Algarismos romanos

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Os posts têm de ser curtos e rápidos. Para serem lidos, aproveitados, comentados. Depois, novos posts. Sempre curtos. Movência. Nada de textos longos e insuportáveis, de mais de dois parágrafos. As modas passam voando. A fama é um pico que se atinge à velocidade de um foguete e que some, espatifando-se, à velocidade de um meteorito que entra na atmosfera. Quem lembra o nome do cara que a Katy Perry beijou no Rock in Rio? Quem lembra da Katy Perry e do Rock in Rio? É assim. Rápido, no estalar dos dedos, vapt-vupt. Meu medo inquieto está na constatação de que esse está se tornando o tempo para tudo: não só para as redes sociais digitais, mas para as redes sociais analógicas. Para os planos, para as amizades, para os afetos, para as ideologias, para a vida. Vejo a cada dia na minha linha do tempo os projetos em longo prazo sumir, sejam pessoais ou coletivos. Assisto a diárias conversões de ideais políticos e ideológicos em adesismo conveniente. Vejo amores jurados eternos se pulverizar em novos status de relacionamento e em novas juras de amor eterno, documentadas com fotos e vídeos pelo mundo, para celebrar aos outros a efemeridade permanente. Os amores são sempre eternos. Até o próximo amor eterno. Vejo amizades cúmplices que pareciam verdadeiras desaparecer como miragem por causa de uma necessidade urgente de aceitação, que joga fora o que parecia alicerçar algo duradouro e busca novas alianças mais eficazes no curtos prazo. Gente que contava sua alma e que hoje desvia o olhar para não ter de dizer oi. Miragem. Os olhos acostumados dos antigos têm de se acostumar com o mundo das miragens, do simulacro baudrillardiano. Sofre quem insiste na perenidade num mundo fugaz. Ninguém vive sem passado, sem história, e a história, hoje, dobra muito rápido a esquina da vida. Registra-se o presente como passado. O agora já é ontem e o amanhã. Aplica-se o filtro lomo na foto de hoje e resolve-se a questão do tempo. Penso nos meus planos, nas minhas amizades, nos meus afetos, nas minhas ideologias. Quanto tempo resistirão? É uma dúvida legítima que me inquieta a cada login. Dúvida que, se bobear, também inquieta quem conseguiu forçar a barra e ler até o fim este texto imenso. Porque é um texto imenso para o Facebook, anacrônico até, fora do tempo, escrito do século passado. Sim, eu sou um ser do século XX. Da época em que se estudava e se conhecia os algarismos romanos. Não, eu não tenho saudade do que passou na vontade de querer que voltasse e substituísse o que se tem. Isso é morar no impossível desejo da máquina do tempo. Eu tenho é nostalgia, que é a lembrança mansa da história de um tempo em que o tempo e o espaço eram outros, nem melhor, nem pior, apenas diferentes. E vou vivendo o tempo de hoje. Escolhi estudar isso academicamente para melhor entender a mim mesmo inserido nisso tudo. Pesquiso sobre isso, sobre sua linguagem, sobre sua discursividade, sobre seu funcionamento. Aqui sou eu, sujeito que acredita em afetos duradouros, em planos coletivos, em amizades reais, em ideologia, refletindo em voz alta. Não tenho respostas. Tenho muitas perguntas. As respostas estão aí. Estique o braço e pegue a que lhe seja conveniente no ar, no próximo post, no tweet que sobe rápido na tela. Mas se apresse: senão vem o Harlem Shake da hora, balança tudo, e muda tudo de novo. É isso. Logoff. Vou lavar a louça. SF, IX.III.MMXIII

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