São Paulo. Lá ela cantava:
Como minha mãe estarei na santa glória um dia.
Junto à Virgem Maria. No céu triunfarei.
No céu, no céu. Com minha mãe estarei…

O corpo é feito de memória. Bergson estava certo. Mães – de todo tipo – sempre vão para o céu.

 

Feliz Dia das Mães.

Ouro de memória

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Nessa semana eu participei na universidade em que trabalho da cerimônia do chá, promovida pelos professores do curso de Japonês. Como a curiosidade me habita desde que me entendo por gente, fui pesquisar mais para aprender melhor o significado de tudo aquilo. Comecei a ler sobre cultura japonesa. E eis que me deparo com o Kintsugi.
Kintsugi (金継ぎ) significa algo como “junção com ouro”. É um estilo de arte japonês em que peças de cerâmica quebradas são consertadas, mas com todas as suas rachaduras aparentes sendo destacadas e preenchidas com uma liga que envolve pó de ouro. Por trás de uma aparentemente simples técnica de reparo, há uma bonita filosofia de vida, diferente daquela com que estamos acostumados por essas bandas do mundo.
Nessa banda ocidental capitalista, o novo, o inteiro, o perfeito é o parâmetro do bom, o que é valorizado. Buscamos consertar as coisas para que aparentem ser de novo como novas. Ou mesmo substitui-las, se ficar muito complicado resgatar a semelhança. As velhas coisas, consertadas, quanto mais parecidas com o que eram antes de dar defeito, mais perfeitas as consideramos. Essa busca fixada pela perfeição nos leva às ditaduras da beleza, do corpo, das aparências irretocáveis perante os outros. Vivemos a necessidade de instagramizar a vida, mostrando aos outros nossas perfeições de várias formas.
Acontece que a vida vem e não pede licença. Ela é real e de viés. A vida real, em outras palavras, é muito mais foda do que a das redes sociais. A vida acontece e nos transforma e nunca mais somos os mesmos. Daí, temos duas possibilidades lógicas de encarar essa vinda da vida: ou gastamos esforços hercúleos para tentar deixar como novo o que a vida estilhaça ou aprendemos a consertar essas rachaduras na cerâmica de nossa vida com ligas de ouro, preenchendo as rachaduras com o ouro da memória, como sugere o Kintsugi.
Acostumar-se a dar sentidos às rachaduras da vida pode ser uma forma de aprender a sofrer menos. Se deixarmos de vê-las como algo ruim, deixamos também de considerá-las indesejáveis e passamos a entendê-las como partes, pedaços, estilhaços de nós mesmos. Cacos de nossa história. Ao contrário de querer que as coisas voltem a ser como novas, é preciso compreender que parte do nosso legado é aquilo que somos tentados a esconder com mais determinação: as nossas falhas e defeitos. As falhas e defeitos, mais do que problemas, são partes constitutivas de nosso eu, daquilo que resulta da minha interação com o mundo. Estamos em movimento e o movimento deixa marcas. A estética Kintsugi foca exatamente nas questões como a transitoriedade e a impermanência do que na beleza propriamente dita. Aliás, redefine o conceito de beleza como sendo exatamente aquilo que temos de igual, mas também, e principalmente, aquilo que nos faz diferentes dos outros do mundo. Nossa cicatrizes são as lembranças de nossa caminhada e essa caminhada é só nossa e de mais ninguém. Sua unicidade é que nos faz indivíduos no meio de um mundo social porque refletem nossa história.
Cicatrizes são história. As menores, memórias de alguma arte a infância. Eu tenho uma no queixo e outra no pé. As maiores, uma prova de que se é um sobrevivente. Tenho várias no coração. A idade e minhas leituras em discurso e em psicologia têm me feito preencher esses espaços craquelados com o ouro da memória, dando a tudo isso significados que hoje me fazem ser quem eu sou. Eu sou esse inteiro, boca linda, dedos feios, mãos macias, barriguinha de chope, sinalzinho único perto da boca. E tenho uma autoestima de periguete como resultado de me gostar com meus ranços e avanços cada vez mais. Eu me gosto pacas.
Screen Shot 2016-02-06 at 2.02.53 PM.pngNão estou dizendo para fazer o jogo do contente, ignorar desequilíbrios e ir no fluxo da vida sem agência alguma. Longe de mim achar que não se deva buscar equilibrar o que está desequilibrado. O que estou dizendo é que é possível reequilibrar os desbalanços simplesmente mudando os critérios da balança. Não dá para eu ficar lamentando as vezes em que me perdi no caminho. Foi sair da estrada que me fez chegar, de outra forma, até aqui. Tudo isso deve ser visto como meu pote. A parte inteira e a parte rachada. O que pegou, o que pesou, hoje é ouro para mim, remendando meu eu, me dando unidade para ir adiante e me consertando. Mais: me concertando na sinfonia do mundo. Porque a vocação do ser humano é ser feliz, é cantar, é dançar, mesmo que desengonçado como eu. É meu charme. Quais são as suas rachaduras que ainda precisam do seu ouro de memória, querido leitor?
Que tal mexer nisso nesse carnaval, hein? Porque, como diz Caetano, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Somos dores e delícias. Nem mais, nem menos. Mas tudo isso. A cultura japonesa é muito bonita.

O selo de Tutankamon

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The unbroken seal on King Tut's tomb big
Em 1922, o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba do faraó Tutankamon. Na entrada da câmera que dava acesso à tumba, Carter encontrou uma tranca, uma espécie de cadeado fechando a porta. Ela era feita de corda e possuía um delicado selo de barro com a figura de Anubis, deus dos mortos e moribundos. A corda esteve lá por 3.245 anos. Depois de fotografá-la com o cuidado dos arqueólogos, Carter abriu a tranca e se deparou com um dos mais impressionantes achados arqueológicos de todos os tempos.
Fico imaginando a agonia dos arqueólogos: a angústia entre preservar e ir adiante. Deixar intocado algo que é muito caro ou romper o selo – caminho sem volta – e acessar o inacessível guardado? É uma pergunta boa para pensar as nossas angústias.
Discursivamente, a angústia é a vontade de estar em dois lugares e não poder decidir por nenhum porque ambos são importantes, mas são mutuamente excludentes. Será que deixamos as coisas como estão em nossa vida ou encaramos a quebra de nosso selo de Tutakamon?
Deixar como está, sem mexer no que precisa ser mexido e vir à luz, tem a vantagem de nos manter na zona do conforto do conhecido. A vida segue, mas sem mudanças estruturais, guardadas na câmara de nossa história. A tranquilidade aparente só é quebrada quando lembramos – ou somos lembrados – de que existe umas coisas a serem olhadas atrás da porta.
Por outro lado, quebrar o nosso selo é um ato que clama coragem. Primeiro, é o movimento para o (des)conhecido. O que vamos encontrar lá? Vamos dar conta? Se foi guardado, não é para ficar lá, intocável? Segundo, destruir o selo é perturbar o sono dos mortos, cujo corpos embalsamados resistem ao tempo em nossos sarcófagos inconscientes. Anubis, que guarda nosso inconsciente, zela para que o ego permaneça fora de seus domínios. Por fim, mexer no que está guardado há tempos dói. A história para fazer sentido não pode ficar parada no tempo. Ela precisa ser trazida para o presente para ranger os seus sentidos. Isso é deliciosamente libertador. Para seguir adiante é necessário cortar os grilhões simbólicos que nos mantêm acorrentados a questões mal resolvidas, jogadas em tumbas, cheia de selos e cordas.
Fazer arqueologia de nós mesmos requer vontade. Ver tudo aquilo que não demos conta de processar, de dar sentido, se oferecendo de novo aos nossos olhos – ou aos olhos de um analista-arqueólogo – em plena luz e sob um holofote é desafiador. Movimentos aparentemente fáceis, cortar a corta e quebrar o selo de barro são, por vezes, dolorosos demais para o sujeito. Às vezes escorre sangue. Daí que para muitos é mais fácil dizer: deixa como está, mexe nisso não. Afinal, se entramos na tumba, podemos sofrer a maldição do faraó. Dizem que Howard Carter encontrou na antecâmara um óstraco de argila com uma inscrição dizendo: “A morte vai atacar com seu tridente aqueles que perturbarem o repouso do faraó”. Racionalizamos e empurramos com a barriga o encontro necessário. Razões não nos faltam.
No fundo, no fundo, o que nos (dês)equilibra como seres humanos está mesmo guardado dos outros e de nós a sete selos de Tutakamon. A esse tesouro só se chega quebrando algumas coisas. É o preço do remendo. Topa?

 

Memórias de um riacho

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“Estava correndo tranquilo, quando senti uma vontade danada, daquelas que coçam na gente, de molhar os pés de alguém. Atraí os pés de uma moça bonita e os envolvi por um longo tempo em minhas águas geladas e aconchegantes”.

WhatsApp

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Ela era uma mulher linda, decidida, resolvida, profissionalmente reconhecida. Aí, um dia, do nada, recebeu uma mensagem de WhatsApp: – “Não quero mais ficar com você. Tenho outra”. Era o marido, acabando tudo, em uma mensagem de WhatsApp. Ficou sem chão, chorou rios, sentiu a dor que sentem os desprezados. Ela merecia bem mais do que tudo isso. Mas ela era uma mulher linda, decidida, resolvida. Colocou seu melhor sorriso, decidiu ser feliz. Resolveu seguir a vida. Soube logo que sem se amar sem limites ser amada seria tarefa complicada. Nossa felicidade não depende de uma pessoa específica. A vida seguiu. E tanta gente esperando só um sorriso dela para chegar perto e ela nem desconfia…

Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.

A redenção pelo McFly

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McFly FreireHoje é o dia em que Marty McFly chega, vindo da década de 80. Todo esse buzz, os memes e vídeos que derivam da chegada do McFly nos apontam para duas coisas. A primeira é a apropriação voraz na internet de agendas que ela mesma cria – para depois desaparecer com a mesma rapidez. E a segunda coisa é o fascínio que o futuro exerce sobre cada um de nós.
A liquidez evidenciada por Zygmunt Bauman foi acelerada. Vivemos uma quase condensação das coisas. É tudo tão rápido que já não são mais tempos líquidos, mas tempos gasosos. “Senhora, senhora” já é coisa do ano passado, parece. Tudo que era sólido se liquefez e tudo que é líquido se desmancha no ar. O passado se adensa, se atulha com a memória metálica das tecnologias e o presente corre desesperadamente em um tempo que tudo é urgente. Vivemos a morte da contemplação. Ser permanente em tempos de impermanência chega a ser um ato de rebeldia, um ato revolucionário. Daí algumas pessoas irem montanhar sem relógio e sem internet. Resistência pura. Daí as pessoas serem tragadas por religiões que prometem organizar a vida, tão caótica porque em pó. Desistência pura. Essa mudança do passado que antes ficava na memória biológica para um passado que se tem disponível a um click de mouse e do presente contemplativo da racionalidade moderna para um presente que urge as urgências urgentes da pós-modernidade potencializaram a necessidade de desejar pelo futuro. Desejar mais. Para fugir do atoleiro. Para, como avestruzes dimensionais, enfiar a cabeça em outra dimensão e escapar do mal-estar do presente.
Mote da trilogia que está na pauta, o desejo pelo futuro é uma maneira inconsciente do sujeito exilar-se do presente. Buscamos desesperadamente as mudanças porque não temos como pagar a conta psíquica dessa realidade. E por que não damos conta dela?
Com a globalização, pós-modernidade, sociedade da informação ou em rede – escolha no cardápio o nome –, deu-se fim à hierarquia e à ordem como desejável. O saber virou genérico. Todo mundo sabe tudo. Basta o Google e enter. Flatou-se tudo, de flat, do inglês. Com a desordem como o novo parâmetro – sem o peso pejorativo do termo – não nos queixamos mais de não conseguir atingir nossos objetivos, mas reclamamos porque nos afogamos nas infinitas possibilidades que se apresentam como objetivos. É tanto objetivo possível que angustia. Se antes buscávamos uma certeza verdadeira para a pacificação e alívio do sujeito, hoje buscamos uma certeza convencida porque a verdadeira leva tempo de maturação, tempo que já não temos mais. Basta uma certeza convencida. Não cabem mais verdades no figurino desse mundo. Mas espera aí. Mudou tudo assim tão rápido e nem nos demos conta? Sim. Muita coisa, muito rápido, não nos demos e não damos conta. E agora? Agora? Agora vamos então falar sobre a nova TekPix? Ou sobre o futuro?
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Freud: ”O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”. No filme, McFly só sabe o que tem do outro lado quando chega lá. Mexer com o passado exige coragem e ousadia, pois reverbera no presente. E aí? Vamos esperá-lo na praça do relógio? E você leitor, para ir lá, o que deixa do lado de cá que lhe angustia tanto? SF.

Over

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Sério: quando um relacionamento termina, ele tem de acabar. “Ain, mas a gente é amigo!”. Amigo é meu ovo! Terminou, acabou! “Ain, mas ele está sofrendo!”. Problema dele, dos amigos dele e da família dele. Não existe uma forma de reequilibrar a vida pós-término sem se distanciar. Corte tudo que alimenta a centelha de esperança, apague os nomes das agendas, limpe o Facebook, bloqueie todo mundo que vai fazer mal. Depois, lá na frente, quando encontrar no shopping um dia, diga “oi, tudo bem?”. Mas lá na frente. No começo, mude de calçada mesmo. Vai por mim. Se não a bagaça não sara. Como sarar se ficar cutucando a casquinha?

Drops da Florida

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Estávamos num Wallgreens e a Fabiana olhando uns cosméticos. Eu zanzando por perto. Aí eu ouvi a frase:
– Wait! I don’t speak English! My husband! Wait!
Ela usava essa frase quando o dialeto que ela inventou pra se comunicar – uma espécie de papiamento misturando português, espanhol, inglês, caipirês – não funcionava mais e ela me chamava para ser intérprete, se fiando no fato do papai aqui ser professor de inglês na universidade.
– O que foi, amor?
– Traduz pra ela o que eu quero.
– E o que é?
– Um cc-cream com um necessário fator de proteção semi-intenso 20 para tez suave. Matizada. Tem de ser matizada, tipo fosco, mas nem tanto.

Foi assim que eu vi que tenho de mudar de profissão. Ou fazer um curso de inglês instrumental de makes. Arreguei. Fui ver meus cabos de computador. E ela teve de apelar pro papiamento dela. Comprou.

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Era umas oito da noite e a Fabiana resolveu que a gente tinha de comprar toalhas para levar pro Aquatica Orlando, de manhã cedo, no dia seguinte. Todo mundo podre de cansado. Ela disse:
– Me dá dinheiro aí. Vou a pé nessas lojinhas do outro lado da rua.
– Vai sozinha?
– É perigoso?
– Não, não… é por causa do inglês. Vai usar o papiamento?
– Me dá dinheiro.
Levou 25 obamas e foi. Daqui a pouco ela volta, com duas toalhas.
– E aí? Deu certo?
– Tu nem sabes… Eu achei essas duas toalhas, $12 cada. Eu tinha $25, calculei que dava daí. Quando fui pagar, deu $ 25.44. Tinha esquecido da pegadinha do imposto de 6% separado do preço. Falei pra mulher: “Wait!Best Western International Drive – Orlando! Go money!”. Disse pra ela guardar a toalha que eu vinha aqui pegar no hotel os ¢50. Mas ela disse: “No! Don’t worry!” e pegou uma moedinha de um potinho. Acho que um potinho que eles têm pra isso. Eu disse “Thank you!”, sorri e vim embora.

E assim o Brasil teve um superávit de ¢50 na balança comercial com os EUA na primeira quinzena de setembro e a vendedora teve um prejuca de ¢50 na sua tip jar.

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Primeiro dia de Universal e Islands of Adventure. Chegamos com os parques abrindo, saímos com eles fechando. Felizes, mas muito, muito, muito cansados, pés doloridos, doidos pra chegar no hotel, tomar um banho e cair na cama. Na saída, já perto do globo, uma moça bonitinha perguntou se não gostaríamos de participar de uma pesquisa de satisfação. Eu e minha mente brazuca pensamos: – “Opa! Vai ter brinde!”. Aceitei com um solícito “Oh, yes! Why not?”. Foram 20 minutos de perguntas. Fabiana me fuzilando com os olhos. Marina, com dor de viado de tanto andar, já respondendo tudo “excellent” por mim para acabar logo. No final, um “Thank you!” fajuto. No gifts. Ninguém tocou no assunto até o outro dia de Universal, na saída, quando as meninas ao verem os entrevistadores recrutando gente para a pesquisa disseram, quase juntas: “Nem pensar, pai!”. Nem pensar. Nem pensar.

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Reconheçamos: os americanos são grandes entrepreneurs. Tudo que se metem a fazer fazem muito bem, de forma planejada, impecável. As gramas nas laterais das ruas são sempre verdinhas porque quando são colocadas lá, também já se colocam os sprinklers para regá-las na hora certa. As regras são cumpridas nem tanto por sua existência – ter regras não garante nada –, mas pelo enforcement, ou seja, pela certeza de que tem algo mais forte que vai fazê-las ser cumpridas. Se isso é admirável por um lado, é inevitável que por outro esse preciosismo no enforcement em tudo crie uma panela de pressão no sujeito que, curiosamente, não tem sprinklers de escape, de deriva. A americana é uma sociedade sem deriva, diferente da brasileira em que derivar é a regra e seguir a regra não é cool. Aqui as coisas são frouxas e perdemos muito por isso. A gente não planeja. A gente resolve no caminho. O psicanalista Contardo Calligaris fala disso no livro “Hello Brasil!”. Há regras, mas não se cumprem. Chega a ser até coisa de otário para muitos. Lá, ter de cumprir tanta regra leva o sujeito às vezes a bater a biela. Ou puxar o gatilho contra pessoas que são, pra ele, a sociedade que oprime personificada. Navegar, como dizia o poeta, exige precisão: da bússola, da carta, do trajeto. Viver não é preciso. Viver requer deriva, escape. Ou paga-se um preço alto quando as pulsões explodem. É o toma lá da cá das coisas.

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Nunca planejei tanto uma viagem. Fiz uma planilha no Excel e lancei previsão de gastos diários, com um plus por dia para imprevistos. Para cada atividade prevista, pesquisei preços, alternativas, detalhes importantes, pegadinhas para ficar atento, roteiros. Andei pelos lugares no Google Street View. Consultei o Yelp.com e o app para ver a reputação dos lugares. Comprei um GPS aqui – mesmo preço de lá e não entrou na cota por ser nacional, da Multilaser –, baixei nos fóruns de GPS um programa melhor (iGo), o mapa da Florida atualizado e pré-programei todas as nossas rotas. Está tudo na internet. Tem de garimpar, tem de organizar. Planejei comprar um chip pré-pago da T-Mobile com internet, mas ganhei um da minha amiga Marta que acabara de voltar dos Estêites e que valia até fim de setembro. Economia de $40. Lá, ao fim de cada dia, atualizava a planilha com os gastos reais no celular. Levei dinheiro baseado na planilha. E só dinheiro. Usar cartão de crédito nem pensar. Visa Travel Money não compensa também com o IOF alto. Escolhi hotéis com cofres peloBooking.com. Saía com o dinheiro do gasto planejado do dia e um plus de 100 dólares, só pra garantir. Sempre voltaram ao cofre. Sobrou dinheiro. Era para sobrar, já que tinha um plus previsto. O que pude pagar no Brasil, em Real, parcelado e antecipado, eu paguei: seguro-saúde, entrada dos parques e aluguel do carro. Como disse, evitei usar cartão de crédito. Com esse câmbio maluco e o IOF nas alturas é suicídio. Só usei para carregar o pedágio pré-pago no App do celular porque não tinha jeito, e, claro, para as garantias de praxe no aluguel do carro e nos hotéis. Nos parques, usava os apps para escolher os brinquedos e saber o tempo de filas. Tanto a Disney quanto a Universal tem programas bem bacanas, que mostram onde você está. Só errei numa coisa: programei dez dias e não contava que a lista das encomendas da minha sogra demorasse tanto para ser vencida. Se viajar e tiver as encomendas inevitáveis, ponha pelo menos mais dois dias aí no seu roteiro para distribuir melhor as coisas e ficar menos corrido. Já comecei a planejar nossa viagem ao Chile.

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Alguém falou pra Fabiana que comida industrializada podia levar. E líquido também, desde que limitado a 150 ml e dentro de um ziplock. Pronto. Lá fui no Carrefour antes da viagem comprar saquinhos ziplock. Miojo, Sustagen, Fandangos, Ruffles, Chocolate, Ninho 3+, tudo ziplockado. Quando vi, até minhas cuecas estavam no ziplock. Era tanto ziplock que o cara da alfândega perguntou se a gente representava a marca no Brasil. Depois de dois dias de parques, confesso que fiquei assado de tanto andar. Só me ocorreu colocar gelo no ziplock e… zip! fazer uma compressa geladinha nas partes. Que alívio! Dica: não esqueça dos seus ziplocks se for pros Estêites.  

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deio montanhas-russas. Aliás, qualquer coisa com movimentos bruscos. passo mal, fico gelado e tudo isso. Mas fiz um esforço de pai, jurando para a Ana Clara – que estava com medo, mas a fim de ir – que a Mina dos Sete Anões, no Magic Kingdom, ia ser show, que ela ia adorar e tal. Acabei convencendo e fomos. Ela e a mãe no carrinho da frente. Eu e a Nina no de trás. Quando aquele negócio acelerou, eu gritava:
– “Viu, filha! U-huuuu! Que show! WOW! Bacana! Uêba! U-huuuuu! Que massa!! Que legaaaalllllll!”
Quando acabou, na saída, disfarcei meu quase-desmaio e perguntei:
– “E aí, filha? Gostou? Não é bacana?”
Ela disse:
– “Adorei, pai. Valeu!”
Aí a Marina arrematou:
– “Papai quando fica apavorado fica gritando que está gostando pra disfarçar.”
– “Eu sei”, disse a Clara.
Pensei que estava enganando todo mundo.

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A comida nos EUA, pro meu gosto, é muito ruim. E, pro meu bolso, muito cara. A não ser que você tenha um cartão Platinum sem limite, não dá pra almoçar e jantar em restaurante, não. É quase um iPhone 6s por dia. Mas cansados de comer fast food, resolvemos ir ao Uno, restaurante bem em frente ao Best Western da International Drive, onde ficamos. Fomos atendidos por um garçom muito simpático que começou anotando nossos pedidos em inglês. Depois perguntou de onde éramos. Quando eu disse que éramos do Brasil, ele disse que se precisasse chamaria alguém para nos atender em português. Era gaiatice. Ele falava português, logo revelou. Adão – ou Adam – é um português que tinha imigrado há uns 15 anos para os States. Muito falador, se dirigia sempre a Bia. Até que disse, em bom português:
– Estou impressionado. Você é muito bonita e se parece com uma namorada brasileira que eu tenho, mas que ainda não conheço.
Pediu até pra tirar foto com ela.
Senti um clima. Domei meu ciúme e me concentrei no meu steak com molho barbecue que comi com a gana dos biafras africanos. Ao final, quando trouxe a conta, eu falei:
– Ok. Pode por mais 20% pelo serviço.
Ele olhou encantado pra Bia e disse:
– Não precisa tanto. 15% está bom.
Só não fiquei com mais ciúmes porque a moça que fez pesquisa de satisfação comigo quando estávamos saindo da Universal disse, quando eu falei que tinha 47 anos:
– Não acredito. Você é muito bonito e não parece tão velho.
É claro que não traduzi isso pra Bia. I’m not dead. Desmaiado talvez. Not dead.

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Papo no avião:
– Estou com frio na barriga.
– Normal. Ansiedade. Outro país, coisas novas.
– Mas estou com medo.
– Medo de quê? Vai dar tudo certo, amor.
– Medo, sei lá, de ser presa.
– Presa?! Tu não está pensando em roubar nada no Walmart, não, tá?
– Claro que não! Sei lá… Nos EUA de repente aparecem aqueles policiais vestindo preto e levam a gente.
Chegamos, pegamos a fila da imigração. Uma hora de fila. Quando estava chegando a nossa vez, uma gritaria vindo da fila de imigração dos diplomatas. Pelo que entendi, um gaiato hispanohablante não quis esperar na filona e tentou ir na dos diplomatas. Só veio o papoco. Uns cinco policiais, vestindo preto, chegaram perguntando alto:
– Who’s is he? Where is he?
E já foram algemando o cara, que gritava:
– ¡Ella está mintiendo! ¡No arrestarme!
Quando eu olho para Bia, ela está lívida, branca, como se ela fosse ser a próxima a ser algemada.
– Viu? Viu?
E passou o resto do tempo da fila em um silêncio sepulcral, com medo de ser presa por estar levando Sustagen e miojo na bolsa.

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Não gostei do pouco que vi de Miami, não. Já Orlando é uma cidade bacana. Chegamos em Miami e já fomos direto pra lá. Aluguei um Chrysler 200, muito confortável, todo completão, automático, cruise control, com tudo que se tem direito. Um carro que custa US$ 22 mil lá e a bagatela de R$ 190 mil aqui. Aluguei pela Thrifty e paguei em reais, parcelados, fugindo do dólar alto e do IOF idem. Marina ficou fascinada com o carro. E descobriu o botão para abrir o teto solar justamente na hora de um toró violento. Molhou todo mundo. As locadoras querem empurrar o SunPass – transponder de pedágio automático –, só que elas cobram muito caro. Disse que não queria. Saí do aeroporto sem o transponder e parei numa Walgreens num mall bem pertinho do aeroporto. Quis gastar meu inglês, mas só se fala espanhol na coxinhalândia americana. Comprei por US$ 5 dólares o sticker do SunPass (minha mulher aproveitou pra comprar o primeiro dos 375 Aussies), carreguei US$ 30 dólares pelo app da SunPass no celular e tchau e benção. Deu pra ida e ainda sobrou. Saí daqui de Manaus com a rota do Car Rental Center até o Wallgreens já armazenada no GPS. Aliás, todas as nossas rotas. Dá para ir de Miami para Orlando pela Florida Turnpike ou pela I-95. Preferi pagar mais pedágio e ir pela Turnpike. Ela tem plazas para parar no meio do caminho e lavar o rosto. A estrada é um retão e dá um sono. Já tinha tudo esquematizado aqui. Planejamento é tudo.

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Lá estávamos nós. Primeiro dia de parques. Começamos pelo Islands of Adventure. Entramos e eu, seguindo a dica do Eduardo Jorge S. Honorato, disse que era meu aniversário. Ganhei um bottom de aniversariante e mais de mil Happy Birthdays durante o dia. Na verdade era quase meu aniversário. Tinha sido no dia anterior. White lie. Fomos na área do Gatola da Cartola. De repente eu vejo o Gatola e grito, extasiado:
– O Gatola! Vão lá tirar foto com ele! Vão lá!
– Mas pai…
– Cuida! Se não ele vai embora!
– É que…
– Vão logo!
Elas foram. E tiramos as fotos. Andamos mais um pouco e vi uma fila pra tirar foto.
– Quem é esse?
– É o Gatola, pai.
– Gatola?! Mas e aquele?
– Era o que eu estava tentando dizer, pai. Que aquele não era o Gatola.
Preciso assistir mais aos desenhos…

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Na pausa pra comer alguma coisa no Outlet Premium, em seu Orlando, decidimos comer pizza e massa na Villa Fresh Italian Kitchen, na praça de alimentação. Tinha um gordinho muito mal-humorado que servia as coisas. Eu passei até que mais ou menos pelo humor dele. Mas o cara depois de mim na fila levou um esporro quando perguntou como era o talharim deles.
– “Listen, my friend! Here, in China, in Italy, in New Zealand, in Africa, everywhere, taglierin is taglierin, exactly the same!”
– “Ok, sorry for asking”, disse o homem desolado.
Me senti em Manaus por alguns minutos.

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Estávamos saindo do estacionamento do hotel em Orlando. Um senhor, bem apessoado, bem vestido, uns 50 e pouco anos, fez sinal para eu parar. Parei, baixei o vidro. E ele disse:
– Você pode me ajudar? Estava indo pro trabalho e fiquei sem gasolina. Você poderia me dar dinheiro pra eu poder ir trabalhar?
– Desculpa, amigo, mas não ando com dinheiro.

Lá também tem golpe e Miguelation. Saidinha de hotel.

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Duas coisas interessantes. Não tem moto nas ruas de Orlando. Aliás, vi uma Harley-Davidson, mas já perto da Nasa, em Cabo Canaveral. Se bem que HD não conta. É hobby, não é meio de transporte. Lá, a sociedade é dos carros. Ponto. Nada de mototaxistas com camisas da Sportline Nell fazendo zig-zags. E a outra coisa interessante é que não tem mosquito. Aliás, tem. Tem uns mosquitinhos safados que só voam transando, os marotos. Vi muitos deles na NASA, mas tinha em seu Orlando também. Depois descobri que eles se chamam love-bugs. That figures!