Yin Yang

Postado em Atualizado em

Em que espaço você se encontra?

Trabalho com educação. Vivo isso desde que me entendo por gente. Meus pais e boa parte da minha família são professores. Aprendi a perceber a importância da ensino formal ao acompanhar minha mãe, à noite, alfabetizando adultos na escola pública, no projeto Tele-Sala. Menino descobrindo o mundo, ali concluí que se aquelas pessoas, cansadas após um dia de trabalho intenso, estavam na sala de aula para aprender algo é porque a educação devia ser muito importante. E orgulhava-me muito de ver minha mãe sendo parte fundamental no processo.

Meu pai e seus diários impecáveis me seduziam. Sua linda letra lançando matérias lecionadas naquele caderno comprido desenharam um convite para que eu também fizesse aquilo. O que é irônico, pois essa é a parte de que menos gosto hoje: preencher diários e toda a papelada que necessariamente acompanha o processo institucional da educação.

Mas meus velhos não me conduziram somente para o magistério e a educação formal. Eles me deram educação informal e assistemática, que é o que se deseja de uma família. Mostraram-me os meus cabeças brancas que na vida há um princípio do qual não se pode abrir mão: o de se querer bem e de se fazer bem ao próximo. Fizeram-me entender, sem nunca ter dado sermão sobre isso, que as pessoas que nos encontram devem sair melhores do que estavam quando chegaram até nós. O princípio do bem. É a melhor herança que recebi e que quero deixar para minhas duas meninas que principiam a vida.

Como ser humano, falho, erro. Mas a meta é acertar, sem abrir mão do princípio de fazer o bem, de querer bem. Algo que faço pode até machucar ou afetar negativamente uma ou outra pessoa, mas por princípio posso garantir que isso se deu como consequência de uma decisão que buscou beneficiar mais gente do que eventualmente prejudicou.

Isso tudo é muito bom e me faz alguém feliz. Feliz por saber que faço parte da turma que torce pelo Tarzan na luta contra o jacaré, que não me divirto com o circo em chamas e que apesar de não me chamar Raimundo me importo com o mundo.  No entanto, quem é assim inevitavelmente sofre vez por outra porque suas ações são lidas de forma diferenciada por quem não é. Sei do que falo porque essa é minha área de estudo: o sentido. Mas saber como se faz não diminui a tristeza real da constatação. A vida não se encerra na teoria.

Há pessoas más. Deliberadamente más. Mesquinhas. Pequenas na alma. Gente que busca voluntariamente o mal, a desgraça do outro. Pessoas que planejam cuidadosamente seus atos nocivos. Que brindam com Tarzan, mas colocam algo em seu copo para vê-lo ser dilacerado pelo jacaré. Há pessoas maledicentes, que dão tapinhas com uma mão e estocadas com a outra. Envenenam quem invejam, por pura incompetência, por caráter fedorento ou pela combinação das duas coisas. Pessoas que são incapazes de reconhecer méritos alheios porque concentram suas forças em estratégias ardilosas em vez de buscar os méritos que tanto lhes agonia nos outros.  Pessoas que fazem mal simplesmente com o bafo de sua presença, com o seu olhar aziago. Pessoas mal ou nada amadas, cujas vidas vazias se preenchem e se alimentam da felicidade alheia, não para dela compartilhar, mas para anulá-la sempre que possível. Pessoas amargas, que andam com creme de bílis a espalhar sobre os bolos das festas do mundo, portando seus risos infaustos que cospem perdigotos tétricos.

Tenho cruzado com algumas dessas pessoas. Não lhes tenho permitido que me antinjam, apesar de não perderem a chance de tentar. Mas confesso que ontem acusei o golpe. E me bateu uma tristeza que me abateu. Não por elas, pois, como diz o poeta, cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz. Se não o são, problema de suas escolhas. Mas porque amo minhas duas filhas e este mundo em cujo trem subiram faz pouco tempo está cheio de gente assim nos vagões. Virou a regra. E elas vão ter que aprender a lidar com a falta de ética, com a ausência de caráter e de palavra, com amizades pragmáticas e com pessoas que se utilizam de forma torpe da inocência ou do bom caráter alheios. É assim.

Tomara Deus que eu tenha a capacidade de deixar de presente para minhas crianças a possibilidade de dizer: meu pai era um cara bom, íntegro, honesto, que só fazia o bem. Tomara. Quem sabe a esperança dos seus sorrisos orgulhosos devolva parte da fé na humanidade que se foi em algumas lágrimas silenciosas, mas dolorosas, que um menino de quarenta anos, constatando desiludido que o mal existe, derramou no colo de sua mãe ontem.

Anúncios

8 comentários em “Yin Yang

    Neyruska disse:
    19/08/2009 às 10:24

    Belo texto professor!

    Tenho certeza que suas filhas só dirão coisas boas sobre você. Se você educou os olhos e os ouvidos para o princípio do bem (como disse) eles saberão lidar com essas pessoas e passarão o bem adiante…educação realmente vem de casa.

    Tatiane disse:
    19/08/2009 às 12:08

    É…uma hora ou outra as “pessoas do bem” passam por isso. Uma vez o pai de uma amiga, o bom e sábio Juan, me atentou: “Não é você quem está errada, são os outros!”

    Edilene Mafra disse:
    20/08/2009 às 09:12

    Professor,
    Acho que todos nós nos sentimos assim em algum momento.
    Lembro que em uma crise de desilusão que me abateu, uma pessoa bem simples que encontrei no caminho disse que “eles” podem arrancar uma rosa mas que não conseguirão exterminar todas as rosas do planeta.
    A pessoa ainda completou afirmando que quando fazemos por merecer, “essas pessoas” podem até fazer com que a nossa estrada seja mais longa e/ou que acreditemos que é o fim da linha diante da imensidão do oceano. Mas quando a vitória é certa, as paredes viram mar.
    Um ótimo dia!!!!
    Edilene

    Luís Mansuêto disse:
    20/08/2009 às 10:02

    Belo texto. Nos faz reflextir sobre a vida e o que fazemos dela!! Quando eu crescer quero escrever igual a você !!

    Céu disse:
    20/08/2009 às 21:24

    Ei Velho, q melancolia!!! A gente não pode deixar q o cheiro podre dos outros nos sufoquem… é dar muito poder a quem não o tem.
    Bj

    Edna Carvalho disse:
    20/08/2009 às 21:55

    Eterno subsecretário de educação Sérgio Freire,

    Tenho crescido constantemente com os textos que me são encaminhados. Posso afirmar-lhe que entre tantos, este parece dizer com suas sábias palavras o que tendo repassar, ao meu modo, para o mundo!
    Valores familiares, respeito, amor a profissão, tentar acertar mesmo que as vezes errando, dar o melhor de si para as pessoas e especialmente para os filhos, são desafios e princípios de pessoas com nobreza na alma, no coração, que buscam o BEM!
    Ah! ” Se todos fossem iguais a você,
    que maravilha VIVER!”
    Abração,
    Edna Carvalho

    Ecila disse:
    21/08/2009 às 00:12

    “Não te irrites, por mais que te fizerem…
    Estuda, a frio, o coração alheio.
    Farás, assim, do mal que eles te querem,
    Teu mais amável e sutil recreio…”

    Mário Quintana

    Mayara disse:
    21/08/2009 às 20:59

    Muito bacana, professor.
    Estou passando por uma fase parecida com a exposta no texto. Desilusão! Sou obrigada a acreditar num mundo não feito apenas de boas pessoas. Graças a Deus, tive o privilégio de ter nascido em uma verdadeira família, na qual a minha educação foi baseada em bons e verdadeiros princípios. Isto muito me orgulha e me dá forças para continuar trilhando meu caminho.
    Um grande beijo!
    Sempre muito bom ler seus textos… 🙂

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s