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Jogando o gelinho

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Eu cheguei, eu comecei agitar/Vi a galera com o braço pro ar/com o DJ fazendo o povo dançar/Eu vi , aquela menina passar/com o corpinho pra se apaixonar/fiquei jogando gelo pra ela me olhar/Eu vi, ela passando eu vi,Ela dançando eu fiquei só/Jogando gelo/ Vai Vai Vai eu jogo um gelinho/vai vai /Eu quero um beijinho/vai vai Eu quero um amor/Vai Vai Vai eu jogo um gelinho/Vai Vai Eu quero um beijinho/Vai Vai eu quero um alô/Eu vi, ela passando eu vi, Ela dançando eu fiquei só jogando gelo…

O mundo gira e a Lusitana roda. Se você tem menos de trinta anos talvez não entenda a frase, que veio da publicidade. Lusitana é uma empresa de transportes. A frase se tornou popular com o significado de que “o mundo dá voltas”, “a vida segue”, “os tempos mudam”, em um daqueles lances da publicidade que grudam e se incorporam na cultura brasileira. Como tudo na linguagem, expressões são assim, dinâmicas. Vêm, vão, apagam-se as histórias e a memória que as criaram. Eu gosto da memória.

Em geral, as pessoas têm a tendência de tratar com carinho o passado. Sou um nostálgico. Amei “Meia-noite em Paris”, do Woddy Allen, para você ter uma ideia do que estou falando. Acabo de curtir e compartilhar no Facebook uma foto da primeira versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo. É gostoso evocar um tempo de felicidade. Cada um de nós tem seu álbum de memória afetiva, com seus Sítios, Menudos, He-mans e Barbapapas. Mas a vida não é feita só do passado. Ela é feita do presente, que, não esqueçamos, depois vira passado.

Se por um lado sou um nostálgico assumido, por outro sou um curioso pela vida que se apresenta. Não me permito morar no tempo que se foi. Para mim, o tempo que se foi é o meu lugar favorito para passear. Mas é no presente que você vê a vida acontecendo. Sampleando a frase famosa, dá para dizer que o presente não é mais como era antigamente. Por que mesmo que estou falando disso tudo? Pergunta justa, caro leitor impaciente.

Na minha época de jovem paquerador, eu geralmente usava a música e as palavras para chegar junto de uma menina. Eu era muito tímido para cair matando, como faziam uns amigos meus, cuja determinação e pegada eu admirava. Tudo bem que para certas coisas um pré-requisito conta: os caras eram bonitos e eu nunca fui. Então, eu tinha de compensar de outra forma. Preferia deixar subentendido. Sempre gostei de dar flores, escrever bilhetinhos, fazer sonetos. Eu e outros meus irmãos homens somos feito dessa massa. Culpa da minha mãe. Preferimos o jeito à força. Mas o mundo gira e a Lusitana roda. E os tempos mudaram.

Na era de redes sociais, em que a linguagem é o fio que conecta a rede, as formas de conquista vivem guinadas e reconfigurações interessantes. Os sentidos do carinho que se busca e se oferece ganharam novas formas. Eu cheguei a mandar telegrama de amor. Hoje, o telegrama de amor vem em forma de um tweet solto no Twitter, de um reblog no Tumblr ou de um curtir no Facebook. Dizemos para alguém que seu sorriso nos encanta – ainda que jamais o tenhamos visto ao vivo – numa mensagem compartilhada ou em um emoticon no inbox. Curtimos fotos postadas em tempos atrás para sinalizar que estamos ligados, stalkeando por atração. A mensagem é “estou passeando por você”.

Em tempos digitais, a atração se dá de forma invertida do que se dava nos tempos do ronca. Antes, o aspecto físico tinha um peso bem maior do que tem hoje. Àquela época, a coisa era tête-à-tête. Hoje mudou: é mouse-a-mouse. Por isso, nos apaixonamos pelo que a pessoa é, diz, pensa, comenta, ama e odeia para só depois prestar atenção no físico. E antes que os comentadores pulem no meu pescoço me criticando, eu esclareço: não estou dizendo que a atração física não conta. Claro que conta. É biológico. Até motiva o primeiro clique. O que estou colocando como ponto de reflexão é que os tratos pessoais desempenham uma função bem mais determinante agora do que nos tempos da Chispita. Isso é fato. Amores de internet tendem a dar mais certo porque surgem de encontros de alma primeiro e só depois vão para o corpo. Essa ordem é sempre mais garantida. Enfim, meu ponto aqui é de que talvez hoje, com as redes, eu tivesse mais chance com a Margareth, de quem levei um fora federal, do que o Arlino, por quem ela foi apaixonada. Ele era mais bonito. Não tinha internet. Fazer o quê? Se fosse hoje… oops! A Margareth está no meu Face! =P

Curtir, compartilhar, comentar, silenciar sobre um post. Tudo isso adquire um novo sentido quando se trata de conquista. Os internautas vão construindo sentidos compartilhados só pelos dois à medida que os mouses clicam. Sem jogar abertamente, o que estragaria o lindo processo da sedução, ambos vão se conhecendo, criando códigos, apontando caminhos, sinalizando positiva ou negativamente. Há posts que se escreve esperando uma curtida específica, que quando acontece faz a gente lamentar que o Facebook não tem a necessária opção “curtir a curtida”. O mundo digital está definindo sua semântica dos afetos. Nós, sujeitos da linguagem, estamos construindo o discurso dos afetos nesse mundo neste exato momento. Ele vem para expandir o que já sabemos – ou não – no mundo analógico, na vida fora do computador.

As coisas mudam. Um dia lá atrás, abria-se a porta do carro para a dama. Num outro, tempos depois, fazia-se tatuagem para marcar no corpo a prova do amor. No ciberafeto, transforma-se em bits & bytes os frios na barriga e manda-se pelas ondas digitais. Há pessoas que preferem a pegada direta. Há pessoas que pessoas que preferem ficar na zona cinzenta do sentido.

O mundo gira e a Lusitana roda. Fato é que quando a pessoa que mexe com a gente passa, seja perto da mesa, seja na nossa linha do tempo, o mundo para. E cada um tem a sua forma particular de ficar jogando o seu gelinho.