Discurso de formatura 2010

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Pelo protocolo, cabe ao diretor de Unidade fazer um discurso. Etimologicamente discurso vem da palavra latina cursum (curso, carreira, corrida), junto ao prefixo dis, que indica, divisão de um todo em partes. Discurso significa dividir um todo e discorrer sobre uma determinada parte desse todo. Por isso os discursos são diferentes: porque recortam e escolhem assuntos diversos para abordarem.

Faço essa introdução para apresentar o recorte deste meu discurso. Escolhi, dentre vários assuntos que poderiam lhes ser importantes nesse momento simbólico de dobra na vida de vocês, dois recortes: um mais racional, ligado à objetividade da academia e da formação que lhe acompanha. Outro, fundamentalmente emocional, relativo à humanidade que ultrapassa cada profissional que hoje se forma e atinge de maneira muito direta o ser humano que lhe dá concretude.

A mensagem racional é bem direta. Vivemos em uma era de redes sociais, em uma sociedade que se organiza em torno da informação. O problema de hoje, diferente do de algumas décadas, não é o acesso à informação, mas a competência para não se afogar nesse volume de informação que se nos apresenta todos os dias das mais variadas formas. O diferencial do profissional ativo hoje é saber separar a informação relevante das irrelevantes e dela fazer uso significativo para a sociedade. Isso se chama de competência. E são cinco as competências de um profissional, independe de sua área de atuação.

A primeira delas é a competência teórica. Não se avança profissionalmente se não conhecemos os conceitos e a agenda de nossa área. Conhecer a área, buscar a atualização constante, o upgrade de conhecimento é uma competência fundamental para o bom profissional. E essa busca, queridos formandos, não termina hoje. Começa hoje.

Não basta saber sobre algo se não usarmos esse conhecimento para alterarmos a realidade. Daí a necessidade da competência aplicada. A competência aplicada é o uso social do conhecimento teórico que se possui. Conhecimento que não tem fim social é conhecimento morto, de nada serve.

Saber e saber usar o saber também de nada adiantam se o sujeito não compreender que o mundo é feito de regras. Cada lugar por onde passamos e onde vivemos tem sua ordem de discurso e de funcionamento. A família, as relações sociais, as relações afetivas. Tudo tem regras, limites e, claro, possibilidades de transgressões. Aprender a usar o conhecimento que se tem dentro das regras do jogo é o que faz a diferença entre os profissionais de hoje. Competente é aquele profissional que entende que até para alterar as regras tem de fazê-lo dentro das regras vigentes. A isso, chamo de competência institucional.

Como todas as instituições e relações têm suas regras, assim também acontece com a língua. Este discurso se atém a regras de linguagem diferentes daquelas que usamos na mesa de um bar, ou numa conversa que travamos com nossos amigos na cantina do ICHL. A competência linguística, a quarta que lhes apresento, é fundamental para o profissional que se quer diferente. Isso significa fazer-se poliglota na própria língua.

E a última competência, meus caros formandos, é uma competência sem a qual as outras quatro se desfazem, se embrutecem. Trata-se da competência de saber, de saber aplicar, de saber aplicar dentro das regras, de saber aplicar dentro das regras com a linguagem apropriada sem esquecer, esse é seu cerne, de que tudo isso se faz entre pessoas. É preciso ter competência afetiva. Gostar das pessoas, respeitá-las nas suas diferenças, nas suas especificidades. É preciso lembrar, antes de qualquer coisa, que é o humanismo – que tem sido perdido por uma série de demandas, entre elas a econômica e o individualismo – é o que alicerça o tecido social. Sem a sensibilidade social, meus amigos, joguem este diploma que vocês receberam na primeira lata do lixo que encontrarem. É preciso gostar de gente. Porque nós somos gente. E com isso faço a ponte para finalizar com o segundo recorte, mais emocional.

Vocês hoje fecham um ciclo. Um ciclo de formação, mas, antes disso, um ciclo de convivência, de amizades, de sorrisos, de angústias. Um ciclo em que vocês riram, choraram, amaram, odiaram, vacilaram, falharam, escolheram, venceram. E que não ocorreu com vocês sozinhos, mas em compartilhamento com seus colegas e professores que aqui se encontram ou não, por mil motivos que as bifurcações da vida nos trazem.

É hora, meus amigos, de recordar. Recordar, desculpem o cacoete de linguista, é etimologicamente passar de novo pelo coração. Só recorda, só lembra, quem está cheio de memórias, quem viveu, quem transborda de saudade. Porque, não nos enganemos, a linguagem pode ser muitas coisas. Há mil faces ocultas sob a face neutra, como dizia Drummond. E a palavra saudade, normalmente associada com perda e tristeza, pode ser igualmente associada com ganho e alegria. Saudade é a presença de uma ausência presente. De algo que se foi e, engraçado, nunca se deixou ir por completo. A saudade é a máquina do tempo que nos permite ir até onde já estivemos para viver o que ainda nos habita a alma.  Por isso sentimos saudades do nosso pai, da nossa mãe, dos nossos amigos, enfim, dos nossos que não estão aqui, mas que, como entrega o pronome, são “nossos”, nos pertencem para sempre.

Foi a saudade de Camões, vivida n’OS Lusíadas, que revigorou o espírito coletivo de sua gente fazendo Portugal se reerguer. Foi a saudade do Brasil que fez com que José Bonifácio renunciasse as vantagens que lhe foram oferecidas pela Europa e viesse a ser o grande organizador do estado  brasileiro. Foi a saudade do Brasil que inspirou Gonçalves Dias a escrever no exílio os brasileiríssimos versos em “Minha terra tem Palmeiras. Sem a saudade do tempo de sua meninice, vivida em torno da casa-grande, teria sido impossível a José Lins do Rego escrever sua tão viva obra. E viva porque feita de saudade.

Por isso, invoco para que todos vocês sintam saudade. Ela, de hoje por diante, agirá como um cordão umbilical que os manterá vivos e presentes, lhes alimentando a alma, embora estejam agora fisicamente ausentes deste espaço e distante dessas almas amigas que lhes acompanharam por tanto tempo.

Diz a sabedoria popular que conselho não se dá. Mas eu vou dar mesmo assim, assumindo os riscos de ser ignorado, dada a ansiedade pelo fim da cerimônia: se cerquem de criatividade e inovação. Que as dúvidas no exercício da profissão sejam banidas pela presença de um passado específico, cheio de lições de saudade, lições das quais vocês mesmos foram atores principais.

Com o exercício das competências e muita saudade, sejam felizes. “Cada ser em si possui o dom de ser capaz de ser feliz”. Tornem o mundo melhor.  Tenho certeza que vocês, como eu, se lembrarão dos anos de faculdade como os melhores anos de suas vidas. Que Deus lhes abençoe, sucesso e saudades. Obrigado.

2 comentários em “Discurso de formatura 2010

    Raphael Cortezão disse:
    08/02/2010 às 10:14

    Parabéns pelo belíssimo discurso, professor! Para mim, que passei quase dois anos lutando contra minha indisposição, ainda que provocada, em obedeçer minha vontade, foi muito bom ouvir palavras tão humanas como “invoco para que todos vocês sintam saudade”. Não se passou um dia da minha vida após a entrada na universidade, profissional e pessoal, que eu não lembrasse de algo, por mais fútil que seja, que vivi e aprendi nessa casa do saber. As lembranças se renovam a cada dia, e agora ainda mais, pois suas palavras resumiram, de forma simples, meu sentimento de saudade: “Saudade é a presença de uma ausência presente”.

    Grande abraço!

    Socorro Pereira disse:
    13/02/2010 às 22:30

    Bravo, prof. Sérgio. Ao ler a sua humanissima mensagem aos concludentes do curso de letras, me
    emocionei, acredite, eu que há precisos trinta anos,
    saí do velho ICHL da Emilio Moreira, na época em que quando fazia muito calor – pois as salas não eram climatizadas – íamos para debaixo da velha jaqueira, para assistir aula com o ventinho de uma hora da tarde, sob um sol abrasador. Mas, a essencia da sua fala, me remeteu à saudade da cum
    plicidade e das vivencias que tivemos , nós alunos
    e professores como o Babá Bessa, que me ajudou tantas vezes e com quem compartilhamos momentos de embate, de alegria, de sinceridade e,
    acima de tudo, de respeito às nossas diferenças. Fico feliz em saber da sua postura ante seus alunos. Parabéns, pelo discurso pertinente – que não é o da Marilena Chauí – mas é competente
    quando aborda as competencias estruturadas em
    muito humanismo. Continue assim.
    profa. Socorro Pereira
    ex-Depto.de Comunicação Social / ICHL
    Agora fora do campus da UFAM e aqui fora
    em outros campos de atividades.

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