Amores e malas

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Parece simples, mas arrumar a mala é algo complexo. Nunca cabe numa mala o que a gente quer levar. Cabem roupas, sapatos, os fios dos vários carregadores das parafernálias eletrônicas que nos acompanham. O jogo de copo de vidros que a sogra comprou em promoção e deu de presente também tem de caber, bem acomodado para não quebrar, claro. Apertando um pouquinho, cabem aqueles livros comprados na viagem também, que nunca serão lidos talvez. Depois de fechada, tem sempre de abrir a mala de novo porque faltou colocar dentro o nécessaire. A gente sempre esquece o nécessaire.

Mas nunca cabe o afeto na mala. Quando a gente vai e deixa quem a gente ama dando tchau por trás do vidro do aeroporto é que a gente vê que afetos e amores são imaláveis. Pagaria horrores de excesso, mas faliria feliz se pudesse levar comigo o aconchego do abraço de bracinhos curtos da minha caçula, os pulos nas costas da minha mais velha, o beijo com gosto único da mulher que eu amo. Além de embalar tudo em caixas e caixas e caixas, passaria Protect Bag em cada uma delas para garantir que chegariam lá do jeito que pus nas caixas, carinhos e amores puros, viçosos, densos. Love-in-the-box.

Eu acho que arrumar mala não é de Deus. É o início de um ritual sempre doloroso. Sempre.

O vazio da sala de espera lotada será meu lugar. As inevitáveis reflexões sobre como resolver os problemas pendentes tomarão conta, aproveitando-se daquela paz insuportável da ausência das mil perguntas infantis, metralhadas sem pena em direção ao pai oráculo. Na chamada para o embarque, a minha espera será no fim da fila, sem prioridade alguma, porque as prioridades do mundo ficarão do lado de fora. Provavelmente sentada ao lado da mulher que ronca, a solidão do avião será distraída pelo MP3 que rola músicas escolhidas a dedo e que precisará ser monitorado para não tocar aquelas que lembram quem ficou. Todas lembrarão. Desligar o MP3 então. Dormir. Não adiantará. No sonho virá o sonho realizado de ter uma família bonita, feliz. É. Sou inescapável ao amor da minha família. Ele me pega onde quer que eu esteja. Daí a metáfora: meu ar.

Pousarei sem repouso. Chegarei sem ter de esperar os mil volumes. Irei embora direto. Irei para uma casa que, momentaneamente, terá revogada a sua licença de lar, porque lhe faltará o essencial para sê-lo. E arrumarei a mala de novo, para viajar a trabalho.

“Oi, pai. Te amo!”, dirá a voz ao telefone, rasgando um pai saudoso do beijo, do cheiro, do carinho, que não couberam na mala. São grandes demais dentro de pessoinhas pequenas. Saudade dói, contrai os músculos, dá tontura. Eu sei. “Aos olhos da saudade como o mundo é pequeno!”, já dizia Baudelaire. “Saudade é nossa alma, dizendo pra onde ela quer voltar”, me lembra o Rubem Alves.

Não, não dá para pôr amor em malas. Mas, paradoxos dos paradoxos, um amor do “tamanho do universo, das estrelas e do mar”, como dizem as minhas pequenas, cabe num velho coração de pai, cada vez mais sensível com o tempo, cada dia mais amolengado pelo martelo da vida, cada dia mais sereno nas suas escolhas.

Amores e malas. Definitivamente não combinam. E eu ia esquecendo o nécessaire aqui. É o inconsciente querendo que eu fique aqui, nesse lugar de onde nunca sairei, nos amores dos meus amores. Mesmo que meu corpo esteja a centenas de milhas daqui. Mesmo quando eu não estiver mais aqui.

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5 comentários em “Amores e malas

    madeinmanaus disse:
    11/07/2011 às 14:17

    Ler esse texto a 10mil km longe de casa é de dar nó na garganta. Serginho sempre conseguindo colocar no papel aquilo que muitos têm no coração. Sou tua fã! 😉

    Sandra Toda disse:
    11/07/2011 às 16:29

    Nossa Sergio, esse fim de semana vc aloprou, credo não para mais de chorar??? Todos seus textos estão sendo socos na boca do estômago….

    Helena Freire disse:
    12/07/2011 às 08:28

    Lindooooooo……..

    sheila figueiredo disse:
    14/07/2011 às 22:53

    Sempre me sinto em casa quando leio algo que escreves. Continuas sendo meu colírio intelectual, embora tu nem saibas.

    Elizabeth disse:
    17/07/2011 às 17:52

    Um ambiente propício, que nos atraia, nos prenda,um espaço com cara de Lar, pessoas que nos cerquem ,com energia de família,é a
    coluna que sustentaria nossa sociedade,está aí o remédio que todos procuram em consultórios, nas drogas e consequentemente nas clínicas de recuperação.
    Existem pessoas que tem casas para morar e outras que sentem e vivem um lar!!!!!!!!!
    Muito lindo!!!!!!!!

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