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Mundo lânguido

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Entre os extremos do estado mental da depressão – total falta de vontade de viver – e o florescimento – alegria plena de uma vida virtualmente feliz -, há a languidez.

Na languidez, a pessoa não está com o tanque cheio de energia, como no florescimento, nem está com o tanque vazio da depressão. É um entremeio. É um estado de indiferença com sua própria indiferença em relação às coisas. O dicionário a define como a diminuição do ânimo, do vigor, uma frouxidão, uma moleza, uma fraqueza. É um tanto faz contínuo. É aquele sentimento depreendido da resposta de nossos filhos quando perguntamos “Como foi a aula online hoje, filho?” Resposta: “É…”

A vontade é de procrastinar, potencializada pela falta de perspectivas concretas. No começo da pandemia, ano passado, as palavras-chaves eram perda e medo. Mas fomos relaxando, desenvolvendo estratégias para lidar com o alongamento do tempo da pandemia. Já não temos mais aquela ansiedade da luta ou fuga, do ano passado. A sensação hoje é a de que não adianta nem lutar nem fugir, mas só deixar rolar.

O amazonense tem um termo para esse calundu, esse desânimo: mofineza. É isso: não estamos felizes – como estar?! -, mas não estamos deprimidos também. Estamos mofinos. Vivemos numa condição de limbo psíquico: lânguidos.

Precisamos cuidar dessa languidez. Não, ela não é uma doença. Mas está na antessala. Passará a ser no momento em que nos tornar disfuncionais para a vida. E como cuidar disso? Há saída?

Sim. Uma saída é exercitar as atividades de fluxo. E o que são atividades de fluxo? São atividades de imersão de atenção e foco: maratonar séries na Netflix pode resolver. Ler um livro, imerso na história, também. Ouvir música por puro prazer deitado no chão da sala é uma outra opção. Focar em um projeto há tempos esquecido talvez seja uma alternativa. Para os jovens, jogar videogame é a típica atividade de fluxo. Assistir a vídeos no YouTube por horas é outra. A lista é quase infinita e depende daquilo que faz com você esqueça do tempo, do lugar e de si para, paradoxalmente, passar a cuidar de si por meio desse exílio profilático nas atividades que absorvem. Ser multitarefa nesses tempos não é lá muito recomendado. Daí o cuidado para home office não virar office home.

Ninguém quer sofrer de transtorno de mofineza. Estamos todos buscando ampliar o repertório para lidar com todas as rupturas que a pandemia nos trouxe. Cada um sofrendo e desenvolvendo suas estratégias, com ou sem ajuda de uma escuta qualificada – mas sabemos que uma boa terapia faz uma grande diferença. Nós, psicólogos, estamos aqui. Fato é que é necessário sair dessa condição de letargia e retomar os sentidos da vida.

Viktor Frankl, médico judeu que viveu os horrores de Auschwitz, sobreviveu àquilo porque deu sentido ao que vivia ali. Frankl disse a si mesmo que sua estada em Auschwitz tinha de servir para algo, ser contada ao mundo porque as pessoas precisavam saber o que é estar num campo de concentração nazista. Esse sentido dado à sua dor o salvou. Ele conta essa história em “Em Busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”. Retomando essa ideia, o mesmo Frankl diz, em “O sofrimento de uma vida sem sentido”, outro livro que recomendo vivamente para esses tempos, que a angústia é um sofrimento que não foi significado ainda. Quando damos sentidos às nossas dores, nós as esvaziamos de angústia e começamos a lidar com ela para viver melhor.

Penso que identificar a angústia sem nome e difusa que vivemos na pandemia começará a pesar menos se a nomearmos. Precisamos dar sentido a ela. Essa angústia vem da languidez, desse estado de desmotivação, dessa falta de vontade e de energia. É preciso recuperar o sentido do amor, da convivência, das relações e do prazer em relação aos outros e, mais importante, em relação a nós mesmos.Viver é preciso. Sair da mofineza é fundamental.

Sigamos, pois.