Novo Airão

Grávido de Novo Airão

Postado em Atualizado em

É o poeta Manoel de Barros, por quem ando apaixonado ultimamente, que diz: “Tem mais presença em mim aquilo que me falta”. Já há algum tempo, eu aprendi que sempre dá para aprender muito quando você sai da sua zona geográfica de conforto e experimenta um deslocamento para outros lugares. É no estranho que eu me conheço melhor.

Estive em Novo Airão dando e recebendo aulas. Cidade pequena, com a típica identidade do interior do Amazonas. Lá as ruas são pontuadas de motos e bicicletas e tudo parece ter um quê de diferente, se tomo os parâmetros da capital e seus problemas.

O primeiro aprendizado da viagem foi me desprender um pouco da internet e da conexão digital com o mundo. Não por opção, fiquei sem celular e sem acesso à internet por dois dias. Passei por uma desintoxição digital, com direito a delirium tremens de abstinência e tudo. Só há uma operadora lá. Foi ela que teve um problema na torre que deixou a cidade à mercê do velho telefone com fio,  caso eu quisesse falar com minha família, lá longe, bem distante fisicamente, mas sempre presente por onde quer que eu vá. Presença é dividida em presença presente e presença ausente.

Estar desconectado me conectou mais ainda com os afetos que me constituem. A impossibilidade do contato constante via telefonemas fáceis ou redes sociais instantâneas fez perceber o tamanho da presença quando ela vira uma presença ausente. Tal qual um sujeito que depois de passar a vida tomando o ar como garantido descobre o quanto ele lhe é quando ele lhe falta.

Caminhando no meu contraturno de trabalho, fui observando a vida tal qual ela se organiza por lá. A dona da Pousada, dona Fátima, com seu típico nome de dona de pousada, pousa o dia todo na cadeira em frente a TV na recepção, se permitindo de lá sair apenas para exercer seu cargo de gerente geral do lugar, para receber quem chega e quem sai. Caminho mais um pouco e chego à praça que tem um brontossauro de pedra imenso, colocado lá por um prefeito que sonhou com isso, segundo a história que chegou a mim. Inevitável pensar no monumento caso seu sonho tivesse tido um teor erótico. Mais um pouco à frente na praça, três meninos com varas e canos nas mãos lutam para recuperar um balanço que subiu e enroscou na árvore onde estava pendurado. O balanço subiu e embolou. Tento ajudar, em vão. Sigo em frente me perguntando como aquelas pessoas vivem só com o que tem. No caminho, percebo que para se chegar à resposta certa, a pergunta tem de ser certa. Refaço a pergunta: por que que a gente precisa de tanto para poder achar que vive bem?

Mototaxistas sentados no banco da praça dividem o marasmo e falta de clientes. Olham curiosos para mim e minha máquina fotográfica Nikon. Em tempo: na primeira foto que bati da minha turma, alguém falou: “Meu Deus! O professor aprisionou minha alma agora”. Foi uma aluna descendente dos Baré.

Tempo. Em Novo Airão o tempo é outro. São as mesmas 24 horas, mas elas se cadenciam mais devagar. O tempo parece não passar. O magnetismo da cidade retarda o passo dos ponteiros do relógio. Carros passam lentos em intervalos longos. Até os vira-latas andam numa displicência contagiante. O céu tem mais estrelas, definitivamente.

Passeio obrigatório, eu fui ver os botos, a atração da cidade. Andei até o flutuante que faz dos bichos o seu negócio. Dez reais a cabeça. Um grupo de turistas enfeitiçados pelo animal. O boto, de fato, é um animal místico. Exerce um fascínio imenso sobre as pessoas do lugar, que contam suas história como testemunhas oculares das suas peripécias donjuanescas.

De onde surgiu essa crença do boto que vira homem e sai do rio para engravidar as meninas? Provavelmente de uma moça que fez saliência escondido e embuchou. A desculpa deve ter funcionado e virou crença. Alunos meus me contaram histórias impressionantes: de uma mulher que estava menstruada, passou a mão no boto e começou a sangrar, numa forte hemorragia, tendo que ser levada a Manaus de urgência. Outro aluno contou que a vagina da bota é muito parecida com a da mulher. Contou ainda que um grupo de pescadores foi fachear – termo que depois descobri que significa pescar à noite com o facho de luz – e pegaram uma bota fêmea. A bota estava em período de acasalamento. De repente, um dos pescadores endoideceu e queria porque queria transar com a bota. Os demais tiveram que amarrá-lo porque ele estava fora de si. Uma outra aluna conta que uma amiga numa festa dançou a noite toda com um forasteiro, alto e bonito, que no fim da festa pediu licença, correu para o rio e saiu nadando. Com várias testemunhas. Fascínios femininos se mimetizando na natureza. A ligação do boto com a sexualidade é clara. Detalhe: sempre histórias presenciadas, nunca de segunda mão. E outra: os feitiços do boto só encantam mulheres menstruadas. Já dizia Rita Lee: mulher é bicho esquisito. Todo mês sangra.

Fui em um passeio até as ilhas de Anavilhanas, um arquipélago de 400 ilhas, segundo Carlos, meu aluno-guia. Entrando num furo – o beco do rio –, o barqueiro desligou o motor do barquinho e pude ouvir o som da natureza. Um silêncio rasgado por cantares de pássaros, de tucanos, de gaviões. Batidas de jacaré se mexendo na água. De repente, um boto cor-de-rosa gigante começa a coreografar ao lado da canoa. Sobe e desce, como que a se amostrar aos olhos humanos. Confesso que a cena é impressionante. Não admira que esse bicho tenha lá suas histórias. É, de fato, um animal fascinante. O olho do boto… sei não.

Um barulho rasga o silêncio como uma zagaia. Era o celular do guia, tocando no meio do mato. Paradoxo. Oxímoro. Antítese. Tudo isso naquela cena. Ele dizendo ao seu interlocutor que estava num furo perto do lago do Tamuatá. Quando desligou o celular e o motor do barco, a natureza falou. A natureza fala com a gente. Basta escutar. Os barulhos da florestas fascinam e comunicam. Tive uma epifania: o homem nasce feliz com a natureza. Ele é que estraga tudo. Isso foi sob uma cortina de cipós.

Ouvi histórias fantásticas. Mulheres que engravidam do boto, barrigas que sempre vingam. Outras engravidam da arraia. Essas não vingam. A parteira deve ser chamada para interromper a gravidez. Há a história do pano vermelho, que aparece para trazer más notícias. Tem ainda a jaraba, uma espécie de vespa gigante que come gente que queima comida. Há fantasmas. Eu vi uma. Don’t ask. Enfim, são narrativas que merecem um texto próprio, não?

De repente Manaus. O tempo acelera. A TV só traz notícias desagradáveis. A realidade urbana eclipsa a realidade paralela que vivi por dezessete dias. Que pena. Preciso de mais pausas como essa. Voltei na certeza de que trouxe mais do que deixei. Preciso me encontrar naquilo que me falta. Muita coisa que ainda me falta já se faz presente em mim. Toca aqui, Manoel de Barros.