Nós e o BBB

Postado em

Depois de treze edições o BBB chega ao fim. Aí vêm os comentários inevitáveis: “Caramba! 30 milhões de votos! Povo alienado! E ninguém assina a petição do Renan Calheiros!” Ora, amigos, me rendi a escrever sobre o óbvio. Estão comparando coisas diferentes. Alienar vem do latim “alienare”, “abrir mão de”. Abrimos mão de outras coisas em prol de algo. O povo se aliena naquilo que lhe diz respeito. Eu me alieno na linguagem, muita gente se aliena na política, outros, ainda, nas causas dos animais sofridos e abandonados e outros tantos se alienam no BBB. Ninguém vive sem se alienar, sem se entregar a algo. Isso não é uma somatória: “é preciso tirar do BBB para aumentar na política”. Não penso que funcione assim. São coisas paralelas. A política só vai melhorar quando as pessoas que enchem a boca para falar horrores de BBB e quejandos começarem a lembrar em quem votaram na última eleição, começarem a cobrar de seus representantes, começarem a não dar caixinha para obter vantagem, pararem de estacionar em vaga de idoso sem ser idoso, tiverem coragem de fazer uma crítica sem medo de perder seu carguinho ou desagradar o político de plantão. Política não é mágica, não é pó de pirlimpimpim. É atitude. Não é o que se diz, mas o que se faz. Mas esse papo parece mau hálito, que só os outros têm. Se alguns de nós teve a chance de ir um pouco além na escolaridade e na compreensão da ordem das coisas, que ótimo! Usemos então essa capacidade não para culpar quem não a teve e não consegue se alienar na política, indo se alienar no BBB, no Naldo ou coisas que lhes parecem interessantes porque as fazem sorrir, discutir, pensar, debater, concordar, discordar. É a forma que essas pessoas têm de ser sujeitos no mundo. Dentro do limite que as aliena. Para mim, a questão que deveríamos por é: “como nós, dentro do que cada um faz na divisão social do trabalho, pode ampliar os limites para que um maior número de pessoas circule socialmente e possa enlarguecer sua participação de subjetividade para outros espaços, isso sem querer, numa atitude claramente autoritária, julgar e apagar os (poucos) espaços que lhes restam?” Porque senão a gente vai ficar naquela de querer matar o carteiro porque traz a má notícia. É mais fácil destruir do que desconstruir. Destruir me exclui. Eu jogo a bomba e resolve. Desconstruir me inclui. Preciso pensar melhor sobre qual fio cortar porque se essa bagaça explodir eu vou junto. É mais responsável. É mais justo. É menos intolerante. É mais difícil: daí a intolerância crescente. A Fernanda ganhou. Acho ela uma gracinha. Antes ela do que a falsa da Andressa. E hoje tem eleição na UFAM. E hoje tem aula pras minhas filhas. E hoje estou numa banca de mestrado na academia. E continua o pau na Comissão dos Direitos Humanos. E vai ter show do Naldo em Manaus. E hoje vence o meu cartão de crédito. E não devolveram o dinheiro da transmissão do Carnaval. E a vida continua. Pra todo mundo e não só pra gente no nosso mundinho. Alienati omnes sumus. Bom dia. SF

Um comentário em “Nós e o BBB

    Gabriela disse:
    27/03/2013 às 10:42

    Ler “Sérgio Freire” é sempre aprender!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s