edgar morin

Chang e Eng, Teoria e Prática

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Teoria e Prática. Duplinha antiga essa, não?  Não há como falar sobre uma sem se referir à outra, ainda que por contraste mental. Ambas são separadas por caráter didático, mas são tão unidas na prática do real quanto Chang e Eng, os gêmeos que deram ao mundo a expressão gêmeos siameses. O que me faz parar para escrever sobre teoria e prática é exatamente o incomodo que sinto quando as vejo dissociadas, tanto no mundo acadêmico, minha praia profissional, quanto no mundo real, meu metiê de vida.

No mundo acadêmico, fico deveras inquieto quando vejo colegas professores levarem às salas de aulas as mais firulentas teorias de construção do conhecimento, as mais badaladas falas de Paulo Freire, os mais inspirados pensamentos de Rubem Alves, os pensamentos mais complexos da complexidade de Edgar Morin, as mais instigantes discussões sobre linguagem e sociedade e, na prática, trabalharem dentro de um paradigma que trata transmissão de informação como conhecimento, dentro de um bancarismo que deixaria Freire juçuí, Rubem Alves nervosíssimo e Morin complexado. Uma visão de linguagem que faria Napoleão Mendes de Almeida exultar em um orgasmo prolongado. São, a meu ver, profissionais que buscam na hipervalorização da forma o exílio para o medo de mudar seu conteúdo, sua prática, tão cheia de teias e meio amareladas pelo tempo, como canta Roberto Carlos. Poderíamos chamá-los de professores-aranha da casa d’O Portão.

Vejam bem: antes de carapuça sentar e minha caixa de entrada receber uma enxurrada de e-mails de protestos contra um suposto patrulhamento, quero dizer que tratar  o processo pedagógico a partir ou de um prisma positivista, marxista ou sei lá é uma opção a que todos têm direito. É o direito à opção teórica e isso é tão sagrado como o cocozinho matinal. Tem gente que é Flamengo e fazer o quê? Isso não se discute e não é isso que estou discutindo. O que estou discutindo é coerência. Pregar uma visão dialética de educação e fazer uma avaliação-surpresa baseada naquele livro que ninguém tem, muito menos os alunos, é dose pra leão. Discutir nas aulas de metodologia ou estágio a necessidade de um processo de avaliação contínua e lançar mão de avaliações draconianas e punitivas é sinistro. Falar de uma visão discursiva de linguagem, letramento e afins, e trazer como exemplos para o ensino de língua frases de José de Alencar, com um português hoje ininteligível é fogo. Não há virgem dos lábios de mel que adoce o amargo que fica na boca do aluno. É disso que estou falando, capisci?

Teoria e prática, volto a dizer, só se separam para fins didáticos. Não podemos exercer nossa prática pedagógica falando a e fazendo b. Ou não devemos, pelo menos. Morde-se o próprio rabo. Não adianta ficar teorizando o mundo sem relacionar essa teoria com o real desse mundo, mostrando onde é que se vê essa teoria materialmente, no real da história. Não adianta, por outro lado, querer fazer uma abordagem prática, sem referências teóricas, porque se volta às receitas, treco que abolimos da pedagogia faz tempo, pelo menos na teoria, para aproveitar o jogo de palavras. São as duas coisas. Se Chang vai ao banheiro, Eng tem de ir também. Assim, bem provocativamente: professor que se prende em minudências formais, no pequeno, na miudeza, para mim carece de envergadura teórica. Sem sustentação, agarra-se às picuinhas enervantes da margem um milímetro menor do que a da ABNT, ao acento agudo esquecido, à inflexibilidade do inefável diário de classe. Se bobear, esse mesmo professor nunca teve de consultar a ABNT para ele, pois jamais produziu sequer uma linha de texto publicável. Vai cobrar do aluno o que ele não lhe deve? Lembro agora do Herculano Quitanilha, paranormal fajuto da novela O Astro e de sua assistente de palco que dizia, muito apropriadamente: “pensar, professor, pensar!”

Assim, caros leitores, venho aqui só registrar minha insatisfação profissional quanto a essa incoerência. Sabe por quê? Porque somos nós os professores que ralamos para preparar aula, gastamos o que temos e não temos para comprar livros que subsidiem nosso dizer e tentamos, na medida da possibilidade do ser humano, exercer uma prática profissional decente e comprometida, que levamos o tranco. Pausa para eu respirar porque senão vou pegar pesado e ninguém deve falar nada de cabeça quente. Coca-cola, amendoim, beijo na patroa, uma poesia do Vinicius. Pronto. Estou calmo.