Meu corpo, minhas regras

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Voltamos ao papo que estabelece o cenário: a sociedade da visibilidade. Com as redes, é imperioso estar presente, ser visto, receber likes, ser curtido. O ego digital é parte integrante da subjetividade contemporânea. No entanto, essa mesma rede que alimenta a cultura da visibilidade draga o sujeito para dentro de sua efemeridade. “Ok, você tem viabilidade, mas não pode ter muita, nem por muito tempo. Tem de ser rápido”. Por conta dessa regra dupla – aparecer, mas aparecer rápido –, a rede desenvolve ela própria mecanismos de cuspe, de excreção, de descartes de quem ousar passar do tempo de vitrine.
Os mecanismos de controle do sistema imunológico da rede incluem, entre outros, haters, trolls e naïve noobs. Os haters são odiadores gratuitos que funcionam como anticorpos para a visibilidade. Sua função é odiar gratuitamente, xingar, desconstruir, falar mal, destruir reputações e trabalhos. Basta um pouco de visibilidade que lá vêm eles, detonando tudo. Os trolls são que usam a rede para provocar o debate, mas não com o foco no debate e sim na provocação. Se alimentam disso. É famosa a ciberfrase “Não alimente os trolls”. Eles se alimentam de respostas às suas provocações. O silêncio é trollcida. Menos cruéis que os haters, que devem ser bloqueados assim que surgem para se manter a sanidade digital, os trolls chegam até a ser engraçados. Eu tenho uns de estimação. E, por fim, há os naïve noobs, os inocentes bobos que são a versão digital da massa de manobra. Gente que compartilha e curte sem entender muito bem só porque ouviu o galo cantar, mas sem saber onde. Todos eles, do sistema imunológico da rede, de certo modo, também querem seus likes de fama, sua visibilidade.
É nesse cenário que as coisas acontecem na rede. É nesse quadro que está acontecendo um grande fuzuê em torno dos comentários sexuais sobre a menina Valentina, que participa do Masterchef Jr. Se você esteve em Marte essa semana, é o seguinte: Valentina Schulz, 12 anos, participante do programa recebeu vários assédios via Twitter no dia do programa. Esse assédio se estendeu e chegou ao Facebook, com uma página de admiradores que não admiram Valentina por seus dotes culinários, mas por seu corpo infantil e por sua sexualidade de menina, que lhes despertam desejos. Logo a rede pegou fogo sobre a questão de desejar crianças e pedofilia. Valentina entrou no Master Chef Jr em busca da visibilidade. E começa, agora, a ser vítima do sistema imunológico. Haters, trolls e naïve noobs entraram em ação, servindo de manto para perversões diversas. Mas que fique claro: a culpa não é dela. Como também não têm culpa as mulheres por vestirem roupas sensuais, argumento de alguns para justificar assédios e estupros. A responsabilidade de um assédio e de um estupro é do assediador e do estuprador. Ponto.
O que o episódio em si traz à reflexão é como as pessoas que entram nesses papeis ruins da rede se enganam. A sociedade não é A sociedade MAIS a rede. É uma nova sociedade que inclui a rede. A rede já não é mundo à parte, mas extensão do real. A rede é mundo real. Essas pessoas se enganam porque ainda pensam que as redes são terras de ninguém, onde tudo pode, onde vale tudo. Não, senhor. Nas escolhas, há responsabilidades jurídicas pelo que você curte, publica, compartilha. Em nossa sociedade, apologia ao sexo com uma criança é crime. Fora do digital ou no digital. Seja sob que rótulo for. Simples, assim. Isso não é liberdade de expressão. Pedofilia, o desejo sexual por crianças, é um distúrbio que viola as regras sociais, embora alguns digam ser um instituto natural. Pode até ser. Mas desde que resolvemos viver em sociedade, o natural passou a ser historicizado e regulado pelas práticas coletivas. Quem age só movido pelo Id numa sociedade do Superego é, portanto, um idiota, no sentido etimológico do termo e vai ser muito provavelmente um criminoso no sentido jurídico.
O susto da pedofilia aberta que o episódio do Master Chef Jr trouxe movimentou o Twitter. Uma hashtag sobre assédio foi criada e por ela mulheres narram situações em que foram e são vítimas de assédio. Vá lá no Twitter e procure: ‪#‎primeiroassédio‬. É de assustar como a cultura do assédio, do estupro e de um machismo escroto ainda dominam nossa sociedade.
Não vamos demonizar o sexo. Sexo é ótimo. Eu adoro sexo. Mas só é bom, só é gostoso quando é bom e gostoso para todo mundo envolvido. Se é consensual entre pessoas que têm o discernimento sobre a escolha, que gozem sem limites, que percam o fôlego. Mas todos nós temos o direito inalienável sobre nossos corpos. Our bodies, our rules. Qualquer avanço sobre esses limites deve ser combatido, escancarado, denunciado porque é criminoso. Falamos e pela linguagem simbolizamos o mundo e damos a ele sentidos. A linguagem, há muito, nos separou dos instintos incontroláveis que movem os outros animais. Se esses instintos fogem de controle, amigo, procure terapia. Se num programa de culinária com crianças, com aqueles jurados bizarros, a primeira coisa que você repara é no desejo sexual que uma criança desperta em você, tem algo gritando aí. Escute.
Aliás, precisamos falar mais sobre esses assuntos. O silêncio, nesses casos, só beneficia essa cultura nefasta do machismo, do assédio, da pedofilia, do desrespeito ao corpo e às pessoas. É urgente falar mais sobre isso. É urgente.

A redenção pelo McFly

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McFly FreireHoje é o dia em que Marty McFly chega, vindo da década de 80. Todo esse buzz, os memes e vídeos que derivam da chegada do McFly nos apontam para duas coisas. A primeira é a apropriação voraz na internet de agendas que ela mesma cria – para depois desaparecer com a mesma rapidez. E a segunda coisa é o fascínio que o futuro exerce sobre cada um de nós.
A liquidez evidenciada por Zygmunt Bauman foi acelerada. Vivemos uma quase condensação das coisas. É tudo tão rápido que já não são mais tempos líquidos, mas tempos gasosos. “Senhora, senhora” já é coisa do ano passado, parece. Tudo que era sólido se liquefez e tudo que é líquido se desmancha no ar. O passado se adensa, se atulha com a memória metálica das tecnologias e o presente corre desesperadamente em um tempo que tudo é urgente. Vivemos a morte da contemplação. Ser permanente em tempos de impermanência chega a ser um ato de rebeldia, um ato revolucionário. Daí algumas pessoas irem montanhar sem relógio e sem internet. Resistência pura. Daí as pessoas serem tragadas por religiões que prometem organizar a vida, tão caótica porque em pó. Desistência pura. Essa mudança do passado que antes ficava na memória biológica para um passado que se tem disponível a um click de mouse e do presente contemplativo da racionalidade moderna para um presente que urge as urgências urgentes da pós-modernidade potencializaram a necessidade de desejar pelo futuro. Desejar mais. Para fugir do atoleiro. Para, como avestruzes dimensionais, enfiar a cabeça em outra dimensão e escapar do mal-estar do presente.
Mote da trilogia que está na pauta, o desejo pelo futuro é uma maneira inconsciente do sujeito exilar-se do presente. Buscamos desesperadamente as mudanças porque não temos como pagar a conta psíquica dessa realidade. E por que não damos conta dela?
Com a globalização, pós-modernidade, sociedade da informação ou em rede – escolha no cardápio o nome –, deu-se fim à hierarquia e à ordem como desejável. O saber virou genérico. Todo mundo sabe tudo. Basta o Google e enter. Flatou-se tudo, de flat, do inglês. Com a desordem como o novo parâmetro – sem o peso pejorativo do termo – não nos queixamos mais de não conseguir atingir nossos objetivos, mas reclamamos porque nos afogamos nas infinitas possibilidades que se apresentam como objetivos. É tanto objetivo possível que angustia. Se antes buscávamos uma certeza verdadeira para a pacificação e alívio do sujeito, hoje buscamos uma certeza convencida porque a verdadeira leva tempo de maturação, tempo que já não temos mais. Basta uma certeza convencida. Não cabem mais verdades no figurino desse mundo. Mas espera aí. Mudou tudo assim tão rápido e nem nos demos conta? Sim. Muita coisa, muito rápido, não nos demos e não damos conta. E agora? Agora? Agora vamos então falar sobre a nova TekPix? Ou sobre o futuro?
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, em 1926, assim aconselhava Freud: ”O viajante surpreendido pela noite pode cantar alto no escuro para negar seus próprios temores; mas, apesar de tudo isto, não enxergará mais que um palmo adiante do nariz”. No filme, McFly só sabe o que tem do outro lado quando chega lá. Mexer com o passado exige coragem e ousadia, pois reverbera no presente. E aí? Vamos esperá-lo na praça do relógio? E você leitor, para ir lá, o que deixa do lado de cá que lhe angustia tanto? SF.

Over

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Sério: quando um relacionamento termina, ele tem de acabar. “Ain, mas a gente é amigo!”. Amigo é meu ovo! Terminou, acabou! “Ain, mas ele está sofrendo!”. Problema dele, dos amigos dele e da família dele. Não existe uma forma de reequilibrar a vida pós-término sem se distanciar. Corte tudo que alimenta a centelha de esperança, apague os nomes das agendas, limpe o Facebook, bloqueie todo mundo que vai fazer mal. Depois, lá na frente, quando encontrar no shopping um dia, diga “oi, tudo bem?”. Mas lá na frente. No começo, mude de calçada mesmo. Vai por mim. Se não a bagaça não sara. Como sarar se ficar cutucando a casquinha?

Drops da Florida

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Estávamos num Wallgreens e a Fabiana olhando uns cosméticos. Eu zanzando por perto. Aí eu ouvi a frase:
– Wait! I don’t speak English! My husband! Wait!
Ela usava essa frase quando o dialeto que ela inventou pra se comunicar – uma espécie de papiamento misturando português, espanhol, inglês, caipirês – não funcionava mais e ela me chamava para ser intérprete, se fiando no fato do papai aqui ser professor de inglês na universidade.
– O que foi, amor?
– Traduz pra ela o que eu quero.
– E o que é?
– Um cc-cream com um necessário fator de proteção semi-intenso 20 para tez suave. Matizada. Tem de ser matizada, tipo fosco, mas nem tanto.

Foi assim que eu vi que tenho de mudar de profissão. Ou fazer um curso de inglês instrumental de makes. Arreguei. Fui ver meus cabos de computador. E ela teve de apelar pro papiamento dela. Comprou.

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Era umas oito da noite e a Fabiana resolveu que a gente tinha de comprar toalhas para levar pro Aquatica Orlando, de manhã cedo, no dia seguinte. Todo mundo podre de cansado. Ela disse:
– Me dá dinheiro aí. Vou a pé nessas lojinhas do outro lado da rua.
– Vai sozinha?
– É perigoso?
– Não, não… é por causa do inglês. Vai usar o papiamento?
– Me dá dinheiro.
Levou 25 obamas e foi. Daqui a pouco ela volta, com duas toalhas.
– E aí? Deu certo?
– Tu nem sabes… Eu achei essas duas toalhas, $12 cada. Eu tinha $25, calculei que dava daí. Quando fui pagar, deu $ 25.44. Tinha esquecido da pegadinha do imposto de 6% separado do preço. Falei pra mulher: “Wait!Best Western International Drive – Orlando! Go money!”. Disse pra ela guardar a toalha que eu vinha aqui pegar no hotel os ¢50. Mas ela disse: “No! Don’t worry!” e pegou uma moedinha de um potinho. Acho que um potinho que eles têm pra isso. Eu disse “Thank you!”, sorri e vim embora.

E assim o Brasil teve um superávit de ¢50 na balança comercial com os EUA na primeira quinzena de setembro e a vendedora teve um prejuca de ¢50 na sua tip jar.

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Primeiro dia de Universal e Islands of Adventure. Chegamos com os parques abrindo, saímos com eles fechando. Felizes, mas muito, muito, muito cansados, pés doloridos, doidos pra chegar no hotel, tomar um banho e cair na cama. Na saída, já perto do globo, uma moça bonitinha perguntou se não gostaríamos de participar de uma pesquisa de satisfação. Eu e minha mente brazuca pensamos: – “Opa! Vai ter brinde!”. Aceitei com um solícito “Oh, yes! Why not?”. Foram 20 minutos de perguntas. Fabiana me fuzilando com os olhos. Marina, com dor de viado de tanto andar, já respondendo tudo “excellent” por mim para acabar logo. No final, um “Thank you!” fajuto. No gifts. Ninguém tocou no assunto até o outro dia de Universal, na saída, quando as meninas ao verem os entrevistadores recrutando gente para a pesquisa disseram, quase juntas: “Nem pensar, pai!”. Nem pensar. Nem pensar.

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Reconheçamos: os americanos são grandes entrepreneurs. Tudo que se metem a fazer fazem muito bem, de forma planejada, impecável. As gramas nas laterais das ruas são sempre verdinhas porque quando são colocadas lá, também já se colocam os sprinklers para regá-las na hora certa. As regras são cumpridas nem tanto por sua existência – ter regras não garante nada –, mas pelo enforcement, ou seja, pela certeza de que tem algo mais forte que vai fazê-las ser cumpridas. Se isso é admirável por um lado, é inevitável que por outro esse preciosismo no enforcement em tudo crie uma panela de pressão no sujeito que, curiosamente, não tem sprinklers de escape, de deriva. A americana é uma sociedade sem deriva, diferente da brasileira em que derivar é a regra e seguir a regra não é cool. Aqui as coisas são frouxas e perdemos muito por isso. A gente não planeja. A gente resolve no caminho. O psicanalista Contardo Calligaris fala disso no livro “Hello Brasil!”. Há regras, mas não se cumprem. Chega a ser até coisa de otário para muitos. Lá, ter de cumprir tanta regra leva o sujeito às vezes a bater a biela. Ou puxar o gatilho contra pessoas que são, pra ele, a sociedade que oprime personificada. Navegar, como dizia o poeta, exige precisão: da bússola, da carta, do trajeto. Viver não é preciso. Viver requer deriva, escape. Ou paga-se um preço alto quando as pulsões explodem. É o toma lá da cá das coisas.

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Nunca planejei tanto uma viagem. Fiz uma planilha no Excel e lancei previsão de gastos diários, com um plus por dia para imprevistos. Para cada atividade prevista, pesquisei preços, alternativas, detalhes importantes, pegadinhas para ficar atento, roteiros. Andei pelos lugares no Google Street View. Consultei o Yelp.com e o app para ver a reputação dos lugares. Comprei um GPS aqui – mesmo preço de lá e não entrou na cota por ser nacional, da Multilaser –, baixei nos fóruns de GPS um programa melhor (iGo), o mapa da Florida atualizado e pré-programei todas as nossas rotas. Está tudo na internet. Tem de garimpar, tem de organizar. Planejei comprar um chip pré-pago da T-Mobile com internet, mas ganhei um da minha amiga Marta que acabara de voltar dos Estêites e que valia até fim de setembro. Economia de $40. Lá, ao fim de cada dia, atualizava a planilha com os gastos reais no celular. Levei dinheiro baseado na planilha. E só dinheiro. Usar cartão de crédito nem pensar. Visa Travel Money não compensa também com o IOF alto. Escolhi hotéis com cofres peloBooking.com. Saía com o dinheiro do gasto planejado do dia e um plus de 100 dólares, só pra garantir. Sempre voltaram ao cofre. Sobrou dinheiro. Era para sobrar, já que tinha um plus previsto. O que pude pagar no Brasil, em Real, parcelado e antecipado, eu paguei: seguro-saúde, entrada dos parques e aluguel do carro. Como disse, evitei usar cartão de crédito. Com esse câmbio maluco e o IOF nas alturas é suicídio. Só usei para carregar o pedágio pré-pago no App do celular porque não tinha jeito, e, claro, para as garantias de praxe no aluguel do carro e nos hotéis. Nos parques, usava os apps para escolher os brinquedos e saber o tempo de filas. Tanto a Disney quanto a Universal tem programas bem bacanas, que mostram onde você está. Só errei numa coisa: programei dez dias e não contava que a lista das encomendas da minha sogra demorasse tanto para ser vencida. Se viajar e tiver as encomendas inevitáveis, ponha pelo menos mais dois dias aí no seu roteiro para distribuir melhor as coisas e ficar menos corrido. Já comecei a planejar nossa viagem ao Chile.

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Alguém falou pra Fabiana que comida industrializada podia levar. E líquido também, desde que limitado a 150 ml e dentro de um ziplock. Pronto. Lá fui no Carrefour antes da viagem comprar saquinhos ziplock. Miojo, Sustagen, Fandangos, Ruffles, Chocolate, Ninho 3+, tudo ziplockado. Quando vi, até minhas cuecas estavam no ziplock. Era tanto ziplock que o cara da alfândega perguntou se a gente representava a marca no Brasil. Depois de dois dias de parques, confesso que fiquei assado de tanto andar. Só me ocorreu colocar gelo no ziplock e… zip! fazer uma compressa geladinha nas partes. Que alívio! Dica: não esqueça dos seus ziplocks se for pros Estêites.  

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deio montanhas-russas. Aliás, qualquer coisa com movimentos bruscos. passo mal, fico gelado e tudo isso. Mas fiz um esforço de pai, jurando para a Ana Clara – que estava com medo, mas a fim de ir – que a Mina dos Sete Anões, no Magic Kingdom, ia ser show, que ela ia adorar e tal. Acabei convencendo e fomos. Ela e a mãe no carrinho da frente. Eu e a Nina no de trás. Quando aquele negócio acelerou, eu gritava:
– “Viu, filha! U-huuuu! Que show! WOW! Bacana! Uêba! U-huuuuu! Que massa!! Que legaaaalllllll!”
Quando acabou, na saída, disfarcei meu quase-desmaio e perguntei:
– “E aí, filha? Gostou? Não é bacana?”
Ela disse:
– “Adorei, pai. Valeu!”
Aí a Marina arrematou:
– “Papai quando fica apavorado fica gritando que está gostando pra disfarçar.”
– “Eu sei”, disse a Clara.
Pensei que estava enganando todo mundo.

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A comida nos EUA, pro meu gosto, é muito ruim. E, pro meu bolso, muito cara. A não ser que você tenha um cartão Platinum sem limite, não dá pra almoçar e jantar em restaurante, não. É quase um iPhone 6s por dia. Mas cansados de comer fast food, resolvemos ir ao Uno, restaurante bem em frente ao Best Western da International Drive, onde ficamos. Fomos atendidos por um garçom muito simpático que começou anotando nossos pedidos em inglês. Depois perguntou de onde éramos. Quando eu disse que éramos do Brasil, ele disse que se precisasse chamaria alguém para nos atender em português. Era gaiatice. Ele falava português, logo revelou. Adão – ou Adam – é um português que tinha imigrado há uns 15 anos para os States. Muito falador, se dirigia sempre a Bia. Até que disse, em bom português:
– Estou impressionado. Você é muito bonita e se parece com uma namorada brasileira que eu tenho, mas que ainda não conheço.
Pediu até pra tirar foto com ela.
Senti um clima. Domei meu ciúme e me concentrei no meu steak com molho barbecue que comi com a gana dos biafras africanos. Ao final, quando trouxe a conta, eu falei:
– Ok. Pode por mais 20% pelo serviço.
Ele olhou encantado pra Bia e disse:
– Não precisa tanto. 15% está bom.
Só não fiquei com mais ciúmes porque a moça que fez pesquisa de satisfação comigo quando estávamos saindo da Universal disse, quando eu falei que tinha 47 anos:
– Não acredito. Você é muito bonito e não parece tão velho.
É claro que não traduzi isso pra Bia. I’m not dead. Desmaiado talvez. Not dead.

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Papo no avião:
– Estou com frio na barriga.
– Normal. Ansiedade. Outro país, coisas novas.
– Mas estou com medo.
– Medo de quê? Vai dar tudo certo, amor.
– Medo, sei lá, de ser presa.
– Presa?! Tu não está pensando em roubar nada no Walmart, não, tá?
– Claro que não! Sei lá… Nos EUA de repente aparecem aqueles policiais vestindo preto e levam a gente.
Chegamos, pegamos a fila da imigração. Uma hora de fila. Quando estava chegando a nossa vez, uma gritaria vindo da fila de imigração dos diplomatas. Pelo que entendi, um gaiato hispanohablante não quis esperar na filona e tentou ir na dos diplomatas. Só veio o papoco. Uns cinco policiais, vestindo preto, chegaram perguntando alto:
– Who’s is he? Where is he?
E já foram algemando o cara, que gritava:
– ¡Ella está mintiendo! ¡No arrestarme!
Quando eu olho para Bia, ela está lívida, branca, como se ela fosse ser a próxima a ser algemada.
– Viu? Viu?
E passou o resto do tempo da fila em um silêncio sepulcral, com medo de ser presa por estar levando Sustagen e miojo na bolsa.

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Não gostei do pouco que vi de Miami, não. Já Orlando é uma cidade bacana. Chegamos em Miami e já fomos direto pra lá. Aluguei um Chrysler 200, muito confortável, todo completão, automático, cruise control, com tudo que se tem direito. Um carro que custa US$ 22 mil lá e a bagatela de R$ 190 mil aqui. Aluguei pela Thrifty e paguei em reais, parcelados, fugindo do dólar alto e do IOF idem. Marina ficou fascinada com o carro. E descobriu o botão para abrir o teto solar justamente na hora de um toró violento. Molhou todo mundo. As locadoras querem empurrar o SunPass – transponder de pedágio automático –, só que elas cobram muito caro. Disse que não queria. Saí do aeroporto sem o transponder e parei numa Walgreens num mall bem pertinho do aeroporto. Quis gastar meu inglês, mas só se fala espanhol na coxinhalândia americana. Comprei por US$ 5 dólares o sticker do SunPass (minha mulher aproveitou pra comprar o primeiro dos 375 Aussies), carreguei US$ 30 dólares pelo app da SunPass no celular e tchau e benção. Deu pra ida e ainda sobrou. Saí daqui de Manaus com a rota do Car Rental Center até o Wallgreens já armazenada no GPS. Aliás, todas as nossas rotas. Dá para ir de Miami para Orlando pela Florida Turnpike ou pela I-95. Preferi pagar mais pedágio e ir pela Turnpike. Ela tem plazas para parar no meio do caminho e lavar o rosto. A estrada é um retão e dá um sono. Já tinha tudo esquematizado aqui. Planejamento é tudo.

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Lá estávamos nós. Primeiro dia de parques. Começamos pelo Islands of Adventure. Entramos e eu, seguindo a dica do Eduardo Jorge S. Honorato, disse que era meu aniversário. Ganhei um bottom de aniversariante e mais de mil Happy Birthdays durante o dia. Na verdade era quase meu aniversário. Tinha sido no dia anterior. White lie. Fomos na área do Gatola da Cartola. De repente eu vejo o Gatola e grito, extasiado:
– O Gatola! Vão lá tirar foto com ele! Vão lá!
– Mas pai…
– Cuida! Se não ele vai embora!
– É que…
– Vão logo!
Elas foram. E tiramos as fotos. Andamos mais um pouco e vi uma fila pra tirar foto.
– Quem é esse?
– É o Gatola, pai.
– Gatola?! Mas e aquele?
– Era o que eu estava tentando dizer, pai. Que aquele não era o Gatola.
Preciso assistir mais aos desenhos…

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Na pausa pra comer alguma coisa no Outlet Premium, em seu Orlando, decidimos comer pizza e massa na Villa Fresh Italian Kitchen, na praça de alimentação. Tinha um gordinho muito mal-humorado que servia as coisas. Eu passei até que mais ou menos pelo humor dele. Mas o cara depois de mim na fila levou um esporro quando perguntou como era o talharim deles.
– “Listen, my friend! Here, in China, in Italy, in New Zealand, in Africa, everywhere, taglierin is taglierin, exactly the same!”
– “Ok, sorry for asking”, disse o homem desolado.
Me senti em Manaus por alguns minutos.

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Estávamos saindo do estacionamento do hotel em Orlando. Um senhor, bem apessoado, bem vestido, uns 50 e pouco anos, fez sinal para eu parar. Parei, baixei o vidro. E ele disse:
– Você pode me ajudar? Estava indo pro trabalho e fiquei sem gasolina. Você poderia me dar dinheiro pra eu poder ir trabalhar?
– Desculpa, amigo, mas não ando com dinheiro.

Lá também tem golpe e Miguelation. Saidinha de hotel.

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Duas coisas interessantes. Não tem moto nas ruas de Orlando. Aliás, vi uma Harley-Davidson, mas já perto da Nasa, em Cabo Canaveral. Se bem que HD não conta. É hobby, não é meio de transporte. Lá, a sociedade é dos carros. Ponto. Nada de mototaxistas com camisas da Sportline Nell fazendo zig-zags. E a outra coisa interessante é que não tem mosquito. Aliás, tem. Tem uns mosquitinhos safados que só voam transando, os marotos. Vi muitos deles na NASA, mas tinha em seu Orlando também. Depois descobri que eles se chamam love-bugs. That figures!

Discurso & Psicanálise

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A gente é o que a gente tem sido. Somos produtos de nossa prática de pensamento. Ninguém nasce de direita, de esquerda, preconceituoso, religioso, machista, amigo dos animais, liberal, comunista, fã do Roberto. A gente aprende a pensar assim pela vida que chega e não pede licença. E a vida entra via linguagem, no conjunto de experiências a que somos expostos. O jeito de pensar as coisas como nossas verdades se chama discurso. Quem compartilha o mesmo jeito de pensar, então, está certo, coerente, correto, é um dos nossos. É até uma pessoa mais bonita. Quem não compartilha é cego, é estúpido, está errado, é dos deles. E como fica feia a pessoa que pensa diferente de mim… É esse o efeito. O certo e o errado, o bom e o mau são efeitos. Efeitos reais, mas efeitos. Tanto para um grupo quanto para os outros a verdade se constrói da mesma forma sólida e verdadeira. Funciona igual para todo mundo, por isso as pessoas divergem. Isso acontece porque a história não é igual para as pessoas. Daí a diversidade. Assim se produzem verdades. Mas e daí em diante? Daí em diante, no aspecto do jogo das relações humanas e sociais, há um jogo de impor verdades – as nossas – sobre a dos outros. E isso é o político da linguagem: entender como se dá a correlação de forças na sociedade. Há discursos que querem superar as diferenças e achar um modo de sobrevivência nas diferenças. E há discursos que querem suprimir a diferença e aniquilá-las. No aspecto subjetivo, há também de se pensar sobre a relação de harmonia/resistência do sujeito com os discursos que o compõem. Há sujeitos que entram azeitados nas engrenagens discursivas a que estão sujeitos e há outros que tentam, inconscientemente, exorcizá-las, libertando-se desses discursos incomodadores e sofrem com a tarefa. A Análise de Discurso (AD) estuda o jogo de correlação de forças na sociedade, o político, a pólis. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para explicitar como está funcionando a construção do sentido para cada grupo de sujeitos. E a Psicanálise cuida do sujeito e sua relação com seus discursos fundadores. Analisar o sentido que se tem de governo – se deve ser mais social, se deve ser menos interventor na economia – é de interesse da AD. Interrogar o que o ódio mortal que seu Zé tem pelo Lula significa e o que que esse ódio metaforiza do não simbolizado em sua história de vida é de interesse da Psicanálise. Compreender como a discursividade sobre a homoafetividade tem mudado no tempo com os deslocamentos das relações humanas é de interesse da AD. Explicitar por que o seu Zé tem uma raiva atávica de gays e o que isso tem a ver com questões mal elaboradas de sua sexualidade é o baratinho da Psicanálise. Estou com saudade das aulas de Discurso…

O leão que caçamos

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O dentista americano Walter J. Palmer matou um leão na África, mais especificamente no Zimbabwe’s Hwange National Park, no Zimbabwe. Acontece que o leão era Cecil, uma espécie de símbolo nacional do país, e fazia parte de um projeto de pesquisa da Universidade de Oxford. Ele usava um GPS para monitoramento e foi atraído para fora da reserva onde vivia para ser morto com um arco e flecha. Detalhe importante. Depois de morto, teve sua cabeça cortada como um troféu. Essa história está rodando a internet e você deve conhecê-la, a não ser que tenha passado essa última semana em Plutão ou na Terra 2.0.

Fiquei me perguntando o que leva alguém a matar um animal por esporte. Antigamente, o homem matava animais em autodefesa ou por fome. É claro que o compele caçadores esportivos hoje nada tem a ver com o que movia caçadores da era paleolítica. Hoje, caçar por esporte é uma maneira socialmente aceitável – ok, cada vez menos – para justificar o prazer de matar por matar. Isso acontece no mundo o tempo todo e dessa vez só deu treta porque o leão era conhecido. Se fosse um leão da periferia, negro, pobre e do morro, talvez fosse mais um bicho na estatística.

O que o liongate me faz pensar, na verdade, é nos leões que nós caçamos e queremos matar para equilibrar nossas faltas. É uma metáfora, claro. O único bicho que mato é barata porque senão minha mulher não consegue dormir se souber que ela escapou. Mas, sim, os nossos leões.

A vida precisa de equilíbrio psíquico. Se sobra exagero de um lado da balança é porque há uma falta que pesa no outro prato. Muito silêncio ou muito barulho sobre algo, dizia Freud, é sinal de que esse algo precisa ser ouvido. Caçar, matar um animal, sentir o prazer de tirar a vida de um bicho desnecessariamente é claramente uma compensação narcisística por alguma falta. Imagine alguém que deliberadamente mata um cachorro na rua. É lógico que isso tem o peso de algum desequilíbrio que precisa dessa overdose compensatória de gozo. Não. Isso não é normal. Se a gente pensar no processo psicodinâmico de um sujeito em paz consigo definitivamente há alguma coisa aí. Só há causa daquilo que falha.

No caso de Walter Palmer, sua forma de compensar a falta – sabe-se lá qual – é matar por esporte. Há compensações menos nocivas e outras mais, tanto para o sujeito quanto para quem o circunda. No caso de muita gente, a compensação é um cair de cabeça na religiosidade ou espiritualidade. Outros vão para drogas, álcool, sexo compulsivo. Uns compram um carrão. Tem gente que se entope de chocolate ou de sorvete. Tem gente que para de comer ou vomita o que come. Pessoas limpam casas compulsivamente para dar conta de sujeiras psíquicas. Alguns exercitam a pedofilia, o sexismo, a violência física contra si ou contra os outros. Un outros destilam ódio gratuito nas redes sociais contra a Dilma ou o Lula. Tem gente que se mete de corpo e alma em campanhas sociais, ONGs, coletivos. Tem umas pessoas que viram the great outdoors e vão mochilar pelo mundo ad eternum, postando suas fotos de braços abertos na montanha para o mundo dar like. Tem gente que escreve. Há todos os tipos de leões para matar.

Que a gente precisa de equilíbrio psíquico não é lá uma grande novidade. A questão é que o desequilíbrio compensador sempre pega interna e externamente. Porque as compensações, quando não trabalhadas na sua origem, são falsas soluções. É mais ou menos como a febre. O sujeito sente febre e equilibra a temperatura do corpo com um antitérmico. Mas a febre, um desequilíbrio, precisa ser escutada. Ela está dizendo algo. Não basta combatê-la num falso equilíbrio. A febre é um desequilíbrio aliado. Da mesma forma, os excessos ou silenciamento eloquentes precisam ser ouvidos. Não é suficiente dar a dipirona das coisas para equilibrar a falta que faz o desequilíbrio. Tem de saber o que nos causa o mal-estar, pensado aqui como conceito psicanalítico.

O fato é que matar leões, até um por dia, pode não ser uma boa metáfora. Em vez de buscar a adrenalina fora talvez seja necessário buscar a endorfina dentro. A ideia não é aniquilar as questões que desequilibram – isso, penso, talvez seja um sonho impossível e algo até ruim porque eles são necessários –, mas aprender a conviver com elas sem tanto sofrimento e sem a necessidade de puxar o pino da bomba atômica para matar o mosquito. Só um detalhe: de dentro, a gente quase nunca enxerga. Daí a necessidade de uma boa terapia (aqui eu já fazendo propaganda para quando eu me formar, claro).

Clemént Rosset tem um livrinho que eu adoro: “o Real e seu duplo”. Ele diz em determina altura do texto: “Nada mais frágil do que a faculdade humana de admitir a realidade, de aceitar sem reservas a impiedosa prerrogativa do real. Essa faculdade falha tão frequentemente que parece razoável imaginar que ela não implica o reconhecimento de um direito imprescindível – o do real a ser percebido –, mas representa antes uma espécie de tolerância, condicional e provisória. O real geralmente só é admitido sobre certas condições e apenas até um certo ponto: se ele abusa e se mostra desagradável, a tolerância é suspensa”. A recusa do Real, claro, pode tomar formas muito variadas. O Real, quando teima em ser percebido, sempre poderá se mostrar em outro lugar, como numa dose a mais de álcool ou numa cabeça de um leão africano morto com um arco-e-flecha.

Admitir que há uma falta que nos constitui sempre e que precisamos conviver com ela é doloroso. Às vezes rola sangue. Preferimos um mundinho arrumado, ainda que falsamente arrumado. Mas admitir nossas faltas constituintes é fundamental para manter a vida acontecendo de forma suportável. Porque senão a gente sai que nem um louco matando leões. E pior, com arco-e-flecha para o sofrimento do bicho ser maior. Metaforize aí.

O sentido da vida deve ser buscado não na harmonia, mas na dissonância. Se há mal-estar, que bom! Hora de buscar compreender. Qual é a cabeça de leão que você anda atrás para pendurar como um troféu na parede de seu quarto da vida, leitor querido? Olhe para dentro. Porque nada jamais é descoberto. Tudo é apenas reencontrado.

O forninho do Walter Palmer caiu. Segura o seu aí.

Amor do avesso

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Toda maneira de amor vale a pena. Toda maneira de amor vale amar. Também acho. Mas há maneiras e maneiras de amar.

Há o amor escancarado, declarado, esparramado para o mundo. Rosas e poesia, mel e John Green. Há o amor tímido, que só se mostra de vez em quando, saindo da toca às vezes para mostrar seus afetos mais sinceros. Desconfiado. Há o amor platônico, que habita nossos desejos mentais e não ousa ganhar mundo. É aquele que a gente deixa assim ficar subentendido e que pode até parecer fraqueza. Que seja fraqueza então. E há o amor pelo avesso.

Quando sofremos um trauma muito grande, a gente desmaia. O corpo desliga o disjuntor para a gente aguentar o tranco. O corpo é uma máquina perfeita. Desmaiamos para não ter de encarar uma parada maior do que podemos suportar. O amor pelo avesso é mais ou menos isso: um desmaio nos afetos por amar demais. Explico melhor.

Há pessoas que amamos muito, mas reconhecer e exaltar esse amor é, de alguma forma e por alguma razão, algo absolutamente insuportável para nossa ordem das coisas. Por muitas razões: por vaidade (reconhecer que amo a pessoa é assumir que há coisas nela que admiro e – me poupe! – não posso dar esse cartaz para ela), por impossibilidade social (abrir meu amor me trará cobranças sociais imensas) ou até para não assumir gostar de alguém socialmente ingostável (“Ain, como assim você ama justamente essa pessoa, esse traste, esse lixo?!”). Aí o disjuntor do amor desliga – pela sobrecarga de amor intolerável – e a gente manda o amor achar outra forma de ser. Ele que se vire. É nessa hora que esse danado se vê desafiado e parte para a ignorância, para a força bruta.

Quem ama do avesso generaliza os defeitos e particulariza virtudes do ser amado. Critica quem queria elogiar, rejeita carinhos que amaria receber, empurra para longe quem se oferece para ficar perto e cuja pertidão – à moda de Guimarães Rosa – quer mais que tudo. Procura o ponto que machuca no outro para praticar sua acupuntura hostil.

O amador do avesso é um autossabotador e um narcisista. Autossabotador porque não se permite usufruir do amor aberto que, convenhamos, é gostoso pra caralho. É um narcisista porque acredita de verdade que todas as 7 bilhões de pessoas do planeta Terra têm a obrigação de entender sua forma de ser e se adaptar ao seu jeito de amar, esse com a costura para fora. Em ambos os casos, uma boa terapia pode ajudar a descobrir por que quem ama pelo avesso acredita que não merece ser amado plenamente – e daí se sabotar – ou pode ajudar a se tocar de que não se é o centro gravitacional do universo. Se achar a bala que matou Kennedy é muito peso para uma cabecinha só. Tem de ver isso aí.

Quem ama pelo avesso pensa que ninguém nota. Ok, uns não notam mesmo e preferem ir embora porque ninguém aguenta a insuportabilidade de quem só chora miséria e não abre a porta dos afetos. Nem se dão ao trabalho. As pessoas vão embora, saiba. Às vezes para sempre. Mas uns notam. Porque também amam, começam a devolver o amor do avesso. Começam a gostar ignorando, provocando, irritando, espezinhando, ironizando, cutucando e – eventualmente – machucando. Além de tudo, ainda tem essa: amar do avesso evoca o masoquismo. Se o amor direito traz prazer no próprio ato de amar, o amor do avesso traz prazer por meio da dor, que é para confirmar a certeza que habita a cabecinha dura de que só se pode amar assim, com o velcro virado para fora.

Qual é a saída desse labirinto? Nenhuma para quem não quer sair e curte ficar dando de cara com os becos sem saída. Mas se reconhecer amando do avesso é o primeiro passo para mudar esse estado de coisas. Identificar quem é o objeto do nosso amor pelo avesso e o porquê da impossibilidade do amor pleno, do lado certo da força, é um outro passo à frente. É preciso se mexer para sair do lugar. Botar a cara no sol, mana. Fazendo lobby para os psicólogos, uma boa ajuda de um bom eletricista pode ajudar a consertar a caixa de força da mente. Tem curto-circuito por aí, parceiro. Não adianta tentar derrubar paredes na marra. E quem está a fim mesmo, sabe, sai do labirinto é por cima. Porque a regra da vida não é força. É jeito. É jeito. SF

Não é só por um pirulito

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Eu tenho procurado reduzir um pouco minha presença nas redes sociais. Por várias questões que não vêm ao caso. Meu jejum, no entanto, foi quebrado motivado pelo vídeo que andou circulando sobre o episódio da agressão de um jovem por outro. A agressão repercutiu porque foi filmada por uma jovem que a registrou, em meio a risadas.

Há um velho conselho prático das redes sociais: não leia os comentários. Pois além de ver o vídeo, eu li os comentários. Todos. O vídeo e os comentários me suscitaram algumas questões.

O que primeiro me chama a atenção é a espetacularização do fato. Em nossa era da digitalização da vida, não é suficiente viver os acontecimentos: é preciso torná-lo imagem e distribui-lo ao mundo. Redefiniu-se o próprio conceito de fato: só é fato aquilo que aparece. Mas não bastam as imagens. Elas precisam gerar interação, ranger os sentidos. Impossível não lembrar de Guy Debord e seu “A sociedade do espetáculo”. Debord diz que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social de pessoas, mediadas pela imagem”. Filmar a agressão é dar vazão a esse desejo de ser protagonista das redes, ser parte dos BBBs dos facebooks ou whatsapps da vida. Para isso, suspende-se sem pensar qualquer valor e capacidade de julgamento sobre as consequências. “Danem-se o que isso significa! Isso vai me dar likes” parece ser o lema do sujeito da sociedade digital. Essa necessidade crescente de apresentar/representar a vida via redes tem modificado as relações pessoais e sociais e é objeto de inquietação de muitos pesquisadores, entre eles o sociólogo Zygmunt Bauman. Bauman constata que tudo se tornou líquido e escorre pelos dedos: trabalho, valores, amores e afetos. Vejo recorrentemente isso acontecer naquilo que tenho chamado de “sequestro da singularidade”. A ninguém mais é dado o direito de viver uma experiência sem que alguém sequestre a singularidade do momento, comentando imediatamente que também já fez isso, já esteve no mesmo lugar ou coisa parecida. É a necessidade do protagonismo, em um narcisismo que Gilles Lipovetsky considera fundador de nosso tempo, chamado por ele convincentemente de a “era do vazio”.

Para além da espetacularização, há o fato da agressão em si. O bullying é um problema crônico nas escolas, com consequências sérias tanto para vítimas quanto para agressores. As formas de agressão entre alunos são as mais diversas: empurrões, pontapés, insultos, histórias humilhantes, mentiras para implicar a vítima em situações vexatórias, invenção de apelidos que ferem a dignidade, captação e distribuição de imagens, ameaças e exclusão. No entanto, o universo escolar é reflexo da sociedade mais ampla de que faz parte. O crescente assédio violento tem se dado em todos os setores da vida: no trabalho (assédio moral), nas questões de sexualidade (assédio sexual, homofobia), na família (alienação parental, agressão à mulher), na política (intransigência e ódio político), na relações com as minorias (preconceito) etc. O que temos de fato é a mesma prática. Ela só é renomeada dependendo do cenário. E muitos dos que condenam o bullying escolar praticam abertamente outros tipos de violência simbólica. O mais grave: sequer se dão conta disso. Nos comentários sobre o vídeo, não foram poucos o que juraram o garoto agressor de uma boa surra. A diferença constitui nossa sociedade e nosso maior desafio neste início de século é encontrar um modo de viver com a diferença que amplie a qualidade de vida de todos. Penso que a cada um de nós cabe combater a assimetria de poderes mal distribuídos, assimetria essa que leva às práticas abusivas. E a responsabilidade não é só do Estado – também é em parte, com as políticas regulatórias e aqui vai uma vaia imensa à redução da maioridade penal. Mas o Estado também somos nós nas nossas práticas cotidianas. É como diz o filósofo José Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”.

Um terceiro ponto que me tocou nesse episódio é a atribuição de responsabilidade pelo fato da agressão ter acontecido. Uns dizem que a culpa é da escola. Por ser de uma escola particular entre as mais caras de Manaus, o menino seria mimado e dono do mundo, sem disciplina. Há de se ter cuidado. É uma generalização apressada. Li em algumas opiniões um indisfarçável ranço de classe, a despeito do fato de que a disparidade econômica, muitas vezes, coloca alguns sujeitos em uma cega posição que transforma sua superioridade econômica em pretensa superioridade social de fato. Mas de novo, isso é reflexo do tecido social. Quantos juízes, médicos e outras profissões mais valorizadas na sociedade não mimetizam esse comportamento de casta superior? E novamente essa é uma generalização apressada que faço e que precisa de todos os aviso da existência de exceções. Penso que a questão não está na escola em si, a despeito da crítica que possamos ter à sua linha pedagógica. O buraco é mais embaixo: a questão é a divisão social do trabalho valorada pela performatividade, um problema do próprio sistema capitalista. Jean-François Lyotard, em “A condição pós-moderna”, já falava sobre isso. Em 1977. Leiam. Não cabe aqui. Culpar a escola é cair num reducionismo pueril, a meu ver.

Muita gente atribuiu a responsabilidade à escola pelo fato de os jovens estarem uniformizados. Quanto a isso, à escola cabe lidar com a questão em função de suas regras, afinal, uniformizados, os alunos são a escola. Assim como é necessário posicionamento da escola de língua em cujas dependências aconteceu a agressão. Silenciar é a pior das opções. Chamem os RPs para lidar com a crise de imagem que esses alunos geraram. E que eles sejam responsabilizados por seus atos, sim. Atos têm consequências. Qualquer um. Até a omissão.

Um parêntese. Uma nota sobre a escola e seu papel. Com a própria dinâmica social, a escola recebeu papéis que não eram seus. A função fundamental da escola é a escolarização. Escolarização é apenas um dos componentes da educação, que é bem mais ampla e complexa, composta por várias variáveis. Ao se equalizar escolarização com educação atribui-se um papel messiânico e salvador que a escola não tem e se atribui aos professores tarefas que não lhes cabem, entre elas a de preencher as demandas afetivas e valorativas que deveriam ser responsabilidades da família imediata. Essa dinâmica social a que me referi é perversa porque, entre outras coisas, empurra para a escola o papel até de provedora de sobrevivência. Quem vive escola pública sabe o caos que é quando falta merenda. Fecha parêntese.

Por fim, penso que muitos dos comentários que li são tão sintomáticos do estado assustador em que nos encontramos quanto a própria agressão em si. A agressão é triste, sim. E precisa ser comentada e debatida. Precisa gerar deslocamentos. Ela mostra o quanto estamos doentes e temos urgência em repensar as desigualdades em todos os níveis, dando mais atenção às relações humanas. Sem ter a pretensão de negar a sociedade digital – uma impossibilidade, de fato –, urge de vez em quando desconectar o smartphone e olhar as pessoas nos olhos para relativizar a digitalização da vida, com tudo que ela traz de bom e ruim, por meio do exercício da condição humana. Os comentários ao vídeo definitivamente nos escancaram para a constatação de que esse tipo de agressão não se dá só por um pirulito. Há uma tábua cheia de furos sustentando esses e outros pirulitos pelos quais brigamos diariamente. Essa tábua com furos é o tecido de nossa subjetividade, incompleta por constituição. Olhar para a tábua mais do que para o pirulito talvez nos esclareça melhor os cenários, as diferenças, os problemas, as inquietações e, com isso, nossas próprias questões para que possamos encontrar uma existência menos angustiante, depressiva e opressora, com um pouco mais de paz, serenidade e poesia. Estamos precisando. Feliz Páscoa.

A miss e nós

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Saiu o resultado. O cumprimento elegante de praxe à vencedora dado pela segunda colocada. Mas na hora da coroação da miss, a vice-miss perdeu o rebolado, atacou a ganhadora e lhe arrancou a coroa, atirando longe. E saiu triunfante, de punho erguido, sob vaias e aplausos da plateia e das outras candidatas a miss.

Acordei com essa história bombando nas redes. Ao G1, a vice-miss Sheislane Hayalla disse que não aceitou o resultado. Que aquilo era um protesto contra a grana. “Simplesmente, em Manaus, é o dinheiro que manda e eu estou mostrando para o povo amazonense que o dinheiro não manda aqui. Ela não mereceu!”, disse ela, racionalizando seu gesto, um gesto que, como todo gesto, convoca as interpretações. Apesar do caráter inusitado e até pateticamente engraçado do fato, penso que o que Sheislane fez exemplifica e muito o tempo em que vivemos.

Na sociedade da visibilidade, aparecer faz parte da necessidade básica de sobrevivência social. É preciso ocupar espaços. Inconscientemente, brigamos por espaço no trabalho, nas relações grupais, nas relações afetivas. Só que as regras sociais nos impedem de arrancar as coroas alheias quando temos vontade. Pode-se argumentar que sempre foi assim. Sim, sempre foi assim. O que tem mudado radicalmente é o conceito de espaço, que hoje está inegavelmente atrelado à visibilidade mais do que ao espaço físico, como já foi na época das conquistas territoriais. A questão é simbólica. O poder, palavra-chave para compreender meu argumento, passa necessariamente pela construção de um capital imagético que se configura e se sustenta pela circulação nas redes via capital digital. Resumindo: tem de aparecer e tem de circular. Só assim a gente consegue ser hoje na sociedade da informação. Se você digitar seu nome no Google e ele não voltar nada, pode esquecer: você não existe.

Estamos vivendo uma crescente instagramação da vida. No mundo da imagem, da evasão da privacidade, viver o momento vira secundário. O registro do momento é potencialmente mais valioso para a construção do capital imagético e digital. Vide a moça que sofreu o acidente e, em vez de se preocupar em buscar socorro em primeiro lugar, imediatamente postou nas redes a foto de seu rosto todo arrebentado. Fez uma selfie de sua cara estropiada. Há algo mais sintomático do momento em que vivemos?

Mas voltando às misses. O próprio concurso entra em um jogo de imagens arquetípicas. Há a princesa, que ganha a cora, e há a plebeia, seu contrário. A miss, que vai aumentar seu capital imagético, e a vice-miss, que não vai ser nada, num país em que vice e nada são a mesma coisa. As coisas não deram certo para Sheislane. Se tivessem dado certamente a sua crítica ao poder da grana como determinante nessas e em outras questões não teria aparecido. Só veio porque as coisas desandaram. Aí ela, que perdeu o papel de princesa, assumiu o papel de Fora-da-lei, que rompe com as regras que, como sabem os foras-da-lei, foram feita para ser quebradas. O arquétipo do Fora-da-lei é conhecido também como Revolucionário. Esse arquétipo libera as vontades reprimidas da sociedade, daí tanta gente vibrando, gozando com o pau de Sheislane. Quem de nós não queria, como ela, chutar o pau da barraca ou dar com o pau de selfie nas injustiças que conhecemos? A identificação nos faz feliz com seu gesto. Quando a consciência do Fora-da-lei está presente, as pessoas têm uma percepção mais aguda dos limites que a civilização impõe à expressão humana.

Aí a gente se pergunta: será que ela não pensou nas consequências disso? Arrisco a dizer que sim e que não. Que não porque agiu por impulso. Que sim porque, de certa forma, exatamente porque foi por impulso, deu vazão ao inconsciente e à sua avaliação, também determinada pelo discurso da ideologia inconsciente, de que o barraco lhe capitalizaria imageticamente mais do quer ser miss. Não deu outra. Sheislane deve estar adorando os flashes de ser notícia nacional enquanto Carolina Toledo – who? – ficou com essa faixa chinfrim.

Enfim, na guerra da vida, estamos lutando a Batalha da Imagem. Eu tenho de ter mais experiências bacanas, em lugares bacanas, com os melhores vinhos, nas melhores praias, comendo as melhores comidas. Meus filhos têm de ter as melhores festas, o melhor celular, as melhores colocações no ranking escolar. Se alguém posta uma foto de um hotel em Katmandu, tenho de sequestrar a singularidade de sua experiência e postar nos comentários uma minha lá também. Não nos enganemos. Praticamente nada vale se não se tiver um câmera por perto para mostrar para outros, para postar no Instagram, compartilhando ao mesmo tempo no Twitter, Face, Tumblr, Pinterest, Vine, Flickr…

Como toda ação traz uma reação, já vivemos a contracultura da imagem. Gente que resiste ao discurso da visibilidade não tendo perfis em redes, andando com celular peba que nem foto tira, se desligando, no que pode, da ditadura da imagem. Quem não consegue se desligar, evita pôr sua foto no perfil. Usa cachorro, borboleta ou qualquer outra coisa no lugar de sua foto como forma de resistência. Estou nas redes, sim, pero no mucho. Há gente, no entanto, que vira a miss e parte para a briga contra a sociedade da informação, arrancando-lhe a coroa, valorizando o encontro olho no olho e a conversa sem registro a não ser na memória dos interlocutores. E que sai triunfante com seu ato político. No entanto, sem saber – e sem querer – essas pessoas entram de novo no jogo arquetípico: para a sociedade da imagem não passam de meros bobos-da-corte. “Se eu não puder dançar, não quero tomar parte da sua revolução”, diz o bobo. Pergunta dos integrados: “como pode, gente, alguém resistir às redes sociais? Durma segurando um forninho desses”.

Jung à parte, onde é que você se localiza nesse jogo todo, leitor? Faz uma selfie com a coroa, arranca a coroa e joga longe ou nem sabe o que aconteceu porque evita as redes? Ou tudo junto e misturado?

Fato é que é assim. Nem ruim nem bom. É, ponto. Ruim ou bom já é dar valor a partir de onde nos localizamos. É isso que eu tinha para dizer. Deixa agora eu postar logo esse texto no meu blog do WordPress e na minha página no Face para aumentar meu capital digital. Beijo, Leila Lopes!