Mãe

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[No aniversário de minha mãe, Dona Helena, um texto que escrevi para ela em 2004]

Dona HelenaQuero falar de dona Helena.  Dona Helena aprendeu a dividir felicidades e misérias pelas durezas da vida. Esse dividir nunca foi um dividir negativo, mas um dividir-compartilhar, da divisão que soma, em uma lógica de amor que subverte a aritmética. Ela aprendeu a dar o pouco que tinha e até o que não tinha como forma de mostrar que de dois faz-se quatro, de quatro faz-se oito e de oito faz-se oitenta, exercitando em frações um amor por inteiro.

Dona Helena aprendeu que a vida é um jogo entre o que queremos e o que podemos, temperado com o que ousamos. Encantou-se e casou-se com um botafoguense chamado Jefferson. Com ele educou seus cinco filhos. Eu sou um deles. Dona Helena é minha mãe.

À minha mãe devo tudo, a começar pela vida. É evidente, mas mascarado por sua evidência, esse é um fato de uma beleza estonteante. Como o nascer do sol. Deu-me à luz, mas ninguém é mãe só porque põe no mundo. Ela sabe disso. Mãe não é categoria biológica, mas concretude afetiva.

Minha mãe me ensinou muitas coisas. Ela ensinou autoridade sem violência, compaixão sem assistencialismo, vitórias sem humilhações, derrotas como lições. Aprendi com ela que a relação entre mãe e filho pode ser de igual para igual sem que se perca o respeito. Antes uma palavra indignada do que o silêncio engasgado que mata por asfixia tantas famílias. Minha mãe ensinou a discordar sem agredir. Ensinou a brigar sem machucar, a viver socialmente sem morrer moralmente.

No sue aniversário, quero tornar pública minha gratidão por tudo que recebi dessa mulher que sempre soube virar o jogo da vida. Que soube a hora de estudar e arrancar para uma vida melhor com sua cria, através de esforços hercúleos e de uma sabedoria comparável àquela dos filósofos gregos, sugestivamente chamada de helênica.

Lembro de quando nos despedimos quando fui para Campinas estudar. Malas feitas, um beijo, uma benção, um vá com Deus. Esqueço algo e volto. Na passagem para o quarto, vejo pela porta entreaberta da cozinha minha mãe, na cadeira de macarrão do pátio da casa da rua três, olhinhos miudinhos, chorando feito um bebê. Chorando feito uma mãe. Quase que eu fico. Mas ela ficaria desapontada. Sempre disse que sonhos se sonham e se buscam. E que ela estaria sempre ali para ajudar. Por isso ela foi chorar escondido. Acabei indo, não sem antes lhe dar um beijo encharcado de amor e receber um outro com mais amor ainda. Deixei para chorar no avião.

Inevitável voltar ao passado: mãezinha querida, “do avental todo sujo de ovo”, se pudesse, buscava outra vez, mamãe, “começar tudo, tudo de novo”. Te amo. Sua benção, coisa fofa. E feliz aniversário.

PS: Mãe, desculpa por aquele ovo frito com gema mole feito com tanto carinho que eu, na rispidez da minha adolescência, não quis. Sei que minha entrada no céu depende desse perdão.

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2 comentários em “Mãe

    Ronney disse:
    21/09/2009 às 17:43

    Permita que eu diga que a Helena é tudo isso e bem mais, pois foi pela VIDA plena e maiúscula que construiu, adotando uns de nós, seus alunos, meio filhos, muito amigos. Helena com aquela força da mulher de nossa terra, com a aura e a beleza do nome que tão bem a define. Um beijo e meu carinho e admiração, sempre.

    Cyane Lima disse:
    23/09/2009 às 14:15

    Sérgio querido,

    Adorei o texto que escrevestes para tua mãe, é muito lindo! D. Helena é realmente especial, sinto saudades. Diga-lhe que mando muitos beijos.

    Um grande abraço,

    Cyane Lima

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