Mãe, matéria e memória

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Em 1896, o filósofo Henri Bergson publicou um livro chamado “Matéria e Memória”. No ensaio, Bergson discute a relação corpo-espírito. Ele diz que essa relação é mediada pela memória, que considera algo profundamente espiritual.
Afirma o filósofo francês que existem dois tipos de memória a nos constituir: a memória-hábito e memória-lembrança. A memória-hábito replica o passado e o repete. Não é reconhecida como passado. É automática. Está inscrita no corpo por práticas cotidianas e tem fim utilitário. Como se portar à mesa, por exemplo, é uma memória-hábito. A memória-lembrança ou memória pura, por outro lado, regista o passado sob a forma “lembrança-imagem”. Representa o passado e o passado é reconhecido como passado. É da ordem contemplativa e teórica, gratuita e profundamente espiritual. É a verdadeira memória.
Trago a obra de Bergson para falar das mães. Mães são memórias puras. Mães são memórias-lembranças. Mães são pontes entre os nossos corpos – desde o empréstimo do seu – e os nossos espíritos. É lembrando das mães que o passado se presentifica e o presente se passadifica. Porque as mães estão atravessadas na nossa existência, no nosso corpo e na nossa alma.
Por ser o liame, a ligação entre o corpo e a alma, a mãe tem um lugar fundamental na constituição daquilo que somos. Não é à toa que a teoria da Psicanálise guarda um lugar crucial para a figura materna na construção do eu. A importância da mãe – por sua presença ou sua falta – na elaboração de nossa estrutura egóica é quase um dogma nas diversas teorias do desenvolvimento. Por isso que quando há excesso de mãe ou vazio de mãe a gente desequilibra e corre para a terapia. Ou deveria. Reflexões teóricas.
Filosofias e teorias à parte, mãe é mãe. Há mãe que é mãe. Há pai que é mãe. Há vó que é mãe. Há vô que é mãe. Porque mãe não é gênero, mas um lugar simbólico. Uma identidade pressuposta que primeiro acolhe, depois cuida, depois aninha, depois pede cuidado e, por fim, cumprindo o ciclo da vida, se vai.
A memória-lembrança da mãe começa no acolhimento. Não há lugar melhor no mundo do que aquelas quarenta semanas na barriga da mãe. Assim como mãe é um lugar simbólico que pode ser ocupado por pais, tios, avós etc, a barriga da mãe não precisa necessariamente ser a barriga da mãe biológica. A barriga da mãe às vezes está fora do corpo físico. O acolhimento começa na tomada nos braços de um filho concebido por outras pessoas como se seu biologicamente o fosse. “Adotar” vem do latim “adoptare”, ad+optare, ou seja, optar por ficar junto. É uma escolha consciente de querer ficar junto daquele bebê que, em princípio, não era parte sua. Adotar é encarnar nas suas uma carne externa. A mãe se faz encarnada e, ao se fazer, pare o filho que não gerou. Por pura opção. Isso é tão forte e tão lindo. Digno de mães.
Se pouco nos fica de memória-lembrança do acolhimento, seja biológico ou encarnado, muito nos toca as memórias o tempo do cuidado. É aqui que o espírito dança terno ao lembrar da mãe acarinhando nosso rosto, cantando para a gente dormir. É esse o tempo de construir nosso playlist particular da novela de nossa vida. A minha mãe nos fazia dormir no embalo da rede da casa sem forro cantando “Pica-pau atrevido que do pau fez um tambor” ou “Alecrim dourado”. Talvez essas escolhas tenham a ver com o atrevimento da minha irmã mais velha ou com a certeza que nós lá de casa temos de que sempre, em qualquer lugar, pode ser tempo de alecrim com seu cheiro bom, com sua doçura levadas pelas abelhas para fazer o doce mel dourado. Sem dúvida que nessas escolhas, nesses cuidados, as marcas da memória-lembrança são cravadas no corpo.
O tempo vai passando. A gente vai crescendo. Vem o tempo de ir cuidar da vida. Mães e filhos vivem um luto duplo, o luto necessário para que nos façamos gente. A mãe deixa de tomar conta e de decidir pelos filhos. Saímos de casa e passamos a ser responsáveis por nós e logo por outros. Tempos agridoces, de fato. Amargos porque saímos de perto daquela que nos cuidava – e é preciso dizer aqui que as mães têm formas diferentes de cuidar, umas muito estranhas até. E doces porque, afinal, a vida para a qual ela nos preparou com mantos de carinho e proteção precisa ser vivida. Hora do vamos ver, da real. Vamos para nosso canto. Compramos nossa lata de leite condensado para chupar livres. Mas sempre “lá em casa” vai ser a casa da mãe. Sempre o bife de fígado – coloque aqui a comida que ela fazia porque você gostava – vai ter um sabor único. O feijão da minha vó põe na boca da minha mãe até hoje um gosto de amor inigualável. O feijão da minha vó é o meu bife de fígado ou o seu não-sei-o-quê delicioso. Comida de mãe é memória viva. De lembrar enquanto escrevo eu salivo. Ao salivar, eu me vejo moleque comendo meu bife de fígado, sentado na mesa grande da cozinha da casa 20, uma mesa coberta com uma toalha de plástico branca com desenhos de legumes. E vejo minha mãe sentada na cadeira de macarrão, se embalando. Meu corpo respondendo ao meu espírito. Bergson estava certo.
Casa de mãe, melhor ninho. Colo de mãe, melhor lugar. Quarenta e sete anos no lombo e ainda corro vez por outra para deitar no colo da minha mãe. Meu conforto, minha paz. Ouvi-la dizer “Meu filho, vai dar tudo certo” na hora em que nada parece dar certo tem um poder pentecostal. Fecho os olhos, sinto o seu coração bater, volto ao seu ventre. Aconchego. É difícil quem está longe da mãe, geográfica ou afetivamente, e não tem esse lugar de reparação da alma. É complicado quem mora longe da mãe, às vezes habitando na quadra ao lado, e perde a chance de se reabastecer de gás carinhoso maternal para a vida. É doloroso quem já não a tem mais por perto. Porque mães envelhecem. E um dia se vão.
Ando lendo muito sobre a velhice. Talvez por estar me encaminhando para seu edifício. Mas muito por causa de meu pais. Eles envelheceram. E a velhice é um tempo de perda. Perda de trabalho, perda das capacidades, perda de saúde, perda de memória. Para Bergson, a perda da memória é somente desgaste do cérebro. Claro, se o cérebro não funciona a contento, isso acaba atingindo a memória-lembrança, que é o que mantém viva as pessoas. Parêntese: estou terminando de ler “Memória e sociedade: lembrança dos velhos”, da Ecléa Bosi. Que livro lindo! Reconstruir a memória social pela memória pessoal, de velhos que um dia foram jovens e construíram suas histórias. Fecha parêntese. Então, a mãe envelhece. E as coisas mudam de lugar.
É fundamental perceber quando a mãe pede cuidado. Como filhos, ocupamos nós agora o lugar simbólico de acolher, cuidar e aninhar. Somos nós que precisamos fazê-los sentir pertencer a nossas vidas para além da retórica. Somos nós que precisamos cuidar, levar no médico, sair juntos para tomar um café da tarde, fazer supermercado. Tem uma idade em que a mãe precisa de cuidado. Mesmo a contragosto – ninguém gosta de ver seus heróis falhando – as mães começam a falhar. E aí temos de segurar sua mão para atravessar a rua, temos de dar banho, temos de pentear seus cabelos, acarinhar seu rosto, cantar “Alecrim dourado” para ela dormir. É esse o tempo de cantar todo o nosso playlist particular da novela de nossa vida. É esse o tempo de acolher.
Elas se vão. Os corpos delas se vão. Não mais a colher de pau da parede. “Onde os doces da mãe?”, pergunta do poeta Aníbal Beça, chorando a ausência eterna da sua. Onde o cheiro único? Onde o abraço quente? Onde o beijo primeiro? Precisamos – porque é o que temos – aprender a amar nossa mãe de um jeito novo quando ela se vai. Carecemos de aprender a amá-la sem o estímulo de sua presença física. Desamar para reamar. Um reamor. É isso. Mas construir o reamor por perdas não é tarefa fácil. Desamar amor puro dói. Às vezes escorre sangue de tão doloroso. Meu carinho mais sincero para você que está em processo de reamor, que vai para o seu primeiro Dia das Mães sem a sua, com cada propaganda, postagem em rede social, cartaz, tudo, lembrando que ela não está mais ao alcance de um abraço. Pode chorar. Chore em homenagem à sua mãe. Deixa ela saber que ela faz falta.
Matéria, memória, lembranças, mãe. Tanta coisa junta. Se você chegou até aqui e leu o textão – um escândalo em tempos de posts curtos –, eu desejo a você e à sua mãe um Feliz Dia das Mães. Para ti também, mãe Helena. E para a mãe perfeita das minhas filhas, Fabiana. Ah, e aproveitem para resgatar as memórias-lembranças. Aproveitem para dar um abraço e um beijo se ainda a benção divina lhes permite tais coisas. Aproveitem para acolher, cuidar, aninhar. Porque um dia, queridos amigos, isso não vai ser mais possível. Aliás, será sim. De outra forma, talvez.
Dona Alice, uma das velhinhas entrevistadas por Ecléa Bosi para seu livro, diz que uma das coisas de que lembra com afeto é da época de sua primeira comunhão aos treze anos na Igreja de Santo Antonio, na Barra Funda, em São Paulo. Lá ela cantava:
Como minha mãe estarei na santa glória um dia.
Junto à Virgem Maria. No céu triunfarei.
No céu, no céu. Com minha mãe estarei…

O corpo é feito de memória. Bergson estava certo. Mães – de todo tipo – sempre vão para o céu.

 

Feliz Dia das Mães.

Um comentário em “Mãe, matéria e memória

    Sue disse:
    25/10/2016 às 07:10

    Que lindo textão. É tão isso mesmo. Eu que agora sou mãe me pego sempre pensando na minha assim.

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