Arca de Noé

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[A pedidos, o texto da minha vida]: A Arca de Noé

O mundo ia acabar e Noé, reencarnado, foi convocado novamente. Dessa vez foi pedido a ele que colocasse na Arca professores. Um de cada tipo. Acostumado a salvar animais do dilúvio, Noé resolveu fazer uma correspondência dos tipos de professores com os tipos de animais para lhe facilitar a vida.

O primeiro que Noé encontrou foi o professor-coruja. Esse professor é um sabe-tudo e nada tem a aprender com ninguém. Crê que já galgou o conhecimento e pronto. Vive corrigindo todos do alto de seu pedantismo. Desconfiou, claro, quando soube do dilúvio. Como era possível que ele, que tudo sabia, dele não soubesse? O diligente Noé continuou cumprindo sua missão. Deparou-se com o professor-preguiça. Folgado, o preguiça enrola para tudo. Sempre faz no seu ritmo, pouco se importando com os outros. Faz par com ele o professor-avestruz, que evita assumir responsabilidades. Sempre que isso se lhe impõe, enfia a cabeça na terra e faz de conta que não é nem com ele.

Trabalho mesmo foi convencer o professor-galo a subir a bordo. O galo é travoso, posudo e vive a entoar discursos contra a globalização e o neoliberalismo, mas dar aulas mesmo que é bom, nada. Acabou entrando, mas não sem antes pendurar na Arca uma faixa vermelha com frases de protesto, sua especialidade. Depois do galo, subiu o professor-pavão. Extravagante, o pavão faz tudo para aparecer. Impossível não notá-lo.

O professor-cobra também foi à Arca. Por Noé, o cobra não iria, pois é venenoso e maledicente. Mas Noé estava cumprindo ordens e o cobra ficou. Outro convidado a contragosto a embarcar foi o professor-urubu. Como todos sabem, o urubu gosta de carniça, da coisa podre. Faz parte do grupo do quanto pior, melhor. É catastrófico e tudo para ele é razão do apocalipse. Ele ficou feliz com o iminente dilúvio porque a perspectiva do fim do mundo, justificativa que sempre o impediu de trabalhar, estava virando realidade.

E assim foi. Entraram ainda o professor-anta, que é professor não se sabe como, o professor-lombriga, que por qualquer coisinha tira uma licença médica, o professor-borboleta, que fica ali quietinho na sua crisálida, alheio à floresta que o cerca como se nada fosse com ele. Vieram ainda o professor-hiena, que ri de tudo, o professor-onça, que ensina na base do medo, e o professor-leão, líder dos outros professores. Chegaram juntos o professor-morcego, que voa às cegas e dá aulas sem prepará-las, o professor-peixe, que se não estiver num ambiente 100% perfeito não sobrevive (e até agora me pergunto porque salvar um peixe do dilúvio) e o professor-aranha, que gosta de pôr armadilhas para seus alunos caírem. Muito aplaudido foi o popular professor-cigarra, que com seu violão sempre anima as culminâncias pedagógicas.

Quando a Arca já ia sair, alguém se lembrou de avisar Noé que ele havia esquecido o professor-formiga. O formiga faz seu trabalho individual, mas pensando no coletivo. É eficiente sem muito alarde. Noé parou e foi buscá-lo. Se os outros estavam na Arca, por que logo o formiga, o exemplo, ficaria de fora? Se bem que na vida real, quase sempre os outros não deixam muito espaço para ele mesmo. Suspeita-se até que está em extinção. Poucos sabem, mas o nome da Arca de Noé era Escola.

Lógica infantil

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Desculpem os pudicos, mas tenho que comentar. Meu sobrinho Pedro, 3 anos, virou para o pai e perguntou: “Pai, todo mundo tem cu?”. Minha filha Clara ao tomar banho comigo disse: “Ei, papai! Você tem dois pipis!”. O raciocínio lógico de uma criança cintila de tão puro…

Rock anos 80

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Acabei de ler o livro BRock: o rock brasileiro dos anos 80. Sou meio fissurado na música dos anos 80, tanto nacional como estrangeira. Esse livro narra os bastidores dos principais grupos que fizeram o movimento musical na década de 80: RPM, Paralamas, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Blitz, Titãs, Barão Vermelho, Ira, entre outros. Para quem viveu a época, como eu, é uma leitura deliciosa. Eu gostei e li num tapa. O autor é Arthur Dapieve, a editora é a 34 e o livro está R$ 27 na Fnac on-line. Confesso que o sax do Dire Straits em Your Latest Trick, o baixo do Police em Every Breath You Take, a pegada de Your Love dos Outfields e a Pintura Íntima do Kid Abelha ainda me fazem tremer as carnes.

Anjos eficientes

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Hoje é o dia do deficiente. Resgato das minhas gavetas um texto que escrevi sobre o tema:

ANJOS EFICIENTES

Um belo dia um grupo de anjos-crianças dirigiu-se a Deus. Estavam preocupados com o mundo e seus habitantes. Deus explicou a eles que havia dado ao homem livre arbítrio e que, portanto, ele era responsável por seus atos e por levar o mundo por caminhos não tão promissores. Preocupados, os anjos fizeram uma proposta a Deus. Como se sabe, Ele ama a todos os seus filhos e mais especialmente as crianças.

O primeiro anjo disse: “Senhor, os homens na Terra estão precisando ver melhor as coisas. Não conseguem vislumbrar que toda causa gera uma conseqüência. Vou dar a eles, Senhor, a minha visão para que possam enxergar a necessidade de cuidar uns dos outros e do planeta”, disse.

“Estão assim porque não dialogam mais”, afirmou o segundo anjo. “Falam de si, mas são incapazes de ouvir o outro. Pensam no individual e esquecem que ninguém vive só. Pois dou a eles, Senhor, a minha audição. Que com ela os homens escutem o próximo e as vozes da natureza com o coração”.

“Deixa eu lhes ajudar, irmãozinhos, doando aos homens a minha fala. Quem sabe possam conversar mais e superar as dificuldades entre os diferentes. Quero que conversem e se entendam. Permita, Pai, que eu lhes doe a linguagem perfeita que sai de minha boca”.

Um quarto anjo voou para perto e disse: “Além de não ver, não ouvir e não dialogar, os homens estão se arriscando em caminhos tortuosos. Suas pernas os levam por duvidosas trilhas nas bifurcações da vida, muito desgastada pelo corre-corre desenfreado. Consintais, Deus, que eu lhes ofereça as minhas pernas, para que com pernas novas os seus passos possam caminhar por caminhos mais primaveris”.

“Os pobres homens estão com a sensibilidade exposta”, interveio um anjo que acompanhava atento a conversa. “Posso entregar-lhes minhas fibras para que reforcem seu sistema nervoso, protegendo-se assim dos males de seu desequilíbrio. Isso, claro, se o Senhor me facultar fazê-lo”. Deus a tudo ouvia.

Um sexto anjo pronunciou: “Não poderia me furtar a ajudar a melhorar o mundo. Quero entender os homens. Deixe-me, Pai Grandioso, buscar na Terra um cromossomo para ver se melhor compreendo no DNA da humanidade o porquê de tanta guerra, de tanta discórdia”.

O sétimo falou: “Eu também quero ajudar. Preocupa-me o uso descuidado do cérebro humano. O homem já não raciocina direito. Como minha parte, Senhor, quero lhes doar a capacidade dinâmica de meu cérebro. Quem sabe assim as pessoas ajam mais fraternalmente”.

E assim foi: uma multidão de anjos-crianças juntou-se em volta de Deus, cada um com sua oferta, que de tão generosa e altruísta foi prontamente aceita por Ele.

Para quem não sabe, os anjos-crianças vêm ao mundo em forma de bebês. Dos que fizeram a proposta a Deus, o primeiro nasceu cego. O segundo, surdo. O terceiro, disléxico. O quarto, com pernas mais curtas. O quinto, com esclerose múltipla. O sexto, com síndrome de Down. O sétimo, com paralisia cerebral. O oitavo e nono, que não aparecem na história, com autismo e com síndrome de Williams, respectivamente.

Assim, cada criança que nasce com o que os humanos chamam de deficiência é a mais pura manifestação da doação dos anjos por um mundo melhor. Na sua sabedoria, Deus concedeu aos pequenos uma benção em troca de sua entrega: determinou que esses anjos nascessem em famílias especiais. Essas famílias sabem, cada uma delas, do que estou falando. Deus sempre dá um jeito de lhes contar a história de seus anjos eficientes.

Paulinho Kokay no Fino da Bossa

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Acabei de chegar do bar onde meu irmão toca. O bar se chama Fino da Bossa e fica na Cidade Nova. Fazia tempo que não saíamos sozinhos, eu e a Bia, sem as meninas. Meu irmão fez 43 anos e o show dele foi uma auto-homenagem. Gostei muito. De tudo. Prestando atenção nas letras das músicas que ele cantava, me reencantei com “Amor de Índio”, de Beto Guedes. A frase que me tocou foi “A abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou“. É engraçado como sempre podemos olhar (ou ouvir) aquilo que nos é familiar de um jeito novo. Essa frase da música dá uma tese. Como sempre, não bebi. Ontem, fiz mel. Feliz aniversário, mano! Eu te amo pra caramba.

Dá para dizer de outro jeito. Sempre.

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O legal da linguagem é que sempre dá para dizer de outra forma.

Esta é para os professores de Português

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Por essas e outras que a gente que trabalha com lingüística discursiva tem de agüentar os gramatiqueiros calados.

Professores conectados… cuidado!

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Olhem aí, meus caros alunos! Hoje os professores estão antenados, têm Orkut e sabem usar o Google! É melhor abrir o jogo e postar logo aqui… porque um dia eu descubro. 🙂

Eleições

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Hoje assisti à propaganda eleitoral do segundo turno pela primeira vez. Espero sinceramente que o Serafim leve essa. Vai ser dureza viver numa cidade administrada pelo Amazonino. Noto que muitos dos eleitores de Amazonino, amigos meus, foram fisgados pelo slogan “de volta ao trabalho”. Só faltou dizer que tipo de trabalho esse grupo faz quando está no poder. Vi cada coisa estranha quando assumi a subsecretaria na Secretaria de Educação. Um dia escrevo um livro sobre a experiência. Eu sou 40.

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Além do site http://www.sergiofreire.com.br, resolvi agora publicar um blog. O site é como se fosse uma um jornal impresso (que temos de esperar pelo dia seguinte). O blog é um jornal on-line. Vai dando na telha, eu vou escrevendo. Seja bem-vindo e estamos aí.